Limpeza Cara
No Conta Que Conta, as histórias revelam o lado curioso, caótico e até perigoso das nossas relações com o dinheiro. São relatos reais do dia a dia que passam por conflitos, decisões impulsivas e segredos que só aparecem quando a moeda entra em jogo.
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- Direitos TrabalhistasFratura no pé e suspeita de falsidade pela empresa · Dificuldades com o INSS e benefício negado · Processo judicial perdido contra a empresa
- Condições de trabalhoFalta de equipamentos de proteção (luvas) · Acúmulo de funções (limpeza e refeitório) · Assédio moral e desonestidade da diretoria
- Orçamento familiar e decisões financeirasDificuldade em poupar dinheiro · Dependência do salário do marido · Busca por ajuda financeira de familiares
- Busca de emprego e trabalho domésticoDemissão em massa e seguro-desemprego · Busca por vagas em grupos de Facebook
- Experiências de trabalho nos EUACrítica à exploração de trabalhadores · Desvalorização do esforço e competência · Comparação com outras histórias semelhantes
Você está no Conta que Conta, onde a conta mancária conta a história. Olá, queridos ouvintes! Hoje nós vamos contar de forma anônima a história da Bianca. Os nomes e locais foram alterados, porém, todos os fatos aqui descritos são reais. Então prepara que lá vem uma história daquelas!
A Bianca é uma mulher de 44 anos que nasceu e mora até hoje em Goiás. Ela é casada e tem quatro filhos. E na época dessa história, os quatro filhos ainda moravam com ela, um detalhe bem importante. A Bianca e o esposo sempre trabalharam bastante para sustentar a família. Os dois mais velhos estão na faculdade, com muita luta para conseguir um estágio. E ambos prestaram vestibular e conseguiram bolsa de estudos.
Eles passavam o dia inteiro na faculdade e levavam muito tempo para ir e voltar. Era mais ou menos entre 3 a 4 horas por dia só com transporte público. E os outros dois filhos eram menores de idade. Uma beirando os 18, mas já terminando a escola. E o outro estava ali no sétimo ou oitavo ano da escola.
Com os quatro filhos focados nos estudos, a Bianca e o esposo, o seu Nelson. Eles ralavam o dia e noite pelo sustento da casa. O Nelson sendo auxiliar de obras e a Bianca copeira. A vida fluía apesar da rotina corrida. O casal conseguia segurar as pontas para que os filhos estudassem e pudessem ter um dia uma profissão boa.
A Bianca estava na empresa há três anos já. Até que ela foi surpreendida com uma demissão em massa e acabou sendo cortada. A empresa pagou os direitos, tudo certinho. E a Bianca teve a cobertura do seguro-desemprego por seis meses.
Ela permaneceu em casa por cinco meses, mas naquele ponto foi batendo a preocupação e ela tratou de procurar um novo emprego. Porque lembrem, era somente ela e o marido no sustento da casa com quatro filhos. Depois de algumas tentativas falhas, a filha mais velha da Bianca sugeriu que ela olhasse em alguns grupos de vagas no Facebook.
E assim ela fez. Olhou alguns grupos e achou ali uma vaga, que era para início imediato em uma empresa de limpeza terceirizada. A Bianca não pensou duas vezes. Imagina, só o marido com emprego garantido e ela estava para receber a última parcela do seguro. Ela queria ter certeza que teria como ajudar nas despesas. Ela preencheu o formulário da vaga e, passados três dias, ela foi chamada.
E aqui eu vou dar um detalhe que pode parecer um pouco estranho, justamente porque pra mim isso soa estranho.
Apesar do emprego ser na cidade vizinha da Bianca, a sede da empresa ficava numa distância de três horas de sua cidade. E de início, ela foi avisada que todo início de ano a empresa mudava de nome e os funcionários precisavam ir na sede assinar os papéis com o novo nome da firma e retirar um novo uniforme.
A Bianca aceitou o trabalho e iniciou na semana seguinte. A empresa atendia estabelecimentos particulares e a Bianca foi enviada para um estabelecimento de transporte. De grande porte mesmo, eram dois prédios no total e ela ficou responsável por limpar as salas comerciais, além do refeitório dos funcionários.
Lá tinha o benefício de ter a refeição cedida pela empresa e uma cesta básica, então os funcionários podiam contar com a alimentação do local onde era servido o almoço e jantar. A Bianca começava o turno às sete da manhã e encerrava às cinco da tarde. E junto dela havia mais duas funcionárias da limpeza, a Liliane e a Amanda.
As três se revezavam ali nos dois prédios. Eram muitas salas. Então elas tinham uma rotina muito intensa. E mediante essa rotina pesada, elas manuseavam produtos químicos fortes. E não tinham luvas de proteção.
Com o passar das semanas, as mãos da Bianca viviam descascando e as unhas ficavam amareladas. E a solução, olha que absurdo, foi ela pagar do próprio bolso algumas luvas para poder ao menos tentar manter as mãos intactas. Mas só tentar também.
Passado um ano, a Bianca começou a pensar em sair dessa empresa. O problema era que ela e o marido se concentravam em pagar as contas do mês e arcar com o necessário dos filhos. Dificilmente sobrava um valor ali para guardar. No máximo era entre 100 e 200 reais que sobravam, mas eles acabavam usando com algumas coisas que iam surgindo no caminho.
E não se esqueçam que estamos falando de um casal com quatro filhos. É muito puxado, gente. Olha, imagina, a Bianca não seria mandada embora. Ela teria que pedir as contas. E com isso, ela sairia sem direito algum. E quem garante que ela ia conseguir arrumar um novo emprego? Era um risco muito grande para ela assumir nesse momento.
O desejo de sair da empresa foi crescendo na Bianca, já que ela começou a descobrir muitos comportamentos desonestos ali dentro. Por exemplo, a diretora da empresa de transporte agia contra a lei por baixo dos panos. Ela reduzia os custos em tudo que era possível. Dá pra ver pela falta de equipamentos básicos, como as luvas, né?
Era aquela chefe mala que, se você chegasse atrasada cinco minutos, já te dava aquela chamada de atenção, mas ficar uns minutinhos a mais, um dia ou outro, quase sempre era solicitado. E os inúmeros absurdos dela só iam crescendo. Pra vocês terem uma ideia, a Liliane, também funcionária da limpeza, teve uma proximidade com a diretora e passou a usar isso a favor de si.
E ela deixava o mais pesado para a Bianca e para a Amanda. E não era punida ou advertida por isso, afinal, era a protegida da chefe. E a situação só piorava. Tanto que um novo funcionário da limpeza foi contratado. Dois meses depois, uma das cozinheiras do refeitório precisou tirar licença médica. E adivinhe? A Bianca foi colocada na copa para preparar as refeições dos funcionários.
Vocês acham que ela recebeu a mais por isso ou teve suas demandas realocadas? Nem preciso dizer que não, certo? A Bianca passou a conciliar a limpeza com o refeitório. Claro que as demandas da limpeza diminuíram um pouco com a entrada desse novo funcionário, mas não de forma justa. E ela ainda precisava otimizar o tempo na limpeza para conseguir ir para o refeitório a tempo de ajudar no preparo da comida.
Foram três meses nessa rotina árdua e quando a Bianca menos esperava, ela chegou para trabalhar e foi surpreendida com a informação de que um novo funcionário havia acabado de pedir as contas. Com isso, a rotina que já estava maluca ficou pior ainda.
E foi nessa semana que a Bianca decidiu que aguentaria pelo menos três meses para tentar guardar o máximo de dinheiro, para conseguir segurar um ou dois meses fora do emprego sem passar aperto, ao mesmo tempo que ela tentaria achar algo para sair dali. E assim, cada dia se tornou uma luta contra o tempo.
Era como estar em um verdadeiro hospício. Funcionários com acúmulo de funções, a diretora cada vez mais abusiva e menos tolerante, eu quero dizer, menos humana. O primeiro mês passou. E com muito esforço, a Bianca conseguiu poupar 300 reais. E olha, pode parecer pouco, mas para quem não havia guardado nada, é algo muito significativo.
Dali ela percebeu que talvez fosse melhor ela aguentar quatro meses, aproveitando o último mês para tentar alguma coisa nova. Ela não tinha muito tempo para ficar vendo as coisas e sequer ir à entrevista sem tomar um pé na bunda de repente. Iniciado o segundo mês, tudo corria normalmente. Era uma segunda-feira de manhã e a Bianca estava lavando o banheiro do primeiro prédio quando escorregou e bateu o pé.
Na hora, ela só sentiu dor, mas não achou que tivesse machucado tão feio, pois ainda conseguia colocá-lo no chão. Amanda, a outra funcionária da limpeza, estava na sala próxima ao banheiro e foi até lá depois de ouvir o barulho e perguntou se a Bianca estava bem. Ela respondeu que sim, embora o pé estivesse doendo bastante.
Amanda, então, sugeriu que ela fosse até o escritório falar com a diretora, mas Bianca não quis e disse que iria continuar trabalhando. Alguns minutos depois, o pé dela começou a doer mais e mais e a inchar. Foi então que ela pediu ajuda e desceu com o auxílio da Amanda e de um zelador. Eles a levaram até o escritório, onde ela explicou o que havia acontecido. Ela foi liberada para ir ao médico e ligou para o marido.
Ele atendeu e imediatamente foi buscá-la e a levou para o hospital. Lá, ela fez um raio-x e foi confirmado que ela havia fraturado um osso do pé. Imediatamente, a Bianca ligou para a diretora e disse que entraria em contato com a empresa da limpeza e depois passaria as informações para ela. Depois da ligação, a diretora comentou com os outros funcionários que achava que a Bianca estava mentindo e inventando desculpas para não ir trabalhar.
A Liliane, o alecrim dourado da chefe, comentou que achava ter visto a Bianca mancando já pela manhã e que provavelmente ela teria se machucado no domingo e estava fingindo que o acidente aconteceu no trabalho. A diretora achou estranho o fato da Bianca não ter chamado ninguém imediatamente após cair no banheiro e só ter falado sobre o acidente depois que a Amanda encontrou e perguntou se ela estava bem ao ouvir o barulho.
A Amanda presenciou essa conversa e enviou tudo por mensagem para a Bianca.
Nos dias seguintes, a diretora entrou em contato com a Bianca, que estava ocupada tentando encontrar um andador e adaptar a casa para suas novas necessidades. Somente na sexta-feira, a diretora entrou em contato solicitando que Bianca fosse a sede da empresa. Detalhe, a sede fica a 40 quilômetros de distância de onde ela mora.
A Bianca, debilitada e com dificuldades para caminhar, perguntou se podia ligar para a empresa, pois ir até lá era inviável. A diretora disse que a empresa precisava de uma comprovação. E o que a Bianca fez? Ela mandou uma foto do pé engessado, mas a diretora demorou para responder e depois enviou um número para que ela ligasse e informasse à empresa o que havia acontecido.
A Bianca fez a ligação, relatou o acidente e a empresa orientou que ela fosse ao INSS para dar entrada ao benefício, pois ficaria um mês em casa. No INSS, a Bianca fez todo o procedimento por celular, enviando a foto do pé, os laudos médicos e o tempo previsto para ficar com o gesso.
O benefício foi aprovado para o primeiro mês. A Bianca estava prevista para tirar o gesso no dia 30 de maio, mas não havia vagas no hospital público para consulta. A data foi remarcada para o dia 14 ou 15 de junho, e Bianca ficou com o pé engessado por 45 dias.
Após o gesso ser retirado, ela foi informada pelo médico que precisaria de fisioterapia, mas nunca conseguiu realizá-la. Além disso, ela desenvolveu bolhas no pé causadas pelo gesso e a perna ficou muito inchada e vermelha, o que perdurou até o fim daquele mês.
Em julho, as bolhas diminuíram, mas a Bianca ainda tinha dificuldades. Ela passou por uma nova avaliação do INSS, mas naquele mês o benefício não foi concedido. Diante disso, a Bianca contratou um advogado para orientá-la sobre o que fazer. Desde o acidente, o pé dela nunca mais foi o mesmo, e ela sentia dores sempre que fazia muito esforço ou andava muito.
Em agosto, a Bianca entrou em contato com o INSS novamente, relatando que não estava conseguindo trabalhar devido ao inchaço no pé. Ela passou por mais uma inspeção médica e, finalmente, recebeu o benefício no mês de agosto. No mês seguinte, em setembro, a médica disse que Bianca estava apta a voltar ao trabalho e a liberou para retornar às suas atividades.
Após ser liberada pelo INSS, a Bianca entrou em contato com a empresa para saber como deveria proceder, sendo informada de que deveria ir até a sede da empresa. Durante todo esse processo, ela enviou os comprovantes, os laudos médicos, tudo certinho para a empresa. Mas a cesta básica deixou de ser paga, com a justificativa de que ela só seria concedida a quem estava trabalhando ativamente.
Isso foi repassado ao advogado, que incluiu essas informações no processo contra a empresa. Quando a Bianca foi até a sede, foi informada de que a vaga na antiga empresa havia sido preenchida por outra pessoa e que não havia vagas disponíveis nos comércios da cidade onde ela morava. A empresa disse que ela ficaria trabalhando na sede.
Lembrando que a sede estava localizada a cerca de 40 quilômetros de distância da sua casa. Isso era inviável para a Bianca. Vamos lá, ela teria que sair de casa às 4 da manhã para chegar na sede às 7. E só retornaria para casa lá pelas 8, 9 horas. Isso se não tivesse algum imprevisto que fizesse o trânsito explodir. A Bianca tentou negociar com a empresa, mas sem sucesso.
Ela acabou se demitindo e não teve direito a nenhum benefício trabalhista. O processo judicial também foi perdido, pois o juiz declarou que a empresa estava no seu direito. E vocês sabem o que acontece com quem move uma ação contra uma empresa, né?
Por mais que seja por situações como essa, que a empresa te trata como um saco de pancada, te jogando pra lá e pra cá, desconfiando mesmo quando você está ali enviando laudos médicos, fotos, tudo que comprove a sua situação. É difícil se restabelecer depois, ainda mais quando a causa não é ganha.
A Bianca não conseguiu voltar ao mercado. O seu pé, apesar do repouso, nunca mais foi o mesmo, já que ela não conseguiu realizar sessões de fisioterapia. E não foi por teimosia ou algo do tipo, mas por condições mesmo, e pela grande fila de espera ali na região dela. Com essa situação toda, o Nelson, o esposo da Bianca, teve que sustentar a casa sozinho por alguns meses, o que foi muito, muito difícil mesmo.
Teve mês que o salário dele atrasou por semanas. A Bianca cortou todos os gastos possíveis, mas mesmo assim precisou arranjar dinheiro com alguns familiares e acabou ficando em dívida com alguns deles. Essa história aconteceu há algum tempo. Hoje a situação está um pouco menos pior. Um dos filhos foi morar perto do local onde trabalha, quase se formando já.
Um dos mais novos acabou de terminar a escola e conseguiu um trabalho como jovem aprendiz.
A Bianca disse que hoje a situação não está tão crítica quanto naquela época, mas que ainda é muito difícil. E que todo esse acontecimento fez uma cratera na vida dela em geral. Era uma preocupação diária. Ela dormia e acordava pensando, e agora, será que eu vou conseguir ao menos manter os meus filhos alimentados? Como eu vou fazer para pagar a conta de água, a conta de luz?
E eu separo esse momento aqui para dar a minha opinião pessoal. Eu fico particularmente revoltado quando as pessoas boas, pessoas esforçadas, são prejudicadas por pessoas incompetentes. Olha a situação da Bianca. Ela trabalhava sem proteção, sem os EPIs necessários, tinha uma chefe corrupta que, para ajudar, ainda favorecia um dos funcionários.
Ela se machucou, ela ficou com receio de mostrar que estava machucada e quando informou o que aconteceu, foi vista como mentirosa, sem contar a falta de consideração em chamá-la até a sede da empresa, mesmo sabendo das dificuldades dela de se locomover.
É realmente muito triste imaginar quantas outras biancas não existem aí no Brasil. Quantas pessoas não passam por situações muito parecidas, se não até iguais. Pessoas que se machucam no trabalho e que não tem respaldo nenhum da empresa ou que não tem seus direitos atendidos corretamente e que, no caso até de um processo trabalhista, acaba perdendo a causa, mesmo tendo todas as evidências necessárias para aquilo.
No final de tudo isso, nós aqui do programa agradecemos muito que a Bianca tenha compartilhado a sua história conosco. Muito obrigado por escutar mais um episódio do Conta que Conta. E se você tem alguma história envolvendo questões financeiras, nos envie através do e-mail podcontaqueconta.com que vamos contar aqui de forma anônima ou não, se você preferir.
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