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Fábulas do Luto

27 de agosto de 202622min
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A perda é a única certeza da existência e o preço inevitável de amar seres frágeis e efémeros. Sabemos que, um dia, as vozes que nos são queridas se calarão. É nesse espaço entre a presença e o silêncio que nascem as lendas. Seja bem-vindo ao Podcast Show de Horrores.

Palavras-chave relacionadas com este episódio (contém spoiler): Richard Munslow, o último devorador de pecados, sin-eater, ritual de absorção de pecados, rituais fúnebres ancestrais, pranteadoras profissionais, moirologistas, lamento fúnebre, Antigo Oriente, keening irlandês, caoineadh, mulheres do keening, luto ritual, Bean Sí, banshee, mulher das colinas, linhagem McQuillen, lendas celtas, folclore irlandês, emigração irlandesa, Thomas Marr, Mary Marr, aparição no cavalo branco, cavaleira pálida, mitologia asteca, Coatlicue, Cihuātēteoh, espíritos maternos, La Llorona, a chorona, Hernán Cortés, La Malinche, infanticídio no rio, colonização espanhola, Santa Fé Novo México, Residência Universitária de São Miguel, internato católico, surto de varíola, covas anónimas, mãe em luto, fantasma do véu de renda, assombrações reais, antropologia do luto, casos reais insólitos, storytelling de terror.

Assuntos5
  • O papel do devorador de pecados e a absorção de culpas dos falecidosRichard Munslow·Ritual de absorção de pecados·Idade Média
  • A lenda da Banshee e o lamento fúnebre irlandêsKeening irlandês·Caoineadh·Mulheres do Keening·Folclore irlandês
  • A lenda de La Llorona e a maternidade em luto na América LatinaMitologia asteca·Coatlicue·Cihuātēteoh·Hernán Cortés·La Malinche
  • Rituais fúnebres ancestrais e o papel dos pranteadores profissionaisMorrologistas·Antigo Oriente·Egito
  • O fantasma do véu de renda e as assombrações na Residência Universitária de São MiguelSanta Fé Novo México·Residência Universitária de São Miguel·Surto de varíola·Mãe em luto
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A maioria dos historiadores tendem a concordar neste ponto. Com a morte de Richard Manslow, extinguiu-se uma ocupação que parecia ter sobrevivido fora do seu tempo. Quando foi sepultado em 1906, desapareceu também um costume ancestral, envelhecido por séculos de tradição e superstição. A coincidência não podia ser mais adequada. Afinal, toda a sua existência girava em torno do mesmo centro inevitável: a morte. Manzlow exercia o papel de devorador de pecados, uma figura envolta em sombras cuja origem se perde nas brumas da Idade Média.

O seu propósito nascia de um receio profundamente humano. Quando alguém morria de forma inesperada, sem oportunidade para procurar um sacerdote ou confessar as suas faltas, permanecia a inquietação de que a alma tivesse partido carregando culpas por expiar. Era então que se chamava o Devorador. O ritual possuía uma simplicidade desconcertante. Sobre o cadáver colocava-se um pedaço de pão e em certas regiões também uma taça de vinho.

Depois, quando a casa mergulhava no silêncio e as luzes vacilavam nas paredes, o devorador era conduzido sozinho até junto do corpo. Ali consumia o pão e bebia o vinho, acreditando-se que através desse ato absorvia os pecados do falecido. Como se a culpa pudesse abandonar um corpo e alojar-se noutro. Como se a redenção pudesse percorrer caminhos estranhos, profanos e coando de forma distorcida os símbolos sagrados da comunhão.

Mas nenhum fardo é transportado sem custo. Aqueles que desempenhavam esta função acabavam frequentemente afastados da restante comunidade. Eram tolerados por necessidade, mas raramente aceitos. Viviam na periferia da vida social, marcados por uma reputação inquietante, como se cada pecado recolhido dos mortos tivesse deixado uma mancha invisível sobre eles. Aos olhos dos vivos, carregavam não apenas as falhas dos defuntos, mas também o peso das próprias crenças e medos da aldeia.

E assim prossegue a contabilidade inevitável da existência. A morte regressa sempre, o luto também, tão certos quanto as estações ou os impostos. Ambos voltam geração após geração. Ainda assim, por mais previsível que seja a sua chegada, ninguém se encontra verdadeiramente preparado. A perda irrompe sem aviso, abre um vazio no peito e faz vacilar tudo aquilo que parecia sólido. E talvez por isso tantas culturas tenham criado rituais, mitos e cerimónias para enfrentar o desconhecido.

Estes nem sempre oferecem consolo e, por vezes, até alimentam novos receios. No fundo de tudo, revelam algo profundamente humano: perante a escuridão, o homem sempre procurou uma forma de dialogar com ela. Mesmo sabendo que nunca poderá vencê-la. Seja bem-vindo ao Show de Horrores. Desde que o primeiro homem começou a respirar, a morte o seguiu. É a mais democrática das certezas. O rei e o mendigo, o sábio e o idiota, todos caminham passo a passo para o mesmo horizonte.

Mas se a morte apenas nivela e não alivia, os que ficam para trás carregam um peso que nenhuma filosofia pode dissipar. É por isso que as civilizações sempre inventaram rituais fúnebres, tentando dar forma e sentido ao insuportável. Alguns paleoantropólogos sustentam que os neandertais foram os primeiros a enterrar os seus mortos de modo intencional, há cerca de meio milhão de anos atrás, gesto inaugural de humanidade e de medo.

Desde então, as formas de enterrar multiplicaram-se e com elas surgiu um novo papel, o do pranteador profissional. Chamavam-lhes morrologistas. Eram homens e mulheres pagos para chorar por outrem, para transformar em som o que a família, esmagada pelo sofrimento, já não conseguia exprimir. O seu ofício era o de encarnar a dor alheia. Em muitos funerais do Antigo Oriente, a cena repetia-se: vozes lacinantes, gritos, cânticos que se elevavam sobre os cadáveres.

No Egito, as pranteadoras surgiam em andrajos e com o corpo coberto de pó, símbolo da humilhação da perda. Batiam no peito, arrancavam o cabelo, uivavam o nome do morto. Espetáculo sagrado e terrível. Réplica sonora da desintegração interior dos vivos. Noutras paragens do Mediterrâneo e até na longínqua China, costumes semelhantes floresceram e perduram. Lá, ainda hoje, os pranteadores atravessam o pátio engatinhando, Gritando o nome do defunto, como se a terra e o pó pudessem devolvê-lo por piedade.

Há, porém, uma nação cuja relação com o pranto ritual transcendeu o folclore e penetrou a alma do idioma: a Irlanda. O termo keening, vindo do gaélico cinnad, significa choro ou lamento e descreve o cântico das mulheres que velavam os mortos. Desde o século 16, talvez antes, essas vozes enchiam as colinas com elegias e gemidos que se confundiam com o vento. As mulheres do Kining eram tanto poetas como sacerdotisas da perda, guardiãs de melodias antigas chamadas a emprestar som à dor do mundo.

Mas como em todas as tradições que lidam com o invisível, as fronteiras cedo se trovaram. Entre o sagrado e o sobrenatural, entre o humano e o feérico, corre um fio de sombra. E foi por esse fio que a lenda irlandesa desceu uma nova criatura, a mulher que chora antes da morte e não depois. A Banshee, a mulher das colinas. Dizem que as grandes famílias gaélicas mantinham em segredo a sua própria mulher do pranto. Não uma simples mortal, mas uma fada doméstica, uma serva do destino que previa a morte antes que ela chegasse.

Vestida de cinzento, de olhos turvos e cabelos como a névoa, a Banshee não esperava pelo toque do sino fúnebre. Era ela o aviso. Às vezes descrevia-na como jovem de beleza cruel, noutras como velha encurvada sob o peso dos séculos, envolta num manto de luto. Podia aparecer nas margens de um rio, à porta de uma casa ou entre o sopro dos ventos noturnos, uivando o nome do que em breve cairia. E com o tempo, essa premonição transformou-se em presságio de terror.

No norte da Irlanda, sobre o rochedo que desafia o mar, erguem-se ainda as ruínas de Dunluce Castle, outrora fortaleza dos Macquillan, hoje esqueleto de pedra fustigado pelo vento do Atlântico. No século XVI, porém, era uma casa viva, cheia de luz e intrigas. Ali, o Lorde Macquillan prometeu a sua filha Maeve em casamento, não por amor, mas por conveniência, uma aliança para selar o poder da linhagem. Mas Maeve amava outro homem e recusou o destino traçado por seu pai.

Como castigo, foi trancada numa das torres, deixada a definhar até ceder. Mas não cedeu. O amante, movido pelo desespero, invadiu o castelo e libertou-a. Fugiram para o mar, onde o esperava um pequeno barco oculto numa gruta. Contudo, nessa noite, o mar ergueu-se em fúria, quebrando-lhes o refúgio e arrastando ambos para as rochas. Os seus corpos e o amor foram tragados pelas ondas. Desde então, dizem que o espírito de Maeve vagueia entre as torres desfeitas, soluçando ao vento, o seu pranto ecoando como um fio de vidro na garganta da noite.

Sempre que alguém da linhagem MacQuillan estava prestes a morrer, ouviam-na antes. Lamento agudo, cortante, que se misturava com o sussurro das marés. Pode ser apenas uma história, uma lembrança adornada pelo tempo, mas permanece viva porque toca em algo que não envelhece: a dor de perder e o desejo de pressentir o inevitável. O humano precisa de acreditar que há um sinal antes do fim, uma advertência, uma voz no escuro. E assim, a Banshee deixou a Irlanda, navegando com os exilados, atravessando oceanos, para reaparecer séculos depois num novo mundo que ainda não aprendera a lidar com os seus próprios fantasmas.

Todas as lendas viajam com os que partem com elas. No fundo das malas e dos corações, os imigrantes levavam o seu folclore, tanto quanto levavam pão e ferramentas. As histórias são uma forma de não morrer por inteiro. E quando os irlandeses e escoceses cruzaram o Atlântico, a banshee veio com eles, silenciosa, nos porões dos navios. Na América encontrou novo chão e novas vozes. O país era vasto, mas a morte, a saudade e o medo eram os mesmos.

E quando esses sentimentos se cruzaram com o imaginário europeu, nasceram histórias híbridas, filhas do luto e da distância. Conta-se que durante a Segunda Guerra Mundial, dois irmãos, um na Irlanda, outro na América, foram separados pelo oceano e pelo destino. O que ficou na velha fazenda acordou certa noite com um som inquietante, gritos agudos como gatos a brigar lá fora. De manhã perguntou ao vizinho se também ouvira o barulho.

Poucas horas depois chegou um telegrama dos Estados Unidos. O irmão, piloto de aviação, morrera na véspera. E o som noturno, aquele lamento impossível, ganhou subitamente um significado terrível. A Banshee ainda o acompanhava. Nem a guerra, nem o mar a haviam deixado para trás. Outra história, ainda mais antiga, ecoa nas montanhas da Virgínia Ocidental, onde um escocês chamado Thomas Marr se instalou em meados do século 19. Casara com Mary e juntos tiveram 8 filhos, 6 dos quais morreram antes de chegar à idade adulta. 6 pequenos caixões, 6 epitáfios num mesmo pedaço de terra.

O casal sobreviveu à dor e à guerra civil que devastou a região. Thomas sustentava a casa com trabalho duro no rio, regressando a cavalo pelas estradas no nevoeiro. Foi nessas viagens crepusculares que começou a ver uma figura encapuçada montada num cavalo branco. Primeiro pensou tratar-se de um viajante, mas noite após noite a aparição repetia-se, sempre silenciosa e sempre à distância. Certa madrugada, Mary ouviu passos no alpendre.

Abriu a porta esperando o marido, Mas diante dela estava a cavaleira pálida. O rosto era o de uma mulher, os olhos profundos como túmulos. Vim dizer-te que o teu marido morreu, murmurou. Reza, mulher, despede-te. Pouco depois, outro cavaleiro chegou trazendo a notícia. Thomas caíra e partira o pescoço. Anos mais tarde, quando Mary morreu aos 90 anos, Os filhos ouviram dentro da casa um som vindo do invisível. Gritos felinos agudos, um lamento humano disfarçado de fera.

A mulher do pranto voltara uma última vez. A banshee agora já não era um presságio, mas sim uma companheira eterna. E mais a sul, nas terras latinas, a mesma dor viria a vestir outro nome. Outra língua e outro mito: La Llorona, a mulher que chora e não se cala, porque o seu luto é demasiado antigo para simplesmente morrer. Muito antes de o nome La Llorona ecoar nas vielas da América Latina, já o seu choro ressoava nas vozes das antigas deusas.

Entre os astecas falava-se de Xiuatllicue, mãe do sol, da lua e das estrelas, uma divindade com rosto de dor e ventre fértil, símbolo do ciclo entre a vida e a morte. Dela nasciam as Xiuateteotl, mulheres que haviam morrido ao dar à luz, espíritos inquietos que vagueiam entre os vivos, gritando com dentes à mostra e mãos em forma de garras. Essas mulheres divinas, tal como as pranteadoras da Irlanda, choravam e clamavam pelas suas perdas.

Eram a mistura da maternidade e da morte, a mais trágica das alianças. Dali brotou o arquetétipo da Mãe que Chora, metamorfoseando-se ao longo dos séculos até assumir o nome que o povo murmuraria junto aos rios: La Llorona. Com a chegada dos conquistadores espanhóis, o mito transformou-se. Falava-se de uma mulher real, La Malinche, intérprete e conselheira de Hernán Cortés, que ao descobrir a traição do seu amante, teria afogado os filhos no rio, mergulhando depois na loucura e no A história mistura sangue e culpa, colonização e perda.

E ainda que os registros provem que o seu filho morreu décadas mais tarde em Espanha, a lenda sobreviveu porque dizia a verdade emocional, a de uma mulher desfeita entre dois mundos. O mito evoluiu com o tempo, sobreviveu ao nascimento do México, às revoluções e aos séculos. E em todas as suas formas, La Llorona surge sempre vestida de branco, com os cabelos molhados e o rosto escondido, chorando pelos filhos perdidos. Uns dizem que surge à beira dos rios, outros que vagueia pelas aldeias ao cair da noite.

Em certas versões, arrasta os vivos para o fundo das águas, condenando-os ao mesmo destino que os filhos. Noutras, limita-se apenas a lamentar o destino já traçado. Nenhuma das histórias pode ser dita definitiva. E talvez seja esse o encanto terrível de La Llorona. Ela muda conforme o tempo muda. No século XVI era aviso divino, no XIX era castigo moral e no XXI é símbolo do luto e da resistência feminina. Cada geração molda à sua dor e assim La Llorona torna-se espelho universal do desespero humano.

Não há fronteiras no som do pranto. O que é dito em náhuatl ou em espanhol tem o mesmo eco que o quinid irlandês. Um grito pelo que foi tirado, uma súplica por aquilo que nunca voltará. A mulher vestida de branco atravessa continentes e séculos, arrastando atrás de si o fio inquebrável da perda. E enquanto houver quem chore o morto, La Llorona continuará viva. As histórias que mais nos acompanham são as que mais nos consolam, mesmo quando nos gelam o sangue.

E é por isso que em 2010 Mais de um século após a sua morte, os habitantes da pequena vila onde Richard Manslow fora sepultado decidiram restaurar a sua lápide gasta pelo tempo. Richard, o último devorador de pecados, ao morrer em 1906, levou consigo um ofício tão sombrio quanto misterioso. E no entanto, a aldeia decidiu recordá-lo. Não como herege, mas como um homem que tomava para si as culpas alheias para que outros pudessem dormir em paz.

Reuniram 1000 libras, limparam o musgo da pedra, ergueram-na de novo. E o sino da igreja tocou em sua memória, como se até os mortos agradecessem o gesto nobre daqueles que se sujam pelas dores dos outros. A figura da mulher que chora é tão antiga quanto o arrependimento humano e o seu eco espalha-se como o vento. Encontramo-la nas costas de Togo, nos lamentos da Espanha medieval e nas florestas úmidas da Europa do Norte. Às vezes é o anjo da morte, noutras é apenas uma alma perdida, mas onde quer que surja, É sempre o mesmo rosto, branco, translúcido, atravessado de pranto.

E como um cristal, se o rodarmos à luz, cada faceta reflete uma história, um medo e uma esperança. Em cada cultura, a mulher que chora ganha um novo nome, um novo motivo, mas a essência permanece: a dor que nos iguala, o amor que não aceita o fim, e há quem veja nela uma força de libertação, uma sombra que encoraja os vivos a enfrentar a tirania do sofrimento. Há, contudo, lugares onde o seu pranto nunca cessou. Um deles é em Santa Fé, no Novo México, onde hoje se ergue o edifício Residência Universitária de São Miguel, construída sobre solo de um antigo cemitério.

Ali, em 1859, quando a Escola Católica de São Miguel abriu as portas, a doença chegou antes da bênção. A varíola varreu o internato, levando consigo duas crianças. Foram sepultadas em covas anónimas e quando uma das mães regressou para reclamar o corpo do filho, ninguém lho soube entregar. Enterraram-no, alguns desapareceram. Mas onde? Ninguém sabia. A mulher partiu vazia, despedaçada, incompleta. Dizem que o seu corpo deixou o edifício, mas que a sua alma ali ficou.

Desde então, os que lá vivem ou estudam contam ter visto uma figura baixa, envolta em véu de renda branca, a deslizar pelos corredores chorando O som é o mesmo em todas as línguas: o choro de uma mãe, o lamento que o tempo não apaga, o pranto que nos lembra que por mais longe que fujamos, a dor caminha sempre connosco. E talvez seja esse o verdadeiro milagre destas lendas: não o medo, mas o reconhecimento, a certeza de que, em qualquer canto do mundo, há sempre alguém, churar conosco.

Me farta, não diga. Nu é sabonem, onde é que agrilhomen? A flor do florestal, a rainha voa.

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