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#24 - O que exatamente significa "Condicionamento Físico"?

18 de setembro de 202632min
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Neste episódio discutimos sobre o que de fato significa a expressão “condicionamento físico”, que é dita e ouvida no cotidiano de quem frequenta academia, grupos de corrida, crossfit, etc. Será que você já pensou sobre isso? Vem descobrir as diferentes camadas que respondem a essa pergunta.

Refs.:

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WILLIAMS, N. I. et al. 2025 Update to the Female Athlete Triad Coalition Consensus Statement Part 2: Clinical Guidelines for Screening, Diagnosis, Treatment, and Return to Play for Adolescents and Adults. Sports Medicine, 2026. 

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Participantes neste episódio1
L

Luca Baêta

Host
Assuntos6
  • A complexidade da definição de condicionamento físico e suas múltiplas camadascondicionamento físico não é óbvio·diferentes níveis de condicionamento·exemplos de Chantecler e Epaminondas·condicionamento para qual demanda
  • Definição provisória de condicionamento físico e sua natureza dinâmicaestado funcional resultante de adaptações·múltiplos sistemas do organismo·capacidade de lidar com demandas físicas·condicionamento é um estado dinâmico
  • Diferença entre capacidade física e desempenho em tarefas específicascapacidade não é desempenho·desempenho depende de várias coisas·exemplo do corredor e VO2 máximo·capacidade e desempenho são separados
  • O processo de condicionamento como adaptação do organismo a demandascondicionar é um processo·carga de treinamento acumulada·organismo se modifica ao longo do tempo·perturbação produz adaptação
  • Mecanismos celulares e neurais por trás da adaptação físicamecanismos físicos, químicos, celulares·sinais mecânicos convertidos em bioquímicos·síntese de proteínas e remodelação celular·adaptação em múltiplos sistemas
  • Condicionamento físico não é sinônimo de saúde e sua relação com a evoluçãosaúde é conceito mais amplo·aptidão física e saúde relacionadas·corpo não existe para ganhar medalhas·história evolutiva do corpo humano
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LBLuca Baêta

O que exatamente significa condicionamento físico? Fala, galera! Bem-vindos ao meu podcast. Eu sou o Luca Baeta e hoje a gente vai destrinchar uma pergunta muito prosaica que talvez você não tenha parado para desenvolver na sua cabeça. A gente fala de condicionamento físico por aí, lemos nas matérias nas revistas, nas postagens das redes sociais, em reportagens na TV, mas afinal, condicionamento físico parece uma expressão muito óbvia, bem cotidiana, só que o que exatamente está sendo condicionado?

Então a gente tem pelo menos 4 níveis diferentes escondidos nessa expressão e isso já impede a gente de responder simplesmente condicionado a estar em forma. Só que antes da gente entrar na pauta, aqueles recados iniciais. Primeiramente, muito obrigado pela sua audiência, eu preciso de um minutinho seu para ir lá no agregador de podcast favorito e colocar para seguir, fazer um comentário no episódio e avaliar o podcast para me ajudar a aparecer para mais gente.

Você pode também indicar esse ou outro episódio para alguém que você acha que pode se interessar pelo tema. E por último, você pode participar enviando dúvidas. É só enviar a sua pergunta para o email profbaeta@gmail.com ou pelo Instagram @profbaeta. Então vamos lá, imagina dois caras. Vamos dar nome para eles, para eles ficar, para a gente ficar divertido, né? Vou chamar um dele de Epaminondas e o outro de Chantecler. Vamos lá, o Chantecler, ele é um cara foda, ele consegue correr uma maratona de boa, controlando o ritmo, suportando ali uma quantidade enorme de trabalho muscular, e ele consegue manter uma produção de energia relativamente estável durante bastante tempo.

Já o caso do Epaminondas, o Epaminondas é um cara foda também, só que de outro jeito. Ele vai lá, ele arregaça as mangas e ele consegue levantar 200, 300 kg do chão. É natural, tá, a gente pensar que o Chantecler provavelmente teria muita dificuldade para fazer aquilo que o Epaminondas faz, e vice-versa. Então eu te faço uma pergunta bastante simples: qual dos dois malucos tem um melhor condicionamento físico? Se você for uma pessoa minimamente entendida, você vai dizer que depende.

Só que ainda assim, depende do quê? Porque condicionamento físico é uma daquelas, é uma daquelas expressões que a gente usa ou ouve o tempo inteiro, principalmente quando a gente fala de exercício, de saúde, de esporte, treinamento no geral. Só que essa expressão, ela chega a parecer um pouco nebulosa quando a gente tenta definir para quem não é da área. A gente diz que uma pessoa está bem condicionada, que outra está sem condicionamento, que alguém melhorou o condicionamento, que determinado exercício melhora o condicionamento.

Só que aí eu volto para a pergunta do início: o que exatamente está sendo condicionado? É o coração? Será que é os músculos? Será que é os pulmões? O metabolismo? Será que é o cérebro? É o sistema nervoso como um todo? Ou seria a capacidade de produzir força? Seria a capacidade de resistir à fadiga? Ou será que a gente tá condicionando a capacidade de se recuperar? Ou ainda, será que é tudo isso junto? E talvez mais importante do que tudo isso é condicionado para fazer o quê?

Essa pergunta talvez mude completamente a tua compreensão do que é o condicionamento físico, porque no cotidiano condicionamento físico costuma funcionar quase como sinônimo de estar em forma. Só que estar em forma é uma expressão muito vaga. Você está falando de estar em forma para quê? Então você já percebeu que a pergunta do episódio levanta várias outras perguntas em torno dela, né? Não é tão simples assim como se pensava.

Como a gente viu no exemplo do início, uma pessoa pode ser uma excelente corredora e péssima levantadora de peso. Ela pode ser extremamente forte e ter uma baixa resistência aeróbica. Ela pode ter uma capacidade cardiorrespiratória excelente e pouca habilidade para controlar o próprio corpo numa tarefa que exige equilíbrio e coordenação. Ou ainda, pode ter uma grande potência muscular e pouquíssima flexibilidade. Então, você já deve ter percebido que não existe uma única coisa chamada condicionamento físico, que simplesmente aumenta ou diminui como se fosse o volume de água dentro de um recipiente.

Então, a essa altura, você já deve estar pensando que existem diferentes capacidades físicas, e essas capacidades, elas podem ser desenvolvidas em graus diferentes, certo? É por isso que a literatura sobre aptidão física normalmente trabalha com vários componentes. Então, a gente tem lá a aptidão cardiorrespiratória, a gente tem a força muscular, a resistência muscular, temos a composição corporal, flexibilidade e alguns componentes neuromotores, entre outros que podem entrar também.

Ou seja, aquilo que a gente chama informalmente de condicionamento físico, na verdade, é um conjunto de propriedades diferentes do organismo. Só que isso ainda não resolve a nossa pergunta do episódio, porque a gente ainda pode ficar pensando o seguinte: O que é uma capacidade física? E aqui vale diferenciar uma coisa que as pessoas confundem no senso comum: capacidade não é a mesma coisa do que desempenho. Capacidade não é a mesma coisa do que desempenho.

Imagina aí que eu diga que uma pessoa tem uma excelente capacidade aeróbica. Pergunta: isso significa que ela necessariamente vai ser uma excelente corredora? Não, né? Então é isso, o desempenho numa tarefa depende de várias coisas. Então, corredor do exemplo que eu acabei de mencionar, ele pode ter um VO2 máximo bem alto, só que o desempenho dele na corrida também depende da economia de movimento, depende de limiares fisiológicos, depende da biomecânica da corrida dele, né, o que engloba ali a técnica, Depende da estratégia que ele tá usando, depende da tolerância ao esforço, enfim, entram muitas variáveis aí que vão determinar o desempenho desse corredor.

Do mesmo jeito, duas pessoas podem produzir a mesma força máxima, só que apresentar desempenho completamente diferente numa tarefa que exige velocidade, coordenação ou potência. Ou seja, Necessariamente, capacidade e desempenho são coisas separadas e você não pode usar esses termos de forma intercambiável. Então, para ficar claro, capacidade é aquilo que o organismo consegue fazer em determinadas condições. O desempenho é aquilo que ele efetivamente faz numa tarefa concreta.

Pode até parecer uma diferença pequena, só que não é, tá? Porque uma pessoa Ela pode possuir uma determinada capacidade e não conseguir expressar essa capacidade plenamente numa determinada situação. E aí eu retorno uma das perguntas da minha provocação inicial: condicionado para o quê? Vamos imaginar um animal, tá? Imagina aí, vamos ver, imagina uma onça. Se eu te perguntar Essa onça, ela é fisicamente condicionada? Talvez você até dê uma risadinha porque a pergunta parece um pouco estranha, meio óbvia, né?

Só que e se eu perguntar uma coisa diferente? Vamos dizer que eu pergunte o seguinte: essa onça, ela tem características que permitem acelerar rapidamente para perseguir uma presa? Aí você vê que a pergunta ela faz muito mais sentido do que só perguntar que ela é fisicamente condicionada. E agora imagina uma tartaruga. A tartaruga não tem a mesma capacidade de aceleração que a onça tem. Só que isso significa que ela é mal condicionada?

Não necessariamente, não necessariamente, tá? Ela tem um conjunto diferente de características que é adequado a diferentes demandas. É claro, ela vive num ambiente diferente da onça, com demandas diferentes. E essa é a pista importante que eu gostaria que você pegasse. A capacidade física não existe completamente separada de uma tarefa e nem de um ambiente. Então, força é força para alguma coisa, resistência é resistência para alguma coisa, velocidade é velocidade para alguma coisa.

Então, de forma bem simples de entender, o condicionamento é sempre relacional. Não basta você perguntar quanto condicionamento essa pessoa tem, porque não adianta, fica muito vago. O que você tem que perguntar é: condicionamento para qual demanda? E aí, né, partindo para uma próxima camada dessa nossa conversa, o que que significa condicionar? Quando a gente diz que alguém tá se condicionando, a gente tá falando de um processo, tá?

A pessoa começa a correr, então no outro dia ela vai lá, ela corre, ela corre de novo, ela descansa, ela corre no outro dia de novo, descansa. E vai nesse processo. O que está acontecendo aqui? A carga de treinamento vai aumentando, vai acumulando, o organismo da pessoa vai sendo submetido repetidamente a uma determinada demanda, que é o quê? A corrida. E alguma coisinha vai mudando ao longo do tempo. Então, depois de semanas ou meses, aquela pessoa consegue correr uma distância que antes não conseguia, ou ela consegue correr aquela mesma distância com menor custo relativo, então veja o episódio anterior, Ela consegue correr numa maior duração, numa maior intensidade.

Ou seja, o organismo dessa pessoa se modificou. Mas como? Como que ela se modificou? Um dos paradoxos mais interessantes da fisiologia do exercício é que aquilo que produz adaptação frequentemente começa produzindo uma perturbação. Então, quando a gente treina, a gente aumenta a demanda sobre o nosso organismo, concorda? A frequência cardíaca sobe, a ventilação aumenta, o músculo consome mais ATP, a disponibilidade de substratos energéticos é alterada, a temperatura corporal sobe, enfim, acontece um monte de coisa.

E junto com tudo isso, a gente tem alteração mecânica nos tecidos, a gente tem alteração metabólica, a gente tem estresse celular e temos também a fadiga. Em outras palavras, durante o exercício, o organismo é colocado em uma situação na qual precisa trabalhar para preservar a sua função. E depois acontece aquilo que a gente já conhece, que é: quando a exposição é repetida e adequadamente dosada, o nosso organismo não simplesmente retorna para o estado anterior, ele pode se reorganizar e ficar melhor.

Então, o músculo pode aumentar a sua capacidade de produzir força e aumentar a sua capacidade oxidativa, O sistema cardiovascular pode ficar mais eficiente, a vascularização pode se adaptar, o nosso sistema nervoso, ele pode melhorar o recrutamento muscular e a coordenação, os tendões e os nossos ossos podem se modelar, até mesmo a percepção e a tolerância ao esforço podem mudar. Isso tudo está intimamente ligado a um conceito da educação física que é o da supercompensação.

Em vista disso, a gente pode pensar numa sequência: Então, vamos lá. Temos uma demanda que inflige perturbação ao nosso organismo, ao passo que o nosso organismo cria uma resposta. Posteriormente, ele passa por uma recuperação, que, ao final do processo, resulta em uma adaptação. E essa adaptação altera a capacidade futura do organismo. É aí que a gente começa a realmente entender o significado de condicionamento. Só que como o corpo sabe que ele precisa mudar?

Você acha que o músculo sabe que precisa ficar mais forte? Você acha que o coração decide que ele precisa aumentar sua capacidade? Você acha que o organismo olha para a sessão de treinamento, ele pensa o seguinte: porra, na próxima, na próxima semana seria interessante produzir mais mitocôndrias? É claro que não, né? Pelo amor da Santa Paçoquita, porra! O que rola é que a gente tem mecanismos físicos, químicos, celulares e neurais.

Então, uma carga mecânica produz deformações no tecido, essas deformações vão ser detectadas por sistemas celulares, e aí os sinais mecânicos vão ser convertidos em sinais bioquímicos, e no meio desse balaio todo, algumas moléculas sinalizadoras vão modificar a atividade celular. Nisso a expressão de determinados genes pode mudar. Então, a gente pode ter aí a síntese de proteínas, ela pode aumentar ou diminuir, as estruturas celulares podem ser remodeladas, e ao longo do tempo, todas essas alterações microscópicas podem produzir uma mudança macroscópica, uma nova capacidade funcional.

É isso o que a gente chama de adaptação. No músculo, por exemplo, uma parte da adaptação envolve mecanotransdução e alterações na sinalização relacionada ao crescimento e a remodelação muscular. No exercício de endurance, né, de resistência, alterações de metabolismo oxidativo na biogênese mitocondrial vão participar da ampliação da capacidade de sustentar um trabalho aeróbio. No sistema nervoso, o treinamento pode modificar a sua coordenação, o recrutamento motor e a aprendizagem motora.

Nos ossos, as cargas mecânicas vão participar do processo de remodelação óssea. Ou seja, o condicionamento físico não é uma entidade localizada em algum lugar específico do corpo. Ele é uma propriedade que emerge da transformação coordenada de múltiplos sistemas. E uma coisa que eu acho importante colocar aqui na conversa sobre o que eu falei antes, né, do que de que depois de semanas ou meses de treinamento a gente tem aquelas mudanças na resposta do corpo, é que tem uma diferença fundamental aqui, tá?

Resposta aguda não é adaptação crônica, tá? Guarda isso, porque o seu coração acelerar durante uma corrida não significa que você melhorou o seu condicionamento. Isso aí é uma resposta aguda ao exercício. Então, se depois de meses de treinamento você consegue realizar a mesma corrida uma determinada carga de trabalho a uma frequência cardíaca menor, ou se você consegue sustentar uma intensidade maior antes de atingir determinados limites fisiológicos, aí a gente pode estar falando de uma adaptação.

Então essa diferença é importante, tá? O exercício ele produz respostas agudas, o treinamento ele produz estímulos repetidos, e eles podem levar à adaptação, que vão alterar capacidades. Então, condicionamento, ele é uma consequência adaptativa de determinadas exposições ao exercício e outras demandas físicas. Mas vem cá, já que a gente tá nessa viagem, eu vou lançar uma outra pergunta para complementar a nossa discussão: condicionamento físico é a mesma coisa do que saúde?

E também não, tá? Saúde é um conceito muito mais amplo. Uma pessoa pode apresentar um excelente condicionamento cardiorrespiratório e ainda possuir uma doença. Um atleta pode ter uma lesão, uma pessoa sedentária pode não apresentar nenhuma doença diagnosticada. Portanto, a aptidão física e a saúde estão relacionadas, só que elas não são a mesma coisa. Entretanto, a relação entre elas é extremamente importante, especialmente a nível populacional.

Então, populações com níveis maiores de aptidão cardiorrespiratória, por exemplo, apresentam associações importantes com menor risco de diversos desfechos adversos de saúde. Isso fez com que determinados componentes da aptidão física fossem incorporados à própria discussão de saúde pública. Mas aí a gente também precisa resistir à tentação de transformar a palavra de fitness em sinônimo de saúde, porque o corpo ele não existe para ganhar medalhas E nem toda adaptação que melhora o desempenho necessariamente representa o maior benefício para a saúde.

E o inverso também pode acontecer: uma adaptação pode melhorar uma capacidade funcional sem produzir uma mudança evidente numa determinada métrica de desempenho. Então, retomando o que eu falei mais no começo, a gente tá lidando com um sistema multidimensional, tá? Tradicionalmente, os modelos de aptidão física, eles trabalham com componentes como aptidão cardiorrespiratória, força muscular, resistência muscular, flexibilidade, composição corporal.

Isso tudo já falei antes. Só que quando a gente amplia a discussão para desempenho e capacidade funcional, entram também potência, velocidade, agilidade, equilíbrio, coordenação e habilidade motora. E aqui aparece um problema que é metodológico. Se existem várias dimensões, como pode alguém chegar e falar tipo assim: cara, o João, ele é mais condicionado do que o Pedro? E aí, de novo, você tem que perguntar: ele é mais condicionado em qual dimensão?

Se o João possui maior VO2 máximo, mas o Pedro tem maior força máxima, não tem uma resposta única sem definir previamente o critério. É parecido com perguntar quem é mais inteligente. Inteligente em quê? Memória? Em raciocínio espacial? Em linguagem? Velocidade de processamento? Resolução de problemas? Isso não significa que inteligência seja uma palavra sem significado, muito longe disso, tá? Significa que a gente precisa definir primeiro qual dimensão a gente tá tentando medir.

O mesmo acontece com condicionamento físico. Então, com o passar do tempo, Conforme a humanidade foi se aprimorando e aprimorando a tecnologia, o conhecimento, a gente passou de descrições qualitativas, como dizer que fulano é forte, fraco, resistente ou cansado, para variáveis quantitativas. Então, hoje em dia, a gente consegue medir o consumo de oxigênio, de frequência cardíaca, consegue medir a potência, força, velocidade, conseguimos medir o tempo de execução, o trabalho mecânico, a ventilação, a produção de lactato e a própria composição corporal.

Isso tudo transforma o condicionamento em algo operacionalizável. Só que aqui, de novo, a gente precisa tomar cuidado para não cair numa armadilha. Uma medida não é a coisa que ela mede. Então, vamos traduzir isso aqui: o VO2 máximo, ele não é o condicionamento físico. Ele é uma medida de um determinado componente da aptidão cardiorrespiratória. A força máxima não é o condicionamento físico. Ela é uma medida de uma determinada capacidade neuromuscular.

Da mesma forma, um teste de corrida não é o condicionamento físico. Ela é uma maneira de avaliar o desempenho em uma tarefa específica. E essa diferença, ela é uma diferença epistemológica. Quando a gente mede o VO2 máximo, a gente tá fazendo uma inferência. A gente não tá colocando uma régua no condicionamento, a gente tá medindo uma variável fisiológica e a gente usa essa informação para inferir uma determinada capacidade. Então, quando a gente faz um teste de força, a gente mede uma produção de força sob condições específicas.

Quando a gente faz um teste funcional, a gente observa o desempenho de uma pessoa, de uma pessoa numa determinada tarefa. Então cada teste ele vai iluminar uma parte diferente do fenômeno. Nenhum deles necessariamente captura o fenômeno inteiro. E isso explica porque não existe um único teste que é capaz de responder perfeitamente qual é o seu condicionamento físico. E aqui a gente pode voltar lá naquele exemplo inicial. Você tem lá o Chantecler, que consegue correr uma maratona, e você tem lá o Epaminondas, que levanta 200, 300 kg do chão.

Quem tem o melhor condicionamento? Então agora a gente sabe que a pergunta tá incompleta. A gente tem que perguntar o quê? Condicionamento para o quê? Então se a tarefa for correr por horas, provavelmente o Chanteclec tá mais condicionado. Se a tarefa for produzir força máxima, provavelmente o Epaminondas. Se a tarefa foi atravessar um percurso cheio de obstáculos, talvez nenhum dos dois seja necessariamente melhor. E ainda, se a tarefa exigir carregar uma carga pesada durante várias horas num terreno irregular, a resposta pode mudar de novo.

Então, talvez o erro esteja em imaginar o condicionamento como uma espécie de quantidade geral de preparo físico. Imagine uma chave. Não tem uma chave que é eficiente em absoluto. Existe o que a gente tem, é uma chave eficiente para uma determinada fechadura. Um organismo, ele também tem capacidade que são adequadas ou inadequadas a determinadas demandas que ele enfrenta. Então existem propriedades fisiológicas objetivas: o VO2 máximo pode ser medido, a força pode ser medida, a potência pode ser medida, a velocidade pode ser medida.

Só que o significado funcional dessas propriedades depende do contexto. Então é a relação entre o organismo, a capacidade, a tarefa que ele tá tá enfrentando e o ambiente onde ele vai fazer aquela tarefa que vai determinar aquilo que a gente chama de desempenho físico. E o condicionamento, ele representa em grande medida a história adaptativa que produziu essas capacidades. Então, começando a caminhar para o final do episódio, tem uma camada ainda mais profunda: a evolução.

Até aqui a gente falou de adaptação durante a vida, só que existe um outro tipo de adaptação. Um organismo individual, pode se modificar durante a sua vida em resposta ao treinamento, só que uma população ela pode mudar ao longo de muitas gerações em resposta à seleção natural. São dois processos diferentes. Quando uma pessoa desenvolve hipertrofia muscular depois de meses de treinamento, isso aí é uma adaptação individual. Agora, quando uma característica anatômica se torna mais frequente numa população ao longo de gerações porque oferece uma vantagem reprodutiva, Aí a gente está diante de evolução.

E isso permite a gente perguntar o seguinte: por que o ser humano possui as capacidades físicas que ele possui? Por que a gente consegue caminhar longas distâncias? Por que a gente consegue correr? Por que a gente consegue dissipar calor pelo suor? Por que as nossas mãos são tão habilidosas? Por que a gente tem um determinado arranjo, uma determinada configuração musculoesquelética? Por que que a gente consegue produzir força e potência, só que a gente não é particularmente mais forte ou mais rápido em comparação com vários outros animais?

Então você tá vendo que tem muitas perguntas interessantes que rodeiam esse assunto, e essas perguntas elas pertencem à antropologia evolutiva, a biologia evolutiva e a biomecânica comparada, e elas mostram que o nosso condicionamento atual Ele é construído sobre uma história muito mais antiga. Talvez eu anime aqui de montar essas respostas em outros episódios. Aqui não, porque senão vai ficar muito, vai ficar um episódio muito longo.

Mas perceba que a gente tem ali uma ironiazinha, tá? O corpo humano que evoluiu em ambientes nos quais o movimento era frequentemente necessário, ele vive hoje em ambientes nos quais o movimento pode ser opcional. Isso não significa que o corpo tenha sido projetado para academia, nem significa que todo exercício moderno reproduza uma suposta atividade ancestral ideal. Significa apenas que existe uma diferença entre as demandas às quais o nosso organismo pode ser exposto e as demandas às quais ele é efetivamente exposto.

E o treinamento físico, ele é uma maneira deliberada de criar determinadas demandas. Nós fabricamos estímulos que produzem adaptações que consideramos desejáveis. Em outras palavras, academia, né, ou a rua, sei lá, um parque, ele é de certa maneira um laboratório artificial de demandas físicas. Você pode produzir uma sobrecarga que raramente você encontraria espontaneamente no cotidiano. Você pode controlar volume, intensidade, intervalo, a frequência, progressão.

E você pode observar sua resposta. Isso aí é uma característica moderna do nosso treinamento físico. Então, finalmente, para encerrar o episódio, vamos responder à pergunta: então, o que exatamente significa condicionamento físico? Depois de tudo isso, de toda essa conversa, eu vou propor aqui uma definição provisória. Condicionamento físico é o estado funcional resultante das adaptações de múltiplos sistemas do organismo que determina sua capacidade de produzir, sustentar, controlar e se recuperar de determinadas demandas físicas.

Essa definição tem algumas expressões importantes para a gente destacar aqui, tá? A primeira é estado, porque a gente está descrevendo uma condição atual. A segunda é funcional, porque importa o que o organismo consegue fazer. A terceira é adaptações, porque esse estado é o resultado de uma história de exposição e resposta. Múltiplos sistemas também é uma outra expressão que a gente tem que destacar, porque não existe um único órgão responsável pelo condicionamento.

E por último, a expressão de determinadas demandas físicas, porque lembramos, não existe condicionamento completamente separado daquilo que a gente está pedindo ao nosso organismo. Então fique com a reflexão de que estar condicionado não é um estado final. Quando a gente fala que fulano tá bem condicionado, às vezes para algumas pessoas pode estar parecendo que a gente tá descrevendo uma propriedade permanente daquele indivíduo, tá?

Mas não é. O condicionamento, ele é histórico. O organismo, ele carrega as marcas daquilo que, daquilo que ele fez. Então, se o estímulo muda, as adaptações podem mudar. Se a gente deixa de treinar, determinadas capacidades diminuem. Se a gente treina outra capacidade, outras adaptações aparecem. Se a gente envelhece, outras capacidades mudam. Se a gente adoece, elas mudam de novo. Se a gente muda de ambiente, as demandas mudam.

Portanto, depois de tudo isso, eu acho que é mais correto imaginar o condicionamento físico não como uma quantidade de alguma capacidade armazenada no corpo, mas como uma espécie de estado dinâmico produzido pela relação entre o organismo e a sua história de demandas. Isso explica por que o exercício pode melhorar o condicionamento, explica por que diferentes treinamentos produzem, na verdade, né, diferentes adaptações. Ele explica por que um corredor e um levantador de peso podem ser extremamente condicionados de maneira diferente, explica por que saúde e condicionamento não são sinônimos, explica também por que desempenho e capacidade não são sinônimos.

E finalmente explica também porque medir o VO2 máximo não significa medir o condicionamento inteiro. E na verdade também explica porque a história do condicionamento físico começa muito antes da academia. Porque muito antes de alguém inventar uma esteira, uma barra ou um relógio esportivo, já tinha uma pergunta rodando na cabeça da humanidade: o que que o meu corpo consegue fazer? E o que que eu preciso fazer para conseguir mais?

E talvez essa seja a verdadeira origem do treinamento físico, o momento em que o ser humano percebeu que o corpo de amanhã poderia ser diferente do corpo de hoje em função daquilo que a gente faz com ele hoje. E a partir dessa percepção, uma cadeia inteira se tornou possível: os estudos sobre as demandas, o esforço, a perturbação, a recuperação, a adaptação às capacidades e o desempenho. E finalmente, aquilo que a gente hoje chama de condicionamento físico.

Então, a pergunta que deve ser feita, só relembrando, é: o indivíduo, ele tá condicionado para quê? Porque a resposta a essa pergunta obriga a gente a olhar para o organismo não como uma máquina que simplesmente possui mais ou menos forma física, mas sim como um sistema vivo que está continuamente sendo moldado pela relação entre aquilo que ele é, aquilo que ele faz e aquilo que o ambiente exige dele. E talvez essa seja exatamente a definição do que é estar condicionado.

Não é estar preparado para tudo, mas ter se tornado, através da própria história, mais capaz de lidar com determinadas coisas. E você já sabe, se você quiser um plano alimentar personalizado para você, sem firula e sem complicação, ou um planejamento de treino personalizado, manda mensagem lá no Instagram @profbaeta ou entre no site www.lucabaeta.com Obrigado pela audiência e se você gostou, compartilhe esse episódio nas suas redes sociais. Isso vai me ajudar bastante. Valeu, até o próximo episódio!

Anunciantes1

Luca Baeta

Consulta, Planejamento de treino e plano alimentar
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