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Ateísmo e dogma em Raised by Wolves

05 de maio de 202630min
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Lançamento: O Paradoxo de Einstein : Ciência, Ética e o Deus Cósmico 

Usando a ficção como alavanca para as grandes questões do ateísmo. Estamos no Spotify. Leia mais no blog Mente Ateísta.

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Assuntos6
  • Autonomia e Pensamento PróprioO arquétipo moral do leão no Budismo e a autonomia da mente · O arquétipo moral da ovelha na tradição cristã e a dependência do pastor · A linguagem cotidiana e a programação de obediência · A dinâmica entre Paul (ovelha) e Campion (leão) em Raised by Wolves · A falha do novo ateísmo e a rejeição de tecnologias psicológicas · Sam Harris e a meditação como ciência subjetiva · O erro de tradução de 'shraddha' para 'fé' no Ocidente
  • Crítica ao secularismo e ao comunismoA imposição secular como nova modalidade de autoritarismo · Crítica de Sam Harris ao fundamentalismo e a falha da moderação religiosa · A série como alerta contra a cruzada intolerante contra a religião · A mãe (androide) e a gestão de risco versus censura · A necessidade espiritual humana como um 'bug' a ser deletado · O vazio deixado pela proibição da religião e a invenção de novas divindades
  • Trauma e Vulnerabilidade na Criação de MitosO arco da personagem Tempest e sua relação com o trauma · O talismã mitraico como muleta emocional e símbolo de identidade · A fé vívida versus a fé administrada · O mitraísmo como culto de mistérios e concorrente do cristianismo · A estratégia de absorção e inclusão demográfica do cristianismo primitivo · A morte de Hipátia de Alexandria como marco da supressão do pensamento livre
  • Lideranca ReligiosaO personagem Caleb e a apropriação da identidade de um líder religioso · A liderança como administração da fé para poder e lucro · A distinção entre fé vívida e fé administrada · O mitraísmo como espelho histórico da fé administrada · O cristianismo primitivo como banco digital e a alteração dos termos de serviço
  • Ateísmo e SecularismoRejeição do rótulo de ateu e a percepção de falta de ética · Comparação entre o espaço midiático de intelectuais ateus e religiosos · Leandro Karnal · Drauzio Varela · Daniel Soto Maior · Silas Malafaia
  • O Conceito de 'Pick and Mix' SecularSuperar o pudor adolescente de rejeitar tudo o que as religiões construíram · Expropriação utilitária das melhores tecnologias sociais religiosas · Aplicação de retiros silenciosos, arte e cantos comunitários no secularismo · Alain de Botton e o conceito de 'pick and mix'
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Sabe, geralmente, quando a gente pensa em resolver problemas super complexos da nossa sociedade, existe uma expectativa quase infantil de precisão, como se fosse tipo uma engenharia pura, né? É, o pessoal quer uma matemática fechada para tudo. Exato. É como olhar para um braço quebrado. O raio-x mostra aquela linha branca irregular do osso fraturado, aí o médico aponta e diz, olha, o problema está bem aqui.

Nossa, sim. É um sistema totalmente binário, ou tá quebrado ou não tá, sabe? E o tangível oferece um conforto psicológico gigante pra gente. Com certeza. Quando um problema pode ser perfeitamente visível e categorizado, a mente humana relaxa. Porque, assim, a solução também deve ser física e mensurável, certo? Certo. Mas aí que tá. Essa máquina de raio-x pifa completamente quando a gente dá um passo pra dentro do universo dos sistemas de crença. Uhum. Total.

Quando entramos na sociologia da religião ou no nosso próprio instinto de buscar sentido, cara, o cenário de diagnóstico fica absolutamente turvo. E é exatamente esse o nosso mergulho profundo de hoje. E que mergulho, né? Pois é. A nossa missão aqui é analisar como a ficção científica captura ciência e filosofia para debater a utopia, a distopia e a própria natureza humana. E a nossa lente principal para enxergar isso vai ser a série Raised by Wolves. É uma obra fantástica para isso.

E para basear essa investigação, a gente trouxe uma pilha de materiais incríveis. Nós vamos cruzar ensaios filosóficos sobre a série, vamos falar do conceito de ciência subjetiva do Sam Harris, tem também as provocações do Alan de Botton sobre os rituais seculares e aquelas comparações estruturais super complexas entre o budismo e o cristianismo. Mas a gente precisa encorar essa abstração toda no mundo real, né? Jorge Guerra Pires. Sim, o trabalho dele é sensacional.

É muito denso. As obras dele focam intensamente no pensamento crítico. Ele disseca, assim, cirurgicamente, a tensão histórica e social entre o dogma religioso e o ateísmo. E olha, o trabalho do Jorge serve como um espelho perfeito para a premissa de Raised by Wolves. Porque a série, para quem acompanha a gente, e talvez não lembre de todos os detalhes, ela começa com a terra já transformada em cinzas. Completamente destruída, né? Pois é.

destruída por uma guerra santa apocalíptica entre duas facções absolutas. De um lado você tem os ateus militarizados, do outro os fanáticos religiosos, que lá eles chamam de mitraicos. E o mais chocante é que nos livros do Jorge, tipo nos de Bíblia, Fábrica de Absurdos, e naquele outro o Seria a Bíblia, um livro científico, essa mesma polarização é investigada na nossa sociedade atual, aqui e agora.

Exatamente. E a provocação central disso ganha muita força no novo lançamento dele, que é o Paradoxo de Einstein, Ciência Ética e o Deus Cósmico.

Esse livro é fascinante. Ele não só usa a biografia do Einstein para explorar essas tensões, mas ele lança uma pergunta que ecoa diariamente na nossa mídia, sabe? Sim, aquela pergunta incômoda. Isso. Por que figuras públicas fogem tão desesperadamente do rótulo de ateu? Cara, essa é a pergunta de um milhão de dólares. E a resposta exige observar a religião não apenas como fé, mas como um contrato social de coesão, né? Aqui no Brasil, essa dinâmica é gritante.

Nossa, é muito forte. O rótulo de ateu carrega um estigma de ruptura enorme. Quando alguém declara abertamente que não acredita em uma divindade, a sociedade frequentemente interpreta isso não como uma posição filosófica, mas como uma rejeição às regras morais invisíveis da comunidade.

É aquela percepção clássica, meio torta, de que sem um vigia cósmico, aquela pessoa simplesmente não tem motivos para ser ética. E isso explica uma dicotomia que eu acho absurda no debate público brasileiro. A gente vê intelectuais gigantes como o Leandro Karnal ou Drauzio Varela. Sim, eles medem as palavras com uma cautela imensa, né? Exato. Eles nunca cruzam certas linhas de forma crua na televisão.

Enquanto isso, um ativista ateu como Daniel Soto Maior, por exemplo, ele praticamente desaparece do espaço midiático dominante. Fica escanteado. Totalmente. Em contrapartida, figuras como o pastor Silas Malafaia têm espaço livre em rede nacional para pedir aviões aos fiéis.

eles chegam a debater na Globo ao vivo. O simples fato de não acreditar em um Deus é tratado como algo mais tóxico e radioativo do que o abuso financeiro em nome da fé. É loco pensar nisso, mas do ponto de vista sociológico, o abuso financeiro, por mais questionável e terrível que seja, ele ainda opera dentro da mesma moeda emocional que a maioria da população aceita. Que a fé.

Exatamente, a fé. O pastor abusivo quebra as regras do jogo, mas ele ainda está jogando o mesmo jogo, entende? Sim, ele está no mesmo tabuleiro. Perfeito. Já o ateu rejeita o tabuleiro inteiro. Isso gera um pânico existencial na base da pirâmide social. Eles veem a recusa do dogma como a destruição do refúgio psicológico deles.

São parênteses práticos aqui, antes da gente mergulhar de vez na série, porque o material do Jorge traz umas dicas muito boas. E como a gente sempre tenta trazer algo útil para o dia a dia de quem nos ouve, eu preciso compartilhar isso. Ah, sim, sobre os formatos de leitura, né? Eu achei essa parte fantástica. Sim. O livro seria A Bíblia é um Livro Científico? Está na Amazon, com entrega Prime gratuita para quem gosta de ter o impresso em mãos. Mas também está no Kindle, para ler na hora.

E tem o audiolivro, que é a minha parte favorita. Pois é. O autor menciona como o formato de audiolivro, lá no Google Play, revolucionou a forma como ele consome conteúdo. São mais de 10 horas de áudio, com 3 vozes diferentes. Cara, ouvir livros enquanto você lava a louça ou durante uma caminhada, muda o jogo. Isso nos leva direto de volta para Kepler 22B.

O planeta é onde a humanidade tenta recomeçar na série. Isso. A missão secular lá é liderada por uma androide chamada Mãe ou Lâmia. E a estratégia dela é muito clara. Tipo, criar uma civilização puramente guiada pela razão.

Uma civilização completamente esterilizada daquelas religiões que, bom, carbonizaram a terra, né? Exato. Ela constrói uma bolha blindada, ela proíbe ativamente qualquer oração, cântico, ritual. O secularismo deixa de ser uma escolha filosófica e vira a lei marcial daquele novo mundo.

E aí que a gente entra numa ironia estrutural que eu acho brilhante na narrativa. Essa imposição secular da mãe rapidamente se metamorfoseia numa nova modalidade de autoritarismo. Ela instaura, basicamente, um dogma vateu.

E esse comportamento ilustra perfeitamente a crítica do filósofo Sam Harris sobre o fundamentalismo. Como assim? O Harris costuma argumentar que a moderação religiosa falha, porque ela tenta proteger o sistema que, no fim das contas, valida o fanático. A moderação se recusa a atacar a crença sem evidências. Certo, entendi.

Só que a série serve como um alerta para o extremo oposto. A cruzada intolerante e radical contra a religião acaba se tornando exatamente a teocracia opressiva que ela jurou destruir. Nossa, sim. Eles só trocam o Deus Invisível por um algoritmo de silenciamento.

Mas espera aí, eu preciso botar um pouco de lógica pragmática na mesa aqui. Vamos desempacotar isso. Manda. A mãe não está, de certa forma, apenas atuando como a moderação de conteúdo de uma rede social gigantesca? Porque, tipo, pensa bem, se é um fato histórico e refutável dentro do universo da série que a fé dogmática causou o apocalipse nuclear...

Sim, a Terra virou poeira por causa disso. Então proibir a religião não seria o que o direito moderno chamaria de uso protetivo da força? A gente tem plataformas hoje que removem desinformação e discurso de ódio justamente para evitar o colapso das instituições. É um bom ponto. A mãe remover a religião não é pura gestão de risco para evitar um segundo fim do mundo? Sabe, a fronteira entre censura e autodefesa existencial ali parece justificar a ação dela.

Olha, o argumento da gestão de risco até faz sentido na teoria, mas na prática ele falha miseravelmente. E a série mostra isso bem. Falha por quê? Porque a Android trata a necessidade espiritual humana como se fosse um mero bug, um erro no código comportamental, que pode ser deletado simplesmente apadando os arquivos do sistema.

Ah, entendi. Tipo, apagar o sintoma e ignorar a causa. Exatamente. A censura resolve a manifestação externa, beleza. Mas ela ignora por completo a complexidade da angústia humana. Ao aplicar uma força de proibição tão bruta, ela não erradica o terror primordial que aquelas crianças sentem quando olham para o escuro. É, o medo continua lá.

E sem a válvula de escape dos rituais comunitários para ajudar a processar esse medo coletivamente, os indivíduos são empurrados para uma clandestinidade simbólica. O vazio nunca permanece vazio, sabe? A natureza detesta o vácuo. E o planeta alienígena definitivamente não perdoa esse vazio.

Porque quando os personagens começam a esbarrar naqueles mistérios insondáveis, tipo aquele cubo negro misterioso e perfeito que desafia a física lá em Kepler 22B... Nossa, a cena do cubo é muito emblemática. Demais. Ali a razão pura entra em colapso total.

Em vez de montar laboratório, sei lá, pegar réguas e medir o cubo, o que os sobreviventes fazem? Eles caem de joelhos. Eles começam a venerar a parada. O cérebro humano parece que vem com hardware de fábrica programado para adorar o inexplicável. É instintivo.

Sim, se você apaga os deuses antigos da memória, a impotência humana diante do caos inventa divindades novas na mesma hora. E a narrativa evidencia de um jeito muito cruel que o trauma e a vulnerabilidade são os verdadeiros motores da criação do mito. Sim, o arco da Tempest mostra muito isso.

O arco dela é a dissecação mais dolorosa dessa mecânica. O histórico dessa personagem é aterrador, assim. Ainda na arca, que é a nave da fração religiosa, ela foi destuprada por um alto membro do clero mitraico, a própria elite dogmática. É pesado demais.

Muito. Ela engravida dessa violência e, obviamente, desenvolve um ódio profundo e visceral por toda a estrutura daquela fé. E pra piorar a situação, que já era horrível, quando eles chegam nesse planeta inóspito, com oceanos de ácido... Tem aquela criatura marinha abominável, né? Isso.

A criatura emerge e simplesmente rouba o recém-nascido dela. É uma avalanche de atrocidades. E a contradição que a série esfrega na nossa cara é que, mesmo desprezando a instituição que violentou ela, a têmpice continua se agarrando a um talismã mitraico. Ela guarda aquilo. Ela não consegue largar. Porque, cara, a mãe e o outro androide, o pai, eles oferecem a ela um cuidado secular.

Mas é um zelo tão clínico, sabe? Tão baseado em protocolos de sobrevivência frios e hipervigilantes. Chega a soar alienígena. Soa muito alienígena e abusivo de outra maneira. Então, no meio de um mundo de metal frio e monstros de ácido, aquele pedacinho de metal religioso forjado pelos próprios agressores vira uma muleta emocional. É a única coisa que impede a sanidade dela destilhaçar.

O talismã oferece familiaridade no meio do terror absoluto. A literatura sobre isso deixa claro, ela não ama o dogma, mas o símbolo devolve para ela um senso mínimo de identidade cultural e pertencimento. Faz todo sentido. E em um paralelo extremo a essa vulnerabilidade toda da Tempest, a gente tem o personagem do Caleb, que inverte completamente a dinâmica. Ah, o Caleb é sensacional para essa nossa análise de hoje.

Ele é, porque ele é um soldado ateu, super letal e pragmático, que cirurgicamente rouba a identidade de um proeminente líder mitraico, o Marcos. Ele faz plástica para ficar com o rosto do cara. Isso, e ao vestir a pele desse profeta para sobreviver e se infiltrar, algo muito sombrio acontece com ele. Ele passa a saborear o gosto inebriante do poder absoluto. Ele gosta da reverência cega que os fiéis dão a ele.

É viciante. E a jornada do Caleb destrincha a mecânica da liderança aqui no nosso mundo real. Porque, pensa comigo, ver um ateu cínico sentar no trono e operar a alavanca da fé me faz questionar uma coisa séria. O quê? Quantos líderes no nosso mundo são, na verdade, funcionalmente ateus? Nossa, muitos. Muitos mesmo.

Sabe, aquelas figuras que administram a fé da base populacional, com a mesma frieza de um CEO administrando uma linha de montagem? O foco deles é estritamente a arquitetura do poder, converter crença em lucro e capital político. É o negócio. Eles não acreditam em uma única vírgula da divindade que eles mesmos gritam no microfone.

E a sociologia, nos textos do próprio Jorge Guerra e de outros pesquisadores, distingue isso muito claramente. Eles chamam de a fé vívida versus a fé administrada. Explica isso melhor para a gente. A fé vívida é aquela que move a base, o fiel comum. É o terror de ir para o inferno, a esperança de uma salvação literal no céu. É genuína. Tá.

Já a fé administrada é o domínio exclusivo dos arquitetos da instituição. Esses líderes modulam a intensidade do dogma conforme a necessidade. Tipo ligar e desligar a torneira. Exato. Necessidade de expansão, controle territorial, acúmulo de recursos. É uma tática de mercado milenar. Isso não pertence só à ficção científica. Os próprios mítricos da série são um espelho histórico fascinante disso. Sim.

O mitraísmo existiu de verdade, né? Sim, foi um culto de mistérios verídico na antiguidade. Ele era incrivelmente popular entre as legiões romanas. Era a religião da disciplina, focada no soldado. E sabe de uma coisa? Foi o principal concorrente mercadológico do cristianismo primitivo. Olha que loucura. E o cristianismo só venceu essa batalha porque foi absolutamente implacável na estratégia de absorção e aquisição.

Exatamente, engolindo startups menores. Em vez de lutar de frente contra mitologias mais antigas, tipo a deusa suméria inana, ou aquelas celebrações pagãs de solcícios de inverno. Que viraram Natal, né? Isso. O cristianismo simplesmente engoliu esses arquétipos e botou um nome novo. Rebatizou tudo. E o verdadeiro golpe de mestre deles na antiguidade foi a inclusão demográfica.

Ah, essa parte é genial. Eles passaram a aceitar as mulheres e as classes marginalizadas, coisa que os cultos imperiais, como o próprio mitraísmo focado em homens militares, ignoravam completamente. Eles ganharam o mercado pelo puro volume de usuários.

Só que aí que está o problema, né? O monopólio muda radicalmente o comportamento de qualquer instituição. Ah, sempre muda. Uma vez que esse controle demográfico e político foi consolidado, aquela inclusividade toda inicial, que era o diferencial competitivo deles, foi brutalmente revogada. Eles fecharam a porta.

Totalmente. E as análises históricas pontuam a morte da Hipátia de Alexandria como grande momento de inflexão. A matemática, né? Sim. Ela era uma brilhante filósofa em matemática e foi assassinada por uma turba cristã lá no século V.

Esse evento marca o triunfo do dogma institucional, exigindo a supressão do pensamento livre e, mais especificamente, a restrição drástica do papel intelectual feminino na sociedade. A liberdade virou heresia do dia para a noite. Cara, onde a coisa fica realmente interessante, e usando uma metáfora bem mundana aqui, é que o cristianismo primitivo agiu como um banco digital recém-lançado, oferecendo um cartão de crédito black. Adoro essa analogia. Sem anuidade limite alto.

Exato. Limite altíssimo aceitava todo mundo que o império tradicional deixava de fora, atraiu multidões absurdas para dentro do sistema deles. Exato. Mas no segundo exato, em que eles quebraram as instituições concorrentes e garantiram o monopólio do mercado espiritual, eles alteraram os termos de serviço unilateralmente.

Ninguém leu as letras miúdas. Ninguém leu. A cobrança de juros passou a ser extorsiva. E ela se manifestava na forma de uma submissão dogmática paralisante. As regras rígidas de subordinação que você vê lá nas cartas de Paulo, elas fecharam as portas da autonomia.

E o custo gigantesco dessa submissão modelou a própria arquitetura psíquica de todo o Ocidente. O nosso material cruza a serança cristã com a filosofia oriental para expor a gravidade dessa tal cobrança de juros que você mencionou.

Como é essa visão oriental? No cerne do budismo clássico, por exemplo, o arquétipo moral supremo é o leão. O praticante busca a autonomia absoluta, a soberania da própria mente. O leão é aquele capaz de emitir o rugido da verdade. Bonito isso.

É uma lógica implacável que pulveriza as ilusões e espanta as superstições criadas pelo medo. É você por você mesmo. Agora, em um contraste cristalino com isso, a tradição cristã espelhada naqueles fanáticos mitraicos da série eleva a ovelha ao status de ideal moral máximo. A ovelha. Que é, por definição, um bicho dócil.

dócil e intelectualmente dependente e que precisa permanentemente de um pastor externo, dizendo onde ela deve pastar e do que ela deve ter medo.

É pesado quando a gente pensa nisso. E a nossa própria linguagem de todo dia carrega o DMA dessa programação de obediência. Repare como as despedidas mais comuns no Brasil, que é supercultural, são desenhadas em torno da dependência. A gente fala, fique com Deus ou a paz do Senhor. É automático. É automático. E a semântica embutida nisso é que a sua segurança e a sua integridade são atributos terceirizados.

É algo sempre concedido por uma força vertical que está lá em cima. Fora de você. Exato. Já na tradição oriental, quando eles juntam as mãos em cumprimento, aquele gesto sinaliza o reconhecimento da capacidade de despertar que já mora dentro da outra pessoa. É o famoso o Buda em você, né? Exatamente. É a diferença apsal entre implorar por um resgate externo e assumir a autoria da própria consciência.

E essa formatação, vamos dizer assim, de sistema operacional, é o que decide o futuro de uma geração inteira. Em Raised by Wolves, isso é colocado num laboratório perfeito através de duas crianças, o Paul e o Campion. A dinâmica dos dois é sensacional para ilustrar isso. É muito nítida.

O Paul, ele cresceu imerso nas rezas mitraicas lá dentro da nave religiosa. Ele tem o software da ovelha perfeitamente instalado. Rodando na última versão. Pois é, quando ele se depara com angústia no novo planeta, a bússola moral dele entra em colapso. Ele cede quase imediatamente aos delírios supersticiosos. Ele começa a obedecer cegamente umas vozes misteriosas do planeta que ele jura que são sussurros divinos.

Enquanto isso, do outro lado desse laboratório social, você tem o Campion, que foi criado exclusivamente pelos androides ateus, com base em dados concretos e narrativas laicas. E o sistema operacional dele é o do leão. Ele questiona tudo. Tudo.

Ele não aceita o dogma ivigioso dos mitraicos, óbvio, mas ele também não baixa a cabeça passivamente para o autoritarismo lógico da própria mãe que criou ele. Ele mantém a dúvida intelectual. Sim, ele exige evidências, ele sustenta a autonomia da própria mente, doa quem doer. E essa tensão entre o modelo autônomo do Campion e a espiritualidade que sobra na série nos leva para um dos debates mais sofisticados que as nossas fontes trouxeram.

que é a falha do novo ateísmo. Né, a gente precisa falar do Hitchens e do Dawkins. Sim, autores brilhantes como Richard Dawkins e o Christopher Hitchens. Mas eles desenvolveram um anticorpo tão feroz contra qualquer coisa que parecesse religião que eles cometeram um erro tático gigantesco. Jogaram o bebê fora junto com a água do banho.

praticamente isso. Eles rejeitaram séculos de tecnologia psicológica profunda, tipo a meditação budista. Eles equivocadamente jogaram isso na mesma caixa das fábulas místicas. Mas aí entra o St. Harris, que felizmente percebeu o tamanho desse buraco.

Ah, a visão dele sobre isso é ótima. Ele argumenta que a meditação, quando você tira dela toda aquela bagagem sobrenatural, tipo reencarnação, karma e planos astrais, ela funciona como uma ciência subjetiva rigorosa de observação da própria mente. E ele explica que existe um erro de tradução crônico atrapalhando esse debate todo no ocidente, né? Sim, o problema da palavra cheirada.

O Ocidente pegou esse termo budista e traduziu com a maior preguiça do mundo como fé. Só que na matriz cristã, a matriz da ovelha, fé tem um significado muito específico. Exato. Na visão cristã, a fé é a certeza daquilo que não se vê. É aquele orgulho de você acreditar em algo sem ter nenhuma prova. É uma virtude não questionar. Certo. E no Oriente?

Na origem contemplativa oriental, Schrader é confiança operacional. Confiança operacional? É. É exatamente o mesmo grau de confiança que um cientista vestido de jaleco tem na validade do método científico antes de ligar as máquinas para um experimento.

Se a hipótese dele falhar no teste empírico, a confiança é reformulada na hora. Ou seja, não tem nada a ver com cegueira dogmática. É uma hipôsese de trabalho. Perfeito. Só que para contornar essa resistência conceitual gigante que o Ocidente tem, os mestres contemporâneos começaram a usar um mecanismo chamado upaya, que a gente traduz como meios hábeis. Como é que funciona isso na prática?

Bom, figuras muito populares aqui no Brasil, tipo a monja Cohen, exemplificam essa técnica de adaptação semântica com perfeição. Ah, de usar as palavras que o público já conhece. Exato. Para ela conseguir se conectar emocionalmente com o público, que é, na sua imensa maioria, formado pela matriz cristã, esses mestres emprestam vocabulário dominante. Faz sentido. Eles usam termos como oração,

Deus e rezar para envelopar e empacotar práticas budistas que são pura ciência de concentração. Tudo isso para garantir que o ouvinte se sinta acolhido por um vocabulário seguro desde a infância. Mas olha só, eu tenho um questionamento sério sobre isso no mundo de hoje. A arquipetura digital hiperconectada meio que quebra essa boa intenção, não quebra?

Como assim? Porque assim, o paia funcionava muito bem quando o mestre estava ensinando ali na sua própria vila presencialmente. Mas hoje o algoritmo do YouTube, por exemplo, ele pulveriza as bolhas de contexto.

Hum, o conteúdo vaza para o público errado. Totalmente. O vídeo que foi gravado lá usando palavras cristãs para confortar a alveia religiosa acaba caindo no feed do cara secular que está lutando todos os dias para se manter como um leão. E aí, quando um ateu em desconstrução que carrega traumas pesados do autoritarismo religioso... Cicatrizes reais do dogma, né?

Isso. Quando esse cara ouve a palavra rezar ou Deus aplicadas à saúde mental, o cérebro dele dispara um alarme de incêndio. Ele foge daquelas palavras como se fugisse de uma coleira. É o gatilho muito forte. Então, ao tentar abraçar o religioso com um vocabulário confortável, o budismo popular não acaba alienando tragicamente justamente os ateus seculares que fugiram da igreja e que mais se beneficiariam dessa ciência subjetiva.

Olha, aliena sim. A roupagem semântica, infelizmente, se torna um bloqueio intransponível para muitos deles e a alternativa mais honesta intelectualmente para tentar resolver esse impasse vem do filósofo Olendibottom. Com aquele conceito do pick and mix?

Isso, o escolher e misturar. O Bolton defende que o mundo secular, ateu, precisa superar aquele pudor adolescente de rejeitar 100% de tudo que as religiões construíram na história humana. Eles construíram muita coisa eficiente.

Demais! A gente deveria realizar uma espécie de expropriação utilitária. Basicamente, roubar as melhores tecnologias sociais que as religiões inventaram e refinaram ao longo de milênios.

Roubar para o lado secular. Isso, apropriar-se dos retiros silenciosos, da arte e da arquitetura que são feitas para evocar reverência, dos cantos comunitários que provadamente sincronizam os batimentos cardíacos de um grupo e aplicar tudo isso para nutrir a coesão humana, mas sem pagar o pedágio do dogma sobrenatural.

Em outras palavras, arrancar o motor V8 de alta performance do chassi velho de uma teocracia e instalar ele num veículo moderno guiado pela razão e pela evidência. A gente não precisa jogar a música linda fora só porque não acredita que existe um maestro invisível no céu. Exatamente.

E o diagnóstico final que emerge dessa intersecção toda entre lá a Terra Arrasada da ficção de Kepler 22b, as reflexões do de Botton e as análises sobre o ateísmo e a religião aqui no Brasil trazidas pelo Jorge Guerra Pires, é muito claro. Qual é a síntese?

É que a guerra definitiva da humanidade nunca foi entre a fé invisível de um lado e a razão iluminada do outro. O verdadeiro inimigo que destrói o espírito humano é a rigidez do absolutismo. O dogmatismo cego. Sim, o dogmatismo asfixia a autonomia, não importa qual roupa ele esteja usando.

seja vestindo os mantos dourados de uma revelação sagrada inquestionável ou envergando o jaleco frio de um materialismo autoritário e cínico que quer proibir a nossa própria necessidade humana de maravilhamento. E para quem está acompanhando essa nossa análise, a aplicação prática disso não poderia ser mais urgente. O tecido da nossa sociedade hoje exige a musculatura da inteligência emocional e do pensamento crítico constantes.

Mais do que nunca. Cultivar essa mente, trabalhar para ser o leão da sua própria consciência, não é mais um luxo filosófico de acadêmico. É sobrevivência básica. Porque se a gente abdicar da autonomia de questionar a nós mesmos e aos líderes ao nosso redor, o rebaixamento à condição de ovelha é instantâneo. E, bom, a gente sabe qual é o destino, né? Invariavelmente, a ovelha é devorada.

seja por líderes, pastores ou políticos funcionalmente ateus que operam a máquina do poder usando o medo da massa ou pelo equivalente moderno do dogma absoluto. Os algoritmos. Os algoritmos opacos que pastoreiam a nossa atenção e decidem sozinhos o que é real e o que não é na telinha dos nossos celulares todos os dias.

É, e toda essa nossa jornada de hoje acaba deixando a gente diante de uma provocação meio incômoda, uma reflexão fina para todo mundo digerir depois, inclusive nós mesmos. Manda, o que ficou faltando?

Imagina o seguinte cenário. Se amanhã os genetistas de ponta ou os grandes engenheiros de inteligência artificial encontrassem um jeito de extirpar cirurgicamente o instinto religioso do nosso córtex humano. Tipo, deletar de vez aquela vontade de adorar o cubo negro que a gente falou. Isso, apagar de vez essa engrenagem evolutiva, meio irracional, que nos faz construir catedrais e contar mitos.

Qual seria o custo colateral disso? Será que a gente não destruiria com o mesmo corte de bisturi a própria faísca criativa que permite à nossa espécie escrever ficções científicas maravilhosas? Ou compor músicas tocantes e imaginar mundos utópicos inalcançáveis? Porque talvez a mesma falha no nosso código, essa fome indomável que a gente tem de olhar para o abismo e adorar o que a gente não compreende,

Talvez não seja um erro de sistema ser corrigido pela razão. Mas sim a característica principal do sistema. Talvez seja exatamente o que nos faz genuinamente humanos. Fica a provocação. Cara, que forma de encerrar. No final das contas, quando a gente força a vista para tentar olhar as fraturas da alma humana, seja aqui no Brasil ou a anos-luz de distância no espaço, a máquina de raio-x sempre vai nos devolver uma imagem embaçada.

E sabe de uma coisa? Ainda bem que é assim. O mistério sempre resiste. A gente fica por aqui. Um grande abraço e até a nossa próxima análise profunda.

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