Tia Xanda, Tia Xanda! Eu quero me desconstruir...
Se você pudesse voltar na infância, o que você faria de diferente? No episódio dessa semana contamos um pouco dessa fase que nos molda para a vida. Aqui tem de tudo: traumas de infância, momentos vergonhosos e atitudes um pouco preocupantes. Mas como diria Gretchen: ESSA SOU EU!!!
- A infância como fase de formação da personalidade e traumasvivências e experiências·inocência infantil·brincadeiras de menina·julgamento social
- A pressão social e a negação da identidade na infânciasensibilidade e feminilidade·estereótipos de gênero·negação das aparências·medo do julgamento
- Experiências de agressão e violência na infânciaameaça com faca·reação a assalto·agressão física·traumas de infância
- Vergonha de gostos musicais e a influência familiaresconder artistas pop·gosto por rap e pop·influência de Shakira e Rihanna·músicas de séries infantis
- Instabilidade emocional e a somatização de frustraçõescrise emocional por queimar feijão·sentimento de inutilidade·impacto na vida adulta
Oi, tá gravando, tá gravando. Oi, amigo, tudo bem?
Oi, amigo, eu tô ótimo, você? Mais um episódio aqui, né? A gente faltou na semana passada. O que aconteceu, amigo?
Eu fui demitido.
Amigo, eu não consigo começar o episódio com uma introdução calma. Eu preciso assim me decompor aos poucos, porque, gente, se vocês soubessem da conversa que foi antes da gente iniciar a gravação, eu tô assim anestesiado de tanto rir do que que o Gabriel passa, amigo. Literalmente, a sua história, sua rotina é um pão e circo.
Amigo, eu sinto que eu deveria começar a ir trabalhar de cara pintada, nariz vermelho, né, para deixar no clima, né, do circo.
Meu Deus, gente, só queria dizer uma coisa: não lavem o pé na pia, por favor, por favor.
Ainda mais no trabalho. Se for até na sua casa, eu acredito, porque a casa é sua, né? Eu não vou cortar nessa sua pia podre.
Ai, amigo, mas é isso, né? Estamos de volta para mais um episódio. A gente, se vocês têm que nos dar um desconto, porque tanto eu como Gabriel, a gente tem uma disfuncionalidade tanto na vida como emocionalmente como fisicamente. Então assim, o nome do podcast é exatamente para fazer jus ao nosso comportamento e o nosso estado físico e mental, né, amigo?
Gente, nada que a gente possa aqui é mentira, a gente é maluco mesmo.
Se eu tomo sertralina, clonazepam e amitriptilina é porque é verdade.
E eu que não tomo nada, tá faltando.
Amigo, ano passado eu tava vivendo no pelo, e aí eu senti no pelo o que é viver no pelo. Hoje em dia eu estou sendo medicado e você que está vivendo no pelo, amigo.
Eu, eu preciso urgentemente ser medicado. Eu acho que, eu acho que não tem muito ponto para reclamar não, amigo.
Acho que todos nós precisamos de um remedinho, mas procurem, gente, procurem um profissional, tá? Não se mediquem, porque isso é errado. A gente não pode proferir isso, porque senão a gente vai preso, né? Mas enfim, amigo, o que nós vamos falar hoje no episódio—
Oi, mas eu vou fazer, tá?
Um beijo. Tem a opinião politicamente correta e tem a opinião que deve ser levada a sério também.
Tem opinião pessoal dos integrantes, que é medicação.
Mas amigo, o que que nós vamos fazer hoje no episódio?
A gente vai falar sobre infância, né? Um momento muito bonito, né? Um momento de muita vergonha, né? A gente veio falar um pouco sobre as nossas vergonhas que a gente passou na nossa vida. Amigo, dá para incluir aqui nesse episódio as nossas vergonhas da adolescência também?
Amigo, dá com certeza. Se a sua infância, amigo, tiver sido pouco vergonhosa, eu acho que dá sim, sabe? Aí te abre um plus, né?
É porque eu fiquei agora, não, não, meu, me foi bem vergonhosa assim.
Não descarta, né, amigo?
É que eu também teve muita vergonha na adolescência, entendi, amigo.
Não faz parte. Mas assim, depende do que você considera adolescência. É o quê, dos 12 aos 18 ou dos 12 aos 26? Depende do que você chama adolescência, é tudo ótica, amigo.
O que que eu ia falar, né, é que para mim foi que a adolescência era até os 18, né. A ciência disse que não, mas assim, né, tomei a época de eleição, né, já que um dia eu vou estar 17, eu vou negar que eu não tive. Tira, tira, Pedro! Deu de demais! Fica tranquilo, aqui é 13!
Aqui é 13! Ai, ai, gente, mas é isso, né? Assim, a gente vai que conversar um pouco com vocês sobre a infância, relembrar um pouco os momentos que nos fez ser quem a gente é hoje, né, amigo? Porque se eu com 12 anos de idade peguei um vestido da minha mãe e me olhei no espelho com uma bolsa do lado e meu pai me olhando pela janela é porque hoje eu sou um gay enrustido. Tô brincando. Mas assim, acho que vivências, né, experiências.
Porque, amigo, na infância a gente era muito inocente, né, para as coisas que a gente fazia.
Não, eu não sinto que eu era muito inocente.
Amigo, pera aí, a gente precisa contexto, né? Você é do Rio de Janeiro.
Acho que no Rio de Janeiro, 2 anos, tô dando tiro.
Isso é outra vivência, é outra vivência, as experiências, né? Então assim, o contexto, amigo, ele, contexto, tempo, lugar, ele tudo varia, né? Então assim, eu tava pensando aqui quando eu fui fazer a pauta que eu era muito inocente como criança, né? Ainda sou um pouco inocente, ingênuo, né? Porque eu fazia umas coisas que eu pensava assim, nossa, eu consigo imaginar as pessoas em volta me julgando por fazer aquilo. Por exemplo, uma coisa que me marcou muito na infância, que eu fazia muito, era que assim, primeiro de conversa, eu não tinha vizinho nem amigo.
Eu sempre morei assim no meio do mato, igual aí caipora, pirapora, é assim que fala. Tal qual a Cuca no seu caldeirão, tal qual o Saci na floresta, eu vivi um pouco isolado. Então eu não tinha muito com quem brincar, né? E aí eu sempre ia para casa da minha avó brincar. E aí lá a minha prima morava perto da casa da minha avó, mora ainda, né? E ela tinha amigo, não sei se você vai lembrar, sabe aquelas bonecas com cheirinho que tinha cheirinho de café?
Que é umas bonecas bem pequenininhas assim.
Aí tinha moranguinho, tinha cafezinho, que era a única preta. Amigo, não tinha chocolate branco, não tinha, amigo.
Quando você falou cafezinho, eu falei Lembrei, lembrei. Aquela pessoa que trabalhava no cafezal, né? Trava, que não tinha direito. Bacana.
Ai, meu Deus do céu, amigo. Não tinha senhora de engenho, sabe?
Que bom, né, que não lançaram boneca senhora de engenho.
Amigo, não lançaram a boneca Dona Benta, sabe?
Enfim, amigo, né, naquela época era assim mesmo, era assim mesmo, amigo.
Mas aí, enfim, né, eu adorava, amigo, ir para casa da minha prima brincar com as bonecas. Eu, além de brincar de boneca, eu ficava muito cheirando as bonecas. Então eu colocava elas no colo assim, ficava assim cheirando. E, amigo, eu brincava como se eu tivesse de fato vivenciando uma brincadeira de menina, de igual seu irmão, que ele postou, você postou o seu irmão? Não, amigo. Seu sobrinho, eu ia falar seu filho, parece muito comigo mesmo, é verdade, parece muito com você.
Mas é igual você postou seu sobrinho brincando de cozinha, sabe? Aí tinha cozinha verde para menino, vermelho, rosa para menina, mas isso não diferencia nada. Eu também brincava muito com fogãozinho da minha prima, amigo, e tipo assim, eu brincava, falava alto, tem que colocar cafezinho para dormir, Tem que trocar a roupinha da Moranguinho. E tipo assim, os meus parentes em volta, eu lembro deles parado assim me olhando assim, tipo assim, é esse menino, esse menino não sei não, hein.
Ei, ei, tu vai ser, ó. E hoje em dia eu fico lembrando assim, gente, a ingenuidade de uma criança, né? Ela só tá brincando ali, só tá se divertindo, a forma de brincar. E hoje em dia eu penso, se eu fizesse hoje isso, nossa, seria o cúmulo para mim, porque é muito vergonhoso você brincar de boneca, né? Olha só para você ver como o patriarcado, amigo, tá na Cafezinho também.
Ah, o seu favorito pelo visto era Cafezinho mesmo, amigo.
Acho que a personagem principal é a Cafezinho, amigo.
É, eu compartilho de algumas coisas parecidas com a sua, porque Eu tive esse momento assim também na infância toda e que ficava falando, esse menino é sensível.
Aí, ó, espera só, espera só, ela é uma criança muito sensível, né, amigo?
E aí, sensível no Rio de Janeiro é sinônimo de viado, né?
E aí, o que que é excessivo?
Sensível no Rio de Janeiro chama viado. E aí as pessoas ficavam falando, essa criança é viada.
Gostei do eufemismo, sabe, de vez ser viado é sensível.
Não, sensível nos outros estados, aqui no Rio é viado.
Ah, tá, é o contrário.
E aí, e aí tinha, eu lembro que tinha um, enfim, tinha uma pessoa que era ali no meio da, não era do meu sangue, graças a Deus. Mas você viu que eu não gosto, né, das outras pessoas. E aí tinha o menino que ele era ali, tava no meio da família, né, ali do que é parte do sangue, parte do sangue. Como é que eu não posso? E esse menino, ele era o auge da masculinidade, né. Ele falava, ele coçava o saco, 4 anos de idade, coçava o saco, falava que ia pegar várias mulheres, que ia foder cu, que ia bater policial. Era uma criança assim, o auge da masculinidade carioca.
Isso com quantos anos?
Ele devia ter uns 4, 5 anos.
Meu Deus, que precoce!
Ele devia ter uns 7 anos, vai.
Meu Deus do céu, você muda muito!
Se eu tinha 11, ele me deu 7.
Meu Deus!
E aí, e aí ele ficava assim, ó, Gabriel, você que ser que nem fulano, porque o fulano é homem de verdade, você não, amigo.
Se você não pegou no seu saco com 7 anos, você não é homem suficiente.
Mas não é culpa minha de eu lavar o saco. Criança nojenta, com saco todo sujo, cheio de pereba, coçando o dia inteiro.
E aí, desde quando, né, pereba é sinônimo de masculinidade, né?
Desculpa, gente, aquela criança nojenta, toda suja. Enfim, e aí viviam falando que eu tinha que ser igual fulano e parar de ser igual eu mesmo, né? Porque tava errado o jeito que eu fazia as coisas. Eu era uma criança muito sensível, era uma criança muito feminina, né? E aí ficava, anda que nem homem, né? Assim, um negócio lindo. Aí tudo que eu fazia tava errado, nada que eu fazia prestava, e o Jesus Cristo na Terra era esse menino.
Eu lembro uma vez que quando eu acho que até estudava comigo, foi no, vocês estão na minha escola Em um ano só, né?
Foi uma só.
É, e eu lembro, amigo, que nesse período eu tava assim me descobrindo, né? Eu tava negando a minha, as minhas origens, tava negando a minha ancestralidade, né? Aí teve uma vez que você me falou assim, você me perguntou, acho que era o intervalo, eu falei assim, você falou assim, amigo, é, você, eu comecei a andar com você com William, com os meninos, eu andava muito com as meninas. Aí eu falei assim, você falou assim, é, Natan, você vai andar com a gente?
Assim, vou, vou ficar mais perto de vocês, não quero ficar mais perto das meninas não. Porque naquela época eu tava negando as minhas aparências de que um viado sempre tá ao lado de uma menina, né, o famoso chaveirinho de hétero. E eu ficava, já fiquei muito assim, é, me negando, sabe. Porque é uma fase também muito vergonhosa, né? Quando você se descobre, você acha que você tá pecando e você vai para o inferno real, né? Ou talvez ainda, amigo.
Eu não tive essa pira do inferno, mas eu tive a pira do que é errado, porque ficava falando para mim que era errado, né? Tem isso, porque ficava falando que não era coisa de homem, né? Aquele jeito que eu agia e falo, jeito que eu falava, do jeito que eu andava. E aí eu vivia nessa de que o que eu tava fazendo tava errado, mas não foi uma questão religiosa, foi uma questão que eu não sei que questão é, uma questão de caráter, sei lá.
Não, caráter não, uma questão de, ah, pode ser moral, né?
É, talvez moral, né, de gênero, sei lá. O que acontece, as coisas das meninas era muito mais divertido.
E aí, com certeza, amigo, cafezinho, você tinha que ver.
Porque acontece, as meninas podiam dançar e eu tinha que ficar parado. Eu queria dançar também, sabe? E aí, quando ia dançar o Ponte das Maravilhas, eu não podia dançar o Ponte das Maravilhas. Eu ficava no canto corroendo de ódio. Porque eu queria dançar o Bando das Maravilhas também, que era muito legal. Bando das Maravilhas, gente, vocês não entenderam, amigo.
Dançar o Show das Poderosas, olha que incrível!
Eu também queria colar a bunda no chão, sabe?
Eu queria fazer o quadradinho de borboleta.
Eu também queria, sabe? O passinho do bate-bate.
Mas a gente tem que ouvir aqueles funk do MC Dalete com a arminha para cima assim, né, amigo?
Eu tenho pavor de funk concentração.
Pavor no Rio tem muito, né, amigo?
Ai, meu amigo horroroso, eu tenho pavor, meu Deus do céu, para morrer. E fica, vai fluir porque Deus tá na frente, e aí é pá pá pá, tiro para cima, vamos pegar, e bunda de mulher, elas ficam todas assim.
Vou jogar sal grosso nessa moto aqui porque a inveja do povo Onde tá o grosso na moto?
Comprou essa moto de segunda mão, toda usada, toda acabada. Vai parar de pegar porque a moto tá velha.
Não é velha não, as peças dessa moto é peça roubada.
E aí lá perto do meu antigo trabalho ficava tocando punk e eu ficava: quando vai tocar Melanie Martinez?
E Mariah, ela não vem?
Uma vez tocou um remix de Rihanna. E aí eu me segurei para não cantar, para o trabalho. Eu tava me segurando e eu tava pensando assim, caramba, gente, não é possível, tá tocando, tô com remix de Pon de Play da Rihanna, sabe como é que é essa? Não tem como não ficar parado, tudo no chão para dançar, amigos.
Você fala assim, a vigilância sanitária é só um momento. Esse é o meu momento.
Dá um figuratinho aí que tá tocando Coldplay aqui, que eu vou, amigo.
Mas é uma coisa assim, não é tão vergonhosa aos olhos dos outros, mas é uma vergonha que eu tinha. Você tinha vergonha de, tipo assim, do povo descobrir as músicas que você ouvia? Porque, tipo assim, quando as pessoas falavam assim, ai, deixa eu ver o que você tá ouvindo, eu vou lá, colocava um Maroon 5, colocava um Coldplay, porque tava tocando Britney Spears, tava tocando Gazelle, Fence, Eu tinha muito vergonha.
Então eu não tive muito isso porque eu gostava muito de rap, né, na época da minha vida. E aí eu ouvia muita Nicki Minaj e ouvia— a gente não mostra aqui, isso era 2012, me deixa. Eu ouvia muito Nicki Minaj, só que eu também ouvi o Lil Wayne, eu ouvi o Drake, eu ouvia o Tyga, essa galera toda que fazia rap. Eu não ouvia só o rap Óbvio que eu ouvia mais rap feminino, porque o que acontece, as músicas que eu ouvia tinha Nicki Minaj.
A única coisa que tinha os outros homens cantando lá, amigo. Eu tinha música que eu cortava só a parte da Nicki Minaj, deixava só a parte dela, e aí eu excluía a outra parte dos cara cantando, salva no telefone. Eu não tinha a parte dos outros rappers, eu tinha só a parte da Nicki Minaj. E aí o que acontece, eu tinha essa questão porque como eu moro no Rio, né, eu ouvia, ouvia Pumbalapumba também. Eu não via só Grande Vitória porque tocava o Grande Vitória e depois tocava o Pumba na Pumba do MC Magrinho, entendeu?
E aí eu já tava já mais no meio. O que que acontece, eu era muito fã do Bacaxi do Blues.
Sério? Nessa época?
Não, não, mais para frente, né? Tipo, aí eu era muito fã do Baco e eu tinha muito Baco de Jonga. Ouvia muito rap masculino, só que eu também, no meio do Baco de Djonga, tava Melanie Martinez, tava Aurora, tava a Rihanna, entendeu? Da Melanie Martinez e Exu do Baco, entendeu?
Um depois do outro. Então a Melanie Martinez, ela camuflava entre o MC da Leste, entre Tinha uma questão na minha casa que minha mãe deixava eu colocar minhas músicas, né?
Então não tinha como ela saber o que eu tava ouvindo, porque eu tava sempre de fone. Que minha mãe falava, essas músicas são horrorosas, você não vai tocar elas aqui em casa não. E aí eu não podia escutar, né, as músicas. Aí a gente escutava o quê? As 4 estações de São de Julho, que era uma merda, mas enfim, já tava lá.
Tocava Xuxa ao contrário, fazendo pacto com o diabo, mas não toca Melanie Martinez.
Aí, amiga, Queria só ouvir a pagode, pagode.
Gente, amigo, que horror! Mas eu tinha muita vergonha, gente. Nossa, eu não podia, acho assim, eu não podia fazer as pessoas descobrirem que eu tava ouvindo Lady Gaga. Meu Deus, que tenebroso para mim, amigo.
O que acontece, a minha mãe ela gostava muito, né, e da Shakira.
Sério?
E aí ficava tocando muito tempo lá em casa e eu adorava, né.
Amigo, você foi influenciado, tá vendo?
Não, não, eu que influenciei ela.
Ah, entendi.
Você lembra daquela série da Disney, Boa Sorte, Charlie?
Lembro.
Sabe aquela mulher lourinha, a British Mendler? Ela fazia música. E aí uma vez tocou Hurricane da British Mendler lá em casa. Minha mãe viciou nessa música, colocou como toque do telefone dela. E aí, e aí, e aí era minha mãe ouvindo uma atriz do Disney Channel, assim, do completo nada. E aí, e a Demi Lovato, minha mãe gostava muito da Demi Lovato, Shakira, Rihanna. Sabe uma coisa que eu lembrei? Eu tinha uma tia, ela foi o bapho na minha vida, tá?
Essa minha tia, eu não tenho contato, mas ela me deu um CD com todas as músicas da Rihanna quando eu era Ai, que tudo! E aí, e aí, amigo, mudou a minha vida. Eu era bem pequenininho. E aí teve um amigo da minha mãe que ele era gay, né? E ele fez para minha cópia toda música do RBD. Assim, amigo, foi um dos maiores baphos da minha vida. Eu era muito fã de RBD, era muito fã.
Eu lembro que você tinha, você ouvia também Violeta, né, amigo?
Até hoje, cabeça.
Espanhol, né? Porque a maioria dos fãs de Violeta sabe a música completa, o espanhol assim perfeito, amigo.
E a maioria dos fãs de Violeta são meninas de 12 anos, amigo.
Eu conheci um cara assim, ele tem a nossa idade também, ele é gay, mas assim, né, o que que tem a ver? Mas ele também é fã de Violeta e sabe cantar as músicas, as letras direitinho. Todas, a maioria.
Eu nunca conheci outro homem que era fã de Violeta.
Eu procurei, você tipo assim no chat procurando, procura ser fã de Violeta.
Amigo, Violeta é uma série de menina, né? A gente tem que concordar, não tem como, né? É uma menina que toda de rosa e vive escrevendo no diário e gosta de cantar e dançar. E aí ela briga com uma loira, sabe?
É tipo assim, não é o seu primo, né, de 7 anos que pega no saco e fala de cu, que vai falar, olha só essa nova música de Violeta.
Meu primo não, ele era da família da ex-esposa da minha mãe, tem nada a ver comigo. E aí eu acho que é muita coisa de menina, né? E aí não tinha música para minha mãe fazer também, ela não tava em casa trabalhando.
Amigo, aquela música de Brilhante Vitória que a Jade e a outra lá de iCarly começa a cantar, ou é a Vitória mesmo?
Eu acho que é Take Your Hands, não é isso?
É, nossa, essa música é muito boa, gente.
Eu vou até procurar todas as músicas de Vitória de cabeça, gente.
É muito boa, eu tô relembrando aqui, que nostalgia.
Quando eu era adolescente, eu queria fazer teatro, né? Porque eu ficava vendo Nickelodeon, Disney Channel, eu falava, eu quero ser ele, eu quando eu crescer, quando eu crescer, eu quero ser a Icardi, eu quero ser essa história. Eu sempre queria ser uma personagem feminina, nunca queria ser um homem.
Ai, gente, é tudo, né? Mas, amigo, vamos partir para momento de agressão, porque talvez se você teve uma infância que talvez você teve que partir para agressão. Tô errado? Porque eu, amigo, eu vou falar para você, eu com 11, 12 anos eu tive que pegar uma faca para me proteger. Eu tive que, amigo, eu tive que assim me adaptar com uma faquinha de serrinha que para mim era um facão. Na minha mão, sabe? Era perigo, era um perigo assim muito terrível que eu tava passando, porque eu tava, eu morava muito longe, né?
Não que eu não more longe hoje, mas eu usava micro-ônibus, né, uma vanzinha. E tinha um menino, um filho da mãe, que ele sempre sentava no meu lugar, porque tipo assim, o motorista ele odiava bagunça. Eu acho que igual você que odiava desorganização no seu serviço, Eu acho que ele seria você motorista, você seria ele motorista no caso. E aí ele enumerou cada poltrona com o nome da pessoa, tipo assim, 01 é o fulano de tal, o 02 é o Paulo.
Ele com toque pesado, esse motorista, amigo.
Ele tinha o ranço da gente porque a gente não calava a boca e era muita criança nova, então tipo assim não tinha como, né, fazer silêncio. E aí eu ficava quase no final assim, perto da janela. E aí o menino que tava do meu lado, que era o 07 e eu 06, ele sentava no meu lugar. E aí a gente ficava, amigo, assim com as mãozinhas, porque uma criança viada, né, não sabe bater direito, né, nem sabe pegar no saco direito. Ela começava a pegar as unhas assim, ó, e começar a apertar a mão do menino, tipo assim: olha aqui, você não senta aqui não, você sai do meu lugar.
Eu vou tentar ser discreto.
Você fala entre os dentes, amigo, com a boca fechada. Eu falo que me sai do meu lugar.
Você, eu vou acabar com a sua vida aqui agora, amigo.
Poder da minha unha tinha o poder de matar a pessoa. E aí, menino, eu falei assim, né, tava quase chegando também no meu lugar que eu ia descer para ir para casa. E eu falei assim, isso não vai ficar barato. Ok, fui para casa dormir, amigo. Eu sou frio e calculista, olha só para você ver. Eu fui para casa dormir, fiz o dever de casa. Eu estudava à tarde, né, amigo? Na hora do almoço eu terminei de comer, fui na gaveta, peguei uma faquinha de serrinha, coloquei no bolso da minha calça.
Coloquei a camisa por cima assim e coloquei dentro da mochila. Eu lembro até a cor da minha mochila, era uma mochila azul com alças amarelas, linda. Amigo, era mochila da Violeta. E aí eu fui, eu morava numa casa que tinha um morro, né? Aí descia eu, meu irmão e minha mãe. Minha mãe me levava até o ponto de ônibus. Durante esse trajeto eu falei assim, eu pensei assim, não vou ficar quieto porque se minha mãe desconfiar vai dar errado.
E aí antes o meu irmão tinha visto eu colocando a faquinha dentro da mochila. Aí eu falei assim, não vai contar, né? Acho que ele vai esquecer, sei lá, criança, né? Amigo, quando eu tava descendo, meu irmão falou assim, mãe, o Natan tá com uma faca na mochila. Amigo, ali foi o meu martírio, amigo.
Sabe, que bom que sua irmã avisou, né?
A Guerra de Troia, amigo, acabou ali, sabe?
Que bom que ele avisou, né? Que vai saber o que aconteceu também.
A Batalha de Guararapes, amigo, acabou ali para mim, sabe? E aí, e aí, amigo, acabou a revolta, sabe? Minha mãe me bateu de vara depois. Porque errado é levar uma faca, uma arma branca, sabe?
Onde eu sei, eu já puxei uma faca para uma pessoa uma vez. E aí a minha mãe falou que eu era pequenininho. E aí eu me estressei quando eu era uma criança estressada já.
Isso explica tanta coisa.
Minha mãe falou que eu me cercei com não sei quem e ela me viu subindo a escada e aí com uma faca na mão e ela falou assim, você vai aonde? Eu falei, vou matar fulano. Eu vou lá matar fulano. E ela, você tá maluco? Pega aquilo na merda aí.
Gente, eu amo a calma e a serenidade. Eu vou matar fulano.
A melhor, uma criança serena, uma criança muito serena.
Amigo, você era Marina Senna.
Eu falei, aí não é? Depois, como assim que eu vou fazer? Não tá óbvio para vocês?
Quer que eu deixe mais explícito? Tem mate, ela.
Sorte que ela me viu, né? Subiu assim igual seu irmão, né? Vai saber o que aconteceu. Que bom, gente!
Eu amei a expressão puxei a faca, é muito bom.
Subir como subir escada, como assim? O que eu vou fazer, gente? Teve um pequeno momento da minha vida onde eu fui agressivo, né? Amigo, eu nunca peguei de porrada, né? Nunca bati em ninguém com a minha mão, né? Eu já bati com coisas nas pessoas, nunca com a minha mão. Então eu digo para todo mundo que eu nunca peguei.
É isso, não conceitua agressão, amigo.
Até onde eu sei, brigar é você dar porrada, não é?
É você assim, a ação de agredir.
Não é assim, eu taquei uma mesa aí, uma pia nas costas de alguém, taquei.
Pode ser.
Eu bati com bambu nas costas da pessoa, bati. Mas assim, né, nada que eu sou muito fã de costas, nada que O fetiche em costas, tudo muito foda. E aí, nunca fui para dar um soco em alguém. É o meu sonho, mas eu nunca fiz. Esse ano eu quase fiz, né? Me seguraram para não bater, é porque eu briguei no trabalho, e me seguraram para não bater em alguém, mas foi bem pertinho. Mas até então nunca, né? Vamos ver aí se daqui para frente, até os 30, eu bato em alguém, quem sabe.
Eu acho que, amigo, assim, até os 30 é possível, né?
Até dezembro pode ser, amigo.
Depois que fecha o córtex pré-frontal, fica assim na mão de Deus, sabe?
O meu já fechou, né? Então assim, eu não sei o que eu tô fazendo aqui, amigo.
Mas é assim, isso molda a gente, né? Porque hoje em dia eu sei o quão perigoso é assaltar alguém Eu sei o quão difícil é bater em alguém, puxar uma faca, sabe? Porque falei, você assaltou alguém, amigo?
Não, eu sei o quão difícil é assaltar alguém. Eu falei o quê?
Gente, nossa, nem percebi o que eu falei. Mas enfim, amigo, porque hoje, tipo assim, sabe, você já foi assaltado? E você reagiu ao assalto? Você tipo foi pacífico, entregou?
Amigo, eu era muito pequeno, eu não consegui reagir. Hoje eu tinha reagido, amigo, eu tinha ido para cima. E lá vai. Não, tô esperando, gente. Eu acho que o Natan foi, eu acho que ele foi ajudar a mãe dele a subir com as compras, se eu não me engano. Vamos esperar. Enfim, né, eu acho que eu vou aqui falando enquanto o Natan foi lá ver. Ele tá ligação com a mãe dele. É, vamos ver o que que vai dar. Ele tá sacudindo a cabeça ali na ligação, falando alguma coisa com a mãe dele, não sabemos o que é.
Ele parece bem sério. Eu vou ficar na rua. Ele parece bem sério. Engraçado, ele fala muito engraçado, ele tá com uma cara de sério do caramba. Nunca vi ele com essa cara de sério, ele tá sempre rindo. Gente, olha que coisa, que loucura!
É o carro, é o carro do ovo. Voltamos, amigo. Eu tinha te perguntado se você já reagiu ao assalto. Qual será que você tinha? Lembra? Nossa, que ódio! Posso te assaltar? Fica com Deus. Valeu, obrigado por me assaltar. Amiga, tá tudo sob controle. Eu estou sem celular, mas Tá tudo certo, amigo. Acontece muito no Rio de Janeiro, né? Um assalto mandado. Mas por que, amigo? O que que você fez para as pessoas te assaltarem? Tipo assim, ah, eu vou ter que assaltar essa pessoa então.
Gente. Amigo, mas uma pessoa tão assim de bem com a vida, você que é só estressado internamente, você faria mal assim com, sei lá, com 15, 17 anos? Deveria ter causado, né, amigo? Essa raiva, descontar sua raiva em você mesmo, é, a gente tá falando de mutilação. Ah tá, tô bem, fico bem. Uma crise emocional ali que somatiza, né? É uma mutilação simbólica, né, amigo? É isso, gente, explica muita coisa, né? Amigo, eu lembro, amigo, eu era muito, eu era, ainda sou, né, gente, instável emocionalmente.
Mas na época, na época, amigo, eu fui esquentar um feijão e eu deixei o feijão queimar, amigo. Eu comecei a arrumar um desespero. Minha mãe falou assim, meu Deus, é só um feijão. Eu falei assim, não, eu sou inútil, eu não sei esquentar um feijão. Meu Deus, eu não sei quando que eu vou ter essa autonomia de cozinhar um feijão, de fazer um feijão. Eu comecei a chorar, amigo, e o cheiro do queimado do feijão ficou perdurando anos no meu olfato, sabe?
Isso me desestimula até hoje, amigo. Isso nos desestabiliza muito. Amigo, eu entendo a sua animosidade porque isso aconteceu comigo, sabe? A gente sente um inútil, sabe? Incapaz. Exatamente. As pessoas vendo que você queimou um feijão, elas começam a ligar que você, tipo assim, não foi vacinado, tipo assim, você é antivacina, sabe? Tipo assim, meu filho tá, ele nunca tomou vacina. Vacina e tá bem. Olha o filho, queimou feijão.
O anjo caído. Comente. Ok, essa aqui começa. Legal. Amigo, isso é diagnóstico, é um diagnóstico fortíssimo. Sua mãe não te batia, não? Meu Deus, esse moleque tá falando Gabriel! Eu vou ter que dar uma surra. Amigo, você tá me irritando da sua casa. Altíssimo. Gabriela tá barulhentona. É, Gabriela, te auxílio. Mas o que que você fez para coluna travar? O que que você fez para coluna travar? Meu Deus, a bacia! Você ficou no formato de uma cadeira.
Você ficou no formato de uma cadeira, amigo. Eu diria atípica, né? Atípica, fala igual a Raiane, né? É uma menina pisca, mas é uma falácia ou é verdade, amigo? Entendi, amigo. Amigo, aquele, aqueles senhores de idade que não vai no médico porque se for no médico vai descobrir que tem alguma coisa, sabe? Ao contrário de uma criança. Gente, que horror, amigo. Você quer finalizar agora porque minha mãe chegou agora, ou você quer pausar e depois a gente continua?
Você tinha cronometrado mesmo, real, né? Mas é isso, gente, assim, né, um pouco da nossa infância. Eu acho que reflete muito, né, nas pessoas que a gente é hoje, reflete na personalidade que eu tenho hoje tomando remédio, né, amigo? O ciclo da semente, né, nasce, morre, mesma coisa. Mas no próximo episódio eu vou contar um caso que eu esqueci, que assim, acho que me moldou também, sabe? Mas por conta do tempo, eu acho que essa pílula, esse bait, precisa ficar para o próximo episódio.
Exatamente, amigo. Um rios, sabe? Só um rios. Um pouquinho de história. Assim, a gente não promete que a gente vai estar aqui na próxima semana, porque prometer é muito, né, amigo? Exatamente. Com Deus, gente.