O quilombola que entrou na faculdade aos 35 e, aos 47, foi aprovado auditor-fiscal | José Maria
De metalúrgico em uma fábrica insalubre a aprovado aos 47 anos para Auditor Fiscal: a história real do quilombola que venceu pelo estudo e transformou a própria vida por meio dos concursos públicos.Filho de agricultor e pescador, o aluno Gran José Maria nasceu na comunidade quilombola de Umarizal, no interior do Pará. Ainda jovem, seu pai tomou uma decisão que mudaria tudo: deixou a roça para trás para que o filho pudesse estudar.Mas a vida não facilitou.Quando terminou o ensino médio, José Maria foi empurrado para uma fábrica de silício metálico, onde passou 15 anos trabalhando sob calor extremo, poeira e risco constante. Até que, durante a crise de 2008, veio o choque: foi demitido e percebeu que não tinha estabilidade nem futuro.José Maria tinha um sonho: ser bancário. Então, aos 35 anos, decidiu recomeçar. Entrou na faculdade e começou a estudar para concursos, mesmo sem nunca ter tido um computador. Construiu uma rotina que poucos sustentariam. Acordava às 4 da manhã, trabalhava o dia inteiro e ainda dava aula à noite.Na reta final para a SEFA Pará, enfrentou o maior teste. Seu filho de 3 anos adoeceu, ele passou noites no hospital, o corpo entrou em colapso e a desistência bateu forte. Mas ele não parou.Aos 47 anos, abriu o resultado e leu: aprovado para Auditor Fiscal da SEFA Pará. Ele chorou sozinho.Foi o choro de 15 anos de metalúrgico, 9 anos de bancário, 7 anos de professor e de uma vida inteira de quilombola que venceu.
- Trajetória de Marcio TicotoComunidade quilombola de Umarizal · Infância e trabalho na roça · Mudança para a cidade e adaptação · Trabalho na fábrica de silício metálico · Demissão e busca por estabilidade · Ingresso na faculdade e estudo para concursos · Carreira bancária · Professor concursado · Aprovação como Auditor Fiscal · Superação de desafios pessoais e familiares
- Preparação para ConcursosDoença do filho Emanuel · Pressão e ansiedade na reta final · Adaptação da estratégia de estudo · Noite sem dormir antes da prova
- O papel da educação e persistênciaImportância do estudo para ascensão social · Resiliência diante das adversidades · O poder transformador da educação · Equidade e cotas como ferramentas de inclusão
- O Gran Cursos e a jornada de concurseiroUso de plataformas de estudo online · Estratégias de estudo e simulados · Aprovação em múltiplos concursos
Bom dia, boa tarde, boa noite, tudo bem? Seja muito bem-vindo, seja muito bem-vindo aqui ao canal Imparável no YouTube e também ao Imparável Cast no Spotify. É com muito orgulho que digo que o meu convidado de hoje é um quilombola, filho de agricultor e pescador, o aluno Gran José Maria, nasceu na comunidade quilombola de Umarizal, do interior do Pará.
Ainda jovem, seu pai tomou uma decisão que mudaria tudo. Deixou a roça para trás para que o filho pudesse estudar. Mas a vida não facilitou. Quando terminou o ensino médio, José Maria foi empurrado para uma fábrica de silício metálico, onde passou 15 anos trabalhando sob calor extremo, poeira e risco constante. Até que, durante a crise de 2008, veio o choque. Ele foi demitido e percebeu que não tinha estabilidade.
nem futuro. José Maria tinha um sonho, ser bancário. Então, aos 35 anos, decidiu recomeçar. Entrou na faculdade e começou a estudar para concursos, mesmo sem nunca ter tido um computador. Construiu uma rotina que poucos sustentariam. Acordava às quatro da manhã, trabalhava o dia inteiro e ainda dava aula à noite. Na reta final para o concurso da Cefaz, Secretaria de Fazenda do Pará,
Encontrou o maior teste. Seu filho de três anos adoeceu e José Maria precisou passar noites no hospital com ele. O corpo entrou em colapso e a desistência, ou melhor, o pensamento de desistência bateu forte, mas ele não parou, ele não desistiu. Aos 47 anos, abriu o resultado e leu aprovado para auditor fiscal da Secretaria de Fazenda do Pará. Ele chorou sozinho.
Foi choro de 15 anos de metalúrgico, 9 anos de bancário, 7 anos de professor e de uma vida inteira de um quilombola que venceu por meio do estudo. E é com muita gratidão, muito honrados, estamos aqui com esse aluno gran, que tem essa história tão inspiradora, José Maria. Muito obrigado por estar aqui conosco hoje.
Eu que agradeço, Gabriel, pela realização, não só do sonho de passar, mas também de fazer parte do imparável. É o sonho de qualquer concurseiro. José Maria, você nasceu numa comunidade quilombola no interior do Pará, filho de agricultor e pescador. Como era a vida em um mar Rizal? Bom, a vida no interior é...
bem peculiar. A gente vive da agricultura familiar, nós morávamos em um território quilombola, e lá cada um tem o seu pedacinho de terra, e a vida era bem precária, mas assim, éramos felizes.
nós vivíamos reunidos em comunidades, aquelas brincadeiras de criança todas, e a minha infância toda foi nessa comunidade, até o período em que eu tive que avançar nos estudos, porque na época...
A escolarização na Vila de Marizal era apenas a antiga oitava série, que atualmente é o nono ano. Então, assim, a vida toda de infância foi na comunidade quilombola e, como toda criança do interior, tem que trabalhar na infância para ajudar os pais na lavoura.
na pesca, na caça, enfim. Foi, assim, a maior parte da minha vida de infância. Até aproximadamente os 15 anos de idade eu estive por lá. Você é o primogênito de seis filhos. Qual era a expectativa do seu pai em relação a você? Bom, assim, no interior, quando a gente morava por lá, meus pais sempre foram evangélicos, desde quando eu me entendi.
comecei a entender das coisas, e eu era visto como um prodígio, um menino muito inteligente, que eles viam em mim que eu tinha futuro. Alguns tios meus sempre diziam que esse vai ser o primeiro doutor da família. Então, gerava uma grande expectativa por meio do estudo, mas a gente estava ali.
no meio do nada, no meio do mato, na beira do rio. Então, é uma mistura de ribeirinho e quilombola, mas, assim, uma expectativa gerada de que eu teria um grande futuro. E como é que foi essa mudança para a cidade?
Foi um choque pesado. Tu está no interior, no teu convívio, no teu habitat natural, onde tu sabe de tudo, que tu sai para a mata, roda o mato, não se perde, vai para o rio, enfrenta a tempestade nos momentos de pescaria.
e de repente você vai morar em uma área urbana, habitada por muito mais pessoas de todos os estados, como foi o caso da nossa mudança, de lá do interior, diretamente para a cidade vizinha, que era Abreu Branco ali, vizinha da cidade de Baião. E foi um choque, você sair e vai do interior com um sotaque, um linguajar diferente.
como grande parte da população brasileira é. A cada lugar você consegue ver uma variação linguística diferente. E lá não era diferente. Nós temos uma forma peculiar de falar. Claro, hoje já saí um pouco da minha forma de falar. Eu sou um paraense que gosta de chiar, que gosta de comer arroz, muita farinha e peixe assado. Mas foi um choque muito grande sair do interior e ir para...
para o meio urbano estudar com pessoas de outros estados que ali estavam também, tendo migrado no processo de...
de migração ali por conta do Polo Madeiriro, que era o município de Vitória do Xingu. Então, eram pessoas de todos os estados, que moravam por ali, estados do Nordeste, principalmente Maranhão, vizinho. E foi um choque. Eu falava diferente, o meu jeito de falar. De vez em quando, sofria um pouquinho de bullying na escola. Você concluiu o ensino médio?
E aí, para onde a vida te levou? Bom, a missão do meu pai, quando ele viu que a escolarização estava findando no interior, era justamente mudar para um lugar para levar os seus seis filhos para continuarem os estudos. Como eu era o primogênito, o primeiro a concluir o fundamental, então ele mudou com o objetivo de fazer com que eu continuasse meus estudos.
fui para o ensino médio na cidade de Breu Branco, na época era o sistema modular de ensino, não era o sistema seriado como é hoje, e concluí o ensino médio ali por volta do ano 2000, mais ou menos, de repente a vida me empurra para outros caminhos. Assim como meu pai, eu passei pelas serrarias trabalhando, mas quando concluí o ensino médio...
Eu atravessei a rua de uma serraria para uma fábrica de silício que ficava do outro lado da rua. E lá toda aquela expectativa gerada de prosseguir nos estudos, de ser alguém na vida, ficaram paralisados dentro de uma metalúrgica, trabalhando com silício metálico, poeira.
de sílica, fume, gases, vapores e uma área totalmente insalubre. E lá eu passei por longos 15 anos sendo operador, no carregamento de fórmula de redução, e até um dia eu acordar novamente para a vida e retomar os estudos. Você, em determinado momento, pensou, não posso morrer aqui, né?
Exatamente. Um dia, quando já tinha passado por um processo de instabilidade no emprego, para quem é pai de família, já era pai de família na época, de 2004 em diante, eu já tinha uma filha, a Emily, que já estuda faculdade em outro estado, e ela já estava conosco, bebezinha.
E, de repente, você, pai de família, se vê desempregado, né? E eu, opa, alguma coisa me deu aqui um... Esquentou as orelhas, sabe? Ligou um pisca-alerta. Eu, peraí.
ninguém está seguro aqui, não existe funcionário bom, nada disso vale no momento que uma empresa passa por dificuldade, ela não quer saber se você é capacitado, se você é o melhor, então isso não funciona. E eu vi que ali eu não tinha segurança, que eu poderia a qualquer momento ficar desempregado e tomei uma atitude na vida e disse, não, preciso estudar, preciso estudar.
Eu não vou morrer aqui na boca desses fornos. E você começou a estudar o quê? De repente passou a crise ali, em 2008 e 2009, eu fiquei cinco meses em casa ainda, fazendo outras atividades. Você foi demitido nessa crise? Fui demitido, fui demitido. Passamos por um processo de demissão voluntária e tivemos que esperar a crise passar.
Não foi tão voluntária assim, né? Era voluntária, mas ninguém quer ficar desempregado. Chegou um momento em que a nossa chefia, o nosso supervisor de fábrica, foi obrigado a apontar nomes para serem demitidos, porque uma hora a fila da demissão parou. Ninguém queria ser voluntário.
E acabamos sendo apontado, eu e mais uns três colegas, e nessa demissão eu fui para fora. Mas ainda me acomodei. Quando eu voltei cinco meses após cessar mais a crise, de novo, ali estava eu, no mesmo ano de 2009, na mesma fábrica.
Você voltou para lá? Voltei para a fábrica, mas determinei. Falei assim, irei ficar aqui até tantos anos, pois eu irei estudar e quando eu estiver concluindo meus estudos, eu vou procurar outra coisa para fazer e vou estar mais preparado para a vida. Mas ainda adiei. Passaram-se ainda de 2009 para 2013, uns quatro anos depois, que é aí o realmente.
comecei a estudar. E, em 2008, quando o seu supervisor o escolheu para esse processo de demissão, ele disse algo que você nunca esqueceu. O que ele disse? Exatamente. Quando o nosso supervisor reuniu para indicar os quatro nomes que seriam demitidos.
E cada um que ele escolhia, ele justificava a escolha. Achei muito justo, muito louvável. E aí foi um ponto-chave para eu realmente acordar para a vida, me despertar, que eu estava ali estagnado há 15 anos, não tinha procurado estudar, nada.
Na verdade, não. Há nove anos eu ainda estava na primeira demissão. Há 15 anos foi o que eu passei lá. E ele falou uma coisa interessante quando ele me apontou. Nós éramos operadores no carregamento, lá no piso de cima dos fornos, onde a gente despejava a matéria-prima, que era a base de quartzo, carvão e cavaco de madeira.
Um ambiente super insalubre, quente demais, que eu tenho marcas no rosto do calor, escureceram, máscara quente, algumas queimaduras, às vezes. Mas ele me falou uma coisa na hora da escolha. Ele disse, eu vou escolher o José, ele me chamava de Zezinho, porque eu sou um Zezinho, baixinho.
não chego nem a 1,60m, ele disse, vou escolher o Zezinho, porque o Zezinho, se eu escolher qualquer um dos outros operadores, eles irão passar dificuldade lá fora. O meu amigo, ele disse o nome.
já está aqui desde 94, a única coisa que ele fez na vida, entrou jovem aqui sem estudos. Se ele sair da fábrica, os filhos deles vão passar fome, ele não sabe fazer outra coisa na vida. E assim ele foi justificando, quando chegou a minha vez, ele disse assim, e o Zezinho, não. O Zezinho é um cara muito inteligente.
superpotencial para despontar lá fora. Então, se ele sair, ele saindo, eu tenho certeza que ele não vai passar dificuldade, porque ele é muito capacitado para exercer outras atividades e fazer outras coisas na vida.
E isso eu guardei para mim, que eu não esqueço, já se passaram aí muitos anos, pelo menos 16 anos, e eu lembro disso como se fosse hoje. Foi o despertar para a vida. Ele me alertou, e eu não esqueço dele, inclusive ele é meu amigo, e ele me alertou para a vida. Isso marcou muito a minha vida lá naquela fábrica, e foi o desvisor de águas para eu retomar a minha caminhada até chegar onde eu cheguei hoje.
Com 35 anos você entrou na faculdade? 35 anos. Sem nunca ter tido um computador, né? Nunca tinha tido um computador. No momento em que eu entrei para a metalurgia...
Eu estava apenas com nível médio, ainda tinha tentado um vestibular na Universidade Federal do Pará, mas fui reprovado na segunda fase, na cidade de Itucuruí, já tentando o ensino superior, mas que na época não havia essa democratização do ensino e você sabe que não era fácil para entrar.
Universidade particular fora de quantitação na época, anos 90, início dos anos 2000, sem chance. Tentei universidade pública sem êxito, então...
Eu, depois, já em 2013, com 35 anos de idade, eu, de fato, ingressei para o ensino superior. Universidade particular, já estava com o ensino mais democrático, as mensalidades mais acessíveis, e eu tinha condição de bancar.
Aí eu ingressei na Universidade Pitágoras Nopar, no União Polo de Itucuruí, e lá comecei a minha trajetória de estudante universitário e no mesmo ano de concurseiro. Isso no final de 2013, e nunca mais tinha parado de estudar até esta aprovação recente, e aí foi o fim de uma carreira de concurseiro.
O que te fez olhar para os concursos como um possível caminho? Exatamente como um pai de família, buscando estabilidade, qualidade de vida e melhores condições também de trabalho, me fez olhar para a carreira pública.
como uma oportunidade. Eu vi ali um caminho para eu sair da instabilidade da iniciativa privada e poder dar a melhor condição de vida para a minha família, meus filhos, e um dia poder ajudar a minha mãe, que foi sempre o meu maior sonho. Eu disse, mãe, no dia em que você se aposentar, eu quero também estar em condição de te dar uma outra aposentadoria.
de complementar a tua renda não esporadicamente como eu tenho feito, como eu sempre gostei de fazer na medida da minha condição, mas não, mas eu te dou uma renda vitalícia para que você possa ter uma aposentadoria com dignidade e aí então fiquei lutando até um dia eu conseguir
ser aprovado em vários concursos pequenos, foi subindo, subindo, mas um dia eu tive um objetivo maior, que era ser auditor fiscal, não de qualquer físico, eu sou muito família, muito caseiro, eu nunca fui muito saidor, viajante, para morar longe dos meus familiares, mas ser auditor exatamente da CEFA, do nosso estado do Pará.
E fiquei perseguindo esse sonho até hoje, até dar certo. Sua primeira aprovação foi no Bampará. Exatamente. E como é que essa aprovação mudou sua vida?
Já esta primeira aprovação, na verdade, eu tinha cursado o ensino médio, era um médio técnico, técnico em contabilidade. Era o sonho do meu pai que eu fosse contador, ou pelo menos contabilista. E eu cursei técnico em contabilidade, e de repente...
procurando melhores condições de trabalho. Eu vi ali, sempre achei muito bonito a carreira bancária, e de fato é, muito linda, eu acho. E, de repente, despertou um sonho ali. Não conhecia muito as carreiras ainda. Eu disse, não, eu quero ser bancário. Quero trabalhar em uma instituição bancária.
E no final de 2013, exatamente, eu sei o dia em que eu comecei a estudar, 28 de dezembro de 2013, foi o meu primeiro dia de estudo para prestar um concurso, que era de lá há 52 dias, Banco do Brasil.
2014. Logo em março, Caixa Econômica Federal. E só reprovação, sem método, sem nada. Ia estudando de qualquer forma. Estudava em curso em presencial. Mas eu trabalhava trocando de turno. Ainda tem esse detalhe, né? Na fábrica era revezamento de turno.
hora eu estava seis da manhã, meio-dia, seis da tarde, meia-noite, isso fazia com que, quando eu estava à noite, eu tinha que dormir durante o dia para poder voltar a trabalhar à noite. Não foi um estudo muito com método, eu fui estudando da forma que dava. E acabei, em maio, no concurso do Bampará, ficando ali em quinto lugar no cadastro de reserva.
Mas passaram-se dois anos, eu já estava lecionando como professor, concursado também no município de Tucuruí, de repente uma ligação e depois um telegrama do Bampará me convocando para me mandar para cá, para a cidade de Vitória do Xingu. E eu sem hesitar, sem saber nem onde ficava, apesar de ser no Pará. Nosso Pará é gigantesco. Então eu estou daqui para Tucuruí a 430 quilômetros.
Procurei no mapa, nem encontrei, na cidadezinha pequena, mais famosa pela hidrelétrica de Belo Monte, mas eu aceitei. E vim assumir o emprego de bancário, isso já faz nove anos. Estamos por aqui. E durante esse tempo, você acumula dois trabalhos, professor à noite, bancário de dia.
No ano seguinte, quando eu já estava morando em Vitória do Xingu, sozinho, sem ter vindo ninguém para cá comigo, morava de aluguel, em kitnet, e no ano seguinte surgiu a notícia do concurso municipal, e eu, vindo já da área de educação, vi que o cargo técnico podia acumular com o cargo de professor.
E eu prestei o concurso para o município de Vitória do Xingu e fiquei em primeiro lugar para professor, para pedagogo aqui da área urbana. Só havia uma vaga e eu consegui ficar em primeiro lugar. E comecei a acumular de 2019 em diante.
até hoje, até por enquanto, até enquanto eu estou fazendo essa gravação aqui, que eu não sei quando ela vai rodar, mas eu acumulo há sete anos uma dupla jornada.
É cansativo, hein? Assim, eu entrei num labirinto, um beco sem saída, porque eu estava ali sonhando mais alto em conseguir um cargo mais elevado a nível estadual ou nacional, mas agora eu estava ali num duplo emprego, dupla jornada, sem possibilidade de estudar.
mas com a vontade de vencer. Eu fui arrumando alguns horários, finais de semana, totalmente comprometido com o estudo. E não me restava outro horário, a não ser acordar 4 da manhã para estudar até umas meia hora antes de ir para a agência bancária, porque fica aqui pertinho de casa. Uns três minutos. E só me restava estudar pela madrugada para tentar depois sair da situação onde eu me meti, que era...
o duplo emprego, e não dava para abandonar o emprego, porque tinha toda uma adaptação de vida, em finanças, enfim. Só me restava passar em um outro, de um nível mais elevado, para eu sair dessa situação. Foi durante esse período que você conheceu o GRAM? O GRAM? Eu conhecia, via esporadicamente, eu acredito que... Cheguei a comprar, eu acho, na época, antes de 2018.
cursos, avulso, para um curso específico, só matérias, mas 2018 eu já tinha assinatura quando eu passei no concurso para professor aqui no município, já era assinante GRAM e já estava estudando para Polícia Federal, misturado com AGU, MPU, e por último, em dezembro, todos esses concursos eu já fiz em 2018. PF,
MPU, AGU e depois o de prefeitura. Só fui aprovado no da prefeitura aqui do município. Já era assinante grã. Inclusive, eu disse que o dia que eu estivesse no imparável, eu ia te falar. Quando eu tentei comprar, é curioso. Quando alguém entrou em contato lá dos teus funcionários, dos seus atendentes lá de venda, né?
E eu disse, poxa, por que vocês não vendem igual a Netflix? Aí como é a Netflix? Ué, vocês não precisam comprometer todo o nosso cartão de crédito, vocês cobram mensalmente só a parcela da assinatura. Não sei se já era assim, mas para mim não era, só vendia igual o concorrente vende, só fechadão, tá, 3 mil reais, enfim, dependendo do pacote.
E eu conversei com a pessoa que me atendeu, ela falou assim, vou falar com o meu chefe. E depois me retornou, pronto, seu José, a sua assinatura vai ser no cartão e vai ser parcelada. Só vai entrar no cartão mês a mês apenas o valor da parcela.
E de lá em diante, nunca mais eu deixei de ser assinante do GRAM. Só que eu nunca aceitava, Gabriel, renovar, fazer grade para a Vitalícia. Eu disse, não, eu não quero estudar para o resto da vida. Sempre falei isso. Eu vou passar este ano. E nada de passar. Quando foi no ano passado, final de 2024, com CNU, TSE Unificado, eu aceitei emigrar para a Vitalícia e agora eu passei.
Falei, meu Deus, depois que eu assinei Vitalício, eu fui aprovado em vários, na verdade. Sou cadastro de reserva lá no AFT. Ainda tenho expectativa de ser chamado, mas agora não quero mais nada. Fiquei cadastro de reserva no MPU, que fui convocado 23 de janeiro, de dezembro, presente de Natal de 2025. E eu tive o privilégio de dizer não. Dizer não, porque eu já sabia que ia passar no TJ, em primeiro lugar também.
Falei, não, entre o MPU e o Tribunal de Justiça, eu quero o TJ Pará, que vai ser aqui na minha cidade, do lado, Altamira, vou morar na minha casa mesmo. Mas, curioso, a assinatura do GRAM, para mim, em 2018 até hoje, nunca mais eu fiquei sem renovar nenhum ano. Agora sim, agora é vitalício. E nos meses finais, antes da prova do CEFA, da CEFA e do Pará,
Seu filho adoeceu, você foi parar na emergência também. Momentos difíceis aí em preparação para o seu grande sonho, que era ser auditor. O que te impediu de desistir naquele momento e de onde você tirou forças para seguir em frente?
Bom, eu sempre deixei as férias, devido a ter essa rotina, férias de banco, as licença-prêmio, que a gente tem lá como direito ainda, para os momentos de reta final de concursos que eu estava ali em fase de preparação.
E não foi diferente para o da Cefra. Eu estava ciente de que aquele seria meu último concurso, independente do resultado. Então, o que eu fiz? A primeira coisa foi chegar lá com o meu gerente do banco. Falei, moço, você precisa me liberar. Por favor, estou precisando muito. É tudo que eu quero para a minha vida. É esta aprovação. Eu esperei por esse momento. E só me resta uma coisa. Uma chance para eu poder...
me preparar e finalizar os estudos para poder chegar bem no concurso. Você me dá um mês de licença que eu tenho e depois as minhas férias. E eu fiquei uns dois meses. Ele falou, eu só vou te liberar porque tu tem chance. Ele falou desse jeito. Eu sempre falo para ele, eu agradeço todos os dias. Eu só vou te liberar porque eu sei que você tem chance. E me liberou e fiquei uns dois meses em casa estudando.
do banco liberado, mas continuando lecionando a noite. E nesses dois meses, muitas coisas aconteceram, doenças na família, e o meu filho Emanuel adoeceu alguns dias, ficou muitos dias sem se alimentar, e para quem tem filho sabe do que eu estou falando, o coração da gente fica partido, porque o teu filho não se alimentando de jeito nenhum, e já emagrecendo, perdendo peso, e aquele desespero para o hospital, e a pressão só aumentava.
porque vários dias eu tive que suspender estudo e a reta estava final. Os últimos preparos para a prova e depois de tanta pressão, acredito que eu fiquei também muito mal, e também passei por situações que tive que parar na emergência do pronto-socorro, fiquei com os braços todos roxos de tanto tomar medicamento na veia.
deu um espico de pressão, e foi muito tenso, né, e eu tive que...
por causa disso, dessas reviravoltas, dessas coisas que aconteceram. Eu tive que rápido reformular a minha estratégia que eu vinha adotando para poder chegar bem. Atrasou o conteúdo e eu mudei, mas eu não queria mudar, porque eu sabia que eu estava no caminho, porque todos os concursos que eu fiz de 2024 para cá estavam sendo aprovados, usando a mesma estratégia que, inclusive, sempre esteve aí no GRAN, e eu nunca usei, Gabriel.
Quando eu passei a usar, foi batata, foi tira e queda, que são aqueles simulados, aqueles benditos simulados que os professores fazem na reta final. Eles sempre estiveram aí, sempre estiveram, mas eu te confesso, eu sempre fui um estudante leitor, li, li, já fiz provas repetindo até duas, três vezes o edital, mas não exercitava e nunca usei essa ferramenta de simulados de reta final aí. Em 2024, quando eu passei a usar ele no CNU,
Foi assim, foi lá pra cima a nota e deu tudo certo. Mas por causa do motivo de doença, eu reformulei rápido a minha estratégia, faltava ali 20 dias pra primeira prova.
e eu tive que retomar conteúdo, lendo de novo, porque um concurso de CFAES não te permite ir para lá com lacuna de estudo, você precisa preencher e exercitar. E eu retomei os estudos de disciplina atrasada e só pude retomar o simulado na semana da primeira prova.
E o simulado da segunda prova, eu fiquei paralisado com ele 15 dias, só retomei na semana da prova. Mas graças a Deus, deu tudo certo. Na noite anterior à prova, você dormiu mal, né? Seu filho dormiu tarde, ainda teve um desafio para chegar ao local de prova, como é que foi isso?
Pois é, a gente mora na cidade ao lado, são 45 quilômetros de Vitória do Xingu até a cidade de Altamira, onde normalmente acontecem as provas do Estado, por ser uma cidade polo.
E pra mim sempre foi um terror fazer provas de manhã, porque, sabe, bate uma ansiedade, o sono não vem, a madrugada entra, aí estou ali rolando, e o meu filho está-se numa fase energizado, ainda está até hoje, voltaram às escolas, mas ele continua dormindo meia-noite, uma hora da manhã, e justamente, e eu já prevendo isso, falei, o Emmanuel não vai dormir cedo na véspera da prova, mas foi batata, eu falei pra mãe dele ainda.
Não coloca ele para dormir à tarde, para ver se ele dorme cedo. Mas que nada. Ele dormiu à tarde, quando foi à noite. Quem disse? Ele queria brincar à meia-noite, quase uma hora da manhã. E foi aquela apreensão, ansiedade bateu. E tinha que acordar às 5h30 para ainda ir para Altamira. Noite sem dormir, para poder fazer a primeira prova.
Como é que foi a sensação quando você viu seu nome como aprovado? Todas as etapas ali, tudo resolvido no concurso de auditor fiscal da Cefá. Bom, até a data da divulgação do resultado...
A fase pior foi a fase dos recursos, porque depois que nós fizemos a segunda prova, que foram dois domingos diferentes, vi o resultado, conferi o gabarito preliminado na primeira prova, tranquilo, e eu disse assim, só falta uma. E eu me joguei com todas as minhas forças, porque eu tinha prometido para minha esposa Sueli que seria o último.
Ela falou, ah, mas tu vai passar e tu vai depois daquele outro. Não vou. Eu vou ser devolvido pra minha família. Eu vou ser de vocês de novo. E superei a primeira prova.
mas na segunda teve altos e baixos, eu creio que não só comigo, mas com todos os outros aprovados, e foi exatamente a disciplina de economia regional que, preliminarmente, um monte de gente reprovada. Então, foi tenso até sair o resultado dos recursos, graças a Deus superamos o recurso. Então, tive que esperar até o dia 24 para realmente...
poder contemplar o meu nome lá na lista, né? E aquela dúvida, eram poucas vagas para a minha cota quilombola, e eu falei, eu só preciso de uma, eu preciso ou da primeira ou da oitava, não importa, eu quero uma vaga. E quando foi no dia 24, eu fui tenso para dormir, acordei de madrugada, olhei no diário oficial, só estava a notícia de que durante o dia estaria no site da Banca Fadesco o resultado preliminar.
E deu a hora de ir para o banco, eu fui, e lá eu fiquei acompanhando os grupos, né? E nada, todo mundo ali apreensivo. De repente, um candidato postou lá o PDF com a lista preliminar do fiscal. E eu imediatamente entrei no site da Fadesp, uma lista extensa, né? Com 30 e poucos mil candidatos ainda todos juntos, né? E fui lá.
procurando em ordem alfabética, nem pesquisei pelo meu nome, passei o olho na lista porque eu estava olhando os quilombolas, aprovado também, indígena, fui vendo escotista, até chegar no meu nome. E todos os quilombolas que eu passava não tinham atingido o mínimo, estavam reprovados, eliminados. E quando eu cheguei lá, José Maria da Silva Ribeiro Júnior.
Auditor fiscal da Cefapará, aprovado. Eu estava em uma sala só, mas aí eu não resisti. Chorei ali sozinho e um monte de coisas passaram pela minha cabeça naquele momento. E comecei a bater foto da tela e enviei para minha esposa, para minha filha, para minha mãe, para minha irmã Elane, que fica sempre na torcida, dizendo um dia vocês vão ver meu irmão no imparável. E eu estou aqui, mano, tá? Você estava certo.
E depois eu passei a notícia para o grupo da família, e daí foi só alegria, eu ainda comemoro todos os dias até hoje. Você ainda chora de vez em quando, sozinho? Choro, chorei ontem à noite, quando eu estava vendo o meu relato, que eu terminei o meu questionário, três horas da manhã hoje, quando eu estava com a minha esposa revisando.
bateu as lágrimas nos olhos. Quando a sua produtora me mandou o compilado do texto, eu também chorei novamente, porque estava muito real. Aquilo é a minha história, de verdade.
Você disse que esse choro foi de 15 anos de metalúrgico, 9 de bancário, 7 professor. Por isso que ainda não acabou. Então, 15 anos de choro, de metalurgia, 9 de bancário.
sete anos como professor dos meus queridíssimos alunos adultos, jovens lá da EJA, que eu amo de coração, que eles ficam super preocupados porque o professor deles vai embora. Mas mais do que isso, é uma vida, cara, de quilombolas, de alguém que veio...
Muito forte esse relato, emocionante, muito emocionante, José Maria. Não, sem problema, tem que ter vantagem. José Maria, o que você diria para aquele jovem que operava no forno, na fábrica, achando que havia o risco da vida dele ser assim para sempre, depois disso tudo que você passou?
Eu sempre converso com a minha esposa sobre...
ser persistente. Eu sou uma pessoa que não desisto fácil das coisas. Quando eu me inculco com algo, eu traço como objetivo, eu vou perseguir até eu alcançar. E quando eu estava ali naquela fábrica, quando o meu antigo supervisor de fábrica me falou aquelas palavras que eu nunca esqueci, eu...
mudei a minha trajetória de vida, comecei a perseguir sonhos, objetivos, e também ser exemplo para as pessoas. A gente mora na cidade de Vitória do Xingu, e nós, eu tenho que admitir que eu sempre fui uma referência para muitos jovens aqui, jovens da igreja, pessoas da minha escola, pessoas do banco onde trabalho, e a sociedade em geral.
Não importa de onde você vem, o que você faz, a religião, o credo, o que importa é a sua vontade de vencer, que vai determinar aonde você quer chegar. E quando eu olho, eu cheguei aqui, no imparável. O que é impossível para mim?
José Maria, muito obrigado pela participação, pela conversa. Foi um prazer escutar mais um pouco do seu relato aqui. Já tinha lido, agora escutava pessoalmente, vamos dizer assim. Muito honrado, muito grato. Parabéns mais uma vez. Obrigado. Eu agradeço, Gabriel, pelo convite. E eu sei que...
A minha história não é só a minha história, ela, sem sombra de dúvida, é a história de muitos brasileiros esquecidos por aí. Disso eu não tenho dúvida. E eu gostaria também de relatar e dizer em que eu acredito, Gabriel. Eu sou um...
quilombola de origem humilde. Passei a minha infância toda na roça, pescando. Para mim era diversão, era divertido. Mas, dentro de mim havia um sonho de vencer. Dentro dos meus pais, que eles nem estudaram muito, não tem nenhum ensino fundamental completo, mas eles tinham essa vontade.
essa visão de querer que seus filhos estudassem, que eles conseguissem algo na vida por meio do estudo. E eu acredito muito, Gabriel, na educação. Eu acredito no poder transformador que tem a educação. É claro que, enquanto não houver...
a igualdade entre as pessoas. A gente sabe, nós que entramos por meio de cotas, sabemos que a equidade é necessária. Muito obrigado, José. E muito obrigado a você que nos acompanha aqui.
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