Episódios de a dor da borboleta

#13 • Sobre controlo, entrega e rendição

31 de maio de 202642min
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Porquê que a nossa relação com a rendição é tão difícil, se sabemos que o que controlamos na vida é tão pouco?

A partir da minha experiência com o lançamento do meu livro e de uma viagem de balão, neste episódio falo sobre o que tenho aprendido sobre entregar e render-se. ❤️

O meu livro "Da Boniteza das Coisas" é lançado dia 21 de Junho e já está em pré-venda aqui: https://yonaramateus.me/da-boniteza-das-coisas

Participantes neste episódio1
Y

Yonara Mateus

Host
Assuntos3
  • Entrega e RendiçãoA dificuldade em delegar e confiar · A rendição como desistência de lutar · A confiança como base para a entrega · A humildade em aceitar os limites do controle · A diferença entre entrega e rendição
  • A ilusão do controleOrigens da necessidade de controle na infância · O controle como mecanismo de proteção · A desconfiança em relação aos outros · A morte do pai e a confrontação com a finitude · A ansiedade gerada pela tentativa de prever perdas
  • Lições da viagem de balãoA dependência do vento e das condições climáticas · A metáfora da vida como um voo de balão · A importância da aceitação e da entrega · A diferença entre controlar e ajustar
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Todos nós queremos a beleza da borboleta, mas quem aceita ser lagarta primeiro? E admiramos como é linda, livre e leve, mas escolhemos acreditar que sempre foi assim. Na busca ansiosa pela perfeição, esquecemos que a vida se materializa no verbo fazer, conjugado no presente do imperfeito.

E se abraçássemos o feio e tosco em nós, quanto de beleza poderíamos encontrar? O meu nome é Yonara e a dor da borboleta é a minha visão sobre essência, existência e humanidade na mundanidade da vida.

No último episódio aqui no podcast, eu falei-vos sobre o meu livro, Da Boniteza das Coisas, que eu estou a preparar-me para lançar. E falei também sobre a campanha de crowdfunding, de financiamento coletivo, que eu lancei para publicar o livro.

E ao falar sobre isso falei também sobre o facto deste processo ter-me trazido tantas lições, lições muito bonitas, não necessariamente fáceis, porque algumas delas tocam em algumas dores, mas são muito bonitas porque, de outra forma, eu não conseguiria acessar alguns desses lugares que esta experiência trouxe.

Uma dessas lições é claramente sobre controlo, entrega e rendição. E é por isso que eu trago este tema hoje. Não que seja só de hoje, é uma lição que eu tenho vindo a aprender há muitos anos já. E já há algum tempo que eu quero falar sobre isto aqui no podcast.

Mas claramente aflorou-se com este processo de divulgação do livro, principalmente por causa da questão de me expor como alguém que vai lançar um livro, para algumas pessoas que nem sequer sabiam que eu escrevia.

Para outras pessoas não foi uma novidade, obviamente, mas depois é uma questão sensível à relação que nós temos com o dinheiro. E então foi interessante entender aqui a minha própria relação com o dinheiro, mas depois a relação que as outras pessoas têm com o dinheiro. Sim, porque uma campanha de crowdfunding é eu chegar ao pé de ti e dizer olha, eu quero fazer isto, eu tenho esta ideia, não tenho dinheiro, mas gostaria muito que confiasses em mim, que acreditasses e me desses esse dinheiro. E aí E aí

com a expectativa de eu conseguir criar alguma coisa que, à partida, poderá ter um impacto mais global, não só para mim. Mas é muito sobre confiança, porque não tenho outras garantias. Então é interessante ver a reação das pessoas, porque era algo que eu não conseguia prever.

E eu achei que sim. Eu achei que eu conseguia, de certa forma, ter uma ideia de como é que iria ser. Eu achava que até sabia quem eram as pessoas que iriam apoiar e quem eram aquelas que não iriam apoiar. E saiu tudo ao lado. Foi muito interessante porque muitas pessoas que eu pensei mesmo que fossem apoiar, não apoiaram. E outras pessoas que eu nem sequer estava à espera.

apoiaram e não só em termos quantitativos, não é? De darem uma grande quantia e contribuírem significativamente, mas apoiarem também qualitativamente e vibrarem na mesma energia e mostrarem felicidade por isso e estarem mesmo muito entusiasmadas.

com o livro em si, não é? E quererem ter o livro nas mãos. E então é uma coisa que claramente nós não conseguimos prever. E eu achei que sim. Eu na altura tinha achado que eu conseguia, de certa forma, ter essa previsão. Mais uma vez a vida a ensinar que, de facto...

A parte que nós controlamos é muito pouca. Nós quase não controlamos nada. E o que nós controlamos está muito em nós. Porque se se tratar do outro, nós não conseguimos controlar. O que o outro vai fazer, o que o outro vai pensar, qual é o comportamento que vai ter, como é que ele te vai ver naquela ação que estás a tomar.

É algo que nós não conseguimos de facto prever. Isto fez-me recordar de todo o processo que eu tenho tido de entender que o controlo é em grande medida algo ilusório, que nós queremos muito acreditar que temos, mas que na maior parte das vezes é como água nas nossas mãos.

escorre porque não é nada que nós consigamos realmente agarrar, não é uma coisa palpável é uma construção que fizemos e há uma história que ilustra muito bem isto que eu estou a dizer foi uma experiência que eu tive recentemente e que foi sei lá, um momento de epifania até

Quando eu fiz 40 anos, já há quase 3 anos, eu recebi como presente de aniversário um voo de balão. Um voo de balão no Alentejo. Uma experiência que eu nunca tinha pensado ter, mas que me deixou logo entusiasmada.

E então tentei marcar, mas o processo da marcação foi difícil. Havia sempre altos e baixos. Eu entendi que era uma questão que também estava muito dependente do tipo de tempo que nós tínhamos. Se fosse no inverno, não dava por causa das intempéries, da chuva, do vento. Se fosse no verão, altas temperaturas também não davam. Então não foi assim um processo fácil. E com isto tudo, eu só consegui ir quase dois anos depois.

Então, no ano passado, finalmente consegui fazer a marcação, mas eu já estava tão desgastada pelo processo em si que eu cheguei a verbalizar que eu já não queria ir, eu já não tinha muita vontade de ir.

Mas ainda assim fui, porque senti que realmente era um presente especial e era também uma forma de honrar as pessoas que me ofereceram esse presente. Então, depois de várias peripécias, lá consegui ter a experiência.

Tem que se acordar muito cedo, tem que ser logo ao nascer do sol. E que bom que assim é, porque é muito bonito também. Mas prende-se também com questões técnicas, por causa principalmente do calor. A partir de uma certa hora não é possível sequer voar.

a equipa que foi connosco foi explicando muitas das questões técnicas que estão associadas a isso, portanto é realmente algo que tem muitas especificidades uma delas, um dos desafios foi logo no início quando

Eles nos disseram que, afinal, não íamos partir dali, daquele ponto onde nós estávamos. Estávamos à espera que fosse ali mesmo na parte da frente do hotel onde ficámos. Mas eles disseram-nos que, apesar de terem previsto determinadas condições de vento,

As coisas alteraram-se completamente e que, por isso, a melhor forma seria partir de um outro local para podermos fazer a rota que estava mais ou menos pré-determinada. Começamos logo por aqui a perceber esta ideia de que temos realmente muito pouco controle, não é? Por mais experiência técnica que eles pudessem ter, eles não controlavam o vento.

E o vento é a principal fonte necessária para a viagem de balão. Então, lá fomos para o local, definido para partirmos, para levantar voo. E, ao longo da viagem, foram várias as lições que eu fui tendo em analogia à vida. Porque, que metáfora tão bonita para como a vida funciona.

O piloto foi-nos explicando durante todo o voo como é que funcionava em termos técnicos a questão da propulsão, porque é um balão de ar quente e, portanto, funciona com uma chama que eu achei que ia ser durante toda a viagem, eu tinha esta ideia, não sei se já alguma vez fizeste uma viagem de balão, aquela chama que faz com que seja ar quente, ela só é acionada de tempos em tempos, portanto, não é durante a viagem toda.

E é acionada de forma estratégica quando se quer subir. Porque, segundo o que o piloto explicou, cria uma diferença de ar, não é? O ar que está fora do balão e o ar que está dentro, que faz com que o balão suba. E se, pelo contrário, o que eles querem é que o balão desça, eles deixam de dar esse ar, não é? Deixam de acionar a chama. E é assim que o balão vai subindo e descendo.

E porquê este subir e descer? Porque é a forma mais estratégica de aproveitar os diferentes ventos que vão nos afetando, que nos vão atravessando ali na viagem. Porque depois é o vento que vai fazer com que o balão se desloque para uma determinada direção. Ou seja, não é a mesma coisa que conduzir um carro ou qualquer outro veículo que tenha volante.

e que, de alguma forma, nos traga aqui uma ideia de maior controlo. Aqui estamos completamente dependentes do que o vento decide fazer. E foi muito interessante nós termos de lidar com esta frustração de o vento nos estar a levar na direção completamente oposta daquilo que seria o pretendido.

Porque aquele voo, em particular, é para sobrevoar a região do grande lago do Alqueva. E, portanto, nós vamos com esta ideia de que nós vamos estar a sobrevoar ali o lago e ver toda a planície alindejana, mas aquela região, em particular, da água é lindíssima. Eu não aconselho, obviamente, a quem tenha problemas com alturas.

Mas se não é um problema para ti, é uma experiência que eu recomendo a 200%. E fiquei muito feliz de, depois de todo aquele imbróglio, eu realmente ter ido fazer a experiência.

Mas, de facto, tivemos que lidar com esta frustração de não conseguirmos ir para a rota que era pretendida. Ainda assim, a viagem foi lindíssima. Mas foi muito interessante pensar nisto como muitas vezes acontece connosco na vida. Nós temos uma ideia de para onde é que nós queremos ir. E às vezes estamos muito focados ali naquele destino em particular. No nosso caso, era o Grande Lago do Alqueva.

Mas a vida leva-nos por caminhos diferentes. E muitas vezes até acabamos por chegar ao mesmo sítio, mas por outra rota. E às vezes nós queremos muito, muito, muito controlar e forçar a rota a ser diferente. E nas palavras do piloto, eu entendi uma grande aceitação. Ele estava a dizer que não íamos conseguir fazer aquela rota.

mas com uma naturalidade muito grande. Claro, nós estávamos frustrados, mas eles já fazem isso há muito tempo e eles entendem que não há nada que eles possam fazer para contornar a questão do vento, das condições climatéricas. Por mais experiência que eles tenham e por mais estratégias que possam utilizar, é muito pouco o que está do lado deles.

E o que é que está do lado deles é trabalhar com o acionar da chama, não é? Para subir e descer. E depois tem as velas, não exatamente como o de um barco, não é? Mas é parecido. A posição das velas vai ajudar a que o balão vir para um lado ou que vir para o outro.

E é assim que eles vão ajustando para conseguimos ter uma viagem que seja agradável e prazerosa. Mas não há muito mais que possam fazer. Então, essa aceitação foi tão inspiradora porque eu pensei, uau, é isto. Não há nada neles que mostre frustração por não conseguirem controlar. Eles aceitam a parte que conseguem controlar.

E o resto entregam. E é sobre isto. É sobre entrega e rendição. Deixar ir o controle, principalmente confiando que nós fizemos a nossa parte.

Agora, isto nem sempre é fácil. E essa viagem de balão colocou-me em contacto com várias partes de mim que tinham esta dificuldade, não é? Tinham e têm ainda esta dificuldade em abrir a mão, deixar ir o que não é para nós, não é?

Mas, fundamentalmente, entregar, confiando, que alguma coisa, algum elemento, algum evento, vai se encarregar de fazer o resto, depois de nós termos feito a nossa parte. Eu sempre tive uma obsessão por controlar.

E quando eu digo sempre, é desde que me conheço por gente, na verdade. Mesmo como criança, sempre tive este desejo profundo de conseguir prever as coisas e estar sempre no controlo e conseguir ter uma ordem, de certa maneira. E isto sempre me trouxe um peso grande, na verdade. Que era este peso de, tenho de ser eu a fazer.

porque não posso confiar nos outros. E então, ainda que eu tentasse controlar o resultado externo, o que as outras pessoas pensavam sobre mim, era esse controle também, que eu desejava muito, mas depois a ideia de me autocontrolar.

E não era um autocontrolo de estabilidade. Era um autocontrolo de restrição, de constrição, porque não podia sair de determinados limites.

E de onde é que isto vem, na verdade? Eu acredito que, enquanto criança, vinha muito da forma como o mundo chegava até mim, de uma maneira caótica, desorganizada. Eu já falei sobre isto também aqui noutros episódios. E, portanto, esta minha necessidade de controlar e de tentar ter tudo sob controle.

Era uma forma de eu me proteger e de conseguir, de certa maneira, elaborar este caos que chegava até mim. Como criança eu gostava muito de coisas que eram de empilhar e de juntar conjuntos e as cores todas iguais num lado, as formas iguais do outro lado. Eu adorava este tipo de coisas que era muito de arrumar, de organizar.

E mesmo quando era sobre coisas mais artísticas, pintar, desenhar, tudo dentro dos limites. O colorir nunca era para fora dos limites, tinha que ser algo restrito, estava ali restringido. E foi assim que eu fui crescendo. Obviamente também com alguma desconfiança do que vinha de fora. Porque, de facto, o mundo parecia-me muito pouco confiável.

E uma das primeiras constatações que eu tive disso foi com a questão da guerra, que foi uma situação extrema que me trouxe a esta realização. Então eu não controlo mesmo nada, porque não há nada que eu possa fazer para evitar que isto aconteça.

E de repente, esta sensação de desenraizamento, de ser retirada daquilo que era a minha organização, de alguma maneira, já estava ali instituída, sair de Angola, vir para Portugal, toda a envolvente que estava ali também. Eu já falei sobre isto noutros episódios, portanto, se não ouviste antes, aconselho realmente a ouvires, porque acaba por ter um certo encadeamento, mas eu vou repetindo muitas das coisas que façam sentido para determinado tema.

E foi isto. Eu senti que eu não conseguia controlar, que a vida simplesmente acontecia sem que eu pudesse fazer alguma coisa para mudar. Ainda assim, eu continuei a entreter esta ideia de que, de certa forma, eu poderia controlar o rumo das coisas.

ou pelo menos controlar o que eu sentia relativamente a isso. Porque o controlo, esta construção ilusória que nós fazemos do controlo, que é uma coisa que não existe, nada mais é do que uma tentativa, muitas vezes uma vã tentativa, de nos protegermos. Nos protegermos do quê?

da desilusão, da frustração, no fundo da dor e do sofrimento. Mas ao protegermos-nos disso, estamos-nos a proteger também das coisas boas que podem vir. Porque nós não criamos espaço, não abrimos esse espaço para o imprevisto acontecer, para o imprevisto bom acontecer, para coisas boas com as quais nós não estamos a contar possam entrar na nossa vida.

E portanto fui crescendo assim desta forma muito controlada, muito autocontrolada, também com esta desconfiança relativamente aos outros e sempre muito, em inglês nós temos uma expressão que é self-reliant, é de contar comigo mesma, só posso contar comigo.

Então foi este o caminho que eu fui fazendo e durante grande parte da minha vida foi assim que eu vivi. O segundo grande momento em que eu sou confrontada com esta ideia de que não tenho assim tanto controle foi a morte do meu pai. E eu aí sou confrontada não só com a ideia de que não podemos controlar a vida, mas que também não podemos controlar a morte.

Também já falei bastante até sobre esta experiência. Foi a primeira vez que eu fui confrontada com a ideia de morte, morte física, como algo tão palpável. E foi esta realização. Caramba, então não há nada que eu possa fazer para evitar de perder quem eu amo. E foi tão dura essa constatação, esta realização de que não dá para controlar a morte.

que aí então eu virei mais para dentro e eu pensei, então, se eu não consigo controlar o que acontece fora, eu vou controlar ainda mais, vou desenvolver-me ainda mais, para que eu possa controlar a forma como isto chega a mim, como essas experiências me fazem sentir. Porque, na verdade, a morte do meu pai veio como esse puxar de tapete de uma coisa que até então eu nunca tinha pensado.

Para mim, a ideia de perder alguém assim tão próximo nunca tinha me passado pela cabeça.

Tanto que eu falo muitas vezes da morte do meu pai com uma sensação de traição. Eu senti-me traída porque eu não estava à espera daquilo. Apanhou-me completamente desprevenida. Logo eu que controlava tudo. E a partir daí fui sempre entretendo esta ideia de que talvez se eu tivesse a contar com isso as coisas iriam ser mais fáceis que...

Se eu estivesse a contar com isso, o sofrimento ia ser menor. E então comecei realmente a entreter esta ideia de que o melhor era eu contar que a qualquer momento poderia perder alguém.

Agora imaginem o quão ansiogénico é viver assim. Posso dizer que eu já imaginei todos os cenários de todas as mortes das pessoas que eu amo. Isto não traz necessariamente mais alívio, ao contrário do que eu pudesse pensar.

Claro que nós sabermos que vamos morrer e sabermos que vamos perder alguém que nós amamos faz parte, não é? E é uma realidade. Mas o estarmos a pensar nisso sempre porque queremos estar a prever, porque queremos estar no controle para não sofrer tanto é ainda outro tipo de dor.

É isto, é só mudar a dor de sermos apanhados de surpresa pela perda de alguém que amamos, pela dor de estarmos sempre a pensar nisso e de termos esta ansiedade que a qualquer momento isso pode acontecer. Mas foi isso que eu comecei a construir e mais uma vez a vida se encarregou de me mostrar que nós não controlamos nada.

Cinco anos depois de eu ter perdido o meu pai, eu perco o meu irmão. Pelo meio, perdi também a minha avó. Portanto, foram coisas muito de seguida e que me fizeram até começar a criar aqui uma espécie de regra. Eu dizia assim, ok, então de dois em dois anos eu vou perder alguém. Percebes? Eu estava sempre neste cálculo. Eu tenho que, de alguma forma, prever. Então, eu estava ali à procura de padrões que me pudessem ajudar a estar um pouco mais no controle. A não ser tão apanhada de surpresa.

Isto é de loucos, porque foi o meu pai, depois dois anos depois foi a minha avó, depois dois anos a seguir o meu irmão teve o acidente, um ano depois ele acabou por falecer. E eu comecei a criar esta ideia de sequência. Espera lá, então deixa-me ver se existe aqui alguma previsibilidade. Estás a entender, não é? O grau de ansiedade que isto causa.

E eu que 5 anos antes estava certa de que quando voltasse a perder alguém não iria sofrer tanto, fui completamente apanhada, desprevenida. Mais uma vez. Porquê? Porque nós não controlamos nada. Não há nada que possamos fazer para nos livrar da dor de perder alguém. É isto.

Ainda que possas já ter imaginado mil cenários diferentes de como podias perder aquela pessoa, quando acontece, quando está ali presente, tão palpável, tão objetivo, tão concreto, tu percebes que não dá para prever. Não dá para prever como é que depois vais reagir, o quão partida que vai ficar o teu coração. Então é sobre entregarmos e continuarmos a entregar-nos e a viver.

independentemente de depois termos estes corações partidos, não é? Porque vamos ter muitas e muitas vezes o nosso coração partido e não há nada, não há controle nenhum, não há nenhuma folha de cálculo que nós possamos construir para nos ajudar a controlar isto. A vida não funciona assim.

Mas na altura eu achava que sim. E as consequências de eu estar tão obcecada por controlo, até um controle emocional também, foram devastadoras. Vai ser uma vida inteira.

a remediar estes anos todos em que eu achei que eu precisava de estar sempre no controle. Porque foi a construção de uma existência muito baseada nesta ideia de eu consigo fazer tudo sozinha. Eu não preciso de ninguém. Até porque eu não posso confiar em ninguém. Ninguém vai fazer exatamente como eu acho que deve ser feito. Então, mais vale ser eu a fazer.

E isto foi sendo reforçado pelo meu próprio ambiente, não é? Porque eu também ia ouvindo coisas parecidas com isso, não é? Que de certa forma alimentassem esta ideia de ninguém é muito de confiança, desconfia sempre, mais vale quando estás só contigo mesma.

Tens de estar sempre alerta, porque a qualquer momento alguma coisa pode acontecer e, portanto, convém prever isso para poder agir de imediato. Saber logo qual é o próximo passo e poder eliminar a ameaça, neutralizar aquela ameaça ou perigo.

Então, viver assim é viver em constante tensão. Esta sempre foi a minha realidade e daí, eu também falei sobre isto, esta ideia de ser uma criança muito séria e mesmo a postura, uma postura mais fechada, com os ombros muito elevados, sempre nesta tensão constante.

Em que o meu sistema nervoso estava sempre preparado para lutar ou fugir. É viver em constante modo combativo, de alguma maneira. E não dá para viver assim durante muito tempo. Porque o corpo depois desliga, até mesmo para nos proteger.

E que bom que eu tenho feito todas estas aprendizagens e este caminho. Eu tento não maldizer nenhuma das fases que eu tive e que eu ainda vou ter, porque tudo faz parte, tudo faz parte da existência. De alguma forma, eu precisava de passar por essas lições para entender, a determinada altura, esta importância de libertar, de entregar, de deixar ir.

Mas claro, para uma pessoa que sempre viveu assim, não é? Com esta obsessão sobre controlar, é muito difícil aceitar a ideia de deixar ir o controle. Mesmo depois de ter um negócio e de entender que eu não conseguia fazer tudo sozinha, a realização, a constatação, até em voz alta, dessa verdade, não é? De que eu não consigo fazer tudo sozinha.

Era duro para mim. Foi uma lição difícil de aprender, delegar. Eu confiar o suficiente a ponto de deixar fazer algo que eu achava que eu iria fazer melhor do que ninguém. E a partir do momento em que tu consegues depois delegar, muitas surpresas boas podem vir daí. Porque esta perda do controlo traz outros ganhos que são incomparáveis.

A liberdade que eu hoje em dia tenho de poder ter uma equipa, ainda que pequena, que eu sei que vai controlar as coisas mesmo quando eu não estou presente.

Isto não tem preço. Mas é um processo. Para algumas pessoas, isto é algo extremamente fácil. Elas têm muita facilidade em delegar, em simplesmente confiar e entregar aos outros. Entregar a alguém que vai fazer e confiam inclusivamente que aquela pessoa vai fazer melhor do que elas. No meu caso, nunca foi assim. O próprio profissionismo de que eu já falei aqui vem também dessa necessidade do controle, que é uma necessidade de previsibilidade.

O primeiro passo é realmente doloroso. Este abrir mão, este deixar ir, para alguém que sempre esteve muito focada em controlar como sendo essa forma de proteção, é uma tarefa hercúlea. E como é uma dor, às vezes ela nem sequer vem de um lugar voluntário.

Ou seja, pessoas como eu, que estão sempre muito agarradas ao controlo, só vão deixar ir esse controlo quando sentem que não têm nenhuma outra opção. E esse é muitas vezes o perigo. É nós precisarmos que chegue até uma situação extrema em que nós não conseguimos mais para aí sim nos rendermos.

Porque a ideia de rendição vem normalmente com uma ideia de fraqueza, de desistência, para quem está sempre em modo combativo. Eu ouvia a palavra rendição e causava-me comichão. Como assim? Render-me. Não posso, não posso. Tenho que estar sempre no combate, sempre a lutar. Não posso desistir.

E a primeira vez que eu realmente abracei, ainda que com dor, mas abracei esta ideia de me render, porque já não conseguia mais, foi na minha experiência de MBA, que eu já falei aqui também em episódios passados, porque foi uma situação de um esforço que era fora de tudo aquilo que eu conhecia, porque eram várias coisas que estavam a acontecer ao mesmo tempo.

Era uma exigência tão elevada, um foco na performance, em produzir, em estar ali presente, em aprender também, mas muito nesta ideia da produtividade, com muito poucas horas de sono, que eu também já falei. E então chega uma altura em que tu não tens outra opção.

Tu sentes-te impolida e foi isto que aconteceu comigo. Eu senti que já não havia mais do que eu pudesse fazer, que eu tinha chegado ao meu limite. E foi aí a primeira vez que eu senti que eu abracei a ideia de rendição.

de ter de me render, de dizer às pessoas, olha, eu não consigo fazer isto. Ou, desculpa, mas eu vou ter que falhar contigo. Porque até então eu achava que eu conseguia fazer tudo, sem abrir mão de nada, e sem pedir ajuda, e sem delegar. E então, ao ver-me nessa situação, que para mim foi muito extrema, aí percebi o que era rendição.

Eu percebi, mas eu não sinto que eu tenha incorporado logo no momento. Eu fui depois incorporando aos poucos e lutando muito com esta ideia também, lutando muito contra a ideia de que, de alguma forma, em alguns momentos tenho de me render. Porque lá está vinha esta ideia de rendição como sendo desistência, mas não uma desistência boa, não é? Não uma desistência para abrir espaço para outras coisas.

que é o que hoje em dia eu acredito que a rendição é. Na altura eu achava que era uma desistência de atirar a toalha ao chão e de fraquejar, portanto de ser menos de alguma maneira. Então precisei de ir incorporando isso em mim e hoje olhando para todo o percurso que eu tenho feito desde então, eu acredito que o grande desafio é mesmo abraçar esta ideia que nem sempre eu consigo fazer.

que há muitas coisas que eu não consigo controlar, que eu tenho de entregar e que não preciso de esperar por uma situação limite em que eu não tenho uma outra opção a não ser entregada. Este é o caminho em que eu estou. Eu acredito que é um pouco neste ponto de...

Ter a sabedoria de entender quando é que realmente a minha parte está feita e que eu preciso de entregar. E quando eu falo em entregar, é entregar a quem? Quando eu falo de me render, é render-me a quem? De uma forma geral, é entregar à vida. Mas claro que isto passa muito por uma palavra-chave e que eu já falei aqui. Confiança.

passa muito por confiar. Toda e qualquer entrega, o próprio conceito de rendição, surrender, passa por confiar que a nossa parte está feita. Isto é que é muito importante. Entendemos que a nossa parte está feita e está no momento de entregar a outra pessoa.

E esta outra pessoa pode ser uma entidade, pode ser a vida, pode ser o universo, pode ser Deus, podes chamar-lhe o que quiseres. Há pessoas que usam diferentes nomes para isso, mas de certa forma, e diferente talvez de uma delegação de tarefas no teu dia-a-dia, no teu trabalho, esta delegação pede uma confiança com base em muito poucas evidências. É talvez aquilo que nós chamamos fé.

e que não tem nada a ver com religião necessariamente. Acredito que qualquer religião é apenas a institucionalização dessa fé, desta confiança no invisível, porque tu não vês quando tu delegas a uma outra pessoa física.

Tu tens de confiar que esta pessoa vai fazer o trabalho, mas de certa forma tens algum tipo de evidência, não é? Ou sabes que a pessoa é expert nisso, ou sabes que ela está a aprender. Existem, de certa forma, mais evidências que tornam um pouco mais concreta, ainda que não 100% controlável, mas um pouco mais concreta esta entrega.

aí tu confias, mas com alguma base. Com a questão da fé, quando a confiança passa a ser fé, parece-me que é isto. É confiar em algo que tu não vês. Quando entregas realmente à vida, não é? E quando fazes a tua parte, e o fazer a tua parte é essencial, nós temos que estar certos de que a nossa parte foi feita.

Ao fazermos a nossa parte, e existe esta magia do fazer, é depois entender qual é o momento certo para eu dizer, ok, está feito, agora entrego. Agora deixo a vida fazer o resto. Deixo o universo, deixo Deus, o cosmos, a força maior, a fonte, whatever.

O nome há de ser o que tu quiseres, mas é sobre acreditar, confiar que existe uma força maior que se está a encarregar de te ajudar a fazer os teus planos, de fazer os teus planos se concretizarem. Se não for isso, então vai ser o quê?

Se nós sabemos que o nosso nível de controlo é tão pouco, porque é, e ainda assim faz magias também, não é? O fazer a ação, uma ação alinhada, tem um efeito mágico, mas ainda assim ela precisa de ser amplificada por alguma outra força.

E nós sabemos que essa força existe de alguma maneira. Sabemos porque a própria ciência tem mostrado isso. Que há algo que se está aqui a encarregar de manter esta ordem. Os planetas girarem de uma determinada órbita, das estações do ano seguirem determinada ordem.

existe realmente esta ordem existe uma espécie de força que está a encarregar-se de orquestrar tudo muito bem de forma a que as coisas fluam e tu não tens de fazer nada para isso eu acordo de manhã e realmente as coisas estão a acontecer a vida está a acontecer e eu não tive de fazer nada para isso então se tu não tiveste de fazer nada alguém se encarregou de fazer isso e aí e aí e aí

Portanto, hoje em dia eu tenho feito as pazes com esta palavra rendição e entendido que ela não é necessariamente algo mau. Não faz de mim menos por eu ter de me render e por eu assumir isso.

E na verdade, talvez ela seja mesmo sobre desistência, mas é desistência de lutar. Pelo menos na minha experiência tem sido isto. Tenho feito as pazes com esta ideia de rendição como sendo algo não só possível e até positivo, benéfico.

Mas necessário mesmo para que as coisas tomem o rumo que têm de tomar, sem tanta intervenção minha. Porque era muito esta ideia de eu tenho de intervir na vida, eu tenho de mudar o rumo. Pensando no voo de balão, eu seria, pelo menos há uns anos atrás, seria um piloto muito nervoso no balão. Porque eu iria querer controlar toda a direção do balão, para que lado é que ele ia, como é que ele voava.

E ia-me frustrar e provavelmente iríamos cair em algum momento. Fazendo as pazes com esta palavra, rendição, e até mesmo com a ideia de entrega, entrega e rendição, eu sinto que também estou um pouco mais em paz e elas têm ressoado mais em mim e está-me a fazer muito mais sentido. A mensagem que eu queria deixar é esta. Eu precisei de viver determinadas experiências.

Para ter este insight de dizer, ah, então é isto. A rendição é sobre isto. Mas ultimamente eu tenho também refletido sobre se são realmente a mesma coisa, entrega e rendição. Se são coisas diferentes. Se é a mesma coisa em níveis de intensidade diferentes.

Isto é o que eu tenho refletido e tentado também incorporar, mesmo do ponto de vista prático, em que momentos é que é entregue, em que momentos é que é rendição, ou será que estamos a falar da mesma coisa. É assim, eu sou uma pessoa de palavras, trabalho com línguas, trabalho com a parte semântica, a parte do significado das palavras e isso para mim é mágico, entender que determinada palavra tem um significado e esse significado é como se fosse um...

aroma, um cheiro. Então eu vou sempre para esse lado também. E faz-me sentido pensar nisto, não é? Será que entrega e rendição são a mesma coisa? Ou estamos a falar de coisas diferentes? Ou níveis diferentes da mesma coisa?

e parece-me a mim e isto é só uma hipótese que eu vou colocar aqui para nós refletirmos parece-me que podemos estar a falar de coisas diferentes mas ainda assim relacionadas ou talvez diferentes níveis da mesma coisa também pode ser quando eu penso em entrega eu penso muito em aceitação esta entrega como sendo o abrir a mão para que a coisa vá para que a coisa vá

E parece-me ser talvez um nível, é um nível mais voluntário. Eu entrego com esta consciência de que estou a entregar, depois de saber que já fiz a minha parte. Portanto, é a aceitação de que eu não tenho o controle todo e que eu não consigo fazer tudo.

enquanto que a rendição e talvez seja da minha própria experiência lá está parece-me ser a entrega quando já não há mais nada a fazer este render-se que em inglês eu gosto muito desta palavra também, surrender é entregar-te

porque não há mais outra coisa para entregar a não ser tu mesmo, tu própria então tu entregas-te, deixas-te ir tu entregas-te à situação e então aparece mais como uma ideia de desistência realmente

Mas é esta desistência de parar de lutar. Parar de lutar contra. Desligar o modo combativo. Não sei se faz sentido. Se tens uma outra visão sobre isto. E se tiveres, por favor, deixa nos comentários. Traz reflexão. Traz a tua visão. Traz uma outra perspectiva. Ou então, se concordares, diz que concordas. E deixa aqui também nos comentários. Eu vou gostar muito de te ler. De ler a tua perspectiva.

Queria deixar isto aqui como uma reflexão, eu não trago nenhuma resposta em concreto, esta é a minha experiência apenas também e é o que eu tenho sentido nos momentos em que eu abro mão desse controlo e que eu digo, eu entrego. Em que nível é que essa entrega passa realmente a ser rendição?

Independentemente de serem a mesma coisa em níveis diferentes ou coisas realmente diferentes, o que eu sei e que posso garantir sim é que tanto a entrega como a rendição precisam de uma coisa muito importante para acontecer. Confiança. Elas estão dependentes de um nível de confiança que tem de haver.

De forma a abrir mão do controle, tu tens de confiar que alguma força, algum vento vai se encarregar de amplificar aquilo que tu fizeste, de amplificar a tua ação.

E aí sim, aí tu entregas. Entregas porque sabes que existe uma parte que não é tua. Não te cabe a ti fazer. E por isso, claro, precisamos de confiança sim, mas precisamos também de uma outra palavra-chave.

que é humildade. Eu vou sempre manter esta ideia do voo do balão como sendo a minha lição mais bonita sobre rendição, sobre entrega do controle, porque, tal como aconteceu com o piloto do balão, pede aqui sabedoria de nós aceitarmos que...

por mais experientes que possamos ser, existe uma parte, uma parte muito importante que nós não conseguimos controlar. E é essa parte que nós temos de entregar. Eu posso ter as melhores estratégias, eu posso ter muitos conhecimentos, eu posso ter excelentes equipamentos, o melhor balão do mundo, mas ainda assim eu vou estar dependente do vento e do que ele quiser fazer, de onde ele me quiser levar.

A única coisa que eu consigo fazer é usar esse vento a meu favor e ir ajustando as velas e ajustando o subir e o descer para que a jornada me leve para onde eu quero ir.

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Yonara Mateus

Livro "Da Boniteza das Coisas"
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