Episódios de Sonoridade das palavras

Sonoridade das Palavras com Luiz Tatit #1: Quando a linha melódica adere ao contorno da fala cotidiana

06 de maio de 202657min
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Paulistano, nascido em 1951, Luiz Tatit é o exemplo do artista autodidata-pesquisador. Das primeiras notas no violão, aos 12 anos, à liderança dos experimentos estéticos do Grupo Rumo — em que assina a maioria das composições —, sua trajetória sempre esteve ligada à Universidade de São Paulo. Foi lá que ele se dedicou a decifrar a semiótica por trás de cada verso, aprofundando o pensamento sobre o sentido da canção. No primeiro episódio, o início dessa carreira acadêmica que humaniza o Tatit logo de cara com essa anedota deliciosa sobre o Olivier Toni (1926-2017) — que, além de ser verdade, ilustra perfeitamente o "choque" entre a música erudita e a canção popular que ele ajudou a teorizar: “Quando eu vim fazer música aqui na ECA, a primeira coisa que me perguntaram foi: ‘Qual instrumento você toca?’. Eu respondi: ‘Violão’. Replicaram: ‘Sim, mas de verdade, instrumento mesmo’. Eu disse: ‘Bom, eu só toco violão’. Foi aí que entendi que a pergunta do maestro Olivier Toni era a respeito de música de orquestra.” _ Luiz Tatit       Terça-feira, dia 5 de maio, às 17h,  Sonoridade das Palavras com Luiz Tatit Ficha técnica: Roteiro e Apresentação: Magaly Prado Captação e Edição: Julio Cesar Bazanini Onde e quando ouvir No ar pela Rádio USP: Frequências: SP (93,7 MHz) e RP (107,9 MHz) Transmissão: Terças-feiras, às 17h Reprise: Domingos, às 18h Para reouvir: Use qualquer tocador de áudio ou entre em jornal.usp.br/podcast ou ainda acesse o acervo completo com todos os episódios aqui  
Participantes neste episódio4
M

Magaly Prado

HostApresentadora
L

Luiz Tatit

ConvidadoMúsico, compositor, letrista e cantor
N

Naozete

ConvidadoCantora
O

Olivier Toni

ConvidadoMaestro
Assuntos5
  • Formação musical e acadêmica de Luiz TatitInfância e audições familiares · Influências musicais da juventude · Início do aprendizado de violão · Diferença entre música erudita e canção · Estudo na ECA e no curso de Letras · Abordagem semiótica no estudo da canção
  • Fundo Arleen e Daniel VorcaroDiferenciação entre música e canção · A relação entre letra e melodia · Estudo do sentido global em diferentes mídias
  • O Grupo Rumo e a Vanguarda PaulistaFormação e instrumentação inovadora · Valorização da linha melódica da fala · Proposta estética sobre a proposta musical
  • A sonoridade das palavras na cançãoA linha melódica aderindo à fala cotidiana · O canto falado · A relação entre a poesia e a letra
  • Influências musicais e a carreira soloArtistas e canções marcantes na juventude · Impacto do Tropicalismo · Parcerias e composições · Luiz Tatit
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Sonoridade das palavras com Mista Ti Lá vem você e a pergunta fatal Como encontrar a palavra ideal Uso palavras picadas no som

A canção brasileira sempre foi um espaço de invenção, de linguagem, de escuta e de pensamento. O nosso convidado de hoje é alguém que ajudou a expandir esse território, tanto na música quanto na universidade. Professor da USP da Universidade de São Paulo, músico, compositor, letrista e cantor. Luiz Augusto de Moraes Taty, conhecido mais por Luiz Taty. É um dos fundadores do Grupo RUMU.

referência da vanguarda paulista e também autor de estudos fundamentais sobre a relação entre fala, melodia e sentido na canção brasileira. Nessa entrevista a gente conversa sobre a formação musical e acadêmica de Luiz Tati, a criação do rumo, a vanguarda paulista, carreira solo, as parcerias, as aulas shows e o desenvolvimento de um método semiótico para pensar a canção.

A banda de cá vai sair daqui a pouquinho. Assim que tiver melhorado o estado geral das baquetas, das cordas e dos metais. Que amanhã serão doloridos, mas que já se recuperam. E espere estar de volta quando o bando de lá for passar, for passar, for passar. Ele também vai desfilar. O bando de lá é uma sensação. Tatia, obrigada por ter vindo conversar sobre sua trajetória para a audiência da Rádio USP. Bem-vindo.

Muito obrigado. Eu que agradeço a oportunidade de poder trazer algumas coisas para vocês. Ótimo. Então, Tati, para a gente ir intercalando a conversa com música, eu queria pedir para você lembrar de artistas e canções que marcaram diferentes fases da sua vida.

o que você ouvia na juventude, o que acompanhou no período da Rumo, da Vanguarda Paulista e o que você costuma ouvir hoje. Então a gente podia, de repente, começar com o que você ouvia desde a infância, o que tocava na sua casa ou na sua família, que possa ter influenciado na sua formação musical.

A CIDADE NO BRASIL

O que é isso?

Na minha casa, na verdade, quem ouvia discos mesmo lá em casa era meu pai. Eu mesmo não sou de ouvir muita música, nem meus irmãos, mas a gente ouvia as coisas que ele punha. Na época, as vitrolas, aquela coisa, né? Toca disco.

Desde a época de 78 rotações até LP, mas eu me lembro muito dos discos de 78, tinha vários álbuns, tirava os discos. Então, nessa época, era um pouco...

Era um pouco o repertório dos anos 30, 40, e eu já estando, digamos, vivo, né? Nos anos 50. Mas o repertório era ainda dos anos 40, 30, a maior parte dos anos 40. Tinha, sobretudo, as orquestras, Grimmiller, aquelas coisas, meu pai adorava aquilo. E alguns cantores, como o próprio Frank Sinatra.

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E enquanto o ritmo brilha, o que bonita coisa eu estaria dizendo Coz o que é dançar, mas fazer amor ser feito para a música Quando a banda começa a deixar o stand E as pessoas começam a roar As nós vamos lá, cheio-to-cheio, nós vamos ser

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Nat King Cole e tal, ele adorava isso. E a gente ficou com esses cantores e esse som no ouvido por causa dele. Porque se dependesse da gente, acho que a gente não teria nem tido chance de despertar um gosto especial por isso. Porque nunca ninguém foi artista na minha família. Começou com essa geração da gente, né? Eu, o Paulo e o...

E os mais novos também. Tudo isso já estava naqueles discos que, por exemplo, de produção brasileira, me lembro de ouvir muito titulares do Ritmos, que eram um tipo de música. Eles pegavam, por exemplo, canções do Orival Caymmi, faziam arranjos vocais, que ficava lindo aquilo. Era uma coisa...

Agora é cinza, é cinza, cinza. Oh, agora é cinza. Tudo acabado, nada mais.

Você partiu, saudade me deixou, eu chorei, chorei. Nosso amor foi uma chama, que o sopro do passado desfaz. Agora é cinza, tudo acabado e nada mais.

Você partiu e eu... Você partiu... Saudade me deixou, foi por isso que eu chorei Nosso amor foi o mais cheiro E o sol...

É cinza, tudo acabado e nada mais. Você partiu de madrugada, não me disse nada, isto não se faz. Me deixou cheio de saudade e de paixão, não me conformo com a sua ingratidão.

Você ouviu Agora é Cinza, um samba clássico de Bid Marçal, muito interpretado por grupos vocais. A melodia é silábica com frases curtas e andamento tranquilo. Isso favorece o que Tati chama de canto falado, em que a linha melódica adere ao contorno da fala cotidiana.

Foi uma boa época de arranjos vocais, né? Nossa, era um pouco herança dos Anjos do Inferno, né? Eles, aliás, homenageavam nesse LP que eu tô lembrando, Os Anjos do Inferno. Então, era um repertório dos anos 40 e 30, muito... Também, na época, tava muito na moda a Baião. Tava um pouco... O Luiz Gonzaga tava em pleno vapor naquele momento.

Quando você fala naquele momento, tem como situar a 50? 50. Ano 50. Ano 50, que eu nasci em 51. Então, toda essa década foi filando audições do meu pai, né? Que, na verdade, ele era desembargador, ele era juiz, quer dizer, não tinha nada a ver com isso, mas a única distração que ele tinha na vida era pôr disco na vitrola. Por causa disso, a gente ouviu demais.

Então, isso, digamos, a pré-história das audições.

Depois, na década seguinte, década de 60, aí já a televisão já começou a valer, porque na década de 50 era muito precária ainda a TV, né? E na década de 60 já começou, primeiro já vinha uma certa bossa nova, ali nos 58, 59, 60, já tinha inclusive essa música mais harmônica, com pelo menos pretensões mais sofisticadas e tal. Ao mesmo tempo...

apareceu artistas que... Eu estou pensando, por exemplo, no trabalho que fez a Nara Leão, que ela era uma artista que cantava Bossa Nova, mas de repente ela se encantou.

com canções do Morro, do Zé Kéti, do João da Baiana, não sei o quê. Quer dizer, João da Baiana é muito mais antigo, mas eu me lembro dela selecionar canções dessa turma e, ao mesmo tempo, daí ela fez aquele show Opinião. Então, isso aí começou a dar uma mobilização que a gente ainda via como criança.

Uma coisa interessante, ao mesmo tempo a gente não sabia reproduzir direito aquilo. Do show opinião, o que você lembra? Lembro do repertório, o repertório inteiro delas, e depois ela foi substituída pela Betânia. Daí elas cantavam o Carcará, aquela coisa, né? Mas aquele repertório... Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, que é o Zequete, né? Isso era muito forte na...

naquela época.

Em qualquer esquina eu paro Em qualquer botequim Eu entro se houver motivo É mais um samba que eu faço Se quiserem saber Se eu volto diga que sim Mas só depois que a saudade Se afastar de mim Mas só depois que a saudade Se afastar de mim

Tenho um violão para me acompanhar Tenho muitos amigos, eu sou popular Tenho a madrugada como companheira A saudade me dói, em meu peito me rói Eu estou na cidade, eu estou na favela Eu estou por aí, sempre pensando nela

Mas isso ainda não era, digamos, era uma audição passiva. A audição ativa mesmo começou um pouquinho depois, na época do Fino da Bossa, da Ilis Regina, que depois passou a ser chamado o Fino, né? E logo em seguida com o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos e tal.

Aqui você ouve as canções e os artistas que marcaram a juventude de Tati, antes mesmo de ele pensar em compor. Sem festa de família, o assunto é casamento. Eu finjo que...

Eu não frequento, eu mudo de assunto, falo até de futebol, casamento, enfim. Não é papo pra mim. Não é papo pra mim.

Quando alguém comenta, você deve se casar Procure uma garota pra você gostar Eu peço até desculpas, vou lá fora passear Pois casamento, enfim, não é pá pra mim Não é pá pra mim

Talvez um dia, quem sabe, encontre a felicidade Achando alguém pra valer até morrer Mas por enquanto eu não, não ponho argola na mão Pois casamento não é papo pra mim Não é papo pra mim

Apenas estava vivendo... Era o primeiro contato com a música. Contato com a música. E era importante pra mim isso. E passou a ser mais importante ainda no período dos festivais. Então foi mais pela escuta, né? Um contato pela escuta. Mas é aí que começou tudo. Ainda não tinha prática, você não tocava. Não tocava.

Comecei a tocar lá com os 12, 13 anos e tal, e era uma coisa que eu aprendia na rua. Os molecada tocava, eu arrumei um violão também, a gente fazia tudo de ouvido, né? Aliás, como a maioria, né? É muito raro alguém, violão pelo menos, piano tem mais essa questão de ensino de música e tal.

Então, eu não posso chamar que era uma curiosidade intelectual ainda, porque era uma coisa muito assim do dia a dia, né? Dos amigos, na rua. É que o tipo de sensibilidade pra canção surgiu nessa época. Música, pra mim, era canção. E muito depois, aqui na ECA, eu vim a saber que aquilo sequer era música.

Quando eu vim fazer música aqui na ECA, a primeira coisa que eles perguntaram pra mim é que instrumento você toca? Eu falei, violão. Eu falei, sim, mas de verdade, instrumento mesmo. Eu falei, bom, eu só toco violão. Só toco violão. E daí que eu fui entendendo que a pergunta dele, na época era o maestro Liviettoni, a pergunta dele era a respeito de música, de instrumento de orquestra. De orquestra.

Quer dizer, é só isso que tinha sentido, ou o piano ou o instrumento de orquestra, né? Então, não tinha nenhuma formação musical, pelo contrário. Mas quando você começou, então, a pensar em fazer canções, quais eram esses músicos que te influenciaram?

Para essa turma toda que participava dos festivais, ali começou o que nós temos até hoje, até porque esses autores são longevos, né? Todos eles estão aí ainda, alguns se aposentando e tal, mas era a época do Áurea, do início do Caetano Veloso, do próprio Chico Buarque, um pouquinho antes do Caetano, embora ele seja mais novo.

o Gilberto Gil, era muito forte, ele que fazia os repertórios que a Elis Regina cantava, boa parte desse repertório, o Edu Lobo também. Mas esses que depois me interessaram mais, que são esses, o Caetano, o Chico, o Jorge Benjor, que naquela época era só Jorge Ben, né? E a própria Jovem Guarda era interessante porque era um tipo de violão muito simples. Então, pra quem tava começando... Iê, iê, iê.

É, era muito fácil aprender a tocar violão vendo eles tocar ou simplesmente reproduzindo o que a gente ouvia nos discos, né? Então, foi muito forte essa fase de 65 até 70. Desse pessoal da Jovem Guada, quem? Tipo, Erasmo? Erasmo, aliás, ele se tornou um ótimo compositor de canções. Mas que na época a gente chamava de música.

Mas de canções. E é um ótimo, o Roberto Carlos é um grande compositor de canções. Eu não posso mais ficar aqui A esperar Que um dia, de repente, você volte

para mim vejo caminhões e carros apressados a passar por mim estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim

Meu olhar se perde na poeira Dessa estrada triste Onde a tristeza e a saudade de você Ainda existe Esse sol que queima no meu rosto O resto de esperança

De ao menos ver de perto o seu olhar Que eu trago na lembrança. Preciso acabar logo com isto. Preciso lembrar que eu existo, Eu existo, eu existo.

Vem a chuva molha o meu rosto E então eu choro tanto Minhas lágrimas e os pingos dessa chuva Se confundem com meu pranto Olho pra mim mesmo e me procuro

E não encontro nada. Sou um pobre resto de esperança À beira de uma estrada. Preciso acabar Logo com isto. Preciso lembrar

Eu não existo, eu não existo Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo, tudo Se confunde em minha mente Minha sombra me acompanha e vê que eu Estou morrendo lentamente

Só você não vê que eu não posso mais, Ficar aqui sozinho, Esperando a vida inteira por você, Sentado à beira do caminho.

Preciso lembrar que eu existo, eu existo, eu existo.

Você ouviu Sentado à beira do caminho de Roberto e Erasmo Carlos. Lançada em 1969 e inspirada no sucesso americano Honey, de Bobby Russell. A canção ganhou inúmeras regravações e versões em idiomas como japonês, alemão, italiano.

E aquele pessoal todo que compunha no programa da Elis, onde já estava o Gilberto Gil precocemente, e o Edu Lobo, sem dúvida. A Elis Regina e o Jair Rodrigues eram intérpretes, eles não compunham. Mas o programa era baseado justamente nas interpretações deles. E eles eram intérpretes brilhantes. O Jair Rodrigues era um...

Era um negócio, era um samba. Aquilo, de fato, me motivou bastante.

E do amor aflito que pede outra história Vamos, carioca, sai do teu sono devagar Um dia já vem vindo aqui e o sol já vai raiar São Jorge, teu padrinho, te dê cana pra tomar Xangô, teu pai, te dê muitas mulheres para amar Senhor!

O morro não tem vez, e o que ele fez já foi demais. Olha aí, microfone. Mas olhem bem vocês, pois eu darei vez ao mundo, toda cidade vai cantar. Pois eu darei vez ao mundo, toda cidade vai cantar, vai cantar, vai cantar, vai cantar.

E na época dos festivais, tinha concorrência das músicas. Isso era importante. E aí eu falei, então a gente pode compor canções e depois ainda entrar no concurso e tal. Isso foi me chamando pra compor, sem dúvida. E eu já tocava um pouco e comecei a achar fácil compor.

Quer dizer, era só você largar um pouco das canções já gravadas e tentar fazer trechinhos e tal. Começou assim, comecei a fazer uma, outra, outra. Aí o impacto maior pra mim, até por questão da idade, não foi tanto a bossa nova, foi o tropicalismo.

Tropicalismo foi assim, mexeu de uma forma definitiva. A partir dali, mutantes. Não, o Caetano especialmente e o Gilberto Gil, sem dúvida.

Báč ma kumba, jeje! Báč ma kumba, opa!

Depois, mais tarde, também gostei muito do Tom Zé, quando ele apareceu em 69. Ele veio participar um pouquinho depois, né? E gostei também. Tom Zé que vai fazer 90 anos. Vai fazer 90 anos e depois se tornou um grande amigo e tal. Mas ele até ficou mais chegado, porque ele mora em São Paulo. A vida inteira morou desde então, né? Os outros não. Os outros foram morar no Rio, mas naquela época moravam aqui. Cheguei aí. Era um baiano que mora em São Paulo. É, ele é um baiano que mora em São Paulo.

Mas o Caetano e o Gil, eles ficaram em São Paulo muito tempo por causa da Record, quando eles eram contratados na Record. Tinha o programa o tempo todo e tal, então eles estavam aqui também. Me lembro de ir no apartamento deles, lá na São Luís, no centro.

numa fase que eles já tinham desaparecido. Eles tinham sido detidos e depois eles ficaram um tempo presos, depois foram para Londres, foram exilados. Então, essa fase é a fase que eu resolvi lidar com isso também.

Eu sou um solenário, Londres, amado, então. Eu cruzo as ruas sem medo, todos mantêm o caminho claro. Eu sei, sei, não tem ninguém aqui para dizer oi.

Eu sei que eles mantêm o caminho claro Eu estou olhando longe sem medo Estou olhando por volta e por volta aqui Não tem onde ir Mesmo meus olhos estão olhando para os corpores voando no céu Mesmo meus olhos estão olhando para os corpores voando no céu

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Ele parece tão feliz, pelo menos, e é tão bom viver em paz e em santa, em santa, em santa e em anos. E eu concordo. While my eyes go looking for flying saucers in the sky. While my eyes go looking for flying saucers in the sky.

Eu escolhi não face para olhar, escolhi não jeito. Eu só happen to be aqui e é tudo bem. Green grass, blue eyes, grey sky, Deus te abençoe, silêncio e felicidade. Eu came around para dizer sim e eu digo

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Você ouviu London, London, de e com Caetano Veloso, concebida durante o exílio na Inglaterra em 1970. A faixa foi lançada no álbum homônimo de 1971. Eu sabia que eu não ia poder viver disso, mas...

Então, por exemplo, foi um momento que você percebeu que aquilo que você fazia meio que intuitivamente já estava virando uma reflexão, um método. Não tanto isso, era mais tocar. Só tocar, por enquanto. Tocar. Nessa época era tocar e compor. Quando você entra para a USP, a USP entra na sua vida, por exemplo, como foi conciliar, por exemplo, ou misturar mesmo a vida acadêmica e o começo dessa sua criação artística? Então.

Primeiro, eu nem sabia que teria alguma continuidade em música em termos universitários. Tanto que quando eu entrei na ECA, a ECA tinha a vantagem que tinha um ou dois anos de cursos de introdução, matérias introdutórias a todas as especialidades. Mas a grande coisa era que tinha um novo vestibular.

dentro da ECA, que era pra ver se você tinha, por exemplo... Habilidades, né? Habilidades em música, habilidades em artes plásticas, em teatro... Artes cênicas. Sobretudo a parte de artes, né? Comunicações não tinha tanto isso, porque o próprio vestibular já servia pra peneirar um pouco, né?

Mas, então, nesse momento que eu comecei a ver, primeiro que tinha surgido no ano anterior, o curso de música. Eu falei, ué, mas então eu vou fazer música, ainda achando que seria fácil. Que era um curso novo e que seria fácil pra eu entrar, porque eu já tocava alguma coisa e tal, que nada, eu não sabia nada do que precisava, né? Fui conversar com eles lá.

com os professores, e ele me disse, olha, não, aqui você vai ter que entrar na música erudita. Então, você tem que saber sofejar, saber harmonia, saber, enfim, teoria musical, né? Sonoridade das palavras com Nistati. Lá vem você e a pergunta fatal Como encontrar a palavra ideal?

Uso palavras picadas no som Professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a FIFELESTE da USP. Sua trajetória começou em 1971 na Escola de Comunicações e Artes, a ECA. Dois anos depois, ele ingressou também no curso de Letras. Essa era a mais pura imensidão

Que eu tentava em vão enaltecer Tanto que eu dizia amor é tudo, tudo, tudo é quase nada pra você

Na verdade, não é nem teoria isso, isso é técnica, técnica musical, né? Mas é uma coisa que tem que ter aprendizado. Todo mundo que faz conservatório já tem isso, naturalmente. E você não tinha feito? Nada, nada, nada, nada. E todos os meus colegas ali que entraram tinham. Tinham. Então, até eu fiquei completamente desadaptados ali. Ao mesmo tempo, o departamento de música precisava de alunos.

Até pra justificar, porque pouca gente sabia que existia música como opção. Não tava ainda tão divulgado, né? Não tava. Então, o pessoal entrava pra fazer jornalismo, propaganda, até rádio e televisão. Rádio e TV. Mas não música mesmo, né?

Então, por isso, o próprio Oliviettoni lá me ajudou um pouco no sentido de... Ele me indicou uma pessoa que poderia me dar umas aulas ali no final do ano, pra eu me equipar um pouco de elementos musicais, técnicos, pra poder fazer o examezinho de seleção que eles faziam lá. Bom, quando ele se propôs a ajudar, eu já vi que ia dar certo, né? E foi isso que aconteceu, entrei e tal.

Aí você se enfronhou na música erudita? Me enfronhei no sentido... O que você ouvia? Eu fiz o curso inteiro. Os meus colegas que entraram do mesmo jeito que eu, desistiram, porque viram que não era o que eles queriam. Por exemplo, sambistas. Aliás, eu acho que até um dos professores lá atualmente.

entraram comigo e viraram, deixaram de compor samba, eles participavam até de festival, da Record, tudo isso, largaram porque música erudita era incompatível com aquilo.

Era um, era dois, era cem, era um mundo chegando e ninguém Que soubesse que eu sou violeiro, que me desse o amor ou dinheiro Era um, era dois, era cem, vieram pra me perguntar Ou você de onde vai, de onde vem, diga logo o que tem pra contar Parado no meio do mundo, senti chegar meu momento Olhei pro mundo e nem via, nem sombra, nem sol, nem vento Quem me der agora, eu tivesse viola pra cantar Quem me der agora, eu tivesse viola pra cantar

Que me der agora, eu tive essa viola pra cantar. Que me der agora, eu tive essa viola pra cantar.

Era um dia que era claro, quase meio. Era um canto calado, sem ponteiro. Violência, viola, violão. Era morte, retalmente, eu. Era um dia que era claro, quase meio. Tinha um que jurou me quebrar, mas não lembro de dor nem receio. Só sabia das ondas do mar. Jogar a viola no mundo, mas fui eu no fundo buscar. Se eu tomar viola, ponteiro, meu canto não posso parar. Não! Quem me der agora, eu tiver essa viola pra cantar. Quem me der agora, eu tiver essa viola pra cantar.

Quem me der agora, eu tive essa viola pra cantar. Quem me der agora, eu tive essa viola pra cantar.

E eu queria lidar com isso e comecei a pensar, já que a questão é a linguagem musical, deve ter uma linguagem de canção. É aí que começou a montar uma hipótese de que existiria uma linguagem da canção que tem a ver com a música, assim como tem a ver com a literatura, mas não é nenhuma das duas. Canção, para mim, desde então, nunca foi nem música nem literatura.

É uma outra coisa. A gente já pode pegar esse gancho que você falou e você dá uma explicação pra nossa audiência da Rádio USP. O que que você, então, como que você diferencia a música e a canção? Já de cara, se a gente vai pular um pouco, mas depois a gente vai recuperando, né? Depois a gente volta, é. Mas a questão da canção me fez, pelo menos, pensar que ali essa questão de fazer uma letra pra uma música, pra uma melodia, ou vice-versa...

criava uma outra linguagem. Então, a poesia deixava de ser poesia e passava a ser letra. Letra, letra, o que é letra? É algo adequado à melodia. Alguma melodia. E a melodia é algo adequado àquela letra. Então, tem que ter uma inter-relação que daí deve surgir a linguagem da canção.

Quais são os elementos que compatibilizam uma melodia com uma letra? Por que a gente acha que as duas coisas só poderiam viver juntas? Entendeu? Você pensa numa letra e já está com a melodia no ouvido. Se a pessoa cantarola alguma coisa, você já sabe qual é a letra. Quer dizer, o que é essa integração absoluta que a gente vê nas canções?

Isso foi, e daí sim me surgiu uma hipótese para tentar demonstrar quais são os elementos que fazem essa compatibilidade. Mas nesse momento eu queria ver quais eram os elementos que criavam compatibilidade entre melodia e letra. Com isso me distanciei da música e também da literatura.

Não é literatura a canção, é outra coisa. A canção é o resultado original da integração entre letra e melodia, um tema que une sua atividade de pesquisador à de compositor. Ele fez uma canção bonita pra amiga dele E disse tudo que você pode dizer pra uma amiga na hora do desespero

Só que não pode gravar. E era um recado urgente. Ele não conseguiu sensibilizar o homem da gravadora.

Depois a gente entra nessa história da poesia. É, então, de repente já começou a Canção Brasília a tomar uma forma de pensamento pra você. Foi criando aos poucos, né? Você foi chegando nessa conclusão. Aí eu tava pensando que se podia falar um pouco, então, quando que começa a virar um objeto de análise mesmo?

Já logo no começo dos primeiros anos da faculdade? Não, não, não. Mais pra frente. Isso tem um pouco a ver com o fato de eu ter me decidido, porque logo em seguida, eu entrei na ECA em 71. Em 72, comecei a fazer música e tal, falei, bom, tô gostando do curso, mas não é isso que eu quero. Eu não vou lidar com isso. Eu já tinha a questão da música erudita.

Mas falei, vou fazendo, porque era interessante, eu via as análises, eu gostava das análises propostas lá pelo Ville Corrêa de Oliveira, que era o professor principal ali de composição.

Amém.

E aí

Quando eu vi que não era o que eu queria, eu falei, eu vou então tentar fazer letras também. Aí eu fiz outro vestibular para letras, naquela época podia. E estudou concomitante. E comecei a fazer a faculdade concomitantemente, a partir de 73. E no fim eu terminei antes letras. E em letras, como é um curso mais tradicional, já tinha pós-graduação, já tinha... A ECA não tinha nada.

A ECA estava ainda no começo. Não tinha nada ainda. E lá já tinha os professores mais tarimbados do ponto de vista de formação. Porque o pessoal da ECA ainda era muito... Eram jornalistas recém-formados. Lá não. Lá tinha o Antônio Cândido. Sim. Tinha o próprio Wisnik, que era muito mais novo. Defendeu a tese dele com o Antônio Cândido.

Exato, e ele já era professor lá voluntário, não era contratado, mas ele já era voluntário. E outros grandes professores lá, o Davi Arriguti, por exemplo, já dava aula lá nesse momento. Grandes nomes. Grandes nomes que me chamaram a atenção.

Mas aí entrando lá, a questão foi a seguinte, no segundo ano que eu fiz letras, eu fui lá atrás de teoria literária, porque eu achava que por ali eu vi as análises do Davi Arrigut e tal, falei, poxa, aí pode ter um caminho e tal. Mas o tempo foi passando, eu fui, mas não é, isso aqui também não dá conta, eu não vou poder analisar canção com isso.

Amém.

Aí me veio a tal da semiótica, que tinha um grupinho de professores ali ligados à linguística que se interessavam pela semiótica, que era, digamos, uma das abordagens da linguística era a semiótica, que é o estudo do sentido.

Daí o sentido é o sentido global. Um filme é tudo, uma televisão é tudo, um circo é tudo, é analisado tudo, e não apenas a música, apenas a letra, apenas a... Falei, ó, aqui deve ter alguma coisa mais próxima, pelo menos, do que eu tô precisando. E, de fato, daí eu comecei a seguir os cursos de semiótica lá.

Amém.

Só pra gente recapitular aqui, você faz as duas faculdades ao mesmo tempo. Simultaneamente. Então, você não abandona a música, porque você tá só estudando letras também, né? Então, na música, você tá ainda lá no repertório, conhecendo o repertório erudito, ou você já tá ouvindo outras coisas?

Lá na música erudita, só ouvindo outra coisa. Só ouvindo música erudita? Só. Quem? Analisando. Analisando, por exemplo, o principal era a vanguarda dos anos... Do começo do século, né? Do século XX. Scheinberg, Weber, Berg, Stockhausen, que na época estava produzindo muito.

Quando nós estamos aqui...

muitas as estirações do Arrigo se bem que o Arrigo já entrou com aquelas ideias já tinha chegado até com composições nessa linha prontas, claro, composições mas essa era a música mais cultivada mas a gente analisava muito Mozart muito Beethoven muita música do século XIX também a gente aprendia inclusive a analisar mais por aí não

Então, vamos agora, não sei se é o caso de começar a passar já para um trabalho que você faz coletivo primeiro, antes da sua carreira solo, que é o Grupo Rumo. Não sei se antes teve algum trabalho tão importante que você possa pontuar.

A formação original do rumo trazia, além de Luiz e Paulo Tati, Akira Ueno, Cissa Tucori, Gaúpedo, Geraldo Leite, Hélio Zesquendi, Naozete, Pedro Mourão e Zé Carlos Ribeiro. A maioria, na época, estudantes da ECA-USP. Em 1974, o grupo passou a tratar a composição e o arranjo de forma inovadora. A instrumentação passou a valorizar a linha principal do canto, destacando as intuações da fala corriqueira.

A CIDADE NO BRASIL

É só uma voz, a minha voz, sem o coral, cadê o coral? Cantava aqui, estava aqui, cadê o pessoal? A música avança, lança em mim.

Um gelo geral, solidão Voz sem coral É só uma vez, é a minha vez De fazer o solo final Eu entro aqui, eu entro em mim Voz principal

E um coro virtual eu ouvi Anunciando sem dó Sou eu e só E assim eu refiz meu caminho Com voz e com muita emoção

Troquei por um vigoroso violão E quem sonhou, sofreu, chorou Pode fazer de uma só voz um chão

Pode não ser um mega show Um festival com multidões Mas quem chorou já tem na voz um show

E aí

E assim eu refiz meu caminho Com voz e com muita emoção O coro virtual eu troquei Por um vigoroso violão

Pode fazer de uma só voz um show Pode não ser um mega show Um festival com multidões Mas quem chorou já tem na voz

Um show

Você ouviu a música Show, de Luiz Tati e Fábio Talhaferri. Na interpretação de Naozete, com controle absoluto de dinâmica, indo do sussurro ao agudo e cristalino com uma facilidade impressionante. Naozete ganhou o prêmio de melhor intérprete do festival por essa música.

Eu comecei a fazer show já desde o momento que eu entrei. Eu já fazia show de canções. Fiz na FAO, na Aliança Francesa, tudo que era teatrinho aqui da USP. Show do Gato Preto. É.

Eu fazia, juntava uma banda pra aquilo e fazia, né? Mas um trabalho mesmo mais autoral. Não, então, tá aí quando eu comecei a ter essa concepção de canção, etc. Foi aí que gerou o rumo. Por isso que o rumo tem esse nome horroroso. Rumo, né? Rumo. Isso veio de rumo de música popular. Era esse o nome completo. Parecia mais nome de conferência do que de banda, né? Que banda sempre é um nome engraçadinho, assim, e tal.

É verdade, rumo não, né? Rumo é uma coisa de projeto, né? É verdade. Rumo. É. É pomposo. Era por causa disso. Era porque, no fundo, tinha mais força a proposta teórica, entre aspas, né? Estética. Estética do que propriamente a proposta musical.

Oi, faz tempo que a gente não bate de cara um no outro? Oi, assim tão pertinho, com a cara grudada, nariz com o nariz? Oi, nós estamos tão perto um do outro que nem dá pra ver a fisionomia? Afasta um pouquinho, dá mais pra lá pra dar perspectiva.

Ah sim, pô, agora eu te reconheço Eu te vi de longe, vou falar com esse cara Deve ser ele, tem todas as características O mesmo cabelo, é, vamo lá, vamo ver e tal Mas eu não tinha certeza, cê estava meio com pressa Então fui chegando devagar, pensando Pô, mas ele tá diferente E nesse momento você apareceu

Oi, faz tempo que a gente não bate de cara um no outro. Oi, assim tô pertinho, com a cara grudada, nariz com o nariz. Oi, nós tamo tão perto um do outro que nem dá pra ver a fisionomia. Afasta um pouquinho, vai mais pra lá pra dar perspectiva. Ah, sim.

Agora eu te reconheço Eu te vi de longe Vou falar com esse cara Deve ser ele Tem todas as características O mesmo cabelo É, vamos lá, vamos ver e tal Mas eu não tinha certeza Cê estava meio com pressa Então fui chegando devagar Pensando Uma lita diferente E nesse momento você apareceu

Oi, faz tempo que a gente não bate de cara um no outro Oi, assim tô pertinho com a cara grudada, nariz com o nariz Oi, nós tamo tão perto um do outro que nem dá pra ver a fisionomia

Você ouviu o encontro. Nela, Tati trabalha um procedimento central de sua poética, a entuação da fala comum transformada em linha melódica. Não se busca a expansão melódica típica da MPB, mas a preservação da curva da língua falada. Isso se alinha diretamente ao que Tati formula depois em seus estudos de semiótica da canção.

Sonoridade das palavras comunista T Lá vem você e a pergunta fatal Como encontrar a palavra ideal Uso palavras picadas no som

Paulistano, nascido em 1951, Luiz Tati é o exemplo do artista autodidata pesquisador. Das primeiras notas no violão aos 12 anos até a liderança de experimentos estéticos do rumo, em que assina a maioria das composições. Sua trajetória acadêmica sempre esteve ligada à Universidade de São Paulo para decifrar a semiótica por trás de cada verso, aprofundando o pensamento sobre o sentido da canção.

A reprise é os domingos, às 18 horas. Para reouvir os episódios, use o tocador de áudio que você está acostumado ou visite nossa página em jornal.lusp.br barra podcast. Captação de áudio e edição, Júlio César Bazanini. E o roteiro e apresentação, Magali Prado.

Semana que vem, terça às 17 horas, o próximo episódio de Sonoridade das Palavras com Luiz Tati.