Episódios de Demissão Impossível

Apagão, energético e político

03 de maio de 202652min
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Neste episódio o trio do Demissão Impossível relembra o apagão de há um ano, com a ajuda de Samuel Ramos Pina. É uma conversa do que foi feito ao que ficou ou está por fazer.

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Participantes neste episódio2
G

Guilherme Lidão Guerra

HostJornalista
D

Daniela Cunha

Co-host
Assuntos8
  • Apagão Ibérico de 2025Causas técnicas do colapso do sistema elétrico · Falta de inércia na rede devido a energias renováveis · Comportamento capacitivo das linhas de alta tensão · Subtensão e desligamento de centrais de produção · Relatório da ENSOE sobre o apagão
  • Comunicação de Crise e Preparação da PopulaçãoFalhas na comunicação governamental durante o apagão · Importância da rádio como meio de comunicação de emergência · Necessidade de diretrizes claras para gestão de crises · Criação do CORGOV (Centro de Operações e Resposta do Governo) · Sensibilização da população para catástrofes
  • Infraestrutura EnergéticaNecessidade de investimento em redes de média e baixa tensão · Debate sobre a privatização da REN · Importância de sistemas de autonomia em infraestruturas críticas · Tecnologia para estabilidade da rede (compensadores síncronos, bancos de baterias)
  • Regresso de Pedro Nuno Santos à PolíticaCríticas aos 'taticistas' do Partido Socialista · Reações de outros políticos socialistas · Potencial de Pedro Nuno Santos em criar um movimento à esquerda · Comparação com Melenchon
  • Crise no Alojamento EstudantilBaixa conclusão de camas previstas no PNAES · Camas concluídas mas não utilizadas (ex: Beja) · Impacto do fim do PRR nas obras · Urgência de resolver a pressão habitacional em Lisboa
  • Saída dos Emirados Árabes da OPEPRotura geopolítica no mercado energético · Justificativa de interesses nacionais · OPEP como cartel para limitar produção e sustentar preços · Tensões no Médio Oriente
  • Consumo energético e eficiênciaDiferença entre consumo de energia primário e secundário · Domínio do setor de transportes no consumo secundário · Crescimento das energias renováveis
  • Roda Bota SolPreferência por energia eólica · Preferência por energia hídrica · Preferência por eficiência energética
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Sejam bem-vindos ao Demissão Impossível, o programa onde eu, Guilherme Lidão Guerra, a Daniela Cunha e o Gonçalo Azorio de Castro analisamos o que se passa na política nacional e às vezes internacional.

Hoje voltamos sensivelmente a um ano atrás, ao dia 28 de abril de 2025, quando a partir das 11h33 da manhã a Península Ibérica ficou às escuras. Das conspirações russas, passando pelos rádios de pilhas e geradores de combustível, tivemos mais presente do que nunca a nossa dependência da eletricidade em quase tudo o que fazemos. Ora, em março deste ano foi publicado pela ENSOE, uma organização europeia, o relatório desse mesmo pagão.

E neste episódio analisamos o que aconteceu e que passos têm de ser feitos para que não volte a acontecer. Para isso temos connosco um convidado, Samuel Ramos de Pina. Mas antes, vamos aos temas quentes da semana.

Gonçalo. Sim, olá aos ouvintes. O meu tema quente desta semana tem a ver com estudantes universitários, como não podia deixar de ser, eu sendo dirigente associativo, e hoje venho falar do facto de apenas 20% das 18 mil camas para estudantes que estão previstas estarem efetivamente concluídas. Como todos sabemos, há uns anos foi anunciado o PNAES, o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior. Na altura tinha cerca de 15 mil camas, se não estou em erro.

E, entretanto, foi sofrendo vários reforços. Agora com o PRR também houve aqui um boost de financiamento. Mas a verdade é que destas 18 mil camas, apenas 20% estão concluídas. Isto representa, no final de fevereiro, e também os reportes demoram um bocado a sair, já sabemos como é que funciona Portugal, só havia 3.744 camas concluídas.

Pior, há camas destas que estão concluídas, mas que não estão a ser utilizadas. Um dos exemplos é o caso das 500 camas na residência do Instituto Politécnico de Beja, que foi inaugurada em setembro pelo Primeiro-Ministro e pelo Ministro da Educação, mas que neste momento não tem nenhum estudante a lá viver. Para além disto, eu vou falar também um bocado da minha realidade, que é a realidade da Universidade de Lisboa.

que tem uma preocupação relativamente acrescida, porque muitos destes projetos que foram sendo construídos eram financiados pelo PRR, como eu já disse, e o PRR vai terminar em 2026. Agora pode haver uma espécie de mini-reprogramação para setembro, mas ninguém sabe bem como é que isso vai ficar. E muitas das obras não estão ainda terminadas, e com as obras a derraparem, houve muitos atrasos por causa da questão das tempestades, etc.

E, portanto, com as obras a terminarem, há efetivamente residências que estão em risco de não serem completadas. Uma dessas é uma residência onde ficava a antiga Cantina 2 do Universidade de Lisboa, que serviria 200 novas camas para os estudantes do Universidade de Lisboa, que é ainda um número significativo. E, portanto, acima de tudo, a nota que eu quero deixar é construa-se, porque se isso já é urgente, agora ainda mais urgente é que eu termine do PRR.

e sabemos que Lisboa é a cidade mais afetada pela questão da pressão habitacional e é urgente que este problema se resolva. Sim, acima de tudo não deixar as coisas a meio, não é? Apesar do PRR estar a meses de acabar e o que interessa para as metas do PRR, como já referimos uma vez neste programa, são as obras terminadas e não as obras adjudicadas e houve provavelmente algumas obras como algumas residências que foram talvez retiradas nos últimos ajustes que se fizeram para se poder cumprir com algumas metas.

se foi submetida a uma proposta de reprogramação e nessa proposta de reprogramação foi introduzido um conceito, que é o conceito de conclusão substancial. E o objetivo é que isso validasse projetos que ainda não estão totalmente operacionais, mas assim garantindo a sua continuidade. Os advogados salvam-nos, não é, nestas coisas, com estas figuras jurídicas. Exatamente. Daniel, o que é que nos traz hoje?

Sim, o meu tema quente hoje é um tema que eu acho que se nós não falarmos perdemos a nossa licença de podcast, portanto é o regresso de Pedro Nunes Santos à política ativa, retomou o mandato de deputado.

e não foi discreto nessa retoma. Fez declarações à imprensa, onde criticou aquilo que ele chama dos taticistas do Partido Socialista, e onde diz que tem muito mais respeito por José Luís Carneiro do que por estes que estão à espera de tempos mais fáceis no PS.

para avançar. E toda a gente mordeu o isque, não é? Portanto, o Pedro Nuno Santos não é nada indiferente, quer dentro, quer fora do Partido Socialista. Mariana Vieira da Silva reagiu, Fernando Medina, o próprio Duarte Cordeiro, que era considerado um dos alvos principais. Ele próprio diz que Pedro Nuno Santos falhou o alvo. Mas há quem diga, e eu também concordo, que o alvo não era só o Duarte Cordeiro, era também Fernando Medina, Mário Centeno, Ana Catarina Mendes, nomes que também se falaram.

que poderiam estar a tentar concorrer à liderança do Partido Socialista após a ida de António Costa para o Conselho Europeu e que acabaram por não o fazer, por adivinharem que vinham aí tempos difíceis onde o Partido Socialista estaria na oposição. Claro que o nome de Duarte Cordeiro acabou por ser mais falado porque isto também vem no seguimento de...

de Eduardo Cordeiro querer ficar de fora da Comissão Política Nacional de José Luís Carneiro. E não só houve reações dentro do Partido Socialista, também houve uma positiva. Álvaro Beleza elogiou a lealdade de Pedro Nuno Santos a José Luís Carneiro. Como à direita os comentadores também vieram...

dar a entender que Pedro Nuno Santos quer é criar um movimento à esquerda do Partido Socialista, uma espécie de Portugal em submisso, ser Francisco Mendes da Silva, até falou do Melanchon. E eu acho que isto é a prova de que a morte política de Pedro Nuno Santos foi, as notícias foram manifestamente exageradas, porque apenas com uma pequena declaração e um regresso à última fila do Parlamento gerou todo este burburinho.

Agora, a questão que eu acho que estamos todos muito preocupados, todos, quer dizer, os comentadores e nós aqui a comentar, e eu, com o futuro de Pedro Nuno Santos, afinal, o que é que Pedro Nuno Santos quer. E eu acho que, por vezes, mais do que estarmos politicamente a tentar perceber...

quais são os objetivos de Pedro Nuno Santos andamos nesta trica partidária e eu acho que o mais interessante para mim será ver se ele vai manter o registro moderado que tentou ensaiar na liderança do PS e claramente não resultou, parecia que tinham raptado o verdadeiro e substituído por uma cópia ou se vai voltar, como parece a mim, ao estilo combativo e acho que não será de excluir termos Pedro Nuno Santos em breve no comentário televisivo

a dar aqui para mim fica aqui o convite feito a Pedro Nuno Santos para vir ao Demissão Impossível Pedro Nuno está-se convidado

Quem já me ouviu falar de Pedro Nunes sabe que sou pelo menos uma admiradora do estilo. Posso não concordar com toda a ação, mas acho que este estilo combativo é importante. Mas do mesmo lado que Pedro Nunes Santos recebe este género de elogios por ser combativo, por ser até em algumas formas disruptivo, tem o mesmo nível, eu acho, de desconfiança.

e antipatia, por isso acho que poderá ser um pouco difícil lançar alguma coisa. Mas como o mundo avança neste momento muito rapidamente e há movimentos que se vão criando internacionalmente até um bocadinho fora desta lógica de centro-direita, centro-esquerda,

Talvez possa estar aqui. Eu acho que Pedro Nunes Santos é muito ambicioso e, portanto, não acreditei que ele voltasse só a São João da Madeira à fábrica e se limitasse a fazer comentários no Twitter, o que é também uma atividade que eu também valorizo. Mas...

Acho mesmo que poderá estar aqui alguma coisa. Sinto que também à direita o querem empurrar para isso, para fragmentar um bocadinho mais a esquerda. Francisco Mendes de Sele falava das marcas que já estavam ultrapassadas e seria preciso uma marca nova. Mas eu acho muito interessante.

regresso e acho que apesar de poder não ter sido o timing para as declarações, Pedro Nuno Santos acertou, porque este taticismo existiu mesmo e na realidade a única pessoa com coragem para avançar e para se manter neste momento difícil, para além do próprio Pedro Nuno inicialmente, foi mesmo José Luis Carneiro e portanto acho que também é de elogiar José Luis Carneiro nesse sentido

Eu acho que acaba por ser um pouco mais fumo do que fogo, Gonçalo. Eu acho que há dois pontos de vista aqui. Em primeiro lugar, o ponto de vista da decisão da atuação de Pedro Nuno Santos. Eu acho que Pedro Nuno Santos, e perdoem-me, eu nunca fui um apoiante de Pedro Nuno, mas Pedro Nuno decide voltar ao Parlamento porque nunca fez mais nada sem ser estado no Parlamento. Saberá fazer sapatos também.

Não me parece, mas voltou ao sítio onde está confortável. E tudo bem com isso, mas não me parece que haja um metaticismo por trás. Depois, em segundo lugar, há aqui outra perspectiva que importa analisar, que é a crítica que ele faz. E aí ele tem toda a razão. Pessoas como Duarte Cordeiro, pessoas como Fernando Medina...

estão a fazer um chamado caminho das pedras artificial. Puseram-se de fora artificialmente para agora se afastarem. E o próprio Eduardo Cordeiro assumiu isso, não quer ficar associado a esta forma de fazer oposição de José Lís Carneiro. A mim parece-me que é, acima de tudo, uma má postura política, no sentido é que é o partido em que sempre militaram, nunca se afastaram, e agora que o partido é que está a passar o caminho das pedras, decidiram afastar-se.

Pois se todos concorrêssemos com perspetivas de ganhar, não teríamos o Presidente da República que temos hoje. E aproveito esta deixa para passar ao meu tema quente. E agora mais à frente vamos falar do apagão. E eu agora falo-vos da saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP. A OPEP foi uma organização criada em 1960, portanto a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

Reúne países como a Argélia, Angola, o Congo, Gabão, Irã, Venezuela, a Arábia Saudita, entre outros. Este último é muito importante. A Arábia Saudita é o principal exportador de petróleo desta organização e é quem, digamos assim, controla quase a organização. E agora passa a ter menos um membro.

porque após mais de seis décadas, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a sua saída. Num movimento que sinalizou uma rotura geopolítica, a meu ver, porque vem numa circunstância também muito curiosa, quase teatral, mas é também uma mudança no mercado energético global. Eles dizem que surge do contexto desta crise, no Golfo Pérsico, com as perturbações no Estreito de Hormuz e a elevada volatilidade da oferta e do preço.

e justificou com interesses nacionais. Portanto, o essencial é que a OPEP funciona como uma espécie de cartel que limita a produção para sustentar os preços. E é algo que mantém mais ou menos o preço do petróleo num nível mais ou menos volátil, mas mais constante do que volátil.

E, portanto, o que eu queria retirar daqui é uma dimensão geopolítica, alguma rotura com a Arábia Saudita, e que coloca aqui mais alguma divisão, alguma tensão no Médio Oriente, que já está, digamos assim, quase a reventar pelas costuras.

Vamos então àquilo que nos traz. Hoje temos connosco Samuel Ramos de Pina. Muito obrigado por teres aceito o nosso convite. Obrigado. Nascido em 1995, formado em Engenharia Eletrotécnica no Técnico, com especialização em Energia, fez a tese na EDP Distribuição, hoje é Redes, em 2018-2019, sobre o estado da rede de alta e média tensão. E passou também pela REN.

Nós hoje falamos de um tema, o tema da energia, aquilo que aconteceu a 28 de abril de 2025, que cada vez que tento ouvir aquilo que aconteceu, ler os relatórios, ouvir podcasts sobre este tema, costumo-me perder no meio do palavreado técnico. E, portanto, talvez, e parafraseando Pedro Sanches, traduz-nos...

O que é que aconteceu efetivamente no dia 28 de abril de 2025? Ok. Antes de mais, obrigado pelo vosso convite. É um gosto de estar aqui convosco. E, pá, muitos parabéns por este programa, que é bom ter uma alta assim jovem a falar sobre estes temas. Bem, o que é que aconteceu? Vamos tentar aqui...

traduzir isto para termos mais leigos. Praticamente tivemos um apagão. O que é que aconteceu? O sistema colapsou. Porquê? Para dar um bocadinho de contexto, como é que aconteceu o nosso sistema elétrico? No sistema elétrico nós temos que ter sempre produção e consumo iguais. Ou seja...

O exemplo que eu dou é, por exemplo, vamos expor que é um ciclista que está a subir uma montanha. E nós queremos que o ciclista esteja sempre à mesma velocidade. Que, neste caso, é a analogia para a frequência da rede, que são 50 Hz. O que é que acontece? Neste caso, a força do ciclista nas pernas é a produção e a força da gravidade que o puxa para baixo é o consumo. O que é que acontece? Se ele pedalar mais rápido do que a força que o está a puxar para baixo, ele acelera. Não queremos isso. Só o contrário.

por algum motivo a força da gravidade aumentar ou ele começar a pedalar menos, ele desacelera. E não queremos isso também. Portanto, nós queremos que sempre caja esta estabilidade na frequência. O que é que aconteceu? Logo nos dias a seguir, foi muito fácil perceber que tinha acontecido alguma coisa estranha porque desapareceram do nada 2.5 gigawatts de produção em Espanha. E daí para a frente é relativamente fácil, do ponto de vista técnico, perceber o que é que aconteceu.

Pegando neste exemplo, do nada o ciclista perdeu 2.5 gigawatts de força nas pernas e, portanto, desacelerou tanto que o sistema caiu. O ciclista foi para lá abaixo. Nisto, só para dar um contexto, o que é que são 2.5 gigawatts? Portugal estava, nessa altura, a produzir qualquer coisa entre 7 e 8 gigawatts. Portanto, mais ou menos 30% daquilo que se consome em Portugal, mais ou menos 8 a 10% daquilo que se estava a consumir em Espanha naquela altura.

E, portanto, o que aconteceu foi desaparecer essa produção, a frequência da rede caiu, caiu tanto e tão rápido que não permitiu fazer aquilo que se chama deslastro de segurança que é o quê? Ir tirando carga. Tira-se carga, tira-se carga, tira-se consumidores até que se baixe o consumo o suficiente para igualar a produção. Portanto, neste caso teria que se tirar 2.5 gigawatts de repente. Mas foi tão rápido que é impossível isso acontecer.

E isso percebeu-se logo mais ou menos na altura. A grande questão aqui é, para onde é que foi essa produção? A minha pergunta era, porquê que essa produção criou tanto? Essa é que é a grande questão. Para dar um bocadinho mais de contexto, é preciso perceber o contexto de produção naquela altura. Naquela altura, Espanha e Portugal estavam a operar mais ou menos a 90% de energias de geração não convencional, ou seja, chamadas energias renováveis, ou seja, eólica e hídrica.

as energias intermitentes exatamente mas a questão em si não é essa a questão é o facto de estar a trabalhar com tanta energia renovável traz dois caviates que são por um lado

temos menos inércia na rede. O que é inércia? As outras fontes de geração, ou seja, as fontes de geração convencionais, funcionam da mesma forma há dezenas e dezenas de anos. No fundo, aquilo, quer seja nuclear, quer seja carvão, gás, hídrica, na hídrica a água faz ir a turbinas, e estas turbinas geram energia, são máquinas síncronas. Nas outras, usamos uma fonte de calor para aquecer a água.

que gera vapor, que faz girar turbinas. Ou seja, é exatamente a mesma coisa. O que é que acontece? Essas turbinas gigantes têm muita energia cinética acumulada e muita energia mecânica acumulada. Portanto, se a frequência, por algum motivo, desaparecer a produção e tivermos muita inércia, a inércia acumulada nessas turbinas é suficiente

para tentar segurar um bocadinho o sistema e evitar que ele caia. Quando não temos essa inércia, o que é que acontece? Não há esse fallback, não há essa ajuda para impedir que a frequência caia tanto. Porquê? Porque essas turbinas estão a girar à mesma frequência da rede. E, portanto, é como se segurassem a frequência um bocadinho e ajudassem um bocadinho. Não é tão imediato. Não é tão imediato e dá também um intervalo para conseguirmos deslastrar com mais segurança.

Foi um mix aqui dos dois. Isso por um lado. Por outro lado, havia um fenómeno muito específico nessa altura, que é o quê? Nessa altura estava muito calor. Nesse dia, se se lembrarem, estava um dia quente. Além disso...

havia uma questão, isto foi mesmo tempestade perfeita, que era, havia pouca carga nas linhas de muito alta tensão. O que é que isso significa? As linhas de muito alta tensão, aquelas da REN, ou o equivalente à REN em Espanha, são aquelas linhas gigantes que nós vemos à beira da autostrada, com postos muito grandes, etc. Com aquelas bolas azuis. Com aquelas bolas azuis, exatamente, para os helicópteros não lhes baterem, etc.

Mas essas linhas são feitas para transportarem muita energia. Essas linhas são, usando a analogia que se costuma usar, é como se isso fossem as grandes autostradas de energia e depois vão sendo ramificadas, ou seja, muito alta tensão, que são os 400 mil volts, 220 mil volts, 150 mil volts, transportam grandes quantidades dos grandes centros de produção para os grandes centros de consumo. O que é que acontece?

Essas linhas, especificamente, de muito alta tensão, quando têm pouca carga, começam a ter um comportamento que é o que eles chamam de comportamento capacitivo, que é o quê? Injetam uma coisa chamada energia reativa na rede.

que é uma energia que não produz trabalho. É uma energia que tem que estar na rede, mas não serve bem para nada. Mas é muito importante para os sistemas de estar. Os mínimos olímpicos. A analogia que se costuma dar é, vamos imaginar um copo de cerveja. Vamos imaginar um copo de cerveja. Vamos. Vamos. Com muita força. Com muita força, exato. Uma boa cerveja tem o quê? Temos a cerveja e temos um bocado de espuma no topo. A espuma não serve bem para nada, mas se tivermos muita espuma, a cerveja está mal tirada. Se tivermos zero espuma, a jola está morta.

A energia é mais ou menos a mesma coisa. Nós temos que ter a energia reativa que é mais ou menos a espuma da cerveja. Ou seja, não serve bem, efetivamente, para nada, no sentido em que não produz trabalho, mas tem que lá estar. O que é que acontece? Era o que eu estava a dizer. Estas linhas, quando têm pouca carga, criam muita espuma.

E ao criarem muita espuma, aumentam as correntes nas linhas, aumentam as tensões. Daí se falar hoje em dia da necessidade do controle dinâmico de tensão e de ter havido um descontrolo de tensão. E o que aconteceu foi que a tensão subiu tanto...

E em Espanha, em particular, as linhas muito alta de tensão podem trabalhar até 8% acima da tensão nominal, enquanto que em Portugal só podem trabalhar até 4%. Portanto, houve uma subretensão muito grande nessas linhas que estavam ligadas a centrais de produção e essas centrais de produção têm limites físicos.

até onde podem trabalhar. E é que veio o calor? Não. O calor? A questão de ter estado muito calor... Não, não, não. No calor é porque as linhas estendem e tornam-se maiores ainda e, portanto, tornam um efeito de condensação, um efeito capacitivo maior. Não. O meu ponto é, a tensão subiu tanto que as centrais, para se protegerem elas próprias, tiveram que desligar.

Portanto, nós percebemos imediatamente o que aconteceu desde que desapareceram estes 2.5 gigawatts para a frente, mas não se percebia o que tinha acontecido para trás. E a verdade é que a conjunção de fatores de não haver inércia na rede, termos muita energia fotovoltaica, ou seja, energia solar na rede, que não tem capacidade de regular a energia reativa.

e termos pouca carga nessas linhas, foi tipo uma tempestade perfeita para que houvesse subretensão, a subretensão desligou as centrais, as centrais desligaram-se, descontrolou na frequência, e o sistema caiu.

Porventura, o Samuel percebeu logo o que se passou. Aliás, já disse-lhe várias vezes. Na altura percebemos logo o que se passou. No entanto, a maior parte das pessoas leigas neste assunto começaram por achar que seria um ataque cibernético russo. E eu gostava de ir agora para este tema mais da desinformação que foi feita nesses momentos e da forma até como o governo comunicou e geriu do ponto de vista político este episódio. Daniela.

Como é que caracterizas e daquilo que te lembras e daquilo que agora, passado um ano, podes pensar com mais calma? Como é que avalias a forma como o governo comunicou e geriu? Eu, por acaso, na altura, esse é um tema que me é bastante claro, que é a comunicação em termos de crise e a preparação da população. É um tema que já trabalhei. E um dos problemas principais da comunicação do geral das autoridades e que levou depois a essa propagação de...

desinformação, alguma descontrolo. Houve um pequeno descontrolo da população. Tem a ver com o facto de não serem claras duas coisas. Uma, onde é que as autoridades iam comunicar. Isso é uma coisa que deveria estar definida à partida e devia ser do conhecimento de todos os cidadãos, porque todos nos lembramos da situação em que muitos de nós ficámos rapidamente sem a rede telemóvel.

sem luz, muita gente não tinha acesso a rádio tinha acesso à rádio dos carros, por exemplo mas não sabia ao certo a que horas, por exemplo é que se devia deslocar ao carro para ouvir, portanto este é um dos pontos principais era que deveria estar, e acho que deve ser uma lição que devemos aprender para o futuro deve ser claro para toda a gente qual o meio

de comunicação no qual as autoridades vão dirigir à população e isso tem que ser a rádio, não é? Porque como nós sabemos em termos de televisão, internet, eu achei muita graça que havia posts de Instagram e de outras redes como se as pessoas conseguissem aceder aos posts algumas ainda conseguiam, mas a grande maioria não

Portanto, as pessoas têm que saber onde vão ouvir as mensagens das autoridades. E o outro ponto importante é quando, porque lá está, como eu estava a dizer, apesar de tudo, a nossa preparação não é espetacular e, portanto, nem toda a gente tem os rádios a pilhas, etc. Não está preparada nesse âmbito. E, portanto, precisam de saber, por exemplo, quando é que devem ir ao carro, quando é que devem ir ao vizinho ouvir a informação e, portanto...

A primeira comunicação nesse sítio definido, por exemplo, numa determinada estação de rádio, como a Rádio Pública, deveria depois informar logo disso. Serão feitas, e isso foi feito um bocadinho em Espanha, eu acho que é um exemplo que devemos seguir em próximas situações, mesmo quando não estamos a falar de um caso de apagal, mas para outras comunicações de risco.

informar logo na primeira comunicação a que horas é que serão feitas as seguintes e que informação é que será postada nesses momentos, porque isso dá uma sensação de calma à população, de receber instruções diretamente sobre o que devem ou não fazer. Eu acho que isto é claramente uma coisa que pode ser melhorada e é bastante simples, no fundo é definir.

previamente os canais de comunicação, informar ao máximo a população e depois na primeira comunicação estabelecer quando é que serão as comunicações seguintes. Porque eu lembro-me, por exemplo, eu estava em casa, não tinha rádio, estava a ir ao rádio do carro, que também não queria estar constantemente com o carro ligado e eu cheguei a ir quatro vezes até ao carro procurar várias estações de rádio e em nenhuma dessas vezes eu consegui qualquer informação sobre a situação, ou seja, eu não sabia previsão de restabelecimento.

da rede, que medidas adotar etc, por essa via, só por volta das seis e meia da tarde, é que consegui apanhar uma comunicação rádio do responsável da REN que me deu as primeiras indicações temporais de quando é que poderia ser previsto o restabelecimento da rede na zona onde eu estava e eu acho que é importante evitarmos esta...

esta dispersão e as pessoas não estarem devidamente informadas. Porque o que acontece? Quem ainda ia tendo acesso a redes sociais ou outras formas, de repente isto era, a Europa toda estava sem energia, era um ataque, podia demorar vários dias. Eu ainda cheguei a apanhar essa parte, apesar de eu ter tido de rede durante muito pouco tempo.

E portanto levou corridas a supermercados, pânico generalizado na cidade para as pessoas conseguirem regressar a casa, etc. E portanto eu acho que há um grande caminho a fazer em termos de preparação da população, de capacitar a população, mas em termos específicos de comunicação, acho que estes dois vetores são essenciais e não são nada de extraordinário para mantermos alguma calma.

Gonçalo. Eu queria fazer um callback a um dos convidados que nós tivemos aqui, sem desprimido o nosso porque nos vai dar muitos inputs técnicos, mas falando um bocado desta questão da informação à proteção civil, que foi o André Fernandes que nós cá tivemos da proteção civil, e uma das coisas que ele ensinou na altura foi que a questão mais importante neste momento seria exatamente a sensibilização à população. E, portanto, nesse sentido, Portugal parece-me, não estando...

por dentro, mas já da conversa que tivemos, por exemplo, com o André, tem feito muito pouco nesta questão da sensibilização à população para catástrofe, para questões excepcionais como esta do apagão. E, portanto, a Daniela falou também aqui da questão da comunicação e há o ponto de vista comunicacional do governo, e acho que é importante, e já lá vamos, que se estabeleçam guidelines para o futuro, mas também das pessoas saberem onde é que vão buscar essa comunicação. E ela própria falou sobre isso.

Depois há outras questões, a segurança própria das pessoas, a construção dos kits de emergência... Até que medidas é que podem ser implementadas individualmente? Não sei se há forma de implementar, se fica a carga de cada um implementado. Nós falamos muitas vezes das instituições políticas que só respondem em tempos de crise, mas as pessoas também são assim. Eu conheço várias pessoas no meu círculo próximo que, desde o apagão, começaram a ter estas coisas em casa. E muitas outras que até agora, pronto, não...

Mas isso acontece sempre Há sempre os resistentes à mudança E portanto, acho que também há um processo de aprendizagem Que vai sendo feito Agora, falando das responsabilidades governativas Que são, obviamente, sempre imputáveis E neste caso Parece-me relevante mencionar

Às 11h33 deu-se o apagão. O primeiro-ministro só falou quatro horas depois. E o que é que aconteceu pelo meio? Falou o ministro António Leitão Amaro, falou o ministro da Defesa, falou o ministro da Saúde. Se não falaram eles diretamente, foram veiculadas mensagens através dos canais oficiais dos ministérios. E, por fim, o primeiro-ministro só falou às 9h22, só fez a sua comunicação oficial ao país a esta hora.

aquilo que acontece é que não havendo um canal centralizado de comunicação, como a Daniela estava a dizer, isto passa a conta gotas. E, portanto, as pessoas não têm acesso a uma informação centralizada. Nem toda a gente segue, sei lá, o Ministério da Saúde no Instagram. Nem toda a gente tem acesso ao site do Ministério da Saúde. Eu fiquei logo sem rede às 11h33, foi imediato.

E eu acho que é importante nós estarmos a gravar isto na rádio, na rádio pública, porque efetivamente a Antena 1, a RTP, conseguiram veicular uma série de mensagens que muitas outras não estavam a passar e foi um dos momentos em que se percebeu de facto a importância da rádio no nosso dia a dia. De um serviço público. E de um serviço público.

público de comunicação, que muitas vezes é enxuvalhado e neste momento, agora, neste momento tem sido enxuvalhado ainda mais porque saíram os resultados e etc. Mas a verdade é que isto faz falta e fez falta há um ano e vai continuar a fazer falta no próximo apagão que vier ou noutro catástrofe.

que há de vir, vêm sempre, são inevitáveis, aquilo que nós podemos fazer é controlar os danos, e acho que isto foi uma das boas formas de controlarmos os danos. Agora, voltando à questão do Governo, é importante que se estabeleçam, não sei, do Governo, guidelines para este tipo de crise, e não ser cada ministro, cada assessor do ministro, a dizer, ah, temos que dizer isto, temos que dizer aquilo, tem que haver uma centralização.

E depois aquilo que aconteceu foi que isto acabou por acontecer mais tarde. Houve um conselho de ministros extraordinário, eles reuniram-se, vários dos ministros, não sei se todos, mas alguns ministros com bastante peso político acabaram por se reunir em São Bento. Mas a coisa demorou a movimentar-se, não era algo que estivesse planeado. E, portanto, era importante que isto para o futuro fosse estabelecido e que houvesse estas guidelines. Sendo que já passou um ano... Sim, sim.

Deixas-me só acrescentar aqui uma coisa, porque realmente uma destas lições aprendiz agora que o Gonçalo falava sobre a centralização da comunicação, que há pouco eu não disse que devia ser sempre a mesma pessoa a falar, e eu até acho que de certa maneira preferia que fosse uma autoridade, tipo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, do que propriamente um governante, mas isso é uma questão, porque acho que também passa mais confiança às pessoas, e já existiu exemplos ótimos, por exemplo, nos incêndios, quando a Patrícia Gaspar...

Era a porta-voz da ANEPs. Mas, entretanto, no final do ano, o governo aprovou o CORGOV, que é o Centro de Operações e Resposta do Governo, que será um novo centro de gestão e comunicação de crises que funcionará sobre a alçada da Secretaria-Geral do Governo e que será, pelo menos é esta a perspectiva, ativado diretamente pelo Primeiro-Ministro perante crises graves. E a medida surgiu mesmo como resultado da falha de resposta do apagal.

Eu não sei ainda muito bem como é que este centro está a funcionar, nem irá funcionar, mas parece-me que é que alguma coisa que, sendo bem usada, poderá ter potencial. Mas wait and see. Eu acho que disseste tudo. Não sabes como é que está a funcionar, como é que vai funcionar, ninguém sabe bem, não é? Sim, mas no final de contas estamos aqui a falar de crises. E nos últimos 5 anos, 6 anos, tivemos a crise do Covid-19, tivemos...

Para além das crises de todos os verões Dos incêndios que temos Que não deixa de ser uma crise Também com impacto enorme As cheias que tivemos também As tempestades E agora Antes das tempestades e das cheias Apesar de termos de ter sido em 2022 Cheias e tempestades Parece que é quase todos os anos Temos uma crise que justifica já este grupo Estar operacional e até bastante Moldado e habituado A reagir O determínio O determínio O determínio

Samuel, enquanto engenheiro como é que acompanhaste o desenrolar das várias comunicações ao longo desse dia? Assim, eu acho que nesse dia Não foste engenheiro? Primeiro não fui engenheiro e segundo eu acho que não se comunicou bem eu acho que a melhor pessoa a falar nesse dia é alguém que não tem uma responsabilidade política

que é o engenheiro João Conceição da Renda, que foi quem com mais clareza conseguiu explicar que isto vai levar X tempo a estes perigos. Nós agora vamos ter que ir ligando a rede aos pecados, até construirmos ilhas e depois interno ligar as ilhas. Às vezes pode falhar e temos que começar do zero.

A expectativa é X, mas pode levar Y, Z, etc. E é isto que as pessoas precisam de ouvir. Estão de expectativas, acho que é o mais importante. Alguma certeza. Alguma certeza e terem as pessoas a falarem com confiança e com certeza sobre o que está a ser feito. E relativamente ao nosso Primeiro-Ministro, como vocês estavam a dizer, que só falou passado quatro horas.

Eu acho que isso é completamente inaceitável, porque ponto um, sabia-se que as UPS das antenas tinha começado imediatamente uma corrida contra o tempo. Se não há energia, as UPS, que são os sistemas de baterias das antenas, têm um tempo de vida limitado.

havia que aproveitar esse período em que muita gente ainda tinha no teu caso te perdeste logo, mas eu ainda tive para aí 3 horas de... Quando eu vivo tem lá uma antena que é só para aquele sítio e provavelmente as baterias não deviam estar a funcionar porque aquilo foi completamente à vida às vezes Mas eu ainda tive para aí 3 horas de rede e portanto o relógio comece logo a contar e portanto havia que comunicar rápido e com certezas para evitar precisamente isso que estavam a dizer, no meu trabalho era logo lá o mal está a dizer não, isto agora vai ser duas semanas O que é isso?

Se for o que eu acho que aconteceu, vai ser duas semanas. E no meu trabalho, eu já não estou a trabalhar na área, mas, portanto, malta que não percebe do tema, ou então a dizer, ah, isto é um ataque cibernético russo, não sei o quê, vêm os russos, etc. Houve diretores de instituições de ensino superior, que os nomes não vão mencionar, que fizeram vídeos a dizer fomos alvo de um ataque russo e publicaram-nos. E ministros também. E ministros. E ministros também. Isso é gravíssimo, esse nível de especulação.

Numa coisa em que bastava uma chamada Bastava alguém ligar para alguém da REN E a malta ia estar no despacho A transpirar bastante E saiu até uma notícia a dizer que Ursula von der Leyen Tinha respondido a esse ataque Bastava alguém ligar para o despacho da REN

E iam lhes dizer logo o que tinha acontecido Pois, eu acho que o que ouvi foi um senhor Cujo apelido é Vidigal António Vidigal, talvez Espírito nesta área também de energia Ouviu-o a falar sobre isto E acho que ele tinha enviado alguma coisa para a EDP E responderam-lhe apenas a dizer Espanha

E que o problema tinha sido espanhido. Mas estava uma mensagem desta. Isso também podia passar a mensagem que tinha mexido. Também poderia ser. Samuel, escreveste um artigo logo a seguir ao Apagão, que foi publicado no Express, onde referiste que a resposta ao Apagão é de engenharia não política. Vai-me ter em conta aquilo que também estamos aqui a dizer. Contudo, sem decisão política, dificilmente a engenharia poderá materializar o seu conhecimento prático e técnico.

Da tua experiência, tendo já trabalhado de perto com a EDP e com a REN, julgas que neste tópico há ainda um gap muito grande entre as pessoas com responsabilidade política, em termos de linguagem, não só, e as pessoas com o know-how para fazer as coisas acontecerem? Aqui nós temos três agentes, não é? Temos a parte da decisão política, que cabe ao governo e ao ministro. Temos a parte do regulador, que são pessoas com muito conhecimento.

e que é suposto fazerem este aponte, de certa forma, entre aquilo que é o investimento feito pela REN e pela EDP e o governo, e temos os agentes, ou seja, os operadores da rede, neste caso a REN na muito alta tensão e a EDP na média alta e baixa.

E aquilo que eu sinto é que... Bem, nós agora podíamos discutir aqui muitas coisas. Podíamos discutir um modelo remuneratório das concessões, por exemplo, que eu acho que não favorecem o tipo de investimento que se deveria fazer na rede. Podíamos discutir uma série de coisas, mas a verdade é que o Pedir-te é um relatório... Um relatório não, é um plano de desenvolvimento da rede, que é entregue anualmente, ou dois em dois anos ao governo, que é um plano a dez anos.

ao Governo e ao regulador, com as propostas que são feitas. Depois algumas são aceitas, outras não são aceitas. Eu sei que, por exemplo, no último pedido houve um aumento de 60% do investimento a 10 anos. Portanto, a ideia é investir mais 60% do que estava originalmente orçamentado no pedido anterior.

Mas também sei que, por exemplo, foram identificadas necessidades na rede e nem todas foram acedidas. Mas isso também é normal, é preciso sempre fazer escolhas. Ou seja, é claro que é preciso definir prioridades.

A questão é que, às vezes, eu não sou ninguém para estar a julgar se as pessoas no governo têm ou não capacidade para tomar essas decisões. Claro que és. É eleitor? Pois, nesse aspecto sim, mas do ponto de vista técnico. Do ponto de vista técnico, não sei. O que eu sei é que...

Esse plano existe. Durante muitos anos houve suborçamentação, na minha opinião. Agora, parece que este susto permitiu aumentar o Pedirte. E sei que também já estão a ser orçamentadas e até adjudicadas algumas obras e a compra de novo equipamento para tornar o sistema mais fiável.

Com esta distância já de um ano, como é que avalias a atuação, portanto, não só dos reguladores como dos operadores, na gestão desta crise, que não começou em Portugal, o relatório mostra que começou em Espanha e nós tivemos que depois recebemos essa crise, digamos assim. Jogas que houve uma boa gestão? Sim, do ponto de vista do operador de rede eu acho que sim. Acho que era muito difícil fazer melhor. Repara.

As pessoas que estão no despacho, o despacho é como se fosse um centro de controle aéreo, mas para a energia. As pessoas que estão no despacho treinam, estão treinadas para fazer um restauro da rede do zero. As coisas nem sempre correm pelo melhor, mas conseguir pôr a rede de novo em pé quase toda, num espaço de 12 horas, eu acho que é muito aceitável.

Foi também formado um grupo de trabalho, portanto, além deste relatório que eu mencionei desta entidade internacional, há um relatório da Assembleia da República, portanto, um grupo de trabalho, este relatório ainda vai à Assembleia, entre várias coisas, dizem uma das recomendações...

é criar sistemas de autonomia em infraestruturas críticas. Por exemplo, lembrando-nos dos hospitais que tinham os tanques de combustível apenas a metade daquilo que deveriam, ou outros hospitais, é aquilo que me lembro mais imediatamente, mas há outras infraestruturas ultracríticas que necessitam desses sistemas de backup. Julgas que isso ainda vai demorar a implementar ou já tem sido implementado?

Eu não vejo porque é que isso possa demorar a implementar. Acho que isso é um bocadinho o mais básico que tem que ser feito. Porque a questão é, não há nenhum sistema que seja perfeito. Se me perguntarem, é possível que haja outra? Claro que é. Claro que é possível. E vai haver, eventualmente. Se calhar daqui a 50 anos.

nós estamos a ter um a cada 20 anos. Eu acho que é bastante aceitável. Se formos comparar, sei lá, Porto Rico, que é território norte-americano, eles têm apagões de dias e dias. E é um país ultra-desenvolvido, os Estados Unidos. É importante ser Porto Rico. Mas, portanto, nesse aspecto, Portugal está bastante bem. Mas a questão é, não é se vai ou não acontecer outro apagão. A questão é que nós temos que estar preparados.

para responder ao apagão quando ele acontecer. Ou seja, os tanques dos hospitais têm que estar cheios. É claro que é preciso definir critérios, é preciso definir se houver um apagão temos que repor a rede em 24 horas, por exemplo. Então um hospital tem que aguentar chegar a 36. Os autocarros têm que ter reservas de combustível para conseguirem movimentar as pessoas. Todas essas questões têm que estar salvaguardadas, porque a questão não é...

Ah, não queremos que o sistema nunca mais volte a falhar. Isso não é... Todos os sistemas falham. O Space Shuttle é um sistema, se calhar, o mais fiável que existe e houve alguns que falharam. E, portanto, o sistema elétrico não é diferente nesse aspecto. A questão vai... Você vai sempre a ver...

situações anómalas e etc. E a questão aqui principal é como reduzir o risco, porque o risco é sempre a probabilidade de acontecer multiplicado pela consequência, não é? Isso é que é um risco de alguma coisa. Vamos tentar mitigar o risco, ou seja, por um lado mitigar a probabilidade de acontecer e aí entra toda a parte do desenvolvimento da rede. Por exemplo, agora fala-se muito da questão dos compensadores sincronos, dos bancos de baterias.

dos stat-coms, que são equipamentos pesados, caros, mas que dão muita estabilidade à rede e que são fundamentais, porque a questão é, e saltando agora só aqui um bocadinho fora desse aspecto, que é, as energias renováveis vão continuar a crescer. E as energias renováveis são boas, ponto final. Na minha opinião, claro. São boas. A questão é, trazem desafios? Trazem. Então o que nós temos que fazer é, ok, vamos tornar o sistema capaz de responder a esses novos desafios.

o controle de tensão, o controle da reativa na rede, etc. Há tecnologia, cara, que nos permite controlar e dar a volta a esses desafios. Portanto, a decisão política aí tem que ser, ok, vamos seguir este caminho, vamos, vamos ter que continuar sempre a ter gás natural e ter fóssil, porque pode haver uma situação qualquer em que seja preciso mesmo, ou então centrais despacháveis, etc., que consigam entrar em funcionamento rapidamente. Mas,

É uma decisão muito política, neste caso que é. É caro, é, mas na minha opinião é por aí que temos que ir, sobretudo quando somos um país com tantos recursos. Quando em várias áreas falamos deste tipo de investimentos, digamos de longo prazo, mas investimentos que a nível, portanto num primeiro momento são avoltados, e é o caso destes equipamentos que já tinham sido.

encomendados pela REN antes do apagão, pelo que eu também pude apurar e que quando houve o apagão estava em processo de análise pela entidade reguladora, etc pelo valor ser de facto muito avultado Gonçalo, julgas que este será também mais um exemplo de que quando há um investimento muito grande a ser feito, cujo benefício é a longo prazo, ele continua a não ser feito

Ou isto é tão insistencial, vai ter mesmo que ir para a frente? Vai ter que ir. Uma questão é a necessidade e outra é aquilo que vai acontecer. Mas tu estás a tocar num ponto, e o Samuel também já tocou, que é a questão eterna da forma como nós olhamos para a implementação de novos projetos em Portugal, que é a prevenção versus a reação. Saindo deste tema, mas é um exemplo que eu acho que é paradigmático de todo o resto.

que é a questão da saúde mental, por exemplo. Nós, em Portugal, temos uma perspectiva da saúde mental que é muito reativa e muito pouco preventiva. Estamos a trabalhar muito na resolução do problema e pouco na sua prevenção. Até na saúde em geral. Na saúde em geral, sim. Mas acho que a saúde mental é mais evidente e mais paradigmático.

E acho que isto se pode transpor para uma série de outros casos em Portugal, nomeadamente esta questão energética da preparação para catástrofes e da capacitação, neste caso, das nossas redes, para lidarem com os desafios do século XXI. Quer dizer, nós não estamos a falar de uma rede elétrica com as necessidades que tinha há 60, 70 anos, nem há 20. Quer dizer, toda a gente, tudo hoje em dia precisa de eletricidade. Tudo aquilo que não precisa, precisa de algo por trás que tem eletricidade. Portanto, é importante que estes investimentos não sejam defeitos.

Eu acho que é positivo, obviamente, que eles já estivessem a ser feitos. As coisas têm que passar pelos seus trâmites e acho que devem continuar a passar e é importante que nós não descuremos esta questão das verificações, sejam de segurança, sejam de verificarmos se as coisas são efetivamente apropriadas para ali estarem e acho que isso tem que se manter. Agora...

Houve azar também, na questão do timing. Ninguém estava a prever que aquilo acontecesse ali. Se estivéssemos a prever, a coisa não tinha acontecido. Não seria uma catástrofe, mas era difícil de prever. Ninguém podia prever. E, portanto, acima de tudo, fico feliz por saber que já estava a ser feito algo na altura.

Agora, aquilo que é preciso é acelerar, porque já sabemos, e isto é o segundo problema estrutural, o primeiro é a forma como olhamos para as políticas públicas, a segunda é o tempo que nós demoramos a fazê-las e a executá-las. E, portanto, é importante que se acelerem estes processos. Só para dar um exemplo, e se calhar já lá vamos, do tempo que se está a demorar, por exemplo, a falar da questão das compensações financeiras, porque temos que esperar pelas decisões do regulador para ver. É interessante, passaram mais de 365 dias desde essa data.

Daniela, o que é que tu achas desta crise, como tantas outras que já passámos? Parece que passado uns meses parece que se esquece nas agendas mediáticas sempre constantes e o último ano deu-nos muito material para isso também. Aliás, estávamos a meio de umas eleições, de um processo de eleições legislativas. Julgas que isto afetou de alguma forma essas eleições?

Eu ia só aqui voltar um bocadinho atrás para a conversa que vocês estavam a ter sobre as infraestruturas críticas, porque eu acho que é essencial, e não são só hospitais, são laboratórios farmacêuticos, são também...

zonas de segurança, do sistema de segurança interna, são uma data de entidades, já não são só infraestruturas, são entidades também que têm vindo a ser definidas e é um trabalho que também tem sido feito. E acho que mais uma vez nós achamos que precisamos de inventar alguma coisa e não precisamos. Grande parte disto, e hoje estou a gravar convosco à distância, a partir de Bruxelas, grande parte disto já tem legislação europeia. Por exemplo, no caso das entidades críticas, a diretiva...

SERE 2, que foi a diretiva SERE que foi aprovada recentemente tem uma série de obrigações que as infraestruturas e as entidades críticas têm de cumprir e requisitos mínimos de preparação, etc, que vão muito ao encontro da conversa que nós estávamos a ter que é mais sobre como mitigar os riscos e as consequências do que propriamente, como o Samuel dizia é impossível evitar todo o que eles aconteçam. E portanto eu acho que às vezes eu acho que

Precisamos mais até, as diretivas são obrigatórias e portanto Portugal estará a transpor e a fazer esse exercício e acho que muitas vezes é olhar para aquilo que já é feito a nível europeu e principalmente com os Estados-membros que estão um bocadinho mais avançados.

em matéria de preparação e resiliência, porque eu acho que nós também tivemos muita sorte, porque aquilo durou umas horas, porque eu sei que ele tem passado a noite, a madrugada, íamos ter problemas, e não ia ser só a correria aos supermercados com o papel higiênico e com a água, porque depois acho que nós somos também uma...

população que como não está habituada a lidar com este tipo de catástrofes mais recorrentemente, é uma população que tem muito pouca noção de comunidade e portanto as pessoas foram a sambarcar coisas, borrifando-se completamente nos restantes vi gente a levar iogurtes, adorava saber onde é que eles iam enfiar os 50 iogurtes que foram comprar

e portanto não tem esta noção de gestão comum e é um bocadinho na base do desenrasca que depois vemos com as tempestades, as pessoas aparecem mas mesmo esta gestão, às vezes quando há doações posteriores também não é bem feito e acaba por se desperdiçar muita coisa sobre a pergunta que tu fizeste ter sido no meio das eleições eu acho que na realidade tendo em conta também a duração

E apesar de tudo, as consequências mais graves terem sido limitadas, porque nós podíamos ter corrido o risco de ter problemas sérios nos hospitais, que levassem, por exemplo, à morte de pessoas. E há uma situação de uma senhora no CACEM até que tem a ver com a falta de ligação.

por causa de sistemas básicos de suporte e que acho que isso também é uma área que devíamos estar a trabalhar, não é garantir que a população com vulnerabilidades tenha a sua situação salvaguardada num caso destes, eu acho que acabou por não ter esse impacto porque, e bem, os restantes partidos também não procuraram utilizar propriamente a resposta como combate político puro e duro podiam tê-lo feito, mas eu acho que felizmente não fizeram porque isso também não é um debate mas

muito construtivo e portanto sinto que não tenha tido qualquer impacto na eleição. Se durasse mais dias e o governo não respondesse, sim provavelmente teria tido. Acho mais interessante que os partidos se foquem agora, neste um ano depois e naquilo que não foi feito nomeadamente a conversa que vocês relembravam com o André Fernandes da Proteção Civil

principalmente em termos de sensibilização da população. E, mais uma vez, não é preciso inventar. Neste momento há uma estratégia para uma união da preparação em termos europeus que tem um capítulo inteiro dedicado à preparação e sensibilização da população. Há N exemplos daquilo que é feito nos outros Estados-membros e nós continuamos a falhar.

não só nas escolas na sensibilização das pessoas adultas, não é só os kits de emergência, é muito importante e as pessoas devem fazê-lo e faço esse apelo há indicações muito claras de como fazer os kits e é importante mas coisas mais básicas até de...

da ação específica, para onde é que as pessoas se devem deslocar, etc. Onde é que podem, por exemplo, ir aceder numa situação destas à água, à comida. E eu acho que esse é o caminho que não está a ser feito. E não é que não haja incentivos europeus para o fazer. E acho que é aí que os restantes partidos deviam procurar impulsionar que o governo agisse nesta área.

Nós estamos numa transição energética e, Samuel, o tempo, tal como a energia, às vezes acaba-se e o nosso tempo, de facto, acaba também muito rapidamente. Mas há aqui uma dúvida que nem tem assim tanto a ver com esta questão do apagão, tem a ver mesmo com a questão de consumo de energia. Há várias vezes que vejo que há o consumo de energia primário.

que temos cerca de 70% a energias renováveis em Portugal, mas depois há um consumo secundário, que aí já é mais dominado pelo setor dos transportes. Ou seja, eu queria perguntar-te porquê que há esta discrepância, o que é uma coisa e o que é outra, de uma forma muito rápida. Ok, muito rapidamente. Vamos pensar, a energia não é só a eletricidade.

Energia é a eletricidade, energia é o gás. A REN, a REN de Energia Nacional, transporta também o gás em alta pressão. Muitas vezes as pessoas não pensam sobre isso, mas da mesma forma que há as grandes autostradas de eletricidade, também há as grandes autostradas de gás, são os grandes gasodutos. Dito isto, se nós juntarmos à eletricidade e aos consumos de eletricidade, os consumos de transportes, os consumos de fábricas e de grande indústria que consomem muito gás, muitos fornos, etc.

todo esse aglomerado é que é a necessidade energética do país ou seja, em termos de capacidade de produção nós temos uma capacidade de produção de energia elétrica muito grande que vem das renováveis mas em termos de necessidades gerais daquilo que é necessidade efetiva de energia há uma parte que é energia elétrica mas temos muitas outras necessidades transportes, que é um consumo brutal de energia só que não é sob a forma de energia elétrica e a mesma coisa nas fábricas determínio

Samuel, se fosses ministro amanhã, ministro de energia, qual seria a tua primeira medida? O que é que é mais prioritário de resolver na nossa rede face ao apagão?

A minha primeira medida era perceber, sobretudo na rede de alta, não tanto na de muito alta tensão, porque essa aí eu estou bastante confiante e conheço-a bastante bem, mas perceber o estado, sobretudo em termos de envelhecimento da rede, tanto em AT como em média tensão, como em baixa tensão. Portanto, isso seria o primeiro e perceber a real necessidade de investimento nessas redes, sobretudo em postos de transformação.

E em relação à REN e ao transporte, eu acho que a minha primeira opção seria estudar se faz sentido a REN continuar privada ou não. Ok. Mas não sei se isso é uma discussão para termos aqui.

O sítio para termos uma discussão é sempre no Demissão Impossível. Apesar de tudo, já vamos assim com bastante tempo, mas fica aí a primeira medida de Samuel Pina, enquanto Ministro da Energia. E agora vamos passar à nossa rúbrica final. Poder do Veto, não sei se conheces. É uma rúbrica em que te apresentamos com uma opção hipotética, às vezes um bocado fora da caixa.

E te confrontamos com uma outra opção e depois fica uma e vamos ver o que é que acaba. Chama-se Roda Bota Sol. Então vamos lá. Rádio a pilhas ou energia eólica? Energia eólica. Energia eólica ou energia hídrica? Hídrica. Energia hídrica ou energia nuclear? Hídrica. Energia hídrica ou energia solar? Hídrica. Energia hídrica ou eficiência energética?

Difícil. Eficiência energética. Eficiência energética ou quito de 72 horas? Eficiência energética. Eu não sou nada bom a sobreviver.

Fica então a eficiência Eficiência energética e os kits de sobrevivência Só para quem viu o manual da sobrevivência E portanto fica aqui mais um episódio Do Demissão Impossível Na RTP Antena 3 Eu sou o Guilherme Guerra, comigo tem como sempre Gonçalo Azorio de Castro e Daniela Cunha Foi um gosto, já sabem podem acompanhar-nos Na RTP Play E nas plataformas onde ouvem os vossos podcasts Até para a semana

E aí

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