“Amor próprio” é outro nome para narcisismo
Amor próprio é o eufemismo cultural para o individualismo e o egoísmo. Não se trata de cuidado pessoal – este, sim, saudável e necessário –, mas de um narcisismo hodierno. Como afirmou o teólogo americano Paul Tripp:
"É o amor próprio que odeia as diferenças. É o amor próprio que o deixa impaciente. É o amor próprio que faz que você queira que a sua vontade seja feita. É o amor próprio que o convence de que a sua vontade é a certa. É o amor próprio que faz a vitória parecer mais desejável do que a união."
O verdadeiro amor é abnegado
Certa vez ouvi um rapaz dizer que não poderia tomar a sua cruz e seguir a Jesus sem antes amar a si mesmo. Ele questionava: “Se não me amar, como escolheria o melhor para mim, que é segui-lo?”. O problema é que Cristo jamais colocou o amor próprio como pré-requisito para seus seguidores. Pelo contrário, o condicionante apresentado pelo Mestre foi este: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9:23). Não há condição mais contrária à filosofia secular do amor próprio do que dizer a alguém para negar a si mesmo. No entanto, é exatamente isso que Jesus ensina.
Ora, o olho só enxerga quando não se percebe. Ao perceber-se, há uma doença na visão. Da mesma forma, o amor só é o que é quando o tal é abnegado. Se voltado para si, torna-se doente. Em outras palavras, o amor precisa ser compartilhado para que seja, de fato, amor.
Se Cristo, que é o próprio amor (I Jo 4:8,16), seguisse a filosofia do amor próprio, não teria se entregado para morrer por pecadores. Foi em seu sacrifício que contemplamos o maior amor da história. A palavra “sacrifício” não faz parte do vocabulário de quem mantém os olhos fixos em si mesmo. Aprendemos o sentido último de amar quando olhamos para Jesus, que nos amou primeiro, pois é somente ao navegar nas águas do amor da graça que não nos afogamos tentando capturar o nosso próprio reflexo nas águas do amor próprio.
Por isso, os dois grandes mandamentos do cristianismo apontam primeiramente para Deus e, depois, para o próximo – nunca para si mesmo (Lc 10:27). Quem adota a filosofia do amor próprio costuma interpretar o segundo grande mandamento – amar o próximo como a si mesmo – de maneira autocentrada: acredita que deve se amar primeiro para então amar o outro. Entretanto, o mandamento aponta para fora, partindo do pressuposto de que já nos amamos em demasia e, por isso, devemos amar ao próximo como a nós mesmos.
Fixar os olhos no próprio umbigo é a nossa disposição natural, ressoando o erro de Adão, que buscou seu interesse egoísta, desviando os olhos de Deus e das consequências de suas decisões sobre o próximo – e sobre toda a criação. A virtude de Cristo foi ter-se esvaziado, tornando-se homem e servo, humilhando-se até a morte de cruz com um amor abnegado (Fp 2:5-8). A filosofia do amor próprio jamais ensinará a imitar o último; apenas o primeiro.
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