Episódios de Eco-Mitologia

A Patologia da Normalidade: Normopatia e o Exílio da Terra

04 de maio de 202617min
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Vivemos num mundo regido por regras. Mas e se essas regras fossem invisíveis, tão intrínsecas ao ar que respiramos que nem as questionamos? E se a nossa busca pela “normalidade” fosse, na verdade, uma das maiores barreiras para a vida plena e para a nossa relação com a Terra?

Hoje, vamos falar sobre a Normopatia. Não é um diagnóstico individual, mas sim a patologia da obediência à normalidade imposta. Na verdade, a Normopatia é um sintoma coletivo de um sistema que recompensa a obediência e pune a complexidade.

Este conceito é vital para a Ecopsicologia, que nos convida a despertar para a nossa Psique Ecológica. Se a Ecopsicologia fosse apenas sobre soluções rápidas, gestão emocional e adaptação positiva ao colapso, estaria a falar a partir do coração normopático do sistema.

Referências do Episódio:

Constelação de Relações

Activismo Eco-Mítico

O Manto frio da Modernidade

Cultivar a Complexidade

Assuntos8
  • Normopatia e Exílio da TerraPatologia da obediência à normalidade imposta · Busca pela normalidade como barreira para a vida plena · Sintoma coletivo de um sistema que recompensa obediência · Conceito vital para a Ecopsicologia · Psique Ecológica
  • Ecopsicologia RadicalDespertar para a Psique Ecológica · Questionamento do sistema normopático · Ênfase na relação radical e ecológica
  • Eu como Território e Ecologia PulsanteO eu está sempre em algum lugar, tecido conjuntivo com o território · A psique como ecologia pulsante · Reconvocação e vínculo das relações · Seres profundamente contextuais
  • Fim do Parentesco e Medo da ImplicaçãoNormopatia nega relação recíproca com não-humanos · Mente moderna treinada para dissociação coletiva · Identidade moderna como centro de controle separado · Vício metabólico do domínio e triunfo sobre o outro
  • Ciclo de Negação da NormopatiaPrivatização do sofrimento · Rejeição da complexidade · Terra como recurso · Risco de cooptação da ecopsicologia
  • Normopatia no dia a diaEvitar conflito e preferir conformidade silenciosa · Ser funcional mas emocionalmente desinvestido · Metabolismo moderno ocidental e fios invisíveis · Circuito de recompensa química e dopamina · Medo visceral de exclusão
  • Prática da Vulnerabilidade CompartilhadaResistência à recusa da implicação · Maturação responsável e abandono do lugar seguro · Mudança de pele do individual para o coletivo · Rendição ontológica
  • Sustentar o Desconforto e Cultivar o Gesto MenorTransformar normopatia e dissociação de forma terna e relacional · Sergir de novo relações leva tempo e disponibilidade · Cultivar o gesto menor de Erin Manning · Responsabilidade nasce da escuta dos vínculos
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Olá, eu sou a Sofia. Este não é um espaço de respostas rápidas, é uma escuta, uma travessia, um eco. Aqui caminhamos por entre mitos, pedagogias, lutos e encantamentos. Não para encontrar a verdade, mas para afinar a nossa relação com a Terra viva e com o simbólico, com a ecologia.

E com as histórias que ainda querem nascer, o que me move é a possibilidade de uma linguagem mais ecológica e afetiva. Uma linguagem que não nos separa do mundo, mas que nos convoque a cuidar, a relembrar, a reparar.

E cá estamos, de novo, em mais um episódio do podcast Ecomitologia. O meu nome é Sofia e hoje continuamos por estes temas que podem aparentar ser dissonantes, mas que são bastante fecundos e que nos ajudam, de facto, a ancorar partes de nós que querem, de facto, voltar para casa e que se recordam quando fazíamos parte e quando pertenciamos, não é? Não apenas individualmente, como temos vindo aqui a falar, mas de forma bastante...

coletiva. E hoje quero trazer algo enfim, a patologia da normalidade. Esta ideia da normopatia e como isto nos exila desta escuta profunda que aqui falamos também. De facto vivemos num mundo regido por regras.

E, no entanto, a pergunta aqui é se estas regras fossem invisíveis e tão intrínsecas ao ar que respiramos que nem sequer as questionamos porque nem sequer as vemos, não é? E se a nossa busca pela normalidade for, na verdade, uma das maiores barreiras para a vida plena e para a nossa relação com a Terra? Quero aqui trazer que a vida plena, neste contexto, é de facto a entrega ao emaranhado. A entrega...

à metamorfose, a esta vida que nos sustenta, que nos ancora, que nos atravessa, que pulsa connosco. Então hoje vamos de facto falar de normopatia. E isto não é um diagnóstico individual, mas sim uma patologia da obediência à normalidade imposta. Na verdade, a normopatia é um sintoma coletivo.

de um sistema que recompensa a obediência e pune a complexidade, a nuance, a subjetividade, o paradoxo. Palavras grandes ou pesadas, muito fecundas, que falamos bastantes vezes aqui. E este conceito de normopatia é vital para a ecopsicologia, de facto porque a ecopsicologia é também um convite a despertarmos para a nossa psicoecológica.

E, de facto, se a ecopsicologia fosse apenas sobre soluções rápidas de gestão emocional e de adaptação positiva ao colapso, estaria a falar a partir do coração normopático do próprio sistema. A ecopsicologia, tal como eu a pratico em termos diários, de vivência diária, em termos de estudo e de investigação, é uma ecopsicologia radical. Então, o que questiona, de facto, este coração normopático do nosso sistema?

E, portanto, a nossa travessia de hoje é sobre entender como esta adesão ao normal nos isola, nos afasta de dores e, crucialmente, que nos impede de reconhecer a Terra e os não humanos como parentes.

E trazemos aqui este tema da dopamina de obediência. Então o que é normopatia no dia a dia? É o que sentimos quando evitamos o conflito, quando preferimos a conformidade silenciosa ou quando somos funcionais mas emocionalmente desinvestidos, dissociados de alguma forma. Então o metabolismo moderno ocidental que nos dá forma, que nos estrutura.

têm vindo a instalar em nós fios invisíveis que mantêm as máscaras colocadas sem sabermos. E estes são comportamentos e narrativas vistos como normais e até desejáveis, mas que limitam as práticas e as teorias de resgate da nossa psiquicológica, do resgate das nossas relações, da nossa pertença mais visceral e mais funda.

Porque esta adesão a esta normalidade não é neutra, nunca foi. É um circuito de recompensa química. Como qualquer processo, somos seres gregários, não é? E, portanto, pertencer para nós é, de facto, essencial. Mesmo que estejamos a pertencer a sistemas altamente opressivos e brutais. O nosso corpo é inundado por pequenas descargas de dopamina cada vez que cumprimos as expectativas da cultura dominante.

E esta micro euforia hormonal valida a obediência e cimenta estes hábitos, não é? Então, a cultura, ao premiar a conformidade, transforma-se, de facto, num sistema de prazer condicionado, onde a felicidade é regulada pela adesão. E a diferença é sentida como ameaça bioquímica. Ou seja, a diferença é sentida, a diferença à alteridade, não é? Tudo o que é diferente de nós, como, de facto, uma ameaça. Isto sente-se no corpo, não é?

E o que está por trás desta obediência é um visceral e fundo receio de exclusão. Como mamíferos gregários de grupo, como dizia há pouco, a ameaça de separação, mesmo que simbólica, pode ser sentida como um risco de morte. E, portanto, estas práticas normopáticas, esta participação constante neste sistema, são posturas...

que na verdade são formas de sobrevivência. Mas, no entanto, ao tornar-se um padrão endurecido, a normopatia impede a escuta e a regeneração, impede a metamorfose. E é por isso que estas crenças culturais invisíveis evitam e constantemente dissociam-nos da possibilidade de relação radical, da raiz, e profundamente ecológica.

E quero trazer então esta ideia do fim do parentesco e o medo da implicação. São coisas muito presentes em nós, mesmo que não tenhamos palavras, que muitas vezes é o caso, que muitas vezes me dizem sobre...

os livros que escrevo, os artigos, e mesmo este próprio podcast, até agora não tinha palavras para descrever a minha experiência, e por isso é que é tão importante trazer palavras para as coisas, para as conseguirmos validar também, não é? Exatamente porque o grande problema aqui da normopatia, quando olhamos para a Terra, é que a normopatia nega a nossa capacidade de relação recíproca com o não humano.

com o próprio lugar, com os ecossistemas. A mente moderna tem vindo a ser treinada, como temos vindo a falar aqui, para a dissociação coletiva e para a irresponsabilidade privilegiada. A identidade moderna, por exemplo, é ensinada a proteger-se com muros altos e lentes espessas. É educada para se ver como um centro de controlo separado do mundo, que tem de provar o seu valor através da exaustão e da constante produção.

Então, se o eu é visto como centro, sujeito separado, autocentrado, então o mundo vivo já não pode ser um parente, mas é um objeto a ser explorado. A normopatia, de facto, está profundamente enredada no vício metabólico do domínio e triunfo sobre o outro, o que impossibilita a relação.

porque não há teia, não há nó, não há ligação que sobreviva a um constante domínio e extração. Basta vermos nas nossas próprias relações humanas, se estivermos constantemente a tentar dominar alguém ou a tentar extrair dessa pessoa apenas coisas para nós, sabemos que isso não é uma relação, não é? Ou seja, não estamos aqui a falar de nada de novo. Porque tudo passa a ser hierárquico. E isto cria um ciclo vicioso e muito pernicioso de negações.

onde, primeiro, o sofrimento é privatizado. Surgem estes constantes, também que temos falado aqui, estes constantes convites fáceis para ir para dentro, que reaproveitam o eu como centro de aperfeiçoamento, e isto privatizador, na ilusão de que basta resolver as coisas cá dentro.

e o sofrimento é de facto transformado num problema exclusivamente subjetivo o que reforça o sujeito isolado porque eu sinto-me assim e não sei se as outras pessoas se sentem assim e no meu trabalho aquilo que observo é que muitos de nós somos de facto atravessados pelas mesmas coisas há padrões, há matrizes sistémicas, intergeracionais profundamente estruturais e ecológicas mas a privatização da dor evita esta comunalidade esta partilha inteira Analytics

aqui neste ciclo de negação voltando ao ciclo de negação temos o ponto 2 a complexidade é sistematicamente rejeitada porque é mais fácil dissociar e seguir o brilho e as ilusões de excepcionalismo, muito mais simples do que relacionar afetida e irresponsavelmente com a dor e o luto que esta dissociação e esta separação constante que a modernidade nos traz terceiro, a terra Analytics

vira recurso. A ecopsicologia, de facto, corre o risco de ser cooptada para reforçar a lógica terapêutica de funcionalidade, ao tratar a natureza como um remédio neutro, cura ou refúgio. E, na verdade, reduzir o complexo mundo vivo.

vibrante a um recurso natural para a saúde mental, pode ser um mau remédio para a própria natureza e para nós próprios, porque não nos revincula, não cria relação, cria apenas mais extrativismo. E de facto a crença de que o bem-estar humano é a medida de todas as coisas...

É central, muitas vezes, para estes desvios da ecopsicologia e é preciso desmantelá-los. A normopatia, ao exigir-nos constantemente uma coerência e segurança, impede-nos de abraçar a complexidade, o paradoxo e o desconforto fértil.

que a vida relacional inevitavelmente nos pede. E todos nós sabemos disto na nossa própria vida. Todos nós já vivemos situações complexas, paradoxais e de desconforto, que muitas vezes abre depois possibilidades para outras coisas.

E quero com isto trazer também a importância da prática da vulnerabilidade compartilhada. Porque exatamente se a normopatia é a recusa da implicação, a recusa do vínculo com aquilo que não me interessa, com aquilo que é feio, com o que eu não gosto, com o que eu não vejo, com o que eu não sei, com aquilo que eu acho mal porque é diferente de mim.

A recusa do vínculo e da implicação acopulado ou ligado ao medo da exclusão, porque somos seres comunitários, não somos seres individuais, biologicamente falando, este é um gesto de resistência da própria ecopsicologia. E é uma maturação responsável, porque não se trata aqui de substituir a normalidade por uma nova rigidez moral.

não me interessa minimamente a moralidade, na verdade, mas de abandonar o lugar seguro do observador externo. O trabalho não é sobre o nosso valor individual, mas sobre a mudança de pele do individual, que se abre ao coletivo. Então, o caminho para o parentesco ecológico não passa pela força.

nem por se toda a gente pensasse assim mais por outra universalização, por outro pensamento puro e absoluto não, passa por uma rendição ontológica uma rendição do próprio ser como ser mundo de forma diferente, como eu digo muitas vezes então a implicação é presença, mas não é culpa e este é todo um caminho no nosso legado das religiões abrahâmicas não é?

Implicação é presença e não culpa. Implicação não é sentir culpa, mas sim reconhecer que já estamos dentro dos sistemas vivos.

e dos sistemas culturais que geram os problemas e as crises. Mas já estamos dentro disto tudo. Significa permitir que a dor e a beleza de todas estas teias que nos atravessam se possam reconfigurar, que nós possamos encontrar outras posturas, outras atitudes, outras possibilidades, outros pontos de entrada, outras perspectivas, no fundo. O eu é sempre território.

precisamos de recordar uma e outra vez que o eu está sempre em algum lugar. Não é universal, nunca foi. É um tecido conjuntivo com o território. E que a psique não é uma entidade apenas interna.

Mas uma ecologia pulsante, que envolve rios, fungos, traumas históricos e águas envenenadas, nunca foi sobre o eu e a natureza, mas sobre esta reconvocação, sobre este vínculo das relações, mesmo quando nos doem. O nosso eu sempre foi composto das florestas que já não existem e das ondas do mar. Assim como todos os outros humanos, somos seres profundamente contextuais.

E isto leva-nos aqui a algo que também temos vindo a falar muito nestes episódios, que é o sustentar o desconforto, compostar, digerir, transformar a normopatia, a dissociação e esta adaptação obediente não pode ser uma exigência moral.

Dizia há pouco também, não é? O processo é importante que seja terno, gentil, gradual e profundamente relacional. Sergir de novo relações dá trabalho. É preciso tempo, disponibilidade. E nós não estamos habituados a isso. Tudo é muito rápido hoje em dia. A velocidade e a massificação da destruição são...

absolutamente brutais mas sergir relações é possível mas demora tempo e isto exige cultivar o gesto menor, já falei sobre este conceito filosófico algumas vezes de Erin Manning e isto não se alinha com os modos dominantes de reconhecimento, de valor

individual, mas permite que algo novo possa começar a emergir, ganha-se um espaço diferente, uma sensibilidade, através, por exemplo, do fascínio da psico-mítica, que já falámos aqui também.

Então a responsabilidade não nasce da obrigação ou da decisão racional de fazer bem ou de fazer certo, mas sim da escuta dos vínculos que nos chamam e compõem. Então não estamos aqui a falar de uma hierarquia do fazer bem de forma pura.

e absoluta. Estamos num emaranhado da vida, confuso, estamos num emaranhado que nos chama à vida, mas onde nós conseguimos discernir, porque nós conseguimos escutar e conseguimos sentir o que é possível fazer no nosso próprio dia-a-dia, no nosso próprio contexto, no nosso próprio sistema territorial, familiar e ecológico.

Então assim, para concluirmos, de facto, esta normopatia tem-nos vindo a ensinar que a segurança reside no controle, na previsibilidade, na coerência, mas esta perspectiva da ecopsicologia radical mais relacional sussurra que a vida reside no enredamento e na capacidade de sustentar a complexidade sem amputar as relações.

Então é, no fundo, um vínculo radical, eu próprio, não é? Pertencemos a tudo isto, ao que não gostamos e ao que gostamos, e participamos nisto tudo também. Então, compostar, digerir, transformar a normalidade é um ato de ternura revolucionária. É desmantelar esta arquitetura de separação, camada a camada, pele a pele.

para que possamos finalmente recordar que sempre fomos tecidos de terra e que o cuidado emerge como um gesto de reconhecimento, o que afeta o rio, afeta o nosso corpo e a nossa psique, e os nossos filhos e os nossos antepassados. Então que possamos cultivar espaços que desafiem a normopatia com cuidado, sensibilidade e prática relacional, pois este é um gesto radical de reparação.

relacional, de maturação relacional. E agradeço mais uma vez a vossa escuta, o vosso cuidar, a vossa presença nesta travessia e que as vossas relações e os vossos vínculos vivos floresçam fora da caixa da normopatia. E até à próxima.

Sou aprendiz do chão e do coração. Escuto a ecologia simbólica, como quem escuta um rio antigo. E pratico a escrita e os rituais como formas de reconexão. Este podcast é uma porta, uma abertura para imaginar e sentir de outras formas. Que o atravessemos em conjunto.