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O Fazendeiro que Lutou pela Reforma Agrária: José Gomes da Silva #16

03 de setembro de 202643min
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O Fazendeiro que Lutou pela Reforma Agrária: José Gomes da Silva - Fome Zero Podcast #16


Neste episódio, resgatamos a história, o legado e a trajetória de uma das figuras mais emblemáticas da questão agrária no Brasil: José Gomes da Silva, o Zé Gomes. Engenheiro agrônomo, pesquisador e fazendeiro, Zé Gomes destacou-se ao defender incansavelmente que a reforma agrária, a justa distribuição de terras e a capacitação técnica dos camponeses são pilares fundamentais para elevar os níveis econômicos e alimentares de toda a sociedade.
Neste episódio recebemos José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO, diretor do Instituto Fome Zero e filho de Zé Gomes. Em um resgate emocionante e rico em detalhes históricos, Graziano rememora a origem humilde da família, a juventude do pai na Esalq/USP, a passagem pelos Estados Unidos e o seu pioneirismo na introdução e difusão da cultura da soja no país. O episódio aprofunda a atuação técnica de Zé Gomes na criação da CATI, seu papel central na elaboração do Estatuto da Terra durante o governo Castelo Branco e as frustrações com o esvaziamento das políticas públicas de democratização do solo.
O debate percorre a fundação da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), a perseguição velada sofrida durante a ditadura militar e os intensos desafios enfrentados ao assumir a presidência do INCRA no governo Sarney durante a elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária. Por fim, a conversa conecta a visão produtivista e pioneira de Zé Gomes com a formulação dos primeiros programas de segurança alimentar nos anos 1990 e os desafios atuais da agroecologia, da sustentabilidade e da luta contra a fome no Brasil.
Prepare-se para conhecer a vida de um homem que transformou seu conhecimento técnico em compromisso social e descubra por que a luta pela terra e pelo direito à alimentação saudável segue mais viva do que nunca.

Acervo José Gomes da Silva: https://ifz.org.br/acervo-jose-gomes-da-silva/


#Fome #FomeZero #JoseGomesDaSilva #ReformaAgraria #EstatutoDaTerra #SegurancaAlimentar #Agronomia #Soja #ABRA #PoliticasPublicas

Participantes neste episódio2
G

Gustavo Torres

Host
J

José Graziano da Silva

EntrevistadoEx-diretor-geral da FAO, diretor do Instituto Fome Zero
Assuntos6
  • A origem humilde de José Gomes da Silva e sua busca por educaçãoJosé Gomes da Silva·Marinha Grande·Piracicaba·Fundação Rockefeller
  • O pioneirismo de José Gomes da Silva na introdução da soja no BrasilJosé Gomes da Silva·soja·Universidade do Illinois
  • O papel de José Gomes da Silva na elaboração do Estatuto da TerraEstatuto da Terra·José Gomes da Silva·governo Castelo Branco·SUPRA
  • A visão de José Gomes da Silva e o programa Fome ZeroJosé Gomes da Silva·Fome Zero·segurança alimentar·Lula
  • A criação da CATI e a extensão rural no Brasil por José Gomes da SilvaCATI·extensão rural·Instituto Agronômico de Campinas
  • A frustração de José Gomes da Silva com a não implementação da reforma agráriareforma agrária·INCRA·Poder Judiciário
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JGJosé Graziano da Silva

Aí, muito dificilmente o PSL, que ajudou a eleger o presidente, vai concordar em perder o poder político que a reforma agrária quebra. Porque reforma agrária não é o assentamento isolado, é uma mudança ampla na posse da terra em áreas contíguas, em grandes espaços, que muda a correlação de forças. E isso significa outro tipo de eleitor. E nós sabemos que o pessoal dos grotões não quer outro tipo de eleitor. Doutor José Gomes da Silva, o senhor tem fazenda onde?

Eu tenho 3 fazendas, tenho que fazer propaganda de— Aguarde aí. Onde? Uma em Pirassununga e duas em Itabau. E uma faz fábrica? Não, nós produzimos cana, mas vendemos cana para uma usina ali. O senhor não tem ação no Cheirinho Bão? Não, porque não tem espaço vazio nas minhas fazendas, não tem espaço vazio. Tanto assim que eu tenho, eu ganho diversos concursos de produtividade e de conservação do solo. E tenho o grande orgulho de dizer que os 3 títulos que eu tenho de produtividade foram outorgados por adversários políticos.

Só tem muitos companheiros fazendeiros que participam, partilham desse seu ponto de vista? Não, eu tô à procura deles, sabe? Não tenho conseguido encontrar muito.

GTGustavo Torres

Essa entrevista que você acabou de ouvir aconteceu no Jornal da Record, setembro de 1995. O jornalista Chico Pinheiro entrevistou o nosso homenageado de hoje, José Gomes da Silva, ou como era conhecido por muitos, Zé Gomes. Essa entrevista é curiosa, pois Zé Gomes faz uma denúncia às grandes figuras da política brasileira, aos donos de terra, muitas vezes improdutivas, que têm medo da reforma agrária, pois esta iria mudar a correlação de forças na terra.

E se diz um fazendeiro orgulhoso, que tem 3 fazendas e que não tem medo nenhum de uma ocupação por parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, já que suas fazendas ganham diversos prêmios em produtividade, principalmente de seus inimigos políticos. Mas essa pequena entrevista, e esse pequeno trecho são insuficientes para contar a história desse homem que dedicou a sua vida inteira por uma melhor distribuição de terra e de crédito no rural brasileiro, por uma reforma agrária justa que elevasse os níveis econômicos e alimentares das populações tanto no campo como nas cidades.

E é por isso que hoje falaremos da vida e obra de José Gomes da Silva. Olá, comunidade do Instituto Fome Zero, tudo bem com vocês? Meu nome é Gustavo Torres e você está em mais um episódio do Fome Zero Podcast. No episódio de hoje, como já vimos na nossa introdução, falaremos de José Gomes da Silva. Nascido em Ribeirão Preto em 1924, foi engenheiro agrônomo, fazendeiro e um dos principais defensores e expoentes da reforma agrária no Brasil, tendo levado o movimento dos trabalhadores rurais sem terra à consciência de que, além dos problemas e desafios da questão agrária no Brasil, deveria ser observada também a necessidade de capacitação técnica desses camponeses.

E para contar um pouco mais da vida e obra de Zé Gomes, recebo hoje José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO e diretor do Instituto Fome Zero, também filho de José Gomes da Silva. Professor, obrigado por aceitar nosso convite para conversar um pouco sobre o seu pai. E acho que uma das primeiras perguntas é: como foi a infância dele? De onde veio, né? De onde vieram seus avós? O que faziam? De onde veio esse desejo, essa busca pelas questões sociais, principalmente pela questão da reforma agrária?

JGJosé Graziano da Silva

Olha, não há dúvida que meu pai veio de uma origem humilde. Meu avô migrou pro Brasil quando se casou com a minha avó, Dona Maria do Céu. E até hoje a família que restou em Portugal não fala por que que eles migraram. Aparentemente alguma rixa familiar, algum problema, porque a origem é de uma cidade muito pequena no norte de Portugal, Marinha Grande, próxima a Leiria, que é uma região florestal. E ali tinha o grande empregador, era uma indústria manufatureira de vidro, aquelas confecções de garrafa de cristal, sopradores de vidro que eles eram.

E meu avô era jovem ainda, um tipo de um, vamos chamar de feitor. Ele não era soprador de vidro, ele era o que tomava conta de uma ala e possivelmente algum entendimento com o pai dele, família dele, em função do casamento, que eles praticamente fugiram para casar e vieram para o Brasil. Meus avós tiveram 9 filhos, sendo um detalhe interessante que as 5 primeiras são mulheres e depois 4 homens. E meu avô tinha uma venda e obviamente as mulheres logo se incorporaram a trabalhar na venda.

E essa é a origem da família. Meu pai é o primeiro, ele é o segundo homem entre os homens, né, que são os 4 últimos filhos. O primeiro foi um militar, chegou a coronel da Força Pública. Meu pai é o segundo, é o primeiro que sai para estudar. Eu sei das histórias que ele contava, dificuldade que era de se manter em Piracicaba, ele tinha que se manter por conta própria. Então, naquela época, Não havia Xerox, então ele fazia cadernos para os outros, vendia cadernos.

Ele copiava as aulas, tomava nota das aulas e vendia esses cadernos, que era a sua fonte de sobrevivência. Formou-se, ganhou uma bolsa, ele foi o primeiro aluno da turma, ganhou uma bolsa da Fundação Rockefeller. Para ir fazer mestrado nos Estados Unidos e foi fazer o mestrado em óleo de soja, foi estudar óleo de soja. E quando voltou ao Brasil comigo, já de contrabando, trouxe umas sementinhas no bolso, como era costume naquela, e introduziu novas variedades de soja nas então existentes aqui no Brasil.

Ah, eu não convivi muito com meus avós paternos, né, porque eles moravam em Ribeirão. Eu me lembro que a gente ia visitá-los nas férias, mas naquela época levava um dia inteiro, saía de madrugada, chegava à noite. De Campinas a Ribeirão Preto eram 10 horas de viagem de carro, nos carros da época, né. Então eu não tive uma grande convivência com ele. Mas o meu avô era urbano, de origem urbana, de corte urbano, ainda que ele durante um bom tempo, aproveitando o parque que tinha, que era um ponto de reunião de trabalhadores volantes na época, ele era um tipo de organizador de turmas de trabalhadores volantes.

Ele organizava as turmas que eram daí recolhidas por caminhões para ir trabalhar na roça de café. Depois eu tive oportunidade de conviver com meu avô quando ele foi ajudar a tomar conta de uma das fazendas, ou da fazenda que meu pai tinha no norte do Paraná, ajudar a abrir a fazenda, desmatar, etc. Mas o que eu me lembro, ele, que ele não era muito afeito não às lides agrícolas, vamos dizer assim, Não era grande paixão dele, ele achava tudo muito complicado, mas meu pai tinha essa ambição.

GTGustavo Torres

É interessante ver esse contraste entre seu avô e seu pai, né? E como foi que seu pai migrou desse trabalho de pesquisa acadêmica para atuar mais diretamente na gestão e na criação de órgãos públicos do setor agrícola?

JGJosé Graziano da Silva

Ele trabalhava no Instituto Agronômico, era o pesquisador do Instituto Agronômico, e ele sai do Instituto Agronômico para criar a CAT, Coordenadoria de Assistência Técnica Integral. Na época chamava-se DAT, Divisão de Assistência Técnica, para fazer extensão, porque o agronômico só fazia pesquisa, não fazia extensão. Era muito rígido isso, essa separação na época, de modo que criou-se um organismo diferenciado para fazer assistência técnica.

Havia uma dificuldade muito grande de levar novas tecnologias geradas no Instituto Agronômico de Campinas para os produtores, especialmente para os pequenos produtores. O Brasil não tinha um sistema de extensão. Como tinha nos Estados Unidos. Meu pai volta muito marcado pela experiência americana, né? Ele foi fazer o mestrado dele, naquela época só tinha mestrado, não tinha doutorado. Ele foi fazer na Universidade do Illinois, que é o centro-oeste americano, é o centro da Revolução Verde, a origem aí forte da Revolução Verde, baseada num forte sistema de extensão rural estatal e assistência técnica.

Então, de alguma maneira, ele transplanta, copia esse modelo aqui para o caso brasileiro. Isso se mantém até hoje, apesar da, digamos, decadência da extensão rural pública em função do crescimento aí da extensão rural privada. Até hoje a CATE se mantém. Uma estrutura que tem muito mais burocrática e burocratizada, né? É um lugar de carimbar papéis, eu diria, mais do que transmissão de tecnologia, mas se mantém até hoje. E meu pai sempre conviveu com esse tema de ter uma fazenda.

Ele, antes da geada do início dos anos 60, ele vende essa propriedade no Paraná e entra de sócio com meu avô materno na compra de uma fazenda que nós temos até hoje, chamada Fazenda Santana do Baguaçu. Era uma fazenda em decadência de café grande que foi sendo subdividida em pequenos pedaços pelos herdeiros, e eles compram uma parte E inicia um processo de recuperação do café e da fazenda. Então essa é a história que eu sei, que me lembro.

GTGustavo Torres

E voltando à questão da importância do seu pai para a agricultura brasileira, O ex-ministro da Agricultura, o Luiz Carlos Guedes Pinto, ele disse que seu pai foi fundamental para a implementação da soja no Brasil. Então gostaria que o senhor comentasse, né, essa, essa importância dele para uma commodity que hoje é a que o Brasil mais produz.

JGJosé Graziano da Silva

O Guedes foi aluno do meu pai, né, e trabalhou com ele a vida toda. O meu pai tinha um apelido chamado Zé Sojinha, tá? Pra ter uma ideia da força que era o tema da soja na vida dele. E ele propagou a soja por todos os cantos aí. Ao contrário do que se faz hoje de maltratar a soja, a soja é um grande alimento, é um primo do feijão, tem uma quantidade de proteína superior até ao do feijão. Além de produzir o óleo, coisa que o feijão não produz.

E quase todos os nossos alimentos têm alguma coisa de soja. Tanto é que muitas vezes você vê na embalagem não contém soja como um fato positivo. Mas antes, eu sou testemunha disso, eu tinha uma forte intolerância a leite, uma alergia. Sobrevivi graças ao leite de soja que eu mesmo fazia. Aprendi a fazer desde pequeno leite de soja, porque a soja tem um valor nutricional como poucos alimentos têm, incomparável. E essa difusão da soja alterou profundamente a dieta brasileira.

Ela foi usada principalmente como alimento animal, mas como ingrediente de qualquer tipo de alimentação também humana. Você só não come soja pura. Eu já comi salada de soja, muito boa também, mas poucas vezes você tem um acesso direto à soja, é mais processada, farinha de soja, leite de soja, etc.

GTGustavo Torres

Bom, vamos entrar agora no Estatuto da Terra, né? Seu pai foi um dos redatores, então ele aconteceu no governo militar, bem no começo do governo, um governo que começou também Muito por medo de que o Brasil estava discutindo muito reforma agrária, né, muito para conter as movimentações do campo, uma coisa que os militares e os Estados Unidos tinham muito medo do Brasil. O que o senhor pode contar sobre os principais pontos do trabalho do seu pai nessa época, nesse começo, e até a sua decepção, né, com uma não implementação de muita coisa que estava lá nesse estatuto.

JGJosé Graziano da Silva

O golpe militar levou ao poder o general Castelo Branco, que era uma figura muito respeitada, não apenas pelos militares, pelos civis também. Contava meu pai que ele tomou uma decisão mais ou menos numa base assim racional: qual o estado agrícola mais importante do Brasil? São Paulo. Então vamos ver o que tem São Paulo de agricultura. Tem a melhor escola de agronomia. Quem é o diretor dessa escola de agronomia? Professor Hugo Leme.

Ah, bom, então ele vai ser o ministro da Agricultura. E assim foi, convidou Hugo Leme para ser ministro da Agricultura. O Hugo Leme montou um grupo de trabalho sobre a reforma agrária E convidou meu pai pela experiência que tinha aqui, o que se chamava Revisão Agrária Paulista, feita durante o governo Carvalho Pinto, que tinha sido um tremendo sucesso, um êxito muito grande. Terras improdutivas se converteram em grandes núcleos produtores de alimentos na periferia dos centros urbanos.

O governo de São Paulo tinha muitas fazendas, como ainda mantém, algumas hoje, que foram então entregues para fazer essa reforma agrária através da DAT. A DAT tava no comando disso. Montado esse grupo de trabalho do Estatuto da Terra, meu pai foi coordenar esse grupo e ele foi também apontado como superintendente da SUPRA. A SUPRA, que foi nas mãos do João Pinheiro Neto foi uma das razões importantes do golpe de Estado, pela defesa da reforma agrária.

O meu pai foi o último presidente da SUPRA, porque o Estatuto da Terra criou duas entidades: o Instituto Nacional de Colonização Agrária e o Instituto Nacional de Reforma Agrária. Mais à frente, depois, os dois se fundiram no INCRA, que é hoje. Mas antes eram duas entidades separadas, uma para fazer reforma agrária, outra para fazer colonização, justamente para não misturar as coisas. Tinha uma, vamos dizer, intenção forte de não tratar as duas coisas como iguais.

E ele se decepcionou logo com isso, porque foi escolhido para presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária um engenheiro civil que tinha uma longa tradição em documentação fundiária, fazer mapas, cartografia, etc., mapear o solo mais do que dividir o solo. De modo que o Instituto Nacional de Reforma Agrária se tornou um mapeador de terras e mapeador de áreas de conflito mais do que um instrumento de redistribuição. Meu pai se demitiu e voltou para Campinas aí logo nos primeiros meses de 64.

GTGustavo Torres

E aí, após essa decepção dele com o Estatuto da Terra, sua não implementação de muitos pontos, né, vem a motivação, junto com outros intelectuais da época dessa área, de criar a ABRA. A Associação Brasileira de Reforma Agrária. E à frente da ABRA, quais o senhor colocaria que foram os principais marcos do trabalho dele à frente, os principais objetivos?

JGJosé Graziano da Silva

A ideia era reunir na ABRA, de ser um veículo de difusão de ideias a favor da reforma agrária no Brasil, da necessidade de uma reforma agrária no Brasil. O principal meio da ABRA era fazer cursos de extensão universitária e ter uma revista. A revista da ABRA era uma revista muito difundida e circulava aí nos meios de resistência, vamos dizer assim, era muito respeitada. O objetivo era esse, manter as ideias, a luta acesa e renovar sempre essa necessidade do país realizar uma reforma agrária para acelerar o desenvolvimento agrário.

GTGustavo Torres

Professor, e agora vamos entrar em uma questão aqui, que é: o seu pai tratava de um tema muito sensível para os militares era reforma agrária, né? Então, vendo também o acervo dele no Instituto Fome Zero, eu vi que teve até perseguições, né, pelo SNI, por exemplo. Como é que foi a posição da ditadura militar com o seu pai e o trabalho dele?

JGJosé Graziano da Silva

Certamente teve, né? Certamente teve. Nunca nada que a gente tenha sabido explicitamente, mas ele era chamado de comunista, não era bem-vindo numa série de círculos, acho que não foi promovido como devido, né? Isso o levou a se dedicar a ser um empresário rural do que continuar no setor público. Ele só volta ao setor público em 85. Durante todo esse intervalo, depois que sai da Supra, né, 64, ele fica num ostracismo total, completamente marginalizado, e vai ser fazendeiro, um fazendeiro de excelência, como ele costumava dizer.

GTGustavo Torres

E falando de fazendeiro de excelência, A gente tava falando que muitas pessoas não gostavam do trabalho dele e os outros fazendeiros também não, né? Já que ele era um grande defensor da reforma agrária e os outros fazendeiros da época tinham muito medo. Mas ele falava que ele não tinha esse medo porque a fazenda dele ganhava prêmios, e prêmios de produtividade sempre, né? E isso não era um problema para ele. Então, como que os outros grandes fazendeiros da época viam a figura do seu pai, vamos colocar assim, como um traidor de classe, né?

JGJosé Graziano da Silva

Na época havia uma distinção muito forte, que hoje já é muito pouco nítida na minha opinião, entre o proprietário de terras, também chamado de latifundiário, porque era um proprietário de grandes extensões de terra, em geral mal cultivadas, eram pastagens extensivas de baixa lotação, e os agricultores que eram inovadores tecnológicos, seja da cultura como café, que são uma cultura que sempre demandou muita tecnologia, seja de novas culturas que estavam entrando, como o caso do milho e da soja em rotação.

Então esse segmento de fazendeiros que cultivavam as terras e que eram reconhecidos pelo seu papel produtivo, ele tinha uma aceitação razoável. Era chamado de idealista, mas não era hostilizado. Mas havia um outro segmento que foi capitaneado pelos latifundiários, né, que o hostilizavam. Nessa época, é importante contar que a reforma agrária, ela se estende em toda a América Latina por força da Aliança para o Progresso do presidente Kennedy.

O Kennedy, quando toma posse, coloca entre as prioridades fazer a reforma agrária nos países da América Latina, literalmente dizendo para evitar novas Cubas. Se reconhecia esse potencial revolucionário que tinha a questão da luta da terra. E para evitar que isso se estendesse aos países do continente, né, onde haviam fortes contradições, sobretudo com os segmentos indígenas na luta pela terra com os novos colonizadores, se implementou leis de reforma agrária.

Eu estudei razoavelmente essas leis aqui na América Latina. E todas elas deram para trás, não foram avante, porque eram criações muito artificiais e não correspondiam à correlação de forças existentes. Poucos países realmente aplicaram a reforma agrária. Um deles foi o Chile, com Jacques Champsolle, que era também um agrônomo, muito amigo do meu pai, tinha uma relação muito pessoal e familiar. No governo Allende, e que também deu no que deu, que nós sabemos.

Mas com exceção disso, nenhum outro país, nem mesmo a Bolívia de que tanto se fala, fez uma reforma agrária de expressão, de desapropriar grande número de propriedades e assentar um grande número de novos produtores.

GTGustavo Torres

E agora, um pouco mais para frente, vamos chegar aqui em 85, no período da redemocratização. No governo Sarney, em que ele assume o INCRA, né? O senhor disse que ele se decepcionou também porque essa nova formação do Brasil, que ainda estava muito ligada, né, com as elites, com os militares, que parece que não estavam tão fora do poder assim. Quais foram os desafios quando ele entrou para assumir o INCRA e quais foram os principais objetivos e decepções dele nesse momento?

JGJosé Graziano da Silva

Bom, os objetivos eram implantar o Plano Nacional de Reforma Agrária, elaborado pelo Plínio Sampaio, com ampla participação de setores da sociedade civil organizada, incluindo o que seria depois o MST. Eu não gostaria de entrar em detalhes do plano, mas o plano foi muito ousado. E eu diria muito pouco preciso. Dou um exemplo do qual o Rossetto, que foi o primeiro-ministro do MDA no governo Lula, se queixava muito, né? As áreas de assentamento para serem desapropriadas no Rio Grande do Sul incluíam tudo que é o charco ali.

Toda a área inundada do centro do Rio Grande do Sul, que é uma área de pecuária extensiva, muito baixa, mas que tem esse problema da periódica, mesmo na época das chuvas ela é inundada. Não é só muito recente que isso foi objeto de canais de drenagem, etc. Era virtualmente impossível assentar nesses locais. E haviam outros casos assim, de imprecisão grande na identificação das áreas a serem desapropriadas. O critério fundamental, ou um dos critérios fundamentais, melhor dizendo, foi o de áreas de conflito.

A ideia da reforma agrária era pacificar o campo. Esse era o grande objetivo do Plano Nacional de Reforma Agrária, além obviamente de assentar pessoas, novos produtores. Nessa pacificação, o primeiro input, o primeiro insumo, foi usar os levantamentos da CPT de conflitos, de áreas de conflitos, e mapear então essas áreas de conflito como áreas potenciais de assentamentos. Eu me lembro do meu pai usar a expressão de que Na época não havia PowerPoint, então você fazia mapas.

Levou um mapa do Brasil com as áreas de conflito em vermelho, e a reação do Sarney teria sido de dizer: poxa, mas parece que o Brasil tá menstruado. E isso dá uma ideia da reação que ele teve. Gavetou, nunca tomou nenhuma iniciativa, e dificultava Tudo. Um dos casos que serviu para demissão do meu pai foi que, para você decretar área de reforma agrária, você tinha que decretar o município como área prioritária de reforma agrária.

Não tinha uma unidade administrativa à época menor que o município. Não tinha os distritos, subdistritos, etc., como temos hoje. Os mapas eram de dimensão municipal, e um dos municípios onde tinha um conflito de terra muito acirrado era em Londrina, no Paraná, que era um centro de reação conservadora agrária muito forte, ou seja, talvez o maior, mais que Goiás à época. Londrina estava esperando esse decreto de decretar o município como área prioritária para realizar reforma agrária.

Os proprietários lá prepararam toda uma reação à promulgação do decreto, dizem que em combinação com o Sarney. De maneira que quando sai o decreto do INCRA dizendo que Londrina era uma área prioritária para fazer a reforma agrária, pipocaram na imprensa liderada pelo Estado de São Paulo uma série de artigos e matérias muito bem documentadas mostrando que Londrina era um centro inovador de agricultura, tinha muita produção, etc., exatamente contrapondo a ideia de que a reforma agrária iria atingir apenas as áreas não produtivas.

E aí então toda discussão passa a se dar em torno do que é produtivo, que não é produtivo, separar o que é produtivo, que não é produtivo. E isso mata a reforma agrária, porque você não consegue definir índices razoáveis para definir o que era produtivo ou não. Eu me lembro da discussão se um boi por hectare era produtivo ou não, que era um exemplo da lutação média que existia nessas áreas de pastagem extensiva. Mas isso enterra, no meu modo de ver, toda a dinâmica da discussão de assentamentos a partir de então.

E a partir daí, os retrocessos seguintes são legais. Há uma série de leis, legislação aprovada pelo Congresso e ratificada pelo poder mais conservador do Brasil, que é o Poder Judiciário, A gente acha que o Executivo é conservador. O Judiciário tá muito à frente dessas coisas e que antecipa em geral essas ações. Na verdade, quem acaba com a reforma agrária, quem acaba com a possibilidade de desapropriar terra no Brasil é o Poder Judiciário, quando obriga a indenização pelo preço de mercado das terras e obriga a fazer um levantamento detalhado, uma justificativa detalhada dessas áreas desapropriadas.

Isso torna interminável e dá uma série de recursos possíveis que transformam o processo de desapropriação numa novela sem fim e impede a desapropriação. E aí o governo, para poder atender às demandas sociais geradas, porque houve demanda social, os sem-terra se organizaram, passaram a ser um movimento nacional, recrutaram gente, recrutaram desempregados, das periferias urbanas, né, para fazer acampamentos para lutar pela reforma agrária.

Nesse processo se estreitou ainda mais a margem do governo, que teve que começar a comprar terra. Então, quando você começa a comprar terra, você passa a ser um agente que impulsiona o aumento do preço da terra e cria uma demanda artificial por terra. Onde ela não existia, e começa a subir o preço da terra, transformando o preço da terra numa mercadoria altamente valorizada e impossível cada vez mais de ser desapropriada. Um verdadeiro movimento especulativo com a terra gerada pelas iniciativas de compra governamentais.

Toda vez que o governo tinha que desapropriar uma fazenda, ficava se esperando o lance que o governo daria, o que oferecia. Então oferecia sempre um determinado lote de terra. E a partir daí aquela terra passava a valer R$200. O mercado se impunha no seu processo especulativo, como todo movimento especulativo, que principalmente acontece hoje.

GTGustavo Torres

E dentro do nosso acervo, do Instituto Fome Zero sobre o seu pai, a gente tem, a partir da década de 90, final da década de 80, começo de 90, vários livros que ele vai participar, cartilhas sobre a reforma agrária, mas juntamente agora com Plano Nacional de Segurança Alimentar, né, com esse termo, dentro do governo paralelo. Como foi a necessidade de repensar, pensar algo diferente para a realidade brasileira, e como esse conceito de segurança alimentar começa começa a aparecer nas prioridades dele?

JGJosé Graziano da Silva

Olha, na verdade, desde a Aliança para o Progresso, lá o programa do Kennedy, a justificativa maior da reforma agrária era produzir mais alimentos, acabar com a fome, quer dizer, a paz no campo e acabar com a fome. Esses eram os grandes objetivos. Então a reforma agrária teve sempre associada a criação de pequenas unidades produtoras de alimentos. Ninguém pensava em fazer reforma agrária para exportar soja ou café, embora fossem, vamos dizer, grandes alternativas, e são até hoje, mas não se pensava nela.

E o problema, vamos dizer, da fome no Brasil era cada vez mais visível nos anos 90. Isso levou o governo paralelo, do qual meu pai era um dos componentes, O Lula, quando perde a eleição para o Collor, cria um governo paralelo, na época chamado Instituto Cidadania. E esse governo paralelo tinha várias áreas, uma delas era de agricultura, reforma agrária e segurança alimentar. E ele se vê obrigado a fazer um programa de segurança alimentar.

Primeiro Programa Nacional de Segurança Alimentar. Tem uma cartilha que nós temos inclusive no nosso site do IFZ, primeiro Programa Nacional de Segurança Alimentar. E a ideia era essa, exatamente aumentar a produção de alimentos e fazer uma produção mais compartida, seja de autoconsumo, seja um preço baixo que os agricultores pudessem entregar quase que diretamente ou através de mecanismos como feiras livres, mercado do produtor, etc., aos consumidores urbanos.

Essa é a junção aí que faz da cartilha de segurança alimentar. Mas essa ideia de segurança alimentar já era uma ideia que vinha sendo desenvolvida paralelamente, vamos dizer, a da reforma agrária, pelo Betinho. O Betinho é o grande responsável por essa, vamos dizer, formulação e organização dos primeiros movimentos, né, de luta contra a fome. A Campanha Natal Sem Fome era grande referência, sempre através de sociedade civil e campanhas.

Não eram políticas permanentes, né, nem muito menos governamentais. O Betinho tinha uma certa aversão ao Estado, né? O negócio dele era organização da sociedade civil.

GTGustavo Torres

Já aproveitando aqui também que foi citado, a gente tem um episódio sobre o Betinho com a participação do seu filho Daniel, episódio brilhante. Só você, ouvinte, rolar aí a timeline do nosso podcast, você vai encontrar lá. E agora, professor, entrar para as questões finais aqui. O seu pai faleceu em 1996, pouco antes do programa Fome Zero. Como o senhor entende, né, o programa Fome Zero como uma continuação do trabalho dele? Que provavelmente, né, uma pessoa de 1924 ali no começo de 2003 seria menos de 80 anos, provavelmente também estaria nesse governo contribuindo.

Por fim, qual conselho o senhor acha que ele poderia dar para essa continuação aqui que estamos fazendo, né, em relação ao Instituto Femi Zero? E se o senhor quiser deixar uma mensagem final mais familiar, pode ficar à vontade para comentar e encerrar.

JGJosé Graziano da Silva

Bom, eu obviamente sofri muita influência do meu pai, né? Em tudo, seja por ter ido fazer agronomia, seja por ter feito pós-graduação logo em seguida, de ter escolhido a carreira acadêmica. Nós divergimos exatamente quando eu entrei no PT. Ele era parte do PMDB, da turma do Mário Covas. PMDB progressista. Tenho certeza que se ele continuasse vivo, ele teria caído fora do PMDB, mas ele até o final foi PMDB, embora tenha aderido à candidatura do Lula já, não na do Collor, mas na tentativa seguinte de eleição.

Ele chegou a fazer campanha e tava convencido que o Lula era o único o cara que poderia de fato implantar a reforma agrária no Brasil. O tema da fome, na cabeça do meu pai, era muito a ver com o aumento da produção. Nessa época ainda prevalecia a ideia de falta de alimentos. A Revolução Verde tava nos seus primórdios e o tema da fome era um grande desafio. Expandir a produção de grãos era o tema de todos, uma certa visão quase neomalthusiana, né, medo do crescimento populacional, que a produção agrícola não fosse ser suficiente.

Isso hoje não faz o menor sentido, mas eu diria que a visão que o Zé Gomes tinha era uma muito produtivista da reforma agrária. E na medida que isso foi resolvido de outra maneira, pela modernização conservadora, sem ter que desapropriar a terra, ficou a luta política, né, que ele então percebeu que era um partido político e um líder carismático como Lula que poderia levar essa luta adiante. Eu acho que se ele tivesse vivo, ele estaria no Instituto Fome Zero hoje.

O Instituto Fome Zero foi formado durante o governo Bolsonaro, que estava fazendo um desmonte de todas as políticas de segurança alimentar que tinham sido criadas nos governos anteriores do Lula e da Dilma. Era um símbolo de resistência. A inspiração que nós tivemos foi: vamos nos juntar, quase que como foi feito com a ABRA, vamos juntar quem ainda defende essa ideia E fazer alguma coisa juntos, resistir juntos é mais fácil. E acho que se ele tivesse que dar algum conselho, seria que ele sempre dizia: nunca desista.

Acho que esse é um lema que sempre o guiou, né? As boas lutas a gente não desiste, tem que encontrar sempre uma outra forma de atualizá-las, refazê-las, etc. E eu acho que nós estamos nisso agora. Quer dizer, Brasil já saiu pelo mapa da fome a segunda vez. Nossa luta agora é evitar que ele volte novamente pela segunda vez ao mapa da fome, que aconteça o que acontecer, garantir que isso não ocorra. Mas mais com que isso tá cada vez mais claro que a luta vai além de ter um mínimo para comer, que é ter uma comida saudável.

E baseada numa forma de produção sustentável. Então se entrelaçam aí a luta por uma dieta saudável e uma produção sustentável, agroecológica, eu diria, né, que tá cada vez mais presente nas nossas discussões. Essa interação entre comida, nutrição, saúde e ambiente, meio ambiente, é o desafio do momento e é o que o Instituto Fome Zero tem como bandeira agora, de unificar essas lutas.

GTGustavo Torres

Deu para perceber que em um episódio de uma hora é impossível comentar a vida inteira desse grande defensor da reforma agrária brasileira, alimentação, do direito dos povos a um pedaço de terra. Se você quiser saber mais sobre Zé Gomes, aqui fica a indicação do acervo José Gomes da Silva dentro do site do Instituto Fome Zero. Existem diversos livros, vídeos de entrevistas e outros materiais que você pode conferir. Mas por hoje a gente fica por aqui.

Gostaríamos de agradecer ao professor Graziano pela entrevista e a você pela companhia de sempre. Muito obrigado e até o próximo episódio. O Fome Zero Podcast é uma realização do Instituto Fome Zero e do Biscoito digital. A produção é minha, Gustavo Torres. A equipe de comunicação do Instituto também é composta por Edward Magro, Renata Vital e Antônio César Ortega. Nesse episódio usou áudios do site Incompetech, de Kevin MacLeod.

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A gente agradece ao professor Graziano pela entrevista E a você pela companhia até aqui. O meu muito obrigado e até o próximo episódio.

O Fazendeiro que Lutou pela Reforma Agrária: José Gomes da Silva #16 | Castnews Index — Castnews Index