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Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch

08 de setembro de 202627min
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Neste Episódio, a gente entra no universo de “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói — uma obra curta, mas com peso de abismo. Aqui, a morte não aparece como evento distante ou solene: ela chega como um processo lento, íntimo, inevitável, desorganizando aos poucos o modo como o protagonista entende a própria vida.

Tolstói acompanha o afundar progressivo de Ivan Ilitch na experiência do sofrimento, e faz disso um retrato brutal do contraste entre o que a sociedade diz que é “normal” e o que a dor revela por dentro. A busca por explicação, por alívio e até por reconhecimento aparece em cada mudança de percepção: a sensação de que ninguém realmente escuta, a tentativa de continuar “como sempre”, e a descoberta tardia — dura, porém luminosa — de que viver com verdade é diferente de viver com aparência.

Assuntos6
  • A frieza logística da sociedade burguesa diante da morte de Ivan IlitchIvan Ilitch·Superficialidade moral·Sociedade burguesa·Burocracia
  • A morte como mecanismo de defesa psicológico contra o terror da finitudeTeoria do Gerenciamento do Terror·Autopreservação biológica·Medo da morte
  • O personagem Schwartz e o jogo de 20 como boia salva-vidas cognitivaSchwartz·Jogo de 20·Ordem mental
  • A viúva Praskóvia Feodorovna e a materialidade como anestésico ao traumaPraskóvia Feodorovna·Trauma·Logística financeira
  • A burocracia russa do século XIX e a desumanização das relaçõesRússia·Tabela de títulos·Desumanização
  • A cena do puff e da mantilha como sabotagem da mobília à solenidade do lutoPiotr Ivanovich·Praskóvia Feodorovna·Materialidade·Solenidade
Transcrição51 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olha, se você que tá nos ouvindo já esteve em um velório e de repente se pegou sentindo uma pontadinha de culpa por estar preocupado com parquímetro vencendo na rua, ou sei lá, com que vai comer no jantar, saiba de uma coisa: você não está sozinho nessa, é, de forma alguma. E mais do que isso, Liev Tolstói tava dissecando exatamente essa sua sensação há mais de um século. Hoje nós vamos mergulhar no primeiro capítulo do clássico A Morte de Ivan Ilich.

E nós vamos nos basear na brilhante tradução do Robson Ortibas para tentar entender o que realmente acontece quando a morte, sabe, invade a nossa rotina.

?Voz B

É aquele momento crítico em que a banalidade da vida bate de frente com o absoluto da morte, né? E quase sempre a banalidade vence.

?Voz A

Exatamente. O que a gente testemunha nesse capítulo de abertura é fascinante e honestamente profundamente desconfortável. A gente vê os colegas de tribunal do Ivan Illich e até a própria viúva reagindo ao falecimento dele com uma frieza que é quase logística. Então a grande questão que surge para nós hoje, a nossa tese central é: o que estamos vendo aqui? Seria essa reação uma denúncia feroz da superficialidade moral, sabe, de uma sociedade burguesa e hiperburocratizada que simplesmente perdeu a capacidade de sentir empatia?

A minha leitura, a posição que eu vou defender hoje, é que sim, Tolstói nos mostra uma corrupção moral absoluta onde as pessoas foram tão reconfiguradas pelo sistema que o luto se tornou apenas é um obstáculo gerencial.

?Voz B

E eu, por outro lado, olho para essa mesma frieza e vejo algo completamente diferente. Não acho que seja uma falha de caráter ou pura corrupção moral, sabe? Para mim, eu vou argumentar que essa superficialidade, esse foco todo em trivialidades, em dinheiro, é um retrato clínico e assustadoramente preciso de um mecanismo de defesa psicológico. É a nossa autopreservação biológica em ação para não enlouquecermos.

?Voz A

Certo, então vamos começar pelo cenário que Tolstói nos apresenta logo de cara, porque ele é fundamental para minha argumentação. Estamos no dia 4 de fevereiro de 1882, lá dentro do grande edifício do Tribunal de Justiça. É puramente um ambiente de trabalho. Os magistrados estão lá no escritório do Shebek discutindo amenidades, casos de rotina, até que o Piotr Ivanovich abre a Gazeta ainda com aquele cheiro de tinta fresca da gráfica e lê em voz alta o anúncio fúnebre do colega deles.

E a reação imediata do Fyodor Vassílievich é: Não é um silêncio respeitoso, não é choque, é o cálculo imediato de que a morte do Ivan significa uma vaga na chancelaria e um aumento de 800 rublos pro bolso dele.

?Voz B

O cadáver nem esfriou e os caras já estão fazendo as contas, né?

?Voz A

Exato! E o Piotr Ivanovich, na mesma hora, já começa a planejar como vai usar essa dança das cadeiras pra transferir o cunhado pra cidade e agradar a esposa. Olha, pra entendermos o porquê de uma frieza tão mecânica, a gente precisa olhar pro contexto histórico que motivou a obra. A Rússia do final do século 19, ela operava sobre uma engrenagem chamada tabela de títulos. Foi um sistema burocrático gigantesco criado ainda lá atrás por Pedro o Grande.

Esse sistema, ele literalmente fundia o valor de um ser humano ao cargo que ele ocupava.

?Voz B

Sim, uma hierarquia rígida, muito rígida.

?Voz A

Você não era o indivíduo Ivan, pai de família, amigo. Você era o funcionário de grau 5. Ponto. Se o grau 5 desaparece, a engrenagem sofre uma pequena falha e precisa ser preenchida imediatamente pelo grau 6. Sabe quando um servidor de internet cai numa rede corporativa hoje em dia? O sistema de TI não chora pelo servidor. Ele emite um alerta de erro e redireciona o tráfego para manter tudo funcionando.

?Voz B

É uma máquina de imergente onde a identidade vira algo puramente funcional.

?Voz A

Perfeito. E é isso que esses homens fazem. A burocracia desumanizou a mente deles, a tal ponto que eles processam a morte não como uma perda humana incalculável, mas como um erro no servidor que precisa ser corrigido com transferências e promoções. Eu vejo isso como uma sociedade de relações puramente transacionais.

?Voz B

Olha, eu concordo totalmente com a sua descrição fantástica dessa engrenagem burocrática e da tabela de títulos. Mas eu discordo veementemente da conclusão de que isso os torna apenas engrenagens desumanizadas, sabe? A burocracia é o contexto, claro, mas a psicologia humana é o motor real aqui. Você foca bastante na contabilidade financeira, na promoção, mas tem uma frase, um pensamento silencioso que perpassa a mente de absolutamente todos naquela sala que é, pra mim, o verdadeiro epicentro emocional do capítulo. O pensamento é: ele está morto, mas eu não.

?Voz A

Aquele alívio íntimo de ter sobrevivido ao dia.

?Voz B

Mais do que alívio, é a biologia falando mais alto que o decoro. Existe um conceito na psicologia moderna bem famoso chamado Teoria do Gerenciamento do Terror, que postula o seguinte: quase todo comportamento humano em sociedade é impulsionado pelo medo subconsciente da morte. Pensa bem, nós somos a única espécie na Terra que tem plena e absoluta consciência de que vai morrer um dia. Se nós ficássemos focados nisso o tempo todo, sentindo o peso dessa finitude, nós não conseguiríamos sair da cama. A mente humana simplesmente estilhaçaria.

?Voz A

Nós entraríamos em colapso, claro.

?Voz B

Exatamente. Então, o que nós fazemos como espécie? Nós criamos estruturas culturais, a busca por status, os tais 800 rublos, as promoções, até a própria burocracia do tribunal, quando o Fyodor pensa no aumento de salário assim que ouve da morte, aquilo ali não é um cinismo frio e calculado. O cérebro dele está ativando um protocolo biológico de emergência, tipo: foque no futuro, foque no dinheiro, foque na vida material pra não ter que olhar diretamente pro fato de que o seu amigo acabou de deixar de existir.

?Voz A

Mas olha, isso não é, no fundo, dar um passe livre pra completa falência da empatia humana? Porque se a gente assume que o nosso instinto biológico de sobrevivência simplesmente cancela o dever moral do luto, o que nos separa de, sei lá, um bando de animais irracionais lutando por um pedaço de carne? Porque veja bem, eles não eram meros conhecidos de corredor. O Piotr Ivanovich estudou direito com o Ivan. Ele se considerava, nas palavras do livro, em dívida com ele.

E mesmo assim, a única razão pela qual ele decide ir ao velório à noite é para cumprir, e eu cito o narrador, cruelmente aqui os enfadonhos deveres do decoro. E esse decoro atinge um nível, eu diria, quase satírico quando a gente olha para a figura do Schwartz.

?Voz B

Ah, o Schwartz! O Schwartz é facilmente o personagem mais fascinante desse início de livro.

?Voz A

Fascinante e moralmente repulsivo, se você me permite. Porque imagina a cena: ele está lá na escadaria da casa do morto, com aquelas suíças perfeitamente aparadas à moda inglesa, brincando com a cartola de forma elegante. Ele pisca pro Piotr Ivanovich como se dissesse que o Ivan Illich agiu de forma insensata ao morrer e com isso estragar a noite deles. E qual é a grande preocupação desse homem? Arranjar parceiros pra jogar 20 naquela mesma noite.

Pra mim, a existência do Schwartz destrói esse seu argumento da defesa psicológica. Ele não está em pânico reprimido. Ele está ativamente aborrecido porque a morte do amigo foi uma inconveniência na agenda social dele. Ele é o retrato cuspido e escarrado do homem burguês que não consegue colocar o respeito sagrado à morte acima do próprio entretenimento barato.

?Voz B

Sinto muito, mas eu tenho que intervir porque eu olho pro Schwartz por uma lente totalmente diferente. O 20, nesse contexto, não é só um entretenimento aleatório, sabe? Como ir ao cinema. Pra quem não está familiarizado, o 20 é um jogo de cartas russo. Uma espécie de ancestral do bridge moderno. É um jogo que exige um nível absurdo de matemática, leilões super precisos, regras estritíssimas, você tem que ter parceiros definidos, ele exige uma ordem mental absoluta.

Quando Schwartz insiste quase que obsessivamente em jogar 20 enquanto o cadáver do Ivan Illich está esfriando no quarto ao lado, ele não está sendo apenas um babaca insensível. Ele está se agarrando a uma boia salva-vidas cognitiva.

?Voz A

Uma boia salva-vidas em forma de baralho? Não me convence muito.

?Voz B

Mas faz todo o sentido, porque a morte é o caos supremo. Ela desfaz todas as regras da existência. E tem aquele cheiro leve de decomposição no apartamento, do qual o pior tenta fugir a todo custo, que é a prova física de que o caos absoluto chegou ali. O 20 é o antídoto contra isso. É a tentativa desesperada do Schwartz de afirmar que a ordem do mundo não desmoronou. Como se ele dissesse: olha, nós ainda temos regras, nós ainda temos parceiros de jogo, a vida continua funcionando.

Aquela alegria animal de não fui eu quem morreu precisa ser canalizada pra algo estruturado, entende? Senão o pavor toma conta. A elegância do Schwartz, as suíças bem feitas, o ar de tédio, tudo isso é uma armadura pesada para não deixar o caos existencial entrar.

?Voz A

Olha, é uma defesa muito engenhosa, eu admito. Pensar no jogo de cartas como uma ferramenta de ordenação do caos faz bastante sentido no nível estritamente psicológico. Mas vamos fazer o seguinte, vamos testar essa armadura num ambiente onde o decoro público não deveria, em tese, anular o afeto real. Vamos sair do círculo de colegas de trabalho da burocracia e entrar na esfera íntima, familiar. Vamos falar da viúva, da Praskóvia Feodorovna, e da famosa cena na sala de estar com aquele estofado em cretone cor-de-rosa.

?Voz B

Onde o teatro, digamos, atinge o seu ápice, né?

?Voz A

Totalmente. Porque se antes a gente via a engrenagem do Estado anulando o luto no tribunal, Aqui a gente vê a materialidade corrompendo o próprio elo matrimonial. A coreografia da Praskovia Fedorovna é estarrecedora pra mim. Ela está lá toda vestida de preto, sacando um lenço de cambraia imaculadamente limpo, e ela chora apenas quando a etiqueta da cena com Piotr exige que ela chore. Mas no exato momento em que o copeiro, o Sokolov, entra pra perguntar sobre o lugar no cemitério que custaria, sei lá, 200 rublos, a mágica do luto evapora no ar.

As lágrimas dela secam instantaneamente. Ela reclama ativamente do preço, escolhe as terras como se estivesse no mercado e logo depois arrasta o piotre para extrair informações jurídicas sobre como arrancar mais dinheiro do Tesouro do Estado em função da morte do marido. O sofrimento é puramente encenado, mas a ganância dela, essa é autêntica. Como é que a gente pode chamar isso de mecanismo de defesa? Pra mim é simplesmente oportunismo puro e simples.

?Voz B

É, a leitura da ganância é definitivamente a mais óbvia e a que salta aos olhos. Mas eu convido você a olhar pra uma confissão que a própria viúva faz pro Piotr pouco depois de toda essa negociação. Tem uma honestidade brutal ali que pra mim subverte completamente a ideia da simples viúva falsaceira e manipuladora. Ela vira e diz textualmente: eu acho uma hipocrisia fingir que o sofrimento me impede de fazer coisas práticas. E ela adiciona que a preocupação com essas questões logísticas é a única coisa que consegue distraí-la. Pensa no que o cérebro humano faz sob trauma extremo.

?Voz A

Você se refere aos últimos dias de agonia do Ivan?

?Voz B

Sim, aos últimos dias. O texto nos revela que o Ivan Illich não teve nem de longe uma morte e fica dormindo. Foram 3 dias de gritos ininterruptos. 3 dias uivando de dor. Um som tão absurdamente alto que varava as 3 portas fechadas do apartamento e fazia qualquer um que ouvisse prender a respiração de terror. A Praskovia viveu com esse som na cabeça dela. Imagina a erosão psicológica de ouvir o homem com quem você construiu uma vida inteira gritar até a própria garganta rasgar durante 72 horas seguidas.

Ela está em choque absoluto. Quando as pessoas enfrentam um trauma dessa magnitude, indescritível mesmo, a mente fraciona a realidade. Ela se apega a microtarefas hipercontroláveis pra não ter que processar o incontrolável, sabe?

?Voz A

Então o seu argumento é que barganhar os 200 rublos do terreno do cemitério é na verdade essa microtarefa psicológica?

?Voz B

Exatamente! A morte do marido, a degradação dele, É um abismo escuro demais pra ela olhar. Mais 200 rublos, a organização dos coristas, os documentos da pensão do estado. Isso são planilhas, são coisas que ela sabe como gerenciar, coisas palpáveis. Lidar com a logística financeira é literalmente o curativo que impede a hemorragia mental dela naquele momento. Se ela parar de focar nas coisas práticas e realmente absorver o horror cósmico do que aconteceu no quarto ao lado, a psique dela estilhasse em mil pedaços.

A materialidade aí não é ganância barata, é um bote salva-vidas no meio do naufrágio.

?Voz A

Eu entendo, eu entendo perfeitamente o conceito de usar a rotina como anestésico. Mas veja o efeito colateral terrível desse anestésico na construção da obra do Tolstói. O problema é que a materialidade não é apenas um bote salva-vidas temporário ali. Ela se tornou a própria e única linguagem dessas pessoas. Eles estão tão blindados por essas microtarefas que ficam existencialmente cegos e surdos. E é aqui que nós chegamos ao confronto físico inescapável com a mortalidade.

O momento em que o Piotr Ivanovich precisa finalmente encarar o cadáver do amigo de faculdade.

?Voz B

A cena em que ele tenta olhar para o rosto, mas não consegue manter os olhos fixos por muito tempo.

?Voz A

Exatamente. E o Tolstói é brilhante e cruel nessa descrição. O corpo está pesado, afundado naqueles travesseiros, com aquela testa amarelada, com aspecto de cera. E o rosto do morto traz uma expressão muito, muito específica, uma expressão de que o que precisava ser feito estava feito, e feito de maneira correta. Mas muito além dessa placidez O rosto carrega uma censura, uma repreensão. É um lembrete vivo, ou melhor, um lembrete morto direcionado aos vivos presentes naquela sala.

O cadáver vira um espelho moral insuportável. Ele está ali gritando silenciosamente: vocês são os próximos e as vidas burocráticas de vocês são absolutamente vazias.

?Voz B

E a resposta imediata do Piotr a esse lembrete silencioso é, eu diria, o reflexo mais puramente humano e instintivo possível, né?

?Voz A

Sim, ele foge. E é isso que eu julgo como falência moral profunda. O Piotr sente um incômodo visceral, faz aquele sinal da cruz de qualquer jeito, apressado, quase por um tique nervoso, vira nos calcanhares e sai praticamente correndo para a sala de passagem. A morte está oferecendo a ele um choque de realidade, uma chance raríssima de introspecção verdadeira. Mas o que ele faz com isso? Ele recusa o convite à reflexão. Ele vai ativamente procurar a figura elegante e blasé do Schwartz.

Ele procura a futilidade para limpar a mente. A sociedade que o Tolstói retrata está tão ensurdecida pela própria frivolidade que quando a morte finalmente fala, eles tapam os ouvidos. Eles escolhem a ignorância confortável ao invés de encarar o peso existencial de quem eles são.

?Voz B

Eu entendo, mas veja bem como o próprio Tolstói constrói a narrativa para mostrar que fugir desse peso existencial não é uma escolha racional tão simples assim. Muitas vezes é uma batalha perdida, e perdida de forma totalmente ridícula. E a prova cabal disso, que para mim é o momento de maior genialidade cômico-trágica de todo o capítulo, é a cena do puff na sala da viúva.

?Voz A

Você diz o famoso puff verde com as molas soltas?

?Voz B

Sim, o duelo entre o puff e a mantilha de renda. Pensa na cena: o Piotr Ivanovich, ainda suando frio por ter olhado pro cadáver, tenta realizar a coreografia perfeita do luto com a Praskovia. Ele tenta adotar um tom super solene, de conselheiro. Ele senta nesse puff baixo e imediatamente as molas defeituosas começam a se rebelar sobre o peso dele. Elas cutucam, empurram de volta de forma irregular. E exatamente ao mesmo tempo, a viúva vai sentar no sofá e prende a renda preta e chique da mantilha no entalhe da mesa esculpida.

Eles estão lá supostamente tentando encenar uma gravidade digna diante da morte, mas são literalmente sabotados pela própria mobília.

?Voz A

É quase uma cena de pastelão no meio de um velório denso.

?Voz B

É totalmente uma cena de pastelão, mas com uma função filosófica muito profunda. O Piotr tenta levantar meio desajeitado para ajudar a soltar a renda, o Puf dá aquele estalo alto, ela tenta puxar o tecido e não consegue. É uma luta física, braçal, contra os objetos. E por que o Tolstói coloca isso logo após a solenidade aterrorizante do cadáver? Para nos mostrar que a materialidade, os pequenos e constantes incômodos do mundo físico, não são apenas, como você disse, distrações burguesas voluntárias.

Eles são a própria textura da vida esmagando o silêncio da morte. A vida exige manutenção e atenção constante. As molas te furam, a renda rasga, a conta chega. Você simplesmente não consegue flutuar na abstração filosófica do luto existencial quando a mobília está literalmente, fisicamente, te prendendo de volta no mundo das coisas práticas.

?Voz A

Olha, a sua análise da mobília como uma âncora da realidade é muito instigante, mas eu leio essa mesma cena como uma punição satírica da parte do autor. O Tolstói está abertamente zombando da cara deles. O fato de o Piotr e a Praskóvia estarem tão obcecados com a aparência social e polida do luto faz com que eles se tornem escravos cômicos da própria riqueza ostensiva que acumularam. O Puf rebelde e a renda enroscada são a vingança do mundo material contra a falsa solenidade e o teatro deles.

E o que me incomoda profundamente nessa sua tese de que isso tudo é apenas um mecanismo neutro para evitar o colapso mental é que o Tolstói narra o exato momento, o milissegundo em que o terror real atinge o Piotr. E ele nos mostra a escolha deliberada que o Piotr faz.

?Voz B

Você diz o momento em que a viúva descreve os gritos insuportáveis do Ivan?

?Voz A

Exato. Quando ela relata o sofrimento cru dos últimos 3 dias, a ficha do Piotr Ivanovich finalmente cai. Texto diz algo como: o pensamento a respeito do sofrimento de uma pessoa que ele conhecera tão de perto de repente horrorizou Piotr Ivanovich. É a epifania. Ele vê novamente na mente dele aquela testa de cera, o nariz pressionando o lábio, e ele entra em pânico. Ele percebe a falha no sistema da tabela de títulos. Ele pensa: pois agora isso pode acontecer comigo a qualquer momento.

A ilusão quebra ali. E qual é a reação genuína dele? Ele não abraça o mistério, ele não busca compaixão pela viúva. A salvação dele, segundo o narrador, vem do pensamento habitual de que isso acontecera com Ivan Illich e não com ele.

?Voz B

Mas é exatamente essa mentira internalizada que permite que a sociedade continue existindo na manhã seguinte.

?Voz A

Mas é uma mentira calcada na pura arrogância, entende? O mecanismo de defesa dele se baseia na negação absoluta da humanidade do outro. Ele se acalma e começa a perguntar detalhes clínicos da morte do Ivan, como se fosse uma, sabe, uma aventura peculiar que só aconteceria com um cara azarado como Ivan e jamais com ele. A morte é reduzida a um azar estatístico do colega de trabalho, não há aprendizado espiritual, Não há nenhuma transformação.

Ele simplesmente apaga o cigarro, dá tapinhas de consolo na mão da viúva e volta para o mundo dos vivos para jogar o sagrado 20 dele intacto. É uma falência completa da capacidade humana de aprender com o espelho que a morte nos estende.

?Voz B

É, eu entendo a sua frustração com a falta de aprendizado espiritual do Piotr, mas eu acho que cobrar a iluminação espiritual desses personagens é pedir o possível diante do medo animal que eles estão sentindo. Você chama de arrogância, eu chamo de pavor melancólico reprimido. A grande genialidade desse primeiro capítulo não é nos fazer apontar o dedo confortavelmente para burguesia atarista e dizer: nossa, olha como eles eram materialistas e ruins, ainda bem que não somos assim.

A genialidade é a armadilha de nos forçar a reconhecer que nós fazemos exatamente a mesma coisa hoje. Todos naquela casa estão encenando uma peça, O sacristão de sobrecasa calendo os salmos com voz professoral, os convidados tirando os casacos na entrada, a filha do Ivan Illich olhando com uma raiva genuína nos olhos. Não é arrogância ali, a filha do Ivan está furiosa porque a morte do pai introduziu a podridão e a mortalidade na vitalidade juvenil dela, que deveria ser protegida.

A covardia humana diante da morte não é um defeito exclusivo de uma classe oprimida pela burocracia, sabe? É uma falha de fábrica da nossa espécie. A gente precisa dos rublos, das vagas na chancelaria, dos puffs e das regras das cartas para fingirmos coletivamente que somos imortais, pelo menos até a hora de dormir.

?Voz A

É uma distinção incrivelmente sutil, eu confesso. A linha entre a arrogância de se sentir imune à tragédia alheia e a covardia paralisante de saber intimamente que você é o próximo da fila é de fato muito tênue. E bom, ao nos aproximarmos do encerramento da nossa discussão de hoje, eu gostaria de sumarizar a visão que me guiou até aqui. Para mim, a força motriz do texto do Tolstói, pelo menos nesse primeiro contato, reside na sua denúncia implacável de uma estrutura social corrompida.

Quando um sistema governamental e social. Como a histórica tabela de títulos russa condiciona as pessoas a verem as outras não como humanos, mas como degraus ou obstáculos para carreira, o luto simplesmente perde o seu espaço sagrado na vida. A dor indizível de uma família é transformada em questão de minutos em um balanço contábil, e a morte perde a sua capacidade de nos ensinar algo profundo. Ela vira tragicamente Apenas um problema logístico chato na agenda daquela noite.

?Voz B

E da minha parte, eu encerro reafirmando que, por mais que a crítica à burocracia e ao sistema czarista esteja presente moldando o cenário, o núcleo duro de A Morte de Ivan Illich é universal porque fala sobre a nossa arquitetura psicológica. A aparente superficialidade daquelas pessoas brigando com as rendas, se arrumando e calculando os salários É o nosso cérebro criando uma rede de segurança no limite do abismo. É a psique humana construindo e se agarrando à rotina para não ser sugada pelo vácuo absoluto que aquela testa encerada do Ivan Illich representa.

Nós insistimos exaustivamente na trivialidade da vida simplesmente para sobrevivermos ao escândalo que é a morte.

?Voz A

É, o que fica muito claro na nossa troca de hoje é que a dinâmica entre Piotr Ivanovich, aquele estoico e irônico Schwartz, e a prática praskovia Fyodorovna, ela levanta questões dificílimas sobre a sinceridade real das nossas emoções. Nós passamos a vida julgando os personagens da literatura por negarem a morte, mas a verdade é que a maquiagem social que eles usam no século 19 é quase indistinguível das nossas próprias máscaras corporativas modernas.

?Voz B

Sem dúvida nenhuma, a obra nos deixa com essa provocação definitiva, sabe? Quando o telefone toca na nossa casa de madrugada com uma má notícia, até que ponto a primeira coisa que cruza a nossa mente de relance não é a logística de como aquilo vai estragar a nossa semana de trabalho? Aquele alívio culposo de aconteceu com ele e não comigo é uma sombra muito universal que a gente não gosta de admitir.

?Voz A

Fica essa grande provocação no ar para todo mundo. A superficialidade diante do fim absoluto é uma falha moral terrível que devemos combater diariamente, ou é no fim das contas a única ponte frágil que a nossa mente tem para continuar caminhando sem enlouquecer? E principalmente, como é que nós reagiríamos se fôssemos nós tentando nos equilibrar naquele puff de molas rebeldes, né? Quero deixar aqui o meu Muito obrigada a todos que nos acompanharam em mais essa exploração fascinante de perspectivas.

Continuem lendo, continuem questionando o que parece óbvio e mergulhando sem medo nas complexidades da nossa própria natureza humana. Até a próxima, pessoal!

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