Episódios de Fala, Baêta

#18 - Existe realmente um peso que o corpo quer defender?

29 de julho de 202629min
0:00 / 29:23

Neste episódio falamos sobre diferentes sistemas de manutenção do peso corporal.

Se deseja marcar uma consulta, mande mensagem no email profbaeta@gmail.com ou entre no site www.lucabaeta.com.br ou ainda, se preferir, mande mensagem no instagram @profbaeta

Refs.:

Hall KD, Guo J. Obesity Energetics: Body Weight Regulation and the Effects of Diet Composition. Gastroenterology. 2017 May;152(7):1718-1727.e3. doi: 10.1053/j.gastro.2017.01.052. Epub 2017 Feb 11. PMID: 28193517; PMCID: PMC5568065. 

Tham KW et al. Obesity in South and Southeast Asia-A new consensus on care and management. Obes Rev. 2023 Feb;24(2):e13520. doi: 10.1111/obr.13520. Epub 2022 Dec 1. PMID: 36453081; PMCID: PMC10078503. 

Rubino F et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nat Med. 2020 Apr;26(4):485-497. doi: 10.1038/s41591-020-0803-x. Epub 2020 Mar 4. PMID: 32127716; PMCID: PMC7154011. 

García-Gómez I et al.  Changes in Resting Energy Expenditure in Response to Different Dietary Patterns: A Randomized Clinical Trial Exploratory Sub-Analysis. Nutrients. 2026 Jun 24;18(13):2053. doi: 10.3390/nu18132053. PMID: 42451057; PMCID: PMC13363438. 

Wilson RE, Marshall RD, Murakami JM, Latner JD. Brief non-dieting intervention increases intuitive eating and reduces dieting intention, body image dissatisfaction, and anti-fat attitudes: A randomized controlled trial. Appetite. 2020 May 1;148:104556. doi: 10.1016/j.appet.2019.104556. Epub 2020 Jan 1. PMID: 31901439. 

Martins C, Roekenes J, Salamati S, Gower BA, Hunter GR. Metabolic adaptation is an illusion, only present when participants are in negative energy balance. Am J Clin Nutr. 2020 Nov 11;112(5):1212-1218. doi: 10.1093/ajcn/nqaa220. PMID: 32844188; PMCID: PMC7657334. 

Perry AS, et al. The inflammatory proteome, obesity, and medical weight loss and regain in humans. Obesity (Silver Spring). 2023 Jan;31(1):150-158. doi: 10.1002/oby.23587. Epub 2022 Nov 5. PMID: 36334095; PMCID: PMC9923277. 

Fothergill E, et al. Persistent metabolic adaptation 6 years after "The Biggest Loser" competition. Obesity (Silver Spring). 2016 Aug;24(8):1612-9. doi: 10.1002/oby.21538. Epub 2016 May 2. PMID: 27136388; PMCID: PMC4989512. 

Participantes neste episódio1
L

Luca Baêta

Host
Assuntos3
  • Controle de Peso e SaúdeSet point · Settling point · Dual Intervention Point
  • Regulação de HormôniosLeptina · Grelina · GLP-1 · PYY · CCK
  • Consumo energético e eficiênciaTermogênese de atividades não relacionadas ao exercício físico · Taxa metabólica de repouso · Eficiência muscular
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LBLuca Baêta

Existe realmente um peso que o corpo quer defender? Fala, galera, bem-vindos ao meu podcast. Eu sou o Luca Baeta e hoje vamos nos debruçar sobre um tema ainda meio polêmico. Só que antes eu tenho alguns recados iniciais. Primeiramente, muito obrigado pela sua audiência. Eu preciso de um minutinho seu para ir lá no agregador de podcast favorito colocar para seguir, fazer um comentário no episódio e avaliar o podcast para me ajudar a aparecer para mais gente.

Você também pode indicar esse ou outro episódio para alguém que você acha que pode se interessar pelo tema. E por último, você pode participar também enviando dúvidas. É só enviar a sua pergunta para o email profbaeta@gmail.com ou pelo Instagram @profbaeta. E essa pergunta de que existe um peso que o corpo quer defender À primeira vista, ela parece ser sobre o emagrecimento, só que não é. Na verdade, ela é uma pergunta muito mais fundamental: quem tá no comando do peso corporal?

É você? É o cérebro? São os hormônios? É o ambiente? Ou nenhum deles isoladamente? Você já reparou que emagrecer é difícil, só que recuperar o peso é mais fácil do que piscar o olho? E talvez você conheça alguém que perdeu 20 quilos, ou mesmo você seja esse alguém. Você ficou anos tentando emagrecer e no fim das contas até conseguiu, só que algum tempo depois os 20 quilos voltaram, e às vezes até mais do que os 20 quilos. E aí vem a avalanche de gente na internet falando: ah, ele relaxou, perdeu o foco, ele voltou a comer errado.

Só que hoje eu quero fazer uma pergunta diferente: e se parte dessa história estiver acontecendo sem que a pessoa sequer perceba? E se o cérebro estiver trabalhando silenciosamente para desfazer aquele emagrecimento? Parece um pouquinho teoria da conspiração ou fala de coaching quântico, só que essa pergunta, na verdade, levou décadas de pesquisa e até hoje ela não tem uma resposta definitiva. Existe uma coisa que incomoda, né, os pesquisadores há muito tempo.

Imagina duas pessoas, as duas emagrecem, as duas seguem dietas, as duas fazem exercício e as duas chegam exatamente ao mesmo peso. Só que você corta para 5 anos à frente e uma delas continua naquele peso, só que a outra recupera praticamente tudo. E o complicado é que isso acontece com uma frequência muito maior do que a gente gostaria. E olhando rápido, para esse cenário sem aprofundar em nada, a primeira hipótese parece bem óbvia, né?

Então, quem você pensaria muito fácil que era simples: elas voltaram para os antigos hábitos. Só que ao longo do tempo começaram a surgir estudos estranhos. Alguns pesquisadores observaram pessoas logo após o emagrecimento e essas pessoas diziam sentir mais fome, mais vontade de comer, mais pensamentos sobre comida, menor saciedade. E isso acontecia mesmo quando continuavam tentando manter o peso. Era como se alguma coisa tivesse mudado.

Então, a pergunta, nesse momento, ela deixou de ser: por que elas voltaram a comer? E passou a ser: por que o organismo passou a querer tanto que elas comessem? Então, a gente tem aí a primeira pulga atrás da orelha. Então, vamos começar eliminando hipóteses. O primeiro suspeito que a gente poderia pensar é o estômago. Talvez ele fique vazio mais rapidamente nessas pessoas. Só que, se você estuda minimamente fisiologia, você entende que isso não explica tudo.

Um segundo suspeito que a gente poderia pensar, talvez, é o intestino. Sei lá, talvez ele absorva mais energia do que o basal, né, diante do processo de emagrecimento. Só que essa ainda não parece uma explicação suficiente. E um terceiro suspeito que a gente pode pensar é a gordura corporal. Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que ela era só um depósito de adipócitos, então quase como se fosse um galpão onde o corpo armazenava energia para usar depois.

E fazia sentido pensar dessa forma durante esse período, afinal, se você engorda, você aumenta o depósito. Se você emagrece, você diminui o depósito. Simples. O problema é que o corpo raramente faz uma coisa que seja simples. Só que a ciência evoluiu os métodos de análise, ela passou a repensar hipóteses, experimentos, e felizmente a gente consegue com o tempo descobrir novas pecinhas de quebra-cabeças antigos. Então, na década de 1990, os pesquisadores começaram a perceber que o tecido adiposo não não era só um lugar onde a gordura ficava parada.

E o tecido adiposo também produz moléculas, envia sinais, conversa com outros órgãos. Então, em outras palavras, eles descobriram que o tecido adiposo é um órgão endócrino. E uma das descobertas mais importantes aconteceu em 1994, quando um cientista chamado Jeffrey Friedman identificou um hormônio produzido pelos adipócitos, a famosa leptina. Esse nome, por sinal, eu falei da leptina no episódio anterior, mas eu não falei da origem do nome, né?

Esse nome, por sinal, ele vem do grego leptos, que significa magro. E a expectativa na época, né, foi enorme em torno dessa descoberta. Os pesquisadores acreditaram que eles finalmente tinham encontrado o hormônio capaz de curar a obesidade. E a lógica parecia impecável. Então eles pensavam assim, ó, se as pessoas com obesidade têm muita gordura, então eles deveriam produzir muita leptina. E se a leptina reduz a fome, bastaria administrar leptina para emagrecer.

E parecia brilhante, era um raciocínio simples que, poxa, acendeu uma luz aí na cabeça da galera. Só que a biologia complica a história. Pouco depois que eles descobriram isso sobre a leptina, eles descobriram também que a maioria das pessoas com obesidade já possui leptina em abundância, como eu falei inclusive no episódio anterior. Então, para dar uma retomada rápida, o problema para quem tem obesidade não é a falta do hormônio, é que o cérebro parece deixar de responder adequadamente ao sinal.

É um fenômeno conhecido como resistência à leptina. Foi o que eu falei no episódio anterior. E essa descoberta em si mudou completamente a maneira como a gente enxerga a gordura corporal. Então, ela deixou de ser somente um depósito de energia e passou a ser uma fonte contínua de informação para o cérebro. Então, imagina milhares de pequenos sensores espalhados pelo corpo. Esses sensores vão ser adipócitos, e cada adipócito funciona quase como se fosse uma estação meteorológica.

À medida que a gordura diminui, essas estações começam a transmitir um aviso para o cérebro, falando assim: Ó, a gente está perdendo reserva. Quem é que recebe essa mensagem? É o cérebro. Então, imagina agora uma sala escura, cheia de monitores, bem aquele estereótipo lá do hacker, né? Aquela sala escura, tá, que tem monitor para tudo quanto é lado, e todos esses monitores mostram informações diferentes. Então você tem lá temperatura corporal, quantidade de gordura, disponibilidade de energia, hormônios intestinais, glicemia, sono, estresse.

Essa sala, entre aspas, né, ela existe no nosso corpo. Ela se chama hipotálamo. Então, ali no hipotálamo, chegam informações vindas praticamente do corpo inteiro. Só que no meio dessa zona toda surge uma pergunta: como exatamente o cérebro sabe quanta gordura existe espalhada pelo corpo? Afinal, o hipotálamo está lá protegido dentro do nosso crânio, ele nunca vê os adipócitos, ele não mede diretamente o percentual de gordura, ele não sobe na balança.

Então, como que ele sabe? Como que o hipotálamo simplesmente sabe quanta gordura a gente tem lá no nosso corpo? Simples, ele recebe relatórios. Para ficar fácil de entender, imagina uma grande empresa. Tem lá um prédio de uma empresa gigante, tem 20 milhões de andares. Você acha que o diretor dessa empresa vai sair caminhando pelo prédio para descobrir se ainda tem papel no almoxarifado, por exemplo? Não. Os departamentos que são responsáveis por essa, pelo almoxarifado, é que vão enviar as informações continuamente.

O cérebro funciona mais ou menos desse jeito. Então, o tecido adiposo, ele envia leptina, o pâncreas envia insulina, o intestino envia o GLP-1, PYY, CCK, que são os hormônios que eu falei no episódio anterior, o estômago envia grelina, até o nervo vago Ele transmite informação sobre a distensão do trato gastrointestinal. E aí, o que o hipotálamo faz? Ele recebe tudo isso e tenta responder a uma única pergunta. Qual é essa pergunta?

Estamos seguros do ponto de vista energético? Então, perceba que ele não está lá calculando calorias, ele só está interpretando sinais. Alguns desses sinais vão indicar abundância, outros vão indicar escassez. E partindo dessa comunicação de sinais é que ele vai ajustar fome, saciedade e gasto energético. É menos como uma calculadora e mais como se fosse aquele carinha lá, como é que é o nome, é o maestro, como se ele fosse o maestro tentando manter uma orquestra em equilíbrio.

Imagina que você é o hipotálamo. Você não sabe que a pessoa quer caber numa roupa, Você não conhece o conceito de percentual de gordura. Você nunca ouviu nem falar em Projeto Verão. Tudo o que você percebe é que as reservas energéticas diminuíram ou aumentaram. Então, o que um sistema orgânico evoluído para sobreviver faria? A gente sabe pelos estudos que ele tentaria recuperar essas reservas aumentando a fome, reduzindo parte do gasto energético.

Alterando os sinais de saciedade e mudando até a forma como o nosso cérebro responde aos alimentos. Só que calma aí, a gente falou agora de reduzir parte do gasto energético, só que sempre paira aquela dúvida de como exatamente o nosso cérebro reduz esse gasto energético. Quando a gente ouve que o metabolismo diminui durante o emagrecimento, muita gente imagina que tem lá como se fosse um botão escondido em algum lugar do cérebro escrito: reduzir metabolismo.

O spoiler é que não funciona assim. O organismo não tem um único mecanismo para economizar energia. Ele faz economias em vários lugares ao mesmo tempo. Algumas são bem discretas, passam despercebidas. Só que, por exemplo, você gesticula menos, você troca menos de posição na cadeira, você balança menos a perna, você levanta menos vezes ao longo do dia, você dirige um carro automático ao invés de um manual. Ou seja, você passa menos marcha, você aperta menos pedal, você sobe mais de escada rolante ou de elevador e menos de uma escada comum.

Então todo esse conjunto de movimentos cotidianos, ele cai dentro daquela termogênese de atividades não relacionadas ao exercício físico, que eu também falei no episódio anterior. E isso pode variar algumas dezenas e até centenas de quilocalorias entre indivíduos. E para além dessa questão de economizar nos movimentos, o teu corpo ele ainda faz alguns ajustes hormonais. Então você tem alterações na atividade do sistema nervoso simpático, você tem mudanças na eficiência muscular, você tem pequenas reduções na taxa metabólica de repouso.

E nenhuma dessas mudanças isoladamente parece muito, só que se você somar tudo isso, elas tornam o organismo progressivamente mais econômico. Imagina de novo aquele exemplo lá da empresa. É, você pega essa mesma empresa Imagina que ela vai tentar reduzir custos. Então, primeiro, primeiro ela vai apagar algumas luzes, depois ela vai reduzir o ar-condicionado, depois vai diminuir as horas extras do funcionário, ela pode até tentar demitir alguns.

Só que nenhuma medida vai resolver o problema sozinha. Só que se você juntar tudo isso, elas vão fazer a diferença nessa empresa. Só que Nós ainda não temos a resposta para esse problema. A gente só encontrou um mecanismo. Só que agora vem a pergunta mais importante do episódio: se esse mecanismo realmente existe, por que a obesidade aumentou tanto nas últimas décadas? Se o cérebro defende um determinado peso, por que esse peso mudou tão rapidamente na população?

A nossa genética, ela certamente não mudou em 50, 100 anos. Então, alguma coisa nessa conta aí não está fechando, porque, de um lado, o organismo parece reagir quando a gente perde gordura; do outro, ele parece aceitar ganhar gordura ao longo da vida. Como que essas duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo? Então, foi justamente tentando responder essa pergunta que os pesquisadores começaram a criar modelos. Não respostas, mas modelos.

Então é como se fossem mapas para organizar aquilo que eles, aquelas coisas que eles observaram ao longo das décadas de pesquisa. O primeiro modelo, ele dizia o seguinte: ó, talvez exista aí um peso específico que o nosso cérebro tente manter, como se fosse um termostato. Então se você se afasta desse peso, o organismo reage. Só que, anos depois, outros pesquisadores olharam para esse modelo e falaram assim: olha, cara, e se não existir um número programado?

E se o peso fosse simplesmente o resultado de um ambiente onde a gente vive? E foi aí que a ideia passou a ser considerar a disponibilidade de comida, de atividade física, estresse, sono, genética. Todos esses fatores aí encontrando como se fosse um ponto de equilíbrio num determinado peso. Só que aí, mais tarde, surgiu ainda uma terceira proposta, sugerindo que talvez nenhuma das duas estivesse completamente certa. Imagina aí um rio.

Quando você nada no meio desse rio, a correnteza ali é relativamente tranquila. Só que quando você tenta chegar muito perto das margens, Não parece que a força aumenta? Se você já teve essa experiência, parece que a força ali dá uma aumentada de repente, né? Talvez os pesquisadores pensaram assim, ó, talvez o organismo funcione mais ou menos assim, não é? Então, dentro de uma faixa relativamente ampla, ele aceita mudanças. Só que quando você tenta ultrapassar certos limites, os mecanismos compensatórios vão se tornar muito mais intensos, mais fortes.

Então, talvez, esse tempo todo, a gente estava discutindo 4 perguntas diferentes sem perceber. A primeira é: do que esse sistema é feito? E a gente respondeu que é de hormônios, de neurônios, de adipócitos, do hipotálamo. A segunda pergunta era: como esses elementos estão organizados? E a gente descobriu que estão organizados em redes neuroendócrinas que conectam ali o tecido adiposo, o intestino e o cérebro. E a terceira pergunta era: como que tudo isso funciona?

E a gente conseguiu explicar a leptina, a grelina, o GLP-1, o PYY, a insulina, a atividade simpática, o gasto energético adaptativo, o comportamento alimentar. Então a gente formou ali um circuito de retroalimentação Só que a quarta pergunta que a gente veio trabalhando talvez seja mais importante: é para quê? Por que a evolução desenvolveria um sistema tão sofisticado? E aí eu repito o que eu falei no episódio anterior: porque durante quase toda a história da nossa espécie, perder reserva energética era muito mais perigoso do que acumular essas reservas.

E o sistema nunca evoluiu para deixar a gente magro, ele evoluiu para deixar, para manter a gente vivo. Então pensa você lá na vida de um ser humano há 50 mil anos, não tinha supermercado, não tinha geladeira, não tinha aplicativo de entrega. Então, cara, conseguir alimento era uma atividade, para dizer no mínimo, incerta. Então alguns dias eram abundantes, outros, sei lá, eram improdutivos demais. Então, nesse cenário, os indivíduos que eram capazes de perceber rapidamente a redução das reservas energéticas e reagir a ela, eles tinham maior probabilidade de sobreviver e deixar descendentes.

Então, em outras palavras, o nosso cérebro não evoluiu para defender um peso específico, Ele evoluiu para defender a sobrevivência. O problema que a gente enfrenta é que o nosso ambiente, ele mudou muito mais rápido do que a nossa biologia. Então, como eu falei antes, né, hoje a gente vive cercado de alimento densamente energético, altamente palatável e disponível praticamente o tempo todo. Então, o nosso sistema biológico, ele continua funcionando como ele foi projetado, que é para sobreviver.

Só que agora ele tá respondendo a um mundo completamente diferente daquele onde ele surgiu. Então talvez, no fim das contas, o organismo ele não esteja tentando impedir o emagrecimento. Talvez ele esteja apenas tentando evitar aquilo que durante milhões de anos foi uma das maiores ameaças à nossa espécie: ficar sem energia antes da próxima oportunidade de comer. E se a gente juntar tudo isso, agora a gente pode tentar responder à pergunta inicial.

Então, existe mesmo um peso que o corpo tenta defender? Só que aí eu rebato de novo falando o seguinte: talvez essa seja a pergunta errada, porque o nosso organismo não enxerga um número na balança. O que o nosso organismo enxerga? Ele enxerga sinais, fluxos, reservas, disponibilidade energética e risco de escassez. E os pesquisadores, eles deram nomes diferentes à tentativa de explicar esse comportamento. Eu vou falar aqui dos 3 principais que foram surgindo.

Um deles é chamado de set point. Então imagina como se fosse um alvo relativamente definido. O que que é esse set point? Imagina como se fosse um termostato. Você programa lá um ar-condicionado, por exemplo, né, para 23 graus. Se a temperatura subir, esse termostato vai ligar. Se a temperatura cair demais, ele vai desligar. Então o objetivo não é impedir qualquer variação, é trazer o sistema de volta para um ponto que é considerado ideal.

E alguns pesquisadores, eles começaram a imaginar talvez, né, que o organismo pudesse fazer uma coisa semelhante a esse sistema do termostato, só que com as nossas reservas energéticas. E segundo essa hipótese, o nosso cérebro, ele teria ali um, como se fosse um valor de referência para quantidade de gordura corporal. Então, sempre que a gente se afastasse muito desse valor, alguns mecanismos compensatórios iriam entrar em ação.

Então, a gente teria mais fome, o menor gasto energético, mudanças hormonais e alterações na recompensa alimentar. E essa ideia explica muito bem por que que tantas pessoas sentem muita dificuldade em manter o emagrecimento. E ela também encontra apoio em estudos com animais, em alterações hormonais observadas após perda de peso, algumas pesquisas ali que mostram aumento persistente da fome mesmo meses depois do emagrecimento.

Só que isso aí esbarra em um problema. Se existe realmente um ponto fixo, como que a gente explica o aumento progressivo da obesidade em praticamente todos os países do mundo? Será que bilhões de cérebros mudaram o termostato ao mesmo tempo? É muito improvável isso. Então talvez esse modelo do set point esteja captando uma parte importante da realidade, só que não toda ela. E aí, o que que rolou? Outros pesquisadores, eles propuseram o settling point.

O que que é esse settling point? Então, pela definição da teoria, né, o peso ele emerge do equilíbrio entre a biologia e ambiente. Como que surgiu isso aí? Eles simplesmente perguntaram o seguinte: e se o nosso organismo não estivesse tentando defender exatamente um número? Imagina agora um lago. Num lago, a gente sabe que o nível da água depende de muitas coisas. Então, depende de chuva, dos rios que desembocam nele, da evaporação, da quantidade de água que sai.

Então, não tem lá um sensor dizendo que o lago precisa ter exatamente 2 metros de profundidade. O nível simplesmente vai se estabilizar no equilíbrio entre todas essas forças. Então, segundo essa hipótese, o peso corporal funcionaria da mesma maneira. O ambiente onde a gente vive, a atividade física que a gente faz ou não, a disponibilidade de alimentos, o sono, o estresse, a nossa genética e os nossos hábitos formariam um sistema complexo.

E o peso que você tem é apenas o resultado desse equilíbrio. Essa teoria do settling point vai explicar muito melhor Por que que a obesidade aumentou tanto nas últimas décadas? Afinal, nosso ambiente, ele mudou muito. Só que essa teoria, ela também deixa algumas perguntas em aberto, porque continua difícil explicar por que que o organismo reage de uma maneira tão intensa quando algumas pessoas emagrecem. E aí, mais recentemente, surgiu uma hipótese chamada Dual Intervention Point.

O que que ela sugere? Ela sugere que o corpo, ele tolera variações dentro de uma faixa, só que ele reage com mais força quando certos limites são ultrapassados. Então, como é que funciona essa hipótese? Imagina um corredor, tem um corredor dentro da tua casa. Enquanto você caminha no centro desse corredor, você pode andar alguns passos para direita ou para esquerda sem ter nenhuma resistência, né? Então você tem espaço ali, né?

A menos que você tenha móveis ou sei lá. Mas imagine um corredor vazio. Então, você pode andar um pouquinho para a esquerda e para a direita sem ter nenhuma resistência. Só que vai lá você tentar atravessar a parede, vai ser um obstáculo bem importante, não concorda? Então, esse modelo do Dual Intervention Point propõe uma coisa bem parecida, como se o nosso organismo tolerasse uma faixa relativamente ampla de variação no peso corporal e, dentro dessa faixa, o ambiente e o comportamento exercem ali uma influência.

Só que, se a gente se aproximar muito dos extremos, que seriam as paredes, alguns mecanismos biológicos passariam a atuar de maneira muito mais forte. Isso faria sentido do ponto de vista evolutivo. Então, assim, abaixo de um determinado limite aumenta o risco de morrer por falta de energia. Só que, acima do outro limite, aumenta problema relacionado ao excesso de gordura corporal. E entre esses extremos seria mais ou menos ali a região onde o ambiente tem mais liberdade para moldar o nosso peso.

Na prática, esse modelo do Dual Intervention Point consegue incorporar alguns aspectos do Set Point e do Settling Point, ao invés de tratar essas teorias como mutuamente excludentes. Então, veja, nenhum desses modelos responde a todas as observações, só que juntos eles revelam uma coisa importante: que o nosso peso corporal não é simplesmente uma consequência da vontade ou da falta de vontade. Ele emerge, na verdade, da interação entre o cérebro, entre o hormônio, entre o tecido adiposo, entre o comportamento, entre o ambiente onde a gente vive e, claro, a nossa história evolutiva.

Então, quando alguém diz: Ah, o meu corpo quer voltar ao peso antigo, talvez essa frase seja um pouco imprecisa, só que ela aponta para um fenômeno real. O que é esse fenômeno? Que tem um diálogo constante entre o nosso organismo e o cérebro sobre quanto de energia a gente tem disponível. Então, assim, se fosse sintetizar, né, se a gente tem uma perda de peso importante, a nossa contra-regulação é robusta, como a gente viu. Então a gente tem ali a fome aumentando, o gasto diminuindo, e isso parece de fato uma defesa do peso, da adiposidade anterior.

E é frequentemente descrito isso como set point deslizante, entre aspas. Isso é um argumento forte a favor de alguma forma de homeostase defendida. Por outro lado, a gente viu também pela teoria do Dual Intervention Point que os indivíduos podem ter limites superiores muito diferentes devido à genética, devido ao ambiente. Então você vai ter alguns indivíduos que vão ganhar peso com pouca resistência biológica enquanto outros vão permanecer mais protegidos, vamos dizer assim, né?

Só que a pergunta que a ciência tenta responder não é mais se existe ou não um peso programado. A pergunta que está em curso ainda é: como que um cérebro evoluído para sobreviver, como que ele decide que a gente já tem energia suficiente para parar de lutar por mais? E essa mudança de pergunta talvez seja mais importante do que qualquer resposta que a gente tenha hoje. Então, como que eu sintetizaria o que a gente tem de evidência hoje?

Que essa ideia do set point fixo, que seria aquele termostato mais rígido, ele tende a perder em plausibilidade para explicar aquela obesidade populacional e a variabilidade interindividual. E o Dual Intervention Point, ele tende a ganhar um pouco mais como uma estrutura conceitual moderna, só que a gente ainda não tem comprovação 100% em humanos por teste discriminatório. Então, no momento, nesse momento agora de 2026, o que a gente tem é modelos híbridos onde a gente considera um setpoint ajustável e também uma forte defesa contra perda de tempo, de peso.

Isso aí provavelmente descreve melhor esse conjunto de observações clínicas atuais. E você já sabe, se você quiser um plano alimentar personalizado para você, sem firula e sem complicação, ou um planejamento de treino personalizado, manda mensagem lá no Instagram @profbaeta ou entra no site www.lucabaeta.com. Obrigado pela audiência e se você gostou, compartilhe esse episódio nas suas redes sociais. Isso vai me ajudar bastante. Valeu, até o próximo episódio!

Anunciantes1

Luca Baeta

Consulta ou planejamento personalizado
external
#18 - Existe realmente um peso que o corpo quer defender? | Castnews Index — Castnews Index