Episódios de Inteligência Artificial e Democracia

Zé do Caixão e a hipocrisia religiosa

04 de maio de 202618min
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Participantes neste episódio1
J

Jorge Guerra Pires

ConvidadoPesquisador independente
Assuntos5
  • Hipocrisia ReligiosaInstrumentalização da religião pela política · Zé do Caixão como propaganda religiosa reversa · O chicote que reza: monopólio da violência justificada · Moral de galinha vs. caráter · Ateísmo como tabu no Brasil
  • O Paradoxo de EinsteinPavor de figuras públicas em assumir ateísmo · Tabu do ateísmo na mídia brasileira
  • Moralidade e hipocrisia políticaOperação Brother Sam e medo do comunismo · Lema Deus, Pátria e Família · Positivismo e autoritarismo
  • Inteligência artificial e desinformação políticaUso de IA para desinformação · Ameaças à democracia global
  • Crítica à Inquisição e desculpas do VaticanoPresentismo reverso e erros metodológicos · Dogma inquestionável e violência institucional
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Olá, sejam bem-vindos ao meu podcast Democracia e Inteligência Artificial. Neste podcast, nós vamos explorar várias angulações no que tange algoritmos e inteligência artificial e como isso afeta o sistema democrático. Nós temos um objetivo, por exemplo, de focar em desinformação.

como que a religião, por exemplo, vai ser usada de forma instrumentalizada dentro do contexto do internet artificial. E nós vamos falar sobre ameaças da democracia no mundo inteiro usando o internet artificial. Então, o podcast é como esse objetivo. O meu nome é Jorge Garpeires, eu sou doutor em engenharia da informação, eu tenho vários livros publicados, entre eles o meu livro Democracia e Internet Artificial, no qual...

eu faço uma leitura, um foco bastante, eu diria, rico sobre o uso da artificial com máquina de desinformação. No mais, eu espero que vocês tenham uma excelente experiência nesse podcast.

Geralmente, quando a gente assiste a um filme de terror clássico, o monstro é super óbvio, né? Tem garra, veste uma capa preta, dá aquela rezada maníaca que todo mundo conhece. Exato. A gente sabe exatamente de quem deve ter medo, porque o perigo está contido ali, brilhando na tela do cinema.

É um medo seguro, né? Totalmente embalado para entretenimento. O limite entre o bem e o mal fica muito bem demarcado. Pois é. Mas a coisa muda completamente de figura quando a gente percebe que a tela do cinema pode estar funcionando como um espelho. Nossa, com certeza. E que o verdadeiro monstro talvez não seja a criatura na tela, mas sim quem está sentado na poltrona ao lado. Ou pior ainda, a instituição que está projetando esse filme.

Então, sejam bem-vindos a mais uma investigação a fundo. E hoje a nossa missão é desconstruir uma intersecção histórica fascinante aqui no Brasil. Que é essa mistura complexa entre o cinema de terror, a religião e o controle político do Estado, né? Isso mesmo. E para essa investigação, a gente vai usar como material base os ensaios do Jorge Guerra Pires. Mais especificamente, a gente vai mergulhar de cabeça no texto central dele, chamado O Chicote que Reza.

É uma escolha de material muito precisa. E só para dar um contexto rápido para quem está escutando a gente, o Jorge Guerra Pires tem uma trajetória acadêmica bem curiosa. Verdade. Ele é PhD, né?

Ele tem um histórico super denso na área de bioinformática e ciência de dados. Só que ele fez uma transição fascinante para essa escrita provocativa sobre ciência, política e religião. Ele pega de tipo aquele raciocínio lógico estruturado da ciência e aplica para analisar dogmas sociais. É muito interessante.

Exatamente, e vale mencionar que a obra do autor vai bem além desse ensaio que a gente vai focar hoje. Sim, ele tem outros livros que investigam essas tensões estruturais. Tem o Seria a Bíblia, um livro científico, e o Gi Bíblia, que estão lá na Amazon. Dá para pedir a versão física pelo Prime ou pegar no Kindle na hora.

Mas o que está chamando muita atenção agora é o lançamento mais recente dele, que é o Paradoxo de Einstein. Nossa, esse livro é fantástico. Ele investiga justamente por que figuras públicas aqui no Brasil têm tanto pavor de assumir o ateísmo na mídia contemporânea. É um tabu gigante, né? Gigante. E o mais legal, do ponto de vista prático, é que essa obra está disponível no formato audiolivro, lá no Google Play e no Google Books.

Ah, audiolivro é um caminho sem volta. Total. Pra mim, antes mesmo dessa febre de inteligência artificial, o audiolivro já tinha sido uma revolução de produtividade na minha vida. O próprio autor defende muito isso, de você baixar o áudio no celular e escutar offline durante uma caminhada, sabe? Ou enquanto tá cozinhando, lavando roupa. É muito prático. Pois é. E essa discussão do livro sobre o medo crônico que a nossa sociedade tem do ateísmo hoje...

É a ponte perfeita para o nosso ponto de partida aqui. Como que esse medo foi fabricado, né? Porque os ensaios mostram que o pânico moral não surge do nada. Ele é uma tecnologia social, tipo uma ferramenta desenhada para amestrar o comportamento das massas. E o estudo de caso perfeito que o material traz para ilustrar isso nos leva direto para o ano de 1964, com o surgimento de ninguém menos que o Zé do Cachão.

retornamos a 64, que é aquele ano definidor e absurdamente tenso na história política do Brasil. Exato. E é bem nesse caldeirão político que o cinema nacional dá à luz ao ateu definitivo da nossa cultura pop. O filme A Meia-Noite Levarei Sua Alma, ele foi gravado em 63, mas lançado justamente em 64.

E a tese do Pires aponta para uma ironia histórica brutal nessas datas. Porque o criador do personagem, o José Mujica Marins, ele não queria fazer um manifesto político, sabe? A intenção dele era só fazer cinema de horror.

Sim, puramente horror. Só que o aparato de censura e o governo militar bateram o olho naquilo e viram oportunidade de ouro. Eles instrumentalizaram a obra. Peraí, então o Estado usou um filme de terror maldito como propaganda? Exatamente. O ensaio defende que o governo permitiu e até usou o Zé do Cachão como uma espécie de propaganda religiosa reversa. Tipo assim, vejam o monstro que nasce quando não se teme a Deus.

Nossa, perfeito! Essa era a mensagem subliminar projetada para a sociedade. Cara, pensando na mecânica disso, o ensaio descreve um cenário que me parece muito com um truque de mágica, sabe? Aquele ilusionismo clássico. Como assim? É tipo, o mágico faz a plateia focar toda a atenção na mão direita que está balançando um lenço vermelho brilhante, enquanto a mão esquerda que está escondida na sombra, sutilmente rouba o teu relógio.

Ah, entendi. O lenço vermelho era o Zé do Caixão, lá na tela. Isso. Ele comendo carne na Sexta-feira Santa, blasfemando a moralidade das pessoas da época. E segundo a análise das fontes, a massa cristã saía do cinema absolutamente horrorizada com esse herege de celuloide.

E, ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas iam para a rua, né? Marchar na marcha da família com Deus pela liberdade. Exatamente. Eles marchavam validando um regime que, na vida real, estava institucionalizando a tortura física nos porões do Estado, o relógio sendo roubado na mão esquerda.

Nossa, o ensaio destaca muito a genialidade cruel dessa miopia coletiva, porque as pessoas sentiam uma repulsa moral gigante pelo Zé do Cachão usando um estrepador numa briga de bar ficcional. Mas, ironicamente, aplaudiam ou fingiam que não viam o choque elétrico de verdade.

Exato. Pires descreve o personagem como um monstro que não mente. O Zé do Caixão é cruel, ele mata, mas ele assume a própria monstruosidade de forma transparente.

Ele justifica isso na busca pelo sangue perfeito dele, na continuidade da linhagem, né? Isso. Em contraste, o texto argumenta que a sociedade daquela época usava o crucifixo e o discurso de ordem como uma maquiagem, uma maquiagem para encobrir uma monstruosidade que era sistêmica.

E é bem aqui que a gente entra no coração daquele ensaio principal, o chicote que reza. Já que o texto argumenta que o Estado usou a religião como escudo, a gente precisa olhar para as ferramentas dessa religião. E o Pires faz um paralelo direto e muito visual nesse ensaio. Ele compara a figura de Jesus empunhando um chicote no templo com o próprio chicote que usado o caixão carrega, certo?

Exatamente. É uma análise sobre o monopólio da violência justificada. O autor analisa aquele relato bíblico em que Jesus faz um chicote de cordas para expulsar os vendilhões e limpar o templo. Para proteger a pureza do espaço sagrado. Isso. E do outro lado, Zé do Caixão também usa um chicote, a brutalidade física, para limpar o que ele considera sujeira da superstição, para proteger a razão e a força dele. A mecânica da imposição é idêntica, então.

Segundo a tese, sim. A diferença não está no ato de usar a violência para purificar um ambiente. A diferença está em quem detém o poder cultural de classificar essa violência. Quem decide o que é ação divina e o que é sadismo profano. Exato. Mas olha, tentando fazer um contraponto aqui, pela ótica da própria instituição, a gente sabe que a Inquisição, as cruzadas, essas perseguições todas, muitas vezes são tratadas hoje como erros do passado, né?

Sim, existe esse discurso institucional. Por exemplo, no ano 2000, o Vaticano fez pedidos oficiais de desculpas históricos. Isso não seria um sinal de evolução? Porque o Zé do Caixão nunca pede desculpas, mas a Igreja olha para trás e tenta corrigir a rota. Isso não enfraquece o argumento do ensaio? Então, o material aborda exatamente esse ponto, trazendo a visão do intelectual Christopher Hitchens, que é bastante citado nas fontes. O que ele diz sobre isso?

O argumento é que um pedido de desculpas institucional, depois de séculos, funciona tipo colocar açúcar num café que já queimou. Disfarça na hora, mas deixa um gosto amargo. Perfeito, porque a justificativa que geralmente vem junto com essas desculpas é a ideia de que naquela época aqueles homens estavam genuinamente em busca da verdade. Entendi.

Os historiadores até chamam isso de presentismo reverso, né? Exatamente. O texto do Pires sustenta que a narrativa oficial acaba transformando tortura e extermínio num mero erro de percurso, um pequeno equívoco metodológico. De pessoas com boas intenções. Isso. E ao dizer que os executores só erraram na aplicação da fé, a instituição blinda o núcleo do problema, a ideia de que o dogma em si é inquestionável. Até a próxima.

Nossa, isso é forte. Então, a violência não foi um erro no sistema, um bug?

Segundo a análise, não. Foi uma feature, uma característica de design do cristianismo institucional para desumanizar quem não se alinhava. Porque qualquer sistema que divide a humanidade entre eleitos e condenados ao inferno já cria a base mental para você destruir o outro, né? O Zé do Caixão faz a mesma coisa. Ele desumaniza os fracos.

Mas ele faz isso em nome do sangue da razão dele, sem essa maquiagem moral da fé. O que me faz pensar em como toda essa estrutura de manipulação religiosa sai do campo puramente filosófico e ganha proporções de golpe de Estado.

Porque ganha, né? E os ensaios dissecam isso mostrando a geopolítica do pânico moral. Como que o medo do comunismo ateu foi, na verdade, uma importação americana. Então, o texto contextualiza isso com a Operação Brother Sam. O governo dos Estados Unidos estava aterrorizado com as reformas de base que dariam soberania econômica para o Brasil. Tipo a reforma agrária e a restrição de mandar lucro para fora? Exato.

Washington não estava preocupado se o brasileiro ia para a missa no domingo ou não. Mas eles precisavam de uma narrativa. Porque você não mobiliza massa dizendo vamos dar um golpe para proteger as empresas estrangeiras, né? Não engaja. Zero engajamento.

Aí você traduz os interesses econômicos numa ameaça existencial. E os Estados Unidos usaram a estrutura imensa da Igreja Católica no Brasil para espalhar que os comunistas iam fechar paróquias e destruir as famílias. É muito louco pensar que o lema Deus, Pátria e Família é completamente cíclico.

O texto lembra que foi usado nos anos 30 pelo integralismo, que era fascista. Aí voltou em 64 com os militares. E, incrivelmente, a gente viu essa mesma trindade de palavras se ressuscitarem na nossa política recente. E tem uma metáfora do Jorge Guerra Pires que eu acho genial para explicar como essa blindagem funciona. Ele diz que é como se a sociedade ficasse, histericamente, procurando um assassino em série nas ruas. Focando num estereótipo de marginal, né? Isso.

Enquanto o verdadeiro assassino está de pé num altar da igreja, mascarado de santo e falando manso como um cidadão de bem. Exatamente. Quando a violência ganha essa embalagem de dever espiritual, ela recebe imunidade institucional. O crime deixa de ser visto como crime. E ainda tem a cicatriz positivista nisso tudo, que o autor adiciona na análise. Aquela frase, ordem e progresso, na nossa bandeira.

o positivismo teve um impacto gigantesco na formação da elite técnica e militar brasileira. A ideia de que a sociedade precisa ser governada por mentes científicas superiores, de cima para baixo. Ou seja, o povo querendo participar da democracia é visto como uma bagunça, um obstáculo.

E quando você junta essa arrogância técnica militar com o moralismo religioso que vê qualquer discordância como pecado, você tem o terreno perfeito para o autoritarismo. Impressionante. E é muito bom como os ensaios do Pires voltam para o cinema, para o Zé do Caixão, para provar que o ateísmo do personagem não era a verdadeira fonte do mal ali.

Ele analisa o código de conduto interno do Zé contra a hipocrisia religiosa da cidade, né? Sim. Tem uma cena clássica, que o texto disseca, que eu achei fantástica, que é a cena do bar. O Zé tá lá jogando cartas, apostando dinheiro vivo num esquema de tudo ou nada. É um contrato ali, verbal, direto. Exato.

Aí o oponente dele perde, mas na hora de pagar, tenta trapacear. O Zé do caixão percebe, não pensa duas vezes e usa aquele anel de garra que ele tem para ferir a mão do cara brutalmente. Mas tem um detalhe que muda tudo logo depois disso.

Ele manda chamar um médico e paga a conta do tratamento para o cara que ele acabou de machucar. O ensaio argumenta que se fosse um filme de faraóeste italiano e o Zé fosse um mocinho punindo o trapaceiro, todo mundo ia aplaudir de pé. Com certeza. Ele puniu a quebra da palavra e ainda mostrou honra ao pagar o médico. O que choca não é ação agressiva. O que choca é ele fazer isso dizendo abertamente que Deus não existe e que ele só responde a própria palavra.

E é aí que o material introduz um conceito maravilhoso do autor, que é a moral de galinha. Explica um pouco como funciona essa moral de galinha na prática, porque o nome é excelente. É uma forma de descrever aquela moralidade que vem de fora pra dentro, sabe? Baseada puramente no medo da punição, e não no caráter da pessoa. Ah, entendi.

O texto repara que o povo daquele filme morre de medo de comer carne na sexta-feira. Eles cumprem esse contrato invisível com pavor de queimar no inferno. Mas esse mesmo cidadão de bem que treme de medo do invisível não tem caráter para honrar uma aposta de cartas no mundo real.

Exato. É a diferença entre fazer o certo porque é o certo e fazer o certo porque tem uma câmera de segurança divina te vigiando. O Zé do Caixão sente nojo dessa sociedade porque a fé deles é só uma muleta para cobrir a falta de honra.

O que nos leva para uma outra cena do filme que o ensaio destrincha, que talvez seja o maior contraste ético da história. É aquele momento em que um cristão adulto da cidade está prestes a espancar uma criança. Nossa, essa análise é um ponto alto do texto. E quem impede a agressão? O maldito do Zé do Cachão, o monstro. Porque a gente precisa lembrar da lógica religiosa da época, né? A ideia de que quem poupa a varudeia o filho, bater na criança era visto como correção do pecado original. Não, não, não.

Era justificado como amor, né? Uma loucura. Sim, a agressão era um dever. Já o Zé do Cachão, sendo um materialista e racionalista, não acredita em pecado original. Para ele, a criança é potencial puro. É a continuidade do sangue. Exatamente. Bater nela para impor dogma invisível é um crime contra o futuro. O ensaio escancara como o ateu ali se mostrou muito mais ético com a infância do que os ditos cidadãos de bem. A máscara da hipocrisia cai por terra.

Cai total. E é por isso que ler essas análises do Jorge Guerra Pires é tão revelador. Não é só sobre um filme antigo. É sobre entender a engenharia do moralismo que está operando hoje nas nossas vidas. E para quem quer continuar puxando esse feo, reforço a recomendação do novo livro dele, O Paradoxo de Einstein. A versão em audiolivro está lá no Google Play, super fácil de baixar e ouvir.

É ótimo para ouvir caminhando e refletir por que assumir o ateísmo ou ceticismo hoje ainda gera tanto pânico moral no Brasil. Com certeza. A gente cobriu um terreno enorme hoje. Então, sintetizando tudo isso, os ensaios nos mostram que a maior arma de um regime não é o fuzil, é a transformação da fé num cabresto moral.

Eles usam figuras como o Zé do Caixão ou até mesmo o Raul Seixas, que também foi super atacado pelos mesmos motivos para gerar cegueira. Sim.

E para encerrar, a gente deixa uma última reflexão com base em tudo isso que as fontes trouxeram. Ao longo da história, as instituições sempre conseguiram editar as próprias biografias, né? Transformando inquisidores em nomes de ruas. Mas hoje, na era da informação instantânea, onde é muito mais difícil apagar rastros, fica a pergunta para quem está ouvindo. Será que essa máscara protetora do cidadão de bem ainda é sólida o suficiente para aguentar mais algumas décadas de fingimento?

Ou será que esse altar da hipocrisia finalmente começou a rachar? Fica aí o pensamento. Até a próxima investigação a fundo.

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