Episódio 60 - O filho narcisista
Uma conversa séria, baseada na psicologia, para ajudar você a entender uma realidade que muitas pessoas vivem em silêncio.
Para sessões mande mensagem para o whatsapp (11) 91871.2503
- Tratamentos e TerapiasIntervenção precoce · Estabelecimento de limites claros · Desenvolvimento de empatia · Atribuição de responsabilidade · Terapia cognitivo comportamental · Terapia familiar
- Narcisismo parentalBusca excessiva por admiração · Dificuldade em lidar com crítica · Falta de empatia · Sentimento de superioridade · Manipulação e relações por interesse · Terceirização da culpa
- Dinâmica familiarFatores genéticos e ambientais · Mecanismo de defesa contra fragilidade · Famílias disfuncionais e narcisistas · Projeção de culpa · Falta de afeto e competição · Superproteção e ausência de limites
O desenvolvimento infantil e adolescente, ele é repleto de fases de egocentrismo, que é natural. Mas quando a busca por atenção ultrapassa esses limites de algo saudável e se transforma em uma necessidade patológica, né, de grandiosidade, de desdém pelo outro, tanto os pais, profissionais de saúde, precisam ficar de olho. A gente tem que compreender a diferença entre traços narcisistas e o transtorno de personalidade narcisista.
Um não tem nada a ver com o outro. Identificar esses sinais precoces, né, intervir de maneira adequada, são cruciais para evitar que esse padrão de comportamento se solidifique. Embora o diagnóstico do narcisismo só seja realizado na fase adulta, até 17 anos, a gente chama de transtorno de conduta. A gente não chancela nenhum transtorno porque são pessoas ainda em desenvolvimento. Depois dos 18 anos é que a gente pode chancelar alguma coisa ou não.
Né, porque a personalidade ela ainda está em formação. Então, depois disso, é possível identificar e tratar os traços narcísicos de maneira precoce, né. Então a gente tem que tomar cuidado para não achar assim, ah, é só uma fase. Sim, pode realmente ser só uma fase, mas eu tenho que ficar de olho nisso, até que ponto precisa ter uma intervenção da família, né, e ir até em busca de profissionais, né? Abrindo um parênteses, existe um documentário muito famoso, nossa, foi lançado pela HBO em 92, mas tem no YouTube, se chama A Ira de um Anjo, né?
É um documentário sobre uma menininha, sobre a Betty Thomas, né? É uma menina de 6 anos que ela passou assim por muitos abusos. Ela tava para ser adotada, ela foi para muitas casas, sofreu muitos abusos. Só que a última família olhou para tudo isso de maneira muito diferente e foi crucial para ela se tornar uma adulta funcional. Mas eu não vou contar o resto porque senão perde a graça. Então vai lá assistir porque é um documentário que assim eu amo de paixão, porque mostra ela nas sessões com psicólogo, né?
Então é muito importante ouvir esses pais, é muito importante, tá? Crianças pequenas exibem naturalmente a sensação de grandiosidade, de egocentrismo, como parte da sua construção de ego mesmo, né? Elas ainda possuem uma compreensão plena, ela ainda não possui uma compreensão plena do outro como indivíduo separado dela. Depois de uma certa idade é que ela começa a ver que ela é ela e o outro é o outro, tá? Mas se isso persiste, certos comportamentos persistem, a gente tem que ficar de olho, né?
O que que você tem que prestar atenção? Primeiro, busca excessiva por admiração e validação, tá? Ela quer ser o centro da atenção o tempo inteiro, e se você não elogia, não dá atenção, ela vai ficar irritada, frustrada e pode até partir para agressão. Dificuldade extrema em lidar com crítica. Então a reação a qualquer forma de crítica já é completamente desproporcional, e aí ela vai para raiva, desprezo, né, manipulação e tudo mais, né.
Falta de empatia e desconsideração pelo outro, né, essa incapacidade de se colocar no lugar do outro. Outro, seja amiguinho, seja da família, né? Qualquer sofrimento da mamãe, do papai, isso é completamente ignorado. O sentimento de superioridade e grandiosidade, né? A criança, ela superestima suas habilidades e conquistas, frequentemente diminuindo os outros para se elevar. Manipulação e relações por interesse, né? Nas interações sociais e familiares, elas são pautadas apenas por utilidade.
Então a criança, ela manipula situações, pessoas para ter vantagem mesmo, né? Até nas amizades é por vantagem, não é por afinidade. A exigência de tratamento especial, então acredita merecer privilégios e concessões que os outros não têm. A famosa terceirização da culpa, sim, sempre desde pequeno eles vão mostrar esses comportamentos. Então não vai admitir erro, a culpa é do outro, entendeu? Então vai acontecer e vai aparecer desde cedo.
O narcisismo patológico na infância, ele pode se manifestar ou como narcisismo grandioso, onde a criança já possui uma convicção plena que ela é superior ao universo, ou narcisismo vulnerável, que ele é caracterizado por um ego muito frágil que necessita de aprovação constante, senão ele desmorona. Os dois são problemáticos. A crença de que narcisista nasceu pronto não é bem assim. Embora tem fator genético, como eu sempre falo, que predispõe a traços narcisistas, né, o ambiente que essa criança vive é fundamental, tá?
Então fatores sociais, de educação, a dinâmica familiar, gente, é determinante. O narcisismo infantil, ele frequentemente vai aparecer como um mecanismo de defesa contra uma fragilidade emocional interna originada de relações familiares distorcidas, né? Em muitos casos, a criança cria uma fachada de superioridade para evitar o confronto com a própria vulnerabilidade e a sua carência afetiva. Então as famílias que são disfuncionais, né, narcisistas, elas operam como uma fábrica de sofrimento emocional, onde a criança ela vai ser moldada para gratificar as necessidades dos pais, e ela perde assim a sua identidade, né.
Então existem padrões dessa família, né, então as características, apenas se as necessidades dos pais importam, né. Então aí a criança já aprende que seu valor é condicionado à utilidade que tem para os outros, né? Então ela aprende a explorar os outros, né? A projeção de culpa e falta de responsabilidade da família faz com que a criança modele esse comportamento, aprendendo a terceirizar a culpa e não assumir nenhum tipo de consequência.
A falta de afeto, né, ou se a família tem já um filho adorado, faz com que a criança Sinta inveja constante, necessidade de competição pela outra criança que ela vê como favorita. A negação das emoções e da vulnerabilidade faz com que a criança reprima sua própria empatia e desenvolva um ego mais rígido. A superproteção, a ausência de limites de muitos pais, e isso tem sido uma tendência muito grande que não vai dar para falar hoje, mas eu vou trazer.
A criança cresce acreditando que tá acima de todas as regras e que merece sim tratamento especial e ponto final. A negligência emocional, abuso, a superproteção, né, a projeção de ideias de grandeza por parte desses pais são os principais arquitetos do narcisismo infantil, né. Então as crianças, em muitos casos, elas herdam ou modelam a personalidade narcisista dos próprios pais. Mas aí vem a grande pergunta: eu percebi algum comportamento, o que que eu vou fazer com isso?
Então, quando você identifica, intervenha precocemente. Melhor você ir pelo demais do que pelo de menos. Quanto mais jovem, maior a flexibilidade do ego e as chances de mudança. Então, estratégias parentais devem focar na reestruturação do ambiente, na modelação de comportamentos saudáveis. Então, estabelecer limites claros e consistentes. Essa criança precisa aprender a lidar com frustração, ela precisa escutar não, e é o que menos tem acontecido ultimamente.
Muitas famílias têm criado reizinhos em casa, e depois eles não vão conseguir domar essa criançada. Essa criançada vai para a sociedade tendo certeza que as pessoas vão fazer a mesma coisa que elas recebiam em casa. Então toma cuidado, tem que falar não, tem que manter regra, sabe, sem ceder aos excessos de mimimi, de raivinha deles não, tá? Então toma cuidado. O desenvolvimento ativo de empatia: é importante incentivar essa criança a considerar, né, sentimentos dos outros, ensinar sobre isso, mostrar isso, promover o envolvimento em atividades que sejam coletivas, sabe?
Mostre afeto, mostre, faça para criança aprender atribuição de responsabilidade. Ela tem que assumir tarefas em casa, sim, e obrigações de acordo com a idade dela, hein, tá? Isso vai bater em cima da arrogância dela, a ideia de que ela, nossa, é a bambambã de casa. Não, você não é. Deslocamento do foco de grandiosidade: estimule a capacidade de se maravilhar com o mundo ao redor, sabe? Ajude a reduzir o egocentrismo, mostre que existem coisas maiores e mais importantes que a própria imagem dessa criança.
Modelagem de comportamento: os pais devem ser o exemplo vivo de empatia, respeito, gratidão, para essas crianças perceberem e tentarem imitar. Busca por ajuda profissional. Então, o manejo de traços narcisistas, ele não é fácil. A terapia cognitiva comportamental é altamente eficaz para modificar padrões de comportamento e de pensamento que são distorcidos, que desenvolvem o controle de raiva, e para treinar as habilidades sociais.
E além disso, a terapia familiar e o treinamento com a família é essencial para corrigir essas dinâmicas que foram disfuncionais e que acabaram alimentando esse transtorno. Se o filho realmente é narcisista, vai exigir paciência, firmeza, muitas vezes a coragem de olhar para suas próprias falhas e a própria falha da dinâmica familiar. Então, a intervenção não se trata apenas de consertar a criança, mas de reestruturar o ambiente que permitiu o desenvolvimento de defesas tão rígidas e prejudiciais.
Não esqueça de assistir A Ira de um Anjo, que está na HBO ou no YouTube, para você perceber e ver in loco o que acontece. Fique de olho. Não ache que tudo é narcisismo, mas se comportamento se mantém, você tem que tomar alguma providência, sim. Do contrário, os penalizados, os que se darão muito mal e os que terão que fazer alguma coisa, seremos nós, a sociedade.
A Ira de um Anjo
Documentário