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A Carne do Mito

24 de setembro de 202627min
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O folclore é um corpo vivo, muda, contorce-se, adapta-se às bocas que o contam. As histórias nascem envoltas em medo e maravilha, mas é no lento acto de se transformarem, século após século, que verdadeiramente respiram. Seja bem-vindo ao Podcast Show de Horrores.

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Rúben Silva

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Assuntos4
  • A Caça Selvagem como mito ancestral do folclore europeuorigem germânica do mito·variantes alemãs da lenda·presságios de desgraça·líderes lendários da caçada
  • A Caça Selvagem atravessa o Atlântico e se transforma em mitos americanosWashington Irving e Sleepy Hollow·o Cavaleiro Sem Cabeça como novo rosto·Dullahan na Irlanda·lendas afro-americanas no sul dos EUA
  • A evolução da lenda da Caça Selvagem na Grã-Bretanhachegada da lenda à Grã-Bretanha·incorporação dos cães negros·registros históricos da caçada·Edrico, o Selvagem como líder
  • Erne, o Caçador, como figura central da Caça Selvagem inglesaprimeira menção em Shakespeare·Erne como espírito guardião amaldiçoado·a Floresta de Windsor e a Árvore de Erne·relatos de aparições de Erne
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RSRúben Silva

Percorrer trilhos é uma das atividades prediletas de muitos humanos. Estatísticas mais recentes falam em pouco mais de 1000 milhões de pessoas cerca de 15% da população mundial, que sempre que podem abandonam as cidades e aventuram-se pelos caminhos do ermo. É difícil culpá-las, na verdade. O ar fresco, a distância do tumulto diário, a sensação quase sagrada de contato com a terra. Tudo convida a essa fuga breve da civilização.

Há, é claro, o preço físico a pagar. Mas é o tributo necessário a quem deseja mergulhar no coração selvagem da natureza. Contudo, nas florestas há sombras que se movem com o vento. Quem já caminhou sozinho conhece bem aquele arrepio discreto quando um som sem nome traspassa o silêncio ou algo parece espreitar entre troncos imóveis. Por trás da beleza viva do bosque, o que impera é a escuridão. Densa, expectante, quase viva. Desde tempos imemoriais que o ser humano preenche esse breu com aquilo que mais domina: histórias.

São elas que lhe permitem dar forma ao desconhecido, explicar o que não compreende e suportar o que o assusta. O folclore, nesse sentido, é um relicário de lendas antigas, repleto de murmúrios, sobre quem e o que vagueia entre as árvores. Para muitos, a floresta é território sagrado, mas é também morada de perigos, armadilha de silêncio e solidão. Animais famintos, terrenos traiçoeiros e a ausência total de auxílio humano conspiram para transformar uma simples tarde num episódio trágico.

Assim tem sido desde que o primeiro homem se aventurou fora da luz. E se as velhas histórias contêm uma ponta de verdade, talvez a floresta albergue algo mais. Ameaças que não pertencem a este mundo. Forças que caçam no limiar entre o visível e o esquecido. E é aí, entre o rumor das folhas e o sopro das lendas, que começa um mito ancestral conhecido como... A caça selvagem. Seja bem-vindo ao Show de Horrores. Poderia começar por falar em criaturas sobrenaturais, fadas ou divindades, ou pelas intrincadas mitologias que lhes deram forma.

Mas se o objetivo é desbravar o caminho que leva ao coração mais obscuro do folclore europeu, não há melhor ponto de partida do que esta lenda específica. A Caça Selvagem é um fragmento antigo da tradição germânica, com raízes que os estudiosos conseguem traçar até o período pós-medieval, embora as suas sombras se alonguem muito mais no tempo. É um mito estranho, inquietante e, ao contrário de tantos outros, parece mover-se como um vento, entre fronteiras e séculos.

Os que se dedicam ao seu estudo costumam dividi-la em duas variantes distintas, ambas nascidas em terras da Alemanha. No sul fala-se de Wutendas Heer, o exército furioso, Conta-se que nas noites de tempestade se ouvia o som longínquo de cornos e gritos, um tropel de caçadores invisíveis que atravessavam o céu e o bosque. A sua passagem era sempre um presságio de desgraça: uma guerra iminente, uma peste ou a morte de um rei. Mais a norte, porém, o nome muda: Develde Jagd.

A caça selvagem. Aqui, o mito adquire contornos mais sombrios e violentos. Em vez de simples espectros, fala-se de um bando guerreiro, cavaleiros fantasmagóricos que percorrem as florestas armados até aos dentes, guiados por um líder de poder terrível. Diferente da versão meridional, esta não anuncia apenas a calamidade, Leva consigo os vivos. Quem ousasse cruzar o seu caminho podia ser arrebatado, uma criança, um caçador, um viajante, e nunca mais ser visto.

Segundo algumas histórias, os cavaleiros eram espíritos de mortos, regressados à terra para uma caçada eterna. Outros diziam que perseguiam algo demoníaco. Um dragão ou até o próprio diabo. E quando esse cortejo espectral encontrava humanos, o desfecho dependia da atitude do desafortunado. Os que se interpunham eram punidos, às vezes com loucura ou a peste. Os que ajudavam, guiando ou oferecendo palavras de incentivo, recebiam recompensa.

Moedas, carne ou ouro. Mas fazer pactos com caçadores vindos do outro mundo nunca terminava bem. Com o passar dos séculos, o povo acreditou que nem todos os que participavam na caça selvagem o faziam de livre vontade. Alguns eram pessoas comuns acusadas de se unirem a ela em espírito durante o sono. Outros eram os seus líderes, Almas condenadas por antigos pecados que pagavam o preço de uma vida ímpia servindo eternamente como mestres da caçada.

Entre esses líderes contam-se nomes lendários: o Conde Hackelburg, amaldiçoado por caçar em dia santo; Woden, o deus germânico da guerra e da morte, que os povos do norte chamavam Odin; e ainda Besta, a Radiante, deusa alpina associada à pureza e ao inverno, cuja sombra se confundia com a da sua contraparte meridional, Holda, a Avó Escura. Diz-se que Holda cavalgava pelos céus empunhando uma vassoura, uma imagem que mais tarde o imaginário popular transformaria no estereótipo da bruxa voadora.

Séculos depois, o mito encontraria novo fôlego com Jacob Grimm, um dos célebres Irmãos Grimm, que em 1835 publicou Deutsche Mythologie, Mitologia Alemã. Aí compilou inúmeras versões da caça selvagem, misturando-as com ecos de tradições pagãs ainda mais antigas. A sua pena erudita e devota garantiu à lenda uma segunda vida, ou talvez uma eternidade. Mas os ventos mudam e as lendas viajam. À medida que os povos germânicos cruzavam mares e fronteiras, a caça selvagem seguiu-os, reinventando-se nas ilhas envoltas em bruma do norte.

Foi assim que chegou à Grã-Bretanha, e com ela, a caça selvagem encontrou novo lar entre os bosques e as colinas inglesas. À primeira vista, a Alemanha e o Reino Unido parecem mundos distintos. Línguas diferentes, hábitos diferentes, uma alma diferente. Mas basta escavar sob a superfície para perceber que as raízes de ambas partilham a mesma seiva ancestral. A própria língua inglesa é de origem germânica e os anglo-saxões que se fixaram na Bretanha trocaram consigo não apenas armas e costumes, mas também as suas histórias.

Entre elas veio a caça selvagem. E nas ilhas envoltas em nevoeiro, a lenda prosperou, adquirindo novos nomes, novas formas e novos terrores. Os elementos essenciais permaneceram: a caçada era sempre um presságio maligno, o prenúncio de guerra ou peste. O seu líder, um ser de moral corrompida, condenado a cavalgar pela eternidade. E as vítimas, os inocentes que ousavam cruzar-lhe o caminho. Mas em Inglaterra, algo mais se juntou à escuridão: os cães negros, bestas sobrenaturais conhecidas por muitos nomes, entre eles Black Shuck ou Grim.

Acreditava-se que antecediam a morte, que os seus olhos brilhavam como brasas e que os seus uivos podiam partir o coração de um homem. Essas criaturas tornaram-se companheiras fiéis da caça selvagem, ampliando o terror da lenda e enraizando-a ainda mais fundo no folclore inglês. Um dos primeiros registros escritos desta data de 1127, nos arquivos da Abadia de Peterborough. Segundo o relato de um escriba, o novo abade, homem ganancioso e corrupto, havia acumulado riquezas injustas e transportado o saco em navios para longe.

A sua avidez dizia-se abrir uma fenda entre o mundo dos vivos e dos mortos, e de dentro dessa fenda saiu a caça. O escriba descreve como nas noites seguintes se ouviam trompas e cascos e viram sombras montadas em cavalos negros e bodes, seguidas por uma matilha de cães do inferno tão escuros que pareciam feitos de breu. Os monges rezaram, as janelas foram trancadas, mas as caçadas continuaram, ecoando nas redondezas por semanas.

Com o passar dos séculos, as histórias multiplicaram-se. Uns diziam que os cavaleiros eram fadas, outros que eram guerreiros antigos. Houve até quem afirmasse que o próprio Rei Arthur, castigado pelos seus pecados de amor, fora condenado a liderar o cortejo espectral. Mas o nome mais repetido, aquele que ressoava nos vales e aldeias fronteiriças, era outro: Edrico, o Selvagem. Segundo a tradição, Edrico fora um conde de Shropshire, um homem poderoso, temido e belicoso, conhecido tanto pela riqueza como pela fúria.

Quando os normandos invadiram a Inglaterra em 1066, Edrico ergueu-se em armas contra eles, mas acabou por ser derrotado e forçado a jurar fidelidade ao invasor. Traído e humilhado, foi preso com a sua esposa Lady Goda e os seus guerreiros, numas velhas minas de chumbo, sob os penhascos de Stiperstones. A lenda diz que o conde nunca morreu. Ainda hoje, ele e o seu exército dormem sob a terra e apenas acordam quando o reino está em perigo.

Testemunhos ao longo dos séculos falam em avistamentos de caçadas aspectrais antes de grandes guerras: 1853, antes da Crimeia; 1914, antes da Primeira Guerra Mundial; e 1939, antes da Segunda. Uma mulher da região jurou ter visto o próprio Édrico no céu, montado num cavalo negro, o manto verde a ondular ao vento e uma espada a faiscar à luz dos relâmpagos. À cintura pendia-lhe um chifre de caça. O verde, cor da natureza e do mistério, surgia sempre associado a outra figura ainda mais antiga: o deus celta Cernunnos, senhor dos animais e dos bosques, que trazia chifres de cervo e governava todas as criaturas selvagens.

Com o tempo, Cernunnos fundiu-se com outras entidades do folclore britânico: o Homem Verde, símbolo do renascimento natural e o espírito florestal; Erne, o caçador. E foi nesse cruzamento de lendas entre deus, homem e fantasma que a caça selvagem inglesa encontrou o seu novo rosto. Comparado a figuras lendárias como Arthur ou Édrico o Selvagem, Erne o Caçador parece uma sombra discreta e, no entanto, a sua presença é antiga e persistente, como o murmúrio do vento nas folhas.

Não é apenas mito distante, mas lenda viva, entranhada nos bosques de Inglaterra, especialmente nos arredores de Windsor. A primeira menção conhecida surge em As Alegres Comadres de Windsor, de William Shakespeare, escrita por volta de 1597. No 4º ato, uma personagem fala de Ern, o caçador, um antigo guarda florestal que vagueia em torno de um carvalho à meia-noite, com grandes chifres na cabeça, amaldiçoado a assombrar o bosque.

Segundo a peça, Ern fazia as vacas sangrar em vez de dar leite, espalhava doenças pelas árvores e arrastava atrás de si o som de correntes e lamentos. Séculos depois, outros escritores retomaram a figura. William Harrison Ainsworth, no seu romance Windsor Castle, de 1843, e o próprio Jacob Grimm, o estudioso alemão que recolheu tantas lendas, escreveu sobre ele. Em todas as versões, Ern surge como um espírito guardião e amaldiçoado, um homem que um dia servira aos reis como caçador até ser ferido mortalmente por um cervo colossal.

Diz-se que o próprio diabo, compadecido ou apenas divertido, lhe deu chifres de cervo e o salvou. Em troca da sua alma. Desde então, Ern vaga entre os vivos e os mortos, metade homem, metade fera. A sua história está profundamente enraizada num lugar concreto: a Floresta de Windsor, hoje conhecida como Windsor Great Park. Antigamente um terreno de caça real, é hoje espaço de 2000 hectares de prado e arvoredo, Aí, segundo a tradição, ergue-se a Árvore de Erne, o local que marca a sua morte e o seu renascimento amaldiçoado.

Cartas do século XVI já assinalavam o ponto exato onde o carvalho se erguia. Em 1798, a árvore foi cortada, mas a crença popular recusou deixá-la morrer. Um novo carvalho foi apontado como herdeiro em 1838. Caiu durante uma tempestade em 1863 e a própria Rainha Vitória mandou plantar outro. Esse também tombou décadas mais tarde, sendo substituído em 1906. Hoje essa última árvore ainda se ergue, velha, rugosa e cercada de silêncio.

Mas Ern, ao contrário dela, nunca caiu. Ao longo dos séculos, há quem jure tê-lo visto. As suas aparições multiplicam-se, citando o som distante de trompas e cães, sombras montadas que cruzam a floresta em noites sem luar, a presença de um homem de estatura desumana montado num cavalo negro com os chifres brilhando à luz trémula. Em 1926, uma mulher que vivia junto ao parque afirmou ter acordado com o som de matilhas em corrida.

O ruído aproximou-se, trovejando junto às janelas, e depois dissipou-se na distância. Em 1947, outra testemunha escreveu ao London Evening News a relatar o que vira: um cavaleiro negro que afitou do escuro, soltou uma gargalhada terrível e fez soar um chifre antes de desaparecer entre as árvores. Mas o relato mais perturbador é o de um grupo de rapazes também em 1926. Exploravam o bosque quando encontraram um velho chifre oco, ornamentado com linhas e pendurado num cordel.

Um deles soprou com força e o som ecoou pelo parque inteiro. Por um instante, tudo ficou em silêncio. Depois, ao longe, outro chifre respondeu. Seguiu-se um estrondo de cascos, latidos e gritos de caça. Os rapazes fugiram, mas não antes de verem, ou acreditarem ver, um homem montado num cavalo negro, cercado de cães e trazendo sobre a cabeça os chifres do cervo sagrado. Desde então, dizem os locais, Ern ainda cavalga nas noites de inverno.

O seu tropelo ressoa nas clareiras de Windsor, acompanhado pelas sombras da caça selvagem. E aqueles que ouvem o seu chifre no escuro sabem que é melhor não responder. O folclore, ao contrário das pedras e das ruínas não morre, transforma-se. Cada geração reconta as mesmas histórias com novas palavras, mistura-as, troca-lhes os rostos. E como uma herança de sangue, as lendas carregam vestígios da sua origem, traços quase genéticos que sobrevivem sob todas as mutações.

Assim aconteceu com a caça selvagem. Nascida entre os bosques germânicos, viajou pelas florestas inglesas e continuou a mover-se como o vento que não conhece fronteiras. As suas fissuras mudaram de nome, os deuses tornaram-se fantasmas, os cavaleiros tornaram-se espectros, mas o cerne manteve-se: o tropelo de cavaleiros noturnos, o som do chifre que anuncia a morte e o presságio da desgraça. Porque o tempo tem o dom de remodelar tudo: as festas, as crenças, até os medos.

As tradições que hoje parecem inofensivas, o Natal, o Halloween, a própria Páscoa, já tiveram em séculos remotos tons mais escuros, mais pagãos, mais cravados de superstição e sacrifício. Com as histórias acontece o mesmo. E quando os ingleses levaram o seu império para além-mar, transportaram também os seus mitos. Entre sementes e armas, levaram o invisível, as suas lendas. Assim, quando a nova colónia nasceu no outro lado do Atlântico, também a caça selvagem atravessou o oceano com eles.

Por volta de 1820, um jovem escritor americano, inspirado por antigos costumes europeus, escreveu uma história ambientada no vale do Rio Hudson. Misturou as tradições germânicas com um episódio da Guerra da Independência, o de um soldado inimigo, um mercenário aciano, alemão naturalmente, decapitado por uma bala de canhão. Dizia-se que desde então o soldado regressava todas as noites, cavalgando pelos campos à procura da cabeça perdida.

Um cavaleiro sem rosto, uma alma condenada a repetir a sua busca para sempre. O autor entrelançou esta figura com o espírito da caça selvagem. O guerreiro amaldiçoado, o estrangeiro moralmente corrompido, o tropel noturno, que levam medo aos vivos. O conto tornou-se um clássico imediato. Foi lido em salões e tabernas, estudado em escolas, transformado em mito nacional. A vila onde a história se passava chegou séculos depois a mudar de nome para eternizar a ficção.

O autor chamava-se Washington Irving e a sua obra a lenda de Sleepy Hollow. O Cavaleiro Sem Cabeça era apenas um novo rosto da caça selvagem, um eco das trompas germânicas a ressoar nas florestas da América. A lenda do cavaleiro que regressa da morte não pertence apenas às brumas da Alemanha ou às florestas da Inglaterra. É um motivo antigo, um arquétipo que atravessou continentes e séculos, vestindo sempre novas peles, adaptando-se aos medos de cada povo.

Mesmo o Cavaleiro Sem Cabeça, tornado célebre por Washington Irving, tem parentes espalhados por toda a Europa. Na Irlanda, por exemplo, Vagueia o Dullahan, uma criatura das fadas, mas feita de escuridão, cavalgando um cavalo negro sem cabeça, conduz as almas dos moribundos. A sua mão empunha um açoite feito de coluna vertebral humana e às vezes guia uma carruagem adornada com crânios que flamejam como velas. Onde o Dullahan para, alguém morre, onde o seu nome é sussurrado, o medo cala os homens.

Mas o espectro do cavaleiro também cruzou o oceano de outras formas. No sul dos Estados Unidos, entre as sombras dos ciprestes e o calor das plantações, surgiram versões mais recentes, nascidas do cruzamento entre as lendas europeias e o folclore afro- americano. Conta-se que, no condado de Sabine, no Texas, vivia um abastado senhor de terras que adorava festas. A casa iluminava-se de música e riso, e as carruagens dos convidados formavam uma longa fileira sob as árvores.

À volta das fogueiras, os cocheiros, quase todos escravizados, esperavam, trocando histórias enquanto o baile prosseguia. Numa dessas noites de verão, um jovem convidado conheceu a filha do anfitrião. Um olhar bastou porque na festa seguinte anunciaram o seu noivado. Todos os aplaudiram. Os pais sorriram. Um amor abençoado, ao que parecia. Mas depois do brinde, o rapaz tomou-lhe a mão e sussurrou-lhe algo ao ouvido. E saíram para o exterior rindo.

Lá fora, o ar era pesado e morno, as carruagens alinhadas, imóveis como sombras. O jovem subiu para uma delas, tomou as rédeas e puxou a noiva para o seu lado. Um dos cocheiros, Ben Smiley, viu-os partir, gritou-lhes para pararem, mas o rapaz apenas se virou e respondeu com um sorriso: Voltaremos em breve. Mas nunca voltaram. Na manhã seguinte, nem o casal, nem a carruagem, nem os cavalos foram encontrados. A propriedade mergulhou em silêncio e entre os escravos cresceu o rumor: o jovem e a moça haviam sido levados pelos espíritos da noite, os mesmos que outrora conduziam a caça selvagem.

Tinham ousado roubar um veículo do mundo dos vivos e o outro lado reclamara-os. Os anos passaram, mas o nome de Ben Smiley continuou a ser pronunciado à luz das fogueiras. Até que uma noite, já velho, sentado com outros cocheiros, o homem interrompeu a conversa e apontou para o bosque. De entre as árvores, deslizava uma luz bruxuleante. Aos poucos tomou forma: uma carruagem translúcida. Brilhava como vidro ao luar, movendo-se sem cavalos, sem condutor.

Todos recuaram petrificados. Dentro dela, sentada num assento de veludo fantasmagórico, estava uma mulher jovem, o rosto sereno, um sorriso leve nos lábios. Ergueu a mão num gesto de adeus e o brilho desvaneceu-se lentamente pela estrada, até restar apenas o som distante de rodas e vento. Desde então, dizem os locais, a carruagem espectral continua a percorrer os caminhos de Sabine nas noites quentes, quando o ar se enche de relâmpagos e o horizonte vibra de calor.

E se por acaso alguém lhe cruza o caminho, há quem jure ouvir, por entre o trote invisível dos cavalos, o eco longínquo de um chifre de caça, o mesmo que, há séculos, ressoava nas florestas da Europa, chamando ainda e sempre a caça selvagem.

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