Episódios de Fome Zero Podcast

A Função Social da Ciência e das Universidades #12

03 de julho de 202616min
0:00 / 16:37

Fome Zero Podcast - Episódio 12


A Função Social da Ciência e das Universidades


Neste episódio, mergulhamos nas reflexões profundas e atemporais de Josué de Castro para discutir o papel ético e político do conhecimento científico e das universidades. Em 2026, aniversário da publicação da obra magna Geografia da Fome e da fundação do atual Instituto de Nutrição Josué de Castro (UFRJ) por seu patrono, resgatamos dois ensaios fundamentais do autor, publicados em seu livro Ensaios de Biologia Social: A função social da ciência e A função social das universidades.


Para guiar essa jornada, o apresentador Gustavo Torres nos conduz por um provocativo exercício de imaginação que contrasta o sucesso estrondoso das ciências físicas e químicas com o histórico e alarmante atraso na aplicação social das ciências biológicas e médicas.
Exploramos o incômodo contraste de um mundo onde a ciência desvenda a cura para males devastadores (como a pelagra na Itália fascista ou o bócio endêmico no Brasil central), mas a engrenagem político-econômica escolhe deliberadamente ignorar as soluções em nome do lucro corporativo e de investimentos bélicos. O debate aprofunda-se na análise crítica da "civilização dos especialistas", fenômeno que fragmentou o saber universitário e moldou profissionais que sabem cada vez mais sobre cada vez menos, gerando "verdades cientificamente mutiladas" e um produtivismo acadêmico cego, incapaz de dialogar com as reais necessidades do povo.


Prepare-se para compreender por que a universidade, mais do que uma oficina de sábios, precisa urgentemente voltar a ser uma fábrica de seres humanos e descubra por que nenhum avanço tecnológico ou artigo publicado tem valor real se não estiver, antes de tudo, a serviço da vida, da justiça social e do combate à fome.


#Fome #FomeZero #JosuedeCastro #GeografiaDaFome #CiênciaEHumanismo #UniversidadePública #FunçãoSocialDaCiência #Especialização #SaúdePública #Nutrição


Produção e Apresentação: Gustavo Torres
Coordenação: Edward Magro, Antônio César Ortega e Renata Victal
Realização: Instituto Fome Zero e Bixcoito Digital

Participantes neste episódio1
G

Gustavo Torres

Host
Assuntos4
  • Impacto da Ciência na SociedadeJosué de Castro · Geografia da Fome · Ciências físicas e químicas vs. biologia e medicina · Financiamento da pesquisa científica · Atraso na aplicação social da ciência
  • Formação UniversitáriaJosué de Castro · Humanismo e tolerância · Investigação criadora, ensino e vigilância · Civilização dos especialistas · Formação de profissionais
  • Crítica à especialização excessivaCivilização dos especialistas · Visão técnica vs. visão cultural · Fragmentação do saber · Produtivismo acadêmico
  • Historia da CienciaPelagra na Itália · Bócio endêmico no Brasil · Mussolini · Governo fascista
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GTGustavo Torres

Se você puxar o calendário aí no seu celular, vai ver que estamos em 2026. E para quem estuda, luta ou simplesmente se importa com a questão da segurança alimentar, a nutrição e da justiça social no Brasil, este é um ano de comemorações. Em 1946, 80 anos atrás, vinha a público o livro Geografia da Fome, Uma obra que ousou tirar a fome de baixo do tapete e mostrá-la não como um problema climático ou de preguiça do povo, mas como uma engrenagem política, social e econômica.

Essa é a obra magna de Josué de Castro, pioneiro e revolucionário na maneira de pensar a fome não só no Brasil, mas como no mundo todo. Nós já produzimos aqui no Fome Zero Podcast 2 episódios sobre a obra e vida de Josué de Castro com o seu neto, Ricardo de Castro. Se você quiser saber mais sobre a obra e a vida dele, eu aconselho que você vá lá ouvir primeiro, porque hoje falaremos especificamente de partes que não são tão lembradas da sua vasta obra.

Se você fizer uma pesquisa sobre o nome do autor no Google, verá que praticamente tudo vai ser em referência ao trabalho de Josué de Castro com a fome ou, de maneira mais geral, com alimentação. Isso é mais do que normal, já que seu trabalho é reconhecido internacional e nacionalmente por este debate. No entanto, 1946 também é o ano em que foi fundado o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, que hoje, com muito orgulho, carrega o nome de seu idealizador, o Instituto de Nutrição Josué de Castro.

Aproveitamos para trazer textos de Josué que são pouco debatidos ou pouco comentados de maneira geral. Afinal, ele também deixou reflexões profundas, quase proféticas, sobre algo que dita os rumos do nosso mundo hoje. Qual é o papel da ciência? E qual é o papel da universidade? Pega o seu café, se acomoda, porque hoje nós vamos mergulhar nos ensaios de um dos maiores pensadores da nossa história para entender por que, às vezes, a nossa tecnologia voa, mas a nossa humanidade continua andando na lama como um caranguejo no mangue.

Olá, ouvintes do Instituto Fome Zero, tudo bem com vocês? Meu nome é Gustavo Torres e esse é mais um episódio do Fome Zero Podcast. Esse episódio vai ser baseado em dois textos de Josué de Castro, publicados em seu livro Ensaios de Biologia Social, com sua primeira versão publicada em 1957. Os dois textos se chamam, justamente, A função social da ciência e a função social da universidade. Como estamos a quase 70 anos dessa publicação, vale a pena refletir durante o episódio como esses pensamentos continuam atuais.

Pra começar a nossa conversa, eu quero propor um exercício de imaginação que o próprio Crusoé fez nesses textos. Imagine que a gente pudesse voltar no tempo, lá para o ano de 1850. Se a gente parasse um cidadão comum na rua e perguntasse: o que você espera do futuro das ciências físicas e da química para os próximos 100 anos? Se esse homem fosse um otimista, daqueles fascinados pelo progresso, provavelmente diria: eu espero que o homem aprenda a voar pelos espaços, que a gente consiga navegar por baixo d'água, registrar sons, imagens e transmitir a voz por longas distâncias.

Pois bem, tudo isso que parecia um delírio, uma fantasia de um livro do Júlio Verne, virou a realidade mais corriqueira apenas 100 anos depois, 1950. E para trazer para o exemplo de hoje, voltemos apenas 40 anos, o lançamento do primeiro telefone celular. Repita a pergunta e poderíamos dizer que essa pessoa nem conseguiria imaginar todas as possibilidades que um smartphone te oferece hoje? Câmera fotográfica de alta qualidade, 5G, inteligência artificial?

Ao contar para essa pessoa, tenho certeza que ela diria que estamos delirando e que esse futuro é muito distópico. A física e a química entregam tudo o que prometem e até ultrapassam o limite das aspirações humanas. Mas agora, façamos uma segunda pergunta para esse mesmo homem de 1850. E o que você espera da biologia e da medicina? Esse idealista certamente responderia: Bom, eu espero que a biologia acabe com todas as doenças e prolongue drasticamente a vida humana.

E aí, meus amigos, vem o choque de realidade. Crusoé de Castro nos mostra que um século não bastou para cumprir essa profecia e, trazendo para nossa realidade, nem dois séculos. Nós vencemos algumas doenças? Sim, vencemos. Mas a maioria delas continua desafiando a ciência. E o pior, novos hábitos sociais trouxeram novas doenças. Na época de Josué, essas tais novas doenças, como ele comentou também em seu texto, ele chamava de doenças da civilização.

Doenças que começam a aparecer devido a novos padrões alimentares nas cidades. Mas voltando à questão da medicina, o homem continua sofrendo e grande parte dos nossos dias ainda é roubada pelas enfermidades, principalmente hoje por efeitos limitantes das doenças crônicas não transmissíveis que afetam grande parcela da população mundial. Mas por que existe esse contraste tão violento? Será que a culpa é da biologia, que é falha?

Josué diz categoricamente que não. O buraco é mais embaixo. O problema é que a nossa civilização ocidental se tornou excessivamente mecanicista e utilitária. Cientistas, afinal de contas, comem, vestem, têm família. Eles dependem de financiamento. E nas últimas décadas, o Estado, as instituições e as indústrias desviaram os interesses para o lucro, para exploração econômica e para criação de riquezas. Eles passaram a enxergar o ser humano apenas como uma máquina de produção.

Há muito mais dinheiro para físicos e químicos porque o trabalho deles gera retorno financeiro direto para o comércio e a indústria. Já a pesquisa, do que Josué descreveria como um biólogo, mas poderíamos colocar aqui como também um sanitarista, um médico, serve para a saúde humana. Um patrimônio coletivo que infelizmente para o mercado não dá rendas diretas. Josué trazia neste texto também um dado assustador de sua época: em 1940, apenas uma organização industrial inglesa tinha mais pesquisadores químicos do que todos os biologistas de todo o Império Britânico juntos.

Com mais verba e melhores laboratórios, é óbvio que a ciência industrial caminha mais rápido, enquanto esse campo da biologia é abandonado pelo entusiasmo pessoal de poucos cientistas. E se você acha que isso é uma discussão abstrata de laboratório, Josué traz exemplos históricos que fazem o estômago revirar. São casos onde a ciência descobriu a cura, mas a sociedade decidiu não aplicar por razões puramente econômicas. O primeiro exemplo cruzou o oceano.

Em 1939, Crusoé visitou o norte da Itália e viu cenários alarmantes de uma doença chamada pelagra. Na época, o governo de Mussolini nomeou uma comissão de cientistas brilhantes para estudar o problema. A conclusão deles foi cirúrgica: a pelagra era uma doença causada por carência nutricional. E sabe qual era o remédio? Bastava fornecer a cada habitante das regiões afetadas 100 gramas de carne por dia. O relatório foi entregue, mas o governo fascista rejeitou a sugestão, porque o dinheiro que seria gasto com essa migalha de carne precisava ser reservado para comprar canhões.

A guerra e o poder econômico valiam mais do que a saúde do povo. E continuam valendo, né? Peguemos os gastos dos Estados Unidos da América nessa guerra com o Irã. E agora comparemos com a péssima situação alimentar que se encontra a população norte-americana. Um relatório do ano passado do Ministério da Agricultura do país destacou que 87% da população americana tem uma dieta de baixa ou muito baixa qualidade. Isso muito devido porque grande parte da população vive em pântanos alimentares, ou seja, lugares com excesso de alimentos ultraprocessados.

Será que se os Estados Unidos pegassem esses bilhões gastos em guerra e transformassem os seus sistemas alimentares, a alimentação dessa população não seria melhor? Pois bem, mas os Estados Unidos também não fazem, pois grandes corporações de alimentos também estão ganhando muito dinheiro enquanto o povo fica sem comer alimentos de verdade. No texto, Josué nos puxa de volta para a nossa realidade. No Brasil central daquela época, o bócio endêmico, o famoso papo, ou antigamente chamado de cretinismo, deformava física e mentalmente centenas de milhares de brasileiros.

Assolava populações inteiras. A ciência já tinha provado que a causa era a falta de iodo na água e na comida da região. E provou também que a solução era ridiculamente simples: misturar iodo artificialmente no sal de cozinha consumido ali. Não havia dificuldade técnica, não havia dificuldade econômica. Era uma medida simples que revalorizava a vida de uma multidão. E por que não saía do papel? Por falta de aplicação social da ciência.

Em suas palavras, e pesadas palavras de Josué de Castro, As descobertas no campo da energia atômica são rapidamente aplicadas na destruição do mundo, mas as descobertas que conduzem à salvação se arrastam num marasmo sem explicação. Alguma coisa precisa mudar para que possamos afirmar com convicção que vivemos numa era científica. Por enquanto, a ciência tem sido apenas um mito, o novo mito no qual se concentram as mais ardentes esperanças de uma grande parte da humanidade.

É diante desse cenário que Josué também olha para a função social das universidades. Equando debates da sua época, ele defendia que uma universidade autêntica precisa, acima de tudo, de humanismo e de tolerância compreensiva. A intolerância, seja ela religiosa, ideológica ou até mesmo fanatismo científico, é a morte do espírito universitário. Para ele, a universidade tem 3 missões indissociáveis: a investigação criadora, ou seja, a pesquisa original, o ensino e a vigilância para defender a cultura contra o obscurantismo.

Se uma universidade não faz pesquisa, se ela só repete o que os outros descobriram lá fora, ela perde a sua hierarquia e vira uma mera escola de artes e ofícios. Vira uma árvore morta, com um tronco fincado na terra, mas separada das raízes da criação. O ensino degrada, vira um acúmulo de decoreba e preceitos formulados que as pessoas repetem sem pensar. Mas o grande alerta de Josué, e que serve como uma luva para nós em 2026, é sobre a forma como nós moldamos os nossos profissionais.

Com o avanço avassalador da ciência no século 19 e 20, a cultura foi fragmentada. Acabaram os enciclopedistas, que colocavam todo o conhecimento humano dentro da sua cabeça. Um Kant, um Hegel, um Einstein, um Freud. Criamos o que ele chamou, citando Ortega y Gasset, de a civilização dos especialistas. E quem são esses especialistas? São pessoas que sabem cada vez mais sobre cada vez menos. São profissionais com visão técnica brilhante, cirúrgica, mas com uma visão cultural de míopes.

Eles olham para o seu grão de poeira no microscópio com total indiferença ao que está acontecendo ao redor do mundo. E esse tipo de formação é perigosíssimo. Quando a universidade foca apenas no utilitarismo técnico e esquece as disciplinas humanísticas, ela falha no seu papel de defensora da civilização. Essa é uma reflexão extremamente importante para os nossos dias, afinal, a especialização dentro da universidade fez com que pesquisadores e cientistas de uma mesma grande área, por exemplo, a alimentação, se dividissem em inúmeras áreas menores.

Ao final do dia, essas pesquisas dentro de uma universidade deveriam se conversar. Mas isso ocorre? Muitas vezes, com a alta demanda por entrega de artigos, que são a métrica de, entre aspas, um bom pesquisador, não se permite que haja tempo para essa troca de conhecimento. Nesse ponto, o pesquisador que precisa cada vez mais e mais publicar artigos não é incentivado a buscar novos horizontes no seu trabalho, e isto é perigoso, pois sem essa integração ocorre o que Josué colocaria como a produção de verdades cientificamente mutiladas.

Estamos chegando ao fim de mais um episódio do Fome Zero Podcast. E ao olharmos para trás, para esses 80 anos da fundação do Instituto de Nutrição Josué de Castro, a mensagem de seu patrono se mostra mais viva do que nunca. Como Josué escreveu, as universidades, mais do que oficina de sábios, precisam ser fábrica de seres humanos. Seres humanos defensores da cultura. Cultura a qual abrange em seu organismo todas as manifestações sensíveis e racionais do ser humano.

A beleza artística, a verdade científica, o conceito filosófico, a estrutura política, a fé religiosa. Tudo isso se exprimindo numa interpretação orgânica, dentro do princípio de solidariedade das partes para a manutenção do todo. O ensino universitário, a produção científica, a tecnologia de ponta, nada disso tem valor real se não for um instrumento de orientação vital a serviço das aspirações profundas da vida humana. A ciência não pode aceitar ser cúmplice da fome, da desigualdade ou da destruição do nosso planeta.

Que em 2026 a gente possa olhar para essas nossas pesquisas para as nossas faculdades, universidades, para o nosso trabalho diário e perguntar: o que e para quem eu estou construindo com o meu conhecimento? O Fome Zero Podcast é uma produção do Instituto Fome Zero em parceria com a Biscoito Digital. A produção e locução são minhas, Gustavo Torres. A coordenação do podcast fica a cargo de Edward Magro, Renata Vital, e Antônio César Ortega.

Expanda essa conversa compartilhando o episódio com a família e amigos. Muito obrigado por ouvir a gente até aqui e até mais.

A Função Social da Ciência e das Universidades #12 | Castnews Index — Castnews Index