Episódios de Daqui de Fora | Podcast

Ele veio passar 6 meses no Canadá e virou o Gringo | Ep. #22

03 de setembro de 20261h5min
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Neste episódio do Daqui de Fora, recebemos Adriel Fonseca para uma conversa sobre imigração, humor, recomeços e os perrengues da vida de brasileiro no Canadá.

Adriel saiu de Manaus com um plano simples: passar seis meses em Toronto. Antes disso, trancou a faculdade de Engenharia de Materiais, juntou dinheiro jogando poker e decidiu viver uma experiência fora do Brasil. O plano era temporário. Mas o Canadá mudou tudo.

O que era para durar seis meses virou oito anos, muitos trabalhos, muitas histórias e uma reinvenção atrás da outra. Adriel passou por fábrica, padaria, construção civil, drywall, metal framing e descobriu que, muitas vezes, a profissão mais completa de quem mora fora é ser imigrante.

Foi também nesse caminho que nasceu o Gringo, personagem criado para transformar situações reais da imigração em humor. Entre vídeos, perrengues, stand-up, internet e vida real, Adriel encontrou uma forma de rir das próprias dificuldades e fazer outras pessoas se enxergarem nessas histórias.

Uma conversa leve, engraçada e honesta sobre o que acontece quando o plano dá errado, mas talvez dê certo do jeito que precisava ser. Porque morar fora também é aprender a rir, recomeçar e seguir em frente.

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Participantes neste episódio2
D

Diego Gomes

HostApresentador
A

Adriel Fonseca

ConvidadoDrywaller e metalframer
Assuntos6
  • A importância de errar e aprender no processo de imigraçãoAutoconhecimento·Disciplina
  • A decisão de imigrar para o Canadá e o papel do pôquerSonho de morar fora·Engenharia de Materiais·Pôquer·Manaus
  • A reinvenção profissional e a experiência como padeiro no CanadáPadeiro·Fábrica de frutas·YouTube
  • O nascimento do personagem Gringo e a criação de conteúdo de humorPandemia·TikTok·Stand-up comedy·Algoritmo
  • Os primeiros choques culturais e a percepção da vida no CanadáCalçadas·Acesso a PCD·Manaus
  • A imigração como uma maratona e o poder da mudança pessoalMaratona·Saúde mental·Cidadania
Transcrição117 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
DGDiego Gomes

Tem gente que muda de país e descobre uma nova profissão. Tem gente que descobre um novo propósito. E tem gente que descobre um personagem. Eu sou Diego Gomes, carioca vivendo em Vancouver há quase uma década, e daqui de fora eu converso com brasileiros que transformaram a experiência de morar fora em histórias que merecem ser contadas. Agora imagina sair de Manaus, com um plano simples: passar 6 meses no Canadá. E no caminho dessa história aí e tal, ganhar um dinheiro no pôquer, faz sentido esse dinheiro aí para o plano Canadá, trabalhar em tudo que é profissão, descobrir que ser imigrante talvez seja a ocupação mais completa de todas e se transformar os perrengues da vida de imigrante em humor para mais de 80 mil pessoas.

O Adriel Fonseca viveu exatamente isso. Hoje ele mora em Toronto, Trabalha como drywaller e metalframer na construção civil, é casado, pai de pet, maratonista, isso aí tá carimbado, apaixonado por comédia e criador do Gringo, um dos perfis mais divertidos sobre a vida de brasileiros no Canadá. Eu adoro, pô, quando mandei a mensagem ele respondeu, nem acreditei. E o mais curioso disso tudo é que o Plano Canadá começou com 6 meses e, porra, deu errado.

Ou talvez não, né? Deu muito certo. Essa é uma conversa sobre recomeço, improvisos, humor e sobre como às vezes a melhor forma de enfrentar a vida é conseguir rir dela. Mas antes de começar esse papo com Adriel, cara, aproveita aí para se inscrever no Daqui de Fora no YouTube, seguir nas principais plataformas de áudio como Spotify, Apple Podcast, Amazon Music. Ative o sininho de notificação para saber quando tem o novo episódio.

Curte aí o episódio para espalhar a palavra para muita gente aí. Eu tenho certeza que esse episódio vai ser muito legal. E se você acredita que as histórias reais merecem continuar sendo contadas, sabe que você também pode fazer parte disso, cara. O Daqui de Fora é um projeto independente, e através do Buy Me a Coffee, aí, ó, paga um café para mim, vai, você pode se tornar um apoiador do podcast. O QR code tá aqui na tela, tem a descrição no no vídeo, enfim, nas plataformas.

E cara, obrigado aí por continuar ajudando o projeto. E Adriel, cara, seja muito bem-vindo ao Daqui de Fora. Eu tava super ansioso por esse bate-papo. A gente já tava tentando marcar isso há um tempo, e aí surgiu a viagem para o Brasil, você voltando para terrinha depois de um tempão no Canadá. Aí você falou assim, cara, vamos segurar um pouco que eu acho que vai ter história boa para contar depois disso. Cara, seja bem-vindo.

AFAdriel Fonseca

Muito obrigado, obrigado pelo convite. Primeiramente queria agradecer aí, tinha um tempo aí que a gente tinha que gravar, né? Aí tive que fazer a viagem para o Brasil, que era urgência depois de tanto tempo aqui no Canadá, mas graças a Deus deu certo. Tamo aqui gravando, fazendo esse podcast acontecer. E obrigado pelas palavras aí, cara, porque A gente não imagina, né? A gente vai vivendo a vida e vai conquistando os objetivos que a gente traça no nosso percurso, e acaba que a gente esquece de tudo que a gente passou, porque a gente se acostuma, né, de conquistar, conquistar, conquistar.

Acaba que a gente fica entediado. E aí, quando a gente olha uma pessoa falando de tudo aquilo que a gente fez, é gratificante, realmente. É muito legal. Ainda bem que tu falou para eu não chorar, que engolia aqui o choro.

DGDiego Gomes

Fiquei arrepiado aqui, cara. É assim, eu acho que um dos motivos e propósitos pelo qual eu criei o podcast foi porque, exatamente como você falou, cara, às vezes a gente fica nessa vida louca de imigrante. Eu adorei quando você falou que a profissão é imigrante, né? Porque o esforço que você faz aqui, independente do que você faça aqui, a profissão é imigrante, é ser imigrante. E você deixa a vida passar e você não, muitas vezes você não comemora as conquistas, né?

E cada uma delas assim, cada etapa que você passou e tal faz sentido. É por isso que esse podcast existe. E cara, eu quero te levar um pouquinho lá para trás, antes do gringo, antes da comédia, antes do Canadá. Vamos lá, quando é que surgiu essa ideia maluca de vir para o Canadá, cara? Era realmente só o intercâmbio de 6 meses ou lá no fundo você já desconfiava que talvez você não voltasse tão cedo assim, ia deixar Manaus para trás e ia seguir para terra aí do verdadeiro norte?

AFAdriel Fonseca

Então, meu sonho de morar fora sempre existiu porque meu pai, ele me colocou no inglês muito cedo. Então comecei a fazer inglês desde os 9 anos. Então eu formei com 15 anos de idade e comecei a dar aula de inglês para crianças, é o básico. E aí você vai conhecendo a cultura americana, né, conhecendo outros países, e aflora aquela vontade de você querer morar fora. Só que naquele momento o meu pai não tinha condições suficientes de pagar um intercâmbio para mim, mas aquele sonho sempre existiu.

Queria morar fora, queria morar fora. E aí você vai crescendo, vai virando adulto, 18 anos, aquela vontade sempre existiu. E com todos os problemas do Brasil aí que vai aumentando mais ainda à vontade. Então lá no Brasil cheguei a fazer faculdade na Universidade Federal do Amazonas, engenharia de materiais. Tranquei a faculdade para jogar baralho. Foi onde eu ganhei o dinheiro para poder fazer, traçar essa aventura aí que deu errado, né?

Tudo deu errado na minha trajetória para poder dar certo. Eu falo que para muita gente tem gente que escolhe o Canadá e eu fui escolhido pelo Canadá.

DGDiego Gomes

Cara, legal, você falou um pouquinho, cara, que história maravilhosa essa é, cara, essa história do pôquer é maravilhosa. Você sabe que eu quando cheguei no Canadá eu abri uma empresa e tal, e ela basicamente ajudava brasileiros a alugar apartamento aqui em Vancouver e tal, depois expandiu para Toronto e tal, enfim. E um dos meus clientes, ele era jogador profissional de pôquer. E quando você falou isso, é, ele veio para o Canadá, obviamente ele continuou jogando pôquer no Canadá.

E cara, era uma loucura assim, ele tá aqui até hoje e tal, ele é realtor hoje aqui, fez a transição de carreira e tal. Só cara, me conta aí, você ganhou uma grana no pôquer lá, você ganhou 25 pau, 25 mil, e aí você falou assim, beleza, Acho que agora dá para tentar essa loucura de sair fora com 25 conto no bolso.

AFAdriel Fonseca

Eu, logo quando eu entrei na faculdade, eu comecei a jogar pôquer com meus amigos. O começo era, era pouca coisa, 5 centavos, 10 centavos. E aí, ao longo do tempo, eu comecei a trabalhar numa casa de pôquer. Então foi quando eu comecei a estudar mais o jogo, conhecer mais sobre o jogo. E antes de vir para o Canadá eu já não jogava mais 5 centavos, 10 centavos, já era R$500, R$300 para entrar. Então o jogo era muito alto e eu trabalhava para um rapaz que o jogo era para pessoas, só pessoas convidadas.

E como eu tava trabalhando com ele, teve uma pessoa que faltou nesse dia e ele me convidou para jogar porque eu tinha crédito na casa. Falou, quer gastar o seu crédito? Gastar, né? Quer usar o seu crédito para jogar hoje? Ok. Então comecei, comecei perdendo, comecei perdendo, perdi meu crédito. Daí daqui a pouco coloquei mais dinheiro. Eu sabia que meu pai tinha uns dólares guardado em casa, coloquei os dólares do meu pai no fogo também.

Já tava pensando em dar o carro também, eu tinha um Sienna 1.0. Valia uns R$10 mil na época, mas o jogo tava muito bom. Graças a Deus eu não cheguei a dar o carro, eu comecei a recuperar o dinheiro. Foi quando eu consegui ganhar um jackpot, que é um acumulado que tava valendo R$10 mil. Eu tinha recuperado meus créditos, tinha recuperado o dólar do meu pai, tinha recuperado o dinheiro que eu já tinha colocado no jogo. E aí eu comecei a ganhar.

Então não foi só R$25 mil, se for botar na ponta do lápis foi mais de R$30 mil, né? É mais de R$30 mil. E aí deu tudo certo.

DGDiego Gomes

E na verdade o pôquer, o pôquer é um jogo de estratégia, né, cara? Ele não é um jogo de aposta, né? Ele é um jogo de estratégia, né? Esse que é o ponto, assim, não adianta você ficar botando dinheiro se você não souber jogar, não souber a estratégia e tal. Então assim, fica ligado aí, rapaziada, né? Não é dinheiro de tigrinho não, essa parada é Tem que ter cabeça para poder jogar um pouco, né?

AFAdriel Fonseca

Eu vejo hoje o pessoal jogando esses jogos de azar, esse tigrinho, esse negócio de essas casas de aposta. Tudo isso que tá acontecendo agora eu já vivi há 10 anos atrás. Então hoje eu vejo as pessoas perdendo muita coisa. Cara, não vale a pena, não vale a pena. Se for para jogar algum jogo, queira jogar algum jogo de azar, né, que O pôquer não é um jogo de azar, é um esporte, né? Então ele tem estratégia, você joga contra o jogador.

Então para ter roubo, para ter vantagem, é mais difícil, entendeu? Agora você jogar um joguinho com celular que o algoritmo tá jogando contra você, é muito difícil você ganhar. Você vai ganhar uma, duas, três, daqui a pouco ele ganha 40. Então não vale a pena, né?

DGDiego Gomes

Isso aí, ó, fica ligado aí. E aí Pô, botou essa grana, tava na hora do Plano Canadá funcionar, botar em prática. E aí, como é que, como é que foi esse processo? Como é que você escolheu Toronto? Como é que você chegou a Toronto, cara?

AFAdriel Fonseca

Ganhei o dinheiro, peguei o dinheiro, que o mais importante, né? Às vezes você ganha, mas você fica com o crédito. É, mas eu peguei o dinheiro, falei, caraca, tem dinheiro aqui, hein? Dá para fazer uma viagem. Então eu tinha alguns investimentos, alguns empreendimentos que eu tinha feito que não tinha dado certo. Eu falei, pô, eu vou abrir outra coisa, eu tô meio, tô meio cansado já. Já tinha falido 2 restaurantes também. Eu falei, vou fazer uma viagem, vou ver como é que é lá fora, vou realizar um sonho, né, de qualquer coisa, pelo menos inglês eu vou aprender lá para fora.

Então um amigo meu morava aqui no Canadá. Em Toronto. Ele tinha vindo para cá para fazer um curso de inglês e tava por aqui. E aí eu fui começando a fazer perguntas para ele: como é que é aí? Como é que vai para aí? Que visto que eu tenho que tirar? Ele foi me falando tudo e eu fui tirando os documentos. Fui lá no consulado americano, preenchi meu DS-160 para fazer um teste. Eu fui fazer um teste no DS-160. Deixa eu só ver como é que é aqui, ver se eu tenho inglês para preencher isso.

Fui, preenchi tudinho até o final. É muito engraçado, né? Preenchi tudinho até o final. Aí no final tá lá: marque, agende a sua visita, né, para fazer o— para ir até o consulado. Agendei, eu falei: caraca, agora eu tenho que comprar uma passagem. Aí fui, comprei a passagem, tirei o visto, deu tudo certo e vim parar em Toronto.

DGDiego Gomes

Cara, que legal! E aí quando você chegou em Toronto para estudar, inicialmente eram 6 meses, Qual foi o primeiro choque assim que você teve? E, cara, pode falar.

AFAdriel Fonseca

Eu não vim para estudar, eu vim só para conhecer.

DGDiego Gomes

Ah, você veio só para conhecer, se bateu assim só para conhecer, né? Você falou, vou botar um dinheiro lá e vou ver o que que eu faço lá, né?

AFAdriel Fonseca

Eu vim só para conhecer porque o meu amigo já tava aqui, então ele conheceu algumas coisas. Eu falei, ah, eu vou lá para ver alguns ver se tem algum, algum negócio que eu possa levar para o Brasil, né? E com esse dinheiro, sei lá, começar algo novo aqui no Brasil, lá no Brasil. Só que aí foi tudo dando errado.

DGDiego Gomes

Mas o plano inicialmente era você passar esses 6 meses lá em Toronto, meio que tipo conhecendo, desbravando e vendo qual é, né, que que você queria sair desse negócio aí. Exatamente.

AFAdriel Fonseca

Caraca, esse era o plano.

DGDiego Gomes

Que loucura. E assim, quando você chegou, qual foi o primeiro choque assim para você vindo de Manaus? E porra, não vai falar que foi o frio não, porque pô, essa resposta já é patrimônio nacional dos brasileiros aqui no Canadá.

AFAdriel Fonseca

O primeiro choque.

DGDiego Gomes

E quando é que você chegou? Você chegou no verão, no inverno? Como é que foi isso?

AFAdriel Fonseca

Cheguei no final do verão, cheguei em agosto, 16 de agosto de 2018.

DGDiego Gomes

É, você ia começar a pegar uma inverninha aí, né, para frente.

AFAdriel Fonseca

Então cheguei aí no finalzinho do verão já, e o primeiro choque que eu tive foram as calçadas. Todo mundo fala o frio, ah, o frio. Eu falei não, as calçadas. Falei, caraca, tem calçada direitinha aqui, velho, com acesso a PCD e tudo. Deficiente aqui vive a vida fácil demais, cara.

DGDiego Gomes

Deficiente, os velhos, né? É por isso que os velhos também andador, cadeira de roda, né?

AFAdriel Fonseca

Eu fiquei deslumbrado porque lá em Manaus obviamente tem as calçadas, e em bairro de rico as calçadas são tudo niveladinha, no mesmo plano, tem um espaço para o pedestre andar e os carros andar. Só que tem bairros que não tem isso, cada um faz a sua calçada, então a calçada fica toda desnivelada. Eu cheguei, as calçadas tudo no mesmo nível, as casas sem muro, aquele espaço que tem É o jardim da prefeitura, né, que é para o seu cachorro cagar.

DGDiego Gomes

Falei, caraca, aqui é da hora demais, ó, tipo muito, muito diferente, né, cara, do que a gente tá acostumado no Brasil, né?

AFAdriel Fonseca

Muito diferente.

DGDiego Gomes

É, foi o que você falou assim, você vai para o bairro um pouquinho mais de rico ali no Brasil, qualquer cidade, né, seja no Rio, São Paulo, Manaus e tal, vai estar tudo bonitinho. Mas, cara, você vai para um bairro mais periférico, na verdade você anda do bairro de rico, você anda 3 ruas para dentro, já é tudo cagado, né? Já é calçada de quando der jeito e tal. Foi engraçado você falar isso, que eu fui visitar— minha mãe mora em Vitória, Espírito Santo.

Aí uma vez assim, eu já tava aqui há um tempo já, e aí fui visitar minha mãe no Espírito Santo. E ela mora, obviamente não no bairro de rico, né, bairro lá das pessoas normais, né, vamos dizer assim, porque 0,5% da galera no Brasil tem dinheiro. E aí eu andando, foi a primeira vez que que me bateu essa percepção que você teve assim, tipo, mas foi ao contrário, sabe? Tipo, de eu estar morando aqui e chegar lá e falar assim, caraca, cara.

Aliás, já sei por que que eu percebi, porque o meu filho tava com 4 meses, cara, 8 meses, e eu tava com cadeira, com carrinho de bebê. Então assim, até então eu nunca tinha percebido. E cara, eu não conseguia andar nas calçadas porque era isso que você falou, tipo, a calçada da casa da vizinha era desse tamanho, a outra calçada era Era tipo, tinha um buraco, tinha uma árvore no meio da calçada, tinha um canteiro e a gente não conseguia andar com carrinho de bebê.

Caraca, cara, muita loucura isso. Isso eu nunca tinha percebido, nunca tinha percebido isso também.

AFAdriel Fonseca

Olha, é complicado a vida do cadeirante, é muito triste no Brasil. Em alguns bairros você tá doido, não é?

DGDiego Gomes

Fora o ônibus, né, acesso e tal. Nossa, é bizarro, né, cara?

AFAdriel Fonseca

Outra coisa também que eu percebi é Eu não sei se lá no Rio de Janeiro tem, mas o cimento no asfalto, quando a gente vai fazer uma obra, bate a massa no asfalto e fica aquela mancha de cimento nas ruas.

DGDiego Gomes

Aqui não tem isso, né, cara? Ninguém faz obra aqui, pô. Ninguém bate uma laje aqui. Eu vou fazer uma aqui na frente de casa só para deixar marcado que tem um brasileiro que mora aí. E aí, enfim, você foi para aí Ficou os 6 meses e acabou indo ficando mais, ficando mais, ficando mais, ficando mais. O negócio que deu errado deu certo, né? E você costuma brincar que a sua profissão é imigrante, cara. Me conta assim, desse, de tudo que você passou aí, qual foi o trabalho mais inesperado que você já fez por aqui, cara?

AFAdriel Fonseca

O trabalho mais inesperado que eu já tive aqui foi padeiro. Eu fui padeiro Profissional, né? Não, lá ele, lá ele.

DGDiego Gomes

Eu não, desculpa, eu não me aguentei, então eu não pude, eu não consegui perder a piada, não ia perder a piada. Mas você foi padeiro mesmo? Não, sério, agora de verdade.

AFAdriel Fonseca

É sério, sério, fui padeiro. Quem é imigrante sabe que qualquer profissão é profissão, ainda mais quando você É recém-chegado, você tem que pegar tudo que tá disponível ali, meu amigo. Não tem esse negócio, ai, eu sou engenheiro no Brasil, eu não quero fazer trabalho de cleaner. Paga quanto e quanto que é e onde que é? É perto de casa, eu vou. Tem esse negócio não. Trabalhava numa fábrica de frutas e aí tinha um amigo meu que tava indo para os Estados Unidos, só que ele, ele era o padeiro lá.

Só que ele ia para os Estados Unidos sem avisar o patrão dele, que eu já acho errado. E ele falou, ó, vai sobrar uma vaga de padeiro, que um rapaz está indo para Portugal, e ele me ensinou a fazer pão. Só que eu não quero ficar lá não, tô indo para os Estados Unidos, que apareceu uma oportunidade para mim. Então vai ficar vago lá, a minha vaga. Se quiser ir lá, é só avisar o cara que tu tem experiência, faz igual eu, mente, chega na padaria, fala que que já fez alguma coisa de padeiro no Brasil, que quando der oportunidade ele vai te ligar.

Aí eu fui lá, queria aumentar um pouquinho meu salário, saí da fábrica de frutas e fui na padaria. Oi, tem oportunidade para ajudante de padeiro? Que eu já fui ajudante de padeiro no Brasil e realmente eu já fiz alguns panetones na época de Natal. Um amigo meu, ele tinha padaria, ele fazia panetones E ele me chamava na época de Natal fazer os panetones com ele, vai te ajudar.

DGDiego Gomes

Você ajudou, só mentiu, né?

AFAdriel Fonseca

É, eu não menti. Cheguei lá e aí o português falou, não, não tem não, já a vaga já tá preenchida. Eu falei, por enquanto, porque eu sabia que o cara ia embora. Aí deu segunda-feira, o português me liga, olá, posso falar com o Adriel? Tudo bem, pá, tá interessado na vaga de padeiro? Falei, tô, tô sim. Já trabalhaste com padaria? Já, meu pai tinha uma padaria. Não falei isso não, mas falei, já fui ajudante sim de padeiro no Brasil, sei sovar uma massa.

E YouTube, YouTube, como sovar massa, tipo de pão, YouTube, meu amigo, YouTube. Eu tinha o quê, uns 7, 8 meses de Canadá, e aí o Fui até a padaria, o cara fez uma entrevista comigo e comecei no mesmo dia. O padeiro que ia embora para Portugal, ele era muito novo, tinha 18 anos, só que ele foi criado na padaria, então ele precisava voltar. E aí ele me ensinou tudo, só que fazer pão é receita, tá tudo lá anotado. Se você esquecer, você olha na receita e tá tudo certo.

DGDiego Gomes

É, à medida que você vai pegando na prática, você vai fazendo de cor, né? Mas a receita é aquilo ali, né?

AFAdriel Fonseca

Exatamente. Então em 2 semanas eu consegui aprender a fazer todos os pães. Legal, porque o cara falou, ó, se você conseguir fazer os pães direitinho, eu já vou em 2 semanas e você fica aí, vai aumentar o seu salário.

DGDiego Gomes

Aí você falou, porra, agora mesmo vou aprender a fazer tudo, né?

AFAdriel Fonseca

Aumentar o meu salário é agora. E então eu saía da padaria, começava a assistir mais vídeos e vídeos e vídeos e vídeos e vídeos para aprender, né? Maneiro. Só que tudo Tudo é um processo, né? Então quanto mais você fizer, mais você vai pegando a prática, mais você vai se aperfeiçoando. E aí foi acontecendo, fiquei 1, 2, 3 meses. No quarto mês, quando eu tava ganhando já bastante tempo, porque no meu primeiro dia sozinho eu fiz os pães em 14 horas, foi muito tempo, muito tempo.

Então até o meu último dia eu já tava fazendo os pães em 5 horas. Então aí o dono da padaria começou a perceber que ele não precisava de mim, porque os pasteleiros eles estavam com preguiça de fazer os pães. E aí ele me demitiu.

DGDiego Gomes

Pô, mentira! Agora, por eficiência, né?

AFAdriel Fonseca

Ele me demitiu. Eu não sei se eu fazia os pães ruim, eu acho que não, porque eu fiquei lá 4 meses fazendo pão. E ele só falou que não tava precisando porque tinha caído o movimento, e realmente era inverno. Então acho que por conta do verão ele tinha ficado comigo. Mas aí ele começou a me iludir também, falou, nossa, você sabia que padeiro é uma das profissões que dá documento? Eu falei, agora mesmo que eu vou começar a fazer pão.

É, quem faz pão tá aqui, moço. E broa, e e como é o papo seco, né, que eles chamam os portugueses, papo seco, cara.

DGDiego Gomes

Mas você aprendeu uma profissão nova, né? Assim, você tinha feito panetone lá, mas porra, uma experiência do cacete, né? E aí, cara, em qual momento que você percebeu que sobreviver como imigrante exigia criatividade todos os dias assim, cara? Como é que você pensou nisso? Você percebeu isso?

AFAdriel Fonseca

Quando eu percebi isso foi, eu acho que quando eu tava já do meu sétimo, oitavo trabalho. Que pelo mesmo fato de você poder fazer tudo, você tem a facilidade de comprar tudo também. Então você acaba se endividando. Isso tem que ter muito cuidado, né? É, e eu não me endividei comprando as coisas aqui, comprando carro, comprando celular caro. Não, me endividei jogando o pôquer. O mesmo pôquer que me trouxe até aqui foi o pôquer que me endividou, que eu comecei a jogar pôquer online e acabei perdendo um dinheiro que eu já tinha guardado trabalhando.

E aí eu tive que me reinventar, trocar de profissão de novo. Aí eu já tava trabalhando no brique, que é mais pesado, paga mais, é pesado mesmo, né? E aí trabalhava no brique E tinha outros trabalhos para fazer também, ia fazer o trabalho. E eu falei assim, não vai dar se eu continuar desse jeito sem a gestão financeira, não vai ter como uma hora ou outra, porque tudo é interligado, né? Se você não cuida do seu financeiro, a sua saúde mental vai por água abaixo.

E se você não tem saúde mental, mas tem o financeiro, também vai por água abaixo seu plano Canadá. Então você tem que estar conectado, os dois têm que estar muito bem alinhados. É engraçado, saúde mental e saúde física também.

DGDiego Gomes

É, você falar isso aí, né, do financeiro com a saúde mental e a relação disso assim, eu acho que da mesma mão que a imigração te dá coisa, ela te tira, né? Foi exatamente o que você falou assim, do mesmo jeito você tem trabalho para ganhar dinheiro. Assim, óbvio, o Canadá tá longe de ser um Estados Unidos em termos de oportunidade, né, de ganhar dinheiro, de, porra, o cara que trabalha lá nos Estados Unidos ganha mesmo, né? Tipo, porra, eu vejo, eu tenho muito, sabe, eu tenho parente nos Estados Unidos, né?

Então assim, eu tenho, eu tenho um tio que entrou de coiote na fronteira e hoje o cara anda de Lamborghini zerado e anda de lancha assim, depois de 30 anos nos Estados Unidos, né? Mas assim, pô, mas também, cara, o cara ralou muito assim, trabalhou, né? Trabalhou, é. E todo mundo que vai para os Estados Unidos e trabalha, e eu acho que aqui no Canadá também, né? Eu acho que tem uma questão que ao longo dos anos a gente precisa estar aqui há 8, né?

Tô aqui há 10, 8. A gente tem percebido que, porra, tá mais caro, tá foda de viver, né? Mudou muito, tem muita coisa acontecendo, né? Enfim, aí entrar na política também, aí vai, a gente vai ser cancelado aqui. Mas assim, tem muita coisa que eu acho que do mesmo jeito que ela te dá, te tira. Se você não tiver uma cabeça boa Você se perde, né? Você se perde de verdade, assim. E, cara, e aí nesse vai e vem da loucura da vida, de ganha e perde, de ter que se reinventar o tempo inteiro, ter a criatividade para você se tornar melhor cada dia.

E, mas em algum momento a sua criatividade ela saiu e Foi para internet, né? Ela aflorou, cara. E o gringo, como é que nasceu o gringo? Como é que você, cara, você começou pensando em virar criador de conteúdo ou foi só alguma parada que você foi colocando? Fala, cara, deixa eu botar isso aqui porque não é possível. Se eu não colocar na internet, ninguém vai acreditar que eu vivo isso. E aí você começou a colocar isso na internet de uma forma muito legal, descontraída, e começou a fazer as pessoas rirem, seus amigos rirem. Como é que surgiu o Gringo?

AFAdriel Fonseca

O Gringo, ele é uma criação. Na verdade, o Gringo, ele sempre existiu, né? Desde criança ele tá aqui dentro de mim. O Gringo é só um nome de um personagem, mas esse lado meu criativo sempre existiu. Sempre fui uma pessoa que, uma criança que fazia poema, gostava de desenhar, gostava de fazer palhaçada, gostava de fazer paródia. Então Sempre tive essa veia artística dentro de mim. E no momento onde todo mundo tava parado, o mundo tava parado por causa da pandemia, todo mundo começou com o negócio de TikTok, dancinha, aquelas coisas.

Uma amiga minha, queria até agradecer ela, Joyce, ela falou, ó, por que você não faz um Instagram para falar isso que você fala no seu, aqui no seu Instagram pessoal? Que é muito engraçado, acho que vai dar super certo. Eu falei, ah, vou fazer. Então eu tinha pintado meu cabelo para Copa do Mundo, eu acho, e tava platinado, eu não lembro, mas eu tinha pintado de— o nevou, eu tinha nevado o cabelo. Aí meus amigos na companhia que eu trabalhava tá me chamando de gringo.

Ah, virou gringo agora, tá loiro, virou gringo. Aí pronto, pegou o apelido gringo. Eu falei, ah, então Eu vou seguir com esse nome aqui e vou fazer umas palhaçadas aí na internet. Só que eu sempre acompanhei muito stand-up comedy, comédia, humor. Eu gosto muito de dar risada, fazer os outros rirem. E aí eu fui fazendo, a princípio como quem não quer nada, fui fazendo, fazendo, fazendo, e foi ganhando forma até o que é hoje. Aí tem mais de 80 mil pessoas seguindo aí, né?

Só que também é uma coisa que não é fácil, né? Eu sei que produz conteúdo, sabe muito bem a questão da saúde mental, algoritmo, tudo isso mexe com o psicológico da pessoa. E às vezes a gente tem que saber equilibrar esse jogo aí, que criatividade a gente tem, sim, mas tem que ter cabeça para lidar com a internet também.

DGDiego Gomes

É, eu ia te perguntar exatamente isso assim, cara. Mais de 80 mil pessoas te acompanham, eu sou um deles, eu, porra, me divirto, eu adoro. Eu adoro esse humor sátrico, sabe? Esse humor assim que você faz, tipo, do humor cotidiano, né? E é engraçado porque você conecta ainda mais com quem mora aqui, né? Porque aquele humor do dia a dia, se você se vê naquela situação, né? Eu adoro aquela parte que você faz de supermercado. Pô, fazer compra aqui é mole, olha só, é só tu ver aqui, essa porra é carne ou é porco?

Isso é porco, então tu compra essa merda, cara. É ótimo assim, e é bem isso assim, retrata meio que o início da imigração para muita gente assim, é muito legal e não tem como se conectar, não tem como não se conectar, eu acho maravilhoso. E uma porra, qual foi o primeiro vídeo que você fez, você falou assim, opa, eu acho que tem alguma coisa acontecendo ali, cara?

AFAdriel Fonseca

Primeiro vídeo que eu fiz que Não vou lembrar porque eu me desapego muito dos vídeos que eu faço, sabe? Eu faço e vou fazendo, vou fazendo, vou fazendo. Porque se isso é uma coisa que eu aprendi também, eu fazia aquele videozinho assim, aquele vídeo que você mais planeja, faz um roteiro, faz tudo direitinho, aí flopa.

DGDiego Gomes

Isso é uma coisa da internet moderna, né, cara? É verdade.

AFAdriel Fonseca

Aquele que você faz, você pega aqui a câmera do celular e começa a gravar, fala uma bobagem ou outra, Pô, agora esse aqui estourou, viralizou. Falar, então eu acho que eu tenho que me desapegar dos meus vídeos, produzir, produzir. Isso é um ponto negativo que eu acho da internet hoje em dia, porque ela quer que nós sejamos escravos do algoritmo. E isso eu não concordo. Por isso que normalmente eu tiro férias, por exemplo. Hoje em dia eu não tô postando os vídeos, eu percebi, é para eu não, para eu não tá repetindo.

Eu não repito conteúdo, não gosto de repetir, e eu gosto de criar os meus vídeos, não gosto de pegar, fazer trend. Ah, todo mundo faz uma trend, vai lá e faz. Falei, pô, bacana, mas eu não gosto. Eu gosto de criar, eu gosto de sentar, eu gosto de observar, eu gosto de olhar as pessoas, eu gosto, igual eu falei da calçada, falei, pô, a calçada aqui é retinha. Isso é uma coisa que tá dentro de mim, entendeu? Lá não é só porque o algoritmo quer que eu vou ter que fazer, não, não é assim.

É eu que sou criador, é por isso que o nome é criador de conteúdo, senão ia ser imitador de conteúdo. É, você só vai imitando e vai fazendo, né, cara?

DGDiego Gomes

Eu concordo 200% com você. E as pessoas, elas perderam a autenticidade, né, porque elas querem viralizar de qualquer jeito. E aí E você rola às vezes o scroll do Instagram ali, cara, e é um vídeo igual o outro, igual o outro, igual o outro. E aí, à medida que você vê um vídeo, o algoritmo te entrega igual o vídeo depois do mesmo, um cara diferente com a mesma coisa. Eu acho que você tá super no caminho certo. E o problema é do algoritmo, né? O problema é deles. Isso fala muito mais deles do que sobre você, por exemplo.

AFAdriel Fonseca

E até porque eu penso em ir por outra linha, que é a linha do stand-up. Então não posso me apegar, não posso me apegar a like, aplausos, o quê? Aplausos na hora ali quando eu tiver no palco, essas coisas. Então desde sempre eu sempre mantive minha mente pensando no stand-up. Então o gringo nada mais é que um treino, que eu já fiz stand-up algumas vezes aqui para brasileiros.

DGDiego Gomes

Legal.

AFAdriel Fonseca

Só que é uma coisa que eu venho pensando e pensando e pensando, falei, pô, se eu só fizer para brasileiro aqui vai ser poucas vezes que eu vou estar no palco, porque por mais que esteja, tenha muitos brasileiros aqui fora, não tenho o suficiente para eu me manter ativo no palco semanalmente.

DGDiego Gomes

Concordo.

AFAdriel Fonseca

Vou ter que partir para o inglês, eu acho. Vou ter que partir para o inglês. E aí, e aí os vídeos que eu tava fazendo, ah, não precisa de inglês para vir não.

DGDiego Gomes

Aí, ó, cara, eu acho que, eu acho que é muito legal, eu acho que o mais legal da imigração é você se reinventar todos os dias. E isso aí é a prova de que você tá se reinventando, cara, porque a verdade, a verdade de ontem vira a mentira de amanhã, e a mentira de hoje vira verdade amanhã, cara. É isso assim, sabe? Não tem certo e errado. Essa é a beleza da história. E porra, você trabalha na construção durante o dia e cria conteúdo depois.

Você sente que é difícil viver essas duas versões assim, cara? Ou você acha que é natural?

AFAdriel Fonseca

Então, quando você já tá ali com a roda andando, credo lá ele, a roda andando, quando o carro tá em movimento é muito mais fácil. Agora, se você dá um, se você dá uma parada, igual eu dei uma parada agora, deu, tirei umas férias, Só para aliviar a cabeça. Para você voltar é um pouco mais difícil com a rotina, mas mesmo assim acaba sendo complicado porque você tem que fazer as coisas que você tem que fazer em casa, você tem que, né, tem toda a vida, a rotina envolvida com isso.

Então você tem que criar o conteúdo com que você tem, porque se você for esperar o momento perfeito para agir Esse momento nunca vai chegar. Então faz o que você tem, seja quem você é, que eu acredito que vai dar tudo certo. Aí você vai ajustando no meio do caminho.

DGDiego Gomes

Eu ia falar que a vida de imigrante é a vida de cão, mas na verdade não, né, cara? Porque os seus cachorrinhos têm uma vida de patrão aí, né?

AFAdriel Fonseca

Se fosse a vida deles, eu queria a vida dos meus cachorros, eu queria a vida deles.

DGDiego Gomes

Só fala uma língua. Será que entende inglês? E E cara, você acha que o humor foi uma forma de lidar com a imigração ou foi a imigração que despertou esse humor em você assim? Você falou que você já tinha alguma coisa dentro assim, mas você acha que a imigração ela fez aflorar esse personagem? Não, mas eu diria que essa outra coisa que tinha dentro de você assim.

AFAdriel Fonseca

Sim, sim, com certeza. A imigração, ela, ela me fez eu me reencontrar, porque muitas das vezes a gente vive a vida que outra pessoa estabeleceu para gente, né? Muitas das vezes a gente não quer fazer uma faculdade, a gente faz porque nossos pais falaram que era bom fazer a faculdade, mas você queria fazer outra coisa. Pulando, disse que o emprego tá pagando melhor. Então é, você vai, começa a trabalhar naquele outro emprego. A imigração, ela fez eu ser quem eu realmente sou, diversificado.

Uma hora eu posso estar correndo maratona, outra hora eu posso estar fazendo academia, fazendo natação. Eu não sei o que dá vontade de fazer. Eu sou movido por desafios e o humor ele sempre teve dentro de mim. Isso aí é fato. Quem me conhece desde criança, meu pai, minha mãe, meus avós, sabe que eu sempre tive esse lado. E a imigração fez eu reencontrar isso e fez eu ver como realmente é importante para mim. Porque muitas das vezes eu tava cansado, pensando até em voltar para o Brasil, mas eu falava: por que que eu tô pensando em voltar para o Brasil?

Vou fazer um vídeo sobre isso. Ia lá e fazia um vídeo sobre isso. E aí tinha muitas pessoas falar, caraca, é realmente assim. Falei, tá vendo aí? Aí começava a fazer. Quando eu tava cansado do processo, começava a fazer mais vídeo, vídeo, vídeo, vídeo, vídeo. E aí acaba que eu ia esquecendo dos problemas que eu tinha e o tempo ia passando.

DGDiego Gomes

Que legal, ela te reconectou com você mesmo, né, cara?

AFAdriel Fonseca

Exatamente, que é o que todo mundo precisa fazer, né? Porque na verdade As pessoas, elas acham que se conhecem, mas a gente vai mudando ao longo do tempo. Então a gente, autoconhecimento para mim é primordial. Você primeiramente tem que se conhecer para poder você tentar entender o que é o mundo, que é a vida, que realmente é complicado.

DGDiego Gomes

Se entrar nessa viagem aí, meu amigo, aí a gente vai ter que apertar um bagulho aqui. E é legal, hein? Que é legal, hein? E aqui pode, aqui pode, aqui pode. Não adianta me cancelar não, cara. Qual foi a maior mentira que te contaram sobre morar no Canadá?

AFAdriel Fonseca

Você vai ficar rico.

DGDiego Gomes

Contaram essa história para mim também.

AFAdriel Fonseca

É, vai para lá, pô, que você vai ganhar um salário mínimo, você consegue mandar dinheiro para o Brasil rapidinho, pô. Em 5 anos você tá bem de vida. Meu amigo, tô achando que ainda não passou mais 5 anos não.

DGDiego Gomes

Esses 5 anos tá demorando para cacete. Engraçado você falar isso, que quando eu, enfim, eu quando eu vim tinha muito, tinha pouquíssimas informações sobre o Canadá na internet, né? Tinha 1, 2, 3 canais de YouTube grandes assim, que eram só eles também, né? Não tinha muita coisa. O YouTube, pô, 10 anos atrás o YouTube era, já era alguma coisa, mas não era muita coisa. E E um desses canais, cara, as pessoas que faziam o canal só mostrava carrão, casona, que não sei o quê.

Não, porque você aqui, você quer, você quer, porra, é lá, é lá, American Dream, sacou? Vou chegar lá, porra, vou ter uma casa daquela, 8 quartos, 3 carros na garagem e tal. Porra, vou te falar que o cara, ele deveria ser concuminado com o governo para trazer otário, imigrante otário.

AFAdriel Fonseca

Eu digo para os meus amigos que a imigração é um grande sistema de pirâmide.

DGDiego Gomes

Porra, é verdade.

AFAdriel Fonseca

Os que vão entrando vai ter que falar para os outros que é muito bom. E vem que tá, mano, tá bombando aqui de trabalho. Aí o cara vem, vira ajudante dele, aí o outro começa a crescer o sistema de pirâmide. Porque realmente foi assim, né? Se você parar para observar, realmente foi. Tanto é que estourou agora o sistema de pirâmide, as casas deram uma baixada porque pararam de oferecer serviço de estudante para todo mundo e essas coisas. E isso aí que a gente já sabe, né?

DGDiego Gomes

Você, você, cara, isso é um pensamento interessante assim, porque você percebe na história da imigração do Canadá, principalmente no Canadá, que ela é, ela tem ondas de 5, 10, 15, 20 anos assim. Você conhece, obviamente você tá na sua bolha ali de 8 anos, 10, 5, você acaba conhecendo aquela galera, você vê quanta gente migrou, e daí ele vai Você vê que tem uma onda, tem ondas, né? E eu conheço muita gente daqui que chegou há 30 anos atrás, fala, cara, isso aqui era maravilha, comprei uma casa de 5 quartos por R$150 mil, essa aqui era mato e tal.

Só que a base da pirâmide são eles, né? E a gente já tá mais para o topo. E agora o governo tá tentando reajustar esse negócio aí para ver se a gente consegue comer. Enfim, isso é papo, outra coisa, cara. Se amanhã acabasse a internet, quem seria o Adriel hoje? Seria o cara que queria emigrar para o stand-up comedy, tipo, em terceira linha, né?

AFAdriel Fonseca

Se amanhã acaba a internet, é continuar sendo eu mesmo, porque eu sempre quis manter isso bem vivo em mim lá. Não vou depender só de like, porque uma hora ou outra Isso vai acabar, né? Internet, ela não vai ser— ok, tudo bem, tem uma base muito grande para continuar por muito mais tempo, só que não é saudável. Eu digo e repito, a internet, quem produz conteúdo, não é saudável. Eu produzo conteúdo todo dia, tem tanta gente ensinando a fazer conteúdo, conteúdo, conteúdo todo dia.

Não é saudável, não é. As pessoas, elas perdem o senso da realidade. Elas acabam vivendo mais no digital do que na vida real. E a vida real, ela tem que existir, né? Ela, a vida real, ela tem que estar aqui presente com a gente. O toque, uma palavra, tomar uma cerveja ali, deixar o celular um pouco de lado. Por mais que eu seja um criador de conteúdo, eu falo isso porque eu não dependo disso. E se dependesse também, falaria.

DGDiego Gomes

Fantástico, você tocou num ponto interessante aí. Eu num tempo assim eu fiquei bem frustrado com a internet justamente por conta disso, né? Eu entrei numa vibe ali de, cara, eu preciso postar todo dia, o perfil tem que chegar em mais gente, etc., etc. e tal. E aí eu comecei a ir para um lugar onde eu não queria muito, sabe, com esse perfil do podcast assim. E aí chegou um um momento que eu precisei revisitar o porquê que eu criei o podcast, sabe?

E aí eu falei assim, cara, eu não criei o podcast pro like, pro algoritmo. Eu criei o podcast pra mim, eu criei o podcast pra compartilhar as histórias pra quem quer que a história chegue nela. Eu criei o podcast, ele é muito maior do que eu ficar criando coisa todo dia pra poder alavancar o perfil e de repente monetizar e ganhar dinheiro e tal. E aí foi quando as coisas começaram a ficar mais leve pra mim, sabe? Falei assim, não, porra, cara, eu vou criar, eu vou fazer as histórias, eu vou continuar os bate-papos, cara.

E a quantidade de gente legal, interessante, conexões que isso tá me dando, pô, você é um deles, por exemplo, pô, já te agradeci, obrigado você ter respondido minha mensagem. E aí nosso bate-papo até agora, a gente já falou um bocado de coisa, a gente vai falar mais, mas aí isso me faz refletir o quão legal esse podcast para mim e para você também, para quem a gente se conecta, cara. Olha que Que maneiro assim, sabe? Ficar e larga o telefone de lado e vambora, e vamos viver a vida.

Porque no final das contas a gente vai botar na internet uma coisa que a gente tá vivendo agora, sabe? Hoje, não pessoalmente, você tá em Toronto, eu tô em Vancouver, mas pô, a gente tá aqui trocando uma ideia e é isso que vale, cara. Muito legal assim, de verdade. E porra, filosofando para cacete, cheio de filosofia, cheio de historinha. Que a galera fica emocionada. Mas tem um quadro que é super tradicional aqui, daqui de fora, que é a história de imigrante.

E eu sei que, pô, para você vai ser difícil escolher uma história, porque você tem história para cacete, né? Tem muita. Mas me conta um perrengue daqueles que parece mentira, sabe? Que provavelmente vai fazer todo mundo rir. Você me contou alguma coisa aí do Impossible Burger, que Que história é essa?

AFAdriel Fonseca

Esse foi o mais recente, vou contar esse que tá fresquinho. Para quem não sabe, eu tô trabalhando agora numa empresa que praticamente todo mundo é canadense e é inglês o dia todo, inglês, inglês, inglês. Então eu tinha acabado de voltar do Brasil e o patrão alugou um cottage para a gente ficar lá durante 2 dias. E aí a gente andando de lancha, a gente parou no restaurante para comer. Falei, ok, beleza. Chegou os menus, todo mundo ali com os menus na mão.

Falei, ah, vou comer um hambúrguer. Aí o meu patrão pediu um hambúrguer, o outro patrão pediu hambúrguer, todo mundo pedindo hambúrguer. Aí eu olhei aqui, um hambúrguer de brisket. Falei, esse de brisket vai ser muito bom. Aí embaixo tinha Impossible Burger. É o hambúrguer, mais $3 você poderia fazer ele 2 hambúrgueres. Se o de brisket deve ser grande, imagina um Impossible. Impossible é impossível, né? Falei, né, isso aqui eu sei, impossível, deve ser impossível de comer de tão grande que é.

Falei, eu tô com fome, é isso que eu vou pedir. Aí foi recolhendo o pedido de todo mundo, eu era o último. Ah, can I have my Impossible Burger, please?

DGDiego Gomes

Yeah.

AFAdriel Fonseca

Mulher foi lá e quando veio trazendo os hambúrguer, trouxe primeiro do meu patrão, colocou assim, tava do meu lado. Falei, caraca, hambúrguer grandão de brisket! Aí você falou, eu falei, nossa senhora, se o dele é grande, imagina o meu que é impossível. Ela vai trazer no forklift, moço, porque se o dele é desse tamanho Aí lá vem ela trazendo meu hambúrguer, colocou assim na mesa, e eu com essa cara assim, eu olhei para o hambúrguer, olhei para ela, falei: this is impossible for you?

O hambúrguer normal, era um hambúrguer normal. Aí daqui a pouco todo mundo começou a rir porque eu falei, né? Falei: this is impossible for you? Ela: é, não parece, mas é impossível. Eu consigo comer isso aqui.

DGDiego Gomes

De repente tem alguma coisa que eu vou morder, já vai pôr expandir, né? Não sei.

AFAdriel Fonseca

É, eu falei, eu consigo comer isso aqui tranquilo, pô. Até uma criança de 3 anos consegue comer isso aqui. Isso aqui não é impossível. Aí eu comendo, comendo, comendo, na metade do hambúrguer, um amigo meu da companhia lá falou, ô Adriel, você sabe que Impossible Burger é vegano? Vegetariano, vegano, né? Aí eu, com vergonha, né, porque eu tinha esquecido, tinha voltado do Brasil, tinha esquecido. Eu falei, não, eu sei, eu que eu pedi mesmo, eu gosto, eu gosto. De vez em quando é muito bom colocar fibra no corpo, eu gosto.

DGDiego Gomes

Qual vontade de comer o brisket do seu chefe, lindo!

AFAdriel Fonseca

E cada mordida que ele dava no brisket era uma lágrima que caía dos meus olhos. Aí eu falei, não é possível que eu errei, cara, foi com tanta fome. Aí Chegou no final do hambúrguer, eu falei, não, vou ter que falar para eles que eu não sabia, eu esqueci. Ela esqueceu, eu não sabia, né? Aí eu falei para ele, não, eu não sabia não, cara, que era vegano. Aí os cara começaram a dar gargalhada, e agora eles me chamam de impossível, me chamam de impossível gringo.

DGDiego Gomes

Aí, ó, tem que, já sabe que vai ter que fazer um conteúdo desse aí, né?

AFAdriel Fonseca

Qualquer coisa que eles falam é, ah, chegou o impossível, tá aí o impossível, cara.

DGDiego Gomes

Agora falando, cara, muito bom, cara. Eu já cometi gafe de comida aqui também, assim, várias, de fazer com que, porra, você não sabia que tava pedindo isso, tá?

AFAdriel Fonseca

Porque senão, porque isso daí normalmente vem falando, então vem uma plantinha do lado do do hambúrguer, né? Esse não tinha nada, só tá escrito impossible e mais $3. Eu falei, não, se é mais, é mais caro ainda, então deve ser maior. Foi feito para errar, foi feito para errar, foi feito para errar.

DGDiego Gomes

É muito bom, cara. E falando um pouquinho mais do Adriel assim, tirando a comédia, enfim, um pouquinho mais profundo, você saiu do Brasil para passar 6 meses e São 8 anos e você já continua aqui. Quem é o Adriel hoje comparado com aquele cara que desembarcou em Toronto há 8 anos atrás?

AFAdriel Fonseca

É muito diferente, muito diferente, muito diferente. Naquela época, o Adriel daquela época, ele sabia de algumas coisas, tinha coragem Mas não tinha certeza. O Adriel de hoje em dia, ele já passou por tantas coisas, já fez tantas coisas que ele tem certeza que tudo que ele quiser fazer, se ele praticar todo dia, tiver disciplina, ele consegue fazer aquilo. E isso para mim é gratificante, porque a gente tem o medo de fazer as coisas, né?

Por exemplo, eu tenho medo de fazer o stand-up comedy em inglês porque tenho que estudar, tenho que estudar gíria, tem que ir para o palco em inglês, é muitas coisas. Se fosse o Adriel lá de trás, ah não, vou esquecer esse sonho para lá porque vai dar muito trabalho. O Adriel de hoje fala, não, vai dar trabalho, mas a gente já correu uma maratona, a gente já emigrou, a gente já passou por 10, 8, 15 trabalhos, a gente já fez várias coisas diferentes.

Então Cada coisa foi me ensinando a ser quem eu sou hoje em dia. Isso é o poder da imigração. Quem não tá disposto a mudar não vem, porque tudo começa com uma palavra, né? Mudança. A partir do momento que você deixa o Brasil, você já tá se mudando. Então eu acho que a palavra-chave da imigração é mudança.

DGDiego Gomes

Você comentou que correu a maratona, e eu já sabia que eu acompanhei o seu Instagram e tal. Cara, eu sou apaixonado por esporte. Eu acho que o esporte, ele coloca a gente num outro nível mental, né, físico e mental, assim. E a maratona das corridas, né, é, cara, é a mãe das corridas, né. Tipo assim, você é maratonista, né. Uma vez que você correu a maratona, você é maratonista, você vai ser maratonista o resto da vida mesmo. Você correu 42, existe alguma relação entre correr a maratona e viver fora?

AFAdriel Fonseca

E a imigração existe, existe demais. O jogo mental, se eu soubesse, eu tinha corrido a maratona antes, antes da imigração, porque a imigração ela é uma maratona até você chegar naquele momento que é o sonho de todo imigrante, né, que é pegar o passaporte. Que a partir do momento que você pega o passaporte, você se torna cidadão, você já não é mais imigrante. Então hoje em dia eu sou residente. Eu tô um passo só da cidadania, mas se eu soubesse do poder mental que a maratona traz para gente, eu já tinha corrido antes.

A corrida ela te dá nessa, essa skill que você tem que estar ali batalhando. Às vezes o seu corpo tá cansado, mas o corpo cansado ele consegue ir. O problema é quando a mente cansa. Então aí começa uma vozinha bem pequenininha: nossa, se eu parar agora, se eu parar agora. Daqui a pouco ela tá: se eu parar agora, se eu parar agora. Isso é parar de correr. Se você colocar isso no seu plano imigratório, é a mesma coisa. Então por mais que esteja difícil no quilômetro 4, vai estar difícil no quilômetro 10, no quilômetro 15.

Até chegar no 42. Você tem que aguentar o processo, porque só quem aguenta o processo merece a vitória. E o processo de quem é imigrante, ele é, ele é sofrido. Nossa, é muito sofrido.

DGDiego Gomes

E o que que foi mais difícil para você, correr os 42 ou 8 anos de imigração?

AFAdriel Fonseca

Ah, eu acredito que os 8 anos de imigração, porque os 42, né, cara, os 42 ali você vai passa em 4 horas, né? Eu fiz em 4 horas, em 4 horas e alguns minutos. Mas 8 anos é 8 anos, né? Então você tem que— é uma ultramaratona.

DGDiego Gomes

Mas você continua correndo, né, Ariel? Não, você tá parado?

AFAdriel Fonseca

Eu dei uma parada, tô fazendo academia agora, mas eu tinha dado uma parada porque, meu, fui para o Brasil de férias. Acaba que quando eu treinei para maratona, fiquei muito focado, porque tem que ficar Não tem escolha, ou você foca, você não corre. Então eu falo, não, eu vou finalizar, vou finalizar, porque teve várias coisas na minha vida que eu não finalizei. E eu tava puto com essa porra, fala, não, nunca vai conseguir finalizar nada. Falei, eu vou fazer uma maratona agora. Aí cheguei, disciplina, e fui lá e fiz.

DGDiego Gomes

Mas você tá prestes a finalizar uma fase importante da sua vida. Na verdade, assim, finalizar um plano e começar outro, que é a cidadania, né? Você tá a 5 km desse passaporte, cara. Então assim, você tá finalizando mais uma coisa. Tá falando que não finaliza nada? Olha aí, pô, você quer alguma coisa melhor do que isso? Pô, tá chegando ali, cara, e você merece demais isso, cara. Você costuma fazer piada de muita coisa, de tudo basicamente, mas tem alguma coisa sobre a imigração que você ainda não conseguiu transformar em humor?

AFAdriel Fonseca

Eu não consegui transformar em humor?

DGDiego Gomes

É.

AFAdriel Fonseca

Tem algumas coisas que eu não gosto de falar, por exemplo, a saudade de casa. Não, isso eu falo. Eu acho que não, acho que eu falo de tudo mesmo. Não gosto de ficar falando muito, deixa eu ver, sobre coisas que as pessoas vão me perguntar, que as pessoas elas confundem muitas coisas, elas confundem vídeo de humor com realidade. Hoje em dia a internet tá assim. Então, então, por exemplo, se eu falar que eu tô sem status, ah, não sei o quê, o cara tá sem status, eu ouvi tu falar isso.

Já fiz alguns vídeos, mas eu evito falar porque senão as pessoas falam que tá incentivando. Então não é só eu que tô incentivando não. Então desde antigamente estão incentivando, porque José abriu o Mar Vermelho e passou uma cambada de gente. Então tá incentivando também, a Bíblia tá incentivando também.

DGDiego Gomes

É tudo como você interpretar, né?

AFAdriel Fonseca

É exatamente. Mas de resto eu Eu gosto de falar de tudo porque o humor é o seguinte, né? É você pegar aquilo que tá na realidade e você transformar de maneira cômica. Só que hoje em dia tem que ter cuidado também, porque as pessoas elas estão confundindo a realidade com a arte, acaba ofendendo muitas pessoas. Tanto é que eu comecei a falar de vídeo que não precisava falar inglês para vir para o Canadá Porque outra coisa também, que é uma coisa que eu observo muito, toda vez que a gente vai falar de onde a gente mora, por exemplo, você mora em Vancouver, eu moro em Toronto, e eu poderia falar muito bem, não precisa de inglês para vir para Toronto, só que a palavra Canadá é muito mais forte.

Então todo mundo usa o Canadá para falar as coisas, só que o Canadá é gigantesco. Né? Então comecei a falar, fazer vídeo sobre, ah, não precisa fazer, não precisa fazer inglês, não precisa falar inglês para vir para o Canadá, você consegue se virar aqui em Toronto. Realmente você consegue se virar, isso daí, isso daí não é uma mentira. Só que você precisa, né? Teve uma pessoa que veio perguntar, olha, você tá falando nos vídeos que não precisa de inglês, o meu marido vai para uma entrevista E o recruta— recrutador falou que ele precisa estudar inglês porque senão ele não vai passar.

Aí eu falei, aí não, senhora, aí você, aí, aí é loucura, aí você não entende nada. Calma aí, aí calma aí, pô, mas você tá indo para uma entrevista de trabalho, velho, a empresa é canadense, aí você vai chegar lá falando português, pô? Pera aí também, né?

DGDiego Gomes

Você não entendeu nada, me ajuda a te ajudar, né?

AFAdriel Fonseca

O humorista falou que não precisa de inglês não, ué. Não precisa. Você chega aqui, tem supermercado que fala português, padaria que fala português, pessoas que falam português. Você pode viver a vida toda, como eu conheço várias pessoas que vivem aqui, sem falar o inglês. É ruim demais, é ruim demais. Se você vai sempre depender de outra pessoa. Agora, se você pegar e estudar, muito melhor. Você vai abrir outras portas, né? É melhor você abrir só um lado da porta ou abrir as duas portas para você? Você abre as oportunidades, você amplia, né, as coisas.

DGDiego Gomes

É engraçado você falando isso assim, porque esses dias de barro, o algoritmo me entregou uma menina brasileira, eu acho que tá em Calgary, alguma coisa assim, não sei, que ela tava, ela começou a compartilhar algumas questões da vida dela, que ela já tava aqui há 6 anos, ela imigrou com o marido, que o marido foi expatriado. E ela já tava aqui há 6 anos, ela não falava inglês ainda. 6 anos, nada. Ou seja, ela viveu naquela bolha ali de brasileiros em Calgary, o marido trabalhando, ela não precisava trazer dinheiro para casa.

E aí, em algum momento da vida dela, ela se tocou que se ela não falasse inglês, ela não ia se integrar na sociedade, né? Óbvio, é exatamente isso. Enfim, as pessoas, elas precisam entender o contexto das coisas e perceber o que que é arte, o que que é humor, o que que é conteúdo de verdade. Pô, que pelo amor de Deus, né, cara? Tem um quadro aqui no podcast que eu adoro e ele chama o seguinte: Conselho, se fosse bom, eu venderia.

Qual o conselho que você venderia? Porque dá, porra, é foda, dá, todo mundo dá, né? Opa, olha lá ele! Qual é o conselho que você venderia para quem tá escutando a gente aqui no podcast? Que eu venderia é sobre imigração.

AFAdriel Fonseca

R, uma palavra só, R. R, que todo mundo é, todo mundo ensina o caminho das pedras, o caminho para você não errar. Ah, esse aqui é o caminho mais fácil para você. Eu iria pela outra via. R, arrisque, tente, faça de novo. R, R, R. Quanto mais você errar, mais você vai descobrindo aquilo que você gosta de fazer, mais você vai descobrindo se o Canadá é para você, mais você vai descobrindo se outro país é para você, né? Porque o seu público é muito grande, fala para todos os países do mundo.

Quanto mais você errar, mais você vai descobrir se a imigração é para você. Então vamos supor que uma pessoa errou 15 vezes num ano. A imigração não é para mim. Pô, tu já descobriu, joia! Voltar para o Brasil vai começar outra vida. E é isso aí. Agora, aquele cara que tá ali fazendo a coisa certinha, aí eu não vou sair desse trabalho porque é o que me mantém, não sei o quê. Não, cara, se tá te fazendo mal, sai, vai para outro, erre, cara. Não tenha medo de errar, não.

DGDiego Gomes

Eu me arrisco a dizer que esse foi um dos melhores conselhos que eu escutei até hoje no Daqui de Fora em 23 episódios. Obrigado, de verdade. Assim, eu concordo com você. Se você não experimentar, se você não errar, você não vai ter o processo evolutivo e não vai saber se você gosta ou não, né? E aí volta naquilo que você falou, que a imigração ela te deu uma percepção de ser você mesmo, né? De você tentar e ser você mesmo, e menos o que os outros falam para você ser, né?

Ah, faz a faculdade porque é bom para isso e isso. Ó, trabalha nisso, que é bom para esse, esse tal. E a imigração te dá essa oportunidade, né, de você experimentar, errar e fazer de novo e fazer coisa diferente e tal. Eu só tenho te agradecer. Obrigado pelo conselho.

AFAdriel Fonseca

Eu que agradeço também, cara.

DGDiego Gomes

E terminou ainda não, calma aí, cara. Olhando para esses 8 anos aí, valeu a pena? Você diria que valeu a pena?

AFAdriel Fonseca

Valeu demais, viveria de novo. Tudo exatamente igual. A gente não pode mudar o que já foi feito, né? Mas eu aprendi bastante, graças a Deus. Eu sou uma pessoa que gosta de aprender, então faria tudo de novo, porque é o que eu te falei, os erros me trouxeram até aqui. Foi cada erro que me fez chegar a ser quem eu sou hoje. Mas vai continuar errando? Não, calma aí também, a gente não é burro, né? Tem que errar e aprender, errar e aprender, vigiar.

DGDiego Gomes

E é exatamente isso que você diria para o Adriel de 8 anos atrás, prestes a sair do Brasil para 6 meses no Canadá? É isso que você falaria para ele? O que que você falaria para ele hoje?

AFAdriel Fonseca

Eu falaria para ele: já era para ter ido, meu filho, tá atrasado. Tá atrasado, era com 15 anos, já era para ter voado, já era para ter batido asa. Bora, bora, povo tá te esperando lá fora, meu irmão, tá achando que tem os banheiros, estão tudo sujo para limpar, tem pão para fazer, tem pão para fazer, tem casa para construir. Tu acha que como é que as casas vão ficar baratas se tu não tiver construindo as casas?

DGDiego Gomes

É muito bom. E me fala, onde é que, onde é que o pessoal consegue acompanhar o Gringo aí? Faz um jabá do Gringo aí. Eu sei que, pô, tem 80 e tantas mil pessoas aí já.

AFAdriel Fonseca

Consegue me acompanhar no Instagram, é a minha rede mais ativa. Antigamente era gringo.ca, mas eu fiz o rebrand. Agora eu sou o @adrielfonsecax, do jeito que tá na telinha aqui. @adrielfonsecax no Instagram. Eu tenho também o YouTube, só que eu não costumo postar muito no YouTube. E TikTok não uso não, né?

DGDiego Gomes

Eu tô abandonando também. Eu comecei a postar lá, mas aí aquela conversa que a gente teve de ficar pressionando, fazendo coisa e tal, deixar o negócio low profile. Cara, Adriel, eu não tenho palavras para te agradecer. Eu já falei no meio do episódio que o motivo pelo qual esse podcast existe é para eu conectar com pessoas que vão me ensinar alguma coisa. E eu tenho como filosofia de vida, assim, da história que você falou do erra, faz de novo, erra, faz de novo, é aprender todo dia com alguém.

E porra, durante uma hora aqui, cara, o que eu escutei de você me fez me arrepiar e me fez emocionar, me fez rir e me fez lembrar o motivo pelo qual esse troço existe, sabe? E tenho palavras para te agradecer, cara. Eu vou continuar te acompanhando como bom como bom espectador do gringo e torcendo muito, muito, muito para que você siga a caminhada do stand-up comedy lá em inglês, em português. E quando você tiver pronto, você me fala que a gente traz você aqui para Vancouver.

Eu tenho uns contatos bons aqui para te botar numa casa de show, fazer algum episódio.

AFAdriel Fonseca

E show de bola!

DGDiego Gomes

E eu só te desejo boa sorte na sua caminhada. E, cara, Conte comigo que você precisar nesse Canadazão aí. E obrigado, cara.

AFAdriel Fonseca

Eu que agradeço também. Muito obrigado aí, porque a gente nem imagina que a gente tem tanta coisa guardada, né, na cabeça. Isso aqui é, esse podcast é melhor que uma terapia, porque é muito bom, é muito bom, cara, trazer tanta informação aí para os ouvintes. E espero que todo mundo goste. Muito obrigado aí também, vão gostar. Valeu, Diegão!

DGDiego Gomes

Por fim, ó, morar fora nunca foi sobre mudar de país, é sobre descobrir quem você se torna no caminho. E porra, se esse podcast aí faz sentido para você, se esse episódio faz sentido para você, segue o Daqui de Fora no YouTube, no Spotify, no Amazon Music, né, por podcast. Segue também no Instagram, ativa esse sininho de notificação, compartilha com alguém que que quer escutar, que tá vivendo esse recomeço. Quando sair um corte também, pô, compartilha lá no Instagram.

Esses cortes vão estar maravilhosos. Daqui de Fora é um projeto independente feito com carinho para contar histórias reais de brasileiros pelo mundo. Se você gosta desse tipo de conversa e quiser fazer parte dessa jornada junto comigo, junto com o Adriel, cara, você pode me mandar um cafezinho aí, né? Então assim, você pode se tornar um apoiador do podcast através do Buy Me a Coffee. O QR code tá aí na telinha, o cafezinho aí, valeu, Adriel.

E o link tá na descrição desse vídeo. E obrigado por manter vivo esse projeto, esse espaço onde a gente pode conversar com pessoas como Adriel, contar história como do gringo. E é isso, cara, o podcast ele volta daqui a 2 semanas. Valeu!

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