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Episódio 4: Alguém não está a cumprir o acordo | Os ficheiros do caso Carlos Castro

28 de abril de 202637min
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Nos primeiros dias em Nova Iorque, Carlos e Renato estão em lua de mel. Depois, deixam de estar. Passam a noite antes do crime a discutir. Mas o jovem de Cantanhede tinha dado sinais de alerta antes.

O Observador teve acesso a ficheiros da investigação que comprovam como a relação entre Carlos Castro e Renato Seabra se deteriorou dias antes do brutal crime num hotel de luxo em Times Square. 

"Os ficheiros do caso Carlos Castro" é o novo Podcast Plus do Observador. É narrado por Joana Santos e tem banda sonora original de Júlio Resende. 

Pode ouvir semanalmente os episódios de "Os ficheiros do caso Carlos Castro" na playlist própria do podcast na Apple Podcasts, Spotify, Youtube ou outras plataformas de podcast. Os assinantes standard e premium do Observador têm acesso exclusivo e antecipado a todos os episódios em observador.pt. Pode assinar aqui.

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Participantes neste episódio7
C

Carlos Castro

ComentaristaCronista social
J

Joana Santos

Narrador
L

Luís Costa Ribas

ComentaristaJornalista
R

Renato Seabra

ComentaristaAspirante a modelo
R

Rodrigo Freixo

ComentaristaJornalista
R

Rogério Alves

ComentaristaAdvogado
W

Wanda Pires

Comentarista
Assuntos5
  • Relação entre Carlos Castro e Renato SeabraDiscussões antes do crime · Sinais de alerta · Quid pro quo
  • Investigação do crimeFicheiros da investigação · Depoimentos de testemunhas
  • Lua de mel em Nova Iorque
  • Saúde mental de Renato SeabraDeterioração da saúde mental · Avaliação por neuropsicólogo
  • Eventos em Nova IorquePassagem de ano em Times Square · Visitas a pontos turísticos
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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. São os primeiros instantes de 2011.

Milhares de pessoas de todo o mundo estão reunidas em Times Square para a passagem de ano. E Carlos Castro e Renato Seabra estão entre elas. No meio da confusão, encontram algumas caras conhecidas. O jornalista português Luís Costa Ribas e o advogado Rogério Alves, que também estão ali a celebrar o Ano Novo com as famílias. Cumprimentam-se. Carlos apresenta-lhes Renato.

que ele era um dos momentos mais felizes do Carlos, em que ele parecia estar mesmo a viver uma paixão. O jornalista Rodrigo Freixo também está em Nova Iorque para a passagem de ano, mas não se cruza com o casal. Desde que chegaram, no dia 29 de dezembro, não têm parado. É a primeira vez de Renato na cidade e Carlos está a mostrar-lhe todos os pontos turísticos obrigatórios.

A polícia de Nova Iorque vai perceber isso ao descarregar as imagens guardadas no cartão de memória da Lumix Digital, encontrada no quarto 3416. Ao todo, são mais de 150 fotografias, ao que tudo indica, todas tiradas por Carlos Castro, que não aparecem em nenhuma. Exceto aquelas que mostram apenas pratos de comida, todas têm Renato Seabra como modelo.

Há fotografias de Renato em Times Square, antes, durante e depois da passagem de ano. Na Broadway, ainda coberta de neve. E no Battery Park, com vista para a estátua da liberdade. E há fotografias de Renato no interior dos centros comerciais mais célebres. Na loja da NBA, no Madison Square Garden. E à mesa, a beber um batido ou a brindar com um copo de vinho.

Numa das imagens, o jovem de Catanhede surge de braços abertos, com uma série de arranha-céus atrás. Noutra está empolirado num gradeamento, a meio da travessia pedonal da ponte de Brooklyn. Noutra ainda sorri entre as icónicas estátuas dos faraós, expostas na coleção egípcia do MET, o Museu Metropolitano de Arte.

Numa sequência de fotografias captadas no Central Park, Renato se abre, aparece a saltar e a fazer poses engraçadas. Finge que é um esquilo a subir uma árvore. Noutra fotografia, imita uma estátua a apontar o caminho a seguir. Também há várias fotos à porta do hotel intercontinental. E no interior do quarto, 3416, com Renato junto à janela, com vista para os arranha-céus de Manhattan. Numa delas, está em trunco nu.

As fotografias são o suporte visual perfeito para as descrições de Wanda Pires. Encaixam na perfeição nos depoimentos da primeira e mais importante testemunha do caso, aonde confirmar as autoridades. Nos primeiros dias das férias em Nova Iorque, Carlos Castro e Renato Seabra pareciam estar efetivamente em clima de lua de mel. Depois, algo quebrou essa aparente felicidade.

As últimas fotografias foram tiradas no interior do quarto 3416, justamente na manhã do dia 6 de janeiro, véspera do crime. Nessa tarde, há de revelar à amiga do cronista social, Carlos Castro estava furioso com Renato Siabra. Nem sequer lhe dirigia a palavra. Faz sentido que tenham parado de tirar fotografias.

Os últimos registros são um conjunto de oito imagens. Renato aparece sorridente, deitado na cama, e depois sentado num plano mais aberto, de mãos nos joelhos e cara séria. As outras seis imagens são retratos, em que o aspirante a modelo parece estar a treinar olhares e expressões. O último retrato é o único em que Renato se abre a parece a rir.

Carlos Castro diz que já esteve em Nova Iorque mais de 35 vezes. E está a fazer tudo para proporcionar uma grande primeira visita à Renato Siabra. Mas a verdade é que esta viagem nunca pretendeu ser só de passeio.

Muito tempo antes da partida. Aliás, oito dias antes de comprar sequer os bilhetes de avião. Percebe a polícia através do cruzamento de registros. O cronista social falou com uma amiga que vive na cidade. Pediu-lhe que tentasse marcar várias reuniões, em nome dele e de Renato. Em algumas das mais conceituadas agências de modelos de Manhattan. Mas, entretanto, o tempo está a passar.

É verdade que com os atrasos em Lisboa, Carlos prolongou a estadia até 15 de janeiro. Mas já estão na cidade há três dias. 2011 já começou. E essas reuniões não parecem estar mais perto de acontecer. Não há indicação de datas, de moradas, de nada.

A polícia acredita que, a partir de certa altura, isso vai tornar-se um problema para Renato Seabra. Numa das três sessões de avaliação que há de ter com um neuropsicólogo contratado pela acusação, Renato vai admitir que estava ciente do que estava em jogo. Pode ler-se no relatório de William Barr. Renato sabia à partida que Carlos ia querer dormir com ele para lhe proporcionar os contactos que ele desejava.

O problema era mesmo esse. Ele, Renato, estava a cumprir a parte dele do acordo. Carlos Castro, ao que tudo indicava, não.

Os Ficheiros do Caso de Carlos Castro. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Episódio 4 Alguém não está a cumprir o acordo.

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O Carlos não era uma pessoa fácil. Aquilo que ele achava, ele achava que era verdade. O que ele achava? Foi assim com os amores, foi assim com as amizades. Depois tinha umas amizades sempre, pessoas que achavam graça. Como trabalhava em clima social, tinha um grupo de pessoas que o cortejavam. As minhas ladies.

Ele fazia-se ser prima dona e ele chegava a ser prima dona. Ele chegava às festas e vinham todos, mas não. Abel Dias conhece Carlos Castro praticamente desde que ele chegou a Lisboa, vindo pelo Anda, em 1975. Conta que se conheceram à porta do camarim da atriz Laura Alves, no Monumental, na altura em que Carlos estava a começar a trabalhar como jornalista do social.

Passaram metade da vida como amigos. E a outra metade, zangados. Carlos Castro pode ser um homem generoso, mas também tem uma personalidade difícil. E é muito exigente.

A polícia de Nova Iorque vai apurar através do interrogatório de funcionários do hotel e dos e-mails trocados a propósito dos hóspedes do 3416, que assim que chega ao Intercontinental, Carlos Castro reclama do quarto, que é muito pequeno e tem duas camas individuais em vez de uma de casal. É tudo horrível, diz.

A agência de viagens em Nova Iorque explica ao hotel que aquele é um dos melhores clientes e pede que lhe seja feita uma atenção. No dia seguinte, logo pela manhã, a coordenadora de vendas do Intercontinental responde com um e-mail a informar que foi feito um upgrade para um quarto Skyview King sem custos adicionais.

E é assim que, a 30 de dezembro, Carlos Castro e Renato Seabra se instalam no quarto 3416. Uma suíte deluxe com cama de casal no 34º andar. O ante penúltimo do hotel. Apesar de já ter ido aos Estados Unidos dezenas de vezes, Carlos Castro não domina o inglês. Sempre que precisa de resolver algum problema, pede ajuda à amiga Wanda Pires.

Quando é preciso marcar mesa em algum restaurante, é ela que trata do assunto. E se há bilhetes para comprar para algum espetáculo, também. Wanda Pires conheceu Carlos há já 25 anos. Vive em Newark e sempre que o cronista social viaja para Nova York, costumam estar juntos. Durante o resto do tempo, mantém o contato por telefone, Facebook ou e-mail. São mesmo próximos, percebe a polícia.

Tanto que apenas uma semana depois de ter conhecido Renato, Carlos já estava a escrever-lhe no Facebook a dizer que tinha encontrado uma pessoa maravilhosa. A polícia vai juntar estas mensagens aos ficheiros do caso e serão apresentadas em julgamento com as provas 23 e 23A.

No dia 23 de outubro de 2010, Carlos Castro revela à Wanda que está apaixonado e que vai viajar com Renato Seabra para os Estados Unidos. Conta-lhe tudo sobre o novo namorado, mas pede-lhe que ela não comente nada com ninguém. É o nosso pequeno segredo.

É o primeiro dia de janeiro de 2011 Wanda e o namorado, Avelino Encontram-se com Carlos e Renato À porta do hotel intercontinental Combinaram passar o dia juntos E ir às compras A um centro comercial em New Jersey É a primeira vez que se vêem Desde que Carlos Castro e Renato Seabra Chegaram à cidade

Wanda já sabia que o amigo estava apaixonado. Carlos já lhe tinha falado muito de Renato. Mesmo assim fica surpreendida. Nunca tinha visto o amigo tão feliz. Há de confessar mais tarde aos detetives da polícia de Nova York. Passam horas no centro comercial. Renato quer comprar presentes para a irmã, mas não sabe o que levar. Por isso, Wanda vai a Ralph Lauren escolher algumas peças.

Enquanto isso, Carlos e Renato vão se enchendo de sacos. Compram roupas, safatos e cremes para a cara. E no final, Carlos paga tudo. Mãos largas, cartão de crédito. Aponta à mão o detetive John Mongiello num bloco de notas pautado. Ainda há quatro, jantam num restaurante francês que fica ali perto, à beira do rio Hudson, com vista para Manhattan.

Wanda assinala que Carlos e Renato decidem o que pedir em conjunto. Se um escolher peixe e outro carne, podem partilhar e experimentar dois pratos diferentes. O ambiente é de descontração e felicidade. Carlos muito falador, Renato menos expansivo e mais calado. Mas ainda assim, sempre sorridente.

Antes de a refeição chegar ao fim, revela Wanda Pires ao detetive. Renato Seabre vai confidenciar-lhe. Conhecer Carlos Castro foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida. Nos anos 80, a ex-jornalista Palmira Correia foi chefe de redação da revista Nova Gente.

Nessa fase, era a ela que o colaborador Carlos Castro entregava os textos. Ele era um dos cronistas sociais da Nova Gente naquela época. Era sempre naquele tempo, era muito o Abel Dias e o Carlos Castro. Ele era um tipo profissionalmente muito cumpridor. Portanto, nunca havia um atraso num prazo, numa entrega. Ele era absolutamente profissional. Absolutamente.

Quase 30 anos mais tarde, Carlos Castro está de férias do outro lado do Atlântico. Mas continua a trabalhar. 5 de janeiro de 2011, quarta-feira. Na crónica que envia todos os dias para o Correio da Manhã, Carlos Castro faz questão de mostrar que está em Nova Iorque. Mas estes pequenos textos não coincidem exatamente com os roteiros que têm seguido na companhia de Renato Siabra.

No Jornal desta Manhã, o cronista social fala sobre o entusiasmo à passagem da atriz Gwyneth Paltrow na Dior da 5ª Avenida e sobre os avistamentos de celebridades como Sandra Bullock e Julianne Moore no Budacan, um dos restaurantes da moda, em que não consta que Renato Seabra e Carlos Castro tenham almoçado ou jantado.

Na edição que irá para as bancas na próxima sexta-feira, o dia em que vai ser assassinado no quarto 3416, há de falar sobre o passeio de hoje à Atlantic City. Carlos Castro e Renato Seabra já estão em Nova Iorque há uma semana. É tempo suficiente para criar rotinas, que vão ser reconstituídas pela investigação da polícia. Renato acorda todos os dias, entre as 5 e as 6 da manhã, para ir ao ginásio, no terceiro piso do hotel.

Tomam o pequeno almoço juntos e depois Carlos fecha-se no quarto a escrever. Antes do almoço, saem juntos para as ruas da cidade. Já foram a vários museus. Já foram ao cinema ver o cisne negro. E já foram à Broadway assistir ao musical do Homem-Aranha. Hoje, como vai estar sol, combinaram com Wanda Pires ir à Atlantic City.

Wanda vai a conduzir. Carlos senta-se ao lado dela. No banco traseiro, Renato adormece assim que o carro começa a andar e só acorda quando chegam ao destino. Almoçam no Taj Mahal, o casino de Donald Trump, onde em tempos aconteceu uma das edições do Miss Portugal América, o evento que Carlos Castro começou a organizar junto da comunidade imigrante em 1991.

Só depois é que começam a jogar. Wanda atinge rapidamente os 200 dólares de prejuízo e para. É o limite dela. Carlos e Renato continuam. A portuguesa há de dizer mais tarde que perdeu a conta às notas de 100 dólares que o amigo deu ao namorado para ele gastar na roleta e nas slot machines. A dada altura, conta a polícia, Wanda repreende Renato por continuar a gastar dinheiro.

Nas anotações que faz a caneta e em que representa Renato se abre com um triângulo, o detetive Mondiela escreve. Renato responde. Perdemos os dois. E Wanda diz. É verdade. Mas eu estou a jogar com o meu dinheiro. Entretanto, Carlos volta a puxar a manivela da máquina onde está a jogar. E ganha um jackpot.

São 1.500 dólares que, depois de impostos, passam a pouco mais de mil. Mas continua a ser dinheiro mais do que suficiente para pagar o jantar no Caesars, mais um hotel-casino, onde, a dada altura, Wanda vai surpreender Renato a dar comida à boca de Carlos, que sorri embevecido.

Quando o telemóvel de Carlos Castro toca, Vanda repara que o amigo, em vez de atender, passa o aparelho diretamente para as mãos de Renato. Já tinha acontecido o mesmo no primeiro dia em que estiveram juntos. Renato até tem um telemóvel novo, que Carlos lhe ofereceu no Natal, mas não ativou o roaming.

As chamadas nos Estados Unidos são muito caras. Por isso, sempre que a mãe quer falar com ele, o que por norma acontece todos os dias, às vezes mais do que uma vez, liga para o número de Carlos. Assim que entram no carro para fazer o caminho de regresso, Renato volta a adormecer. Só há de acordar duas horas depois, já em Manhattan, conta Wanda Pires a John Mungiello.

Com fome e com sede. Pode ler-se nas anotações do detetive. Depois de ser internado, Renato Seabra vai queixar só os médicos de não conseguir dormir. De estar, justamente desde dia 5 de janeiro, com muita dificuldade em descansar.

Em tribunal, a defesa de Renato Seabra vai explicar aos jurados que, para que um episódio seja considerado maníaco, o paciente deve apresentar pelo menos 3 de 7 sintomas específicos. E vai acrescentar que um desses sintomas é justamente a diminuição da necessidade de dormir. Para a acusação, estas cestas no carro de Vanda Pires vão ser uma das provas de que a defesa de insanidade temporária não faz sentido.

A defesa vai argumentar exatamente o contrário. O facto de Renato Seabra ter passado estas duas viagens de 200 quilómetros a dormir mostra o estado de exaustão extrema em que se encontrava. E prova como, já nesta altura, a saúde mental de Renato estava a deteriorar-se.

Todo este espaço onde é a casa, está cercado, tem outros altos. Esta é a história de como os nazis tentaram raptar em Cascais o rei inglês que abdicou do trono por amor. O próximo Estado terá que enfrentar a corte parcial, se não se apresentar neste país. É uma carta humilhante. Todas estas pessoas poderiam estar a funcionar ou para um lado ou para o outro.

Um Rei na Boca do Inferno. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraya Chaves, com banda sonora original de Cláudia Pascoal. Pode ouvir todos os episódios no site do Observador, nas plataformas de podcast ou no YouTube.

Em tese, todas as viagens que está a fazer com Carlos Castro deveriam servir para o dar a conhecer às agências estrangeiras e para lhe arranjar trabalhos como modelo. É nisso que Renato Seabra acredita. A polícia de Nova Iorque vai perceber, através de um e-mail enviado por Carlos Castro a Wanda Pires, que o cronista social fez pelo menos uma diligência nesse sentido.

A prova remonta ao dia 14 de novembro de 2010. Carlos Castro envia à amiga algumas fotografias do namorado, de rosto e de corpo inteiro. E faz-lhe um pedido. Precisa que ela entre em contato com os responsáveis da Ford, da DNA e da Wilhelmina. E que lhes pergunte se, nas datas em que vai estar na cidade, eles poderão recebê-lo. São três das mais conceituadas agências de modelos do mundo.

Funcionam de acordo com as regras internacionais, segundo as quais um manequim só pode trabalhar através da agência com que tem contrato. E o cronista social sabe disso. Por isso mesmo, no e-mail que envia a amiga, faz questão de deixar claro que Renato Seabra não tem qualquer vínculo profissional.

Diz-lhes que ele não está com uma agência aqui, portanto não há problema. Pode ler-se no documento, que vai fazer parte das provas apresentadas pela acusação em tribunal. É uma mentira. Mas nem Renato Seabra, nem Carlos Castro. Hamos de chegar a ser confrontados com ela.

O dia que passam em Atlantic City é o oitavo da viagem. E Renato continua sem ouvir uma palavra sobre as supostas reuniões que deveria ter marcadas em agências de modelos. Em Londres não teve trabalho. Em Madrid também não. E por muito que ainda faltem 10 dias até regressarem a Lisboa, começa a aparecer-lhe que em Nova Iorque não vai ser muito diferente.

Para Renato, isto não é amor. Ele e Carlos tinham um quid pro quo. A expressão é utilizada num relatório elaborado pelo psiquiatra Roger Harris, um dos especialistas da defesa. O paciente relatou que Carlos Castro foi muito generoso com ele, comprando-lhe coisas, mandando-lhe tirar fotos suas, comprando-lhe roupas.

um quid pro quo, que consistia num relacionamento sexual com ele. No formulário, escrito e assinado pelo detetive de homicídios, Richard Tirelli, também podem ler-se que os dois grandes objetivos que Renato Siabra tinha para aquela estadia nos Estados Unidos eram esses. Planearam esta viagem a Nova York para conhecer a cidade e, possivelmente, melhorar a carreira de modelo do Sr. Siabra.

Fátima Lopes é responsável da agência Face Models, que representava Renato. O Renato nada fazia parecer que fosse homossexual. Os amigos não sabiam, a família não sei se sabia ou não, mas na agência ninguém sabia, ou pelo menos ele nunca assumiu. Renato Seabra não é o primeiro namorado de Carlos Castro que é ou quer ser modelo.

E também não será o mais novo, diz Lilica Nessas. O Carlos Castro, como toda a gente sabe, era homossexual e gostava de meninos muito bonitos a vida toda. E ele via nas festas, ou por exemplo, na moda Lisboa, ele ia a todas as modas de louros, porque ele era fashionista mesmo, eu só gostava de moda e penso que também gostava de ver os modelos de chelar. O que é que o Carlos Castro me dizia? E via na moda Lisboa, filha, tu tens estes modelos todos a fazer em género contigo.

a bajular, a entretanto, não tens nada com eles. Ah, filho, agora vou ter um romance como o dele, a propósito de quê? Porque a esparva só se eu aproveitava já. Ah, eram sempre mais novos que eu. Era fácil, não é? Portanto, eram sim rapazes mais novos. Não eram rapazes, gostavam de homens. E eram rapazes bonitos. Assim entrou na vida dele o seabra.

Um rapaz bonito. Que ele contou-lhe uma história e ele acredita. Cláudio Montez era um dos melhores amigos de Carlos Castro. No livro que escreveu, além de relatar a viagem com Carlos e Renato a Madrid, revelou uma das confidências que o amigo lhe fez nessa altura. Renato tinha-lhe dito que também gostava de raparigas.

Carlos fez questão de garantir a Cláudio que estava tudo bem e que para ele isso não era um problema. Mas a ideia com que Cláudio Montes ficou foi a de que o amigo se importava. E muito. 6 de janeiro de 2011 E aí

Se não tivessem apanhado mau tempo, Carlos e Renato deviam estar num avião de volta para Lisboa. Mas por causa da neve, o cronista social prolongou a viagem e ainda tem mais nove dias em Nova Iorque. Hoje vão finalmente jantar ao Polinos, o badalado restaurante italiano que abriu há menos de um ano no Lower East Side. Carlos já lá foi uma vez e gostou tanto que quer voltar.

É uma pizzeria moderna e barulhenta que tem um conceito de decoração invulgar. Os pilares têm azulejos recuperados das estações de metro da cidade. Parte das mesas foram feitas com madeiras de barricadas policiais. E os empregados têm t-shirts com a frase mais usada em sinais de perigo ou avisos de cenas de crime. Do not cross the line. Não transponha a linha.

Wanda Pires chega ao Intercontinental por volta das oito e meia. A mesa está marcada para as dez. A ideia é irem os três juntos até à outra ponta da cidade. O namorado dela há de juntar-se mais tarde, se conseguir sair do trabalho a horas. Nos últimos dias, Wanda tem passado bastante tempo naquele lobby. Os seguranças do hotel até já a conhecem, sabem com quem ela vem ter.

Mas hoje, ao contrário do que tem sido costume, não precisa de ligar para o telemóvel de Carlos Castro para ele descer. O amigo já ali está. Assim que olha para a cara dele, Wanda percebe que se passa alguma coisa. Carlos está sozinho. E está transtornado. Diz-lhe que não sabe onde está Renato. Que discutiram e que ele saiu do quarto.

Conta que durante a tarde o viu a conversar com duas raparigas. Acha que chegaram a trocar o número de telefone. E teme que ele possa ter ido encontrar-se com elas. Renato não tem telemóvel. Ou melhor, tem, mas como não ativou o homing, não está a funcionar. Carlos não tem maneira nenhuma de falar com ele. Nem de saber onde ele está. Mas também não consegue ficar ali parado. Sai para a rua.

Wanda fica sozinha, à espera no lobby. Passam-se cinco minutos, dez, quinze. Já passa das nove da noite, quando finalmente a porta do hotel se abre. E Wanda vê entrar os dois. Carlos continua furioso. Nem para quando passa por ela. Diz-lhe apenas que já voltam.

Renato vem andar tranquilamente, dá-lhe um beijinho e um abraço. E depois segue atrás do cronista social. Cinco minutos depois, estão os dois de volta. Wanda ainda sugere deixar o jantar para o outro dia, mas Carlos, de cara fechada, diz-lhe que não. Entram os três para o banco traseiro de um táxi.

Carlos vai no meio. O silêncio é terrível. Há de descrever Wanda ao detetive John Mongiello. Em quase meia hora de viagem, só é interrompido uma vez, por Renato, que é imediatamente mandado calar pelo cronista social. Carlos não lhe dirige a palavra. Aliás, nem sequer olha para ele.

Quando chegam ao restaurante, Renato vai à casa de banho. Wanda aproveita e pergunta finalmente ao amigo o que aconteceu. Mas ele diz-lhe que não quer falar. Depois, logo lhe explicará tudo. É um jantar constrangedor. Carlos, habitualmente tão falador, não diz uma palavra.

Em contrapartida, Renato, habitualmente tão tímido e calado, parece estar a tentar a todo custo fazer as passos com ele. A dada altura, chama a empregada de mesa. Quer pedir uma garrafa de vinho. Carlos já tem um copo de tinto e Wanda não bebe. Pergunta-lhe por que raio quer ele pedir uma garrafa inteira. E Renato responde. Vamos celebrar.

A cena, que Wanda há de recapitular inúmeras vezes, não faz sentido. Renato, aquele rapaz tão reservado, está a chamar a atenção, a falar alto, a sugerir brindes atrás de brindes. Entretanto, chega Avelino, o namorado dela. Renato levanta-se imediatamente e passa-lhe um copo. Este já estava à tua espera há um bom bocado, diz-lhe.

Brindam algumas vezes os dois. Carlos nem olha para eles. Continua zangado, amoado, absolutamente mudo. Depois de jantar, Avelino ainda sugere irem comer uma sobremesa. Carlos diz-lhe que não. Só quer ir para o hotel. Chegam antes da uma da madrugada.

É exatamente meia-noite e 57, quando a porta do elevador se abre no 34º piso. As imagens da Câmara de Segurança mostram Renato a passar. Depois, aparece Carlos Castro. A porta do quarto fecha-se. Mas não pela última vez. Esta...

vai ser uma longa noite para os hóspedes do 3416. Meio-dia e 17. É sexta-feira, dia 7 de janeiro. Carlos Castro pega no telemóvel e liga para a amiga Wanda Pires.

A chamada está registada na listagem que a polícia de Nova Iorque pede à operadora móvel. Diz que está farto. Passou a noite a discutir com Renato. Afinal, talvez se tenha enganado em relação a ele, admite. Parece outra pessoa. Tratou-o como lixo. Foi agressivo. Chamou-lhe nomes. Muito, muito violentos.

E como se não bastasse, disse-lhe que já não era gay. Para o cronista social é o fim. Quer antecipar o regresso a Portugal. Wanda há-te contar à polícia que lhe pediu para ter calma. Sugeriu-lhe que mandasse Renato de volta e que ficasse mais uns dias. Se ele te trata como lixo, depois de tudo o que tens feito por ele, porquê é que vais viajar com ele?

Em vez de estar ali no hotel, até podia ir para a casa dela. Carlos disse-lhe que não. Iam voltar juntos. E quando chegassem a Portugal, aí sim iria cada um para o seu lado. Na verdade, nem Carlos nem Renato irão regressar a casa. Nem no voo que estava marcado, nem neste novo voo que o cornista social acaba de reservar.

Dentro de algumas horas, Carlos Castro estará morto. Mas essa é uma história para o próximo episódio. O observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado, e com o próprio Renato Siabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado.

no próximo episódio. Era óbvio que foi criado ali uma manobra para ele ir a mãe, penso eu, a família dele. Ele era até medroso, porque era pequenino. Se alguém o confrontasse, ele não tinha capacidade até física para enfrentar ninguém.

É aí que se cruza com o Renato Seabra e que ele saiu de uma forma completamente natural, vestido, banho tomado. Foi isso aquilo que foi mais estranho no meio disto tudo. Os Ficheiros do Caso de Carlos Castro É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha.

A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Feraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube.

Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.

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