#17 - Como uma caloria pode NÃO ser igual a outra sem violar a Física?
Neste episódio investigativo, falamos sobre como a discussão de que uma caloria não é igual a outra, sem violar as leis da Física e da termodinâmica.
Refs.:
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WIERDSMA, N. J.; PETERS, J. H. C.; VAN BOKHORST-DE VAN DER SCHUEREN, M. A. E.; MULDER, C. J. J.; METGOD, I.; VAN BODEGRAVEN, A. A. Bomb calorimetry, the gold standard for assessment of intestinal absorption capacity: normative values in healthy ambulant adults. Journal of Human Nutrition and Dietetics, Oxford, v. 27, supl. 2, p. 57–64, 2014. DOI: 10.1111/jhn.12113.
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- Caloria: Física vs. BiologiaUnidade de medida de energia · Bomba calorimétrica · Limitações da bomba calorimétrica · Termodinâmica
- Equilíbrio AlimentarDiferença entre combustão e digestão · Absorção de fibras vs. glicose · Custo energético do metabolismo de proteínas, carboidratos e gorduras · Efeito térmico dos alimentos
- Controle de Peso e SaúdeHormônios da saciedade (GLP-1, PYY, CCK, leptina, insulina) · Papel do cérebro como centro de controle · Saciedade antecipatória
- Microbioma intestinal e constipaçãoFermentação de fibras · Produção de ácidos graxos de cadeia curta · Influência no apetite e saúde intestinal · Variabilidade individual da microbiota
- A Morte e a Transição de EnergiaTermogênese de atividades não relacionadas ao exercício · Sobrevivência e escassez evolutiva · Adaptação do cérebro a ambientes modernos
Como uma caloria pode não ser igual a outra sem violar a física? Fala, galera! Bem-vindo de volta aqui ao meu podcast. Depois de um tempinho sem publicar nada, a gente vai retomar. Então, para você que não me conhece ainda, eu sou o Luca Baeta. Antes da gente entrar aqui na pauta principal, eu quero dar alguns pequenos recados iniciais, tá bom? O primeiro é: muito obrigado aí pela sua audiência. Eu preciso só de um minutinho teu aí para ir lá no teu agregador de podcast e colocar para seguir, fazer algum comentário no episódio aí e avaliar o podcast também para me ajudar a aparecer para mais gente.
E você também pode indicar esse ou outro episódio para alguém que você acha que pode se interessar pelo tema. E por último, você também pode participar enviando dúvidas. É só você colocar a tua pergunta lá no meu email profbaeta@gmail.com ou pelo Instagram @profbaeta. Então vamos lá, a pergunta principal aqui do tema, né, do título do episódio, ela surgiu de uma conversa, né, que eu participei na seção de comentários de um vídeo no Instagram sobre nutrição que falava justamente sobre calorias.
E num determinado ponto, as pessoas que estavam comentando lá, eles partiram para violência, né? Porque é na rede social, a gente sabe que assim, quando acaba os argumentos, a galera xinga. Eu confesso que eu tenho uma preguiça enorme disso aí, e eu me arrependi amargamente de comentar naquele vídeo. Isso porque a gente sabe aqui nas redes sociais, em média, salvo raras exceções, elas não servem para ensinar ou aprender, elas servem para te vender coisas e te entreter.
Mas vamos lá, vamos parar para pensar um segundo, porque essa pergunta do título, ela parece prosaica, parece uma coisa que algumas pessoas têm dúvida ou já tiveram dúvidas, só não foram atrás. Então, tipo assim, Como assim uma caloria não é igual a outra? Se você tem lá 200 calorias de uma coisa e 200 de outra, quem é tu para me falar que não é a mesma coisa? Então a gente vai ver aqui que tem poucas frases na nutrição que despertam tanta discussão quanto essa de que uma caloria é uma caloria e ponto final.
Talvez você já tenha ouvido essa frase de algum nutricionista, de algum influencer. Talvez você já tenha ouvido justamente o contrário, né, que não existe caloria igual. E aí, quando você, né, analisa os dois lados dessa discussão, os dois vão parecer que estão defendendo a ciência, né? Os dois conseguem citar artigos científicos. Então quem vê de fora fica exatamente com aquela sensação de perdido, pensando tipo assim: porra, entra aí num consenso vocês aí, velho.
Mas então Alguém tá errado? Ou será que na verdade é a gente que tá fazendo a pergunta errada? Então hoje nesse episódio eu quero propor aqui uma investigação. A gente vai pensar junto aqui para tirar um pouco essa névoa mental. E a gente não vai começar nem pela nutrição. Na verdade, a gente vai começar por uma pergunta que foi feita há mais de 2000 anos atrás, por ninguém mais, ninguém menos do que Aristóteles. Inclusive, essa pergunta ela já foi usada, já foi explicada lá no episódio 3 aqui do podcast.
E para recapitular, o que que era, qual foi essa pergunta, né, quais foram essas perguntas que o Aristóteles fez? Bom, naquela época ele dizia que para compreender qualquer fenômeno a gente tinha que responder 4 perguntas diferentes. Então, as perguntas eram as seguintes: o que é? Do que ele é feito? Como funciona? E para que ele existe? Então, esse foi popularizado depois como o sistema das 4 causas aristotélicas, que convenhamos, esse sistema dá uma paulada em muitos modos de pensar científico de hoje em dia ainda.
E o cara usou isso aí 2000 anos atrás, hein? Então, assim, talvez, só talvez, o erro nessa discussão toda sobre calorias seja justamente tentar responder essas 4 perguntas usando a resposta de apenas uma delas. Então, bora lá! Vamos começar pelo mais simples. Se uma caloria é uma unidade de energia, então talvez todas as calorias realmente sejam iguais. Então, Acabou aqui o episódio, falou, valeu, até a próxima! Mas calma aí, será mesmo que só isso já resolve tudo?
E a ideia é que não exatamente, porque isso aí só explica uma das 4 perguntas, que é uma das 4 causas, que é a causa material. Então, vamos pensar aqui comigo: o que é uma caloria? Tem muita gente que acha que caloria é uma coisa que tem dentro de cada alimento, né? Eu achava que era zoeira essa definição, só que realmente eu vi pessoas no Instagram falando disso. Mas não, gente, a caloria é apenas uma unidade de medida. Assim como o metro mede distância, 1 kg mede massa, 1 caloria vai medir energia, nada além disso.
Então, se você pegar lá 500 kcal de chocolate, 500 kcal de arroz, 500 kcal de carne, fisicamente, presta atenção, fisicamente, elas são exatamente iguais. Ou seja, a primeira lei da termodinâmica continua intacta. A energia não vai surgir do nada, não vai desaparecer, ela só vai mudar de forma. Então, por que essa discussão toda ainda existe? Simples. As pessoas esquecem que medir energia não é a mesma coisa do que explicar um organismo vivo.
Talvez você esteja se perguntando agora, ou já tenha se perguntado em algum momento, como que se mede a energia de um alimento? Como é que a galera sabe quanto de caloria tem algum alimento? E a resposta é muito simples, e justamente por ser tão simples ela mostra onde começam os mal-entendidos. Então, bora lá! Como que a caloria é medida? O método clássico, né, vai usar um equipamento que é chamado de bomba calorimétrica. Imagina que tem ali uma pequena cápsula de aço que, dentro dela, a galera coloca exatamente 1 grama de algum alimento seco.
Essa cápsula com alimento seco, ela vai ser preenchida com oxigênio puro e, em seguida, vão promover a combustão completa daquele alimento, ou seja, o alimento vai ser literalmente queimado. Todo o calor liberado ali para essa combustão vai aquecer uma quantidade de água que é conhecida, que fica ali ao redor da câmara. E aí, como a galera sabe a massa da água, a temperatura inicial e a temperatura final, é possível calcular exatamente quanta energia foi liberada.
É literalmente isso, esse é o processo. Então, nessa coisa toda aí da bomba calorimétrica, não tem metabolismo, não tem digestão, não tem intestino, fígado, não tem hormônios nesse processo. O que a gente tem ali é o quê? A combustão, simplesmente isso. É daí, inclusive, que a definição original da caloria vai aparecer. Então, abre aspas: a caloria é a quantidade de energia necessária para elevar em 1°C a temperatura de 1 grama de água.
E aí, aqui vem um ponto importante aqui para a gente estabelecer nessa discussão. Até aqui, a física está perfeita. O equipamento vai medir a energia química armazenada nas ligações das moléculas, nada mais, nada menos. E é aqui que entra a primeira lei da termodinâmica. Se aquele alimento contém 500 calorias de energia química, a bomba calorimétrica vai encontrar essas 500 calorias na medição, sempre. Só que onde começa o erro?
Ele vai começar em um pequeno, mas importantíssimo detalhe. Nós, o ser humano, não é— o ser humano não é uma bomba calorimétrica. Então, quando você submete qualquer alimento lá no procedimento da bomba calorimétrica, o laboratório ele tá basicamente fazendo uma pergunta. Qual que é essa pergunta? É a seguinte: quanto calor esse alimento libera quando ele é queimado completamente? Só que o nosso organismo, o nosso organismo, ele faz outra pergunta.
Então, Quanto dessa energia eu consigo realmente aproveitar? Então, essa é a pergunta que o nosso organismo faz. Você tem que perceber que são perguntas completamente diferentes. Isso se explica porque a medição de energia pela bomba calorimétrica, ela vai esbarrar em 5 limitações importantíssimas quando a gente fala em transpor isso para o nosso organismo, ou seja, para algum organismo vivo. A primeira limitação é a seguinte: o nosso corpo não queima comida.
E essa talvez seja a maior quebra de expectativa de muita gente, porque a digestão não é igual à combustão. A gente não incendia arroz dentro do nosso intestino. O que a gente faz é: a gente usa milhares de reações químicas extremamente controladas. Então, a gente tem nessa história toda enzimas, transportadores, hormônios, gradientes elétricos, as mitocôndrias trabalhando ali. E tudo isso acontece ali em torno de 37 graus dentro do nosso corpo.
Só que, apesar de estar quente, né, entre aspas, não tem fogo, não tem explosão, não tem combustão ali. A segunda limitação é: nem tudo que a gente come é absorvido. Então, quando você pensa na bomba calorimétrica, ela vai medir energia total. Só que o nosso intestino, ele mede, entre aspas, outra coisa. Então, para ficar fácil de entender, imagina duas situações: 100 kcal de fibra e 100 kcal de glicose. Se você botar essas duas coisas na bomba separadamente, né, as duas vão liberar a mesma quantidade de energia.
Só que no organismo, grande parte da fibra ela vai simplesmente atravessar o tubo digestório, vai fazer parte lá da formação do bolo fecal, vai ajudar a modular a saúde da microbiota alimentando as bactérias boas e tal, né. Só que Isso aí específico é papo para outro episódio. Só que o que é importante que você entenda é que a energia medida é completamente diferente de energia absorvida. E isso leva a gente para a terceira limitação, que é a seguinte: mesmo aquilo que é absorvido tem custos diferentes.
Então, vamos para uma nova analogia só para ficar claro. Imagina que você tem R$200. E você quer dar R$100 para uma pessoa e R$100 para outra, só que para uma delas você dá uma nota de R$100, então tu dá lá, né, dinheiro vivo para pessoa e acabou. Para outra você diz que os R$100 dela vão estar em moedas espalhadas pela cidade inteira. Então você concorda que ambas as pessoas vão receber R$100, né? Só que uma delas vai ter muito mais trabalho para absorver esse dinheiro, porque ela vai ter que rodar a cidade inteira procurando as moedas.
Mais ou menos a mesma coisa acontece com nutrientes. Então, a gente tem aqui uma espécie de ranking de dificuldade, de trabalho de digestão que nosso corpo tem para poder metabolizar aquele nutriente. Então, por exemplo, as proteínas demandam uma digestão mais complexa, porque a gente tem ali remoção do nitrogênio, tem produção de ureia, tem um maior gasto energético só para absorver. E aí, em seguida, tem carboidrato, que vai exigir um pouco menos, e Por último, ali, a gordura, que vai exigir quase nada, praticamente.
O que tem que ficar claro aqui é que a energia bruta, se a gente falar em calorias, é semelhante, só que o custo para transformar essa energia bruta em ATP não é. E esse é um dos componentes do chamado efeito térmico dos alimentos. E isso vai levar a gente para a nossa quarta limitação. Quando a gente fala de transpor essas coisas de bomba calorimétrica para o organismo vivo. Qual que é essa limitação? É a seguinte: o alimento modifica o próprio organismo que vai consumir aquele alimento.
Então, por exemplo, no caso lá da bomba do laboratório, tem lá o equipamento que só vai medir energia total, ele não vai medir em resposta biológica. Só que se a gente pensar pelo lado do organismo, Um alimento pode alterar a saciedade, pode alterar a secreção hormonal, pode alterar a velocidade do esvaziamento gástrico, vai alterar a microbiota, resposta glicêmica, síntese proteica, o armazenamento da gordura e por aí vai. Nada disso aparece na bomba calorimétrica.
E a quinta e última limitação que eu considero aqui, que é tão importante de se entender, que a maioria das pessoas nem se lembra de considerar esse aspecto quando se discute se as calorias são iguais para todos os alimentos. Os alimentos, eles nunca chegam, tipo, puros, entre aspas, no nosso organismo. É extremamente raro no dia a dia você comer alguma coisa que só tenha proteína, ou só tenha carboidrato, só tenha gordura, só fibra, ou enfim.
Então, uma mesma quantidade de energia Ela pode estar no alimento inteiro, numa farinha, num purê, num líquido, num ultraprocessado, que vai estar composto de vários macronutrientes diferentes. Então, fisicamente, a energia pode ser igual, só que biologicamente a digestão vai ser completamente diferente, porque vai ter traços ou partes consideráveis de nutrientes diferentes compondo aquele mesmo alimento. Vou fazer um teste aqui.
Você que está ouvindo agora, imagina duas caixas fechadas. Nas duas tem um adesivo escrito ali no topo delas: 500 kcal. Só que você não sabe o que tem dentro delas, você não consegue ver dentro. Só com essa informação que está do lado de fora da caixa, você apostaria que elas vão produzir o mesmo efeito? Eu não apostaria. Mas sabe por quê? Porque se você prestou atenção nas limitações da bomba calorimétrica que eu acabei de falar, Você já percebeu uma coisa muito importante: que as calorias medem energia, elas não medem estrutura.
É aí que muita gente falha, é aí que a galera dorme no ponto. Isso aí só se trata da causa formal. Caso você não saiba o mínimo sobre alimentos, vamos recapitular aqui o que a gente tem nas comidas, basicamente, do que são compostos os alimentos em geral. Então, a gente tem proteína, tem carboidrato, tem gordura, fibra, tem água, que, enfim, vai formar ali a matriz alimentar. Então, tem várias vitaminas, minerais, enfim, outras coisas ali.
E tudo isso que eu falei agora vai mudar completamente a forma como aquele alimento existe. Pega, por exemplo, a proteína do ovo, a albumina. Com a albumina, você vai constituir o ovo, Só que você também pode constituir um bolo, um cookie, um macarrão. Então, perceba que você pode ter composições completamente diferentes em alimentos diferentes que compartilham alguma matéria-prima. E até aqui, pode ser que você tenha pensado: tá, então posso ter a mesma matéria-prima em alguns alimentos diferentes.
Então, já dá para a gente montar a resposta aí que responde o tema do episódio? Ainda não dá. Porque, na prática, alguns alimentos diferentes ainda poderiam produzir o mesmo efeito. Então, a gente tem que continuar pensando um pouquinho mais. Qual seria o próximo passo desse raciocínio nosso? E se, de repente, talvez, para considerar uma nova camada nessa discussão, talvez o problema não esteja na comida, talvez esteja em quem come a comida, ou seja, você, o seu organismo como um todo.
Seu intestino, seu cérebro, seu fígado, sua musculatura, sua microbiota. E aqui que entra a terceira pergunta, né, que se trata da causa eficiente. Pronto, para lembrar o que que é, né, é o mecanismo, é o processo, é quem faz o quê. É aqui que então a fisiologia vai entrar em cena. Só que em vez de eu despejar conceitos técnicos cheios de barreiras para o entendimento do senso comum, Vamos imaginar um percurso que a comida vai seguir.
Você come lá a comida e a primeira parada nesse percurso é a boca, que é onde acontece uma etapa que a maior parte da população não dá muita importância, que é o quê? A mastigação. A maioria das pessoas não mastiga direito as coisas, elas engolem pedaços ainda muito grandes para o trato gastrointestinal. E você sabia que você acaba trabalhando muito mais para digerir um alimento que você não mastigou direito? E ainda que um alimento não mastigado corretamente, ou seja, até virar praticamente uma pasta, ele pode não ter boa parte dos seus nutrientes aproveitados pelo seu corpo.
Então, tem muitos problemas que podem surgir só nessa parte já, só que essa discussão específica vai para um outro episódio. Então, seguindo nesse percurso, né, passou a boca ali, então a gente tem o estômago, depois tem intestino, aí vão entrar os hormônios na brincadeira, aí tem fígado e no final de tudo tem cérebro. Ao longo desse percurso todo, a gente vai ter 5 personagens importantes aparecendo. Imagina que o primeiro personagem é um personagem que cobra um pedágio.
E esse personagem que cobra o pedágio é o quê? É o chamado efeito térmico dos alimentos, que eu falei anteriormente em uma das limitações da bomba calorimétrica. Então, eu falei lá o quê? Que as proteínas exigem muito mais energia para serem processadas do que carboidratos. Que por sua vez exige mais energia do que gordura. Então vamos desenvolver um pouquinho sobre isso. Imagina que você recebe um pacote pelos Correios e o valor do produto ali do pacote é R$100.
Só que para colocar esse pacote dentro da tua casa tem um custo. Você tem custo de transporte, de entrega, de armazenamento, de organização. Com os alimentos vai acontecer algo parecido. Antes da energia virar ATP ou ser armazenada, ela vai precisar passar por várias etapas. Quais são? A saber, né? A gente tem a digestão, tem a absorção, tem o transporte, processamento hepático, tem a síntese de moléculas, e aí temos o armazenamento ou utilização.
Tudo isso consome energia, e esse consumo de energia especificamente, ele vai receber o nome de efeito térmico dos alimentos. Então, percebe? Todos têm uma energia química, só que o trabalho metabólico, entre aspas, para aproveitar essa energia química não é igual. Então, volta no exemplo do pacote recebido pelos Correios. Imagina que você recebeu 3 caixas, só que uma delas você consegue abrir ela puxando um zíper, A outra está lacrada com fita adesiva rodando a caixa inteira.
E a última vai estar lacrada com parafuso. Você concorda que para abrir cada uma você vai ter trabalhos diferentes? É exatamente assim com os nutrientes. Então, por exemplo, proteínas. A proteína possui ali aproximadamente de 20 a 30% de efeito térmico. O que isso significa na prática? Que de cada 100 kcal provenientes de proteína, cerca de 20 a 30, podem ser consumidas simplesmente para digestão, absorção, síntese proteica, transaminação, desaminação, produção de ureia, transporte dos aminoácidos.
Então, o seu organismo literalmente trabalha mais. E isso acontece por quê? Porque as proteínas não são um combustível preferencial para o nosso dia a dia. Nosso corpo tenta preservar aminoácidos para quê? Para exercerem funções estruturais e funcionais. Quando eles são usados como energia, vai demandar um custo metabólico mais alto. Bom, a gente falou da proteína. Carboidrato, como é que é? Carboidrato tem ali perto de 5% a 10% de efeito térmico, então, eles são relativamente mais simples de metabolizar.
Porque grande parte da glicose que já entra ali, né, glicose fazendo parte dos carboidratos, ela já entra de uma forma mais facilitada nas vias energéticas. Então você tem ali um gasto para absorção, para transporte, para armazenamento como glicogênio, só que é bem menor do que a da proteína. E as gorduras, elas têm um menor gasto. Então os trabalhos ali falam de alguma coisa em torno de 0 a 3%. Por quê? Porque o nosso organismo é extremamente eficiente em armazenar gordura.
Então, a gordura praticamente já chega pronta, entre aspas, para o nosso tecido adiposo. Então, pouquíssimas modificações vão ser necessárias. E, do ponto de vista evolutivo, isso faz bastante sentido, porque a energia escassa ao longo da nossa história favoreceu organismos capazes de armazenar essa energia com a maior eficiência. Eu vou falar, eu vou... Vou abrir um pequeno parênteses aqui para falar sobre duas diferenças nessa história toda do efeito térmico dos alimentos, que são a fibra e o álcool.
As fibras praticamente desmontam essa ideia simplista de caloria, porque, veja, a gente tem entre as fibras as insolúveis e as solúveis. As insolúveis quase não fornecem energia nenhuma, então, grande parte dela é simplesmente eliminada. Já as fibras solúveis, elas podem ser fermentadas pela nossa microbiota, e dessa fermentação vai aparecer o quê? Os chamados ácidos graxos de cadeia curta. Você já deve ter ouvido o nome de algumas delas em alguns fóruns ou blogs de educação física, de saúde, blog de maromba.
Alguns exemplos deles são acetato, propionato, butirato, por exemplo. Esses ácidos graxos de cadeia curta, eles até fornecem alguma energia, só que muito menos do que a energia que ser medida lá na bomba calorimétrica. E aí tem um porém: as fibras, elas têm um atributo de reduzir a velocidade da digestão de outros nutrientes. As fibras, elas não vão alterar só a própria disponibilidade energética, só que elas também podem alterar a disponibilidade energética dos alimentos que são consumidos junto das fibras.
Já o álcool, ele é um caso um pouco curioso. Porque, se a gente pensar na densidade energética dele, ele tem 7 quilocalorias por grama. Então, ali no ranking entre os macronutrientes, ele fica entre o carboidrato e gordura, porque o carboidrato dá ali 4 quilocalorias por grama e a gordura dá 9 quilocalorias por grama. Só que, metabolicamente, o álcool é tratado como se fosse uma toxina, porque o nosso fígado vai priorizar a metabolização do etanol, só que para isso ele vai diminuir a oxidação de gordura, ele vai alterar temporariamente o metabolismo de outros substratos e vai aumentar o gasto para sua metabolização.
Então, o efeito térmico do álcool, pelos estudos, eles estimam alguma coisa entre 10% e 30%. Então, varia conforme a dose, varia conforme o contexto fisiológico da pessoa, Varia conforme o método de avaliação também. Só que, apesar desse custo metabólico, isso não significa que as bebidas alcoólicas favoreçam perda de gordura. Porque tem a galera que fala: ah, se está tendo mais trabalho para metabolizar, vai gastar mais energia, vai favorecer que eu perca gordura.
Só que não é assim. Na prática, o álcool frequentemente aumenta a ingestão energética total. Ele reduz o controle inibitório e ele inibe temporariamente a oxidação de lipídios. Convenhamos, quando você bebe álcool, você raramente bebe só álcool. Você bebe álcool, aí come uma porção de batata frita, uma porção de calabresa gordurosa com bacon, você pega aquele pote gigante de amendoim, pega, você sempre come alguma coisa mais gordurosa também.
Mas voltando, percebe o que a gente acabou de ver até agora? Em todos os exemplos que eu dei, a gente não mudou a quantidade de calorias se comparar um grupo com outro. O que a gente mudou foi o custo para acessar essas calorias. E para deixar isso mais bem ilustradinho ainda, imagina duas refeições. Uma delas tem 100 kcal exclusivamente de proteína. Então, se a gente assumir o efeito térmico de aproximadamente 25%, a energia líquida desta refeição vai ficar por volta de 75 calorias.
Na segunda refeição, a gente tem 100 quilocalorias também, só que agora só de gordura. E se a gente assumir o efeito térmico de aproximadamente 2%, a energia líquida vai ficar ali em 98 calorias, 98 quilocalorias, né? Então, se você tacar essas refeições lá na bomba calorimétrica, ela vai dizer a mesma coisa. Ó, essas duas, essas duas refeições têm 100 calorias, 100 quilocalorias. Só que a fisiologia no seu organismo vai responder o seguinte: é, só que sim, tem 100 calorias nas duas, só que eu precisei gastar muito mais energia para aproveitar uma delas.
Então você tem que perceber o seguinte: nenhuma lei da física foi quebrada até agora. O que mudou foi o quê? Foi o sistema. E aqui vale um disclaimer importante: Antes que os meus colegas nutricionistas venham com pedras para cima de mim. O balanço energético humano é mais complexo do que a simples subtração do efeito térmico das calorias ingeridas. O efeito térmico dos alimentos é só um componente do nosso gasto energético total, e ele vai acontecer dentro do sistema metabólico.
Eu estou fazendo essa subtração simples aqui no exemplo só para fins didáticos. E como eu falei antes, lá no começo, a energia não vai desaparecer e parte dela ainda vai ser dissipada como calor durante o processamento desses nutrientes. O efeito térmico, né, fechando esse parêntese rápido, o efeito térmico ele não depende só do macronutriente, só que ele também depende da matriz alimentar. Então, a forma como aquele nutriente está existindo naquele alimento.
Então, por exemplo, se você pegar uma proteína isolada, como whey protein, por exemplo, e a mesma quantidade de proteína, só que em um alimento íntegro, como uma carne, ele vai demandar custo digestivo diferente. Da mesma forma, se você pegar grãos integrais, alimentos minimamente processados e ultraprocessados, eles vão ter diferença na energia efetivamente aproveitada, por quê? Porque a estrutura física do alimento vai influenciar outras coisas, como, por exemplo, a mastigação, a digestão, a absorção e a fermentação.
Então, até aqui você já entendeu os principais pontos. Então, voltando lá no percurso que a comida faz, a gente falou do primeiro personagem, que era o efeito térmico dos alimentos, que a gente acabou de discutir. Vamos para o segundo personagem? O segundo personagem nessa discussão é a saciedade. Então, a gente tem hormônios participando aí nesse processo, como o GLP-1, o PYY, a CCK, a leptina e a insulina. Eu não vou entrar em detalhes técnicos sobre todos aqui, e você nem mesmo precisa decorar todos esses nomes, porque senão vai ficar uma discussão bem hermética aqui.
Mas esse é um ponto que a bomba calorimétrica jamais conseguiria medir, que é a saciedade. Então, quando você começa a comer, teu corpo não fica lá esperando terminar a digestão para decidir se já foi suficiente. Então, muito antes de toda essa energia que você está ingerindo virar ATP, virar glicogênio ou ser armazenada, o corpo já está coletando informações. É como se fosse uma reunião em tempo real. Entre o intestino, pâncreas, o tecido adiposo e o cérebro.
Então, para você entender isso, imagina que o cérebro é o centro de controle de um aeroporto, e o intestino, estômago, o pâncreas e o tecido adiposo funcionam como se fossem torres de controle espalhadas pelo país inteiro. Então, à medida que o alimento chega, cada uma dessas torres vai enviar relatório para o cérebro falando o seguinte: a gente tem nutrientes suficientes, ou então o estômago está distendido, a glicose está subindo, as reservas energéticas estão adequadas.
O cérebro vai pegar todos esses sinais para então decidir se é hora de continuar ou parar de comer. Então, essa analogia ajuda a gente a entender porque não existe um único hormônio da saciedade, tem uma rede. Só para dar um panorama geral, não deixar Não deixar a coisa no ar. Aí, eu falei de alguns hormônios ali, né? Vamos dar só uma explicaçãozinha bem rasa sobre o que cada um faz. Então, a gente tem a CCK, que é o nome bonitinho da colecistocinina, ela é um dos primeiros mensageiros.
Então, assim que a gordura e a proteína chegam para o intestino delgado, a CCK aumenta, e ela basicamente informa o seguinte para o cérebro: ó, a comida chegou! Ela também desacelera o esvaziamento gástrico, ela prolonga a sensação de plenitude. E o próximo aí que apareceu ali, que eu falei, foi o GLP-1. Ele é como se fosse um coordenador. Então, quando esses nutrientes chegam para o intestino, o GLP-1 vai o quê? Vai fazer o quê?
Ele vai aumentar a saciedade, vai estimular a secreção de insulina de forma dependente da glicose, ele vai reduzir o esvaziamento do estômago, e ele vai ajudar a diminuir o apetite. É por isso, por exemplo, que os medicamentos agonistas de GLP-1, como essas canetinhas de emagrecimento, são tão eficazes. Eles estão simplesmente amplificando o mecanismo fisiológico que já acontece naturalmente. O outro que eu já falei aí antes é o PYY, né?
Ele funciona como se fosse— imagina como se fosse um freio. A concentração do PYY vai aumentar principalmente quando você faz aquela refeição rica em proteína e fibra. E a mensagem principal que ele passa para o cérebro é a seguinte: já recebemos alimento suficiente. Simples assim. E aí, a gente tem a insulina. Muita gente pensa na insulina como se fosse só o hormônio que controla a glicemia. Ela também atua no cérebro. Depois de uma refeição, o aumento da insulina funciona como mais um sinal de que os nutrientes estão disponíveis.
Ela vai participar da redução da ingestão alimentar, especialmente na interação com outros hormônios, o que vai nos levar ao quê? À famosa leptina. Leptina, talvez você já tenha ouvido falar, porque ela é muito falada em fórum de marombas, nesses Reels do Instagram, que os nutricionistas tentam explicar as coisas e tal. Aqui vale fazer uma distinção muito importante: enquanto o GLP-1, a CCK e o PYY informam sobre a refeição que está acontecendo no momento, a leptina vai falar sobre o estado energético do organismo ao longo do tempo que passou.
Então, a leptina é produzida lá no nosso tecido adiposo, né? Em geral, em geral, Quanto maiores as reservas de gordura, maior tende a ser a produção da leptina. E a mensagem dela nessa rede toda dos hormônios é alguma coisa como se fosse assim: a gente tem combustível armazenado. Mas por que eu falei em geral? Porque a gente tem algumas exceções. Por exemplo, pessoas com obesidade frequentemente têm o quê? A resistência à leptina.
Então, o cérebro dessas pessoas passa a responder menos a esse sinal da leptina, apesar dos níveis de leptina estarem lá em cima, estarem bem elevados. Só que o que fica importante dessa pequena explicação que eu dei é que nenhum desses hormônios decide sozinho. O cérebro vai pegar todas essas mensagens desses hormônios e vai funcionar como um integrador. Ele recebe simultaneamente as informações sobre o volume do estômago, a presença de proteína, a presença de gordura, a glicemia, as reservas corporais que você já tem, a velocidade de chegada dos nutrientes, os sinais do nervo vago e até as informações da microbiota.
Então, o que você tem que perceber aqui é a soma desses sinais todos que vai produzir a sensação subjetiva de saciedade. Então, percebe como a pergunta mudou de novo? Lá no início dessa conversa, a única pergunta que a gente estava pensando era: quanta energia existe aqui nessa bomba calorimétrica? Então, agora a gente já tem uma outra pergunta nesse percurso, que é a pergunta que o cérebro faz: e eu preciso continuar comendo?
E isso é uma outra, é um outro degrau na limitação da ideia de que uma caloria é uma caloria, simplesmente assim. Então, duas refeições podem ter exatamente a mesma quantidade de energia, só que ela vai provocar respostas completamente diferentes no sistema que controla a fome. Então, se uma dessas refeições gerar mais saciedade, a chance de você encerrar a refeição e permanecer satisfeito pelas próximas horas vai aumentar. Apesar de uma ter 100 calorias, a outra ter 100 calorias também, às vezes o efeito de uma vai te deixar saciado por mais tempo.
Às vezes você vai terminar de comer antes de completar a refeição. Então, a diferença não está nas calorias em si, ela vai estar na forma como o teu organismo vai interpretar aquele alimento. E aí entra, é justamente aí que entra o conceito da fisiologia, que é a saciedade antecipatória. O seu cérebro, ele não espera a absorção completa dos nutrientes para regular o comportamento alimentar. Ele vai combinar os sinais rápidos e os sinais lentos para prever a disponibilidade de energia e ajustar a ingestão antes mesmo de toda a refeição tenha sido metabolizada.
Quais são os sinais rápidos? São aqueles que eu falei, né, de digestão gástrica, da presença das cecadas, GLP-1, do PYY. E quais são os sinais lentos? São os sinais da insulina, da leptina e do estado das reservas energéticas. Então, se a gente observar toda essa história sobre uma perspectiva evolutiva, isso faz sentido, porque se você esperar até o fim da absorção para então decidir parar de comer, pô, você tem que concordar que isso seria um mecanismo muito lento e muito ineficiente.
Isso teria um potencial risco de aumentar a sua ingestão. Então, essa antecipação que a gente faz, que o nosso cérebro faz, é mais um exemplo de que o organismo não é um sistema passivo de contabilização de calorias, ele é um sistema preditivo que regula continuamente o nosso balanço energético. Vamos voltar no percurso da comida e dos personagens que vão aparecendo. Então, lembrando, primeiro era o efeito térmico dos alimentos, E o segundo foi o que a gente falou agora, que é o sistema da saciedade.
O terceiro personagem agora é o que a gente vai falar da recompensa, né? Então a gente pensa na dopamina. Esse é o ponto em que o alimento, ele deixa, ele deixa de ser só um combustível, ele passa a ser experiência, prazer, passa a ser aprendizado e expectativa. Eu não vou desenvolver exatamente sobre a dopamina aqui porque Isso aí é um outro episódio, porque o papel da dopamina no nosso corpo vai muito além do senso comum, do que o senso comum diz, né, que é simplesmente o hormônio da recompensa, que é o hormônio do prazer.
Para essa conversa de agora, basta entender que no meio do percurso da comida, a dopamina exerce um papel importante nessa questão da recompensa percebida pela alimentação. O quarto personagem, ele é meio invisível e nem todo mundo já ouviu falar, que é quem? A microbiota. Então, depois de você passar por aquele pedágio lá do efeito térmico, depois de conversar, né, com os fiscais da saciedade, os hormônios ali, e depois de visitar esse departamento da recompensa com a dopamina, você pode estar pensando que a comida finalmente chegou no seu destino.
Só que não, ela vai fazer uma parada inesperada. Ela vai encontrar ali uma cidade com trilhões de habitantes. Trilhões! Então a gente tem ali trilhões de organismos interferindo naquilo que você jurava que era simplesmente a digestão. E sim, tem muita gente que não conhece a microbiota porque esse nome é mais comum na bolha da saúde ou na bolha de quem é acadêmico ou profissional da saúde. Muita gente acha que tá só alimentando o seu corpo, só que uma parte de todas as suas refeições também tá alimentando a microbiota.
Então a gente não consegue, por exemplo, digerir muitas fibras vegetais. Para a gente, elas praticamente seriam um desperdício energético, só que para nossa microbiota não. As bactérias que vivem lá na nossa microbiota, elas fermentam essas fibras e elas têm, e elas vão produzir pequenas moléculas que eu já falei aqui antes nessa história, que são quem? Os ácidos graxos de cadeia curta. Então, o acetato, propionato, butirato. Ou seja, uma parte da energia que era inacessível antes acaba voltando para nós por outro caminho.
E não é só energia, porque durante essa fermentação, essas bactérias vão liberar substâncias que conversam com o intestino, estimulam a produção do GLP-1 e do PYY, que eu falei antes, e elas vão acabar influenciando o nosso apetite. Então, a nossa microbiota, ela não ajuda só a gente a extrair energia, ela também participa da decisão de quando parar de comer. Perceba a ligação do que eu falei com o que eu falei antes sobre a saciedade.
E o curioso é que ninguém possui exatamente a mesma microbiota. A composição da microbiota, ela vai mudar conforme a alimentação, conforme o uso de antibiótico, de outros medicamentos, conforme a idade, o ambiente em que você vive, a genética, doenças pré-existentes e doenças em curso, e inúmeros outros fatores. Então, duas pessoas podem colocar exatamente o mesmo alimento para viajar por esse percurso da digestão, e vai encontrar populações de microbiota completamente diferentes.
Isso não significa, tá, porque eu já vi gente falar isso, isso não significa que a microbiota determina sozinha o nosso peso corporal, mas ela é uma variável que contribui para a resposta individual aos alimentos. Então, algumas comunidades bacterianas parecem ser mais eficientes em quebrar determinados componentes dos alimentos do que outras. Isso significa somente que a quantidade de energia efetivamente disponível para um organismo pode variar um pouco entre os indivíduos.
A gente não está falando aqui de centenas de calorias magicamente desaparecendo. A gente está falando de pequenas diferenças que, se você olha no longo prazo, né, então repetidas durante anos, elas podem contribuir para diferenças reais entre as pessoas. Essas bactérias também ajudam a manter o revestimento do intestino saudável, elas fortalecem então a barreira intestinal, dificultando a entrada de microrganismos nocivos, e elas também treinam o nosso sistema imunológico.
Pensa nessas bactérias como se elas fossem ao mesmo tempo moradoras dessa cidade, elas fossem também a equipe de manutenção da estrada e elas também fossem agentes de segurança do percurso. Então, quando a comida finalmente deixa o nosso intestino, ela já não é a mesma que entrou, né? Então, isso aí todo mundo já sabe: uma parte virou calor, outra parte virou sinais hormonais, outra parte estimulou o circuito de recompensa, uma outra alimentou a comunidade inteira de bactérias, uma outra retornou ao organismo de uma forma completamente diferente, e uma pequena fração simplesmente foi embora nas nossas fezes.
É por isso que dizer que uma caloria é uma caloria depende da pergunta que a gente está fazendo. Então, se você vê do ponto de vista simplesmente da física, sim, uma caloria continua sendo uma unidade de energia. Só que, do ponto de vista da biologia, essa energia percorre um caminho cheio de desvios, cheio de negociação, cheio de transformação. E a microbiota é um dos últimos e mais fascinantes personagens dessa história. Só que ainda tem um último personagem que quase ninguém percebe.
Saca só, você termina lá de comer, se levanta, anda pela casa, gesticula, cruza as pernas, muda de posição. Seu corpo começa a gastar energia sem que você nem perceba direito, porque tá tão automático que você não liga e você não dá nada para essas pequenas ações. Só que o seu corpo sabe. Esse é o famoso NEAT, é a sigla em inglês para Non-Exercise Activity Thermogenesis, ou seja, a termogênese de atividades não relacionadas ao exercício físico.
Repara que nenhum desses mecanismos viola a física. Todos eles somente mudam o destino daquela energia. Então, se você agrupar toda essa discussão que a gente teve até agora, será que a gente já consegue montar a resposta para a pergunta do episódio? Calma, que ainda falta uma pergunta, que talvez é a mais importante: por que tudo isso existe? Essa pergunta quase nunca aparece quando a gente fala de nutrição, só que é a causa final.
Pra quê? Por que que um organismo vivo desenvolveria esse mecanismo tão complexo? E a resposta você não vai encontrar na academia nem no supermercado. A resposta está lá no nosso passado evolutivo, lá na savana africana. Durante praticamente toda a evolução humana, o problema da humanidade nunca foi excesso, sempre foi escassez. Então, dito isso, o nosso cérebro não evoluiu para emagrecer, ele evoluiu para sobreviver. Por isso que alimentos altamente energéticos são tão atraentes para a gente, por isso recuperar peso acontece com tanta facilidade, e é por isso que a fome consegue ser mais forte do que a lógica.
Não é porque a gente é tudo fraco, Mas é porque a gente foi moldado para um outro tipo de ambiente, simples assim. O nosso cérebro, ele continua resolvendo problemas biológicos de 50 mil anos atrás, só que agora a gente tá fodido. A gente tá cercado de aplicativo de entrega, de alimentos hiperpalatáveis e da disponibilidade constante. Se a gente começar a juntar tudo isso e voltar à pergunta inicial, uma caloria é igual à outra.
Então, agora você já sabe que depende de qual causa a gente está analisando. Se a gente for ver só a material, sim, toda caloria continua sendo uma unidade de energia. Só que se você ver a causa formal, não. Os alimentos têm arquiteturas completamente diferentes. Na causa eficiente, também não, porque cada organismo vai processar essa energia por mecanismos diferentes. E na causa final, menos ainda, porque esses mecanismos existem para resolver problemas evolutivos específicos.
Então, perceba o que aconteceu aqui. Durante décadas, a galera ficou discutindo somente a primeira causa. E ela é importante? Ela é importante, só que, enfim, ela não fecha toda a resposta. Todo esse tempo, a discussão no meio popular ficou ignorando as outras 3 causas. Então não era a física que estava errada, era a pergunta que estava incompleta. Então, na próxima vez que alguém disser: uma caloria é uma caloria e ponto final, talvez a sua resposta não seja concordar e nem discordar.
Talvez essa resposta seja uma outra pergunta. Você tem que virar para a pessoa e falar o seguinte: você está falando da física ou você está falando da biologia? Porque essas duas respostas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. E talvez esse seja o aspecto mais fascinante da ciência. Ela raramente destrói uma ideia por completo. Quase sempre ela mostra que ela era só uma parte de uma história muito maior. Então é assim que uma caloria pode não ser igual a outra sem violar a física.
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Luca Baeta
Plano alimentar personalizado e planejamento de treino