César Araújo | Please, Take off Your Shoes
No episódio desta semana recebemos César Araújo, presidente da ANIVEC
Cláudia Pinto
César Araújo
- Futuro da ModaTransformação digital e robotização · Inovação e inteligência artificial · Desafios de mão de obra · Produção em minutos com IA
- Comparação regulatória Europa vs EUAReciprocidade de mercados · Controle de importações e alfândegas · Diretivas de alegações verdes e passaporte digital · Desindustrialização da Europa · Segurança da Europa
- Criação de marcas em PortugalFalta de marcas portuguesas · Mercado europeu e burocracia · Criatividade, marketing e consumidor · Made in Portugal como valor
- Futuro do TrabalhoRedução da carga horária · Pagamento de segurança social e serviços · Modernização industrial e robotização subsidiada
- Impacto da IA no legado empresarialPreocupação com a sucessão · Legado para futuras gerações · Humildade e liderança familiar
- História da alfaiataria em PortugalOrigens da alfaiataria portuguesa · Legado da ANIVEC
Bem-vindos a mais um episódio do podcast Please Take Off Your Shoes, um espaço de partilha e de conversa onde procuramos debater o presente e projetar o futuro. O meu nome é Cláudia Pinto e o meu convidado de hoje é empresário e presidente da ANIVEC. Bem-vindo, César.
Olá, boa tarde. Boa tarde, obrigada por aceitar estar aqui comigo hoje. Começamos este podcast muito bem calçados e também com um par de sapatos que é especial para si. Que história é que contam estes sapatos? Olha, eu quando fui presidente da ANIVEC e tive a primeira reunião com a primeira associação que me recebeu foi à Pickups. E ofereceram estes par de sapatos.
São made em Portugal e duram muito, não vou dizer os anos, mas que já duram há muitos anos. Os sapatos têm mesmo esta capacidade de transportar memórias e histórias, assim como o vestuário também. Que retrato é que faz da indústria?
Em relação aos sapatos também é preciso tratá-los bem. Verdade. Porque só duram se forem bem tratados. A nossa indústria, quer o vestuário, quer o calçado, estão numa profunda transformação. Aquilo que nós fazíamos há 10 anos...
hoje é quase impossível fazer os mesmos métodos. Nós temos que nos reinventar e hoje é uma indústria moderna, muito formatada nos processos, na digitalização e hoje estamos a dar os primeiros passos na parte da robotização. Por isso o futuro é ter uma costureira ou um robô.
Os dois juntos. Exatamente. Nunca separados. Exatamente. Porque a pessoa vai fazer funções e o robô vai fazer outras funções. Cada vez mais a nossa indústria tem muita dificuldade em arranjar mão de obra. E é uma mão de obra às vezes muito repetitiva o que o robô pode fazer. Não me choca nada, nem me admira nada. Nós no futuro, metade humano, metade robô.
Porque existe muito esta ideia que ao aliarmos a tecnologia ou a robótica à indústria, as pessoas vão deixar de ter os postos de trabalho. E não é disso que estamos a falar, é de uma junção entre a pessoa e o robô. Exatamente, nós pensamos mais no lazer, queremos mais tempo para nós, queremos mais tempo para a nossa família, para os nossos amigos, e o robô vai ajudar.
que se liberte o ser humano para ele poder ter esse tempo disponível para se dedicar a si, à família e aos amigos, enquanto o robô trabalha. Trabalha. Há pouco dizia que a indústria já não é o que era há 10 anos e que já não é possível fazer o que fazíamos há 10 anos. Que realidade era essa?
A tecnologia tem trazido ferramentas que antigamente nós não tínhamos como podíamos tirar informação da produção, o que entra, o que sai. Nós podemos planear a semana baseada nos processos e nas produções que tínhamos. Há 10 anos fazíamos tudo à mão. E isso vem vindo a existir essa transformação. Quem não abraçar a digitalização, a robotização,
vai ter os dias contados. Fica para trás. Exatamente. A inovação tem sido algo que tem acompanhado a evolução da indústria. Acha que vai ser algo que vai continuar a existir? Portanto, a indústria do vestuário tende a implementar mais inovação dentro de portas?
é obrigatório ela estar sempre a inovar. Antigamente, a gente tirava uma fotografia ou uma modelo, depois levava para o computador e demorávamos semanas. Tínhamos que ter os fotógrafos, não estou a dizer que não vamos ter no futuro. Tínhamos que ter a maniquí, também não estou a dizer que não vamos ter no futuro. Mas hoje, qualquer coisa, com a inteligência artificial e com o software e com o avatar, nós conseguimos fazer isso em minutos.
Quer dizer que eu hoje vou conseguir fazer coleções e minutos. No meu caso particular, nós temos duas situações muito engraçadas. Temos a maior tecidoteca do mundo, que se chama Fabric for Fashion, e temos o Calvolex.net, que é a maior biblioteca de moldes.
No futuro, o que é que eu vou fazer? Vou integrar as duas plataformas e vou conseguir, com a inteligência artificial em minutos, dizer assim, quero 10 casacos, 5 calças, 4 saias e um sobretudo. Mas cria uma tendência A, B e C.
para não dizer o nome das marcas, e ele vai ao mercado, em 10 minutos vê as tendências, desenha a coleção, vai ao fábrico for fashion e escolhe os tecidos baseados nas composições e vai aos moldes. E consegue fazer o molde, tudo isto, em minutos. Minutos. Isto vai nos tornar mais competitivos.
Sim, para ter mais tempo para ir para os amigos, para a família e para nós próprios. Vai ser muito mais rápido. Além que eu digo que a digitalização é a escravatura moderna do ser humano. Porque nós somos escravos da máquina. Não porque ela nos está a tirar o trabalho, mas porque a nossa adrenalina quer cada vez mais. Eu hoje fiz 100 e amanhã quero fazer mais. Há uma dependência também, não é? Exatamente.
Quais são os grandes atributos da indústria de vestuário? O que é que internacionalmente nos distingue? O que nos distingue tem a ver com ainda o nosso método de alfaiataria.
E isso é o que tem que preservar. Nós hoje vivemos uma transformação em que a moda se transformou num produto descartável. E não pode. As pessoas não podem comprar por impulso, sem saber as consequências desse impulso. Eu quando compro 10 casacos e só utilizo um, e porque comprei barato?
E porque a minha pegada carbónica é brutal, porque vem de países terceiros, e de repente me esqueço, quem é que vai reciclar? Quem é que vai pagar esta reciclagem? As pessoas esquecem que somos todos nós. Por isso, tem que haver maior consciência na compra. E o impulso tem que ser menor, tem que ser um impulso com consciência. É uma educação do consumidor. Também, mas não só.
o desejo de querer várias coisas iguais ao mesmo tempo, não faz sentido. Nós temos que comprar produtos que eu vou ter que utilizar no meu dia-a-dia e que me faz falta.
E por isso temos que comprar produtos de maior qualidade. E a nossa indústria foi uma indústria dada de moeda de troca ao longo dos anos. Não só porque foi a nossa portuguesa ou europeia, mas foi a transformação de uma indústria em produto descartável. E agora é preciso voltar atrás, porque este modo de consumo não tem futuro, porque somos das indústrias mais poluentes do mundo.
Não porque éramos, mas porque foi criada. E agora há que voltar atrás e consciencializar o consumidor. E o consumidor tem que consumir produtos de valor acrescentado e não transformar esta indústria num produto descartável.
Mas do ponto de vista de um empresário, não é muito difícil olhar para esta necessidade de inverter o processo, porque a certa altura, enquanto empresa, estão a vender e estão a ter lucros. E agora o que estamos a pedir às empresas é, produzam se calhar menos, mas com mais qualidade. É isso? E valor acrescentado. Porque nós hoje não podemos comprar...
um sapato por 7 euros, não podemos comprar um blazer por 12 euros e não podemos comprar uma calça por 5 euros. Não paga o tecido, não paga a mão de obra, porque a gente sabe que essa mão de obra é escravizada, mas também é preciso ter uma consciência. O próprio cliente, aos preços que eles vendem, eles sabem que é escravatura. Também fica mal às marcas.
Comprar produtos é onde eles sabem, de antemão, que aquela pessoa não ganhou um salário digno para sobreviver. A nossa indústria criou, não a indústria europeia, mas a indústria de países terceiros, criou-se numa base de escravatura legalizada, a introdução de produtos químicos que são presenciais à saúde humana. Tudo isto tem que haver uma transformação.
E essa transformação parte pelos clientes.
Parte pelo consumidor em consumir produtos de maior valor acrescentado e que têm uma certa durabilidade. Nós não podemos utilizar um casaco, dois meses depois deita-se fora. 30% de tudo aquilo que a gente consome, produtos baratos, nem lhe tiram a etiqueta, nem utilizam. Quem é que vai pagar essa reciclagem? Nós.
O Estado, porque o Estado utiliza o dinheiro de todos nós. Não, tem que ser quem consome. Vem do país terceiro, para na alfândega, paga taxa aduaneira, paga IVA, tudo bem. Agora, não vai de um país terceiro, diretamente à casa da pessoa e ela não paga nada. Por isso, as associações aqui têm um papel importante. É o papel de dizer basta, porque as regras têm que ser iguais uns para os outros.
Vem de fora. Para na alfândega, paga a taxa doaneira, paga a IVA. E está tudo bem. Reciprocidade. Mas acha que o caminho para chegar ao consumidor vai ser um caminho fácil ou vai ter de ser um caminho que vai ter de ter uma União Europeia a legislar e a impor barreiras e a impor esses custos de que falava? Tudo tem de ser legislado. O setor privado deve andar por si próprio. Os Estados devem legislar e regular.
E controlar o bom funcionamento. E isso é sua função. Nunca pode-se substituir o setor privado. Agora sim, a Europa tem que regular. Porque o problema que está em causa não é só a roupa. Nós hoje vemos milhões e milhões de pequenos pacotes que entram em toda a Europa sem controla do aneiro e entra tudo.
entre drogas, entre armas. A própria segurança da própria Europa está posta em causa, por falta de controle. Por isso é importante que haja esse controle.
Sei que tem lutado, entre aspas, muito a nível europeu por uma concorrência mais leal. Isto é algo que não é novo, mas também queria perceber um bocadinho o que é que o preocupa neste tema. O facto de eu estar mais empenhado em instâncias europeias não é preocupado com eles.
é preocupado de eles não saberem como é que a nossa indústria funciona. E nós podemos nos culpabilizar de não chegar a estas instâncias e explicar o nosso processo. Muitos deles não sabem como é que isto funciona. E a Anivec, nos últimos cinco anos, resolveu o nosso foco.
é Bruxelas. Nós temos que explicar a Bruxelas como é que a nossa indústria funciona e como é que ela deve ser posta em prática no futuro. Estou-nos a ouvir.
Mas sim, é importante reciprocidade dos mercados. Eu não posso estar a cumprir legislações europeias, enquanto países terceiros utilizam e abusam do mercado europeu como se isto fosse um faroeste. E a verdade é que neste momento é mesmo um faroeste. As alfândegas não têm capacidade humana de controle. Não entram.
E se ele souber que não entra, não exportam. Isto devia dizer, eu não tenho gente para controlar, isto é desculpa de mau pagador. Porque eu primeiro tenho que criar condições, porque se não, está a dar uma mensagem ao mercado que o mercado europeu é para países terceiros. E depois há outra questão que é...
A reciprocidade funciona para os dois lados, eles vendem e têm que comprar. Correto. Eu já não sou a favor de uma balança, que eles fazem a inflação um cabal de produtos. Isto não funciona assim. Nós temos que monitorizar setor a setor. Eu vendi carros e não vendi vestuário ou moda. Não, está errado. Vais ter que deixar de comprar mais carros e vais vender moda. Porque os setores têm que ser equilibrados. E os nossos setores da moda...
foram dados de moeda de troca. Vamos vender mais carros, vamos vender mais isto e vamos pôr descartável-lhes a moda. E nós dizemos não. Nós queremos é monitorização do nosso setor. Porque se eu compro deles e eles não compram nada de nós, acabou, não pode. A reciprocidade é para os dois lados.
Mas acha que essa reciprocidade pode ser uma das soluções? Não toda, mas uma parte, sim. Porque imaginámos que as importações, 85% da roupa consumida na Europa, até ao abrigo do SPG...
estamos a falar de 85% ao abrigo do SPG. Se agora introduzirmos o comércio eletrónico ao abrigo dos mínimos, estamos a falar de 90 e qualquer coisa por cento. Estamos a discutir o que é? Mercado. Claro. É o que nós estamos a discutir. É mercado. Se eles exportam tudo, basta entrar mais uns milhões de pequenos pacotes.
Nós não conseguimos vender a ninguém. E vem dizer, vão exportar, mas vamos exportar para quem? Quando as pessoas dizem, vamos incrementar as nossas exportações. Nós só temos poucos países para exportar. Temos toda a Europa. Temos o Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e pouco há mais para exportar. O que nós temos é que dizer aos outros países, como a China, comecem a comprar.
Porque vocês têm 1.4 mil milhões de habitantes. A Europa tem 450 milhões. E eles são três vezes mais do que a Europa. É favor de começar a comprar. E por isso é preciso legelar. É preciso pôr condições e regras. E aí sim, é reciprocidade dos mercados. Aí não há problema nenhum. Eu exporto para a China, pago taxa do aneiro e pago o IVA. A China exporta para aqui e não paga nada. Alguma coisa está mal. E também é preciso interpretar.
Quais foram as motivações do legislador? Se eu não consigo exportar e tenho taxas, como é que ele exporta sem taxas?
Isso também é preciso entender. E por isso a ANEBEC está na Europa mais para focar o que é que está a ser feito que vai contra os princípios europeus e que vai ajudar que a nossa indústria seja uma indústria mais saudável. E para acrescentar, antes tínhamos a Green Agenda, que era a Agenda Verde Europeia. Agora já não é verde, agora é clean.
o ambiente tem a ver com o clean? Também não entendemos. Achávamos que a agenda verde era um caminho e trazia uma mensagem, o clean não traz mensagem nenhuma, ainda não vimos. Mas para dizer o quê?
A Europa começou um caminho com a agenda Green e de repente alteram isto. Fizemos grandes investimentos a acreditar que a agenda Green ia trazer uma certa mudança nos comportamentos e de repente deixa de ter esse propósito e nós não podemos começar projetos.
onde envolve uma dinâmica enorme europeia na transformação das indústrias e de repente, a meio caminho, altera-se, porque há países que não conseguem cumprir com a agenda verde. E é preciso ser claro e é preciso estar em cima do acontecimento. E a ANIBEQ nisso seja-lhe dado... O devido mérito. Exatamente. Nós estamos na linha da frente dos decisores, não para impor...
mas de uma forma honesta e com consciência transmiti-lhes a nossa mensagem. Mas tudo aquilo que está a ser discutido a nível europeu, seja relacionado com as diretivas das alegações verdes, passaporte digital do produto, é algo que vai ter muito impacto a muito curto prazo na indústria de vestuário? Se o passaporte digital se aplicar só a empresas europeias, isso não funciona.
E depois, o passaporte digital, toda a gente fala, mas o passaporte digital é uma narrativa. Uma sustentabilidade é uma narrativa. O segredo da sustentabilidade é ter muitos símbolos. Pagar muito para ter símbolos. Porque o cliente não funciona. Porque a sustentabilidade funciona desde o cliente...
até ao consumidor. Não pode ser só na fábrica, na fábrica. E então o que é que acontece? A Europa estava a ligelar só para as empresas europeias. Não funciona. É como os produtos RITs, sobre substâncias que são presenciais à saúde humana, tudo que vem de fora pode trazer o RITs que quiser.
Mas os produtos europeus não podem ter? Os produtos europeus não podem, por isso eles ficam mais caros. Mas eu não sou contra não ter, sou a favor. Mas os outros países também não podem ter. E agora, no passaporte digital é, quem é que guarda a informação? É um organismo do Estado?
É um organismo criado para guardar essa informação? É a empresa? Se a empresa falir, lá se foi a informação. Se for um organismo próprio para isso, muito bem. Por isso tem que saber aqui criar uma condição a nível mundial onde a informação fica guardada e ter acesso. Depois, outro risco do passaporte digital.
O passaporte digital, ao ter a informação de toda a sua cadeia de abastecimento, está a dar informação aos clientes sobre o seu desenvolvimento. E não pode. Não pode dizer que é lá a veio do Joaquim, o fecho veio não sei onde. Porquê?
O cliente vê aquela informação e vai à concorrência, vai a outros países, fazer aquilo que aquela empresa lhe custou muito a desenvolver o produto. O passaporte digital só funciona, primeiro, se soubermos quem é que vai guardar a informação, e segundo, a informação está lá para que os governos, quando forem fazer a fiscalização, consigam ver qual é a sua cadeia de abastecimento, e aí conseguem ver se a coisa está a funcionar ou não.
Que interessa ao consumidor dizer que a ovelha veio da Austrália, ou veio da Nova Zelândia, que é lá, que fez aquela peça, veio da Nova Zelândia e foi o Francisco com o código postal 40.026.
O consumidor nem olha para a etiqueta de composição e as senhoras cortam logo a etiqueta de composição, porque a minha mulher corta logo. Ela vê a etiqueta, corta logo. Para dizer o quê? A informação tem que ser bem estudada para não criar burocracia às empresas.
Mas é isso que está em causa, são processos burocráticos cada vez mais complexos, porque as empresas têm de estar preparadas para estas normativas que eventualmente vão entrar em vigor muito proximamente. Ainda está em grandes discussões, mas agora nós temos que entender quais são as motivações, porque a Europa tem-se vindo a desindustrializar. Nós vemos ter uma Europa industrializada.
Nós não podemos depender de países terceiros. Tivemos esse exemplo no Covid. É que nós queremos salvar as nossas populações e não conseguíamos porque não tínhamos acesso aos materiais. Se nós não aprendemos com o Covid, nós temos que ver se essa legislação realmente é para proteger o consumidor de produtos europeus.
e abrir as portas a países terceiros, e aí é preciso entender porquê, porque a Europa não pode criar legislação para destruir a sua indústria. Há duas maneiras de destruir a indústria, é dizer assim, pronto, se aquele setor não é vital, não nos interessa, e até é financiar o encerramento. E outra coisa é criar leis.
em que diz, nós vamos criar leis aqui, que é uma questão de anos, e estes setores vão morrer por natureza, e se estou a abrir a porta a países terceiros. A legislação europeia não pode ser só aplicada às empresas europeias, tem que ser a todos.
Porque se for às empresas europeias, nós estamos a deixar de eles serem competitivos, são obrigados a introduzir novos processos, a cumprir a legislação, enquanto os países terceiros não têm que cumprir com nada, são mais competitivos, não é igual para igual. Então eu estou a destruir a minha própria indústria. Qual é que seria a solução neste caso? Seria existir um controle de todos os produtos que entram no espaço da União Europeia? Sim.
Nós temos que controlar o que entra na Europa. Nós temos que monitorizar, porque, como disse no início, nós temos também a questão da segurança da própria Europa. Se nós somos obrigados e somos monitorizados e controlados, porquê que países terceiros, se eu me perguntar assim, uma mercadoria que venha de um país terceiro tem que ir a um laboratório europeu? Tem. Tem. E porquê que não tem?
E se nós exportarmos para esses países e somos obrigados a que essa nossa mercadoria vá a um laboratório local, porque é que o importamos não tem que ir? Tem, lógico que tem. O que é que se faz isto? Com mais tempo. Qual é a diferença de um casaco sair de um país terceiro?
e chega ao consumidor em 24 horas. Não chega em 24 horas, chega em 72. Ela não está à espera, a pessoa não está à espera da peça em 24. Nós temos que monitorizar o que entra na Europa. Agora, se outro país comprar e não monitoriza, nós fazemos reciprocidade de mercados.
Mas obrigámos a boas práticas. Temos que ir às empresas, controlar, como fazemos para os Estados Unidos, não é necessário, mas são produtos que são fiáveis e as empresas estão acreditadas para poder fazer isso. Mas estamos a falar então de uma alteração profunda do paradigma que conhecemos atualmente. Radical. Porque da maneira que hoje o mundo evolui... Sim.
Amanhã, o que nós falamos hoje aqui, nada tem a ver. Por isso, nós temos cada vez mais monitorizado, correndo o risco de pôr em causa a sustentabilidade dos setores da moda e depois já não conhecemos as boas práticas daquilo que fazíamos no passado. E é isso que é preciso regular. Não podemos dizer ao empresário, ah, você não é competitivo.
Não, eu não sou competitivo com uma obra escravizada. Eu não sou competitivo em utilizar produtos químicos. Eu não sou competitivo com dumping. Eu não sou competitivo com países que subsidiam as suas empresas. Isso não. Eu sou competitivo de igual para igual. Se ele cumprir as mesmas regras que eu cumpro, eu garanto que sou melhor que ele.
César, além de presidente da ANIVEC, também é empresário. Quais são as suas preocupações enquanto empresário e como é que as cruza com as preocupações que tem enquanto presidente da ANIVEC? A minha maior preocupação neste momento é pensar na sucessão da minha empresa.
ou das minhas empresas, e transmitir essas mensagens aos outros empresários. Porquê? Porque hoje nós temos saúde e temos capacidade, uma certa higienica. Mas eu sei que daqui para a frente não. Eu não vou dizer a minha idade, mas posso dizer que tenho 57 anos.
Eu hoje tenho genica, para já sou um feliz ano porque já tenho um filho com 22 anos e que já está a dar os primeiros passos, está a estudar e está a aprender a trabalhar. Tenho uma filha que tem 17 anos que ainda não está em início de começar a trabalhar. Mas eu tenho que começar a pensar na sucessão. Me interessa eu fazer um caminho longo, depois não tenho quem vá suceder a mim na empresa. E então essa é a minha maior preocupação.
A segunda maior preocupação é... Vamos ver se переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп переп
O que é que queremos deixar aos jovens? Não podemos deixar um setor obsoleto, não podemos deixar o dedal e a agulha. Nós temos que evoluir mais, é digitalização, é robotização, é modernização, é melhorar com formação os nossos trabalhadores, para que eles tenham um mindset totalmente diferente, que não olhem para o passado de 20, 30 anos e isso acabou. Nós temos que olhar para o futuro, o que é que somos, o que é que queremos ser.
Essas são as duas maiores preocupações. O resto é nós, no nosso dia a dia, aplicarmos as boas práticas, fazer com que a informação chegue a quem direito que possa tomar decisões e tentar construir um setor que vá continuar a ser essencial no desenvolvimento dos territórios. Qual é que gostaria que fosse o futuro da indústria de vestuário? Robôs.
Sim, as pessoas vão existir sempre. Hoje nós falámos é preciso reduzir o horário de trabalho das pessoas. Eu não estou contra nada disso. Só que nós temos que criar uma alternativa. O ser humano tende a viver mais anos. Imagina uma pessoa que morreu aos 60 anos. Não ia ter as doenças dos 70, não ia ter as doenças dos 80, não ia ter as doenças dos 90.
porque morreu cedo. Sim. Mas aqueles que vivem até aos 100, alguém vai ter que lhes pagar as doenças dos 60, dos 70, dos 80. Nós não podemos rapidamente dizer assim, vou reduzir a carga horária. Muito bem. E quem é que vai pagar a segurança social? Quem é que vai pagar os serviços que são necessários para que essa pessoa tenha uma vida longa, mas com dignidade? Tem que ser alguém.
Por isso, vamos trabalhar na modernização industrial, na robotização, mesmo que ela tenha que ser subsidiada para que esse passo seja feito mais rápido, e aí sim as pessoas já podem ir para os cafés, já podem passar mais tempo consigo próprio, com as famílias, com os amigos.
Por isso, esse é aquilo que eu acho que terá que ser o futuro. Há pouco falávamos da questão da sucessão empresarial. A indústria do vestuário é uma indústria que tem muitas empresas familiares, portanto estes processos são processos que já aconteceram e que continuam a acontecer. Na sua opinião, o que é que é importante neste processo de sucessão? O que é que é importante que as empresas saibam? Acima de tudo...
as empresas têm que olhar o que é que elas querem ser no futuro. Depois tem que haver muita humildade, que é da pessoa que está a passar o legado ao filho, e o filho igual. No meu caso, é fácil, porque no máximo vamos ser quatro. Mas há famílias que têm muitos filhos.
E uma sessão é mais complexa. A própria família tem que determinar quem é o líder. Porque as organizações precisam de trabalhadores e líderes. Nem todos podem ser líderes no mesmo espaço. A própria família tem que dizer, este é o líder. E é este que vai liderar. Não quer dizer que depois não vai mudar.
E a partir daí as sucessões têm que ser feitas de uma forma harmoniosa. Para mim, o importante é que os meus filhos sejam líderes, para poder liderar e ter um projeto. Eu não quero que eles sejam trabalhadores. Para trabalhadores já bastou o pai. Eles têm que liderar as organizações e têm que dizer...
Nós precisamos chegar até ali, quanto mais rápido chegar até ali, de uma forma honesta e correta, o objetivo é aquele. Muitas das vezes nós andamos aos S, porque aquele não quis fazer e porque eu tive pena daquele, e porque o outro teve não sei o que, e o outro teve não sei o que, e cheguei ao fim e demorou-me três meses. E para ele já vai ser mais rápido, mas tem que ser um trabalho em contínuo. Olhando para um setor que é tão ligado à indústria da moda,
Faltam marcas a Portugal? Faltam. Este é um erro estratégico. Mas também não podemos condenar friamente. Porquê? Porque o nosso país tem 10 milhões de habitantes.
O seu mercado europeu não é amigável das empresas europeias. Se eu pudesse exportar ou vender no mercado alemão sem ter que abrir uma empresa, ou no mercado espanhol, se nós, através do nosso número de contribuinte, pudéssemos criar, eu podia vender, declarava o meu número de contribuinte, e depois o espaço europeu, o nosso mercado, resolvia a situação. O mercado europeu funciona isso mesmo. Portugal apostou na indústria.
E bem, não teve nada a ver com políticas, nem teve nada a ver se poderíamos ter mais uma marca ou menos uma marca. Agora, é esse caminho que queremos levar? Sim. Esse caminho pode complementar? Sim. Agora, podemos começá-lo. Já temos maior maturidade. Já se fala no 28º mercado europeu.
que é tentar que o mercado europeu consiga, através do número contribuinte, qualquer empresa europeia fazer negócios no mercado europeu sem grandes burocracias. As empresas que estão são de alta tecnologia. Nós já dissemos em Bruxelas, não. Nós também queremos estar. Porquê é que é alta tecnologia e também não somos nós? Ou porque também não é os outros todos? Eles é que têm que apressar. Umas coisas são muito rápidas e para outras são muito lentas.
E aí sim, aí já podemos criar esse caminho. Mas esse caminho não pode ser de tirar um monte de papéis, cada um recebe o papel e lê a solução. Nós temos que dizer assim, o que é que é necessário para criar uma marca? É preciso primeiro criatividade.
É preciso criar marketing. Como é que eu vou chegar ao meu consumidor? Hoje é difícil, porque o meu consumidor está na Europa. Tem uma determinada idade, tem um determinado gosto. Como é que eu vou chegar até ele? Eu não quero chegar aos outros que não me compram. E depois quem é que me vai produzir? Porque ele comprou, eu tenho que entregar. Qual vai ser o meu plano de negócios? E a partir daí é quase criar um guião.
Nós hoje, industriais, estamos preparados para ajudar a criar esse guião. Mas é preciso estar envolvido. A moda e as marcas não se fazem por legislação, fazem-se por conhecimento. Nós temos hoje uma indústria madura, sofisticada, considerada a nível mundial das melhores. Prontos, vamos dar as mãos uns dos outros agora.
O designer não pode ser só para fazer roupa, para vestir a SIC, a TBI, ou a RTP, ou a... CMTB. A CMTB. Tem que ser. E eu não sou a favor de... As marcas para mim não têm nacionalidade. Têm consumidores.
Eu vou pôr uma bandeira por alma de quem? Nós podemos dizer que a Tom Elfiger, que Ralph Lauren, nasceram numa época em que era preciso motivar a América. E tudo isto é baseado na bandeira da América. O resto não tem que ser e não é.
Para que me interesse eu ir com a bandeira de Portugal? Eu quero é consumidores, para comprar aquilo que eu crio, mas que não compro só porque gosto de Portugal. O meio em Portugal faz sentido, porque nós temos boas práticas e temos uma indústria sofisticada da alfaiataria. Agora, não vou pôr num casaco. O que eu quero é que o casaco seja bonito, que me sente bem e que eu fique apaixonado por ele.
Porque a moda é paixão, é gosto. Eu não posso agora, de repente, olhar para a bandeira, porque até sou tolo e sou bairrista e comprei o casaco. E depois cheguei a casa e não me serviu. Mas não é importante ter lá o Made in Portugal?
Tem no produto, na fabricação. Sim. Tem. Porque é boa prática. Os outros clientes hoje compram a Portugal e põem o Made em Portugal. Mas eu, enquanto designer, eu quero consumidores. Eu tenho que chegar aos meus consumidores. Eu não vou vender à diáspora portuguesa. Eu vou vender aos outros. Isto não é azeite. Isto não é óleo.
Isto é um produto que eu preciso de consumidores que consumam o meu produto. Mas a percepção do cliente, ou dos seus clientes, em relação ao Médio em Portugal, tem mudado nos últimos anos? Sim, Portugal fez um caminho brilhante.
O meio em Portugal não tem só a ver com a fabricação. Nos últimos 20 anos, Portugal deu um salto enorme em tudo. Na qualidade de todos os seus produtos. Na indústria, testo, vestuário, calçado, orivesaria, nos vinhos, nos queixos, na cortiça, no próprio turismo. Nós hoje temos turismo de valor acrescentado. Nós conseguimos investir todos numa imagem.
brutal, fabulosa, sobre Portugal. Até nós próprios, individualmente, nós mudamos. Nós hoje somos mais refinados. Hoje, outra das coisas que se fez bem, qualquer jovem fala inglês, as próprias pessoas já com uma certa idade também falam inglês. Isto foi uma transformação enorme. Quer dizer que hoje Portugal é um país moderno, inovador e não fica atrás.
de nenhum país que esteja a nível no mundo internacional. Agora, o que nós ficámos atrás foi na tecnologia. E a Europa. É aqui que é preciso investir.
Mas já está a mudar. Espera bem que sim, senão ficamos a ser o museu Europa. Quer dizer, a China altamente sofisticada, os Estados Unidos, e nós o museu da história, podemos ter museus. Quando há um bocado, falei no tradicional, a alfaiataria nasceu em 1826. Era quando os ingleses vinham negociar com as quintas do Indo de Porto.
E traziam os seus barcos, os seus alfaiatos. E os portugueses eram aprendizes de alfaiataria. A determinada altura, nós já fazíamos roupa brilhante, melhor que os alfaiatos dele ou igual, e eles deixaram de trazer os seus alfaiatos e começaram a utilizar os portugueses. Em 1826 nasce a alfaiataria em Portugal. E a partir daí foi-os enrolar e hoje é a Anivec.
que representa toda essa história, todo esse legado que é espetacular. Nós temos história, Portugal tem história, tem história para contar, mas temos de ser um país moderno. Agora, eu defendo as marcas.
E até digo que cada fábrica devia ter uma marca. Se nós temos 4 mil empresas e cada uma tiver uma marca, eu garanto que em 10 anos nós temos mil marcas. Mas nós temos que ter mundo para exportar, para vender. Temos que ter consumidores. O mercado europeu, tendo o 28º país, que é o país virtual, onde todos conseguem fazer negócios dentro da Europa, já vai ajudar. E depois é preciso projetar. Mas por projetar...
A marca há um caminho, é preciso um guião. Um caminho longo. Longo. Eu não vou dizer a uma marca, faz uma marca e depois. Sim. É que ele cai. Nós não queremos criar marcas para terem sucesso, porque está em causa o trabalho de muitos jovens e não jovens para desenvolver uma marca. César, por falar em legado, se pudesse deixar estes sapatos à porta do futuro, que legado é que gostava que eles deixassem? Essa é muito profunda.
O meu legado, que eu gostava, que alguém olhasse para trás e que visse todo o trabalho que eu fiz na transformação e na modificação do setor da moda.
E não só. E queria que esse legado fosse uma semente para que os meus filhos, meus netos, bisnetos, no futuro, olhassem, isto é semente do meu bisavô, tetra-avô. E os meus filhos, sempre que tomaram uma decisão, vão olhar e dizer, o meu pai tinha razão, foi isto que ele me disse. Obrigada. Obrigado.
Obrigada por nos acompanhar em mais um episódio do podcast Please Take Off Your Shoes. Até à próxima.