Zé do Caixão: Por que ser ateu ainda assusta
Fonte:
LEITE, Letícia da Silva. A representação do ateísmo nos filmes de terror brasileiros: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). 2024. 127 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Assis, 2024.
Dados complementares da fonte:
- Autora: Letícia da Silva Leite.
- Título: A representação do ateísmo nos filmes de terror brasileiros: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967).
- Instituição: Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Letras, Câmpus de Assis.
- Grau: Mestra em História.
- Ano de defesa: 2024.
- Orientador: Prof. Dr. Ricardo Gião Bortolotti.
Lançamento: O Paradoxo de Einstein : Ciência, Ética e o Deus Cósmico
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- Zé do Caixão e a representação do ateísmo no cinemaDissertação de mestrado de Letícia da Silva Leite sobre Zé do Caixão · Análise do ateísmo nos filmes 'À Meia-Noite Levarei Sua Alma' e 'Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver' · Zé do Caixão como espelho de preconceitos contra o ateísmo · Contexto do cinema brasileiro nos anos 60 · Estética do lixo e o cinema de Mojica
- História do medo do ateuA palavra 'ateu' como arma de destruição de reputação · Grécia Antiga: Sócrates e a ligação entre descrença e corrupção · Inquisição e a justificação de violências pela falta de fé · Iluminismo: Hobbes e Locke e o ódio aos ateus · Filosofia do contrato social e a confiança na palavra dada
- O Paradoxo de Einstein e Jorge Guerra PiresUso da figura de Einstein para responder à rejeição do ateísmo · Jorge Guerra Pires como autor e pesquisador · Bioinformática aplicada à crítica social e religiosa · Biblioteca Digital da Aliança Ateísta
- Ateísmo e SecularismoRoteiro para lidar com crises de imagem de figuras públicas · Rejeição imediata à declaração de ateísmo · Hipocrisia religiosa versus descrença honesta · Autocensura de intelectuais e comunicadores
- Ateísmo, comunismo e propaganda anticomunistaBrasil pré-golpe de 64 e a propaganda anticomunista · O medo do ateomaterialista como bicho papão · A demonização do ateu pela igreja e alas conservadoras
- O marketing de Mojica e o medo do ateuMojica como gênio do marketing e criador de mitos · Testes de coragem e conflitos com a censura · O medo do ateu como ferida real na sociedade
- Análise dos eixos de Zé do CaixãoBlasfêmia: profanação de símbolos religiosos · Subversão moral: a busca pelo super-homem nietzschiano · Pseudociência: eugenia disfarçada de método científico · Contradição: lógica versus emoção no ateísmo de Zé do Caixão
Bom, no mundo das figuras públicas é bem claro que existe um roteiro muito bem estabelecido para lidar com crises de imagem, né? Ah, sim, com certeza. A gente vê isso o tempo todo. Pois é. Um político é pego num escândalo ou, sabe, um atleta comete uma fraude terrível. E aí o que acontece? Uma equipe de gestão de crise entra em cena. Exato.
Tem toda aquela coreografia, né? Lágrimas ensaiadas na TV, retratações públicas. Isso, tipo uma narrativa de redenção que o público acaba adorando e perdoando quase tudo. Mas olha, tem uma frase, uma simples declaração que quebra esse roteiro de um jeito irreparável. É quando a pessoa fala, eu não acredito em Deus.
Nossa, essa é a linha invisível que quase ninguém ousa cruzar, né? E o contraste é bizarro, sabe? Bizarro como? Explica isso pra quem tá nos ouvindo. Bom, uma figura religiosa pode ser flagrada em abusos morais absurdos. Ou, tipo, ter a cara de pau de pedir doações pra comprar um avião particular na TV aberta.
Nossa, sim. E ainda assim, continuam com uma base gigante de defensores. Exatamente. Mas se um formador de opinião simplesmente se declara ateu, a rejeição é imediata. É como se a descrença honesta fosse, sabe, tratada como algo muito mais tóxico que a própria hipocrisia.
E isso cria uma dinâmica muito sombria, né? A gente vê grandes intelectuais e comunicadores na mídia brasileira hoje medindo as palavras com um cuidado extremo. É, eles caminham pisando em ovos, né? Nunca cruzando certas linhas para não alienar o público.
Pois é, e quem foi mais vocal sobre o ateísmo no passado acabou meio que sumindo dos grandes debates. Então a grande pergunta de hoje é, por que o ateísmo carrega um estigma tão forte que faz mentes brilhantes se autocensurarem hoje em dia? E essa provocação é o motor da nossa investigação aqui. E isso está muito bem explicado num livro chamado O Paradoxo de Einstein, Ciência Ética e o Deus Cósmico.
Ah, sim. Esse livro é sensacional. É. Ele usa a figura do Einstein não só como biografia, mas para tentar responder exatamente a esse fenômeno moderno da rejeição do rótulo de ateu. E é super importante a gente falar de onde vem esse material, né? O livro é do Jorge Guerra Pires. A trajetória dele já explica muita coisa sobre a visão do texto. Com certeza. Ele é um pesquisador independente, PhD em bioinformática, com uma bagagem gigante, né?
Isso, ele passou por lugares como a USP, a Fiocruz e até pela Universidade de Láquila na Itália e na Polônia. E a bioinformática é tipo a ciência de achar padrões e anomalias em dados biológicos imensos, né? E o que ele faz de genial é pegar essa mente analítica, sabe? Esse rigor de caçar erro em código genético e aplicar na crítica social e na religião. Uma mudança e tanto de carreiras. Sair da academia tradicional para a escrita. Tchau, tchau.
Pois é. E as obras dele formam uma base incrível para o pensamento crítico. Inclusive, os textos dele fazem parte da Biblioteca Digital da Aliança Ateísta.
Ah, legal! Quem cuida disso é o Guilherme na atividade, né? Exatamente. O Guilherme faz uma curadoria muito boa lá. Para quem tem interesse, vale dar uma olhada no Instagram deles, que é arroba aliança.ateísta. É um acervo riquíssimo. Bom, mas para a gente desvendar esse enigma que o livro traz, a gente precisa voltar no tempo. A gente precisa entender como a cultura pop ajudou a cristalizar esse medo no Brasil. Ah, e a gente tem a fonte perfeita para isso hoje.
Sim, a gente vai cruzar as ideias do Jorge com uma dissertação de mestrado espetacular da Unesp de 2024. Foi escrita pela Letícia da Silva Leite. Uma pesquisa fascinante, né? Ela analisa a representação do ateísmo no cinema de terror brasileiro.
E isso focando nas obras do José Mojicamarins, o famoso Zé do Caixão. Especialmente os filmes A Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 64, e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 67.
E o mérito dela é mostrar que o Zé do Cachão não era só um vilão assustador, sabe? Ele era um espelho de todos os preconceitos que a sociedade tinha contra quem rejeitava a religião. Mojica pegou séculos de pânico moral e colocou tudo num cara de cartola e unhas compridas. É muito louco isso. É genial. Mas para entender o impacto disso, a gente tem que olhar para o Brasil dos anos 60. O cenário era de uma efervescência total.
Total. O cinema nacional estava numa crise de identidade gigante. Tinha a galera tentando copiar Hollywood na Vera Cruz e do outro lado, o cinema novo do Glauber Rocha, focando na pobreza, a tal da estética da fome. E bem no meio desse furacão, perto do golpe militar de 64, aparece o Mojica.
Ele era um cara totalmente de fora dessa bolha intelectual. É, eu fiquei surpresa lendo isso. Ele era autodidata, né? Vivia nas ruas e bairros operários de São Paulo. Exato. Ele conhecia a massa popular pela vivência, não por teoria. Isso definiu a técnica dele. Ele abraçou o que chamam de estética do lixo.
Estética do lixo, tipo nada de imagem perfeita e som limpinho? Nada. A tela era suja mesmo, os cortes eram meio brutos, a luz era agressiva. O objetivo era causar desconforto físico. Quem estava no cinema tinha que se sentir encurralado, sabe?
E a sacada principal foi o monstro em si. O Zé do Cachão não é um vampiro, não é um alienígena. Ele é um agente funerário humano, um coveiro. E pior, um homem cético, letal, que não tem crença nenhuma no divino.
Isso atacava bem no coração do Brasil da época, né? 93% da população era católica. Sim, Mojica percebeu que um monstro europeu não ia dar medo naquele público. Para aterrorizar o brasileiro, ele precisava atacar os dogmas da fé.
Mas peraí, me tira uma dúvida. Lendo a dissertação, eu fiquei pensando. A linha entre crítica social e oportunismo para vender ingresso é bem fim. É, sempre rola esse debate. Tipo, hoje a gente vê influenciadores fazendo absurdo só para gerar engajamento no algoritmo. O Mojica percebeu que ofender a religião lotava os cinemas. Ele estava mesmo criticando a sociedade ou só era um gênio do marketing querendo chocar?
Olha, as duas coisas andavam juntas. A pesquisa da Letícia mostra bem isso. Ele era um marqueteiro implacável. Como assim? O que ele fazia? Ah, ele armava uns testes de coragem de madrugada em sinagogas, criava confusão de propósito com a censura só para sair no jornal do dia seguinte. Ele construiu o próprio mito ativamente.
Caramba! Ele era muito esperto. Muito. Mas, veja bem, o marketing só deu certo porque tocou numa ferida real. Ele não inventou o medo do ateu do nada. Ele só deu um rosto a um pânico que já estava no ocidente há milênios.
O que nos leva para um ponto incrível da nossa fonte. Esse medo vem de muito longe, né? Nossa, sim. A pesquisa faz um resgate histórico para mostrar como a palavra ateu virou a maior arma de destruição de reputação da história. Começa lá na Grécia Antiga. O julgamento do Sócrates já ligava a descrença à corrupção. O ateu era visto como uma ameaça para a estabilidade da cidade.
Isso só piorou, né? Na Inquisição, a falta de fé justificava violências horríveis. Mas o que mais impressiona é o iluminismo. Pois é, época da razão. E mesmo assim, filósofos fundamentais tipo Thomas Hobbes e John Locke tinham um ódio profundo por ateus. E por um motivo muito prático, estrutural mesmo.
Então explica isso para quem está acompanhando a gente. Como a filosofia do contrato social do Locke justificava esse ódio? Pensa só. Naquela época, não tinha registro digital, câmera de segurança, nem nada. A sociedade funcionava na base da confiança, da palavra dada. Certo. O juramento era tudo. Exato. Para o Locke, a lógica era, se o cara não acredita em Deus e não tem medo de queimar no inferno, o que impede ele de quebrar um acordo?
Ah, entendi. O medo do castigo divino era a única garantia invisível que segurava as pessoas. Isso. O ateu era visto como alguém sem freios morais. E isso chegou direto no Brasil pré-golpe de 64.
Nossa, verdade. A propaganda anticomunista bebeu muito dessa fonte, né? Muito. A igreja e as alas conservadoras não falavam só do risco econômico do comunismo. O grande medo que eles vendiam era o tal do ateomaterialista. O bicho papão que ia destruir a família, a moral e a religião. O trabalho de demonização já estava pronto. E aí o Mojica pegou isso e colocou no cinema. Perfeito.
O Zé do Cachão é a encarnação desse pesadelo conservador. A dissertação divide isso em três eixos principais. Blasfêmia, subversão moral e pseudociência. Vamos falar da blasfêmia primeiro? Tem uma cena que é absurda. É sexta-feira santa, dia sagrado para o católico não comer carne.
Sim, essa cena é icônica. Está passando uma procissão na rua, todo mundo rezando. E o que o Zé do Cachão faz? Ele vai para a janela segurando um pedaço de carne e come com a mão, rindo da cara dos fiéis. Ele precisa profanar a coisa. E a genialidade disso que a fonte aponta é que ele mistura dois tipos históricos de blasfemador. O bêbado de bar, que xinga sem filtro, e o intelectual arrogante, que se acha superior à fé alheia.
Ele é as duas coisas ao mesmo tempo. É agressivo e prepotente. E aí a gente entra no eixo da moralidade, que tem tudo a ver com Nietzsche, né?
Tem. A ideia do Nietzsche sobre a morte de Deus falava de superar a moralidade cristã para criar o super-homem, aquele que dita os próprios valores. O Zé do Cachão acha que ele é esse cara. Só que de um jeito super macabro. A dogrina católica prega a imortalidade da alma, né? Ele não quer isso. Ele quer ser imortal através da biologia.
É a tal busca obsessiva pelo filho perfeito. Exato. Ele passa os filmes caçando uma mulher que seja superior, que não tenha medo de superstição, para ter um herdeiro com ele. É uma busca louca. E para isso ele usa a pseudociência. Esse é o terceiro eixo. Ele tortura, manipula, mata quem entrar no caminho.
E ele nunca admite que faz isso por sadismo, né? A desculpa é sempre a ciência. É uma eugenia horrível disfarçada de método científico.
A pesquisa mostra como ele usa aquele jargão frio para tentar validar tanta crueldade. O que, mais uma vez, alimenta a propaganda da época, né? Mostrar a ciência nas mãos de um descrente como uma coisa destruidora. Exatamente. Só que tem uma contradição aí que a tese explora muito bem. Ele fala de lógica o tempo todo, mas na prática ele é totalmente emocional e passional.
Sim, ele surta, ele grita. O ateísmo dele não tem nada a ver com o ateísmo cético que a gente lê nos livros do Jorge Guirrapires, por exemplo. O ateísmo do Zé do Cachão é tipo uma religião invertida. Ele é um fanático.
E aí mora o grande paradoxo que a Letícia descobriu na pesquisa dela. Os filmes parecem subversivos demais, né? Violência gráfica, blasfêmia na tela. Parecem destruir toda a moral cristã da época. Parecem, mas a estrutura da história faz exatamente o oposto. É como uma panela de pressão. O cinema deixava o público sentir a emoção da quebra de tabus por 90 minutos.
A pressão ia subindo. Ia subindo. Mas a censura e o próprio público exigiam que o mal perdesse no final. Então o diretor tinha que abrir a válvula no último ato. E como ele abria essa válvula? Punindo o ateu de forma brutal. Exatamente. No primeiro filme, ele é derrotado pelos próprios fantasmas que ele dizia não existir. No segundo, a comunidade enfurecida caça ele no pântano.
E no momento de desespero máximo, ele grita e pede por Deus, né? Ele pede por cruzes. O que mostra para a plateia que rejeitar a fé leva à loucura e ao castigo divino. No fim das contas, a moral conservadora sai ganhando e as pessoas saíam do cinema tranquilas. A justiça divina continuava intacta.
Isso responde perfeitamente à nossa provocação inicial do livro O Paradoxo de Einstein. Fica óbvio porque a crise de imagem de um ateu hoje em dia é tão difícil de reverter.
O imaginário popular herdou tudo isso, né? A ideia do descrente como alguém perigoso está enraizada. Estatisticamente, isso não faz sentido nenhum. A ética não precisa de religião. Mas os medos não são lógicos. Eles passam pelas histórias e mitos. E a única forma de combater medo irracional é com conhecimento, né? Sem dúvida. Por isso é tão importante ler coisas que questionam esses absurdos. A Biblioteca da Aliança Ateísta está aí para isso.
Novamente, o Instagram do Guilherme Natividade é arroba aliança.ateísta. E dentro dessa curadoria, a gente super recomenda os outros livros do Jorge Guerra Pires. Sim, ele tem o Seria a Bíblia um Livro Científico e também o Gibíblia, a Fábrica de Absurdos, que olha para a história de Jesus por uma lente totalmente secular.
Esses livros estão na Amazon, tá? Tem entrega Prime grátis para a versão impressa e a versão Kindle chega na hora no dispositivo. A Amazon é super focada no cliente e se arrepender da compra digital, eles reembolsam sem burocracia. E para quem prefere ouvir, tem formato audiolivro no Google Play e no Google Books. São mais de 10 horas de gravação com várias vozes diferentes na edição do livro sobre a Bíblia.
Ah, o áudio é maravilhoso para absorver conteúdos mais densos. E os livros da Amazon agora dá para baixar e ler em qualquer lugar, não precisa nem ter o aparelho Kindle. Olha, falando por mim mesmo, o audiolivro foi uma revolução na minha rotina. Antes mesmo dessas inteligências artificiais virarem moda. Sabe aquela caminhada que você faz ou quando está lavando louça? Sim, dá para ouvir e aprender ao invés de só perder tempo, né? Exato.
Eu comecei a ler vários livros por mês, assim. O aplicativo do Google Play até deixa baixar o áudio para quando você está sem internet. É muito prático.
Sensacional. Bom, a gente cobriu muita coisa profunda hoje. Mas para fechar, eu queria deixar uma reflexão para quem está ouvindo a gente. Manda bala. A história da humanidade é sempre isso, de criar e destruir monstros, né? Se nos anos 60 o terror supremo era a figura do Zé do Caixão, um cara frio, cético, que duvidava de tudo, quem seria o monstro hoje? Olha, boa pergunta.
A gente vive num mundo cheio de tecnologia, um pouco mais secular, mas muito polarizado. Será que os novos grandes monstros da nossa cultura não são justamente o oposto do cético? Nossa, como assim? Tipo, indivíduos que têm uma fé cega, inquestionável, mas nas suas próprias bolhas da internet. Pessoas que acreditam fanaticamente nos algoritmos sem questionar nada. Fica a reflexão.
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