Ep. 33 - Por que me despedi e me tornei full-time kink educator
Conto o meu percurso desde os anos passados em Inglaterra, a carreira como professora e formadora, os nove anos no setor bancário e o momento em que percebi que já não conseguia continuar a viver dividida entre aquilo que fazia para sobreviver e aquilo que realmente me fazia sentido.
Este episódio é uma conversa honesta sobre alinhamento, saúde mental, propósito e sobre o que acontece quando deixamos de adiar aquilo que sabemos que queremos construir.
Se estás numa fase em que sentes que a tua vida profissional já não reflete quem és, talvez este episódio te dê algumas perguntas importantes para refletir🎧
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- Transicao de CarreiraMudança de Arqueologia para Antropologia/Sociologia · Experiência em Traduções e Ensino de Inglês · Trabalho no Setor Bancário · Decisão de se tornar educadora kink/BDSM
- Trajetórias de ativismoAtivismo pró-bono e educação · Desenvolvimento de projetos e produtos · Foco em ajudar mulheres a serem mais dominantes · Impacto direto do trabalho educativo
- Saúde Mental e Propósito ProfissionalDesgaste emocional no trabalho bancário · Pré-burnout e baixa médica · Priorização da saúde mental sobre estabilidade financeira · Alinhamento com propósito de vida
- Educação vs. Terapia em Kink/BDSMDiferenciação entre educação e terapia · Críticas sobre a não-terapeutização do kink · Desenvolvimento de programas educativos
Bem-vinda! Se estás aqui é porque já te apercebeste que mereces mais do que relações assim e assim. Eu sou a Ana Vaz e no podcast Há Mais Homens no Mundo vamos juntas explorar como expandir o teu poder e escolher as relações que mereces. Olá e bem-vindas a mais um episódio do podcast Há Mais Homens no Mundo. Hoje eu vou-vos contar porque é que me despedi do meu trabalho a tempo inteiro para me tornar educadora em Kink e BDSM. Para quem não me conhece, o meu percurso profissional tem sido bastante variado, já fiz um pouco de tudo.
Vou começar do princípio para vocês perceberem esta história um bocado melhor. Então, aos 17 anos saí de Portugal, fui para a Inglaterra estudar Arqueologia de Campo, que é um curso que não existe em Portugal, é um curso das ciências. Escolhi a Inglaterra porque na altura havia finalmente uma escavação em Stonehenge que estava a reanalisar os dados que tinham sido estudados até à data. E a pessoa que estava responsável por essa escavação era uma pessoa que ensinava numa faculdade no sul da Inglaterra, e eu queria estudar com essa pessoa.
Portanto, foi isso exatamente que eu fiz. Consegui duas bolsas, fui estudar para a Inglaterra, terminei o curso. No último ano percebi-me que se calhar não era bem arqueologia que eu queria, mas sim antropologia ou sociologia. Não houve problema. O que fiz foi encontrei um trabalho em traduções, comecei a percebi que se calhar poderia ser interessante trabalhar com línguas. Fiz uma pós-graduação em línguas, tirei o certificado de professora e formadora de inglês em Cambridge e depois voltei para Portugal para trabalhar como professora e formadora.
E foi isso que fiz durante cerca de 8 anos. Depois apercebi-me que se calhar a instabilidade que eu tinha na altura portava-me a trabalhar a recibos verdes não era exatamente aquilo que eu queria para a minha vida, portanto decidi Decidi vender a minha alma ao diabo e fui trabalhar para um banco. Fiz isso durante 9 anos, mas foi isso que me permitiu ter a estabilidade económica para continuar a desenvolver os meus projetos de ativismo e de educação na parte dos relacionamentos não normativos, que tenho feito desde que voltei para Portugal há cerca de 15 anos.
Consegui ter estabilidade económica, consegui fazer aquilo que queria fazer, estabilidade emocional não tanto, Comecei a ter bastantes problemas porque não estava de acordo com a forma como as coisas eram feitas, óbvio, já era esperado. A parte da forma como a gestão das pessoas estava a ser feita naquela empresa enorme não ia ao encontro da forma como eu vejo a humanidade em geral. Portanto, progressão de carreira já era impossível porque eu não podia nunca chefiar uma equipa sem concordar com a forma como as coisas estavam a ser feitas.
Portanto, despedi-me. O meu plano não era este. O meu plano era conseguir subir um pouco mais em termos de posicionamento na minha carreira no banco, conseguir poupar mais dinheiro para depois poder investir no meu projeto, que na altura já estava a ser formado, que era para eu poder ter um bocadinho mais de espaço para me mexer enquanto estava a tentar perceber em que direção queria ir. Mas a vida faz destas coisas, não é? Portanto, tive que me despedir porque as coisas estavam a ficar insustentáveis e eu preferi ficar com menos dinheiro e mais instabilidade, mas ficar com saúde mental, apesar de ter metido mesmo uma baixa por o que a psiquiatra chamou de pré-burnout, não é?
Porque só é reconhecido como burnout se a pessoa ficar mesmo incapaz de fazer as coisas e eu obviamente não ia correr o risco Podendo eu, não ia correr o risco de chegar a uma altura em que estava incapaz, porque eu tenho, como vocês também já sabem se viram alguns episódios deste podcast, um historial bastante grave de doenças psiquiátricas na família e portanto eu não quero estar em situações nenhumas que possam ser gatilho para outros problemas potencialmente maiores.
Então, tive baixa, tentei negociar um ano sabático que não me foi concedido e portanto despedi-me. Despedi-me e pensei, boa oportunidade para me dedicar a tempo inteiro a este projeto, que era o que eu ia fazer de qualquer forma daqui a uns anos, mas vou fazê-lo agora. E foi aí que comecei a fazer o podcast, porque aí comecei a ter tempo para desenvolver estas ideias, para gravar e para editar. Sinto que faço tudo sozinha, então o que eu fiz foi obviamente tentei arranjar alguém que me ajudasse aqui na produção inicial do podcast, saber tive material precisável e por aí fora, mas comecei por fazer tudo sozinha, ainda continuo a fazer tudo sozinha, as gravações, a edição, é tudo feito na minha casa, por isso é que está a um nível tão básico, porque o que eu acho em geral é que o que é mais importante é a mensagem, sim o formato é importante, mas não tanto.
Portanto, o que eu quero é passar informação cá para fora de forma regular, que é o que eu tenho feito desde que iniciei o podcast, que foi quando decidi que ia investir a minha energia a tempo inteiro neste projeto. Porque é que eu o fiz? Não foi só porque tive que me despedir do meu trabalho a tempo inteiro, foi porque nos últimos 15 anos todas as minhas atividades que foram mais de pró-bono e de ativismo estão direcionadas para o trabalho que eu estou a fazer agora.
O que eu fiz quando voltei para Portugal foi perceber o que é que existia, foi-me juntar às comunidades existentes, Fui aprender com as pessoas e fui começando a perceber onde é que havia algum espaço para fazer coisas novas ou para fazer coisas em colaboração com pessoas que já fazem este trabalho. Então nestes últimos 15 anos eu tenho estado a estudar, tenho estado a perceber o mercado e tenho estado também a desenvolver os meus produtos, que neste momento já estão todos postos juntinhos no meu site, que foi modificado desde quando eu lancei.
Quando eu lancei em 2024, fim de 2024, ele estava muito diferente. Obviamente que agora as ideias já amadureceram, eu agora já percebo um bocadinho melhor o que é que quero fazer e como é que as pessoas respondem às minhas ideias. Portanto, tive 15 anos a tentar perceber o que é que existia, o que é que não existia, a criar coisas, a ajudar a comunidade e deixar que a comunidade me ajudasse. E fazia todo o sentido para mim alinhar tudo, porque é bastante difícil estar a viver duas vidas completamente separadas: uma vida num banco, que são 9 horas, e depois o resto de todos os projetos que eu tinha.
Então faz todo o sentido aglomerar tudo e dedicar-me a 100% a estes projetos que tem a ver com, na realidade, tudo o que sejam relacionamentos não normativos. Sendo que eu tive que centrar o meu projeto numa coisa muito específica, por motivos de marketing, como vocês devem saber, para não confundir as pessoas. Portanto, neste momento afunilei para ajuda a mulheres que querem ser mais dominantes ou que querem gerir melhor o seu poder.
Outro motivo pelo qual eu decidi dedicar-me a isto a 100% é que eu tenho tido feedback durante estes anos todos muito positivo em relação ao que é preciso e ao que está a ser feito. Ou seja, eu consigo sentir o impacto muito específico e muito direto do trabalho que eu faço e eu tenho uma necessidade muito grande de sentir que consigo fazer parte da diferença. Eu não sou o tipo de pessoa que se queixa só, apesar de termos todos muitos motivos para nos queixarmos, eu gosto de fazer parte da diferença.
E a vantagem de viver em Lisboa é que a comunidade, especialmente aqui em que eu trabalho, a DSM, tem espaço ainda para outras ofertas e outras pessoas e portanto eu gostaria, e estou a gostar, de fazer parte destes projetos e também de fazer parte da mudança que está a acontecer. Feedback até agora? Algum positivo? Esse é o mais importante. Depois tenho tido algum feedback menos positivo, mas isso existe sempre, de algumas das pessoas da comunidade que acham que estas coisas não se podem ensinar e de outras de fora da comunidade que não percebem realmente o trabalho que eu faço e têm muita tendência a achar que estes temas devem ser tratados por psicólogos porque tendem a achar que é uma patologia.
Obviamente que o BDSM e as relações não normativas não são doenças, portanto sim, há psicólogos, terapeutas que fazem este trabalho e aconselham pessoas, contudo o meu trabalho não é terapêutico, e eu tenho isso escrito no meu site e em todo o lado, mas sim educativo. Portanto, o que eu faço é ir buscar a minha experiência como formadora que tem a capacidade de fazer de raiz programas educativos, que é isso que eu faço. Faço programas educativos quer seja para workshops em grupo, quer seja para pessoas individuais que querem fazer mentoria.
Faço programas de raiz em que eu vou buscar a informação toda e organizo de uma forma que faça sentido para cada pessoa. Agora, qual é que é a perspetiva para os próximos tempos? Até ao fim deste ano eu vou continuar a testar este formato ao qual eu cheguei de eventos e mentorias e também da forma como faço a minha comunicação. Estou sempre disponível para ter o vosso feedback, para tentar perceber se está ou não a servir também às vossas necessidades e também para quais poderão ser os próximos passos para eu tentar fazer novas ofertas e tentar expandir o que já existe.
Obrigada por estarem aí e por me ouvirem. Deixem comentários aí nas plataformas onde vão ouvir este podcast ou enviem mensagem direta para eu ter mais informação sobre vocês e sobre aquilo que vocês gostam e também sobre aquilo que vocês gostam menos, mas sempre com carinho, que este trabalho não é fácil. Por hoje é tudo. Juntem-se a nós no próximo episódio, que sai todas as segundas-feiras de cada semana. Se quiserem saber o que é que eu ando a fazer, se quiserem histórias pessoais ou mais informação, subscrevam a minha newsletter grátis, que sai todas as quintas-feiras diretamente para o vosso email.
Obrigada por estarem aí e até ao próximo episódio. E já sabem, há mais homens no mundo! Se gostaste deste episódio, partilha com uma amiga que também já está farta de relações mais ou menos. Obrigada por me ouvires e lembra-te: há mais homens no mundo.