Ep. 36 - Como começar no BDSM
Neste episódio falo sobre os primeiros passos para explorar o universo BDSM de forma consciente, informada e segura. Desmistifico algumas ideias erradas que muitas pessoas têm quando entram neste mundo e partilho aquilo que considero serem as bases mais importantes para quem está a começar.
Também abordo uma questão fundamental: como descobrir aquilo de que gostas sem pressão para te encaixares em rótulos ou reproduzires aquilo que vês em filmes, séries ou pornografia.
Se tens curiosidade sobre dinâmicas de poder, submissão, dominação ou simplesmente queres compreender melhor esta comunidade, este episódio oferece uma introdução clara e acessível ao tema.
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- Comunicacao Nao-ViolentaSentir-se seguro · Capacidade de se remover · Comunicação empática e não violenta · Confidencialidade
- Iniciando no BDSMCuriosidade e pesquisa de conteúdo · Eventos BDSM · FetLife · Munch · Workshops temáticos
- Sensualidade e Autoconhecimento CorporalDescobrir interesses pessoais · Não se encaixar em rótulos · Diferença entre teoria e prática · Aprendizado sobre si mesmo
- Comunidade e RelacionamentosConhecer novas pessoas · Respeito e empatia · Não julgar práticas alheias · Encontrar novas amizades
Bem-vinda! Se estás aqui é porque já te apercebeste que mereces mais do que relações assim e assim. Eu sou a Ana Vaz e no podcast Há Mais Homens no Mundo vamos juntas explorar como expandir o teu poder e escolher as relações que mereces. Olá e bem-vindas a mais um episódio do podcast Há Mais Homens no Mundo. Tenho recebido várias mensagens a perguntar como me iniciar no BDSM e vou então fazer este episódio sobre esse assunto, apesar de não haver curas poderosas, nem um roteiro que funcione com toda a gente.
A única coisa que eu posso fazer é dar-vos dicas práticas, que é o que eu faço mesmo na realidade, para vocês conseguirem perceber o que é que é bom para vocês, dependendo também das vossas necessidades e dos vossos interesses. Eu, sem saber o que é que vocês querem, não consigo dar uma resposta que seja alinhada às vossas necessidades, não é? Como em tudo. Mas vamos lá. Quando me perguntam como é que eu posso entrar no BDSM, normalmente isto são pessoas que estão, seguem o meu conteúdo, seguem conteúdo semelhante, se calhar já se aperceberam que há eventos neste universo, mas não sabem qual evento escolher, têm vergonha em ir a eventos também, ou não querem ir sozinhas a eventos.
Portanto, na realidade, querem também encontrar pessoas com quem poder falar e com quem poder ir a eventos. Ora, primeira etapa: entrar no mundo BDSM. Essa primeira etapa já está feita, que é ter curiosidade. Segunda etapa é começar a seguir conteúdo, que também já está feita, porque estas pessoas estão a contactar em mim, quer dizer que já seguem o meu conteúdo. E há outras pessoas também fazem trabalho como Terceira etapa é mesmo começar a ir a eventos.
E aqui não há grande coisa que eu possa dizer, a não ser que há vários tipos de eventos de diversos níveis no que toca ao mundo da obediência. Portanto, convém que a pessoa comece por um evento mais soft. Onde é que se encontram estes eventos? Normalmente há páginas no Instagram que têm conteúdo como o meu que anunciam eventos e há um site que se chama Petlife, que é uma rede social tipo Facebook, mas para pessoas que são da comunidade do BDSM ou que são gangsters, e aí também se anunciam eventos por localização.
Esse seria o melhor sítio. O tour do Petlife é uma rede social que é bastante específica e pode ser um bocadinho Pode ser gatilho para algumas pessoas porque tem muitas imagens muito explícitas de práticas que podem ser um pouco pesadas, entre aspas, para quem está a entrar neste mundo. De qualquer forma, eu aconselho sempre as pessoas a criarem uma conta no FetLife só para verem parte dos eventos. E aí, na parte dos eventos, vocês vão conseguir perceber que há vários tipos de eventos, sendo que o evento número 1, o evento básico, Pode ser uma coisa chamada um Munch, que é um evento informal de pessoas que fazem parte da comunidade, mas que vão apenas estar em conjunto, normalmente para bebidas ou comida, e vão falar sobre coisas do mundo do BDSM, mas também das suas vidas.
E é um evento que não requer nada de especial, não requer outfit, não há toque, não há— é num sítio público, portanto também tende a haver aqui bastante respeito em relação à informação que está a ser passada, porque as pessoas que estão no mesmo sítio, que não fazem parte do grupo, vão estar potencialmente a ouvir. Portanto, tem de se ter um bocadinho de cuidado, até para proteger a identidade das pessoas que vão a estes eventos.
Mas esse seria o tipo de evento mais indicado para quem está a começar, porque é um evento onde as pessoas vão e começam a perceber-se que fazer parte da comunidade do BDSM não é um bicho de sete cabeças. São só pessoas normais que têm algum interesse em algumas práticas. E são conversas informais, é uma coisa super simples, não tem um custo elevado, porque normalmente é só o consumo de uma bebida. E então eu começaria por aí.
Depois de serem amantes, o que acontece normalmente é que começamos a conhecer pessoas e podemos pedir o contacto dessas pessoas, podemos ficar em contacto com essas pessoas para podermos ir com elas a outros eventos um bocadinho mais complexos, que podem ser festas que são organizadas por vários sítios em Lisboa, temáticas de BDSM, ou mesmo, por exemplo, há clubes de swing que fazem eventos mais direcionados uma vez por mês. E estas festas até são bastante soft, não são nada de— não mostram práticas assim muito, muito que sejam consideradas complexas ou pesadas.
Pode ser uma boa seguinte etapa ir a um evento destes com alguém que se conheceu no banhos, ou, e em paralelo, fazer o trabalho de tentar perceber que tipo de coisas é que queremos no mundo da BDSM. Será que queremos muito, temos muita curiosidade em relação a uma prática específica? Nesse caso, se calhar era bom vermos se existe um workshop sobre este assunto. E há vários espaços, estamos a falar em Portugal, mais especificamente em Lisboa, que é onde eu estou, que fazem alguns workshops temáticos.
Se gostamos de cordas, há sítios para isso. Interessarmos de alguma prática específica, podemos ir ver no FetLife se há alguém localmente que gosta dessa prática e entrar em contato com a pessoa para ver se a pessoa pode fazer algum tipo de— nos pode mostrar, mesmo informalmente, uma festa ou pode organizar algum tipo de mentoria. E é assim que vamos começando a perceber o que é que existe e é assim que vamos começar a experimentar as coisas, porque na realidade uma coisa é o que nós achamos que queremos e gostamos e outra coisa é na prática quando acontece, se realmente era isso que nós queríamos.
Então, é importante fazer a pesquisa, sim, é importante conhecer pessoas do meio, porque é assim que conseguimos ter companhia para lhes perguntar certas coisas e também perceber que às vezes o que nós achamos que queremos e gostamos não é certo na realidade. Já falámos sobre ter curiosidade, essencial, já falámos sobre seguir páginas que tenham este conteúdo, porque é aí que também vocês vão perceber o que é que existe e o que é que está a acontecer.
Depois, começar a ir a eventos mais soft, como os manches, para conhecer pessoas, para ir a outros eventos um bocadinho mais complexos e começar a fazer práticas. Coisas essenciais é saber que não interessa que tipo de prática é que estamos a fazer, não interessa se potencialmente temos interesse por dominação ou submissão, é sempre necessário sentirmo-nos seguros e estarmos com pessoas em situações e em locais que nos façam sentir seguros.
Senão nos sentimos seguros. Temos de ter capacidade de nos remover dessas situações. Isto é muito importante na vida em geral, mas muito especificamente neste contexto do BDSM, porque há coisas que acontecem nestes cenários, há práticas específicas que têm algum risco, há também risco emocional, e nós não queremos estar nas situações em que possamos sofrer alguma coisa que nos vai depois moldar esta experiência como sendo uma coisa negativa.
Portanto, muito importante. Coisa muito importante para as pessoas que estão a começar é não assumir que a vossa experiência é igual à experiência das outras pessoas que estão a lidar, ter respeito e empatia pela perspetiva das outras pessoas e não fazer king shaming, que é dizer mal, falar mal, criticar práticas que para vocês não são interessantes. Ter muito cuidado em relação à confidencialidade. Há muitas pessoas neste universo que não estão out e que podem sofrer consequências graves se for tornado público que são praticantes.
Portanto, muito cuidado. E também saber que comunicação neste contexto é muito importante. Comunicação empática, não violenta, connosco próprios e com as pessoas com quem estamos a interagir. É muito, muito importante relações interpessoais em geral, mas neste contexto ainda mais. Portanto, ter a capacidade de ter a certeza que estamos a comunicar de uma forma que é perceptível do outro lado, deixar as coisas bem claras para os ajudados, idealmente por escrito, quando estamos a começar a experimentar novas dinâmicas, que é para nos podermos proteger também e prevenir que aconteça algo de errado porque deixámos coisas por dizer.
Ter esta capacidade de também dizer não a coisas que não queremos e dizer que sim a coisas que queremos. E também pensar que o BDSM pode ser um veículo para nós conseguirmos várias coisas que queremos, pode proporcionar momentos incríveis, pode ser também como uma forma de encontrar novas parcerias, novas amizades. Então é usar toda esta experiência como, não como chegar a um objetivo, uma coisa específica, mas tentar usar toda a experiência como uma forma de aprender sobre nós mesmos e sobre as pessoas com quem nos envolvemos e sobre este universo que é enorme e que muitas vezes é desconhecido.
Outra coisa que eu também gosto de dizer às pessoas que estão a começar é que não deixem que ninguém que já está na comunidade há muito tempo vos diga que porque está há 20 anos na comunidade sabe mais e isso é certo e é assim que deve ser, quando vocês sentem que não estão alinhados com o que essa pessoa quer fazer. Não é provavelmente ter 20 anos de experiência que tem que vos impor o que essa pessoa quer. Normalmente ter 20 anos de experiência pode querer dizer que a pessoa tem muita experiência em determinadas práticas, está certo, mas isso não quer dizer que a pessoa decida o que é bom para vocês.
Portanto, não deixem que esta autoridade vos impacte de uma forma que não é boa para vocês. E basicamente é isto. É um investimento grande, sim, procurar eventos, ir a eventos, ultrapassar a vergonha, ultrapassar o medo, especialmente quando não temos parcerias, de ir a eventos novos. E com parcerias também é um investimento grande, no que toca a falar com as pessoas sobre o que é que é ok, o que é que não é ok. Depois lidar com a parte emocional de quando as coisas realmente acontecem, na teoria é uma coisa, na prática é outra.
Isto é todo um caminho que é muito complexo, então nós devemos darmos tempo a nós próprios, às pessoas com quem estamos, para nos adaptarmos e para conseguirmos tirar alguma coisa destas dinâmicas. E se nós apercebemos que experimentámos e não é para nós, está tudo bem. Sabendo que há outros sítios onde há eventos, não é só em Portugal, portanto também considerar que quando vamos de férias podemos aproveitar e vamos a Londres, há festas em Londres, vamos experimentar esta festa.
Vamos a Madrid, também há festas, há festas em todo o lado. É também ver que as comunidades locais nos diferentes países são diferentes e oferecem coisas diferentes. Portanto, pode ser que vocês não encontrem a comunidade que vocês querem aqui em Portugal, mas podem encontrá-la noutros sítios. Portanto, não desesperem. E demora tempo, mas chegamos lá. Há sempre potencial de encontrarmos qualquer coisa e alguém com quem somos muito compatíveis e conseguimos pôr em prática as coisas.
Temos. Por hoje é tudo. Queria só deixar-vos aqui um bocadinho de esperança em relação a estas coisas. Sendo que os últimos episódios têm sido um bocado contar coisas mais negativas ou caricatas deste universo, também é bom deixar-vos com esperança de que seguindo uma certa, umas certas escadinhas, é possível que consigam aquilo que estão à espera, sendo que não há garantias e não há uma fórmula mágica, mas sim há esperança. Obrigada por estarem aí e fiquem para o próximo episódio, que já sai na semana que vem, na segunda-feira.
Se gostaste deste episódio, partilha com uma amiga que também já está farta de relações mais ou menos. Obrigada por me ouvires e lembra-te: há mais homens no mundo.