Apetite pelo Desconhecido
Antes dos ecrãs, o desconhecido era preenchido por lendas, monstros e deuses, histórias nascidas do medo que, por vezes, pareciam roçar bem perto da verdade. Seja bem-vindo ao Podcast Show de Horrores.
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- A sereia de Fiji como farsa de taxidermia e a crença popularCapitão Samuel Barrett Eads·Batávia·Jacarta·Orangotango e salmonídeo·Farsa de taxidermia
- O basilisco como símbolo de terror e fascínio na cultura europeiaPlínio o Velho·Alexandre o Grande·Escudo de espelho·Varsóvia 1587·Comunidade Polaco-Lituana·Benedictus·Jan Ferrer
- A busca humana pelo desconhecido e a criação de bestiários medievaisPlínio o Velho·Gaius Plínio Secundus·História Natural·Aristóteles·Blémias·Homúnculos·Bestiário de Aberdeen
- A lenda do Kraken e das sereias como mitos que se tornaram realidadeLula-colossal·Dinamarca 1853·Manatins e dugongos·Lagarto Jesus Cristo·Basilisco verde
- A Princesa Dragão e a origem dos Dragões de KomodoIlha de Komodo·Dragão de Komodo·Criptozoologia histórica
No princípio do inverno de 1822, o capitão Samuel Barrett Eades regressou do Pacífico Sudeste com a Auréola do Salvador. Encontrara em mar altioso um navio holandês em agonia, E num gesto que fez estremecer o brio de marinheiro, resgatou todos os soldados que nele iam. Levou-os a Batávia, a que hoje chamamos Jacarta, na esperança legítima de um galardão pecuniário. Enquanto o aguardava, vagueou pelas lojas com esse apetite de colecionador que procura um troféu de espanto para levar à pátria.
Algo que, numa mesa de jantar, suspenda a respiração e faça inclinar os corpos sobre a sua história. E foi então que a viu. Uma sereia mumificada com pouco mais de 70 centímetros de comprimento, cauda recurvada de peixe, torso de algo inquietantemente humano, a pele parda e enrugada pelo labor do embalsamento. Um ídolo da contranatura, desses que as trevas antigas parecem secretar quando o homem ousa trocá-las por luz. Eads não era rico, apenas proprietário de uma pequena cota do navio e confiado na recompensa que viria.
Mas ele soube de imediato que tinha de possuir esse artefacto. No fim de janeiro de 1822, com audácia que roça o desatino, Vendeu o navio, que nem inteiro era seu, e com o produto resultante comprou a criatura. Tomou então rumo a Londres e expôs o monstrinho ao olhar público. E o mais terrível, ou delicioso, conforme o temperamento, foi que quase todos acreditaram. Houve, porém, quem perscrutasse para além do clarão argêntio da novidade.
Naturalistas e anatomistas, munidos de saber e frialdade, viram a questura. O tronco de orangotango suturado à metade inferior de um salmonídeo de bom porte. Retoques no rosto e nas mãos para lhes dar semblante humano. Mas a multidão empregada pela velha sede de maravilhas preferiu a fé ao método. A ideia de que sereias pudessem ser reais flutuava havia séculos nos estuários do imaginário. E assim, Quando um vestígio embalsamado emergiu do comércio oriental, poucos quiseram admitir a falsidade.
É esta a nossa antiga contenda: o coração a ansiar o desconhecido, a mente a recuar para o mensurável. Entre ambos abre-se o corredor onde o assombro e o pavor caminham de mãos dadas. E se os relatos dos antepassados nada mais fazem que sussurrar no ouvido da razão, é porque tantas vezes tiveram motivo para tremer. Seja bem-vindo ao Show de Horrores. Para falar do mundo natural é preciso primeiro perspetiva. Hoje em dia leva-se no bolso um oráculo de sílico capaz de mapear a rua e o céu.
Ontem, porém, o homem vivia faminto de respostas, roendo as margens do desconhecido à luz vacilante de uma vela. Ainda assim não faltou a ambição. Há quase 2 milénios, um romano ilustre, Gaius Plínio Secundus, a quem a posteridade chamou Plínio o Velho, tentou reunir tudo o que há em 37 volumes de uma história natural sem pudor nem descanso. Militar de ordem equestre, advogado, governador, conselheiro de imperadores, uma vida escalonada até ao cume da influência, para no fim erigir a sua arca de saber.
Nos tomos 7 a 9, a zoologia abriu-se como um mar antigo. Fauna e fábula navegavam lado a lado. Faltavam-lhe instrumentos e viagens, mas sobravam-lhe fontes: Aristóteles e o seu História dos Animais, Eratóstenes e Parco, e com elas o rumor do impossível. Assim, umbreando com as feras de carne e osso, surgiram dragões, tritões e os blémias, Esses homúnculos peludos sem cabeça, com olhos e boca no peito. Um catálogo vasto e pouco cioso do crivo, mas fértil como um delta.
Daqui brotou a febre dos bestiários medievais. Códices iluminados onde o mundo, animais, pedras, árvores, peixes e até vermes se deixava miniaturar em ouro e azurite. Entre os mais célebres, o Bestiário de Aberdeen, século XII, uma oficina de maravilhas que recomenda ainda hoje consulta ao espírito e ao olhar. Não eram apenas livros, eram símbolos. O Rei João de Inglaterra guardava Plínio na biblioteca. O seu filho, Henrique III, pintou Westminster com imagens extraídas desses compêndios.
O normando Filipe de Taon compôs o seu bestiário e ofereceu-o a Leonor da Aquitânia. Até Leonardo da Vinci ensaiou o género, como se, do Românico ao Renascimento, todo o espírito inquieto devesse por rito reinventar a criação. Mas os bestiários dizem mais sobre nós do que sobre as bestas. Diante do hiato do saber, o homem prefere preencher o vazio com engenho e tinta a deixar Deixá-lo bocejar. A imaginação, como uma maré negra, invade as fendas da ignorância e ali deixa sedimento.
Páginas onde o verossímil e o impossível se confundem. Onde a beleza se debruça sobre o abismo e o horror sussurra sob o verniz do ouro. E assim seguimos, entre o assombro e o temor, compondo a cada criatura um espelho do nosso desejo. Mesmo com séculos de progresso, a ignorância humana mantém-se viva como uma chama teimosa. E se é verdade que hoje dissecamos o mundo com microscópios e satélites, também é certo que há mais sombras do que luz sob a superfície do conhecido.
Os estudiosos estimam que existam cerca de 8,7 milhões de espécies na Terra. Mas que mais de 80% ainda não foram descritas. No mar, a proporção é ainda mais terrível. O oceano é um túmulo vivo, onde 90% do que respira e se move permanece sem nome. Mesmo as criaturas que conhecemos tantas vezes escapam-nos. Veja-se o ornitorrinco com o seu bico de pato, corpo de mamífero e o veneno escondido no esporão. Durante décadas foi tido por farsa, uma invenção de taxidermista delirante, até que a ciência confirmou o seu real absurdo.
Mas a verdade é que o fantástico nunca precisou de existir para sobreviver. Nos velhos bestiários, cada ausência de prova era fértil em monstros. Plínio o Velho falava de ninfas do mar cobertas de escamas, de fénixes que ardiam e renasciam das cinzas, de tritões gigantes e dragões. Uma zoologia sonhada onde a tinta servia de prova. Outros autores seguiram-lhe o exemplo e assim nasceram legiões de criaturas: hipogrifos, mandrágoras, serpentes aladas, povoando margens e claustros como ecos de uma infância coletiva.
Entre todas, porém, uma fascinou a imaginação europeia como poucas: o basilisco. Plínio descreveu-o como uma serpente pequena, não maior que um palmo, mas dotada de poder mortífero absoluto. Tinha patas, erguia-se sobre o corpo e ostentava na cabeça uma crista em forma de coroa. Dizia-se que o seu olhar matava instantaneamente e que nenhuma planta crescia onde ele se arrastava. Contavam que se um cavaleiro o traspassasse com uma lança, o veneno subiria pelo ferro, matando o homem e o cavalo em segundos.
Lenda e medo entrelançaram-se como serpentes. O basilisco tornou-se o tirano dos bestiários, símbolo do mal supremo e do orgulho punido. Alexandre o Grande, segundo diz a tradição, venceu-o com a inteligência, polindo o escudo até fazê-lo espelho. O monstro, ao mirar o próprio reflexo, sucumbiu ao seu veneno, morto pela contemplação de sua própria essência. Em toda a Europa se ergueram imagens suas, em pedra, em vitral, em manuscrito.
Há um relevo em Viena, um basilisco entalhado numa igreja da Suécia, e até se vendiam pós milagrosos alegadamente feitos do seu corpo moído, úteis contra venenos e feitiços. Assim, durante séculos, o basilisco rastejou pela cultura europeia, um símbolo de terror e fascínio. Um pequeno rei coroado que reinava no limiar entre o mito e a biologia. E se acreditarmos num velho relato vindo da Polónia, talvez nem tudo fosse metáfora.
No século XVI, Varsóvia era uma pequena cidade inquieta, sob o recém-formado Grão-Ducado da Comunidade Polaco-Lituana. A nobreza gozava de privilégios faustosos enquanto o povo rastejava entre fome e o medo. Era um tempo de sombras longas e murmúrios supersticiosos, e em 1587 o rumor transformou-se em pavor. Tudo começou junto às ruínas de um velho edifício decrépito e esquecido, onde os animais começaram a morrer sem causa aparente.
Logo depois, vizinhos foram encontrados mortos nas suas camas, os rostos inchados, as peles escuras, como se tivessem sido envenenados pelo próprio ar. E quando duas meninas pequenas desapareceram nas redondezas, a tragédia tomou forma de lenda. As crianças tinham sido vistas a brincar à entrada das ruínas, dançando e rindo na luz fraca de um entardecer frio, até que entraram no interior sombrio. Quem as observou correu a avisar os pais, mas ao chegarem, chamando pelos nomes das filhas, apenas o silêncio respondeu.
Um dos adultos presentes ousou espreitar o subsolo. E ali, no chão de pedra, jaziam as duas meninas, imóveis como adormecidas. Uma mulher idosa, movida pelo instinto maternal, avançou para as despertar. Porém, mal transpôs o limiar da escada, caiu desamparada, sem um som. Quando a puxaram para fora com ganchos de ferro, pois ninguém se atrevia a entrar, Os três corpos tinham o rosto escurecido e inchado. Os olhos projetavam-se das órbitas, como se o medo lhes tivesse rebentado dentro da carne.
Chamaram então Benedictus, médico do rei, homem de ciência e prestígio. Observou longamente os cadáveres, tocou-lhes a pele endurecida, examinou-lhes os olhos vítreos e anunciou com voz grave que haviam sido mortos por um basilisco. A cidade inteira gelou de horror. O monstro das páginas de Plínio, a pequena serpente coroada, vivia agora nas caves de Varsóvia. De súbito, a superstição tomou corpo e com ela veio a histeria. Formou-se uma multidão e entre os conselheiros da cidade impôs-se uma decisão: era preciso caçá-lo.
Mas quem resistiria à escuridão para enfrentar um olhar que mata. Ninguém se ofereceu, nem mesmo Benedictus, que sábio como era, sabia temer a própria ciência. Por fim, os magistrados recorreram à prisão. Dois condenados à morte foram conduzidos diante do povo e ofereceu-se-lhes um pacto simples: entrar nas ruínas e matar a criatura. Se assim o fizessem, sairiam livres. Um recusou. O outro, Ian Ferrer, homem de crimes e desespero, aceitou.
Diante de uma multidão de mais de 2000 pessoas, vestiram-no com calças e casaco de couro cobertos de espelhos, para que o monstro, ao vê-lo, morresse do seu próprio reflexo. Benedictus deu-lhe instruções: uma tocha na mão, um ansinho de ferro na outra. E assim Ian desceu. A luz vacilou, engolida pela escuridão do subsolo. De lá, a sua voz soou trémula, confirmar a presença da besta. Era como uma serpente com crista de galo. O médico gritou-lhe ordens para que o apanhasse pelo pescoço e o trouxesse à luz.
Mas o povo, tomado de pânico, afastou-se em debandada. Pouco depois, Jan Ferrer emergiu, a face coberta de suor e pó, segurando o basilisco pelo pescoço, o corpo da criatura contorcendo-se sob a luz do dia. Benedictus aproximou-se, fascinado e aterrorizado, e viu com os seus próprios olhos o impossível confirmado: uma serpente com 4 patas, crista rubra e olhos de vidro vivo. E aí o relato termina. Quem o matou, ninguém o soube.
Talvez o fogo, talvez o medo. Apenas se sabe que desde aquele dia nunca mais houve basiliscos na Europa. Se aquele for o último, morreu ali, num porão de Varzóvia, com o olhar vencido pelo reflexo da própria maldição. Mas há quem diga que os sobreviventes aprenderam a esconder-se, deslizando, discretos e eternos, pelos interstícios do mundo, tal como as ideias que o medo recusa esquecer. Há algo de delicioso e terrível nos velhos bestiários, esses compêndios de maravilhas que, entre o ouro e o grotesco, transformaram o medo em arte.
Em tempos sem teatro nem ficção, cada página era uma viagem, um mapa do impossível traçado pela mão do homem sobre o corpo do desconhecido. E é verdade que hoje sorrimos perante as suas criaturas: tribos sem cabeça, unicórnios, ninfas do mar, como se fossem delírios de infância da humanidade. Mas a verdade é que de quando em quando a realidade devolve-nos o eco dessas fábulas antigas. Durante séculos, os marinheiros falavam do Kraken, um monstro colossal capaz de engolir navios inteiros sob um mar de espuma.
A história parecia apenas mais uma embriaguez de marinheiro, até que em 1853, um polvo gigantesco deu à costa na Dinamarca. Um cadáver marinho, com tentáculos destemidos, irmão legítimo das lendas. Hoje chamamos-lhe Lula Colossal, mas o nome não lhe tira o espanto. O mesmo se passou com as sereias. Outrora símbolos de perdição e fascínio, descobriu-se mais tarde que muitos dos relatos antigos não eram mentira. Apenas erro. Os marinheiros fatigados e febris confundiam ao longe manatins e dodongos, mamíferos aquáticos de carne rosada e olhar triste.
Assim, o mito nasceu de uma miragem e a ciência limitou-se a acertar-lhe o foco. E há mais. Nas selvas úmidas que se estendem das Américas Centrais até o Sul, vive um réptil ágil insólito, um lagarto da família das iguanas, de corpo esguio e cerca de 70 centímetros de comprimento, dotado de uma capacidade quase divina: correr sobre a água. Chamam-lhe o Lagarto Jesus Cristo, por motivos evidentes, mas o seu nome científico guarda um sabor de ironia ancestral: Basiliscus, o mesmo nome do monstro antigo, o Rei das Serpentes.
E eis como as lendas, com o tempo, voltam à superfície disfarçadas de carne e osso. O que outrora rastejava nas margens da superstição, hoje respira sob o sol dos trópicos, lembrando-nos que nem todos os mitos são falsos, apenas esperam pacientemente que o homem aprenda a vê-los. Há, portanto, uma verdade escondida sob o asfalto, O desconhecido nunca desaparece, apenas muda de pele. E tal como nos antigos mapas, onde os cartógrafos traçavam monstros nas zonas inexploradas, há ainda um lugar onde a advertência se mantém verdadeira, que passo a citar: aqui na ilha de Komodo ainda existem dragões.
Dizem as velhas histórias que o amor e o destino são forças irmãs. E que quando se tocam geram monstros ou milagres. Há muito tempo, numa ilha perdida entre mares azuis e vulcões adormecidos, um jovem caçador cruzou-se com uma mulher de beleza sobrenatural. Caçou-lhe o olhar e perdeu-se, porque ela não era inteiramente humana. Chamavam-lhe a Princesa Dragão. Era uma fada antiga filha dos ventos e do fogo, conhecida entre o povo das margens como a Senhora das Escamas.
E apesar das diferenças, ele feito de carne e tempo, ela de magia e lenda, amaram-se. Casaram sob o sol e a sombra das palmeiras, e o seu amor, como o de todas as histórias que sobrevivem, deu à luz gémeos, Um menino e uma menina. Mas o destino é imparcial como o mar. O rapaz herdou a essência mortal do pai e a menina a essência mágica da mãe. Temendo o conflito que a diferença semeia, os pais decidiram separá-los. O menino cresceria entre os homens e a menina entre os dragões.
Assim, Cada um aprenderia a ser o que o sangue exigia. Anos depois, o rapaz tornou-se caçador, tal como o pai. Certa manhã, ao seguir uma presa, atirou a lança e atingiu um cervo. Quando se aproximava para recolher o corpo, o chão tremeu e da floresta emergia um dragão, vasto, escamoso e terrível. Queria roubar-lhe a caça. O jovem gritou, suplicou-lhe que se afastasse, mas o monstro avançou. Perante a afronta, preparou-se então para arremessar outra lança, e foi nesse instante que uma mulher desceu do nevoeiro.
Era a sua mãe, a fada esquecida, e a sua voz trouxe o peso do antigo mundo exclamando: Não o faças, meu filho. Esse dragão é a tua irmã. O caçador baixou a arma e nesse momento, entre os dois mundos, o humano e o dos dragões, selou-se uma trégua. A mãe ensinou-lhe que o sangue deve reconhecer o sangue e que a guerra entre o que é carne e o que é mito apenas destrói o espelho onde ambos se refletem. Dizem que, desde então, o povo daquela ilha acredita descender dos dragões.
Vivem lado a lado com as criaturas imensas, sem lhes chamar monstros, como se a lenda e o real fossem apenas duas metades da mesma verdade. E quando, séculos mais tarde, os europeus desembarcaram nessas costas, descrentes e altivos, Ouviram dos habitantes as histórias antigas e sorriram com condescendência. Mas depressa o riso lhes gelou no rosto. Nas grutas costeiras da ilha de Komodo viram as criaturas com os seus próprios olhos.
Répteis de 3 metros, língua vermelha como fogo, caçadores de búfalos e, por vezes, devoradores de cadáveres. Chamavam-lhes Dragões de Komodo. E assim a lenda ganhou carne e a mitologia respirou de novo. Porque afinal algumas histórias nunca mentiram, apenas esperaram que o homem finalmente acreditasse no que via. Há algo de profundamente humano no desejo de nomear o inexplicável. Desde os primeiros mitos até às páginas iluminadas dos bestiários medievais, o homem tem tentado dar forma ao invisível, como se ao descrevê-lo pudesse domar o mistério.
Na atualidade, com os olhos voltados para o ecrã, e o mundo mapeado em cada pixel, acreditamos viver livres de monstros. Rimo-nos das velhas superstições, dos dragões e sereias, dos basiliscos e das fadas chorosas. Mas na verdade apenas trocámos as sombras das florestas pelas sombras do pensamento. Os antigos compunham as suas bestas a partir do medo e da fé. Nós, os modernos, fazemos o mesmo, apenas com outros nomes. Chamamos-lhes vírus, inteligência artificial, solidão, extinção.
São as nossas novas quimeras, criaturas invisíveis que se alimentam do mesmo terror ancestral: o medo de que não podemos controlar. E ainda assim, é esse mesmo medo que nos mantém viva a curiosidade. Porque sem o espanto, a humanidade deixaria de sonhar. Os monstros, reais ou imaginários, são apenas reflexos daquilo que o homem teme ver em si próprio. E talvez seja por isso que as velhas histórias nunca morrem, porque no fundo falam sempre de nós.
Nas margens do desconhecido, entre o que é ciência e o que é feitiço, continua a erguer-se o mesmo aviso antigo, gravado como num mapa de eras perdidas: aqui habitam monstros. E é ali, precisamente ali, onde termina o saber e começa o assombro, que o coração humano, incorrigível e faminto, continua a procurar-se a si mesmo.