Episódios de Fala, Baêta

#25 - O movimento existe para deslocar o corpo ou para informar o cérebro?

23 de setembro de 202633min
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Neste episódio discutimos sobre o papel do movimento. Ele existe para ir de um ponto A a um ponto B? Ele acontece para trazer informações pro nosso cérebro? Será que tudo junto? Vem descobrir!

Refs.:

DALL’ORSO, S. et al. Cortical processing of multimodal sensory learning in human neonates. Cerebral Cortex, 2021.

JOHNSON, J. F. et al. The role of the cerebellum in adaptation: ALE meta-analyses on sensory feedback error. Human Brain Mapping, 2019.

KIM, L. H. et al. Cerebellar functions beyond movement and learning. Annual Review of Neuroscience, 2024.

KULLEN, K. E. et al. Internal models of self-motion: neural computations by the vestibular cerebellum. Trends in Neur

LAGEMAN, J.; FAHRENFORT, J. J.; SLAGTER, H. A. Prediction in action: toward an empirical science of active inference. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2026.

NAGAI, Y. Predictive learning: its key role in early cognitive development. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 2019.

NGUYEN, K. P. et al. Cerebellar circuit computations for predictive motor control. Nature Reviews Neuroscience, 2025.

SOKOLOV, A. A. et al. The cerebellum: adaptive prediction for movement and cognition. Trends in Cognitive Sciences, 2017.

TUTHILL, J. C.; AZIM, E. Proprioception. Current Biology, 2018.

WOLPERT, D. M.; GHANDI, V.; FLANAGAN, J. R. Perspectives and problems in motor learning. Trends in Cognitive Sciences, 2011.

Se deseja marcar uma consulta, mande mensagem no email profbaeta@gmail.com ou entre no site www.lucabaeta.com.br ou ainda, se preferir, mande mensagem no instagram @profbaeta

Participantes neste episódio1
L

Luca Baêta

Host
Assuntos6
  • O movimento como ferramenta para deslocar o corpo e informar o cérebromovimento para ir de um ponto A a B·movimento para trazer informações ao cérebro·movimento como processo de descoberta
  • O movimento como um ciclo contínuo de ação, percepção e aprendizagemfinalidade imediata do comportamento·função adaptativa e intenção consciente·Active Sensing e criação de condições para informações relevantes
  • A complexidade do movimento e a aquisição de informações sensoriaismúsculos, tendões e articulações como fontes de informação·sistema vestibular e visão na produção de informações·propriocepção como estimativa contínua do corpo
  • O papel do cerebelo e dos modelos internos na previsão motoraprevisões sobre as consequências da ação·cerebelo nos mecanismos preditivos·movimento como teste das previsões do sistema nervoso
  • Affordances e a expansão do mundo comportamental através do movimentopossibilidades de ação oferecidas pelo ambiente·dependência da affordance em relação ao organismo·desenvolvimento motor e novas interações com o mundo
  • A relação entre percepção e ação na experiência corporalexperiência motora modifica a percepção·conhecimento corporal difícil de verbalizar·corpo e ambiente como sistema fisicamente acoplado
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LBLuca Baêta

O movimento existe para deslocar o corpo ou para informar o cérebro? Fala, galera! Bem-vindos ao meu podcast. Eu sou Luca Baeta e hoje vamos pensar sobre uma pergunta que não é lá tão cotidiana, porque eu duvido que haja muita gente se debatendo psicologicamente pensando sobre ela, mas ela abre uns caminhos interessantes para nossa bagagem de conhecimento. Nós nos movemos e, ao nos mover, sentimos. Nós sentimos e, a partir disso, modificamos o próximo movimento.

Então, será que a pergunta do episódio é uma falsa escolha? Será que o movimento não é simplesmente uma coisa que o cérebro manda o corpo fazer? Será que o movimento é parte do próprio processo pelo qual um organismo descobre o que o seu corpo é capaz de fazer e o que o ambiente permite que ele faça? E aqui a gente vai passar por 4 perguntas diferentes para olhar para um fenômeno que a neurociência, a fisiologia, a psicologia do desenvolvimento e a ciência do movimento investigam de maneiras diferentes.

E talvez no final do episódio a pergunta inicial, talvez ela não vai fazer mais tanto sentido. Mas antes da gente entrar na pauta, aqueles recados iniciais. Primeiramente, muito obrigado pela sua audiência, Eu preciso de um minutinho seu para ir lá no seu agregador de podcast favorito e colocar para seguir, fazer um comentário no episódio e avaliar o podcast para me ajudar a aparecer para mais gente. Você pode também indicar esse ou outro episódio para alguém que você acha que pode se interessar pelo tema.

E por último, você pode participar enviando dúvidas. É só enviar a sua pergunta para o email profibaeta@gmail.com ou pelo Instagram @profbaeta. Bora lá então! Como é de costume, vamos situar a conversa começando com um exemplo para criar uma imagem na sua cabeça enquanto a gente pensa na explicação. Imagina duas situações. Na primeira, Você está simplesmente precisando atravessar uma sala. Então, você olha para a porta, calcula ali meio que inconscientemente a distância, dá alguns passos e chega até ela, de boa.

Então, nesse cenário aqui, parece que o seu movimento cumpriu uma função bastante simples aqui, que é tirar o seu corpo de um lugar e colocar ele em outro lugar. Agora, pega uma segunda situação em que você está diante de uma superfície que você nunca viu antes. Então você não sabe exatamente se ela é escorregadia, se ela aguenta o teu peso, se ela é inclinada demais para subir. Se for um muro, por exemplo, se aquele muro ele permite um apoio confortável, ou de repente se for um vão, será que esse vão ele pode ser atravessado por um salto?

Então, se você é minimamente ativo, você chega lá, você estende o pé, você vai, fica ali tocando a superfície, retirando o peso em seguida. Depois você coloca o peso um pouquinho, né, inclina o corpo, bem naquela de observar ali o que que vai acontecer, né? E aí você vai nessa tentativa e erro ali. Nesse segundo caso, tem uma segunda coisa diferente acontecendo. Você não tá só usando o movimento para chegar em algum lugar. Em última instância, você tá usando o movimento para descobrir alguma coisa sobre o mundo.

E é nesse cenário, com duas situações diferentes, que aparece a pergunta: O movimento, ele existe para deslocar o corpo ou para informar o cérebro? E antes de mais nada, é claro que a gente se movimenta para mudar nossa posição, para alcançar o objeto, para fugir, para correr, até para caminhar. Só que cada vez que a gente se move, os nossos músculos, nossos tendões, nossas articulações, a pele e até o sistema vestibular e a visão produzem novas informações também.

E para a gente começar a responder tudo, vamos por partes. Eu acho que a gente vai precisar buscar insumos nas áreas da psicologia, da educação física, da fisiologia e até da neurociência para poder desenvolver um raciocínio legal aqui. Então vamos tentar. Então, do que que é feito o movimento? Quando a gente pensa em movimento, normalmente a gente pensa em músculo, né? Então você tem aquela sequência básica lá: o músculo contrai, O osso que está ligado a ele vai se mover e a articulação que está ali no meio vai mudar de posição.

Já acabou, né? Essa é a sequência básica que a galera tem em mente. Só que não é tão simples assim, porque tem um detalhe: porque o aparelho que produz movimento também é um aparelho extremamente sofisticado de aquisição de informação. E a gente vai precisar resgatar alguns conceitos lá do ensino médio lá das aulas de biologia para lembrar algumas coisas. Que, por exemplo, dentro dos músculos a gente tem algumas estruturas ali que são chamadas fusos musculares.

E a gente tem também, dentro dos nossos tendões, a gente tem os órgãos tendinosos de Golgi. A gente tem receptores mecânicos na nossa pele. E o nosso sistema vestibular também, ele informa sobre a aceleração e orientação da nossa própria cabeça. E a nossa visão, por exemplo, ela informa sobre o deslocamento do nosso próprio corpo em relação ao ambiente. Então, se você pegar todas essas informações que você aprendeu lá na biologia do ensino médio, você vai lembrar que todas essas informações, elas chegam ao sistema nervoso em diferentes formatos, em diferentes velocidades e diferentes níveis de processamento.

Ou seja, O mesmo corpo que produz movimento também produz, durante esse movimento, uma quantidade considerável de informação sobre aquilo que está acontecendo ali. Isso te lembra alguma coisa? Talvez. Vamos lembrar. Talvez você já tenha ouvido por aí a palavra propriocepção. E é comum a gente ver pessoas por aí definindo propriocepção como a capacidade de saber onde o corpo está. Mas vamos lá, muita calma nessa hora, porque essa definição ela pode dar também uma impressão um pouquinho enganosa, principalmente para quem não é da área, tá?

Porque essa impressão, se você não elaborar muito, você pode acabar pensando que é como se fosse uma— como se a gente tivesse uma câmera interna dentro do nosso corpo fotografando ali as coisas e enviando para o cérebro uma imagem pronta falando tipo assim: Ah, o joelho está aqui, cotovelo está ali, tornozelo está nessa posição, o joelho está em tantos graus. Não é assim não, tá? Se você ouviu os episódios anteriores, você lembra do que eu falei sobre alostase.

O nosso sistema nervoso precisa estimar continuamente o estado do nosso corpo a partir de quê? De múltiplos sinais. E que sinais são esses? Ele estima o comprimento e a velocidade de mudança dos músculos, Ele estima a tensão produzida por eles, o contato da pele, a posição dos segmentos corporais, a informação vestibular, informação visual e até aqueles sinais relacionados ao próprio comando motor. Então, a própria ocepção, ela é uma das fontes dessa estimativa contínua.

Ela é integrada a sinais visuais, sinais vestibulares, táteis e as previsões motoras. E existe uma consequência importante nisso aqui, que é: quando você movimenta o corpo, você não está só mudando a posição do corpo, você está mudando os próprios sinais que permitem ao nosso sistema nervoso estimar essa posição. Então, vamos lá. Se você, por exemplo, flexiona o cotovelo, você muda o comprimento dos músculos, concorda? Você também muda a tensão das estruturas musculotendíneas, E se você colocar a mão ali, a mão pega, por exemplo, seu cotovelo direito.

Você colocar a mão esquerda na pele do cotovelo antes dele flexionar, você fazer o movimento de flexão mantendo a mão ali, você vai perceber que também muda o contato da pele, né? A pele estica. E aí muda também a posição da articulação, pode mudar a informação visual, né? Se seu braço sair ou entrar do seu campo de visão. E dependendo do movimento muda também a informação do sistema vestibular, você mudar o seu equilíbrio e tudo mais.

Então, até aqui, é interessante você notar que movimentar o corpo altera as condições nas quais o próprio corpo pode ser percebido. Aí eu te jogo uma pergunta para você começar a viajar. A gente sabe também, pelas aulas de biologia, que o feedback sensorial que a gente tem chega com algum atraso. Então, se a gente tem parte do feedback sensorial chegando com atraso, como que o seu próprio sistema controla movimentos rápidos e precisos?

E aí que a gente precisa ver como o movimento está organizado. Então, vamos para um outro exemplo. Imagina que você está querendo pegar uma xícara na mesa. Se o teu cérebro tivesse que esperar o braço se mexer, receber todas as informações sobre o movimento, descobrir onde a mão está, e só depois decidir o que fazer em seguida, o sistema seria muito lento. Então assim, o feedback sensorial tem vários pequenos atrasos, como a gente já falou, e o mundo continua acontecendo enquanto o sistema nervoso está ali processando informações.

Só que o controle motor não pode depender só de reagir ao que já aconteceu. Ele tem que, ele precisa, né, em alguma medida antecipar. Lembra da alostase? Lembra também dos modelos internos? Eu já falei um pouco sobre esses modelos internos, sobre intercepção, sobre alostase nos episódios passados. Só que a ideia, de forma bem resumida, é que o sistema nervoso ele pode construir previsões sobre a consequência de uma ação. Ou seja, se eu produzo determinado comando motor, determinadas consequências vão ser esperadas.

Então, se por exemplo eu levanto o braço, Eu espero que ele se mova de uma determinada maneira, eu espero sensações particulares, certas mudanças visuais, porque meu braço pode sair ou entrar do meu campo visual, eu espero uma determinada relação entre o meu corpo e o objeto que eu estou tentando alcançar, por exemplo, no caso da xícara. E tem uma estrutura do nosso cérebro chamada cerebelo, que participa de mecanismos fundamentais nesse processo preditivo.

Então, a gente pode imaginar Uma sequência mais ou menos assim: você tem o comando motor, seguido de uma previsão sobre a consequência desse comando motor, daí vem o movimento, que resulta numa consequência sensorial, que induz a uma comparação, identificação de algum erro e atualização, se for necessária. Percebe que o nosso cérebro não está ali só emitindo comandos para o corpo? Ele está também fazendo previsões sobre o que esses comandos vão produzir.

Percebe também que o movimento dá a oportunidade de confrontar essas previsões com a realidade? Pois é. Então, no exemplo que você está ali querendo pegar a xícara, imagina que você estende a mão esperando encontrar a xícara, só que ela estava um pouco mais longe do que você imaginava, e aí sua mão para antes, fechando ali no vazio. Ou seja, existe um erro ali, né? Na próxima tentativa, o seu movimento vai ser ajustado, então você vai jogar a mão um pouco mais para frente para alcançar essa xícara.

Agora, imagina isso acontecendo milhares de vezes ao longo da vida. Você pega objetos, você anda, corre, tropeça, salta, freia, muda de direção. Você aprende a andar de bicicleta, você aprende a nadar, você aprende a fazer um movimento esportivo. E o que você tem que perceber aqui é que o seu sistema não está ali só armazenando uma lista de movimentos, ele está aprendendo relações. Então, dado este corpo, nesta posição, nesta velocidade, com esta superfície, nesse contexto, Se eu fizer isso, provavelmente acontecerá aquilo.

É por isso que aprendizagem motora é muito mais do que simplesmente ficar bom em executar um movimento. Você, na verdade, está refinando previsões sobre as consequências da sua ação. Dito isso, o movimento pode funcionar como um teste das previsões do sistema nervoso. Mas calma lá, não significa que todo movimento seja conscientemente planejado como um experimento. Você tem, por exemplo, ali um reflexo ou uma contração postural.

Isso aí não é um experimento, por exemplo. Só que alguns movimentos, especialmente aqueles envolvidos em aprendizagem e exploração, eles permitem ao nosso próprio organismo testar as previsões sobre o corpo e o ambiente. E aí, nesse caso, o erro deixa de ser simplesmente que o movimento deu errado, E ele passa a ser também informação para o teu sistema nervoso. Isso aqui ajuda a explicar por que que a experiência física ela é tão importante para aprender, porque você não aprende só observando o mundo, tu aprende também pelas consequências de agir sobre ele.

Então pensa, por exemplo, lá na tua infância. Imagina um bebê que ainda não tá andando. Você sabe, né, que o mundo que a gente vive tem escada, tem superfície diferente, tem objetos, tem várias distâncias diferentes, alturas, tem vários obstáculos. Só que a relação de um bebê que ainda não anda, a relação de um bebê com esse mundo não é igual a relação que um adulto tem. Então, por exemplo, uma certa altura pode ser muito facilmente atravessada por um adulto, só que completamente inacessível para um bebê, né, que não tem equilíbrio, não tem força suficiente.

Então, por exemplo, uma superfície ela pode ser escalável para um adulto e não ser para outro. Um objeto pode estar ao alcance de uma criança e fora do alcance de outra. Isso leva a gente ao conceito de affordance, que é associado ao trabalho do psicólogo James Gibson. Uma affordance é, em termos bem simplificados, tá, uma affordance é uma possibilidade de ação oferecida pelo ambiente em relação ao organismo. Então, por exemplo, uma escada, ela pode oferecer subida.

Um muro pode oferecer apoio ou escalada. Uma superfície pode oferecer suporte. Só que a gente não tem uma lista universal de affordances, porque a possibilidade depende também do organismo que está diante dela. Então, vamos pegar aqui, por exemplo, uma parede com uma determinada altura. Ela não é simplesmente escalável por si só. Ela pode ser escalável para alguém que faz parkour e não ser nada escalável para outra pessoa que tem medo até de descer um degrau mais alto de uma escada.

E durante o desenvolvimento, quando uma criança aprende novas formas de locomoção, ela não está só começando a conseguir chegar em novos lugares, ela passa o quê? A experimentar o ambiente de uma forma diferente. Então, o mundo comportamental dela vai se expandir. Uma criança que começa a engatinhar, ela pode alcançar objetos que antes estavam completamente fora do alcance dela. Ela pode se aproximar de algumas coisas, pode se afastar de algumas coisas, ela pode começar a investigar as diferentes superfícies, ela pode experimentar obstáculos que ela não tinha antes.

Então, ela pode descobrir relações entre o seu próprio corpo e o ambiente que eram impossíveis de explorar quando ela não sabia engatinhar. Então, de novo, o desenvolvimento motor Não se trata só de adquirir um repertório de movimentos. O desenvolvimento motor é também adquirir novas possibilidades de interação com o mundo. E é nesse ponto que a gente tem uma inversão aqui de pensamento que é um pouco interessante aí nas discussões que a gente vê na internet e na academia também.

Algumas pessoas dizem que primeiro o cérebro aprende como o mundo é para depois o corpo aprender a se mover nele. Mas pode ser que o corpo aprenda novas maneiras de agir e, por causa disso, o organismo passa a ter acesso a novas informações sobre o mundo. Então, a ação muda aquilo que pode ser percebido. Por exemplo, você não percebe: ah, é só uma distância. Não, você pode perceber sim: pô, é uma distância que eu consigo saltar.

Você não percebe: ah, é só uma parede. Você pode perceber, tipo assim, ah, é uma parede que eu consigo escalar. O que isso significa? A propriedade física do ambiente pode permanecer a mesma. O que muda é a tua relação entre essa propriedade e as capacidades que você tem. E aqui eu acho que eu não consigo trazer um exemplo melhor do que o parkour. Imagina alguém que nunca praticou parkour caminhando por uma praça. E vamos dizer que essa pessoa vê lá o muro, vê um banco, vê um corrimão, Ela vê um vão ali, vê uma escada.

Só que coloca do lado dessa pessoa alguém que tem anos de experiência em parkour. Essas duas pessoas, elas estão diante do mesmo ambiente, só que com certeza elas não estão percebendo o mesmo conjunto de possibilidades. O praticante, por exemplo, ele pode olhar para aquele muro lá na praça e imediatamente ele considerar: ah, pode ser um apoio, pode ter uma trajetória passando ali pelo muro, tem uma certa altura, tem uma zona de recepção, tem uma possibilidade de salto ali, possibilidade de passagem.

Ah, aquele muro ali, na distância dele, tem uma certa margem de erro, pode ser uma rota de escape, enfim. E no parkour a gente tem um nome para isso, que é a visão parkour, que não é uma visão mágica que a gente tem, é só que a experiência motora que a gente tem com a prática Modifica a relação entre percepção e ação. Ou seja, o ambiente passou a ser lido em termos de possibilidades corporais. De novo, o ambiente passou a ser lido em termos de possibilidades corporais.

Então, o praticante experiente não precisa calcular conscientemente cada variável. Ele não fica lá pensando: ai, o obstáculo tem 87 centímetros, a minha velocidade horizontal é x, a força de reação do solo vai ser y, e a minha uma trajetória parabólica, vai ter uma determinada configuração. Não, a gente não pensa assim, a gente simplesmente se movimenta. E durante o movimento, o sistema sensório-motor utiliza uma enorme quantidade de informação para ajustar a ação.

E é por isso que a experiência corporal pode produzir uma espécie de conhecimento que é muito difícil da gente colocar em palavras. Então assim, você às vezes você sabe fazer Mas talvez você não saiba explicar exatamente como sabe. Seu corpo aprendeu relações, e essas relações podem ser atualizadas a cada nova tentativa daquele movimento. Então, se a gente analisar pela causa eficiente, ou seja, aquilo que efetivamente produz a mudança, não dá para a gente simplesmente responder que é o cérebro que comanda essa coisa toda, porque no movimento real A gente tem uma cadeia causal que vai desde a atividade neural, que passa por medula, por motoneurônios, por músculo, por tendão, por osso, a tripulação da gravidade, o contato com o solo e a própria dinâmica do nosso corpo.

Então, quando você salta, os músculos produzem força, o corpo acelera, os pés encontram o chão, o chão exerce força sobre o corpo e essa força modifica a sua trajetória, ou seja, O ambiente, ele não é só um cenário ali no qual o movimento acontece, ele participa da dinâmica física do movimento. Então, seu corpo e o ambiente, eles formam, na verdade, o que a gente pode chamar de sistema fisicamente acoplado. E isso leva a gente à terceira causa, que é: o que que produz e o que que modifica o movimento?

Vamos pensar no salto de novo. Vamos lá, você decide saltar. Teu sistema nervoso começa organizando uma sequência de comandos. Aí seus músculos produzem forças, teu corpo começa a acelerar, você recebe informação visual sobre o obstáculo na sua frente, você recebe informação proprioceptiva sobre seus membros, você recebe informação vestibular sobre a orientação da sua própria cabeça. De repente, você pode perceber que a trajetória está ali, está um pouquinho diferente da que você esperava.

Então, a sua ação é ajustada. E aí acontece o contato com o solo e o seu corpo responde. Isso tudo é um processo contínuo. Não tem uma etapa que é claramente isolada, que você chama de movimento, e uma outra etapa que você chama de percepção. Na verdade, o seu sistema, ele tá continuamente agindo, sentindo, comparando e ajustando. É essa dinâmica que é importante quando existe aprendizagem, porque o movimento que você produz hoje modifica o movimento que vai ser possível produzir amanhã.

Uma criança que tenta andar, cai e tenta novamente, ela não tá só acumulando tentativa, ela tá acumulando experiências sensório-motoras. Um atleta que erra uma aterrissagem e ajusta a próxima tentativa não tá só corrigindo um erro, Ele está atualizando o seu sistema de controle. Então, um praticante de parkour que descobre que uma certa superfície é mais escorregadia do que parecia, ele não só aprendeu uma informação sobre aquela superfície, ele modificou o comportamento que vai ser adequado naquele contexto.

O que a gente está entendendo aqui até agora? Que a experiência reorganiza a relação entre o organismo e o ambiente. Só que assim, até agora a gente falou de como o movimento funciona. Agora a gente precisa perguntar para que que ele serve. E aí a gente entra na quarta causa, né? Para que que serve o movimento? Quando a gente pergunta para que serve, a gente tem ali uma tentação quase que imediata de imaginar que o organismo está perseguindo conscientemente uma finalidade.

Mas vamos lembrar que eu já falei em episódios anteriores que a finalidade biológica não é necessariamente uma intenção consciente. Então você tem um organismo que pode apresentar comportamentos funcionalmente organizados sem ter uma representação consciente da função que esses comportamentos desempenham. Então precisamos diferenciar pelo menos 3 coisas, 3 coisas antes de tudo. Primeiro, a finalidade imediata do comportamento.

O que que é a finalidade imediata? É você andar até a porta, alcançar uma fruta, manter o equilíbrio, evitar um obstáculo. Outra coisa é a função adaptativa. Então, a gente tem aí que, ao longo da evolução, as capacidades de se locomover, de explorar, de aprender, de prever consequências, de ajustar comportamentos, elas foram de alguma forma contribuindo para sobrevivência e reprodução. Isso é função adaptativa. E outra coisa é a intenção consciente.

Uma pessoa pode deliberadamente se mover para descobrir se uma superfície é estável ou não, só que o sistema nervoso também pode usar a informação produzida pelo movimento sem que a pessoa tenha qualquer consciência de que está realizando essa aquisição de informação. Essas três coisas: finalidade imediata, função adaptativa e intenção consciente, não são iguais. E é importante diferenciar isso aqui para a gente não cair numa espécie de antropomorfismo do cérebro, tá?

A gente não precisa imaginar que o cérebro quer obter informação, então manda o corpo se mexer. Às vezes, o seu organismo está simplesmente botando ali uma arquitetura sensório-motora que faz com que o movimento e a aquisição de informação estejam acoplados. Dito isso, explorar pode ser uma forma de aprender. Volta lá naquele exemplo do bebê. Na verdade, não. Imagina uma criança de um pouco mais de 2 anos diante de uma escada.

Essa criança vai olhar, vai se aproximar, talvez ela toque ali no primeiro degrauzinho, ela pode colocar o pé, de repente ela recua, ela pode tentar de outro jeito. Se for a primeira vez, pode rolar dela perder o equilíbrio e cair. Então, assim, vai levar umas tentativas até ela conseguir corrigir, não é? Se você já viu uma criança encontrando uma escada pela primeira vez, você já deve ter visto isso aí. O que é que tá acontecendo aqui?

A criança, ela não tá só tentando subir, ela tá descobrindo a relação entre o teu corpo e a escada. Então, assim, no nível comportamental, ela quer subir, só que no nível sensório-motor, cada tentativa produz informação sobre o que o corpo dela consegue fazer. E aí, no nível de aprendizagem, as consequências das tentativas vão modificar as ações futuras. E no nível ecológico, a experiência muda as affordâncias que ela consegue explorar.

Lembra de affordâncias que eu falei? Então esse é um ponto importante: o movimento, ele não precisa ter como finalidade exclusiva a aquisição de informação para que a informação seja fundamental para o movimento, tá? De novo, O movimento não precisa ter como finalidade exclusiva a aquisição de informação para que essa informação seja fundamental para o movimento. Na verdade, na maioria das vezes, tem uma relação que é meio que circular.

Então assim, eu me movimento porque eu quero realizar uma ação, e ao realizar a ação eu produzo informação. Essa informação que eu produzo modifica minha capacidade de realizar a próxima ação. Então, de novo, a ação produz informação e a informação reorganiza a ação. E aí existe um conceito chamado Active Sensing que ajuda a formalizar um pouquinho essa ideia. Em sistemas sensoriais ativos, o organismo não espera que as informações apareçam.

Ele pode alterar a sua própria posição ou ainda alterar os seus sensores para modificar aquilo que ele consegue detectar. Pensa nos seus olhos. Você não fica ali simplesmente olhando passivamente para as coisas, né? A gente move os olhos, não é não? A gente move a cabeça, a gente muda a posição do corpo, a gente aproxima, a gente afasta. Em cada caso, a ação modifica a informação disponível. Isso significa que, em certas circunstâncias, uma ação pode ser escolhida justamente porque essa ação produz uma observação mais útil para o seu corpo.

Por exemplo, você toca uma superfície porque você quer descobrir a textura dessa superfície. Você coloca parcialmente o peso porque você quer saber se ela suporta o seu corpo. Você aproxima o pé de uma borda porque você quer estimar a distância. Você testa a aderência de uma superfície antes de executar um movimento mais comprometedor. Ou seja, o teu organismo não está só respondendo ao mundo, ele está, em alguma medida, criando as condições para receber informações relevantes do mundo.

E aqui um pequeno parêntese: lembra que nem todo movimento é exploratório e nem toda ação procura informação, né? E a gente não deve transformar teorias como a teoria de Active Inference, que eu falei no episódio passado, numa explicação universal para todo comportamento, tá? As evidências que a gente tem do acumulado dessas áreas de estudo é mais segura quando a gente fala o seguinte: tem situações em que o movimento é utilizado para produzir informação sensorial Relevante para o controle e para aprendizagem.

Ponto. Então agora a gente pode voltar aí à pergunta inicial: afinal, o movimento ele existe para deslocar o corpo ou para informar o cérebro? Se você prestou atenção na explicação toda até agora, a resposta é: depende do nível em que a gente está perguntando. E tem pelo menos 5 níveis. Se a gente, se a gente tiver perguntando pela função imediata de um determinado movimento, ele pode existir para deslocar o corpo. Se a gente estiver perguntando pelo mecanismo de controle, talvez o movimento esteja ligado à produção e utilização de informação sensorial.

Se a gente estiver perguntando pela aprendizagem, os erros produzidos pelo movimento podem atualizar previsões e modificar comportamentos futuros. E num quarto nível, se a gente estiver perguntando pelo desenvolvimento, as novas capacidades motoras, elas abrem novas possibilidades de exploração do ambiente. E, finalmente, se a gente estiver perguntando pela função adaptativa, a gente pode pensar que se locomover e explorar ambientes pode ter permitido ao nosso organismo encontrar alimento, escapar de ameaças, encontrar parceiros e aprender quais ações são possíveis em diferentes contextos.

Então, não existe uma única resposta, porque talvez a própria pergunta esteja errada, porque ela apresenta o movimento e a informação como se fossem duas coisas separadas. Só que em organismos vivos, como nós, elas formam um circuito. Mover muda o que é sentido. O que é sentido muda o próximo movimento. O próximo movimento produz novas consequências. E essas consequências atualizam o nosso sistema. E o ciclo continua. Então, para concluir, para fixar bem a coisa na sua cabeça, no caso de um bebê aprendendo a andar, Ele não está só aprendendo a executar uma sequência de contrações musculares.

Ele está aprendendo quanto o corpo dela pesa, quanto ela precisa inclinar, quanto ela pode estender a perna, quanto ela consegue alcançar, o que uma superfície suporta, o que acontece quando ela perde o equilíbrio, qual distância ela consegue atravessar e qual velocidade ela consegue controlar. E quando ela aprende a se mover, Ela não tá só adquirindo um repertório motor novo, ela tá adquirindo um novo mundo de possibilidades.

Pensa agora em alguém começando a praticar parkour. No começo, o muro é só um muro. Depois de anos de prática, aquele muro pode se transformar perceptivamente numa coleção de possibilidades diferentes. O muro pode ser um apoio, pode ser um lugar para salto, pode ser um lugar para passagem, para escalada. Para recepção de impacto, para pegar impulso para um outro lugar, pode ser simplesmente um meio de uma trajetória. Então, o objeto físico não muda, o muro está ali, é o mesmo, só que a relação entre o muro e o seu corpo, ou praticante no caso, mudou.

Então, a gente pode colocar assim: a gente não aprende apenas movimento, a gente aprende também o que o mundo permite que os nossos movimentos façam. Então, talvez o movimento não seja simplesmente uma resposta do nosso organismo ao mundo. Ele pode ser uma das maneiras pelas quais o seu corpo descobre que mundo é esse e, principalmente, que mundo ele próprio é capaz de habitar. Porque uma criança que aprende a andar, ela não aprende só a mudar de lugar.

Um praticante de parkour, ele não aprende só atravessar obstáculos. Todos eles aprendem uma relação. Que relação é essa? Dado esse corpo, nesse ambiente, o que é possível fazer? E talvez seja justamente essa pergunta, repetida milhares de vezes ao longo da tua vida, sem que você precise formular essa pergunta conscientemente, que transforme o seu movimento em conhecimento. No fim, talvez se mover seja simultaneamente deslocar, sentir e aprender.

Não porque todo movimento tenha como finalidade informar o cérebro, mas porque em um organismo vivo agir e conhecer o mundo frequentemente são parte do mesmo processo. E você já sabe, se você quiser um plano alimentar personalizado para você sem firula, e sem complicação ou um planejamento de treino personalizado, manda mensagem lá no Instagram @profbaeta ou entre no site www.lucabaeta.com.br. Obrigado pela audiência e se você gostou, compartilhe esse episódio nas suas redes sociais. Isso vai me ajudar bastante. Valeu, até o próximo episódio!

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