Livros em Cartaz 102 – Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk
- Lady Macbeth de Mtsensk· CulturaNikolai Leskov·Katerina Livovna Ismailova·Adaptação cinematográfica·Literatura russa·Nomes e diminutivos russos
- Lançamentos de Cinema e Streaming· EntretenimentoConstrução do tédio na personagem·Alterações na narrativa (Inglaterra, raça)·Moralidade e cinismo social·Atuações e direção de arte
- Análise da Obra e Adaptação· CulturaEstilo narrativo de Leskov·Intertexto com Shakespeare·Motivações da personagem·Tédio e desejo·Adaptação cinematográfica vs. livro
- Nikolai Leskov· CulturaVida e obra de Leskov·Walter Benjamin·O Narrador (Walter Benjamin)·Contexto histórico da Rússia·Crítica à Igreja Ortodoxa
- Historia da Russia· SociedadeAbolição da servidão em 1861·Ascensão da classe comerciante·Caos social pós-abolição·Diferenças regionais e étnicas na Rússia
- Julgamento e aparências· SociedadeCondenação e caminhada para a Sibéria·Humilhação e ciúmes de Katerina·Morte de Katerina e Fédia·Diferenças entre livro e filme no final
- Interação com ouvintes Portal Refil· EntretenimentoE-mails e mensagens de ouvintes·Aniversário de 10 anos do Portal Refil·Live comemorativa·Apoio ao podcast
De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Katerina Livovna Ismailova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la Lady Macbeth do distrito de Mtsensky.
E assim começa Lady Macbeth do Distrito de Mtsensky, novela de Nikolai Leskov. Eu sou Andréia de Oliveira.
Eu sou Gabi Ideali.
E este é o Livros Encartados. Gabi!
Andréia!
Quem é ser gay? Quem é serioga e quem é seriógica?
É o que vamos tentar solucionar. Nós lemos esse livro para isso, para solucionarmos o mistério. Aliás, quem não é versado em literatura russa, ou melhor, quem é versado em literatura russa sabe o quanto a gente sofre lendo russos. Nesse lugar, porque o resto não, o resto ninguém sofre. Sofrem os personagens, talvez.
Muito.
Nós mesmas, exato, nós mesmas só falamos: ó, literatura, uau! E estava aqui eu, antes de começarmos a gravar, contando para André que estou me aventurando a ler os Irmãos Karamazov. Karamazov.
Vê se pode. Gente, ela veio para mim e falou assim: ai, preciso O que você acha? Vou ler os livros, vou parar, mas, ó, é isso.
Gabi descansando, Gabi descansando. É isso, gente, férias, descansando. Porque eu tô falando isso para dizer que eu fui e voltei nas páginas, o quê, umas 100 vezes já. Porque chega uma hora, porque o russo, ele só, não só, ele não está satisfeito só com chamar a pessoa de Caterina, Luvovna, Ismalayovna. Ela também, ele também precisa ter 4 ou 5 tipos diferentes de diminutivo do nome. E aí você começa no que você não entende quem é Mitya, quem é Vinnika, quem é...
E começa uma misturaiada de personagem que você fala: calma, vamos sentar todo mundo, senta, deixa eu entender de quem que vocês estão falando.
E aqui Não é diferente, mas por exemplo, vamos falar do Sergei, que é o grande ponto de discórdia aqui desse, dessa novela, esse cidadão. Sergei em português seria o quê? Sérgio, certo? Então a Gabi já captou, a Gabi já aonde eu quero chegar. Então seria mais ou menos assim: existem trechos do texto que vai estar Serguei, que é o nome mais pomposo, que é Sérgio, certo?
Grande Sérgio.
Mas vamos ter partes ali que vai estar Seriója, que é o quê? Sérgio, que é, que seria o Sérgio. Ô, Sé!
Sé!
Dili!
Sé!
Como é que você tá?
Serjão!
E aí tem momentos que seria o seriódica, que seria sabe o quê? O Serginho. Serginho! Isso! É isso, gente. E aí o que que acontece? A gente tem que saber quais são os diminutivos, porque isso nas relações interpessoais das personagens importa. Por isso que ler Anna Karenina é um— as primeiras, assim, acho que as primeiras 30 páginas é para você se entender.
Isso, isso.
Aí depois vai—
o que eu tô lendo, irmãos, caramba, a gente tá falando de 3 irmãos. Você imagina, 3 irmãos, um pai, por enquanto.
Isso, por enquanto.
Exato. Um monte de monge. Aí começa que o monge não sei quem que falou com o monge não sei o quê, que falou com o irmão, aí você fica calma. Aí começa os diminutivos dos irmãos, que mistura, aí eu falo, gente, calma. Aí tá todo mundo conversando, aí tem travessão pra tudo quanto é lado, que você já não sabe qual que é o irmão que respondeu o quê, que voltou. Eu fico, gente, calma. Aí passa aquele primeiro momento, você acostuma, aí fala, ah, tá.
Aí vai, aí vai. É só fazer uma tabelinha do lado.
Isso que eu ia falar, tem que ser igual o André falou. Você tem que olhar e falar, não, pera, vamos aqui criar uma lógica para isso. Porque senão, gente, a gente ainda que tem um idioma totalmente distante, é uma cultura também, uma história muito diferente, a gente se perde, demora mesmo para ambientar, o que talvez seja mais favorável nesse texto porque ele é um texto curto.
Isso, isso é uma novela, né? Então ele é muito curto, ele não passa de 100 páginas, ele tem 96 páginas na nossa tradução.
Isso.
E a gente pegou a tradução da 34, né? A sua também é da 34, né? Sim.
A mesmíssima, fofinha, capa lindinha.
Ah, é ótima, eu adoro, eu adoro as traduções da 34, do russo, né? Eu acho que eles fazem muito do russo, do alemão também eu gosto, apesar de eles são muito bons, né? É que eles são uma editora, eu tenho algumas questões, mas é com, é com a pessoa física, não vou falar aqui, of course. Mas porém, porque foi meu professor, mas porém, contudo, todavia, portanto, é o do russo e o do italiano, do espanhol. A Editora 34 é uma coisa primorosa, ela é, ela é.
E na coleção do Leste eu acho ela fantástica. Acho que todos os meus russos são da 34, exceto o Anna Karenina e o Restauração, que são da Cossack Naif.
O resto, eu tenho uma edição do Tolstói, se não me engano, que é da, um box, que eu não me lembro quando que eu comprei, mas já tem um tempo, que é da Tolstói também.
O meu Guerra e Paz, ele é da Cossack também.
É, o meu é também. E aquele pititito, Pikachu, é igual o meu, da época que ainda isso existia, enfim, e era viável comprar e tudo mais.
E é porque hoje tá valendo uma fortuna, tá?
Não, tá impossível hoje em dia, né? Mas nesse sentido, de fato, o dado de estarmos diante de uma novela, de um formato mais curto, ele facilita assim, ajuda. Ainda assim, dependendo do momento, ainda fiquei um pouco confusa assim, assim. Eu fui e voltei algumas vezes, confesso.
É porque, como o Gabi disse, é bem distante, né? Como eu passei pelo teste de fogo de Ana Karieni, aí você vai pegando alguns macetes para conseguir melhorar.
É, eu acho que todos eles, é isso que eu ia falar, todos eles têm, e dependendo da experiência, igual a Andréia falou aí, de ter lido, por exemplo, Ana Karieni, eu acho que alguns diminutivos você começa a criar um pouco mais de familiaridade, começa a entender mais. Intuir mais ou menos como eles, como que eles dividem. É gostoso, acho umas leituras bárbaras assim russas que eu já tive, então.
E aí a gente volta para os russos, né? É. E aí de novo, né? A gente fala, vamos para os russos, então agora o cancelamento vem? Não, porque o nosso amigo que escreveu o Lady Macbeth, ele o Nikolai Leskov, ele, ele ainda é do período dos czares. Então ali, né, na meiuca ali, então ainda não tinha passado pela Revolução Russa. Então torcedores, calma, isso não vai ter cancelamento ainda.
Não, não, não, ainda não é o momento, ainda não. Fora que estamos falando de uma Rússia muito interiorana.
Sim, sim, porque o Leskov, diferente do Dostoiévski, né, e porque ali a gente teria, né, o Dostoiévski ali não na mesma época, mas assim, e a gente vai ver um interior, interior mesmo, né. Então, porque, por exemplo, o Turguenev, ele era aquela nobreza rural. O Dostoiévski já era coisa de São Petersburgo mesmo, mas o Leskov é o interior profundo da Rússia. Então são essas pessoas, entre muitas aspas, ordinárias, que a gente vai ver nos textos dele.
Né, não vai ser essa coisa, enfim. Mas para a gente entender um pouquinho essa, tudo isso que a gente tá falando, né, e toda essa, o que ele escreveu e tudo mais, vamos falar um pouquinho da vida do Nikolai Leskov, que eu acho que aqui no Brasil ele não é, ele é menos festejado. Na letras eu acho que ele é mais festejado por conta do queridinho da Gabi, né, do Walter Benjamin.
Exato. Ele tem um texto clássico chamado O Narrador, muitíssimo abordado, estudado.
Isso.
E é o texto em que ele se utiliza do Leskov, Leskov, para como modelo de análise.
Isso. Que ele fala que é que sente falta dos narradores como Leskov.
Ele diagnostica uma morte da tradição.
Isso, isso.
Que é o que estávamos falando aqui antes de começar este programa.
Exatamente. Então quem é esse cara que a gente não tem muito a noção aqui no Brasil? Acho que é mesmo o Turguenev, eu acho que ele é mais conhecido que o Leskov. Então o Nikolai Ovsiy Onovich Leskov nasceu na província de Orel, na Rússia Imperial. Então quer dizer, na época que ainda tinha os czares ali. Então ele era filho de um funcionário público muito modesto e a mãe dele era uma nobre, mas era uma, uma controladora falida, entendeu?
Ela, Rússia, Rússia, exato, exato. O pai morre muito cedo, né, no incêndio, que acabou com os bens da família e que forçaram, forçou ele abandonar. Ele não concluiu os estudos, ele abandonou os estudos com 15 anos. E aí ele foi trabalhar por conta de tios e tal, ele acabou indo trabalhar no Tribunal Judiciário da cidade, né. Nossa, ele começou a trabalhar com essa burocracia polícia. E aí depois ele foi trabalhar na iniciativa privada com um agente comercial inglês ali do interior, no interior da Rússia.
E aí o que ele diz, né, que foi o que o levou a testemunhar a corrupção do sistema, os abusos do patriarcado rural e a miséria do campesinato e da classe comerciante.
Imagina o que este homem não viu!
Então, que essa classe que ele vai abordar aqui no texto que a gente vai falar hoje, inclusive. Sim, ele se casou em 1853 em Kiev, só que essa mulher com quem ele casou, ela tinha problemas de saúde mental e ela acabou sendo institucionalizada.
Coitada.
Então, enfim, é acabou indo nesse século. Imagina, né? E aí ele se casou uma segunda vez em 1865 e teve um filho chamado Andrei Leskov, que escreveu a biografia do pai depois. Ele mesmo que escreve a biografia do pai. Em 1860, ele publica uns artigos de economia e sociedade. E esse cara, ele vai escrever ficção muito depois, assim, Então ele começa primeiro com ensaios, com artigos, e depois é que ele vai para ficção. Ele se muda para São Petersburgo e depois para Moscou.
Então aí a gente tem que— eu acho que eu já falei disso aqui no programa de Dostoiévski. A Rússia, ela tem um problema, não sei hoje, né? Mas assim, existe um traço cultural da Rússia que ela não sabe se ela é europeia, ela não sabe se ela é oriental ou se ela é ocidental. Então antigamente existia uma alternância da capital da Rússia. Então tinha essa coisa de se a capital naquele momento era Moscou, significava que eles estavam se vendo mais orientais.
Se a capital era São Petersburgo, eles estavam se vendo mais ocidentais. Então tem muito disso, e a literatura também vai fazer esse movimento de— tanto que o Leskov, a gente vai ver que ele se aproxima muito da literatura europeia. Não é à toa que ele faz uma interseção aqui com o texto do Shakespeare que a gente viu no programa passado. Não é à toa, né?
Não é, mas depois não é uma referência que vem de graça.
Não é à toa. Mas aí a gente vai falando conforme as coisas vão andando, tá? E aí ele começa, ele vai escrever em periódicos, em revistas, né? Então assim, ele é esse cara dos artigos, dos ensaios e tudo mais, e sempre muito polêmico. Também tem isso. Para a turminha dele ali, ele era um ponto fora da curva. Ele se envolveu em muitos conflitos com os liberais, revolucionários, democráticos e eslavófilos, os amantes do eslavo. Então assim, tinha umas coisas assim, de novo, para entender esse caldo, porque a gente fala assim Rússia, mas assim São muitos. Ele é um país imenso e tem muitas etnias ali dentro também.
Gente, eu acho muito interessante pensar na Rússia como mais ou menos a gente pensa o Brasil, no sentido de que provavelmente uma pessoa que não more ou não seja brasileiro nato, quando você fala Brasil, a pessoa pensa, sei lá, quando muito em Rio de Janeiro. Ou a capital, uma coisa assim muito estrita. Que nós brasileiros temos uma dimensão maior de que é muito diferente uma pessoa que nasce em Minas de uma pessoa que nasce no Piauí, de uma outra pessoa que nasce em Santa Catarina.
E eu acho que a Rússia tem isso, tem, tem. Eu não conheço, mas do que eu conheço, digamos, literariamente, existe essa diversidade gritante entre os— a gente tá falando de um país maior que o nosso, inclusive.
E que a gente tem que colocar um traço aí, que não é só o sotaque ou o lugar, são as etnias.
Exato, porque a gente fala assim, ah, mas aqui no Brasil—
então nós temos os indígenas aqui que Que é a maior, a grande diferença. Lá não, lá são muitas etnias diferentes.
Sim.
Então—
E tiveram uma história de muita mescla, é o que a Andréia falou. Tem esse período de flerte com os franceses, sabe assim? Aí tem os czares, aí teve a Revolução Russa. Então assim, são tantas camadas de—
É porque o que chega aqui pra gente Chegou pela propaganda estadunidense. E aí a gente lembra toda vez que, pelo menos a minha geração, é marcada por uma Rússia, União Soviética, porque a gente tava em plena Guerra Fria ainda, né? Então assim, então eu acho que eu quando criança eu tinha muito medo porque a porcaria do Fantástico falava que o mundo ia acabar 200 vezes.
Será que acabou e a gente continua?
Eu acho que acabou e a gente ficou.
Continuamos aqui. Ali acabou, esqueceram de avisar que a gente precisava ir embora.
É isso, a bomba explodiu em algum lugar que a gente não quer saber, entendeu? Então tinha essa coisa, né? E aí tem toda essa propaganda ainda. Além de tudo, a gente ainda tem uma outra camada com a Rússia, porque ainda tem toda essa propaganda. Né? Tipo, os Estados Unidos perderam a guerra, mas o Rambo ganhou, entendeu? Então tem isso, tem essas coisas ainda, né? Que complicam a vida de quem não é.
São muitas camadas.
É.
Porque pra nós, assim, estando muito distantes, é mais difícil se achar no meio desse caldo. De histórias e culturas e etnias, enfim.
Teve alguns incêndios em São Petersburgo, né? Teve um grande incêndio em São Petersburgo e ele falou desse incêndio no romance, né, que ele escreveu, que é um romance, Sem Lugar Pra Ir. E é porque esses incêndios, eles foram causados ali, né? Sim. E aí os círculos progressistas meio que ficaram putos com ele. Então ele tinha uma coisa de ser uma pessoa não grata, assim, não era uma pessoa de fácil lida, de lidar muito fácil, né?
Tranquila, tranquila.
E em 1962 foi quando ele escreveu a primeira ficção dele, né? Esse livro que eu falei antes era de 64. Mas a primeira ficção dele foi um conto, né, que chamava O Caso Extinto, e foi a primeira coisa que ele escreveu. Como eu disse, ele começou com outros, tipo, outros gêneros, e depois ele foi para ficção. Ele não era um ficcionista de cara, né?
E aí talvez isso que seja o marcante. Desculpa, eu sei que a gente vai chegar, é, a gente vai chegar nesse momento, mas talvez isso seja um dado relevante da gente ter em mente.
Porque ele escreveu muita crônica e eu acho que o tipo de texto dele se aproxima demais da crônica, né? Muito, muito, muito. E aí ele foi, eu acho curioso, a fonte que eu peguei era uma fonte russa, né? E aí eu fui lá, pus para traduzir, aquela coisa toda que a gente faz, aquelas magiquinhas. Que a gente tenta fazer. E aí o termo que eles usam para dizer que ele foi afastado do meio literário é excomungado, porque excomungado você é da igreja, né?
Então é quase, então quer dizer que ele não era santificado o suficiente para se manter no meio literário. Então diz que ele foi durante um período que ele foi ostracizado do meio literário, e aí ele foi colaborar com periódicos conservadores. Ele não parou de escrever. Então ele foi, e aí rompeu depois porque ele rejeitava a postura reacionária do editor. Então assim, de novo, é uma pessoa difícil assim. Ele não, ele não se encaixava numa caixinha só, né?
Enfim, pensando nisso, ele tinha algumas visões que ele passa, e nesse texto a gente vai ver também. Então Tem uma coisa que eles chamaram, que eu achei curiosa, que era o tal do iluminismo democrático, que ele coloca que ele defendia a europeização da Rússia, a educação, a liberdade e os direitos das massas, criticando o atraso e a inércia do país pós-reforma da servidão. A gente falou um pouco da reforma da servidão quando a gente falou de Dostoievski, que foi quando o pai, aquele pai super legal do Dostoievski, foi assassinado pelos servos.
Exato, estrangulado. Aquele pai do bem, aquele pai galera, cidadão de bem, pai galera.
Isso, então, que foi assassinado pelos servos, né? Oposição às revoluções rápidas e abstratas. Então ele falava que essas coisas, essas teorias revolucionárias, ele divergia, ele não acreditava. É porque ele dizia que faltava para Rússia um preparo para revolução. E aí ele priorizava o conhecimento vivencial e orgânico do povo. Então ele, assim, o que ele— eu acho que é mais ou menos o sentimento que a gente tem aqui no Brasil, assim, né, que essa coisa do— mas você acha, como é que, como é que o povo vai vai fazer revolução, como é que a gente vai?
Eu acho que é nesse lugar da instrução de fato, né? E bom, como todo sujeito daquele período, ele era contra a igreja. Mas a gente tem que lembrar que a igreja lá é a católica ortodoxa, né?
Sim, que é diferente, né? Então, bem diferente.
Então ele conhecia a literatura religiosa, mas ele, essa hierarquia e a elite, porque existe uma, existia uma elite da Igreja Ortodoxa que ele era contra, né? Tanto que ele teve, que ele teve textos dele proibidos e destruídos pela censura czarista. Então assim, vejam que é uma pessoa de trato fácil, é tranquilo. Mas é curioso porque, diferente do Dosto, por exemplo, ele não foi preso, né? Ele acabou, ele não foi preso.
Curioso, inclusive, não é? Que não tenha sido.
Então, e aí ele, aí tem um, teve um trecho dessa dessa pequena biografia que ele colocou, que eu achei curioso. Viam no Evangelho um código, eles viam, né, ele via um código no Evangelho, na Bíblia, é um código moral universal. Aproximou-se das buscas éticas do Tolstói, embora contestasse ideias como a não resistência ao mal e o anticivilacionalismo. Bom, por conta dessa, de querer aproximar a Rússia da Europa. A coisa das, para ele, a civilização era o europeu, né? Então é complexo.
E esse cara, como defender?
Então não tem como defender, mas também não tem como, porque ele é, de novo, ele é um muito complexo desses autores. A gente fala muito dos Dostoiévskis, mas você vê que o Dostoiévski, ele segue, ele vai seguindo ali. Esse não, ele tá aqui com os progressistas, daqui a pouco ele mandou os progressistas ir passear e ele é expulso. E aí ele vai para os conservadores, aí ele sai porque o cara é reacionário. Ora só, veja você, o conservador não era reacionário.
Aí ele sai. Então assim, ele é esse esse sujeito que ele tá procurando um lugar e que tem ideias muito distintas e controversas em si, né?
Enfim, é meio, fica parecendo que é um cara que gosta de se opor de alguma modo, assim, do contra. Ele passa essa impressão, não dá para dizer que não passa essa impressão.
É um cara que gosta de ser do contra. Não, agora eu não quero mais. Agora que eu entrei aqui, vou fazer outra coisa.
Exato. Ah não, aqui é todo mundo conservador, gente.
Não quero mais.
Pelando. Quem diria?
Ora, ora, ora.
Não é? Ora, ora, ora, temos um Xeroque Home.
Não é? O texto, esse texto que a gente vai falar hoje, o contexto histórico dele, assim, Ele vai falar um pouco da— ele chega num momento em que tá tendo uma ascensão dos comerciantes. Mas como que vem essa ascensão? Por conta da abolição da servidão em 1861. E aí a Rússia, ela entra no caos social.
Gente, tinha servidão?
É, pois é.
Pois assim, né?
Pois é, toda vez que fala de servidão é porque a gente olha e fala assim, ah, tem servidão. É, mas aí a gente vai, a gente vai para os dinamarqueses também, que todo mundo acha ótimo. E aí eu vou de novo, eu acho que eu já falei, acho que umas 2 ou 3 vezes nesse mesmo contexto. Existe um filme chamado O Amante da Rainha, esse filme que é com Mads Mikkelsen, que é muito bom. Muito bom esse filme. Nossa, tem de imaginar, é muito bom.
É, mas não é bom nesse jeito não, não, porque é dinamarquês. Tudo bem, não é o Almodóvar fazendo. Entendi. Ah, poxa, nesse sentido aí não é bom não. Mas é um filme muito bom porque é uma história real e ele mostra como que os senhores tratavam os servos. Assim, no sentido, esses servos das terras e tal. E, cara, tipo, eles batiam e deixavam para morrer amarrado com, sabe, era um negócio horroroso assim, horroroso, horroroso. E aí toda vez que eu vejo isso eu lembro, eu falo, gente, é isso, é muito maluco.
Enfim, e aí, bom, tem a abolição da servidão em 1861, que tem o fim, né, desse feudalismo tradicional em 1861, né.
Milhões de camponeses foram libertados dessa servidão, só que não assim, dá para imaginar a situação, né.
Eu sei que fica muito distante para gente, né, a gente libertar pessoas e não dar subsídios para essas pessoas se manterem. Eu sei que é uma ideia muito complexa, que aqui no Brasil a gente não tem nenhum paralelo para fazer, mas pensem, é, força um pouquinho, pensem num grupo gigantesco de pessoas que é que durante alguns séculos foram servos Servos, né? Então assim, e aí a partir desse momento eles não são mais, mas também eles não têm de onde tirar provento, não tem de onde tirar nada.
Então vira o caos, o caos, que é o que vai culminar no passamento do pai do Dosto, que a gente falou.
Passamento, foi de arrasto, né?
E aí nessa história toda Tem essa ascensão dessa outra classe comercial. Lembra? É muito parecida com uma coisa do fim do feudalismo mesmo, né? É do feudalismo mais lá atrás, né?
Eu acho que o chocante para nós é esse tardio desse momento, é de um tardio assim.
E aí mesmo, né, diversos da sociedade já tinham sumido com esse tipo de economia. E aí tem essa ascensão dessa burguesia, desses comerciantes, dessa classe de comerciantes que eram esses pequenos, esses comerciantes e pequenos proprietários de província, que acaba se inserindo ali na novela, que são essas pessoas, né, são esses pequenos. A gente vai ver que eles viajam para visitar outros lugares, enfim, e que tem uma grande relevância econômica nesse momento.
Porque se a gente não tem mais a mão de obra rural, são esses caras que vão ter que segurar aqui essa economia desse lugar. Mas é a classe que não devia ser muito diferente da outra, mas era conhecida pelas tradições religiosas patriarcais arcaicas, conservadorismo, brutalidade doméstica, e enfim, é o burguês por excelência. Assim, não tem muito como ir, é exata, é a classe média, entendeu? Não tem, é a classe classe média. Assim, a gente fala, mas é isso, é aquela pessoa que é a aparência, é a igreja, é isso, é a classe média no final.
Desculpa, né, assim, sem querer ofender ninguém, mas é isso, é aquela pessoa que é a aparência, é a igreja, é isso, é a classe média no final. Desculpa, né, assim, sem querer ofender ninguém, mas é isso.
Longe de nós, né.
Bom, e aí o que que O que que ele traz para gente nesse texto assim que é tão, que é tão diferente? E como a gente disse, ele vai falar desse, desse rural profundo, né, que são dessas pessoas que estão vendo esse caos acontecer, mas que estão ascendendo de alguma forma, diferente do Dostoiévski, que também era esse declínio rural, mas era de uma classe maior para outra. Porque no caso do Dostoievski, ele era, a família dele era o que tava na derrocada, era o que tava sendo enforcado lá, tava sendo morto à paulada, né?
Na Rússia? Não, nunca, jamais.
Não, nunca, jamais.
Acho que você tá se enganando.
O Leskov, ele vai para o interior, né? Esse interior profundo da Rússia e vai mostrar essa coisa desse campesinato, enfim. Como a gente disse, é um texto curto, ele é uma novela escrito em terceira pessoa e ele tem, a gente não vai conseguir enxergar isso muito bem porque a gente tem que lembrar que a gente está lendo uma tradução, mas o emprego que eles chamam é um emprego de estilo escasso. Que eles chamam. O que que é esse estilo escasso?
É que o narrador, ele tem um tom de crônica, que foi o que a gente falou, é de um boato, de uma fofoca, enfim, que mantém uma distância. Então assim, ele não vai fazer juízo de valor aqui, ele vai te contar a história. Então ele não vai falar se ela é ruim, se ela é boa, se não, ele vai te contar o que aconteceu. Então, quase jornalístico, é isso que ele tá fazendo aqui. E existe também uma coisa quase oral nesse texto. Essa parte a gente não vai conseguir ver porque nós estamos tendo uma peça traduzida, então a gente não vai ter.
E como também não somos falantes do russo, então também não não é algo que a gente vai conseguir ver. Mas todas essas outras coisas que eu disse, essa aproximação com o crônico, quase um texto jornalístico, a gente vai conseguir ver isso daqui. E é um texto que ele tem poucos adjetivos, ele é— as frases são curtas e cada palavra é muito bem pensada. Não que os outros textos não sejam, mas é que quando a gente quer dar uma concisão na construção, a gente tem que pensar muito bem em que tipo de palavra a gente vai colocar, que foi o que eu falei para Gabi.
Então, por exemplo, esse texto ele vai falar a respeito de uma moça que ela é muito jovem, ela casa com um homem mais velho. E aí nesse interior aí, isso, nesse interior rural e tal, e é uma família, esse homem que está ascendendo, isso, e que é uma família de comerciantes e que ele já foi casado anteriormente, mas a esposa faleceu, ele não tem filhos, enfim. E aí tem um trecho que falam assim, que colocam, né, que o Leskov coloca Cadê?
Casaram-na com o nosso comerciante Ismailov. De aí ele continua: casaram-na. Não é à toa que esse verbo tá aqui. Não é que ela se casou com fulano. Então assim, a gente vai percebendo esse tipo de construção, que é construção verbal que marca, que é enxuta.
Enxutíssima e diz tudo.
Então a gente vai ver esse tipo de construção aqui. O nome do texto é Lady Macbeth. E aí você fala assim, tá, a gente já ouviu esse nome antes, né? Ele tá ali no começo, Lady Macbeth, porque ele vai ter um intertexto. Lembra que a gente falou lá em cima que ele que ele tem essa coisa da literatura europeia e nananã. Mas para além disso, tem um cara que eu já falei aqui, eu falei dele no programa que a gente falou a respeito de— não vou me lembrar se foi do Ensaio sobre a Cegueira ou se foi do Filho de Mil Homens, que é o Gonçalo M. Tavares.
Acho que é no Filho de Mil Homens, em algum dos dois.
É, sim, com certeza. Tavares, ele tem, que é um escritor português, ele tem um texto chamado A Julieta da Baviera. É um negócio assim, Julieta, Romeu e Julieta da Baviera, uma coisa assim. E quando você vai para um texto desse, você já vai esperando alguma coisa desse texto, do tipo, se você tá chamando de Julieta Exato, você, alguma coisa te acende ali. Ou, e aí, no caso do texto do Gonçalo, é completamente diferente do texto do Shakespeare.
Aqui existe uma aproximação, mas vocês devem entender, né, que A Lady Macbeth lá do Shakespeare, que é a grande vilã, que é colocada como a grande vilã da peça, e eu tenho minhas dúvidas, mas pois é, mas né, ela é sempre colocada como a grande vilã, que ela é a que incita ela, e esse pobre coitado só faz as coisas que ela manda, ele cede.
Tadinha.
No caso dela, a desmedida dela para que ela faça isso é o poder, é político, né, a coisa. Aqui não, aqui é uma— a motivação dela é outra. Ela é uma menina que foi, que obrigaram a casar com um homem muito mais velho.
Casaram na, casaram na, e que nunca tinha se apaixonado na vida. Isso, nunca tinha vivido, vamos combinar. E isso é muito, isso é traduzido tanto no livro quanto no filme que a gente assistiu. No intenso tédio que ela sente nessa vida.
Exato.
Ela tem um tédio, gente, que assim, acho que tanto o livro quanto o filme conseguem transmitir isso a seu modo.
É isso.
Porque essa menina, gente, essa menina tem um tédio. Ela tem um tédio, mas um tédio que você fala assim, gente, tinha que trair mesmo, entendeu?
Porque pelo amor de Deus, quem que aguenta? Tinha que dar uma movimentada nessa vida, viu?
Bora transar, vai fazer alguma coisa, faz qualquer coisa. Porque chega uma hora que você não aguenta mais de ver a menina ali. E de novo, é um livro curto.
É tanto que o filme, em alguns momentos, ele me incomoda. Porque ele faz algumas escolhas que é pra justificar o que ela faz. E assim, na boa. A gente entende o que acontece com ela, a gente entende que essa mulher ela é uma vítima em certa medida de onde ela tá, do período que ela tá, mas porém nada disso isenta do que ela faz. Entende?
Ah não, não dá.
Nada disso consegue. Ah não, porque é importante. Não é, gente, porque eu vi muita gente lendo esse livro como uma leitura do tipo: ah não, mas eu— torcedores, calma.
É, eu acho também.
Torcedores, calma. Eu acho que a gente vai contar o que acontece aqui no livro, mas É, eu acho que a gente também, acho que tudo tem uma medida. É a história da medida, né, das desmedidas. Se a Lady Macbeth fez de tudo por conta da ambição dela, não é porque essa mulher vai fazer por um amor que não é um amor, é um desejo físico, na verdade, que ela nunca nunca teve, essa liberação, essa libertação sexual que ela nunca teve, é por conta disso ela vai fazer atrocidades. E não, isso não é empoderamento. Desculpa, eu não consigo.
Isso é uma, nesse sentido sim tem uma releitura de uma tragédia. Porque o que acontece aqui é uma grande tragédia, assim, que o filme não leva para esse caminho, não sustenta. Eu acho que o filme não sustenta, porque, gente, é uma— é muito chocante, eu acho. E olha que a gente leu, a gente leu Macbeth. Isso, isso. Mas aqui ele tem algo muito— ele tem de novo, tanto no livro quanto no filme, eu acho que ele se aproxima dessa trilha, no sentido de que enquanto Shakespeare ele simplesmente vira e diz, ah, morreu, entendeu?
Quando muito ele diz, ah, houve um grito, ah, se ouviu a agonia. Assim, aqui ele pega, é, ele pega sua mão, ele te leva ali, ó, você vai ver o que tá acontecendo. É, você se sente dentro da sala que aquilo tá acontecendo. E tem um... a frieza da maneira com que a coisa tá acontecendo, é como o André colocou, fica indefensável, não tem um algo que justifique. E aí sim, aí eu acho que tem a chave da tragédia mesmo, mesmo, da descompensação.
Da desmedida, mesmo do caráter injustificável, realmente. Porque acho que torna mesmo injustificável. E eu acho que o filme não consegue sustentar. Desculpa. Eu acho que o filme não sustenta porque é muito trágico, assim.
E ele não dá conta. E aí, mas eu também acho que ele não dá conta por outros motivos também. Ele não dá conta porque ele tira isso da Rússia, traz para Inglaterra, então ele dá um outro verniz para essa história. Não que eu tô dizendo que os ingleses são tão cruéis quanto, tá? A minha questão aqui não é essa, é que eu acho que por mais conservadoras que sejam as sociedades, que eram as sociedades inglesas, a gente já falou aqui inúmeras vezes, o que aconteceu com a família da Mary Shelley, o que, enfim, tudo que a gente já falou aqui.
Mas mesmo assim, eu acho que, eu tava conversando com Gabi mais cedo, e eu acho que tem alguns traços de imoralidade que são muito específicos da cultura. E no nosso caso aqui existem, por mais que a gente vai se abalar a hora que vê e tal, mas alguns traços eles são muito russos. E aí é difícil você sobrepor isso, não tem como.
E eu acho que o próprio, eu acho que a própria história é muito russa. Eu entendi a proposta de Eu entendi a ideia no sentido de se propor uma adaptação que fosse—
eu espero que eles não tenham feito algo como a nossa Lady Macbeth não faria isso, não, não, não daria cabo como aconteceu no final do do livro. Ah, é? Você entende? Porque tem isso também. Eles retomaram essa coisa da Lady Macbeth, que é Shakespeare. Como assim? Exato, entendeu? Então também eu espero que não tenha sido isso, entendeu? É isso, é isso. Porque o final, se eu não tinha pensado nisso, né, o final do filme ele me deixa muito puta, com essa pulga assim.
É porque eu olhei e falei, cara, não é possível que ele deu esse final para esse filme. Mas já que a gente tá falando da história, vamos avançar na história, porque aí a gente entra.
Vamos contar a história, a gente tá aqui aquecendo.
Então vamos entrar na história, porque aí a gente faz assim bem bolado da história do filme com a história do livro.
Bom, a gente conhece já de imediato, primeiro que ele tem uma introdução. Ele tem uma introdução do tipo: vou contar para vocês uma— corria pela— ele faz algo assim: corria pela região de tal lugar uma história que parecia inclusive mentira.
É tipo assim: menina, você não sabe.
Isso, ele chega para te contar uma história. E eu acho que é proposital também trazer como se fosse quase real a história, como se ele tivesse te contando quase jornalisticamente assim, tô te trazendo aqui uma história que aconteceu. E a gente já, já sem muita firula, digamos, a gente já descobre que a Caterina está ali, é uma moça jovem, casada por ali arranjo, né, por conveniência. E ela está ali com aquele homem, o, enfim, o Zinov, que é um homem muito mais velho, que é um comerciante e que está assim ascendendo socialmente.
Então ele mora numa casa realmente muito grande, é uma região com muito terreno, assim, a perder de vista. E não bastasse isso, a família, o sogro, o pai do marido, é extremamente cruel. Esse homem me dá assim, olha, gente, assim, a menina é constantemente humilhada. Olha, porque assim, eu acho que tem ali, talvez, eu não sei se é uma tentativa de contê-la, se é uma crueldade simplesmente dada.
Eu acho que é uma crueldade.
Se é uma questão de classe.
Eu acho que é uma crueldade, porque ele já era viúvo, esse homem. E ele não tem filhos com a primeira esposa. E o velho, que é velho, velho, que é velho, que é velho. Para quem não sabe a diferença de velho e senhor, eu recomendo ir até, por favor, o vídeo do Tiago Ventura. Não vou falar aqui porque, né, mas esse velho, esse velho, ele, o que que ele faz? Ele fica jogando na cara dela que ela não tem filho. Só que pode ser que quem não que possa ter filho é o próprio filho dele, porque ele já não teve filho com a primeira esposa, que ninguém sabe porque ficou viúvo, ele, ninguém sabe porque que ela morreu, né?
E é, a menina tá com ele, a gente, quando a gente encontra essa menina, ela tá com 5 anos de casada e não teve filho ainda. Isso, então a gente não sabe.
E ele fica constantemente jogando isso na cara dela. Eu gosto muito do filme nesses momentos assim, porque você vai vendo o quanto a vida dessa mulher é uma vida, sei lá, muito infeliz assim, muito pobre. E pobre eu quero dizer uma vida de que nada acontece, ela fica ali sendo humilhada porque sim, ela não Não conhece direito o marido, o marido também tampouco acha relevante estabelecer qualquer tipo de relação um pouco melhor com a mulher dele.
Esse sogro é um completo esdrúxulo, assim, na maneira com que ele a trata, enfim.
No filme, principalmente essa questão do sexo e essa questão do filho, eu não sei como é que você leu isso. Porque o que que acontece? Ele... A impressão que eu tenho é que ele tem poucas relações sexuais com essa moça.
Isso, sim. E no filme isso é dito.
Então, isso.
Isso é posto na boca dela, porque no livro não, isso não é dito tão diretamente assim. Você compreende que na verdade, porque ele diz indiretamente algo do tipo, eles tinham pouca intimidade, sei lá, eu não me lembro lembro como que ele coloca, mas é algo como: eles tinham pouca intimidade, inclusive física.
Isso.
Então você entende que é um casal que nem ter uma relação sexual eles tinham direito, assim, não existia muito.
Só que no filme eu achei tão estranho aquele momento que ele faz com que ela tire a roupa, fique de costas para que ele se masturbe. Eu achei aquilo tão—
ai, sim, sim, porque assim, de onde saiu aquilo? Me explica.
Não sei, eu não sei. E aí pode ser coisa da minha cabeça maluca, mas me— porque assim, me parece que é porque se ela tá de costas, ela não é uma mulher, ela é qualquer corpo.
Isso, entende?
Tipo, eu não sei se eles quiseram, se ele sugerir algo do tipo, nossa, sabe? Porque não dá para entender exatamente por que que ele fez aquilo, porque era, você entende, tipo, porque normalmente nesses, nesse lugar dessa, dessas moças assim, existe sempre a violência, né? A violência sexual aqui ela não existiu em nenhum momento aqui. Então eu não sei se ele leu isso dessa forma.
É, eu também não sei, porque eu acho que ele não, ele não te fornece um dado para você imaginar por quê especificamente. Fica, e até me parece que inclusive ele só traz isso à tona para deixar ainda mais óbvio o quão É, o quão tediosa era a vida dessa mulher. Então me dá uma impressão de que é muito mais a serviço do tédio, pra justificar esse tédio ainda mais. Do tipo, olha, nem nada existia sexual mesmo com essa mulher. Então assim, do tipo, ela era uma pessoa crua, assim, meio solta, meio sem...
Sem sentido e tudo mais. Mas ele não traz uma justificativa e nem parece ser a intenção de trazer. Pois é. Eu não vi como uma intenção de querer falar, ah, ele era assim porque, sei lá, a mulher morreu. Ou, ah, ele tinha um fetiche específico. Não dá pra entender.
Eu achei desnecessário, assim, na boa.
E ela aqui... Porque no filme eu acho que eles já constroem desde muito cedo ela com essa empáfia.
Isso, isso.
Que no livro não existe. Que é uma menina. Ela é jovenzinha, assim. Ela é uma menina mesmo. Então ela simplesmente meio— ela também não se questiona muito. Não dá a impressão de que ela questione qualquer coisa, assim. Dá a impressão que ela tá ali vivendo aquilo.
Mesmo porque não tem parâmetro de comparação. Então tá ali, né?
Isso, é a vida que ela tem que viver assim, tá vivendo. Então no filme não, no filme eles já constroem ela, porque por exemplo ela diz para o sogro, ah, é seu filho que não faz nada, você quer o quê? Você queria o quê? E aí o sogro dá-lhe um tapão na cara assim. Então ela já é essa pessoa forte, de personalidade forte, que tem assim paf, esse nariz em pé, que aqui no livro ela vai sendo construída no livro assim.
E é tudo por um, por um, e é tudo pela atitude sim, mas você não vê esse enfrentamento.
Não, é exatamente, não tá na palavra, não tá na boca dela isso. Não, não tá nas atitudes sim, Principalmente porque muito rapidamente vocês vão ver o que vai acontecer aqui. Isso. Não tem nem como dizer que não tá, mas ela não, em momento nenhum, ela diz isso. Então, o que acontece é: esse marido viaja muito. Essa é uma família que é de comerciantes e tudo mais. Então, ele se afasta da casa por um tempo aí indeterminado. Lembremos que estamos no século 19, não é como se desse pra mandar um...
Um WhatsApp para perguntar onde que ele está, quando volta, o que vai fazer. Então este homem a deixou ali e numa dessas, né, nessa viagem, ela andando pela região ali, ela descobre esse novo trabalhador da casa, né, da propriedade ali. O Sergei, que tem uma apresentação dele que para mim já diz quem ele é. Assim, a cena em que ele se conhece, você fala, vixe, isso aí, assim, este homem não é flor que se cheire. Porque ele tá pesando uma das funcionárias como se esta funcionária fosse um animal.
E ele está rindo, ele está debochando, ele está tirando ali a maior onda com os outros rapazes e meio que liderando esse grupo de, digamos ali, arruaceiros e tal. O patrão saiu, então ela— e o que que ela faz? Ela entra na brincadeira, digamos assim, ela provoca ele, ela diz, ah, Porque ela, primeiro, a primeira reação é um pouco autoritária, querendo impor uma regra ali pra eles. E em seguida ela se interessa por esse rapaz. E ela retruca assim, como quem diz, ah, eu pesaria quanto se eu fosse um animal?
E aí eles ficam nesse jogo assim que ele um pouco estranha a reação dela, mas entra na brincadeira e ela recua e fica aquele, aquela coisa esquisita assim, essa tensão sexual mesmo no ar, que em seguida se resolve porque ele vai atrás dela.
E aí eu acho muito maluco, porque para mim ela é quase, é quase um estupro. Assim, porque ele vai atrás dela e de noite ele chega lá no quarto dela e ele fala, olha, eu tô entediado. E ela fala, vai embora. E ele fala, não vai.
No filme fica meio, ele chega, ela fala que vai, mas aí ela vai atrás dele. No livro ela, ah, mas ela não queria, eu não sei, é a coisa de novo, não é, não é, não é dito também, não é que diz, mas a forma com que acontece, de novo, esse, e para mim o Sergei do livro não é o mesmo Sergei do filme, não é, não é, não é mesmo, assim como ela também não é, mas assim, ele Ele beira o... assim, ele é praticamente outra personagem. Por quê?
Me diz, tá? Este homem estava pesando mulheres. Aí ele entra de noite no quarto da patroa dele para transar com ela porque ele está entediado. Aí assim, quem este homem é, entendeu? E no filme dá a entender que tudo funciona muito junto, assim, que tudo... Que tudo é muito, que foi isso, que foi um encontro que, de novo, não é que não seja, porque se transforma numa simbiose no livro. Eles chegam numa simbiose, os dois, mas não é assim. Este homem não é flor, lembrem. Isso no fim da novela fica evidente.
Muito ambicioso.
Muito, muito e muito utilitário. Ele vê as pessoas como meios para chegar no fim, o que ele quer. Exato.
E ele diz isso para ela, ele não é, não dá para dizer, não só uma vez.
É isso, não só ele diz isso para ela do tipo, ó, o seguinte, tipo, né, que nem o homem entra no quarto dela e diz Quero transar com você porque estou entediado.
É isso.
A gente tá no século 19, gente. A gente ainda tá cheia das firulas pra isso acontecer. Não é assim que as coisas acontecem.
Pois é, pois é.
Então assim, este homem está adotando uma postura muito violenta e muito óbvia de que ele não é uma pessoa bem-intencionada com ela. Mas enfim, começam ali essa... Essa relação, de fato, o que existe entre ambos é, como André bem pontuou, né, é uma relação física, uma relação, uma atração, uma experiência, digamos assim, sexual mesmo de ambos. E eu acho que é isso, o livro é muito, a novela é muito clara em te falar o seguinte, olha, eles ficavam basicamente transando.
Isso, isso, eles transavam. E aí você fica, ok, entendi, né, que o homem da casa está fora e ela colocava ele ali para dentro. E eles começam a viver essa vida muito intensa até que o sogro descobre.
Isso, porque aquele, aquele sogro, ele vê o cara saindo pela janela da Isso, ele pega eles ali num dos atos e prende, surra, enfim.
Estamos falando de novo de uma Rússia recém, recém, recém finalizada, recém emancipada da servidão. Então ele surra esse homem E o prende ali na própria propriedade, ali na região, ali na casa mesmo. Mas ele o prende, o surra e o prende. E ela começa— aí começa. Aí que tá, porque aí que tá essa mulher. E de novo, não é— essa é a única, eu acho que essa é a única morte que não é tão diretamente sofrida, você não acha?
Sofrida em que sentido?
Porque depois, enfim, vamos chegar lá. O que que ela faz? Ela recolhe uns cogumelos. A Rússia, ela vai lá no quintal, fala: olha, vem cá, meu amigo, vamos fazer o quê? Um estrogonofe. E ela dá de comer a este homem esses cogumelos. Eu vou dizer que essa morte em específico eu nem, eu nem senti tanto. Eu falei, ah, você bem que merecia, esse homem é um chato de galocha.
Ele era muito cruel, ele era uma pessoa muito cruel.
Nossa, que homem mau!
Exato, que homem mau. Mas eu fico pensando na coragem dela Né? E aí, e é aí que você começa a pensar em como que ela conseguiu envenenar o sogro.
A coragem, a cara de pau e a certeza de que ninguém vai pensar nela. Porque isso vocês vão ver que acaba sendo a ruína dela, porque ela faz o que ela quer fazer e Que você fica, gente, minha amiga, assim, tipo, não sei se já te contou, porque aqui ainda tudo, ainda tudo bem, é ótimo. Já morreu uma pessoa, mas, mas pô, ah, pegou cogumelo lá, entendeu? Dá para fingir que já era um senhor, dá para fingir que ele teve alguma coisa no estômago.
Tanto que fala isso, né? Ele tinha um problema do estômago, vai o médico lá e diz, né? Ah, nossa, Pois é, ele já tinha ali uma doença gastrointestinal e tudo mais. E mata o véio. E tudo volta a ser como era antes. Então ela volta a ter a vida que ela tinha com o Sergei e tudo mais. Até que o filho, em algum momento ali, meses depois, retorna.
O marido.
O marido, filho. O filho do pai que morreu.
Do pai que morreu, é.
Exato, o marido. O dito marido. Que enfim a deixava muito entediada. O corno parou seu cavalo e falou, é agora que eu entro nessa casa. E ele chega de repente, essa cena é tão assustadora para mim, porque gente, ele chega e ele vê e tem ali uma discussão, porque aí o que que ela faz? O que que você imagina? Gente, de novo, século 19. O que que se imagina? Que a pessoa vai dizer: não, ora, veja só, não é o que você tá pensando.
Exato, não é o que você está pensando. Não, esta mulher pega e diz: sim, pois é, ainda bem que você chegou, porque é isso que estava acontecendo aqui. Ela decide bancar. E aí ela pega e diz, não, vamos matar este homem. Porque aí começa a altercação ali e eles... Ela meio que... Meio que... Digamos assim, instiga o Sergei e diz assim, ó, segura aí as pernas, sobe em cima deste homem. Porque aí eles se batem ali, rola uma briga, ele cai e ela...
E ela decide que vai matá-lo. E ela pede pro Sergei, olha, segura as pernas, segura os braços aí que eu vou aqui fazer meu trabalho. E o Leskov, ele tem algo de querer te trazer, porque o Zinov, ele pensa do tipo, gente, é assim que eu vou morrer. Sensacional. Que eu acho que é isso, ele dá um o que é de humano pra situação. Por isso que eu falo, é diferente de Macbeth.
Isso.
Porque ele te traz pra dentro da cabeça dessa pessoa, ele diz assim: gente, realmente, o cara tava fora 2 meses, voltou e foi morto. E é isso, a história começa a escalonar. Porque daí ela diz: ok, pronto, eu matei, a gente vai fingir... Estou livre. Estou livre, a gente vai fingir que ele nem chegou. A gente vai contar para todo mundo que ele não chegou. E ué, morreu por aí. Se um dia chegar aqui uma notícia de que ele morreu, ele morreu por aí.
E é isso que ela tenta fazer. Ela começa a dizer para o Sergei: ah, eu vou te transformar num senhor, você vai ser o senhor dessa casa. E ele ali muito escorregadio, tá, gente? Não é que ele diz: ah, realmente você é o amor da minha vida. Ela começa a ficar muito muito enciumada, enciumada e muito, como se diz isso, obsessiva pela história. Ela fica obcecada pela história, por ele. Não tem tanto um caráter do amor, mas é uma espécie de uma obsessão pela situação, pelo que aconteceu, pelo que ela conseguiu fazer, enfim.
E o que acontece é que ninguém esperava que chega uma mulher trazendo um sobrinho do Zinovi, que é o Fédia. Que, gente, ai, olha, não consigo, tá assim ali para mim, é o meu assim, ah, já li de tudo, ah, porque tragédia. Mas assim, gente, não dá. Porque tanto no filme quanto no livro, essa criança é construída de uma maneira muito doce e muito inocente, entregue, enfim, muito simples, muito, ah, vim aqui, minha família me trouxeram.
E a Caterina, e aí eu acho que de novo a Caterina do filme não é a Caterina daqui.
Não, não é.
Porque aqui ela imediatamente vê nessa criança uma grande ameaça. Isso. Enquanto que no filme ela oscila nesse momento que a criança chega, ela fica, e aí o filme o filme traz como se essa criança pudesse ser uma, um filho machado, né, do marido, né? Exato. E ela fica um pouco assim tocada porque de fato é uma criança muito doce. E o menino no filme tenta se aproximar muito dela, no livro também, mas eu acho que no filme tem um apelo maior à criança.
Sim, mesmo porque a criança é fofíssima, né?
Gente, quem que conseguiria fazer um negócio desse? E para quem está acompanhando a nossa descrição, já dá para deduzir o que vai acontecer aqui. Ela decide que ela vai matar a criança. Então ela combina com Sergei, e essa cena é horrorosa. É horrorosa esta cena, porque no filme— porque que eu tava dizendo que a minha teoria é que o filme não sustenta a maldade dela, né? A maldade. Porque no livro— porque o que acontece, aí a criança cai doente.
Isso. E fica lá deitada na cama com os cuidados e não sei o que mais. E ela vira para essa cuidadora que trouxe a criança e ela diz, olha, você tá muito cansada, pode deixar que eu cuido dele essa noite. E ela combina com Sergei que ela vai entrar, eles vão entrar no quarto, vão matar a criança. Só que no livro a criança está acordada. E eu acho que tem uma descrição meio de horror mesmo, porque ele joga com a sombra do quarto.
O quarto está a meia-luz e ela entra antes do Sergei no quarto e ele entra atrás dela. E de repente a criança vê e eles assassinam a criança. E assim, é muito cruel, não tem como. Porque no filme a criança tá dormindo, então a criança não tá assim, ela é surpreendida com o sufocamento. E de fato ela tenta, ela resiste e tudo mais, como no livro, mas não tem esse elemento de crueldade que o livro traz, assim, essa deliberação fria, calculada e feita para também, parece que tem uma sordidez assim de querer que a criança veja que ela vai ser morta, assim, estou vindo aqui te matar.
Né?
E eles matam, sufocam ela com travesseiro. E de novo, e aí a essa altura você já tá assim, gente do céu, alguém avisa essa mulher que isso está dando errado, porque ela tem uma certeza assim do tipo, ah, então tá, então agora matamos essa criança, já matei o pai, já matei o filho, já matei o um filho outro, porque é isso, dá a entender, como a Andréia falou, que tem um filho aí bastardo. E ela pensa, pronto, né, agora vamos viver nossa vida, vamos ficar aqui, vamos viver e não sei o quê, enfim.
Mas só, porém, mesmo sendo um interior, uma cidade muito pequena, Ah, sempre a dona Fifi, ela não falha, ela sabe o que está acontecendo no bairro. E obviamente os moradores começam de boca pequena ali saber do que tá acontecendo. Primeiro que eles veem, acho que tem porque tá acontecendo uma festa, não é isso?
Isso, isso.
E eles, alguns dos moradores, vêm pela janela enfim, o que aconteceu, e começam a rondar a casa e a querer entrar e a querer no filme. E aí é isso, tem aqui as histórias se dividem.
Isso, isso.
Porque no livro eles são um pouco praticamente em flagrante, acontece quase um flagrante da morte do menino, enquanto que no filme que ela não consegue dizer que não foi ela, né? Isso, exatamente. Porque no filme o que acontece é que chega ali o doutor e o doutor vai dizer: nossa, esquisito, né? Não tem alguma coisa estranha? A gente precisa levar esse corpo, fazer uma biópsia, porque é uma autópsia, porque muito estranha a maneira que ele morreu.
Não era especificamente um caso grave, enquanto— e ela ali assim, até que alguém traz o Sergei. E o Sergei na verdade entra, e aí que tá, aí que tá, aí que tá. Por quê?
Porque ele tá com remorso, né?
Ele se sente culpado do que aconteceu. Aqui no filme tem um pouco mais, eu acho que eles colocaram o Sergei como a Lady Macbeth. Engraçado assim, ele tem algo de enlouquecer, que no Macbeth quem enlouquece é a Lady Macbeth. E aqui ele um pouco enlouquece, ele não consegue lidar com a culpa, e ele entra na casa e diz que eles mataram. Enquanto que no livro, eles são julgados. E estamos na Rússia do século 19. Para quem não sabe, as pessoas iam caminhando para a Sibéria, para a Sibéria caminhando.
Ah, Gabi, como se faz isso? Caminha a pé, antepé. Ah, mas e aí? Ah, elas iam dormindo nesses abrigos. Que você imagina em vocês o tipo de abrigo que eles deixavam as pessoas que iriam pra Sibéria dormir.
Isso.
Até que se chegasse na Sibéria. Então, eles começam essa longa caminhada rumo ao degredo, rumo à Sibéria, a esse lugar que eles vão provavelmente morrer.
Passar frio e morrer.
Passar frio, fome e morrer. E trabalhar, enfim. E no decorrer dessa grande caminhada, o Sergei volta a ser quem ele sempre foi. Então ele começa a humilhar a Katerina, ele começa a se envolver com uma outra condenada que está ali no grupo. Isso, essa, essa relação rapidamente escalona para um sentimento de muito ciúmes. Na Caterina, e ele humilha muito ela. Ela dá, acho que, as botas, os calçados, porque, gente, estamos falando de um frio descomunal.
Então ela pega as meias e os calçados e dá para ele, porque ela ainda tem essa obsessão com este homem. E este homem pega o calçado e dá para a menina que ele está ali seduzindo, a nova menina, na frente dela, na frente de todo mundo. E esta mulher, ela, um belo, mais um dia lá que eles iam caminhar e estavam passando ali do lado de um rio, ela se joga no rio agarrando a menina. E o filme, o filme, e o livro finaliza com essa morte dessas duas mulheres nesse rio congelante.
Que me dá uma raiva, porque eu falo, gente, por que não agarrou esse homem? Já matou tanta gente, gente, mata esse homem, entendeu? Ai, sabe? Pelo amor de Deus. Enquanto que no filme ela acusa ele.
Isso. Não só ele, né?
Ele e— ah, é porque não falamos isso, mas tem no filme, tem uma personagem muito importante que é Essa, isso, que é uma dama de, ela é um pouco, enfim, ela é essa funcionária múltipla, mas ela é quase uma dama de companhia barra.
Na verdade, ela, o que a impressão que eu tenho é que no começo ela é o carcereiro dela, né? Isso, exatamente, ela é o carcereiro dela, tanto que até para pentear o cabelo dela, que é ela que penteia, ela faz de tudo para que ela sofra.
É, não é uma relação, não, não é uma boa relação assim, não, não é uma boa relação. Mas piora muito porque a Caterina faz com que ela sofra muito assim. Vinga-se muito. E eu tenho uma parte minha que... Tem uma parte minha, aí eu vou dizer aqui, um pouco Chinatown, sabe? Do tipo, esse fim que é um pouco a realidade.
Sim, sim.
Do tipo, provavelmente se isso acontecesse, talvez fosse assim o fim. Talvez essas pessoas, digamos, a ponta mais frágil dessa sociedade seriam essas pessoas condenadas. Porque o que acontece é que daí o Sergei e a Ana são condenados no lugar da Katerina.
Isso, e ela fica soberana na casa.
Sim, pontos altos que eu gosto do filme: eu gosto muito da maneira com que ele constrói o tédio dessa mulher.
Sim, sim.
Você sente esse tédio junto com ela, porque realmente é entediante.
É.
Ele conseguiu, pra mim, ele conseguiu construir em imagens, porque é difícil você construir, porque aqui no livro isso é dito.
Isso.
No filme você precisa mostrar isso de alguma maneira, porque ela não vai dizer, ó, que tédio, ó, senhor. Você precisa mostrar, e ele sabe mostrar isso muito bem.
É verdade.
Mas tem uma diferença, eu acho, é isso, tem uma parte minha que tem esse, eu gosto dessa abordagem no cinema, dessa vontade de querer um pouco mostrar a vida como ela é, uma sentença final um pouco mais crua, um pouco mais se vira aí.
Isso, porque a gente também precisa colocar, eu acho que a gente falou, mas acho que falou só em passant, que eles deslocam. Não é na Rússia que se passa a história, é na Inglaterra. Então, como a gente tinha dito mais antes, né, é isso. Por mais que, sei lá, que existam pontos de contato entre essas entre essas duas civilizações, vamos dizer assim, essas duas, esses dois lugares em termos de moralidade, em termos. Mas eu ainda acho que perde muito por ter sido colocado na Inglaterra, assim, eu ainda acho que perde muito.
Eu também acho, e acrescenta na nessa sopa uma variável que não tem no livro, que é a variável racial.
Exato.
Porque ambos são pessoas pretas.
Tanto a Ana, que é a dama de companhia e tal, quanto o Sergei aqui, que lá não se chama Sergei. A gente tá falando Sergei, mas ele não se chama Sergei, é Sebastião. Sebastian. Então o Sebastian também é um homem negro.
Aí eu acho que a gente entra na principal diferença, porque o Leskov parece estar interessado muito— parece não, é quase, falta só ele dizer. É, mas assim, nitidamente ele está interessado em passar um recado.
Isso, isso tem um quê de moral.
Muito, né? Que é muito forte de moral, assim. Ah, esta mulher é uma desviada, isso que ela fez é condenável e leva a uma morte muito trágica.
Isso, isso.
E assim, muito, eu acho, de um, sinceramente, de um machismo mesmo, no sentido de que o ser gay é poupado.
Sim, sim.
Enfim, enquanto que no filme existe muito esse cinismo social, sabe?
Isso, isso.
Esse descrédito, até um descrédito mesmo da justiça, assim, do tipo, ah, essa mulher é poderosa, então se ela simplesmente disser que foi ele que fez isso... Ele vai ser o, ele vai ser pego para Judas, que o pessoal fala. Ele vai expiar essa, essas mortes. Então enfim, que você gostou do filme?
Eu gostei, eu achei um filme bonito, achei bonito no sentido da fotografia, eu achei linda, muito linda assim também. O trabalho de arte também achei lindo. Lindo assim também.
Achei bem bonito. Acho as atuações estão muito boas assim.
Acho muito dela, dela. Não, ela é excelente, a moça.
Muito bem, muito bem.
Eu gosto muito dessa coisa de quando ela tá muito entediada, ela tá com aquele vestido azul gigante. Isso é.
E quando ela tem um correspondente visual, tem.
E quando ela tá muito leve, ela tá com os cabelos soltos e ela tá com cores mais quentes, mais à vontade, corada. Isso, corada. Porque tem isso também dela ficar o tempo inteiro, parece que ela tá sempre doente, pálida, amarelada. Isso, isso. E aí quando ela tá, quando ela tá bem e quando enfim ela acaba, ela vai andar, né? Porque tem isso também, porque o marido Como a gente disse, a empregada ali, ela é uma espécie de carcereira mesmo, né?
Então ela levanta bem cedo para ir andar na propriedade. E é ali que a gente vê de fato ela com os cabelos soltos, com esse— tanto que ela é tão carcereira que ela começa a não não conseguir mais controlá-la. E ela pega e fala para o padre, fala, ó, tá indo todo dia, tá andando, e por isso que não tá indo na missa, não tá indo no culto.
Exato, exatamente, tá doente.
E aí o pastor ali, né, que como é Inglaterra, é pastor, ele vira e fala assim, Ah, acho que a senhora tem que parar com essas andanças, porque me disseram que a senhora tá andando cada vez mais longe. E que ela olha para a cara da Ana e fala: você me paga! Do tipo: você quer mesmo fazer essa brincadeira?
Exato.
E é dura, assim, é uma As duas é um, é algo que não se fala. É muito curioso essa, essa disputa entre as duas, porque também tem isso. Existe também uma disputa por esse homem, né? Porque parece que a Ana tinha algo com esse homem também.
Sim, que é um dos poucos momentos em que a gente consegue mais ou menos ver que ele não é uma uma pessoa tão legal.
Aí naquele começo dele pesando, exato, aquilo ali é horroroso, né? Ele pega, ele deixa a moça nua e coloca ela naquele lugar para pesar animais, né? E aí ele fala, a gente tá pesando uma porca. E tal. E é de uma crueldade assim.
E ela—
e aí eu não sei, assim, no livro a impressão que a gente tem é porque no filme não dá essa impressão. No livro a impressão que a gente tem é que ela, ela tá genuinamente curiosa. É porque ela é muito— num primeiro momento ali ela é muito inocente no lugar do não sabe nem se comportar de forma social.
Exato.
Depois não, depois ela vai piorando.
Isso, né?
Agora no filme fica até estranho quando ela pergunta: aí, eu teria quantos quilos e tal? Porque a gente já vê uma, ela é uma menina também e tal, mas ela já tem aquela empáfia Né, ela já é isso, super. Então é um pouco mais difícil, mas eu gostei, eu gostei de ambas as experiências. Assim, o texto me agrada mais por motivos de crônica, por motivos de russo, é isso. Não, claro, o texto me agrada mais, mas O filme em si, eu acho que mesmo ao mudar o final e tudo mais, eu acho que ele é muito coerente com o que ele constrói, com as personagens que ele constrói e como ele constrói esse mundo que ele coloca ali com essas discrepâncias sociais, com essa diferença não só de classe, mas de raça e como se dão essas diferenças. É isso.
Eu concordo. Eu acho que é uma adaptação feliz.
Eu acho também.
Gostei. E acho que por ser uma adaptação, ela traz as suas, os seus encaixes que talvez sejam melhores, talvez alguns nem tão bons.
E as escolhas, né?
É, porque precisa, porque precisa ser feito. Mas se eu acho que perde em não sustentar a maldade que o livro traz, por outro lado ganha em trazer certa facticidade pro que acontece. Ele não pende pra um lado tão moralista, condenável, E ele é mais cético. Isso, a adaptação é mais cética, mais crua, por incrível que pareça, porque é uma escrita crua, mas com intuito, com intuitos moralistas, talvez.
E aí, Dona Gabi, a pergunta que não quer calar: temos?
Temos, Andréia, temos!
Que isso, gente, se vocês ficaram até que não assistiram ao filme, não leram o livro, leiam. Ele é super curto e o texto— e assim, ah, mas vocês contaram tudo. É, mas o texto, ler o texto, aqui faz muita diferença. Eu acho muita diferença, muita diferença.
É totalmente diferente a gente contar de você sentar. E é curto, é o que a Andréia falou. Se você tiver uma tarde livre livro livre, você lê.
É isso, certo?
Certo.
E aí o pessoal que for ler, que não for ler, que for assistir ao filme, ou que vai falar: não, eu acho que a Lei de Macbeth é tudo isso sim. Para onde essas pessoas mandam email para nós ou uma mensagem para nós?
Manda uma cartinha para o nosso email, para o livrosencartaz@portalrefil.com.br. Uol.com.br, que a gente ama cartinha. Ou se você é para Frentex, que a gente aceita também pessoas para Frentex nesse podcast, você pode ir no nosso Instagram e seguir a gente no @livrosencartaz_. Aproveita para mandar para os amigos, compartilhar, escreve, que a gente gosta muito também. Escreve no nosso nos nossos YouTube da vida, nos nossos canais que vocês encontrarem, todos nós vamos achar vocês.
Exato, nós achamos vocês, estamos por aí, estamos por aí, estamos, estamos sim. Sem esquecer que eu preciso dar um recado, que é o quê? O Portal Refil completa 10 anos esse ano. Olha só, veja vocês, olha a hora! E teremos uma live Ora, ora, Dona Gabi, teremos uma live dia 22.
Isso, teremos.
E que vai ser um, que vai aparecer um monte de gente, um monte de gente já participou. Chachá parece que já confirmou. Então estejam avisados, entendeu? Não quero ninguém com compromisso esse dia. É isso, fiquem livres. Por exemplo, o senhor Sandro que mandou o e-mail para nós, ele mandou, mandou o e-mail para nós para falar.
O Sandro é assim, ele sabe que dá para mandar e-mail, que nós o quê? Lemos.
Então eu vou ler aqui o último e-mail que o Sandro mandou aqui para gente. Olá, Dona Sandra e Gabi, tudo em ordem por aí? Tudo bem, estamos aí. Veio por meio desse correio eletrônico dar um oizinho e pitacos rápidos por motivos de sigo sem tempo, irmão.
Pois é, vem, vem na nossa.
Estamos na mesma, estamos. Número 100, degusta ou celebrate good times.
Favor ler cantando. Eu gosto que a Andréia faz. Andréia entrega, gente.
Andréia entrega.
Alguém tem que saber cantar nessa dupla.
Que episódio festivo, garboso e animado para celebrar os 100 episódios!
Gente, garboso é muito. Tragam de volta o garboso.
Tem umas palavras que tinham que voltar.
Garboso. Garboso é uma delas. Muito bom.
A descontração desse episódio apresenta mais uma vez que vocês são grandes amigas e excelentes profissionais do podcastismo brasileiro.
Estamos aí.
Gostei muito do episódio com os bastidores do programa como um todo. Vocês comentaram sobre como não conseguem se ver sem a produção do podcast. Confesso que também gosto de pensar: pronto, episódio novo, e agora tem que colocar esse livro na lista de leitura e o filme na lista para ver. E vocês fizeram isso em várias ocasiões desde que comecei a ouvir vocês lá no ido ano de 2024. Agradeço muito pelas sugestões e por me tratarem de uma, e por me tratarem de uma pessoa mais informada para que, como vocês já falaram, se possa falar besteira com prazer.
É isso, nós que agradecemos, nós que agradecemos.
E só para um registro, venho dar a lista dos meus episódios favoritos e as explicações. Gosto assim. É também o número 1 do Sandro, é o Livros em Cartaz 035, VD Vingança. Basicamente por ter sido o primeiro episódio que eu ouvi e foi o ponto de partida para ser um fã de carteirinha da dupla dinâmica. O número 2 Livros em Cartaz 74, Pedro Páramo, por me apresentar essa história que me deixou meio assim, tal qual Noites Brancas, mas que carambolas está acontecendo?
Sentimento que em leitura é sempre muito bom. Livros em Cartaz 77, Watchman, por ter sido extremamente engraçado vocês elogiando. Sim, claro. Livros em Cartaz 90, O Guia do Mochileiro das Galáxias, por motivos de que esse é um dos meus livros favoritos da vida. E o Livros em Cartaz 100, porque por motivos de apresentar o backstage do podcast. Então você sabe que muita gente veio falar isso, que falou assim, nossa, mas é legal porque vocês falam é dos bastidores, do que aconteceu.
Você não ia gostar? Eu ia gostar de ouvir os bastidores de vários Quer que eu ouça?
Eu acho que deve ser bom mesmo.
Para quem ouve, deve ser bom mesmo.
É até para entender, acho que a dinâmica, mecânica, né? E muita gente veio me falar, eu não imaginei que— porque eu falei assim, não, vamos fazer um meta, vamos brincar com essa história e tal. Mas não imaginei que ia fazer tanto barulho assim, porque muita gente gostou mesmo. Sim, é podcast número 101, Macbeth, ou Shakespeare não é só apaixonado, mas também gosta de gore. Adora esse negócio. Ainda não li, mas está na lista sim, e só vou ler em português, já que o meu inglês não me permite ler inglês daquela época. Beleza, beleza, gente.
Nossa, tampouco, tá, Sandro?
E mais uma vez, Andréia destruindo-me ideia de que eu conheço alguma coisa de literatura por ter lido alguns livros. É, Sandra. E provando que eu tenho que comer muito feijão e arroz para chegar ao ponto de falar que entendo de literatura. E Gabi, você já fez isso comigo algumas vezes ao longo da minha história como ouvinte do programa, mas nesse episódio foi ela que me colocou no meu lugar, beleza?
Não, isso acontece comigo, viu, Sandra? Até hoje. Você fique tranquilo, estamos no mesmo barco.
E acho muito bom que vocês deixaram claro que essa história é apenas uma obra de ficção e que absolutamente nada daquilo poderia acontecer nos dias de hoje.
Nada. Que bom que você sabe.
Penso que seja por isso que seja uma obra tão datada e tão atual. Ganância e poder já não fazem parte da sociedade atual. Abraços para quem vive no Fim da Infância de Arthur C. Clarke. Olha esse, eu não li Fim da Infância.
Eu conheço de ouvir falar.
Então eu tenho ele aqui, eu tenho ele aqui em algum lugar daqui da minha estante aqui, mas eu tenho ele, será lido. Esse daqui é um que precisa ser lido também. Não temos líderes paranoicos e egocêntricos, pelo menos não consigo pensar em um líder que se encaixa nessa categoria. Brincadeiras à parte, consigo pensar em 5 sem fazer força. Saudade da Merkel mostrando como se lidera um país. Ok. E como o filme de 2021 e o do Orson Welles são em preto e branco, vou me sentir mais inteligente e cult.
É por isso. E por hoje é só isso. Mesmo. Obrigado por nos fazer companhia e por despender o tempo de vocês para criação de um conteúdo da mais alta qualidade. Agradeço também pela paciência que vocês têm com os fãs lá no Instagram. Sugiro a todos os ouvintes a seguirem vocês por lá, pois tem outros materiais de qualidade por lá. E só para não deixar a bola cair, ainda gostaria de atualizações sobre um certo romance histórico que foi comentado em alguns dos episódios.
Eu amo o Sandro, gente. Abraço, fiquem bem e até o próximo encontro. Ai, Sandro, só o Sandro, viu? Não temos muitas, como é que fala, muitas novidades para contar. Não, por enquanto não, mas Conversamos muito, estamos conversando muito. Logo menos, vamos ver, vamos ver, vamos ver, vamos ver. Vem aí, vem aí ou não. Sandra, muito obrigada como sempre pelo carinho.
Como sempre, como sempre.
A gente fica muito feliz com carinho de vocês aqui nesse, nesse o quê? Nesse o quê? Nesse puxadinho que os meninos do Portal Refil dão para gente aqui. Então sigam lá e cogitem a dar um cascai para nós, né, lá pelo Apoia.se. Então estão todos os links aqui no post, dá um pulo lá e vê como é que faz. Café tá caro, água tá cara, a gente já falou disso aqui algumas vezes. Chocolate quente, tá acabando o inverno, olha aí, ó.
Pois é, última frente fria.
A última brincadeira que quase matou um monte de gente, mas tá tudo certo, né, Bê? Agradecendo a minha co-host favorita, muito obrigada, Dona Gabrielly Biali. Eu que agradeço. A duplinha que a gente já fechou aqui, né? A próxima duplinha que a gente fechou aqui. Foi muito, muito legal. Agradecer a você que ficou aí até agora ouvindo essas duas malucas. Espero que pelo menos— vai lá, vai lá ler o livro, vai ler o livro. É, fiquem bem, cuidem-se, certo? Até o próximo episódio e tchau, tchau, tchau, tchau!