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#22 - O que significa dizer que o organismo está tentando fazer algo? (Parte 2)

27 de agosto de 202623min
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Nesse episódio terminamos o raciocínio que começamos na parte 1, sobre o significado de dizer que o corpo "quer" reparar algo, o músculo "quer" crescer, entre outras afirmações didáticas.

Refs.:

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Participantes neste episódio1
L

Luca Baêta

Host
Assuntos6
  • A metáfora do organismo que 'quer' fazer algo e sua função didáticaMúsculo quer crescer·Consciência·Processos biológicos
  • A inteligência coletiva do corpo e o conceito de emergênciaRede de processamento de sinais·Organização global·Propriedade global
  • A teoria alostática da ocitocina e a adaptação ao contextoDaniel Quintana·Hormônio do amor·Adaptação·Agressividade protetiva
  • A informação como elemento central na nutrição, neurociência e sistemasSinal como informação·Redução de incerteza·Regulação de ação e estado·Leptina
  • A distinção entre afeto, emoção e sentimento na psicologiaValência·Impulso·Resposta biológica·Experiência subjetiva
  • A diferença entre representação e consciência na filosofia da menteExperiência subjetiva·Termostato·Interocepção
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LBLuca Baêta

O que significa dizer que o organismo está tentando fazer alguma coisa? Parte 2. Muito bem, eu espero que não tenha ficado difícil de entender a linha de raciocínio da primeira parte, porque ela é a base para a gente seguir a nossa resposta. Mas antes da gente retomar aquela conversa, aquelas mensagens iniciais rapidinho. Primeiramente, muito obrigado pela sua audiência. Eu preciso de um minutinho seu para ir lá no seu agregador de podcast favorito e colocar para seguir, fazer um comentário no episódio e avaliar o podcast para me ajudar a aparecer para mais gente.

Você pode também indicar esse ou outro episódio para alguém que você acha que pode se interessar pelo tema. E por último, Você pode participar enviando dúvidas. É só enviar a sua pergunta para o email profbaeta@gmail.com ou pelo Instagram @profbaeta. Bom, vamos lá, bora retomar. No episódio passado a gente falou de um monte de conceito, tipo falamos de homeostase, falamos de alostase, de interocepção e tal, né? E no finalzinho a gente parou falando sobre o conceito de precisão, onde eu dei o exemplo de duas pessoas subindo as escadas.

Uma delas estava interpretando tudo como sendo sinais esperados e a outra não. Falei também de quando você interpreta um sinal como sendo confiável, ele vai ter maior peso na atualização do seu próprio estado. E quando o sinal é interpretado como pouco confiável, você dá mais peso para as previsões que o teu corpo faz. E a gente terminou com a provocação que obriga a gente a dar um pequeno zoom na nossa conversa. E é isso que a gente vai fazer nessa parte 2 agora.

A gente vai descer do cérebro para o músculo, porque aí aquela metáfora que a gente vem usando, né, de que o organismo tenta fazer alguma coisa, vai ficar bem clara, bem mais clara. Então, seguinte: Na musculação, a gente fala às vezes que o músculo quer crescer, só que mecanisticamente o nosso músculo não quer nada, tá? O nosso músculo não tem consciência para querer alguma coisa. Ele só tá ali fazendo o quê? Detectando tensão mecânica, detectando dano, detectando sinais metabólicos, ativando cascatas intracelulares, alterando síntese e degradação proteica e remodelando a própria estrutura.

Isso tudo o músculo faz sem ter uma intenção psicológica por trás disso. Só que por que que essa metáfora que a gente usa, sabe, de que o organismo queira alguma coisa, por que que essa metáfora funciona tão bem, tá? É isso que a gente tá tentando responder nessa parte 2 aqui, tá bom? Enfim, essa metáfora ela tem funcionado porque ela faz uma compressão que é muito conveniente para quem tá explicando essas coisas. Ela pega essa metáfora, essa compressão que a gente faz por meio dessa metáfora, ela faz o que ela faz, o que ela pega um emaranhado de processos e dá um rótulo único, fácil de lembrar e de transmitir.

Então quando você diz também, por exemplo, que a gordura manda sinais, ou que o intestino conversa, você tá fazendo a mesmíssima compressão, só que numa escala mais sistêmica. E aí a gente tem que levar em consideração uma coisa que vai amarrar a nutrição, a neurociência e os sistemas, que é— que que é essa coisa? É a informação. E tem uma frase que eu gosto bastante, que ela fala o seguinte: um sinal vira informação para um sistema quando ele reduz a incerteza relevante e quando ele pode ser usado para regular ação e estado.

Então, de novo, um sinal para virar informação, ele precisa reduzir a incerteza e ele precisa ter possibilidade de ser usado para regular alguma ação ou algum estado. Então, quando eu falo, por exemplo, tem outros professores, outros divulgadores de ciências aí pela mídia podcast, pelo Instagram, pelo YouTube, Quando a gente fala que a leptina avisa o cérebro alguma coisa, a leptina não tem nenhuma intenção por trás disso. Ela está simplesmente fazendo o quê?

Entrando nos circuitos que alteram probabilidade de ação e ajuste fisiológico. Então, se o chá de cogumelo não bateu ainda na parte 1 e você está entendendo essa ideia toda direito, você começa a ver o organismo como uma rede de processamento de sinais. Então, por exemplo, você vê os genes e mecanismos moleculares como se fosse uma rede de restrições e possibilidades. Você vê os tecidos como se fossem módulos que implementam regras locais.

Você vê o sistema nervoso como uma coordenação multiescala. E você vê o sistema imune como um sistema de detecção e decisão sob incerteza. E aqui dá para a gente falar sobre a tal inteligência do corpo sem a necessidade de um eu biológico ali dentro mandando em tudo, tá? Essa inteligência coletiva do corpo é basicamente a conexão entre vias moleculares e comportamento sistêmico emergente. E a gente vai falar sobre o conceito de emergência daqui a pouco, tá?

Só que isso tudo vai ajudar a gente a limpar essa metáfora. Então, não é que o corpo quer, no sentido psicológico, de que tem uma consciência ali desejando alguma coisa. O corpo, na verdade, está se organizando no sentido sistêmico. Só que quando a gente fala que o corpo tá organizando, ainda dá uma vontade, dá um comichão ali, dá um formigamento ali, né, de colocar um organizador no meio dessa coisa, né. E eu falei no início do episódio, né, lá no comecinho da parte 1, que isso ia virar um chá de cogumelo, né.

Essa parte tem um potencial para isso. Então vamos falar do conceito chamado emergência. Se você parar para pensar numa cidade, por exemplo, você sabe, né, que uma cidade não tem um prefeito definindo cada semáforo em tempo real, né. Eu espero que você saiba disso. E até absurdo pensar nisso aí, mas sei lá, né, vai que alguém já pensou nisso. Mas não, o que que a gente tem ali acontecendo são regras locais, são feedbacks, são protocolos, são contingências que fazem todo o sistema da cidade fluir.

Então, com tudo isso, a gente vê a cidade tendo padrões globais. Então você tem lá o trânsito fluindo, você tem a distribuição de recursos, Você tem a organização dos bairros, dos fluxos. A mesma coisa rola no organismo. As células, elas seguem regras locais. Os órgãos, eles implementam programas funcionais. Os circuitos coordenam prioridade. E aí, o comportamento global que a gente observa do nosso corpo emerge disso tudo. Isso é a emergência.

A emergência é o quê? A propriedade global não está num único componente, está no todo. Então, por quê? Por que que você acha que o nosso cérebro, ele insiste em ver um agente onde não necessariamente tem? E aí tem uma resposta, tem um fundamento evolutivo. O nosso cérebro, ele é viciado em agência. Isso às vezes contamina a fisiologia, tá? Porque a nossa cognição, ela é calibrada para detectar intenção, não só em pessoas, mas em qualquer coisa.

E você quer ver um exemplo bem besta disso aqui? Se você vê um triângulo se movendo de um jeito meio esquisito na tela de um computador, é muito fácil você jurar que ele tá fugindo, que ele tá perseguindo alguma coisa, que ele tá provocando você. Isso aí tem um nome, isso aí é antropomorfização. Você tá humanizando aquele triângulo. Então, quando você vê o nosso corpo coordenando processos, você cai nessa mesma leitura que é muito automática, que é pensar que tem alguém tentando alguma coisa ali no meu corpo.

E isso torna a nossa aprendizagem, o nosso ensino, mais intuitivo. Só que, ao mesmo tempo, isso também cria uma confusão entre duas coisas, que é a descrição funcional e a intenção psicológica. E aí a gente chega num ponto que costuma, sei lá, explodir cabeças às vezes, né, que é a diferença entre representação e consciência. Então, bora lá! A filosofia da mente e a neurociência definem uma diferença muito básica entre a representação e a consciência.

A representação diz respeito a um estado ser sobre algo, ou seja, carregar algum conteúdo. E a consciência fenomenal é a experiência subjetiva de um fenômeno. Por exemplo, um termostato representa uma faixa-alvo de temperatura de modo rudimentar. Só que o termostato, ele por si só, ele não sente nada. Então, um organismo como o nosso, né, ele tem várias formas de representação corporal e ambiental. A saber, temos a interoceptiva, que a gente falou um pouquinho antes, a gente tem a exteroceptiva, temos a próprioceptiva.

E isso tudo pode acontecer sem ter uma consciência em muitas etapas. Só que isso a gente pode falar até no outro episódio com mais profundidade. Porque aí nesse tema realmente tem bastante coisa, a gente ficaria aqui horas falando. Mas assim, dá para a gente ter um mecanismo orientado por uma função e por um controle sem ter um eu ali dentro deliberando. Só que se você está realmente prestando atenção nessa conversa, se você está entendendo a explicação toda, provavelmente você vai perguntar: tá, mas e a emoção?

E o desejo? E a vontade? E eu entendo que as pessoas possam ter essa dúvida, porque emoção parece intenção pura. Só que, para esclarecer isso, a gente tem que falar primeiro sobre afeto. Uma parte do que a gente chama de vontade é, na verdade, afeto. O que é afeto? As pessoas ouvem essa palavra e pensam em carinho, em amor, em coisa fofinha, sabe? Em delicadeza. Mas não. Afeto, na verdade, é valência, é impulso. Na psicologia, afeto, emoção e sentimento são conceitos que são interligados, mas eles ocorrem em tempos e níveis de consciência diferentes.

E a principal diferença entre essas três coisas está na duração, na intensidade e no grau de consciência de cada relação, tá bom? Então vamos lá. O afeto, ele é a categoria mais ampla. O que que é o afeto? É a nossa capacidade biológica geral de sermos modificados por um estímulo. Então isso gera um afeto, né? Ele gera uma resposta imediata do nosso corpo que classifica alguma coisa como bom ou ruim. Então ele funciona mais ou menos como se fosse um pano de fundo instintivo.

Por exemplo, você sentir um leve desconforto físico imediato quando você entra no ambiente escuro e frio. Isso aí é afeto. A emoção, ela é uma resposta física e biológica transitória a um estímulo ambiental específico. Então a gente tem uma uma, como é que eu vou falar, uma reação involuntária e visível no corpo, tá? Então, a emoção é aquilo que altera os batimentos cardíacos, a respiração, a expressão facial e a postura para gerar uma ação rápida.

Por exemplo, o susto e o sobressalto que você tem no peito quando você escuta um estrondo repentino. E, por último, o sentimento é a experiência subjetiva e cognitiva da emoção. É quando a mente processa aquilo que o corpo sentiu, ou seja, é uma construção mental duradoura, mais profunda e menos intensa fisicamente do que a emoção. Então, o sentimento envolve reflexão, ele envolve memória, envolve cultura e envolve atribuição de significado àquela emoção que você vivenciou.

Então, por exemplo, o que seria um sentimento? Por exemplo, o amor de longo prazo para alguém, ou aquela sensação contínua de segurança no relacionamento. Isso tudo é sentimento. Eu quero trazer de volta aqui para o tema principal, que é a linguagem, porque a pergunta inicial não era como funciona, era o que significa dizer. Então vamos fechar o arco. Quando que é legítimo você falar como se tivesse intenção? Você pode usar aquela linguagem de intenção, né, que o corpo quer, o cérebro quer, se você tiver disposto a traduzir esse querer em 3 camadas.

Então você tem que ter a camada evolutiva ou funcional, que é basicamente por que isso pode ter sido selecionado ou mantido. Você tem a camada mecanística, que é quais são os sensores, sinais, circuitos, efeitos e tudo mais. E você tem a camada de controle, que é Qual variável está sendo mantida, prevista ou transformada? Então, resgatando uma coisa que a gente falou na primeira parte dessa discussão, sobre a homeostase ser, na verdade, uma persistência organizada, ou seja, não é sobre manter uma variável X estável o tempo todo.

Pensa na puberdade, pensa na adaptação ao treino, na gravidez, no próprio envelhecimento, ou então pensa também na cicatrização de feridas. Nada disso é voltar ao estado anterior, é mudar mantendo organização e autonomia do organismo ao longo da evolução, que é como certos sistemas se tornam mais capazes de se auto-organizar e se auto-regular em escalas maiores. Aí você começa a entender por que que a linguagem de agência aparece tão naturalmente, porque a autonomia parece aos nossos olhos agência, só que agência aqui não é que tem uma pessoa ali fazendo uma coisa, nesse contexto aqui do corpo que era alguma coisa, na verdade é uma competência distribuída entre as partes do todo.

Então, essa agência aí, ela pode existir em múltiplas escalas. Isso significa que a gente tem muitas partes do nosso organismo resolvendo problemas localmente, e a partir dessa resolução de problemas locais, a gente vê ali uma organização global. Então a gente vê várias partes funcionando juntas e olhando, tendo uma vista macro ali, parece que tem uma unidade, parece que tem uma agência, uma vontade ali por trás. Então, de novo, para você gravar isso aí na sua cabeça: a organização do ser vivo, ela aparece em camada de competência local e isso cria a ilusão de que tem um querer ali.

Imunitário. E aqui eu vou trazer a metáfora para o nosso cotidiano. Quando você diz que o meu corpo tá tentando sobreviver, essa metáfora ela pode ser um resumo de priorização de energia, de ajuste endócrino, de modulação de apetite, de economia de gasto, de alteração de humor, de motivação e de mudanças imunes. Tudo isso coordenado, muitas vezes sendo puramente preditivo, nem sempre sendo consciente. E você sabe, pelo que a gente já falou na primeira parte, tudo isso tem custos e trade-offs, tem trocas.

Isso aqui é muito mais descritivo do que dizer que o organismo age com preguiça. Só para dar um exemplo de como vontade e função podem se embaralhar, tem um pesquisador da área, que é um cara chamado Daniel Quintana, que ele propõe uma teoria alostática da ocitocina, por exemplo, em que ele conecta o humor à regulação e ajuste de estado em contexto, não é só amor e vínculo. Porque quando você observa o resultado final, que pode ser, por exemplo, mais confiança, mais vínculo, mais empatia, dá vontade de dizer que a ocitocina fez a pessoa querer conexão.

Só que ele diz que, na verdade, isso aí é confundir o efeito emergente com a finalidade psicológica. O que a ocitocina estaria fazendo em muitos cenários é mudar o estado do sistema para que certos comportamentos sociais ou não fiquem mais prováveis, porque eles ajudam o organismo a atravessar aquele contexto com menor custo e maior adaptação. Então, por exemplo, chamar a ocitocina de hormônio do amor é igual chamar adrenalina de hormônio da coragem.

Você tá dando intenção para um sistema que, na verdade, ele tá só regulando o corpo, tá só regulando o cérebro para escolher a resposta mais adaptativa para aquele contexto. Que às vezes pode ser aproximação, às vezes pode ser defesa. Pensa numa cena simples, que é quase clichê até. Tem lá uma mãe com um bebê chorando no meio da noite lá, e enfim, tem esse cenário aí. Se a gente tentar usar essa linguagem popular, essa cena pode ser lida como se fosse assim: ai, nesse momento a ocitocina sobe e a mãe quer cuidar, ela sente amor, ela se conecta.

Só que, na verdade, na teoria alostática, o foco não é fabricar amor. O foco é mudar o estado do sistema para lidar com uma demanda real e urgente. Então, o que acontece nesse caso? A ocitocina atua como mensageiro que coordena o corpo e o cérebro para viabilizar uma resposta adaptativa. Qual é essa resposta nesse contexto que a gente colocou aqui da manhã? Reduzir algumas barreiras ao cuidado, ajustar a reatividade ao estresse, aumentar a importância de pistas relevantes como o choro, o cheiro, o toque, e facilitar a aprendizagem rápida do que funciona para acalmar o bebê.

Então isso tudo acaba entrando como parte de um pacote de estabilidade através da mudança. Agora vamos, vamos para um outro exemplo. Troca o cenário. Você não tem mais uma noite segura em casa. Na verdade, você tem um contexto de ameaça. Você tem lá um ser humano num ambiente social de risco. Então, se eu estiver esperando que a ocitocina seja o hormônio do amor, eu vou cair no erro, porque às vezes a ocitocina parece aumentar a via de grupo, de defesa e até de agressividade protetiva.

Então, a teoria alostática resolve isso falando que o sistema não está tentando te deixar bonzinho ou amoroso, Ele está tentando te deixar adaptativo ao contexto. Então, em certos contextos, proteger cria sobrevivência. Então, o mesmo modulador que facilita a aproximação quando o ambiente é seguro pode facilitar a defesa quando o ambiente é ameaçador. Isso é interessante, não é? Então, assim, para concluir, quando você diz que a ocitocina fez a pessoa querer se conectar, você está misturando função biológica com intenção psicológica.

A ocitocina não cria um desejo como um agente. Ela muda probabilidades, ela muda o que fica saliente, muda como o sistema aprende e prevê, ela muda como o corpo responde, e o comportamento que emerge disso aí parece vontade, só que não é, tá? Então, vamos lembrar disso. Quando você diz que o organismo está tentando, você pode estar apontando para resiliência, para capacidade de adaptação, para mudança de organização ao longo do tempo.

E isso aí é uma forma muito mais madura de falar de saúde e doença do que falar tipo assim: ai, meu corpo me sabota, ou então: ai, meu metabolismo quebrou. Então vamos lá, finalmente eu acho que juntando tudo isso, todos esses conceitos, todos esses exemplos aí que a gente falou na parte 1 e na parte 2, a gente consegue responder aí o episódio, né? Então, o que que significa dizer que um organismo quer alguma coisa ou que ele tá tentando fazer alguma coisa?

Então, na melhor leitura, o que que a gente pode falar? Significa que ele é um sistema que mantém organização ao longo do tempo. Então, não são só variáveis isoladas, como uma propriedade central do organismo, e ele faz isso com uma regulação distribuída e frequentemente preditiva, que é aquela ideia da alostase. E ele faz isso tudo integrando os sinais do corpo e do ambiente. E para isso usa sinais como informação dentro de circuito de controle e inferência, que pode se transformar de forma organizada ao longo de fase da vida.

E não só voltar ao normal, como o senso comum acha que é, por exemplo, aquela homeostase. E em parte disso tudo Significa que o organismo produz experiência, afeto e sensação de self, mas sem que cada mecanismo precise ter uma mente individual ali. Então sim, o organismo tenta, entre aspas, se você entendesse tentar como controle, previsão, priorização e manutenção da organização, e não como uma pessoa interna ali com desejo. Ou seja, no fim das contas, o músculo não quer crescer.

A gordura não conversa, o intestino não negocia e o cérebro não economiza porque ele é preguiçoso. Na verdade, todos esses personagens aí, eles estão simplesmente participando de uma arquitetura distribuída moldada pela evolução e pela aprendizagem que produz comportamentos que parecem propósito aos nossos olhos. E talvez o mais interessante dessa conversa todinha que a gente teve na parte 1 e na parte 2 seja exatamente isso. Quando você ajusta essa linguagem, você não aprende só um conceito novo, você muda o jeito de enxergar o organismo.

Não é bonito? Pô, isso é muito foda, eu acho muito bonito. Então assim, ouve de novo, leia as referências se você quiser se aprofundar mais, tá ali na descrição do episódio. E se você tiver perguntas, manda também que eu tento responder aqui. E você já sabe, se você quiser um plano alimentar personalizado para você sem firula e sem complicação, ou um planejamento de treino personalizado, manda mensagem no Instagram @profbaeta ou entra no site www.lucabaeta.com.br.

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