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Uma Conversa sobre Alimentação com Bela Gil #14

30 de julho de 202634min
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Fome Zero Podcast - Episódio 14

Uma Conversa sobre Alimentação com Bela Gil

Neste episódio do Fome Zero Podcast, recebemos Bela Gil, chef de cozinha, formada em nutrição, apresentadora de TV e escritora. Cofundadora do Instituto de Educação Alimentar Comida e Cultura, Bela já publicou oito livros, está à frente dos restaurantes Camélia Òdòdó e Preta Maria, em São Paulo, e é também criadora da Refazenda, sua marca de produtos saudáveis que celebra uma alimentação mais natural e consciente. Atualmente, integra o elenco do programa Saia Justa, no canal GNT.

Com uma trajetória marcante no ativismo alimentar, Bela nos guia por uma reflexão profunda sobre o papel da comida como um poderoso ato político, cultural e de promoção do bem-estar coletivo. A partir de suas influências nas medicinas ancestrais e nas filosofias orientais (como a Ayurveda e a macrobiótica), a convidada nos mostra a importância de enxergar a nutrição de forma holística, superando a visão reducionista do "nutricionismo" ocidental. Ao longo da conversa comandada por Gustavo Torres, Bela compartilha suas vivências no ambiente acadêmico, sua visão crítica sobre as pressões e o lobby da indústria de alimentos, e faz um alerta urgente sobre os perigos dos alimentos ultraprocessados para a saúde pública.
O debate também se aprofunda nos temas de seu livro Quem Vai Fazer Essa Comida?, abordando a divisão sexual do trabalho doméstico, a invisibilização deste na manutenção da vida e a urgência de coletivizar o trabalho do cuidado com o apoio do Estado, da comunidade e do setor privado. Além disso, exploramos os bastidores de gerir restaurantes sustentáveis e a importância de promover a educação alimentar infantil para formar cidadãos conscientes desde o início da vida.
Prepare-se para entender por que a cozinha é uma ferramenta potente de transformação e descubra como o ativismo alimentar, somado a políticas públicas estruturantes, é indispensável para construir uma sociedade mais justa e saudável.

#Fome #FomeZero #BelaGil #Nutricao #AlimentacaoSaudavel #PoliticasPublicas #TrabalhoDoCuidado #EducacaoAlimentar #SaudePublica #Ultraprocessados


Produção e Apresentação: Gustavo Torres
Coordenação: Antônio César Ortega, Edward Magro e Renata Victal
Realização: Instituto Fome Zero e Bixcoito Digital

Participantes neste episódio2
G

Gustavo Torres

Host
B

Bela Gil

ConvidadoChef de cozinha, nutricionista, apresentadora de TV e escritora
Assuntos8
  • Alimentos Ultraprocessados· SaudeAlimentos in natura · Doenças crônicas não transmissíveis · Desigualdade social e acesso à comida
  • Coletivização do cuidadoDivisão sexual do trabalho doméstico · Papel do Estado e políticas públicas · Iniciativa privada e restaurantes populares · Mulheres e mercado de trabalho
  • Preconceitos com comidasDieta macrobiótica · Yin e Yang · Lobby da indústria de alimentos · Margarina vs. Manteiga
  • Visão Holística da AlimentaçãoAyurveda · Nutricionismo ocidental · Impacto no meio ambiente
  • Trajetórias de ativismo· SociedadeEstudo da história · Projetos de incidência política · Michael
  • Nutrição e Alimentação· SaudeYoga e bem-estar · Nutrição funcional · Alimentos ultraprocessados
  • Gastronomia e restaurantes· CulturaRestaurante Camélia O Dodó · Restaurante Mocotó · Alimentos orgânicos e agroecológicos · Propósito do negócio
  • Dicas culturais· CulturaThe Bear · Fome e Mapa da Fome · Rodrigo Pacheco
Transcrição21 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GTGustavo Torres

Olá, ouvintes do Instituto Fome Zero, tudo bem com vocês? Meu nome é Gustavo Torres e você está ouvindo mais um episódio do Fome Zero Podcast. No episódio de hoje, como vocês já devem ter notado pela capa do episódio, entrevistaremos uma das maiores comunicadoras sobre alimentação saudável no Brasil, Bela Gil. Bela é chefe de cozinha, formada em nutrição, apresentadora de TV e escritora. Cofundadora do Instituto de Educação Alimentar Comida e Cultura, Bela já publicou 8 livros, está à frente dos restaurantes Camélia Ododó e Preta Maria em São Paulo e é também criadora da Refazenda, sua marca de produtos saudáveis que celebra uma alimentação mais natural e consciente.

Atualmente, integra o elenco do programa Saia Justa no canal Bom, Bela, muito obrigado pela presença, pela entrevista. E acho que para começar, uma das perguntas que muitas pessoas gostariam de saber quando estamos falando de alimentação com você é: de onde veio essa paixão por estudar, por falar de alimentação e comunicar uma alimentação saudável?

BGBela Gil

Bom, o meu interesse pela alimentação começou muito pelo aspecto funcional, assim, dos alimentos, né? Na nossa saúde, no nosso bem-estar, na nossa vida, assim. Na minha particularmente, né? Eu digo isso porque eu era uma adolescente normal, assim, comia de tudo. E aí me interessei pela prática de yoga e por causa dessa prática eu acho que eu fui mudando a minha alimentação de uma maneira muito orgânica, sem cortes muito radicais, mas parecia que o meu corpo começou a falar comigo assim, ó, Tira um pouco disso, tira um pouco daquilo.

Então foi a fase ali nos meus 15 anos, mais ou menos, que eu comecei a diminuir o consumo de ultraprocessados, de açúcar, de carne. E fui sentindo uma melhora muito grande assim na minha vida, em todos os aspectos, tanto na prática de yoga quanto na minha saúde, no meu bem-estar, no meu humor. Aí isso me despertou um interesse para nutrição, assim. Comecei a me perguntar, nossa, como que a comida influencia tanto a nossa vida?

E aí mais pra frente eu fui morar fora e já querendo me aventurar um pouco na cozinha. E aí eu falei, bom, aqui eu agora preciso entender como as duas coisas funcionam, né? Se eu quero estudar nutrição, quero entender como a comida realmente impacta a nossa saúde e ao mesmo tempo eu quero aprender a fazer esse tipo de comida que me interessa, uma comida saudável e tal. Então juntei as duas coisas, eu fiz curso de culinária e fiz faculdade de nutrição.

E aí, com essas duas formações, eu comecei a enxergar o mundo pela lente da comida. Tudo pra mim girava em torno disso, sabe? Eu comecei a me perguntar também sobre os impactos da alimentação, não só da minha alimentação, mas da alimentação como um todo, né? Das outras culturas, das outras pessoas, dos outros indivíduos, como aquilo impactava. Na vida das pessoas. Então o meu foco na nutrição clínica era muito forte, assim, eu queria poder ajudar as pessoas a se tratar, se curar ou prevenir doenças por meio da alimentação.

E ao mesmo tempo entender os impactos das nossas escolhas alimentares no meio ambiente e na sociedade como um todo. Então acho que nesse momento que eu comecei a entender que a comida ia muito além da nutrição em si e tinha um aspecto político muito forte, né? Eu realmente comecei a acreditar que a gente podia transformar o mundo pela alimentação, pelos sistemas alimentares, né? Para além do consumo de alimentos, mas também entendendo as nossas escolhas de como cultivar os alimentos, como distribuir os alimentos, como consumir, como descartar.

Então isso para mim ficou muito claro assim, falei, uau, ferramenta muito poderosa, muito potente de transformação, e eu quero usar É isso, quero usar esse conhecimento para que a gente possa realmente transformar e melhorar o mundo que a gente vive, para tudo e para todos.

GTGustavo Torres

Bela, e você comentou que começou a gostar de alimentação por causa do yoga, e você também tem uma formação em nutrição ayurvédica, né? E o yoga e a Ayurveda têm o seu mesmo entroncamento ali na filosofia indiana. E o que eu gostaria de saber é se você chegou até a Ayurveda por causa do yoga, e segundo, A partir da formação na nutrição ayurvédica e o curso de nutrição que você fez na faculdade, como essas duas formas de enxergar a alimentação, pra você, elas se contrapõem e se complementam?

BGBela Gil

Sim, eu comecei a praticar yoga ali pelos 15, comecei a ler bastante livros e entender mais sobre a yoga. E aí, né, quando você se aprofunda, você vai cair ali na Ayurveda. Eu me interessei muito, assim, foi o que me abriu pra enxergar a alimentação de uma maneira muito mais holística, assim, muito mais integral, muito menos o que a gente chama hoje de nutricionismo, né, que a gente acaba separando ali os micronutrientes, macronutrientes, querendo enxergar tudo aquilo de maneira isolada, como aquilo funciona exatamente numa célula, e esquece muitas vezes de enxergar o organismo como algo mais complexo e completo mesmo, né?

Eu acho que a Ayurveda me trouxe esse entendimento e uma subjetividade maior também para esse aspecto científico, né, nosso ocidental assim, que é mais separatista mesmo, né? A gente tende a isolar tudo e tal e tal. Então foi importante esse contraponto com a faculdade, né, de nutrição, trabalha mais nutricionismo, e ter esse entendimento, esse conhecimento integral da Ayurveda. Então, pra mim foi muito importante e também foi o que me trouxe a pensar que, nossa, as escolhas alimentares afetam não só a nós, mas ao planeta como um todo.

Então é esse integral que eu digo, não é só falando do indivíduo, mas do nosso ecossistema inteiro, assim, né? Da nossa interação com o planeta, com o meio ambiente, com os animais, com as plantas. Então isso foi muito importante pra mim.

GTGustavo Torres

E além da nutrição ayurvédica, você também tem uma influência muito grande da dieta macrobiótica a partir do seu pai, cantor Gilberto Gil, para quem não sabe dessa informação, que adotou essa alimentação macrobiótica desde os anos 70, né? Essa dieta macrobiótica também vê a alimentação a partir de um equilíbrio muito influenciado pela filosofia taoísta. Então eu queria saber como essas duas filosofias estão presentes na sua vida e se você já teve algum, a partir de uma visão baseada nelas, algum caso assim de discussão, no bom sentido, dentro da sua faculdade de nutrição.

BGBela Gil

Eu acho que de um jeito muito parecido com Ayurveda. As duas filosofias, elas são distintas, mas ao mesmo tempo muito parecidas, assim, no sentido de que o objetivo é sempre atingir um certo equilíbrio, sabe? Entre as energias, entre as forças, entre, enfim, o que nos rege. Então, né, a Ayurveda trabalha muito com os doshas, né? São ali as combinações dos elementos da natureza: fogo, terra, água, ar, espaço. E a macrobiótica trabalha muito com esse sistema da medicina chinesa, do yin e yang, essas duas energias.

Mas o objetivo maior com alimentação é manter um certo equilíbrio entre tudo isso. A Ayurveda com os doshas, a macrobiótica com o yin e yang. Então, pra mim foi muito importante nesse lugar de enxergar a alimentação como realmente uma forma de prevenção, tratamento e cura de doenças. Que as medicinas ancestrais, mais tradicionais, entendem isso de uma maneira muito objetiva mesmo. A gente ainda tá engatinhando assim. Eu acho nesse lugar.

A gente, eu digo Ocidente, né? Agora a gente tá tendo mais pesquisas profundas sobre a importância da nossa microbiota, do intestino, né, para nossa saúde. Algo que a medicina chinesa, Ayurveda, macrobiótica já falam há muitos anos, toda doença começa no intestino. Hoje a gente tem já estudos comprovando isso e tudo mais. Então Eu acho que a importância foi de trazer um contraponto, assim, de não aceitar tudo que a nutrição ocidental ali colocava como verdade, que a gente sabe que tem muito interesse também da indústria por trás, tem muito lobby para fazer a gente acreditar em certas coisas, né?

Eu lembro que na faculdade tinham perguntas que eu ficava discutindo com o professor. Na faculdade teve uma prova, a resposta para eles era que margarina melhor do que manteiga. Que isso claramente tem uma força muito grande, né, da indústria. E a gente sabe que na nutrição ocidental cada hora tem um vilão, tem um mocinho em relação à alimentação, e eles trocam de lugar, né. Uma hora o ovo faz bem, outra hora faz mal. É isso, é manteiga, é margarina.

Hoje já, ainda bem, um consenso do que faz bem e do que faz mal, mas nos detalhes as coisas ali vão mudando de lugar. E essas filosofias e medicinas orientais me deram a oportunidade de questionar melhor essas afirmações da nutrição ocidental, que é importante. A gente não pode aceitar tudo da forma que vem pra gente sem questionar, porque muitas vezes tá errado, muitas vezes é dito ali só por um interesse econômico, político, enfim.

Então a gente precisa desse respaldo assim e desse conhecimento pra se questionar, pra fazer perguntas. E mudar, portanto, o sistema e proteger as pessoas dessas desinformações manipulativas da indústria e da ciência, muitas vezes.

GTGustavo Torres

E você comentou na primeira pergunta que quando foi melhorando sua alimentação, você retirou os alimentos ultraprocessados, né? O termo em si é um termo mais do começo desse século, né? Mas como o seu pai também seguia uma dieta mais natural, também percebia-se que tipo de produtos eram esses mais cedo, né? Eu até brinco que a minha avó também, antes de criarem-se os termos ultraprocessados, sabia que tipo de produto eram esses.

E eu queria saber então como é que foi essa mudança na sua alimentação, como que era a cozinha na sua casa durante a sua infância e adolescência, mas também gostaria de saber como que você resolveu abraçar essa bandeira, né? Você que é uma das vozes mais potentes da rede na luta contra os ultraprocessados.

BGBela Gil

Nasci numa casa que sempre teve comida de panela, né? Comida de verdade, assim. Cresci comendo arroz e feijão. Claro, tinha as besteirinhas aqui e ali e tudo mais, mas eu acho que de uma maneira geral tive grande privilégio de ter uma uma alimentação dita saudável, né, na sua maioria de produtos in natura, feitos por alguém, né. Não era a indústria ali me alimentando, mas sim pessoas. Então eu acho que eu tive essa sorte. E claro que isso, né, ser educada dessa forma, né, essa educação alimentar, ela é fundamental para que a gente tenha discernimento assim de até mesmo físico, de entender, cara, ó, quando a gente come comida de panela, a gente se sente de um jeito E se você for enfiar o pé na jaca diariamente comendo essas besteiras e ultraprocessados, você vai sentir.

Uma hora a conta chega, assim. Então eu acho que isso me ajudou bastante a focar numa alimentação mais saudável. A minha curiosidade pela funcionalidade dos alimentos me despertou pra estudar nutrição. Então eu queria realmente entender o que era melhor pro corpo, o que era melhor pro indivíduo, pro organismo. E como eu disse anteriormente, a gente entendeu que existe um consenso agora de que os ultraprocessados, eles realmente fazem mal à saúde, estão associados a diversas doenças, principalmente ao crescimento de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, câncer, diabetes e etc.

E a própria USP, a Faculdade de Saúde Pública da USP, tem um estudo mostrando uma relação direta entre o consumo de produtos ultraprocessados e e morte. Extraprocessados matam mais do que homicídio no Brasil hoje. Então, pra mim, o fato de comunicar isso é importante porque o meu foco sempre foi o bem-estar, né? Eu quero, assim, o bem-estar de todos, o bem-estar do meio ambiente, o bem-estar da sociedade em geral. Então é importante comunicar o que for ruim pra gente, precisa ser dito.

Então a comunicação veio dessa urgência de fazer com que as pessoas entendam que não é tão inocente como muitas vezes é vendido. Ah, é só um refrigerante, é só um pacotinho. Mas quando você acumula aquilo na sua rotina e tudo mais, tem um impacto muito grande. Quantas pessoas não tiveram que amputar o pé por causa do consumo excessivo de refrigerante? Quantas pessoas não ficaram cegas por causa disso? Quantas pessoas não sobrecarregam, né, o sistema público de saúde, por exemplo, com doenças que poderiam ser prevenidas com uma simples mudança na alimentação?

E aí, obviamente, que vem a questão social, a desigualdade social do nosso país pesa muito, porque é isso, a gente sabe que os ultraprocessados, por causa da indústria, por causa do lobby, por causa dos subsídios que recebem, são muitas vezes o único alimento que muitas pessoas podem consumir. Então é importante a gente também daí trabalhar toda essa questão da redistribuição de renda, trabalhar a igualdade social para que todas as pessoas tenham oportunidade de ter uma vida saudável, porque muitas não escolhem ficar doentes, né?

Acho que ninguém escolhe ficar doente, mas por uma necessidade assim, no sentido de que, nossa, mas é só o que eu tenho para comer, é só o que eu consigo pagar, é só o que eu consigo achar para consumir, acaba consequentemente ficando doente. Então é muito perverso assim a gente pensar que as pessoas não têm direito de se alimentar bem. Isso é muito triste, é muito injusto. Então eu acho que a gente está num momento no Brasil de que a gente já conseguiu entender um mecanismo que funciona pra gente aplacar a fome, fazer com que a gente saia do mapa da fome, de levar comida para mesa das pessoas.

Mas agora o questionamento que vai além é: tá, mas qual é a qualidade desse alimento? Qual é a qualidade da comida? Reformulando e respondendo diretamente a sua pergunta, é essa: uma pessoa que trabalha pelo bem-estar geral tem que falar sobre os perigos dos ultraprocessados.

GTGustavo Torres

Bom, Bela, agora a gente vai falar um pouco do seu livro, que foi lançado em 2023 pela Editora Elefante, com o título Quem vai fazer essa comida? Mulheres, trabalho doméstico e alimentação saudável. Então, dentro daquilo que a gente tava comentando sobre ultraprocessados, né, uma das formas da gente reduzir o consumo é o nosso voltar à cozinha, né. Mas quando a gente fala de voltar à cozinha na nossa sociedade machista, isso recai muito sobre as mulheres, né, e não se passa essa conversa sobre o papel dos homens, né, nessa produção de uma alimentação saudável doméstica.

Então queria saber não só do papel, né, pensando no núcleo ali da família, no papel do homem nessa questão da alimentação, mas também na questão do Estado, né, das políticas públicas que vão diminuir esse trabalho doméstico feminino, e também da questão da iniciativa privada, né. Eu queria até comentar uma experiência que tive na Polônia em relação aos milk bars, né, que são restaurantes que têm esse apoio da comunidade do Estado e da iniciativa privada ao mesmo tempo e que conseguem fornecer alimentos aí, uma alimentação mais barata para a população a partir dessa articulação.

Então eu queria saber de você, dentro dessa questão dessa promoção da alimentação saudável através da culinária, o papel, né, tanto do homem da casa quanto do Estado, da comunidade e da iniciativa privada.

BGBela Gil

Eu acho que não é nem só no preparo de alimentos, né, a gente tem que pensar na coletivização do trabalho do cuidado, que implica o cozinhar, mas também cuidar de uma criança, lavar uma roupa, lavar louça, limpar a casa, cuidar de uma pessoa com deficiência, de um idoso, o que a gente chama de manutenção da vida, né? Se esse trabalho não existe, nenhum outro trabalho é possível. Ninguém vai escrever, fazer uma entrevista aqui, filosofar, compor uma música ou dar uma aula o que quer que seja, se o trabalho doméstico, o trabalho doméstico não remunerado não tá feito.

É muito importante a gente pensar na redistribuição desse trabalho dentro de casa, mas como você mesmo colocou, com a comunidade, com o Estado e com o setor privado, com as empresas. Isso é fundamental. Ontem mesmo eu tava falando sobre isso, assim, as mulheres e principalmente mães sofrem uma pressão terrível que elas precisam trabalhar como se não tivessem filhos e ter filhos como se não trabalhassem. Então, quando a gente falar, é muito importante a gente ver mulheres avançando, ocupando espaços, liderando, virando CEOs e etc. e tal.

Mas para ela se manter nesse lugar, como que funciona, né? Como que ela se mantém ali sem se sentir ameaçada? Porque qualquer coisa ali pode perder o emprego, se engravidar. Se a gente sabe que Hoje, né, mais de 50% das mulheres são mandadas embora depois da licença-maternidade, depois de um ano, quando voltam para o trabalho. Então é uma ameaça real. Então como que a mulher se sustenta ali? Como que ela permanece nesse lugar e ao mesmo tempo sem explorar outras mulheres que fazem esse trabalho do cuidado?

E muitas vezes recai em mulheres pretas, migrantes, pobres. Então como que a gente sana tudo isso, né? E aí, tá bom, a gente tem um diagnóstico, isso é terrível, isso precisa mudar. E o que que a gente faz? E a resposta tá nessa redistribuição, redistribuição do trabalho do cuidado. E eu falo que dentro de casa é isso, é redistribuir entre os gêneros e as idades até. Eu acho que todo mundo ali pode fazer um pouco. Isso é muito importante, não pode ficar no colo de uma pessoa só, a não ser que isso seja combinado, mas tem que ser explícito.

E eu acho que trabalho doméstico, ele pode sair também do âmbito doméstico. É importante ter mais creches, casas de repouso, restaurantes comunitários, restaurantes populares, lavanderias comunitárias, enfim.

GTGustavo Torres

E até agora falamos de vários assuntos sobre alimentação e vamos para a parte mais gostosa de comida, que é falar sobre os seus restaurantes. Em 2021 você inaugurou o restaurante Camélia O Dodó, e daqui 2 semanas, quando esse episódio entrar ao ar, já estará inaugurado. O restaurante de cozinha africana Preta Maria, nome em homenagem à sua irmã Preta Gil. Então eu queria saber quais são os maiores desafios de gerir um restaurante mantendo a coerência com os seus princípios éticos.

BGBela Gil

Pois é, é muito complicado, né, ser empresário, empresária no Brasil não é coisa fácil, porque muita coisa joga contra assim. Mas eu fico muito feliz com Camélia, eu fico muito feliz porque a gente conseguiu materializar assim e colocar em prática um negócio com esse propósito, sabe, de mostrar para as pessoas que é possível a gente ter um negócio, mas que ele funcione não só para o dono, ele funcione para quem trabalha, ele funcione para quem fornece, enfim, para tudo e para todos que estão envolvidos ali.

E tem acontecido, é isso. O Camélia é um restaurante vegetariano, com produtos orgânicos e agroecológicos. E eu acho que, enfim, a minha ideia é essa, fazer com que as pessoas que consumam ali, sentem ali, elas se sintam, cara, tô fazendo a minha parte também, sabe? Eu sentando aqui para comer nesse restaurante, comendo essa comida agroecológica que eu sei que, enfim, conheço o fornecedor que tá tá trazendo a comida e o seu trabalho para cá.

Isso é muito bom, eu acho que é um valor agregado, né, muito interessante. Que claro, não são todas as pessoas que podem pensar no valor agregado dos seus bens de consumo ou da sua alimentação, mas para quem pode, eu acho que isso é um grande ganho assim, é pensar, cara, aqui a comida faz diferença na minha vida, na vida de muitas pessoas. Então isso para mim é muito importante, todo negócio que eu boto a mão, para mim é tudo isso precisa estar integrado, sabe?

Sabe? Não é só o lucro em si. Poderia lucrar muito mais, quer dizer, restaurante é isso, nem lucro eu tenho agora, mas até porque a questão mesmo de alimentação no Brasil tá bem complicada, principalmente a clientela de restaurante. É um grande desafio você manter um restaurante aberto, mas para mim o bem-estar geral ele tá acima, sabe? Ou junto com o pensamento de empresário, Então eu não lucro, não quero lucrar acima de tudo.

E isso que eu tava dizendo, poderia espremer, poderia explorar mais, poderia comprar alimentos mais baratos, poderia dar aquela apertada e fugir completamente do meu propósito e lucrar, poderia. Mas aí eu não sou eu, né? Então a ideia do restaurante é essa, é mostrar que dá, dá para fazer. É difícil, é difícil, mas dá. Então a gente poderia estar num mundo muito melhor se o lucro não fosse o único e principal objetivo de todas as empresas.

Mas vivemos no mundo capitalista, então é óbvio que o acúmulo de capital vai ser o grande objetivo. Então por isso que a gente tá aqui, né, remando contra a maré, de certa forma tentando transformar esse sistema.

GTGustavo Torres

Mas é difícil, mas a gente não E além de escritora de muitos livros e também dona de dois restaurantes agora, você também é cofundadora do Instituto de Educação Alimentar Comida e Cultura. Conta um pouco pra gente como que é o trabalho do instituto e a importância, né, da educação alimentar logo no começo da vida.

BGBela Gil

Então, o instituto tem esse objetivo de educar as crianças para que elas não tenham que ser reeducadas na vida adulta. Começar a vida sabendo, né, dos impactos das nossas escolhas alimentares, sabendo discernir o que que é bom, o que que não é, entendendo também que, né, alimentação ela vai muito além da comida em si, mas é um ato político, ato cultural, também nutricional, e fazer com que as crianças tenham um olhar mais amplo, né, e possam ter um melhor entendimento sobre a importância da alimentação, da comida, do cozinhar nas suas vidas.

Então esse é o grande objetivo e a gente atua de uma maneira híbrida assim, né? A gente faz cursos de formação para educadores. Então todo mundo ali da escola, merendeiras, diretores, nutricionistas, professores e professoras, a gente faz esse curso de formação para que eles possam levar essas informações, esse conhecimento de educação alimentar para sala de aula, para as crianças. Então a gente não trabalha diretamente com as crianças, mas sim com os educadores, e isso tem um impacto ali indireto no comportamento alimentar daquelas crianças e das famílias, porque as crianças são maravilhosas e levam muitas informações e conhecimento que tem ali, que recebem na sala de aula, para casa.

Então essa transformação ela se prolonga, sabe? Ela não para na criança, quer dizer, não para no professor, né, que leva para criança, que leva para casa, casa. E então isso é muito legal, é um trabalho que eu acho muito eficiente assim, no sentido de que a gente planta sementinhas que vão se espalhando. Isso é muito bonito. Então essa é a forma que a gente faz. Então o curso, ele é híbrido no sentido de que ele é online uma parte e a gente tem uma parte prática, né, presencial, para complementar a parte teórica.

Então a gente leva as pessoas para cozinha para ter esse momento também de entender um pouco ali das práticas culinárias, porque quando a gente bota a mão na massa, aí a forma de aprendizado acho que se potencializa muito, né? Então a gente traz um pouco dessas técnicas, desse ensino, desse conhecimento para todo mundo que tá participando. E então é dessa forma. Ainda bem, estamos crescendo bastante, atingindo cada vez mais crianças e mais famílias, e é um trabalho muito lindo.

GTGustavo Torres

Bom, Bela, a gente tá chegando no fim aqui do nosso podcast, da nossa conversa, e só restam mais 3 perguntas, mas elas são aquelas perguntas um pouco mais rápidas, né? Então a primeira pergunta: um conselho para quem quer, como você, seguir uma vida de ativismo em defesa da boa alimentação?

BGBela Gil

Em primeiro lugar, eu acho que estudar é muito importante, né? Estudar história também eu acho fundamental para a gente entender, cara, como que a gente chegou até aqui e não se repetir. Porque se a gente quer mudar um problema que tá rolando, não dá para a gente— a gente tem que achar uma solução diferente. Se a gente for repetir ali as mesmas coisas, a gente não vai sair do lugar. Então história eu acho que é muito importante e eu acho que se inteirar desses projetos, né, vai conhecer o instituto, entende como o instituto atua, você pode fazer parte de alguma forma, até porque a gente tem uma incidência, né, de um braço de ativismo, de advocacy muito grande que a gente pode falar e transformar, né, políticas públicas e tudo mais.

Então eu acho que não só o instituto é comidicultura como outros, mas se inteirar, né, do que que tá acontecendo, quem tá fazendo o quê na sua cidade, no seu município, no seu país. Esses projetos, né, acho que é entender a história, entender o que que já tá sendo feito para que essas mudanças aconteçam e entrar em contato, tentar fazer parte. Porque acho que essa, essa força, né, que a gente tem quando se junta é muito importante.

GTGustavo Torres

E agora eu queria uma sugestão para o nosso ouvinte de livro, pode ser um autor, mas relacionado à alimentação.

BGBela Gil

Eu vou falar de um que é muito, enfim, é um americano, mas ele foi muito importante na minha formação, que é o Michael Pollan. Eu acho que quem ainda não conhece precisa conhecer. Tem muita gente aqui do Brasil que são assim fundamentais, mas eu tô falando ele porque eu morava fora na época, enfim, conheço as obras dele e foi fundamental para mim, né? Então tô dando aqui uma dica de uma pessoa que mudou a minha, me ajudou a moldar assim a minha visão, minha formação sobre alimentação, sistemas alimentares, culinária e etc. Nestlé Vital.

GTGustavo Torres

Para quem não conhece o Michael Pollan, tá mais do que recomendado aí pela Bela. Eu também recomendo porque ele influenciou bastante a minha pesquisa de doutorado sobre fermentação enquanto eu estava assistindo uma série com ele que falava sobre o assunto. E falando em série, agora a gente vai querer de você, Bela, uma dica cultural. Pode ser uma série, um filme, um livro que você tá lendo e não necessariamente precisa ter a ver com alimentação, Ah, é que são muitas.

BGBela Gil

Agora tá estreando a 6ª temporada, ou 5ª temporada do The Bear, não sei se você já viu essa série. Ela é bem interessante assim pra quem pensa em trabalhar com comida, com restaurante. Pra um lado mais ativista, digamos assim, tem um livro que eu acho fundamental de se ler que chama A Geografia da Fome, do Josué de Castro, que era um geógrafo brasileiro muito inteligente, com um pensamento assim, ai, muito coerente, muito importante para o Brasil, né, como nação.

Uma pessoa que, voltando ali para o que a gente falou mais cedo, né, pessoa que pensa no bem-estar geral. Ele para mim é um grande mestre. Então diria, se você já é ativista bastante, precisa refrescar a cabeça, vai ver The Bear.

GTGustavo Torres

Se você não é e quer aprender mais, vai ler Geografia da O The Bear eu ainda não assisti, mesmo que muitos dos meus amigos falem que eu deveria assistir. Agora, se você ouvinte quer saber mais sobre Josué de Castro, aqui no feed do podcast a gente A gente tem 2 episódios sobre a sua vida e obra junto com seu neto Ricardo de Castro, além de um episódio especial que resgata um pensamento de Josué de Castro que não é muito difundido, que é sobre a função social da ciência e das universidades dentro da sua visão.

E por hoje a gente vai ficando por aqui. Gostaríamos de agradecer imensamente à Bela pela disponibilidade, muita simpatia durante a entrevista. Também gostaríamos de agradecer a você, ouvinte, que ficou aqui até o final do nosso episódio. E se você tá chegando aqui agora, segue a gente aí no seu agregador de podcast favorito e, se possível, avalie nosso podcast com 5 estrelas. Isso é muito importante para o nosso crescimento aqui na rede.

E se você gostou dessa conversa aqui, Tenho certeza que vai gostar de diversos outros episódios que a gente publicou. O meu muito obrigado a todos vocês e até a próxima! O Fome Zero Podcast é uma produção do Instituto Fome Zero e do Biscoito Digital. A produção, edição, narração e entrevistas são minhas, Gustavo Torres. A coordenação do projeto fica a cargo de Antônio César Eduardo Magro e Renata Vital. Muito obrigado, Abela, pela entrevista e a você por nos ouvir em mais esse episódio. Um grande abraço, até a próxima!

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