Episódios de os pantanais da alma

A Metáfora Alquímica no Contexto da Psicologia Clínica na Perspectiva Junguiana

11 de maio de 202613min
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O estudo analisa o estado da arte sobre o uso da alquimia como metáfora dentro da psicoterapia, particularmente na psicologia analítica de Carl Gustav Jung. O objetivo principal da pesquisa é sistematizar como os conceitos, processos e a simbologia alquímicos podem ser aplicados para interpretar fenômenos e eventos psicoterapêuticos, como os desafios emocionais causados pela pandemia de COVID-19 ou experiências de depressão e anedonia. Utilizando um método qualitativo baseado em uma revisão bibliográfica, os autores exploram as operações alquímicas—como calcinatiosolutio, e coagulatio—e sua correspondência metafórica com os processos de transformação psíquica. O artigo conclui que a metáfora alquímica oferece uma perspectiva valiosa, embora complexa e pouco sistematizada, para enriquecer o trabalho do psicólogo clínico.

Assuntos7
  • Simbolismo e linguagem da almaVocabulário imagético para processos psíquicos · Transformação psicológica como processo ativo · Compreender a alma nos termos da própria alma
  • Operações Alquímicas na PandemiaSolutio (dissolução) e a pandemia · Coagulatio (solidificação) e a busca por estabilidade · Mortificatio (morte psíquica)
  • Psicologia JunguianaAlquimia como metáfora terapêutica · Carl Gustav Jung · Processo de individuação
  • Invenção da depressão como doençaChumbo como metáfora da depressão · Coagulatio na depressão · Transformação do sofrimento difuso em concreto
  • James de Percival EverettUso da linguagem alquímica na terapia · Personalidade como combinação de elementos · James Hillman
  • Alquimia SagradaTransmutação de chumbo em ouro · Transformação psicológica da alma · Origens egípcias, chinesas e sumérias
  • União e divisãoSeparatio (separação) e clareza de distinções · Conjunctio (união) inferior e superior · Tomada de decisão em dilemas
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Olá. Hoje a gente vai mergulhando numa conexão que, assim, à primeira vista parece até meio maluca. Totalmente. O que é alquimia, aquela prática antiga, super misteriosa, tem a ver com a psicologia clínica de hoje. Parece que nada, né? Exato. Mas, olha, a gente vai se basear num artigo acadêmico brasileiro, bem recente, de 2024, e ele faz uma coisa muito interessante.

Ele usa alquimia como uma metáfora. Uma metáfora poderosa para o que acontece na terapia, sabe? Especialmente na psicologia analítica do Carl Jung. Isso. Então, a nossa proposta aqui é tentar decifrar essa linguagem, esses símbolos dos alquimistas, para ver se eles dão umas pistas novas sobre a nossa mente.

Seja para entender a depressão ou até o impacto de uma crise como foi a pandemia, né? Exatamente. E o mais incrível é que quando a gente fala em alquimia, a imagem que vem é sempre a mesma. Chumbo em ouro. É, alguém tentando transformar chumbo em ouro, certo. Só que o Jung olhou para isso e teve uma sacada, assim, genial.

Qual foi a sacada? Ele percebeu que, no fundo, os alquimistas não estavam falando só de metal. Ao tentar transformar a matéria ali no laboratório, eles estavam, na verdade, projetando. Projetando. Projetando e descrevendo a própria transformação psicológica, a transformação da alma deles. O verdadeiro trabalho, o opus, acontecia era dentro. Ok, vamos ter que desempacotar isso porque a ideia é fascinante. Com certeza.

Para além daquele estereótipo do mago, o que era a alquimia de verdade? O artigo fala que as origens são meio difusas, né? São bem precisas. Tem coisa do Egito, técnicas de tintura, da China com elixires medicinais, da Suméria com a metalurgia. É uma mistura. Uma mistura.

Mas a ideia central, o eixo de tudo, é a transmutação. A transformação. Isso. Havia uma crença quase poética, sabe? De que a mãe terra gerava os metais. Só que alguns saiam, tipo, imperfeitos, como o chumbo.

E o ouro seria o metal perfeito, estado final. Exato. O ouro seria um metal maduro. E a alquimia seria um jeito de acelerar esse amadurecimento da matéria. E é bem aí que o Jung entra e, tipo, vira o jogo completamente. Totalmente. Ele olha para o alquimista, sozinho, no laboratório, lidando com uma substância que ele mal conhecia e pensa, espera um pouco. Exatamente. É aí que o Jung propõe a ideia de projeção.

Tenta imaginar a cena. O alquimista olhando para o caldeirão, vendo fumaça, cor mudando, coisa borbulhando. Ele não fazia ideia do que era aquilo quimicamente. Nenhuma. Então a mente dele fazia o que a mente humana sempre faz quando encontra o desconhecido. Preenche a lacuna.

preencha a lacuna com o conteúdo do próprio inconsciente. Ah, então é quase como se ele estivesse olhando para uma mancha de tinta, tipo um teste de Rorschach químico, e vendo os próprios medos, as esperanças, os conflitos ali dentro.

Perfeito, a analogia é perfeita, é exatamente isso. As visões que ele descrevia, os monstros, os deuses, as uniões, as separações que ele dizia que aconteciam na matéria, eram símbolos. Para Jung, eram símbolos puros da jornada interior de transformação da psique, a jornada que ele chamou de processo de individuação. O caminho para se tornar quem você realmente é.

Isso. O laboratório do alquimista era, no fim das contas, um espelho da própria alma. E aqui a conversa fica, para mim, ainda mais interessante. O artigo cita um psicólogo, James Hillman. Pós-junguiano. Isso. Que leva essa ideia para um lugar super prático na terapia. Ele não quer só interpretar os símbolos. Ele quer usar a própria linguagem da alquímia. Como é que funciona isso?

A proposta do Hillman é genial. Ele sugere que a gente pare de usar aqueles termos super abstratos da psicologia, sabe? Tipo, regressão a serviço do ego. Exato. E que a gente adote a linguagem concreta, visceral da alquimia. Ele olha para os materiais básicos sal, enxofre, mercúrio, chumbo, e vê eles como metáforas... Metáforas para os componentes da nossa personalidade? Isso.

E o vaso alquímico, recipiente onde tudo acontece, passa a ser o próprio setting terapêutico. O espaço seguro onde a personalidade é, entre aspas, cozinhada e transformada. Nossa, tem uma citação dele no artigo que é de arrepiar. É algo tipo, eu sei que não sou formado de enxofre e sal, e todavia eu sou. É fantástica essa frase.

É uma imagem muito poderosa. É, porque ela captura uma verdade psicológica profunda. E tem outra que deixa isso mais claro ainda. O Hillman descreve a personalidade como... Como o quê? Uma combinação específica de chumbo depressivo denso com enxofre agressivo inflamável, sal sábio amargo e mercúlio evasivo volátil. Uau!

De repente, a complexidade humana ganha textura, ganha peso, cheiro. Você quase consegue sentir, sabe? É uma linguagem que fala direto com a experiência, não só com a teoria. Entendi. Então, não são só os ingredientes, mas também o modo de preparo, as ações. As operações. As operações. O artigo foca muito nisso, nos verbos do processo.

E para deixar isso bem concreto, ele usa um exemplo que todo mundo viveu, a pandemia. A pandemia tsunami, como uma psicóloga chamou. Exato. Isso. Vamos entrar nesse laboratório da mente durante a pandemia.

Duas operações alquímicas ficaram muito claras ali. A solútil e a coagulátil. Solútil, dissolução. Isso, ligada ao elemento água. A pandemia foi uma solútil em escala global. Ela dissolveu o nosso sólido cotidiano.

As rotinas, as certezas. O contato físico, tudo. De repente, a gente estava imerso, afundando num mar de medo, de incerteza. Quem não se sentiu meio que dissolvendo naqueles primeiros meses, sem saber que dia era? Totalmente. A sensuação de afogamento era muito real. E o artigo até alerta que ficar nesse estado de dissolução leva a uma coisa que eles chamavam de mortificátio.

Uma morte psíquica, uma aniquilação pesada. Muito. E como resposta a essa inundação toda, a psique busca quase que instintivamente a operação oposta. A coagulatio. A coagulatio. A solidificação ligada ao elemento terra. Foi a nossa busca coletiva por terra firme. Começamos a criar novas estruturas para solidificar uma nova realidade. O home office, as chamadas de vídeo.

Exato. Os novos métodos de terapia que surgiram, como a terapia de sessão única que o artigo menciona. Foi um movimento para sair da água e achar o chão de novo, para coagular um novo jeito de viver e não se afogar. Espera aí, porque agora o artigo faz uma conexão que parece ir contra tudo que a gente pensa. Sobre depressão? É.

Ele liga essa mesma operação, a coagulátil, de solidificar a experiência da depressão e ao chumbo. Mas a gente sempre vê a depressão como paralisia, um peso morto. Como que esse chumbo pode ter um lado construtivo? Essa virada é o não peguei bem. É, ela é contra-intuitiva mesmo, mas é o coração da visão alquímica.

Vamos pensar. O que acontece na depressão? A energia da pessoa se volta para dentro. Certo, ela perde o contato com o mundo externo. Exato. E o mundo interno dela fica, digamos, aguado. As fantasias, os pensamentos, tudo perde a forma, fica vago, dissolvido. É uma solútil interna. A pessoa sente que está se desfazendo por dentro. Ok. Até aí faz sentido. Mas e o chumbo? Onde ele entra?

O chumbo, na alquimia, é o metal de Saturno. Ele representa o peso, a escuridão, a densidade, a melancolia. Na psicologia, ele é a própria experiência do peso da depressão. Certo. E o que essa pressão toda do chumbo faz, ela força a coagulação daquele conteúdo interno que estava todo aguado. Ela solidifica as fantasias. Ah!

Ela obriga a pessoa a olhar para aqueles sentimentos não como uma névoa, mas como algo concreto, pesado, real. Entendi. Então é como se o peso da depressão, por mais horrível que seja, desse corpo a um sofrimento que antes era só difuso. E só aí, com o sofrimento sólido, a pessoa pode de fato trabalhar com ele.

Exatamente. É um passo extremamente doloroso, não há dúvida, mas nessa perspectiva é um passo necessário no processo de individuação. É o momento em que a psique ganha substância, firmeza. É transformar a névoa em rocha? Perfeito. Uma rocha pesada, mas sobre a qual eventualmente se pode construir alguma coisa. É a coagulátil na sua forma mais profunda.

Isso faz muito sentido para o caos da pandemia ou para o mundo interno da depressão. Mas e os problemas do dia a dia, mais sobre conflito, confusão?

Tipo, devo sair desse emprego ou não? Alquimia tem ferramenta para isso? Tem, com certeza. E aí entram outras duas operações que o artigo menciona. A separatio e a conjunctio. Outro par. É, se solútil e coagulatio são um eixo sobre causa e ordem, separatio e conjunctio são um eixo sobre análise e síntese. Separatio. Separação, imagino. O que a gente está separando.

A separatio é a arte de fazer distinções. Na terapia, isso é fundamental. É separar o eu do outro, o meu sentimento do que estão projetando em mim. Certo. E no seu exemplo do emprego, é separar o literal do simbólico. A questão literal é, o novo salário vai pagar as contas.

E a simbólica? A simbólica é o que esse trabalho significa para a minha identidade, para o meu propósito. A separatio é como uma espada afiada da consciência que corta essa confusão e permite que a gente olhe cada parte do problema com clareza.

E depois de separar tudo, imagino que a gente precise juntar de novo. Essa seria a conjunctio. Exato. A conjunctio é a união dos opostos para criar algo novo. Mas aqui tem um detalhe crucial. O artigo diferencia uma conjunctio inferior de uma superior.

Qual a diferença? A inferior é uma união contaminada. É quando você se dissolve num grupo, numa ideia, num relacionamento, sem ter feito a separatio antes. Você perde quem você é. Entendi. A coniactio superior é a verdadeira integração. Depois de separar o literal e o simbólico no dilema do emprego, você consegue unir as duas coisas numa decisão que faz sentido tanto na prática quanto para a sua alma.

É criar um terceiro ponto de vista. Um ponto de vista libertador. A própria relação terapêutica, aliás, é uma coniáctil. Duas substâncias se encontram e, se o processo dá certo, as duas saem transformadas. Então, no fim das contas, o que fica de tudo isso? A grande lição desse nosso mergulho é que a alquimia nos dá um vocabulário.

Um vocabulário imagético, né? Isso, um conjunto de imagens e ações que descrevem processos da alma que são difíceis de botar em palavras. A transformação psicológica deixa de ser uma cura e passa a ser um processo ativo, um trabalho de laboratório. Com suas etapas. Com suas etapas de aquecer, dissolver, separar, unir.

Perfeitamente. E é um vocabulário que vem da própria psique. Isso é o mais interessante. O artigo deixa claro que é um tema complexo, os textos são obscuros, exigem estudo. Não é simples. Não é. Mas a força dessa abordagem aparece justamente quando a terapia empaca, sabe? Quando as teorias que vêm de fora não dão mais conta da experiência daquela pessoa. A alquimia oferece um jeito de entender a alma nos termos da própria alma. Seguindo os símbolos dela. É um caminho de dentro para dentro.

Para a gente fechar, fica uma reflexão. O artigo nos mostra o laboratório do alquimista como um espelho da nossa mente. Se a nossa vida é a matéria-prima dentro do vaso, e as nossas experiências, as alegrias, as crises, os desafios são o fogo e a água que movem essa matéria, em qual operação alquímica a gente se encontra nesse exato momento?

Será que estamos numa solútil, sentindo tudo se dissolver? Ou numa coagulátil forçada, tentando criar um chão firme? Ou numa separatil? Talvez numa separatil dolorosa, precisando fazer distinções importantes. E por fim, qual o ouro? Qual versão mais autêntica de nós a gente está tentando, talvez sem nem saber, criar a partir do chumbo do nosso dia a dia?