Episódios de Sapiranga Summit

Guto Bozzetti e Edh Muller: Bastidores de Quadrinhos, Animação e Games | Sapiranga Summit T3E3

13 de agosto de 202625min
0:00 / 25:20

Como financiar, produzir e distribuir um projeto criativo no Brasil? Bruna Monteiro conversa com Guto Bosetti (animador, ilustrador, cineasta e professor de Design de Animação na Feevale) e Ed Miller (ilustrador, game designer e professor de Jogos Digitais na Feevale) sobre crowdfunding, editais públicos, propriedade intelectual e o processo criativo de quem vive de quadrinhos, animação e games.Conheça o projeto Modo Invisível: catarse.me/modoinvisivelConvidados:Ed Miller: instagram.com/edmilleredGuto Bosetti: instagram.com/guto.bozzettiSapiranga Summit 2026 — direto do palco Nova Vero.Instagram: https://www.instagram.com/sapirangasummit/YouTube: https://www.youtube.com/@sapirangasummitSpotify: https://open.spotify.com/show/1QFs0uaEWMKjqosyhNQDrJ?si=_WoEXac5R_Gw_ymI9NRn7A

Participantes neste episódio1
B

Bruna Monteiro

HostPublicitária e videomaker
Assuntos4
  • Financiamento de Projetos Criativos· CulturaCrowdfunding·Editais públicos·Financiamento coletivo·Investidores privados
  • Processos Criativos Arquiteto vs Jardineiro· CulturaAbordagem metódica·Abordagem experimental·Mistura de abordagens·Premissa e final
  • Multidisciplinaridade na Indústria Criativa· CulturaHabilidades multifuncionais·Ser 'pau para toda obra'·Criar oportunidades
  • Processo Criativo e Colaboração· CulturaDesenvolvimento de roteiro e personagens·Produção e distribuição·Propriedade intelectual·Modo Invisível
Transcrição57 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
BMBruna Monteiro

Estamos aqui em mais um episódio do podcast oficial do Sapiranga Summit. Eu sou Bruna Monteiro, publicitária e videomaker, co-host do Qual é o Bebel Podcast. Estou com dois convidados no nosso palco Inovaverso para bater um papo com a gente. Por favor, meninos, se apresentem.

?Voz 1

Eu sou Guto Bozzetti, sou animador, ilustrador, cineasta, sou professor no curso de design de animação da FEVALI. Acho que é isso.

?Voz 2

Meu nome é Edmiller, eu sou ilustrador por natureza e por origem, vamos dizer assim.

BMBruna Monteiro

Adoro.

?Voz 2

E eu também trabalho bastante com a área de games, em que eu já lancei vários jogos aí disponíveis. E também sou professor também do curso de Jogos Digitais, Design de Animação e Produção Audiovisual da Universidade de Feijó.

BMBruna Monteiro

Muito bem, sejam muito bem-vindos ao podcast. Agora acabaram de sair do palco Novo Verso, trouxeram um bate-papo muito legal com a galera sobre trabalho de vocês sobre propriedade intelectual, sobre editais. Vamos falar um pouquinho, quero que você comece agora falando dos projetos de vocês, que eu acho que é um grande destaque para quem acompanha aqui conhecer um pouco mais dos projetos que vocês já desenvolveram, do Catarse e tudo mais. Tragam isso para galera agora um pouquinho.

?Voz 2

Eu já trabalhei com o que a gente tava falando antes um pouco na palestra, né, Guto? Assim, era sobre como uma coisa a gente ter ideia, a gente criar um projeto, a gente desenvolver ele, né? O que já é um grande desafio, né? A gente conseguir escrever um roteiro, criar personagens, fazer toda a produção, o que já é bastante trabalho. Só que depois que a gente percebe, depois de um tempo com maturidade, que a gente vê que essa não é a parte difícil, essa é a parte legal, é a parte mais divertida.

Na verdade, o que dá mais trabalho depois é a gente conseguir lançar esse projeto, viabilizar, fazer com que esse projeto tenha financiamento, que a gente consiga distribuir isso para o público. E um pouco da minha experiência, eu trabalhei com vários tipos de projetos já na área e todo tipo de, vamos dizer assim, de financiamento. Já fiz crowdfunding, já fiz financiamento junto de digital, já fiz também financiamento junto com empresas privadas que apostaram no projeto como investidores.

E uma coisa que a gente fala bastante é que hoje em dia é muito importante que nós como produtores a gente consiga ter uma independência, a gente consiga ter um controle sobre o material que a gente cria. E hoje eu tô fazendo um projeto chamado Modo Invisível, que é uma história em quadrinhos que acontece em Porto Alegre nos anos 90, sobre um menino que ele sofre bullying no colégio, e para ele conseguir resolver esse problema ele vai ter que enfrentar uma torcida organizada de futebol.

Esse projeto ele tá no Cataras, ele tá disponível para— é uma revista em quadrinhos em 4 edições, em 4 partes. Cada parte vai ser lançada anualmente e está atualmente agora já no Catarse disponível, não ainda para apoiar a campanha, mas a pré-campanha, como a gente chama, que a gente vai convidando as pessoas para seguir o projeto, acompanhar, né? E no iniciozinho de 2027 vai sair a campanha de verdade da primeira edição.

BMBruna Monteiro

Que legal! Conta, por favor.

?Voz 1

Bom, é uma coisa que é legal, né, de falar assim que uma Uma outra forma de financiar e viabilizar nossos projetos, assim, para além do financiamento coletivo, né, que foi o que eu trouxe ali na fala, é o fomento público, né, que são os editais, os concursos públicos geridos pelas secretarias de cultura dos municípios, estados e da da União, né, do país assim. E aí, claro que a gente precisa, para acessar esses recursos, porque são normalmente quantias vultuosas assim e tal, é claro que tem muita concorrência, né, e depende muito assim da gente também entender em que estágio que a gente tá, né.

Então, o que eu trouxe ali na fala assim, da gente entender que esse fomento público ele pode ser acessado na esfera municipal, onde normalmente tu vai ter menos concorrência, que também é mais desburocratizado porque são valores menores. E por serem valores menores, ele te permite fazer uma coisa mais simples, né, que não vai resolver a tua questão financeira, mas vai te permitir desenvolver uma primeira etapa de um projeto que logo adiante pode submeter, depois transformar num projeto maior.

BMBruna Monteiro

E escalonando, né?

?Voz 1

Escalonando, exatamente. Então quando a gente entende, né, eu tô começando Eu tô num estágio inicial, né? Eu não gosto de usar a palavra amador ou profissional, assim, né? Eu acho que a gente tem que ser profissional sempre no sentido de entender o que a gente— o nosso ofício e ter um espírito amador no sentido de manter a paixão por aquilo que a gente faz.

BMBruna Monteiro

Isso mesmo.

?Voz 1

Que às vezes, conforme a gente vai se profissionalizando, aquilo vai virando trabalho de escritório, né? E tem que cuidar um pouco disso quando a gente trabalha com criatividade. Quando a gente trabalha com conteúdos que a gente precisa atingir o público de alguma maneira, fazer o público se interessar por aquilo. E de outra forma também, o que eu acho uma coisa que até não mencionei ali, mas que eu acho legal deixar registrado, é que normalmente a forma que mais funciona é a gente ter vários projetos ao mesmo tempo para vários formatos, né?

Desde formatos assim de menor escala que a gente possa Trabalhar com fomentos municipais ali de menor vulto até projetos maiores, assim. Isso é o que nos permite ir trabalhando com esses diferentes projetos. Às vezes um projeto que a gente tem há anos, ele demora a ser financiado, e um que eu inventei, eu criei ontem porque saiu um concurso novo na minha cidade e aquilo me motivou a pensar um projeto, esse projeto vai ganhar a luz do dia primeiro do que outros.

Isso acontece, né? Eu tenho projetos que estão na gaveta há 20 anos e projetos que eu inventei num mês e no seguinte ele tava sendo produzido. Então a gente precisa ter muitos projetos, assim, ter um leque de projetos pra trabalhar na indústria cultural, na indústria criativa, porque isso é o que vai nos permitir ter maior jogo pra acessar esses canais.

BMBruna Monteiro

E se me permite, uma coisa que eu vejo nisso também é ter diferentes skills, né? Trabalhar nesse meio, acho que requer que tu busque fazer mais de uma função, né? Vocês são o próprio disso. Quando se apresentaram, é Isa, é Cloli, é professora, é ilustradora, tem os próprios projetos. Porque... E eu já ministrei por mais de 3 anos oficina de TV e cinema na Paraná Produções, em Novo Hamburgo. E eu falava muito isso pros alunos, né?

A importância de tu ser multi. Claro que tu não vai ser especialista em todas as coisas. Vai ter uma área que é a tua principal. Mas de tu conseguir entender um pouco de outro meio, porque daqui a pouco num projeto tu vai ser o ilustrador principal, no outro tu vai ser um revisor, no outro tu vai ser um apoiador, enfim, acho que tem diferentes formas disso. E pra trabalhar, acho que com cultura no Brasil ainda requer. Isso diz às vezes ser meio que pau pra toda obra, assim, né? Não sei como é a visão de vocês quanto a isso.

?Voz 2

Eu acho até que quando a gente recebe os alunos no início do curso, dos cursos, né, de jogos, animação, audiovisual, eu acho que existe, eu percebo muito isso, especialmente nos primeiros semestres, assim, uma certa romantização, assim. Eles acham que vão fazer só uma coisa, né? Ah, mas quando eles começam a fazer os projetos, né, alguns alunos têm uma atitude do tipo assim: não, eu vou fazer só isso porque essa é minha especialidade.

E aí uma época eu meio que brincava com os alunos assim: cara, tu ainda não é especialista de nada, tu tá aprendendo para te descobrir e ver o que que é. Então, cara, tu vai fazer aquela outra função, tu vai fazer um pouco daqui, um pouco dali, para tu entender como a roda gira, né?

BMBruna Monteiro

É, e eu acredito muito nisso. É pelo todo, pra tu poder desenvolver aquela função daqui a pouco, porque a gente precisa ganhar dinheiro, pagar as contas, né, num projeto ali. Mas também eu acho que quando um ator entende de iluminação, ele vai se portar melhor no palco, por exemplo assim, né, dando um exemplo entre tantos. Eu acho que isso agrega a gente ter cada vez mais conhecimento e habilidades, né.

?Voz 2

É, eu acho que o principal, quando a gente fala de mercado produtor no Brasil, né, Guto, e o Guto pode falar da experiência também, acho que vai muito de acordo com o que eu vou dizer agora. Dificilmente assim do tipo assim, tu pode talvez trabalhar na iniciativa privada, eu posso trabalhar numa produtora, aí eu vou ser o especialista, eu vou ser o cara que vai fazer uma função específica. Isso pode acontecer especialmente em empresas grandes, empresas pequenas a realidade é outra, né?

Só que chega um momento em que tu não quer mais trabalhar para os outros, tu tem os teus desejos, sabe? Tu tem aquela chama que começou lá atrás, a época da romantização. Pô, eu trabalho com editoras, eu desenho quadrinhos, eu faço os quadrinhos, desenho os quadrinhos para os outros, mas eu queria publicar o meu próprio quadrinho, eu queria fazer o meu próprio filme, eu queria fazer o meu próprio game, eu queria fazer a minha própria animação.

E acho que a frase que resume muito bem isso, quando a gente pensa isso em Brasil, não só Brasil, mas acho que o mundo inteiro também, é: a gente tem que criar nossas próprias oportunidades. Se a gente não recebe oportunidade de fora, o que provavelmente não vai acontecer, tão facilmente, né? A não ser que a gente já tenha um nome, já seja conhecido, né? Mas normalmente eu penso dessa forma, acho que a gente tem que criar nossas próprias oportunidades.

Por isso que isso que tá colocando, ser multifuncional e conseguir entender não só da questão de produzir, mas também da questão de financiar, distribuir, isso é tão importante quanto ser um bom criador, né?

BMBruna Monteiro

Excelente.

?Voz 1

Agora falando isso me lembrou, eu tenho um amigo que é um quadrinista, de muito sucesso. E ele, ele uma vez falou uma coisa que vem assim tudo a ver com isso que tu falou, e que para mim fez muito sentido quando ele falou, que ele diz assim: faça a você próprio o convite que você gostaria de receber, né? Claro que isso envolve uma série de coisas, né? Abrir mão de se arriscar, abrir mão de alguma segurança, talvez de um trabalho numa produtora ou num estúdio onde tu vai ter o teu salário ali, tu tá mais ou menos garantido, né?

A te arriscar a produzir um conteúdo, né, que é o que tu gostaria que alguém te pedisse para fazer. Faz qual é o quadrinho que tu gostaria de fazer, qual é a história que tu gostaria de contar, como é que tu gostaria de publicar. E ninguém vai te fazer esse convite, muito difícil, né? A não ser que tu esteja num num lugar assim...

BMBruna Monteiro

É um em um milhão daí, né?

?Voz 1

É, exatamente, né? E ele hoje é um cara de muito sucesso, enfim, muito reconhecido no mercado internacional, mas dá pra dizer que a trajetória dele pra chegar ali começou exatamente assim, desenhando sozinho em casa um projeto que ele resolveu fazer do zero e aquilo teve uma repercussão muito grande porque ele botou ali toda a paixão. É, e claro, Capacidade dele, talento, enfim, né? E uma outra coisa também que me ocorreu de dizer assim, claro que a gente sim, a gente, essas skills a gente precisa saber, né?

Quando a gente começou, eu e o Ed, comigo foi muito assim, não existia muito, eu queria trabalhar com animação, não existia emprego em estúdios de animação, né? Uns amigos diziam assim, por que que não vai pra Califórnia?

BMBruna Monteiro

Fácil, claro, tranquilo.

?Voz 1

Em 95, 96, eu dizia, cara, onde é que passa o ônibus aqui? Eu não sei porque eu não tenho como ir pra Califórnia.

BMBruna Monteiro

Onde passa o ônibus e dá pra pagar com R$50?

?Voz 1

É, ele aceita carteirinha de estudante aqui para eu ir para Califórnia? Não é assim, né? Não existiam. Então a gente tinha que saber, tinha que aprender na marra, né? Mas hoje eu falo muito para os alunos: se você tiver uma oportunidade de começar trabalhando numa produtora, no estúdio, é muito legal, porque primeiro vocês ganham esse tempo de experiência, né? E também assim, vai olhando como é que as coisas acontecem. Tu quer ser diretor?

Tu quer ser roteirista? Normalmente é isso, aluno entra e quer ser Roteirista e diretor, né? Se puder ser os dois, Tarantino, melhor. Mas vai olhando todas as etapas, como é que acontece. Vê onde é que o nó desenrola, né? Quem é a pessoa mais importante daquela produtora? Qual é os pepinos que ela resolve? Como é que tu faria diferente se fosse o teu projeto? Porque depois de um tempo tu vai se sentir mais confiante pra ir fazer as tuas coisas.

Tu tem que saber um pouco de cada coisa porque o Tartakovsky, que é um criador muito importante do mercado, Ele fala uma coisa assim, ah, eu sou inteligente o suficiente para saber tudo, como é que é feito, e para contratar pessoas melhores do que eu para fazer cada uma das coisas.

BMBruna Monteiro

Entender onde que precisa de mais, né? E eu acho que nesse sentido que tu falou assim de hoje a gente viver numa era, né, um novo cenário que com a rede social, com as tecnologias, né, com mais plataformas hoje, como tava falando antes do Catarse para financiar teu projeto, Ou de usar o que tu falou, que o pessoal joga online, não, o Discord como uma forma de, obrigada, como uma forma de se comunicar com a tua comunidade, né? Então acho que hoje tem essas ferramentas para o jovem aluno ali que tá começando.

Poxa, então se tu quer ser diretor, vai fazer umas sketches, joga no TikTok, né? Cria um portfólio digital ali para ti. Gente já tem essas ferramentas à disposição, né? E às vezes eu vejo que é isso, às vezes tem os talentos, tem as vontades, mas falta às vezes esse espírito, às vezes meio empreendedor, meio aventureiro de jogar cara a tapa assim e criar essas oportunidades.

?Voz 1

É oportunidade, eu acho que essa é a palavra, né? Assim, não quer dizer que hoje o cenário ele é perfeito.

BMBruna Monteiro

Não, claro, a gente tá falando também de um público que já vem ali com as oportunidades, né? Já tá ali, talvez, tô falando dos alunos da FEVALI, por exemplo, que já estão chegando ali, né? Não é, infelizmente não é pra todo mundo, a gente sabe de benefícios que a gente tem, mas olhando pra esse público...

?Voz 1

É, não, o que eu quero dizer assim, eu quero trabalhar na indústria cultural, eu quero ser um criador de games, de quadrinhos, de animação, de cinema e tudo mais. Em qualquer lugar do mundo vai ser difícil, certo? No Brasil vai ser sempre um pouco mais, né? Porque, enfim, várias questões históricas e questões econômicas, sociais e por aí vai. Mas hoje é bem diferente, assim, existem as oportunidades, né? Quando a gente começou não tinha, não existia um curso universitário de cinema que eu queria fazer, ou de animação, por exemplo, como tem hoje, de jogos digitais, né?

E o curso dá uma oportunidade muito legal que é tu encontrar ainda numa idade muito, muito cedo, tu encontrar outras pessoas que gostam da mesma coisa e tu encontrar elas todos os dias.

BMBruna Monteiro

Sim, tu daqui a pouco já começar ali a tua produtora, o teu projeto, né?

?Voz 1

Exatamente, normalmente termina o curso os alunos já organizados.

BMBruna Monteiro

A sua empresa já.

?Voz 1

É, no seu grupo criativo no mínimo, né? Então isso assim, pra nós que fazia isso de forma totalmente empírica assim, ou orgânica, vamos dizer assim, levava muito mais tempo, né? Eu sempre falo pros alunos, cara, eu falo pra vocês o que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu tinha a idade de vocês, porque eu levei anos para entender como é que essas coisas funcionam assim, né? Então essa a gente oportuniza no curso, aí eles vão ter mais oportunidades hoje no mercado do que a gente teve, né?

Acesso pelas redes sociais a uma série de coisas de outras pessoas, então é bem diferente assim. E essas oportunidades ajudam demais assim, se a gente souber aproveitar.

BMBruna Monteiro

Antes de encerrar, quero uma um insight de cada um sobre o seu processo criativo. Você tava aqui falando como professores, mas vocês são criadores, são mentes criativas. Como é o processo criativo de vocês? Como que funciona?

?Voz 2

Olha, uma vez eu ouvi um— tava ouvindo também uma— é um processo assim que tipo assim que existe. Vou falar de quadrinhos agora que eu tenho, venho fazendo, porque eu acho que para cada mídia que a gente faz, a gente passa por um processo diferente, né? Então, por exemplo, quando eu lancei o último game, a gente começou com eu e um ex-aluno meu que era um programador. Então era nós dois pensando, meios pensantes. Dali foi entrando gente, foi entrando gente, foi entrando gente, foi entrando gente e no final a gente chegou a ter 56 pessoas trabalhando no projeto.

Então eu digo assim que nesse caso o processo criativo, especialmente de fazer games, ele é muito caótico assim, sabe? A gente não é mais autor. Eu fui diretor do projeto, mas eu não fui o autor, porque eu acho que todo mundo ali colaborou, né, de alguma forma, com alguma ideia, com alguma coisa, isso foi crescendo. E isso é completamente diferente quando a gente vai trabalhar em projetos grandes, com equipes, né, do que quando a gente trabalha sozinho.

Então hoje eu tô fazendo essa história em quadrinhos agora, que eu tô fazendo ela 100% sozinho, escrevendo, desenhando, editando, distribuindo, divulgando, Pessoal, acessa aí o Catarse, hein, pra vocês poderem, né? Então, uma vez eu vi uma analogia que era bem interessante, assim, que tem a analogia que é a do arquiteto e a do jardineiro. Você já ouviu falar essa aí, Guto?

?Voz 1

Não sei se eu... Vamos lá.

BMBruna Monteiro

Vamos ver, explique.

?Voz 2

Existem pessoas que vão criar um projeto, ela pensa em tudo, assim, ela pensa em toda... Ela não... Vou falar de quadrinhos pra ficar mais fácil, tá? Então, antes de eu começar a desenhar qualquer coisa, eu vou me preocupar em estruturar tudo. Quero fazer estrutura, quero fazer o fundamento, né? Quero pensar cada cena, eu quero deixar tudo bem certinho. Aí eu vou escrever o roteiro, eu vou fazer, vou passar por pré-aprovações, vou mostrar para as pessoas, ver o que que as pessoas dizem, o que que as pessoas acham.

E no final eu vou conseguir ter um roteiro pronto, aprovado, vamos dizer assim, por pares ou por amigos ou sei lá, e aí que eu vou desenhar, aí depois que eu desenhar, aí eu vou fazer arte final, aí que eu vou fazer isso. Então é tipo assim, tem pessoas que conseguem fazer de um jeito muito metódico, né? E aí tem o jardineiro. Jardineiro é assim, ele senta na frente do negócio, tem mais ou menos uma ideia e já começa a desenhar alguma coisa, já começa a fluir, porque no meio daquela catarse, né, da produção de desenhar, vai surgindo ideias, a gente vai construindo, né?

E tem quadrinistas, artistas que trabalham assim de uma forma 100% experimental e no final conseguem criar um negócio muito bacana. Ou não, também não quer dizer que o arquiteto também não vai conseguir, vai fazer tudo fundamentado e no final pode virar um produto que não é legal.

BMBruna Monteiro

E nem tudo que a gente cria daqui a pouco vai chegar ao final, daqui a pouco vai ser mais uma experiência que a gente viveu de criar e nunca vai nascer aquele filho ali, né? Só vai ficar ali na gaveta, mas serviu uma bagagem para o próprio criador.

?Voz 2

E para mim, eu sou um misto dos dois. Eu acho que é importante eu iniciar com uma estrutura, né, eu pensar nas coisas que são importantes para mim dentro daquele projeto e já estruturar isso. Mas não é uma estrutura rígida e dura, porque eu entendo que ao longo do processo a gente vai mudando de ideia. Eu sempre acho que quando a gente cria um projeto, de qualquer tipo de projeto, a gente acha que sabe o que que é o projeto. Mas no final ele não tem nada a ver com o que a gente pensou lá no início.

Então eu acho que a gente também tem que deixar tempo, espaço para essa criatividade assim que vai surgindo ao longo do processo criativo, ela respirar, ela aparecer. Então quando eu tô desenhando uma página de quadrinhos, no meio começa a me dar uma ideia, ah, eu podia fazer esse personagem fazer isso, e não tinha me dado conta disso antes. Na hora que eu tava estruturando, não passava aquilo pela cabeça. E acho que esse processo para mim é o mais natural e o mais bacana de de poder produzir assim.

BMBruna Monteiro

Muito bem. Seu processo?

?Voz 1

É assim, mais ou menos o Ed explicou aí. Eu gosto assim, vou tentar falar de forma mais prática, né? Eu também trabalho das duas maneiras dependendo do tipo de projeto. E aí que eu acho assim, a gente precisa de alguma coisa, de alguma forma dominar essas maneiras diferentes de produzir, porque algum projeto vai te exigir uma coisa, outro vai te exigir outra, né? Mas via de regra, o que que eu penso quando eu tô, por exemplo, escrevendo o roteiro de um filme?

De uma animação ou de um live action. Normalmente eu penso assim, numa premissa legal, né? Qual é a premissa e como é que isso vai terminar? Depois o miolo é a ação que vai se desenrolar para chegar nesse final, que tem que ser bacana, tem que ser surpreendente, ou tem que assim dar um presente para quem tá assistindo aquilo ali se sentir bem, né? Então pegar um exemplo assim, aquele filme De Volta para o Futuro, que é um filme bem conhecido, qual é a premissa?

Premissa de um cara que volta no tempo sem querer, separa o pai e a mãe. E agora ele tem que fazer o pai e a mãe se apaixonarem de novo, senão ele não vai nascer. Essa é a premissa do filme. Isso acontece com 15 minutos de filme, né? E como é que isso termina? Bom, termina... Posso dar spoiler? Porque esse filme tem 40 anos, então tudo bem. Pode, pode. Como é que termina? Termina com ele conseguindo juntar os pais, só que de uma forma diferente como os pais se conheceram originalmente.

E quando ele volta pro tempo dele, a vida dele é completamente diferente, muito melhor, porque agora o pai é super confiante. Então eles têm uma casa muito melhor, ele tem um carro muito melhor, né? A forma do americano dizer que a vida é melhor é sempre com dinheiro, assim, né? Mas enfim, né? Então eu sei, a premissa é bacana. Olha que premissa legal, né? Você parar os meus pais, eu não vou nascer. O que que eu faço, né? E tem um final.

E aí eu escrevo no meio. Normalmente, quando eu tô fazendo filmes, eu penso assim, né? E aí eu sou mais arquiteto, aí eu vou estruturando a história. Pra fazer animação, principalmente, a gente não tem muito espaço de improviso. Porque é um negócio muito longo, muito demorado, muito trabalhoso. E não dá pra gente ficar...

BMBruna Monteiro

Mudar de ideia no meio do caminho.

?Voz 1

É. Ah, agora eu não quero mais que esse personagem aqui tenha cabelo assim, eu quero que ele tenha outro.

BMBruna Monteiro

Aí tem que voltar tudo e fazer de novo.

?Voz 1

Aí tem que jogar tudo fora.

BMBruna Monteiro

Horas de trabalho.

?Voz 1

Mas agora eu também acho que o quadrinho é uma mídia que nos permite trabalhar dessa maneira que o Ed tava falando. Quando eu comecei a fazer, também hoje em dia eu trabalho com quadrinhos, né. Desenvolvi um projeto chamado Zeca e Meia-Noite, que é uma ideia de uma ficção científica de aventura ao estilo mais antigo e tudo mais, né? Histórias de aventura assim. E a premissa é: ele é o último sobrevivente da Terra, os seres humanos foram proibidos no universo porque o ser humano faz muita besteira, então eles foram todos proibidos e ele é um fugitivo.

Só sobrou ele de Homo sapiens. E ele, enfim, os xerifes aí da galáxia estão atrás dele, né? Então essa é a premissa, né? Só que o quadrinho, e principalmente para mim, eu tenho uma relação assim do desenho. Eu gosto de sentar e desenhar. A única coisa que me acalma é sentar e desenhar. Eu, quando eu troquei de apartamento agora, minha única exigência é que a gente tivesse um quartinho lá nos fundos que eu pudesse fazer um lugar para ficar sozinho desenhando assim.

E aí eu O que que eu faço? Eu tentei no início, quando eu fui escrever o primeiro Gibi, sentar e escrever o roteiro pra depois desenhar. Só que aquilo foi ficando maçante, porque eu queria desenhar, era a minha diversão, a minha brincadeira, né? É desenhar. Então eu peguei e comecei a desenhar as páginas assim do jeito que eu queria. Eu quero que tenha uma pose dele fazendo tal coisa, eu quero que tenha uma ação assim. E eu fui fazendo as páginas assim.

BMBruna Monteiro

E assim vai contando uma história, que a imagem também conta uma história depois.

?Voz 1

Claro, e aquilo foi ativando, como o Ed falou, aquilo foi ativando a minha criatividade. Claro que eu já sabia como que eu ia terminar mais ou menos a história, porque eu tenho esse... Aí a gente tem que saber onde é que puxa um pouquinho o arquiteto, onde é que deixa o jardineiro trabalhar, né? E aí eu fui desenhando as coisas, mas sem ter os diálogos nem o texto escrito, assim. Eu só sabia as ações, né? Quando eu terminei de desenhar tudo, aí eu voltei e fui botando as palavrinhas nas bocas dos personagens pra criar a história, assim.

E aí agora eu trabalho assim no quadrinho, e é uma forma totalmente diferente que eu sempre trabalhei nos filmes, e me dá um prazer enorme. Flui muito melhor assim. Então existem formas diferentes, depende do que que tu quer fazer, né?

BMBruna Monteiro

E era como legal a gente saber os bastidores. Acho que agrega bastante a gente poder descobrir isso. Imagino que ler isso e depois descobrir esse teu método agrega ainda mais, né? Saber sobre o artista. Gente, muito obrigada pela presença. Quero só pedir para vocês deixarem os seus arrobas ou alguma forma de contato para as pessoas conhecerem mais o trabalho de vocês, poderem alcançar essas obras que vocês comentaram e as outras também. Então só se quiserem deixar algum ponto final aí e o contato.

?Voz 2

Meu Instagram, que normalmente é uma mídia social que eu mais utilizo e o pessoal mais consegue conversar comigo e seguir, é @edhmuler. E se alguém quiser conhecer um pouquinho mais sobre O Modo Invisível, meu quadrinho, vai lá no catarse.me/modoinvisível. Aí vai encontrar lá.

BMBruna Monteiro

Excelente.

?Voz 1

Bom, também assim pode me encontrar no Instagram, né? Respondo todo mundo que me manda mensagens. O meu arroba é @guto.bozzetti. Meu sobrenome tem 2 Z de zebra e 2 T de trave. Então, @guto.bozzetti, me encontra ali. Ele tem bastante publicação de trabalhos e coisas assim. E eu sou bem Respondo rápido DMs que me mandam ali e tal também.

BMBruna Monteiro

Quem quiser realmente encontrá-los também pode se inscrever e ser aluno na FEVALI, ser aluno, tê-los como mestres.

?Voz 2

Matrículas abertas.

BMBruna Monteiro

Matrículas abertas aí, já ficou a publi para FEVALI. Então tá, muito obrigada pela presença tanto no Palco Nova Verso quanto aqui no nosso podcast. Espero podermos conversar mais em breve e voltamos logo mais com mais um podcast aqui direto do Sapiranga Summit 2026.