Ep.37 - Castigo ou recompensa
A resposta não é assim tão simples! É preciso saber quem somos e com quem estamos, o que queremos e ao que a(s) pessoa(s) com quem temos dinâmicas melhor respondem.
No BDSM não há fórmulas infalíveis. Há sim, uma grande exploração pessoal e interpessoal.
Se tens interesse em saber mais sobre este assunto, este episódio é para ti!
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- Consequências lógicas vs castigo punitivoReforço positivo vs. punição · Resposta individual a dinâmicas · Impacto de traumas na vida adulta
- Dinâmicas de dominação-submissãoExpectativas de pessoas novas no BDSM · A necessidade de negociação e comunicação · Ajustes e adaptações em relacionamentos
- Clareza e Efetividade na ComunicaçãoFormulação de ordens claras e diretas · Tom de voz e projeção vocal · Preferências de comunicação do submisso
Bem-vinda! Se estás aqui é porque já te apercebeste que mereces mais do que relações assim e assim. Eu sou a Ana Vaz e no podcast Há Mais Homens no Mundo vamos juntas explorar como expandir o teu poder e escolher as relações que mereces. Olá e bem-vindas a mais um episódio do podcast Há Mais Homens no Mundo. Hoje quero-vos falar de uma pergunta muito frequente, feita tanto por pessoas dominantes como por pessoas submissas, ou mesmo pessoas que estão a entrar no universo da BDSM, que é a dos castigos ou recompensas.
Como é que é a melhor forma de lidar com a dinâmica de dominação-submissão? O que funciona melhor, castigo ou recompensa? A pergunta é muitas vezes feita assim e a resposta não pode estar no vácuo. A resposta deve estar sempre alinhada com o que é que as pessoas dentro desse relacionamento querem, como é que elas funcionam melhor, a que é que elas respondem melhor. Eu não vos posso dizer castiga é sempre melhor numa relação de dominação-submissão, Porque pode haver alguém, como eu por exemplo, que respondo muito melhor a reforço positivo.
Eu, quando estou, como vocês sabem, eu sou switch, quando estou numa posição de submissão, eu não lido bem com castigos. Eu lido bem é com fazer uma coisa bem e ter uma recompensa, em vez de quando faço uma coisa mal ter um castigo. Obviamente que, e eu também já falei sobre isto num episódio do podcast, quando nós estamos numa relação de dominação-submissão, e a pessoa dominante nos diz, tens de fazer qualquer coisa, e nós falhamos nessa tarefa, o que quer que seja, tem que haver algum tipo de resultado, não é?
Quando nós fazemos uma coisa mal, tem que haver um resultado, e essa aí será a punição, mas não deve ser sistematicamente a forma de agir com alguém que responde muito melhor à recompensa, porque aí a pessoa submissa está a receber sistematicamente castigos, não está realmente a tirar nada daquela dinâmica, muito pelo contrário, No meu caso específico, eu não posso estar numa dinâmica em que recebo sistematicamente castigos, porque isso para mim é um gatilho.
Porque eu, na minha vida de baunilha, quando estava a crescer, o que eu tinha era uma relação com o meu pai em que o meu pai me dava sistematicamente castigos por não ser boa o suficiente. E então o que eu quero é o oposto disso, é ter reforço positivo quando faço alguma coisa, mesmo que essa coisa não seja maravilhosa. Porque o que eu quero quando estou numa dinâmica de submissão, que normalmente é age play, eu posso fazer um episódio sobre isto, curar a minha criança de alguma forma.
Tópico complexo, não vou falar mais sobre isto aqui. Vamos avançar. O que me parece, em geral, quando as pessoas me vêm perguntar isto, é: as pessoas têm uma ideia, especialmente as pessoas novas neste universo, que BDSM é muito sobre gozo, é muito sobre castigo, porque é isso que acaba por ser visto nos eventos públicos que têm esta componente BDSM, porque uma coisa fácil de se fazer, por formatismo, é o impacto plano. É eu dar umas palmadas em alguém.
Então as pessoas ficam muito apegadas a esta ideia que BDSM é isso, é dor, é castigo, é faz qualquer coisa mal, toma umas palmadas. Pode ser, mas não precisa de ser isso. E como é que nós vamos decidir o que é que é bom para o nosso relacionamento de dominação-submissão? Para já temos que perceber o que é melhor para nós, com o que é que nós nos identificamos mais. Dando um exemplo meu pessoal, eu sou maioritariamente dominante.
E o meu arquétipo, isto também podia ser um episódio inteiro do podcast, o meu arquétipo de mulher dominante é a rainha. Porquê? Porque eu quero ser venerada e também quero que as pessoas tenham medo de mim. Portanto, rainha está sempre certa e a rainha é sempre adorada, mas também é odiada ao mesmo tempo, não é? Mas também tenho uma componente da cuidadora, porque também é a rainha mãe. Ou seja, eu sofri distante até que estou numa relação com alguém que faz o que eu lhe digo e que me venera de forma que eu acho correta.
Portanto, sim, eu gosto de dar castigos no sentido em que eu sou bastante rígida nas tarefas que dou. Já fiz uma inclusão sobre isto e espero que as pessoas cumpram as tarefas de uma forma que seja boa, a um nível decente. E se a pessoa não o fizer, vai ter uma tarefa acrescida. Mas a partir do momento em que a pessoa mostra que é competente e que realmente me quer servir e me quer adorar, porque é isso que eu quero nas minhas dinâmicas de dominação, a pessoa vai ter muito mais recompensas do que castigos.
Muito mais. E os castigos não são só dores. Castigos pode ser tirar acesso. Se uma pessoa com quem eu tenho uma dinâmica tinha uma tarefa que ficou a 2 estrelas em vez de 4 ou 5 estrelas. Isso quer dizer que a pessoa vai perder algum bocadinho do acesso que tinha a mim. Em vez de nos encontrarmos uma vez por mês, vamos nos encontrar uma vez de 2 em 2 meses. Em vez da pessoa poder ter o ok de creme nas pernas, vai deixar de ter esse ok, vai deixar de me poder tocar.
Coisas assim. E castigos não têm de ser só dores. Recompensas podem ser também o que nós quisermos e podem ser dar mais acessos. Fizeste esta coisa bem, vais ter acesso a passar mais tempo comigo, vais ter acesso a pôr-me creme nos pés, que era uma coisa que tu querias, por aí adiante. Do outro lado, também é importante perceber que o que nós achamos, cada um de nós acha que é um castigo para nós, não é necessariamente um castigo para outra pessoa.
Por exemplo, esta coisa do impact plan, de umas palmadas ser considerado castigo, não tem de ser. Na realidade, Isso pode ser exatamente o oposto de um castigo para alguém que queira dor. Se o objetivo daquela pessoa é receber esse estímulo, então isso nunca vai ser um castigo. Isso nunca deve ser visto como um castigo, certo? Então, o que é que é importante? Vocês perceberem quem é que vocês são, o que é que vocês querem, e depois também perceber o que é que as pessoas com quem vocês estão querem, o que é que isso quer dizer.
Vocês vão ter que perceber muito bem o que é que é um castigo para aquela pessoa e o que é que é uma recompensa. Se calhar é para vocês uma recompensa poderem comer chocolate, mas aquela pessoa não gosta de chocolate, então isso não vai ser uma recompensa. Se calhar a pessoa até odeia chocolate, então passa a ser automaticamente o castigo. Isto para dar um exemplo um bocadinho estúpido de uma coisa básica, que é: vocês não podem assumir que o que vocês— vocês não podem assumir que o que para vocês é bom também é bom para outra pessoa.
Vocês têm de negociar tudo. Isto vai a um dos meus primeiros episódios, que é como é que nós falamos e comunicamos e negociamos. Vocês têm de falar de tudo. O que é que é uma recompensa? O que é que é um castigo? Como é que a pessoa reage mais? O que é que a pessoa quer tirar das dinâmicas? E só aí é que vocês vão começar a ter a resposta a esta pergunta aqui: o que é que é melhor, recompensa ou castigo? Depende de muita coisa, depende das pessoas envolvidas, depende da dinâmica, depende do que foi negociado.
Não é assim tão fácil responder esta pergunta e não há soluções mágicas para as coisas. Há investir em relacionamentos. E isto não se faz de um dia para o outro, porque também nós achamos que queremos às vezes e negociamos e tal, ok, depois vamos fazer e não era isso. Temos que adaptar, temos que fazer outra vez. Isto demora muito tempo. Então estejam preparados para não terem respostas rápidas no que toca a estas coisas do DSM, relacionamentos em geral, coisas com pessoas nunca são rápidas, não há respostas certas.
Por outro lado, pessoas dominantes também me faz pensar algumas vezes Se há necessidade, com muita frequência, de castigos, então aqui qualquer coisa que não está bem. Se a pessoa que vocês estão a dominar não está a fazer bem as tarefas, então se calhar considerem que vocês não estão a dar bem as ordens. Isto também é um problema frequente, é que as ordens não são claras, é que vocês estão a dizer 5 coisas numa frase em vez de dizerem ajoelha-te e a pessoa ajoelhar-se.
Fecha os olhos, e a pessoa vai fechar os olhos. Outra coisa, e a pessoa faz outra coisa. Se vocês disserem, a Joelha, fecha os olhos, traz-me isto, faz aquilo, a pessoa já se perdeu. Dar ordens de forma que seja compreensível do outro lado o que é que vocês estão a dizer. E não é só dar uma ordem de cada vez, sim ajuda, ou podem dar duas ordens de cada vez, mas também é o vosso tom, é a projeção da voz. Tudo isto é importante para que a pessoa do outro lado vos compreenda, mesmo compreenda, consiga processar a informação e consiga fazer.
Para além disto, também é importante que vocês tenham negociado com esta pessoa a forma como ela consegue receber melhor a informação. Se calhar esta pessoa não gosta de ordens verbais, prefere as coisas por escrito, por exemplo. Se calhar não gosta de palavras, se calhar gosta de gestos, gosta que vocês apontem. Isto também é importante porque se vocês têm uma pessoa que sistematicamente está a sofrer castigos porque não está a cumprir, a não ser que vocês tenham negociado que é esta a dinâmica e que a pessoa é um bocado brata e que vai sempre resistir às vossas ordens, então aqui há qualquer alguma coisa que não está bem.
E esse não estar bem também pode estar do vosso lado, não é porque vocês serem dominantes que não fazem erros, muito pelo contrário. Repetindo o que já foi dito, eu não consigo responder no vácuo à vossa pergunta do que é que é melhor, castigo ou recompensa, porque eu não conheço as vossas dinâmicas, nem vos conheço a vocês. Vocês devem fazer esse trabalho interno, devem fazer esse trabalho com os vossos parcerias, devem experimentar e devem saber o que é que vocês querem tirar das vossas dinâmicas em geral e em específico das vossas plays.
E só aí é que vocês vão perceber para cada situação o que é que é melhor. Sendo que há pessoas que já têm uma ideia bastante formada daquilo que querem, que querem ser sempre recompensadas, querem presentes, querem ser cuidadas. Isto especificamente em dinâmicas que são em display, por exemplo, uma pessoa que quer ter uma figura cuidadora que lhes dê carinho que não teve quando era mais pequena. Ou então pessoas que estão do outro lado que querem é mesmo a dor, a humilhação, um castigo.
Sendo que isso para essas pessoas não é necessariamente castigo, porque é o que elas querem. Portanto, cuidado aqui com estas diferenças entre punishment e punishment em inglês, que é sim punição, deve ser aquela coisa que nós damos quando a pessoa faz um erro ou não faz a tarefa ou vai contra as nossas ordens. Isso é punishment, mas esse punishment Não deve ser, em princípio, uma coisa que a pessoa goste, senão não é punishment, é punishment, não é?
Se nós em geral achamos que dor é uma coisa má, então vamos punir a pessoa com dor. Mas se essa pessoa gosta de dor, isso é punição? Vocês têm que pensar bem nisto. Pode ser, vocês podem decidir fazer o que vocês quiserem dentro da vossa dinâmica. Tem é de perceber que as coisas são complexas e que não estão no vácuo, nem estamos dentro do BDSM a assumir coisas como assumimos no mundo de baunilha. Com o BDSM, isto é uma realidade completamente diferente e nós podemos fazer o que quisermos, da forma que quisermos, desde que seja consciente e negociado.
Por isso, vou deixar isto por aqui. Obrigada por estarem aí. Já sabem, se tiverem perguntas mais específicas podem sempre deixar comentário ou enviar mensagem. E espero por vocês no próximo episódio, que sai todas as segundas-feiras de cada semana. Se gostaste deste episódio, partilha com uma amiga que também já está farta de relações mais ou menos. Obrigada por me ouvires e lembra-te: há mais homens no mundo.
Ana Vaz
Conteúdos e histórias pessoais