Episódios de Expatriada na Terapia

#59 Discriminação por ser imigrante

06 de maio de 202648min
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Nem tudo é claro, nem tudo é explícito… mas algumas situações trazem desconforto, machucam e deixam marcas.
Neste episódio, eu trago uma conversa sobre esses momentos desconfortáveis vivendo fora e como se posicionar sem se perder de si.

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Assuntos4
  • Discriminação por ser imigranteXenofobia e desconforto · Sentimento de não pertencimento · Necessidade de se provar o dobro · Comentários desagradáveis e preconceituosos · Dúvida sobre agir corretamente · Fechamento e auto-censura · Impacto na expressão pessoal e idioma · Estereótipos sobre brasileiras (roupa, aparência) · Preconceito entre compatriotas e outros imigrantes · Generalização de nacionalidades · Travas emocionais e medo de julgamento · O ataque é sobre o outro, não sobre você · Críticas ao sotaque e esforço de comunicação · Devolver o desconforto e estabelecer limites · O que é um comentário infeliz vs. piada · O papel do contexto cultural no tom de voz · A importância de nomear e validar sentimentos · Gaslighting e auto-sabotagem emocional · Escolher como e quando responder · O silêncio e o afastamento como respostas · Questionar o interlocutor · Colocar limites claros e inegociáveis · Proteger a saúde emocional · Aceitar vulnerabilidades e se recolher · Recalcular a rota (mudar de trabalho, relacionamento, amizade) · Exigir respeito e definir como quer ser tratada · O outro pode ser ele, mas sem machucar sua existência · Buscar apoio (comunidade, família, amigos, terapia) · Escrever como forma terapêutica · Elaborar a situação contando e recontando · Diferença entre desconforto e crime · Registrar ocorrência e discriminação no trabalho
  • Saúde e bem-estar dos imigrantesViver fora do Brasil · Sentir-se diferente em outro país · Adaptação cultural e linguística · Trabalho como imigrante (faxineira, professora) · A vida de expatriada · Comunidade de mulheres pelo mundo
  • Autoconhecimento e ResiliênciaManter a própria identidade · Lidar com o desconforto e a infelicidade alheia · Não se diminuir ou se esconder · Ser você mesma · Superar vergonha e medo de expor · Lidar com comentários pejorativos · Não internalizar o preconceito · Autenticidade na expressão · Força interior para lidar com situações difíceis · Recuperação após experiências negativas
  • Linguagem e ComunicaçãoExpressão em outro idioma · Sotaque e julgamento · Uso de tradutores e esforço para se comunicar · Diferenças entre português do Brasil e de Portugal
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Olá, Mulheres Patriada! Aqui quem fala é Joyce Fachini, psicóloga e terapeuta de mulheres pelo mundo. E esse é o nosso podcast, Espatriada da Terapia, onde semanalmente eu, sua psicóloga, trago insights terapêuticos pra você, pra sua vida de imigrante de Mulheres Patriada. E hoje, no episódio 59, nós vamos falar sobre discriminação por ser imigrante.

sofrer xenofobia então você que já sentiu aquele desconforto de não pertencer aquele desconforto de escutar coisas não é que realmente são discriminatórias e você começa a sentir

menos e fica na dúvida de como agir, se você deveria sim fazer um report, ir na delegacia, ou se você deveria sim reclamar e não aceitar, mas que muitas vezes quando você sofre um preconceito ou...

um comentário desconfortável de uma pessoa infeliz, muitas vezes o que acontece? Você congela, não é mesmo? Fica sem saber como agir. E aí vem aqueles sentimentos, né? De que eu tenho que me provar o dobro.

para mostrar que eu mereço, que eu faço parte, que eu tenho o direito de estar morando aqui. E aí vai gerando esse desconforto de estar sempre fazendo um esforço gigante e mesmo assim ter que ainda correr o risco de um dia que você está tranquilamente só vivendo.

escutar um comentário completamente desagradável. Essa é uma pauta que está sendo muito falada, principalmente por conta do que está acontecendo nos Estados Unidos, mas a gente que mora fora sabe muito bem que, infelizmente, acaba sendo um assunto e um tópico muito rotineiro na nossa vida.

né? Gostaríamos? Não. Mas o quanto que às vezes a gente só tá tomando um café e aí escuta, ah, aqui não é Brasil não, viu? Se no seu país faz esse jeito, aqui não, tá? E aí você escuta aquilo num amargo, né? Num gosto amargo na boca. E acaba que por conta dessas pequenas situações que geram um grande desconforto, a gente fica até na dúvida.

se, nossa, será que sou eu mesmo que estou agindo errado? Ou não estou respeitando a cultura do outro, o espaço do outro? Será que era só uma brincadeirinha mesmo para o outro fazer esse tipo de comentário ou falar isso? E mulher, é muito comum que conforme essas situações vão acontecendo, você vai se fechando.

E aí, o quanto que você não fica com aquela sensação de que, nossa, é melhor eu não falar aqui, eu não dar minha opinião, ou até não se colocar em lugares, ah, eu não vou frequentar esse lugar, ou eu não vou dar minha opinião, ou eu não vou me vestir dessa forma, porque senão vai ser como se eu estivesse com a bandeira do Brasil mostrando que eu não sou daqui, vai me colocar em evidência, em foco, e nessa você começa a se esconder.

E aí tem uma frase que eu escuto muito em consultório, de você mulher que mora fora do Brasil, assim de quando você diz de que, ah, eu não me sinto eu mesma aqui. Quando eu tô falando em português, quando eu tô no meio de brasileiros, quando eu tô no Brasil, eu sou eu, Joyce, mas quando eu tô...

fora, em festas, ou no trabalho, ou com colegas mesmo, eu sinto que eu não consigo me expressar da maneira com que eu me expressaria se eu estivesse no Brasil ou com outros brasileiros. E aí eu te digo, mulher...

é muito mais do que a língua, porque percebe que esse mecanismo de defesa que você adquire para não se expor tanto e não ter que escutar coisas desconfortáveis e se sentir desconfortável, faz você se fechar. E aí quando você se fecha, como que você vai ser você mesma?

E isso acontece tanto na expressão, sim, do idioma, mas não só isso, é sua opinião. Porque eu tenho certeza que você conseguiria encontrar um modo de dizer aquilo que você quer dizer, mesmo que não soe fluente no idioma, você ia dar sua opinião.

Certo? Se eu usaria o Google Tradutor ou seja lá o que for, mas você por vergonha ou por não querer gerar um desconforto para o outro e até para si, porque o outro pode responder de uma maneira ruim, você fala, quer saber, não vale a exposição.

E eu, quando estava fazendo o roteiro, eu pensei até numa outra questão. Não só a questão da comunicação ou do ir em lugares, mas, mulher, a maneira de se vestir. Eu me lembro que 13 anos atrás, quando eu mudei pra Irlanda, tinha um comentário que sempre rolava que a brasileira a gente reconhece de longe. Porque brasileira usa calça jeans e bota cano alto. Pode estar uma primavera que vai estar usando essa roupa.

Ou brasileira tem luzes, um monte de luzes e com esse tom específico. Ou brasileira tem tatuagem grande, brasileira usa brinco de argola gigante. E esses comentários eram pra...

discernir quem era brasileira, quem era latina, mas vinham com um tom de pejorativo, de preconceito, como se fosse pra diminuir, como se a sua roupa, o seu gosto musical, o seu gosto de vestimento, o seu gosto de dançar, seja o que for, fosse algo que diminuísse, percebe? E aí, quantas vezes eu, com 20 e pouquinhos aninhos...

Não queria me destacar na multidão. Então, eu não usava aquela roupa, eu não usava aquele brinco, né? E quantas mulheres eu escuto em consultório fazendo isso. Só que quando você vê, você não tá se vestindo da maneira que você gosta, comendo o que você gosta, indo no lugar que você gosta. Eu escuto muito também pessoas falando, ah, eu não gosto de festa brasileira. Brasileiros mesmo. Como se...

ir em festa brasileira ou escutar música brasileira fosse menos, diminuísse essa pessoa. Mas percebe que isso mostra muito mais sobre a pessoa que acha que gostar de música brasileira é algo que diminui a categoria daquela pessoa. Mostra muito mais a soberba dela em por fazer isso ou por deixar de fazer aquilo, eu sou superior e você...

É menos. Isso fala sobre você? Não. Isso fala sobre a roupa que você usa? Sobre o gênero musical? Sobre a sua personalidade? Não. Isso tá dizendo muito mais é sobre aquela pessoa. Percebe? Tem muitas camadas nesse assunto. Tem uma camada que é mesmo um crime. Não é?

Tem a camada que é dos estrangeiros para conosco. Tem a camada que é a gente com a gente mesmo, com pessoas da nossa própria nacionalidade ou com outros imigrantes. Quantos brasileiros acabam tratando mal ou não querendo conviver?

com outra nacionalidade por preconceito. E aí eu vou voltar naquele assuntinho. Eu escutei essa semana uma conhecida dizendo assim, ah, eu não quero entrar naquela loja, porque aquela loja é de indiano.

Ah não, eu não vou dar dinheiro para indiano, porque indiano é isso, isso e aquilo. Pera lá, você está generalizando uma nacionalidade com uma característica, sendo que você nem conhece o dono daquela loja, sendo que você não sofreu nada ali.

O que você também tá fazendo preconceito? E aí a gente bota um espelho aqui. Sim, eu vou falar sobre o preconceito, a discriminação, o crime que é feito para com você. Mas eu também vou falar o que você tá fazendo com o outro. Porque aí você vai e recebe esse tipo de tratamento e você não gosta, que eu sei, que você já sentiu na sua pele. E aí você vai lá e faz com o indiano, com o ucraniano, com...

Sei lá o quê. Quais as nacionalidades. Entende? Então eu quero botar a tua cabecinha pra pensar nesse ponto aí. Certo? Pessoas. Não generalize a nacionalidade. Ah, Joyce, é que eu sofri preconceito ou foi uma situação ruim com polonês, eslovaco, croata. Seja lá o que for, ok. Você coloca os seus limites. Mas não generalize aquela nacionalidade. Você pode tomar...

um cuidado né porque aí você tá falando um cuidado para com você para que você não sofra mas isso não vai evitar que o outro faz o queira fazer e aí pode ter a nacionalidade que for minha querida então você toma os cuidados que você tem que tomar mas não generalize a nacionalidade aí sem conhecer

A dona daquela loja, sem conhecer aquela pessoa específica, você já coloca um rótulo gigante nela. Que é a mesma coisa que, muito provavelmente, você sofre de outras pessoas, de outras nacionalidades. E aí, mulher, você fica... Vamos voltar pra esse ponto de... O que acaba acontecendo pra você se proteger do preconceito?

que você acaba sofrendo. Então você se molda demais, acaba não frequentando os lugares, acaba travando o seu idioma. Porque olha só, tem muitas pessoas que têm sim o idioma, o inglês, o alemão, o francês, mas você tá tão bitolada emocionalmente de como o outro vai ver o seu sotaque ou o outro vai julgar a maneira que você tá tentando explicar.

Aquilo ali. Você fica tão preocupado que você não consegue nem ser você, nem falar. E aí você vai se travando. E aí não é sobre o seu nível do idioma. É sobre as suas travas emocionais que você fica.

Pra tentar se proteger, tentar se moldar, tentar evitar situações, sabe? Mas vamos falar sobre isso aqui, porque as situações que você passa de preconceito não é sobre você ser você. Não é sobre você ser menos.

diz muito mais sobre o outro, né? Então, tem muita coisa que você pode evitar todos os lugares, todas as pessoas, tentar se vestir do jeito que eles se vestem, ir no lugar que eles vão, falar com o sotaque deles, que isso não vai impedir, necessariamente, que você sofra um preconceito, sofra um comentário infeliz, ok?

E você vai se sentindo que você tem que se moldar tanto, tanto, tanto, o tempo todo pra caber, que daqui a pouco você sumiu. E aí, eu separei aqui por tópicos, quatro pontos essenciais sobre essa questão de discriminação. De como que você pode lidar melhor.

Ok? Então vamos lá. Primeiro ponto, você precisa nomear o que aconteceu, o evento, validar o que você sentiu, definir o que é aquilo. Isso foi um crime? Isso foi infelicidade da pessoa falar? Isso foi falta de limite? Isso foi um mal entendido? Ou isso foi um preconceito mesmo?

sabe? Ah, isso foi um desconforto ou foi um desrespeito? E uma coisa não invalida necessariamente a outra, porque vamos dizer assim, a pessoa foi preconceituosa mesmo e te gerou um desconforto, te deu raiva, valide isso.

Porque muitas vezes, quantas vezes eu escuto histórias que o outro faz um comentário, né? O gringo, né? Que na verdade ali, que é o que é nativo daquele país que você tá, faz um comentário. E aí você mesmo faz um gaslighting com você. O que é gaslighting? É quando alguém fala, geralmente um homem...

Alguém fala pra você, ah, não foi isso, não foi tudo isso. E você faz isso com você. De que, ah, você tá exagerando. Imagina, foi só uma brincadeira. Ele só fez uma piadoca. Aí eu lembro de uma situação que aconteceu comigo. Eu tinha 23 anos, eu tava no meu primeiro ano.

aqui na Irlanda, isso mais de 13 anos atrás, né? E aí, eu era faxineira, eu cuidava de uma residência, de um hotel, pra estudantes que tinham um pouquinho melhor poder aquisitivo, né? Que era mais caro e tudo mais, então, tinha o serviço de hotel, e eu era o serviço de hotel. Então, eu tava lá 24 horas, eu morava lá, eu trocava roupa de cama, limpava, fazia check-in, check-out, fazia tudo.

E eu lembro que eu fiz amizade, eu já tinha amizade ali com alguns prestadores de serviço e tudo. E tinha um senhor irlandês, bem mais velho. E eu tinha que fazer o quê? Colocar as roupas de cama dentro de um carrinho. E eu tinha que arrastar o carrinho, levar o carrinho até a lavanderia. E eu tinha 45 quilos. Porque, primeiro, eu só andava, eu trabalhava...

escala 6 por 1, se não fosse 7 por 7, né? Porque se tinha alguma coisa acontecendo no meu dia de folga, eu tinha que resolver. E eu podia comer o mundo, que eu tava assim, ó. Eu era o pó, o pó do grilo. E aí eu tava lá com o meu carrinho e eu tinha uma rotininha certinha.

Eu encontrei esse senhor na rua. E eu fui simpática. Por quê? É parte da minha personalidade. Eu sorri. Se tem uma coisa que eu gosto na gente, no brasileiro, é que na dúvida a gente tá sorrindo. Não é mesmo? Salve exceções. Não é todo mundo que é assim, né? Porque você é brasileiro que você tem que sorrir pra qualquer coisa. Mas assim, eu...

Sou alegria. Eu tô feliz. Na dúvida, eu tô feliz. Entende? Então, eu tô andando aqui. Eu tava lá com o meu carrinho feliz. Tava ganhando em euro, morando bem, né? Dentro do hotel, trabalhando 7x7. Mas tava feliz. Né? Tô sofrendo na Europa. Antes eu sofria no Capão Redondo, na periferia de São Paulo.

Tá ótimo. E aí eu encontrei esse senhor. Que era uma pessoa que eu conversava sempre. Porque ele fazia manutenção lá no hotel e tudo mais. E ele era amigo de um colega e tudo. E aí o cara chegou pra mim. Eu sorri pra ele. Ai, né? Oi, tudo bom? Aí, gente, eu não sei, mulher. O que é que deu na cabeça dele? Eu nem lembro o que foi que ele falou. Eu acho que eu nem entendi o que ele falou.

Ele meteu o tapa na minha bunda. E aí, eu fiquei em choque, mas eu sempre fui abusada. Eu sempre tive assim, ó. Eu fiquei em choque na hora, mas eu sabia que aquilo tava errado, porque era meu corpo. E ele fez algum comentário pejorativo.

Eu meti o tapa no ombro dele. Eu meti o tapa nele. Eu peguei e dei assim no tapa, uns tapas assim no braço dele. E saí andando e xingando ele. Mas, querendo ou não, eu congelei sem saber o que falar, o que verbalizar. Eu sabia naquela hora que tava errado. Mas eu fiquei assim, meu Deus, o que aconteceu? Que liberdade que eu dei pra esse homem? E eu tinha dado liberdade, mulher? Não, não.

tinha dado liberdade. Ele era um amigo, eu tava um colega, eu tava sendo eu de sorrir. E aí eu poderia muito bem ter interpretado assim, ah, Joyce, viu? Você tem que se fechar. Porque ficar sorrindo, né? Igual uma velha, faz esses gringos entenderem. Então, que eles podem passar ali, ó. Podem tocar no teu corpo, podem falar absurdos que você quer alguma coisa a mais. Sendo que, não! Esse é o meu jeito, a minha personalidade. Eu não vou deixar de ser eu.

Você vê? Não era sobre mim, era sobre ele. E na hora, eu fiquei com nojo, com raiva, saí andando, não consegui falar o que eu queria, porque eu não tinha nem vocabulário pra isso, tava tentando entender. E quando eu fui conversar com um colega da mesma nacionalidade que eu, um colega brasileiro, ele pegou e falou assim, não, fulano, imagina, ele tava brincando.

E aí, eu podia muito bem ter feito, ah, é verdade, eu tô exagerando, né? Ele tava brincando. Não. Ele achou que por eu ser brasileira, que ele poderia passar os limites. E não, não, não, não, não. Não é por conta do meu jeito que eu tava sorrindo.

Que então eu estou dando liberdade para ele pegar e tocar o meu corpo. E eu tenho certeza que você já escutou várias histórias disso. Eu estou trazendo isso para te dar como exemplo de que muito facilmente a gente pode falar. Então eu vou me moldar aqui. Então eu vou deixar de ser eu. Então eu vou encaixar. Ou minimizar a situação.

minimizar e falar assim, não foi tudo isso, tá tudo bem, sendo que foi um desconforto, sim. Então, mulher, independente do que o outro diga, do que o outro faça, se recolhe, você pode ter passado por uma situação parecida, ou...

ali um pouco diferente e você não é eu. Então você vai agir diferente. Mas toma teu tempo pra entender aquilo. Não diminua o que você tá sentindo. Dá nome realmente. Eu tô com raiva. Eu tava só sendo eu. Eu tava feliz no meu dia de sol. Eu tava trabalhando. E aí essa pessoa falou isso comigo. Eu não tava esperando. Só tava pegando meu café. E eu tive que escutar isso daqui.

Sabe? Então, não assuma logo de bate-pronto que é você que tá exagerando. Não escute o que o outro tá falando e coloque isso como se fosse um você tá errada, você é menos. Certo? Vamos dar nome às coisas então e validar o que a gente tá sentindo? Segundo ponto, não personalize o ataque. No sentido que...

O que o outro faz com você diz muito mais sobre o outro do que sobre você. Quando a pessoa faz um comentário infeliz, quando a pessoa tem uma atitude ali estranha, uma atitude questionável, isso não está dizendo sobre você. Eu entendo que muitas vezes você pode parar e pensar, nossa, mas realmente...

Eu sou o patinho feio, né? Eu sou imigrante, eu tô falando errado mesmo, Joyce, inglês. Realmente, isso daqui, ó, eu usei a palavra errada, né? Tá certo, ele age desse jeito. Ah, eu sou imigrante, né? O país não é meu mesmo, então eu tenho que baixar a cabeça. Pera lá. Ter respeito com as diferenças, ter respeito com o lugar que você mora, né? É uma coisa. Agora, se diminuir...

ou achar que é errado, eu gosto muito de pensar assim. Mulher, principalmente pessoas que ficam criticando ou fazendo chacota de sotaque. Pensa só, você pelo menos isso é uma realidade que acontece aqui na Irlanda. Eles não falam muitas línguas. A grande maioria da população fala apenas inglês, que é a língua materna do país, certo?

Mulher, você está fazendo o esforço de falar outra língua e muito provavelmente é a sua segunda ou terceira língua que você fala? E o outro fazer chacota porque você está com um sotaque?

Sendo que aquela não é a sua primeira língua. Sendo que você está fazendo um esforço para se comunicar. Que você está mostrando ali respeito com a identidade do lugar, do país e tudo mais. E aí a pessoa fazer chacota porque ela entendeu o que você quis dizer. Só que você pegou e colocou o acento da palavra em outro lugar. Porque você usou o verbo errado. Pera.

limites, limites. Eu digo tanto para pessoas estranhas como para colegas. A piada é piada se está todo mundo rindo. Se a piada é para diminuir o outro, pera lá. Se tem tom pejorativo, pera lá. Vamos rever isso daí. E aí eu vou entrar no negócio aqui, mulher. Devolva o desconforto.

O outro teve coragem de falar um comentário infeliz. Ué, tenha coragem de responder. Se o outro teve a ousadia de falar, você bilingue, você trilingue, consertar.

algo que você tá falando, sendo que ninguém entendeu, não tem liberdade nenhuma, e mesmo que tivesse, fez pra te fazer, pra te diminuir, pra fazer chacota, não, não, não, não. E isso vale pra tudo, viu? Relacionamentos e tudo mais. Se é uma piada pra diminuir você, alto lá. Meio tóxico, né? Porque pra fazer graça tem que diminuir alguém.

Pra alguém se sentir bem, o outro tem que se sentir mal? Tem que estar abaixo? Tem algo errado nisso daí. Mulher, você não tem controle sobre o que o outro vai fazer com você ou como ele vai agir. Porque isso é sobre aquela pessoa.

Mas você tem a autonomia de você agir perante o que a pessoa fez com você. Então, não personalize aquilo, não coloque isso em você como, viu, eu sou errada, viu, eu tenho que deixar de usar essa roupa, esse brinco, deixar ir nessa festa. Aí sim vão me achar mais altura, mais elitizada, mais merecedora, mais capaz. Porque eu uso tal roupa, porque eu frequento tal lugar.

Não, né? Se isso tá diminuindo a sua existência, você tá deixando de ser você, então é não. Então é um reveja, certo? Eu lembrei de uma história que uma amiga me contou e foi até a razão pela qual eu decidi gravar esse episódio.

Ela mora em Portugal e ela é professora. Ela fala português do Brasil, afinal ela é brasileira. E os alunos dela são alunos adolescentes, que são portugueses. A conjugação dos verbos são diferentes, algumas palavras são diferentes. A ordem da frase, às vezes, acaba sendo construída de maneira diferente. E ela é professora, não é professora de português, ok?

Então, assim, por ela estar vivendo lá e no contexto que ela vive, por conta da educação também, professora, ela se ajusta, sim, usando palavras portuguesas, usando a estrutura da frase portuguesa. Porém, ela fala português do Brasil.

Então, vai acontecer de uma maneira que ela se expresse que vai sair uma expressão brasileira. E aí, teve uma vez que ela estava dando aula e ela disse que a aluna virou para ela e falou assim, mas isso não é português, isso é brasileiro, né professora?

Na frente de todo mundo. E imagina, você é a figura de autoridade ali na sala. E o aluno te tirando, né? E o aluno pegando e falando que isso não é português, isso é brasileiro. Mas eu achei ela de uma tremenda classe.

Ela pegou, virou e falou assim, primeiro, brasileiro é nacionalidade e não idioma. O idioma do Brasil é português, assim como o idioma de Portugal é português. Essa palavra que eu disse diferente, se você olhar no dicionário, ela existe no dicionário que você tem aí na sua mesa, de português de Portugal. E tem também no português do Brasil, ou seja, é português.

Você entendeu o que eu quis dizer. Pode ser que esteja numa ordem diferente da estrutura da frase, mas você entendeu o que eu quis dizer. Aí eu achei uma tremenda classe, não é mesmo? E vamos lembrar que é uma criança menor de idade. Muito provavelmente aquela criança estava reproduzindo algo que ela viu outros adultos fazerem, outras pessoas fazerem. De chamar de, ah, isso é brasileiro, isso não é português de Portugal. Brasileiro é nacionalidade, não é língua.

Certo? E ela estava reproduzindo aquilo, mas isso dizia sobre o quê? Sobre aquela criança, sobre aquele contexto que ela cresceu e vive, sobre a família dela, sobre o bairro dela, a escola até. Não diz sobre a minha amiga que é professora. Não. Agora a resposta dela diz sobre ela. Ela foi classuda. Ela foi lá, respondeu à altura, manteve a educação e seguiu o baile. Não é mesmo?

Achei incrível. E esse é um exemplo de que não é sobre a gente. É sobre o outro. O contexto do outro. E aí, o que eu faço quando o outro faz isso comigo? Como é que eu ajo? Ela poderia ter agido de, nossa, olha eu, realmente, tô falando errado. Português e tudo mais. Não, não tô falando errado. Essa criança que aprendeu dessa forma. Que isso é brasileiro e não português.

Terceiro ponto, escolher como responder e quando responder. Eu entendo que essas situações acontecem e muitas vezes você, mulher, congela. Principalmente se é em outro idioma. Primeiro que se fosse no mesmo idioma, tem situações que são tão inesperadas, que você é pego tão de calça curta, que você fala, não acredito que eu escutei isso daqui. Não acredito que eu estou vivenciando, protagonizando essa situação, essa barbária. E...

Você pode tomar um choque e não conseguir responder ou falar qualquer coisa e ficar sem ação. Mas tem várias formas que você pode agir e o tempo também ali. Então, aconteceu outra situação, congelei, não falei nada, tudo bem.

nomeia, percebe o que aconteceu, dá o tamanho certo para aquilo. E se for o caso de responder depois de um tempo, afinal pode ser um colega de trabalho, pode ser alguém que você divide casa, pode ser a pessoa do mercado que você sempre vai. Então, toma o teu tempo.

Entende o que aconteceu e aí escolhe como você vai responder àquela situação. E lembrando que o não responder também escolhe como responder. Às vezes a pessoa age de uma forma e você escolhe responder com o silêncio e se retirando. Às vezes você escolhe responder ignorando aquela pessoa, encerrando o assunto e se afastando. E tá tudo bem.

Quando a gente pensa ainda num contexto que a gente é mulher, imigrante, às vezes até a gente faz isso pra se proteger. Porque aconteceu aquela situação, às vezes é um estranho, no meio da rua, no escuro, pra que que eu vou engatar numa discussão, onde eu vou ter um risco físico até ali? Não, encerrar, ignorar, sair de perto também é uma maneira de responder a situação, ok? Então...

Tudo certo. Você não precisa meter a boca, falar. Veja o contexto, veja a situação. Escolha a maneira que você vai escolher lidar com ela. Certo? E aí, pode ser que também, numa situação, você pode questionar depois. Fala, fulano, a gente pode conversar? Eu digo principalmente no contexto de trabalho.

Porque no trabalho, às vezes, você não fala naquela hora e aí você fica remoendo aquela situação. Então, você vai, fala em terapia, fala com uma amiga, reflete consigo mesma. E depois você vai conseguir verbalizar e conversar com a pessoa. Querendo, não, não, você vai ter que conviver com aquela pessoa ainda. E aí, por que não uma conversa depois? Ou, dependendo da situação...

Não vai ser nenhuma conversa com aquela pessoa, só você e ela, e sim vai ser intermediado pelo seu chefe ou intermediado por um RH. Mas sim, você pode questionar o que você quis dizer com isso, fulano, na mesma hora ou depois. O que você quis dizer com isso? Querendo ou não, se a pessoa às vezes quis fazer uma piadoca, né, falou e achou que ia sair impune, você fala, o que você quis dizer com isso? A pessoa para e, opa, pera.

Porque faz a pessoa parar e pensar, né? Você fala, o que você quis dizer com isso? A pessoa vai ter que pensar pra te falar. Vai ter que dar uma refletida. Nem que for pra passar vergonha de novo. Mas ela vai ter. E outra forma também de escolher responder é colocar limite. E pode ser um limite físico, de convivência. E pode ser um limite de, ó...

Às vezes você não quer nem que a pessoa explique o que você quis dizer com isso. Você sabe que, independente do que ela quis dizer, você não aceita aquilo. E aí você pode colocar o seu limite e falar, isso aqui não é ok pra mim. Fulano, eu não gostei. Você pode dizer. E sem explicações, ou sem querer explicações também. Só falar, é inaceitável esse tipo de comentário. Aqui não é o seu país. Ou, volta pro seu país.

Isso aí eu acho que não tem nem discussão. Ó, não gostei. Não aceito. Tô pagando taxa igual você. Me respeita. Não é? Eu penso principalmente em contexto de trabalho.

ou de comunidade no sentido do teu vizinho, uma pessoa que você vai acabar convivendo e tudo mais, ou no trabalho em contexto de colega, ou hierárquico mesmo, a gente mostra muito pro outro como permite ser tratado. Então, do chefe começar a querer colocar as asinhas de fora e fazer um comentariozinho, eu já diria ali, ó, de cortar no começo, pra pessoa não tomar a liberdade.

Mesmo que depois, na hora você não tem uma reação, mas você pensa, reflete, conversa, escreve, e aí depois fala, chefe, a gente pode conversar? Olha, eu não gostei desse comentário. E foi desconfortável pra mim. Porque você traz ali a seriedade pro momento e pra coisa. Independente do que você quiser dizer aqui, chefe. Eu não achei legal. Ah, eu tava brincando. Ok. Mas peço pra não repetir então. Que não é uma brincadeira legal pra mim.

Aí eu lembro o caso da minha irmã. Olha lá, minha irmã de novo aqui, servindo de exemplo. A minha irmã, ela é professora. Professora de... Acho que seria o jardim da infância. São crianças de dois... Eles entram com dois, três anos.

E a minha irmã, ela estudou pra isso aqui na Irlanda. Ela fala inglês, já tem experiência. Ela é líder de turma, né? Então, ela é professora chefe da turma. E teve uma vez que ela tava... Primeiro, eu acho isso uma coisa meio estranha, né? Quem vai ter filho aqui, talvez, vai achar normal. Eu acho estranhíssimo. Que na creche dela, na escola que ela trabalha...

Tem ali, ela é a líder de turma, tem outras duas professoras. E são sete crianças pra cada professor, mas tem um líder, né? Então, sete, quatorze, vinte e um. Vinte e um alunos, vinte e uma criança. Bebezinhos de dois anos, meu Deus. Pra três adultos.

E quando é hora dos pais buscarem, eles têm o código da porta da escola e eles entram e vão até a porta da sala da criança. Eu acho estranhíssimo, porque se tem uma criança ali, sei lá, andando ali, vem o pai de outra criança e cruza com essa criança no corredor, ou seja lá o que, acho muito estranho essa pessoa só entrar. E aí o que aconteceu? A mãe...

entrou pra pegar a outra criança, e a minha irmã, nessa situação, tava conversando com os alunos, porque eles estavam insistindo numa coisa. E aí a minha irmã já tinha falado várias vezes que esse dia não ia ter essa coisa e tudo mais. Vamos pensar que é uma, sei lá, brincar com massinha.

E aí ela falou, não, hoje não vai ter massinha, hoje não é dia disso e tudo mais. E ela já tinha falado várias vezes, só que imagina a criança, né? Então juntou 21 falando disso. E aí na hora que a mãe entrou, a filha da mãe, a filha da mãe tinha acabado de falar pra minha irmã, tia, sei lá, professora, a massinha, né? É um exemplo. E aí a minha irmã falou...

Gente, eu já falei, hoje não vai ter massinha. E falou pra todo mundo. E a mãe que tava atrás, pegou e falou, por que você tá gritando com ela? Por que você tá falando assim pra ela? Se no seu país isso é normal, aqui não é normal.

Gente, imagina. Primeiro, situação completamente fora do contexto. A mãe entrou ali. O tom de voz do brasileiro, italiano, latino é alto, né? Eu até brinco que quando a minha cachorra não tá me obedecendo, eu pego o grito em português mesmo porque ela é adotada e ela aceita as ordens, os comandos em inglês. Meu filho, se você gritar pra Pitty, vem aqui agora, passa pra dentro, ela vai entender.

Pode ser em qualquer língua. Ela vai entender a língua da mãe latina. Mas isso já é o tom de voz. A minha irmã não estava gritando. Ela estava no tom de voz para falar para a turma toda. Não era nem só. São 21 crianças na sala. Gente, hoje não vai ter massinha. E aí a mãe ficou ofendida. E a minha irmã ficou congelada na situação. Ela falou, não. É que eles estão insistindo nisso.

Aí depois eu lembrei, ela me contando isso, eu lembrei até aquele meme do TikTok, que a mulher latina tá no balcão e ela tá se filmando, né? E a mulher falando que ela tá discutindo com ela. E ela fala, não, eu não tô gritando com você. Gritar é isso aqui pra mim!

É isso. A minha existência é usar essa roupa, esse brinco. Se você tá achando que isso é agressivo, gente, esse é meu tom. E sem falar que você pegou a conversa andando ali.

E aí a mulher meteu essa. Já meteu uma de país. Porque ela podia ter falado qualquer coisa. Podia ter falado. Não gostei do jeito que você falou com a minha filha. O que está acontecendo? Podia ter falado. Agora, meter a nacionalidade. O que tem a ver? O que tem a ver? Aqui eu não vou julgar a situação com você. Talvez você é mãe e fale. Ai, Joyce.

Se sua irmã fez errado, né? Ela tinha que ter abaixado, falado na altura da criança. E tinha 21 crianças. Ela abaixada em 21 alturas, tinha conversado uma por uma. Gente, tava fora de contexto. Mas não tô nem falando disso. Eu tô falando de a situação, ela ter trazido a questão da nacionalidade da minha irmã.

Não tem nada a ver. Não é o ponto. Você vê que ela usou a nacionalidade para ofender? Desculpa, se ela tinha algum ponto de razão, ela perdeu ali. E aí, o que tem essa história a ver com o terceiro ponto? A minha irmã congelou. E aí ela digeriu mais a situação. Que ela estava ali com, tinha mais 20 crianças para ela cuidar. Com dois professores na sala. Deixou a situação. Depois ela foi falar com as monitoras e foi falar com a chefe dela.

E aí elas resolveram a situação. E olha só, uma coisa que a gente pode fazer. Porque pode acontecer, é muito comum, que você congele. Uma forma também, a gente tinha falado então de ignorar, encerrar, afastar. Questionar, por que você disse isso fulano? Ou colocar um limite mesmo. Isso aqui eu não aceito.

Outra coisa que pode também ajudar é você já ter preparado três frases curtas para lidar com esse tipo de situação inusitada, desconfortável. Então, eu, quando a gente estava conversando com a minha irmã, a gente pensou tanto no... What do you mean by that?

O que você quer dizer com isso? Que foi o que a gente falou ali. E com outras situações que podem ser aplicáveis, né? De quando a pessoa lida de um jeito e fala alguma coisa, de ser irônica mesmo e falar assim, Are you okay?

Você tá bem? Ou que outra palavra você pode falar, outra fase você pode inventar. Então assim, já tenha alguma frase que simbolize o limite, o não aceito, o parou por aqui, o não achei engraçado. Que seja em inglês, em alemão, em francês. Pra você conseguir lidar que seja às vezes mais do que um não não. E que possa ser uma outra opção a não ser o se retirar ou ficar quieta.

Então pode te ajudar isso. Certo? E aí chegamos pro quarto e não menos importante passo. Que é o proteger a sua saúde emocional, mulher. Porque você precisa reconhecer o impacto dessa situação nas suas emoções, na tua vida. Se é de raiva, se é de vergonha, se é de cansaço.

Se é essa sensação de incapacidade, sabe? Reconhece isso. É importante pra você conseguir digerir e lidar com essa situação. Outra coisa, toma teu tempo. Às vezes a gente fica... Tem até um episódio que fala isso. Às vezes você precisa só de um tempo.

A gente é tão rígida com a gente, exigente com a gente, que a gente quer que a gente seja perfeita, que tenha um controle sobre as situações e que reaja rápido e da melhor e mais elevada maneira. Mas mulher, você é humana, sabe? Então toma teu tempo pra sentir.

Você tem sangue correndo nas suas veias Você tem suas vulnerabilidades E é aceitável Esperado e é saudável Até que você tenha Vulnerabilidades e reconheça elas Pô, essa parte Aqui dói pra mim

Essa parte aqui eu não me sinto confortável. Até eu mesmo como psicóloga, tem situações, tem lugares, tem assuntos que eu não aceito cliente. Por quê? Porque é um lugar onde eu não me sinto confortável. Então...

Olha no seu contexto de imigrante, de mulher. Tá tudo bem você assumir a sua vulnerabilidade e se recolher, sabe? Se recolher pra cuidar das suas feridas, pra tomar o teu tempo pra recuperar e entender o que que tava acontecendo. Então, se permita sentir, se acolher, se permita se afastar daquilo que não te faz bem.

Às vezes é uma pessoa, é um lugar, às vezes você já conversou, já tentou lidar de maneiras diferentes e aquele trabalho é tóxico, é uma competição, que na verdade é um disfarce para discriminação, para querer fazer chacota, para querer diminuir, lugar de pessoas soberbas onde precisam pisar no outro e ali está te fazendo mal, está fazendo mal para a tua existência.

Então, toma teu tempo pra validar tudo que você sente e até permitir recalcular a rota. Porque às vezes, sim, você vai ter que se retirar daquele trabalho, vai ter que se retirar daquele relacionamento, vai ter que repensar aquela amizade. Pera lá.

Amizade, amigo machuca? A relacionamento amoroso justifica a pessoa falar Ah, eu tenho liberdade com você. E aí fazer um negócio que te faz mal? Que faz você se sentir mal, menor ou exposta? Não. Bora repensar, né? E eu gosto muito de lembrar aqui no podcast, mulher, que tem coisas que não são aceitas, independente se é local de trabalho.

E se é relacionamento. Porque eu acho que são lugares. Quando a gente fala. Ah, porque eu tenho liberdade com você. Porque você é meu namorado, minha namorada. Ou, ah, é meu chefe, né? É hierárquico. Ele tá acima de mim. Então ele pode fazer isso. Não, não pode. Não pode. Ele te paga não é pra eu te humilhar.

Ele te paga não é pra ser soberbo e pisar na tua cabeça. Não, não. Ele te paga pra fazer o seu trabalho. Ele não te paga pra te diminuir e você ter que aceitar a calada. Então não, isso não é aceitável. Eu quero que você repense. E até em rodas de conversa é importante a gente afirmar pras nossas amigas coisas que não são aceitáveis. Não é porque é chefe, não é porque é marido, não é porque...

É pai, é mãe, sabe? Que então tem a liberdade de fazer XPTO. E eu acho uma ótima maneira pensar de exigir respeito. Exigir como você quer ser tratada. Colocar limites.

Isso me faz lembrar até uma vez, estava conversando com um amigo, e, ah, mas eu não posso falar tudo para você, né, Joyce? Tem coisas que eu tenho que escolher como é que eu vou falar. E aí, o primeiro momento que aquilo bateu em mim, eu pensei assim, nossa, meu colega tem restrições com relação a como fala comigo?

Aí eu pensei, nossa, que chato, né? Ele não pode ser ele. E depois eu pensei, não, não é sobre ele ser ele. É sobre ele respeitar a minha existência. Então sim, talvez pra ele manter a nossa amizade, ele vai ter sim que escolher as palavras que ele vai usar comigo. E isso não quer dizer o extremo que ele vai ter que deixar de ser ele ou pisar em ovos pra falar comigo. Mas não, ele não pode falar de qualquer jeito comigo. Assim como meu marido não pode falar de qualquer jeito comigo. Assim como meu chefe não pode falar de qualquer jeito comigo. Então sim.

Eu tomo cuidado com a existência do outro, respeito o outro e eu exijo também esse respeito. Tem coisa que não é sobre o outro poder ser ele, é sobre você poder ser você, entendeu? Então, o outro ser ele machucar a sua existência, não, não é aceito. Ele pode ser ele, mas sem ter que pisar na tua cabeça.

Se tem que pisar na sua cabeça, tem alguma coisa errada aí, certo? Dê o tom no seu trabalho de como você quer ser tratada. Dê o tom do que você aceita num relacionamento e o que você não aceita. Não necessariamente a pessoa ter liberdade de falar tudo comigo.

Tem, tem a liberdade de falar. Mas não é tudo que se gostaria de falar que cabe ser falado. Você pode escolher um jeito. Porque muitas vezes é um vômito que o outro quer dar em você emocional. E aí pra quê? Pra ele se sentir bem e você se sentir mal? Alto lá. E aí, voltando à história, eu pensei assim, é, na verdade é bom. Esse colega tem mesmo que pensar em que palavras ele vai usar comigo. Porque ele falar qualquer coisa de qualquer jeito? Não.

Talvez eu me desrespeitar. Então, sim, eu respeito ele, eu cuido com como eu falo, eu sei o calcanhar de Aquiles das pessoas, não é por isso que eu vou lá e... Então, a pessoa sabe que você é imigrante, sabe que é sua terceira língua, segunda língua, o que ela vai caçoar disso? Não. Não, não, não, só pra te diminuir?

De jeito nenhum. Não tem nada que justifique um negócio desse. E agora, quinto ponto. Busque apoio. Que seja na sua comunidade brasileira, que seja com a sua família, com seus amigos, com pessoas que passam por situações parecidas com você, com a sua psicóloga. Eu, como sua psicóloga, eu entendo a situação de imigrante, de expatriada, de estar numa cultura diferente.

Então, busque você não estar sozinha. A coisa que eu mais escuto aqui das mulheres expatriadas é... Nossa, Joyce, foi quando eu escutei seu podcast, quando eu vi os posts lá do Instagram, eu achei que era só eu que pensava ou que passava por essas situações. E não! Mulher!

Nenhuma experiência é isolada. Olha só, a situação que você passa de estar morando num país diferente, de ser mulher, imigrante, expatriada, tem outras mulheres no mesmo contexto. E você não precisa passar por isso sozinha. Então, busque essa rede de apoio. Eu entendo que muitas vezes você pode ir falar com a sua mãe, e aí sua mãe fala, ai, você não precisa disso, volta pro Brasil que você não passa por isso. Mas não é sobre isso.

Você tem o direito de ocupar os seus espaços. E voltar pro Brasil, você não vai passar por esse desafio, mas você vai passar por outro. Mas a sua mãe também, ela quer te poupar. Então ela vai falar assim, filha, não passa por isso, vem pra cá então.

Mas lá vai ter outra dor, né? Então vá, se acolha na tua comunidade, se acolha na sua terapia, sabe? Compartilhe. Uma coisa que ajuda muito também é escrever. O escrever é terapêutico. Então escrever o que você tá sentindo, o que aconteceu.

Ler aquilo, às vezes até mandar um áudio pra você mesmo e depois reescutar. Porque falar na terapia, repetir pra aquele amigo. Sabe aquela sua amiga que passa por um término e ela quer contar a história 20 vezes? Por quê? Porque ela tá elaborando. Ela precisa contar pra conseguir tirar aquilo do peito dela e conseguir sentir diferente, elaborar aquilo.

E ela vai contar na terapia, e ela vai contar pra você, e depois ela vai contar de novo, e aí ela vai escrever, vai escutar o áudio, vai mandar o áudio de novo pra ela. É isso. Então, permita, assim, buscar essa rede de apoio e repetir essa história 20 vezes pra conseguir ver os pontos de vista diferentes e você conseguir elaborar isso.

Até pra que quando você olhar, né, busquei a rede de apoio, entendi o que era isso, entendi o que eu senti, né, agora que ação que eu vou tomar. E aí que seja de se afastar, que seja de conversar com a pessoa, que seja até de reportar mesmo, registrar a ocorrência como crime.

Não é mesmo? Mas pra isso é preciso ali ó, se acolher. É preciso de tempo. É necessário que você busque sua rede de apoio. Você não tá sozinha nessa. Tá certo? Não está.

Eu sei que a gente trouxe várias situações e muitas delas não consistem em crimes, mas consistem em desconfortos. E não é porque é só um desconforto, é só, entre aspas, um comentário infeliz que você não pode validar o que você está sentindo. E quando a gente pensa em...

Registrar a ocorrência, um crime, quando a gente fala sobre contexto profissional, sobre acesso a lugares, discriminação no trabalho, muita coisa disso aí é crime mesmo. E aí não passarão, certo? E você não precisa passar por isso sozinha.

A gente está aqui para isso, tanto na nossa comunidade como eu, sua psicóloga expatriada. Então, coloca aqui nos comentários o coraçãozinho amarelo da nossa comunidade ou escreve aqui o que você achou desse episódio e encaminha para sua amiga expatriada, ok? E semana que vem, toda quarta-feira, 6 da manhã, eu estou aqui com um novo episódio para te ajudar.