Episódios de Letras e Logos

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

25 de agosto de 202619min
0:00 / 19:16

Neste episódio a gente atravessa “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, um romance que não se encaixa fácil — e talvez nem deva. Tudo parece começar com uma fala: um relato que avança, volta, se aprofunda. Mas, conforme a narrativa cresce, percebemos que não é só uma história contada; é uma experiência de linguagem.

Guimarães Rosa transforma o sertão em algo mais do que geografia: ele vira pensamento, ritmo e labirinto. Entre jagunços e conflitos, existe uma pergunta constante sobre moral, destino e liberdade — e existe também uma busca formal: palavras inventadas, imagens inesperadas, um estilo que faz o leitor ouvir a própria maneira como o sertão pensa. Por isso, o romance vai além do enredo: ele constrói um modo de perceber o mundo.

Assuntos6
  • A linguagem subversiva de Guimarães Rosa como ferramenta metafísica ou psicológicaGrande Sertão: Veredas·João Guimarães Rosa·Estilo literário·Metafísica·Psicologia
  • A linguagem como reflexo da mente traumatizada do narrador RiobaldoRiobaldo·Trauma psicológico·Oralidade·Sintaxe fraturada
  • A construção do diabo e a repressão dos desejos de Riobaldo por DiadorimDiadorim·Riobaldo·Desejo homossexual·Pacto mefistofélico·Repressão psicológica
  • A revelação final de Diadorim como mulher e o impacto no RiobaldoDiadorim·Riobaldo·Trauma·Cosmologia moral·Luto
  • A erudição de Guimarães Rosa e a intencionalidade de sua linguagemJoão Guimarães Rosa·Diplomata·Multilinguismo·Norma padrão da língua portuguesa
  • O sertão como espaço físico e alegoria filosófica na obraSertão·Ontologia·Alegoria·Viver é muito perigoso
Transcrição71 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Sabe, quando a gente olha para um mapa topográfico, a gente espera uma precisão absoluta. Uma linha azul contínua significa água, uma série de curvas fechadas significa uma montanha. Você aponta o dedo e diz, olha, a realidade física tá exatamente aqui.

?Voz B

É, mas aí você abre a primeira página de Grande Sertão Veredas, do João Guimarães Rosa, e esse mapa literário cognitivo simplesmente derrete nas suas mãos. A cartografia vira neblina pura.

?Voz A

Exatamente. Hoje a gente vai mergulhar nesse labirinto que é indiscutivelmente uma das obras mais complexas da literatura mundial. E a nossa discussão hoje centraliza em uma pergunta bem específica.

?Voz B

Sim, a gente quer analisar a intenção estilística do autor. Tipo, essa linguagem radicalmente subversiva atua primariamente como uma ferramenta metafísica para elevar o sertão a um mito universal sobre Deus, o diabo e a existência?

?Voz A

E eu, por outro lado, será que essa quebra constante da sintaxe funciona fundamentalmente como um espelho psicológico, um reflexo fraturado da mente traumatizada e cheia de culpa do narrador, o Rivaldo? Eu defendo firmemente a primeira opção. As escolhas do Rosa servem a um propósito eminentemente filosófico. Ele precisava forjar uma língua nova pra dar conta do insondável.

?Voz B

E eu pego exatamente o caminho inverso. Pra mim, a genialidade absurda dessa intenção estilística é visceral, mundana e profundamente psicológica. É o artifício perfeito pra simular a oralidade de um ex-jagunço tentando justificar, de forma bem falha, os próprios banhos de sangue e os amores que reprimiu.

?Voz A

Bom, pra gente começar começar a desembolar esse novelo, a gente tem que lembrar quem tava segurando a caneta, né? O Guimarães Rosa não era um mero contador de causos colhendo histórias na beira da estrada para fazer transcrição regionalista.

?Voz B

Longe disso, ele era um diplomata de carreira.

?Voz A

Exato, um erudito formidável. A nota do editor sempre destaca isso. Ele dominava tipo 13 idiomas: russo, húngaro, sânscrito, latim clássico, Então a recusa dele em seguir a norma padrão da língua portuguesa nunca foi um descuido, foi um projeto arquitetônico.

?Voz B

Ah, com certeza. Eu reconheço totalmente a erudição dele. Essa bagagem toda de idiomas e vocabulários marginais é a fundação, a caixa de ferramentas dele. Mas olha, eu discordo frontalmente sobre qual era o alvo desse uso magistral.

?Voz A

Como assim?

?Voz B

Pra mim, a língua culta e polida Era, pequena demais pra vastidão conceitual que ele queria debater. Quando o Riobaldo solta que o diabo vige dentro do homem, ele tá desconstruindo a linguagem pra debater a ontologia do mal e o destino da alma. Mas o brilho monumental do livro não tá lá nas nuvens tentando alcançar um absoluto metafísico. Tá na imersão psicológica aqui embaixo, sabe? Na poeira. A estrutura toda do livro é um longo e errático monólogo de um homem mais velho, numa varanda falando com aquele forasteiro letrado, tal do senhor.

Isso, o senhor. E o estilo do Rosa, repleto daquelas hesitações contínuas, tipo o emem emem, as voltas e redundâncias da fala, é a mecânica exatamente do Riobaldo operando em tempo real. A sintaxe é fraturada porque a mente dele tá fraturada.

?Voz A

Você tá diagnosticando ele?

?Voz B

É estresse pós-traumático clássico. Ele viu cabeças rolarem, cometeu atrocidades Essa linguagem não é um veículo pra filosofia pura. É uma ferramenta narrativa brilhante pra emular os mecanismos de defesa diante de memórias insuportáveis.

?Voz A

Olha, eu entendo essa visão da psicanálise, mas vamos olhar pro microscópio dessa linguagem por um instante. Pega a primeiríssima palavra do romance: no nada. Ele não diz simplesmente, ah, não é nada, o que seria o coloquial comum pra afastar um assunto incômodo.

?Voz B

Mas o coloquial seria raso demais pra dor dele.

?Voz A

Exatamente, ele aglutina, ele funde as palavras. Ele cria visual e foneticamente um buraco negro de sentido logo na abertura. O próprio editor aponta que o Rosa queria igualar a invenção do neologista à rusticidade do analfabeto. Ele eleva o erro gramatical à categoria de mito originário.

?Voz B

Só que, veja bem, o nonada é o exemplo perfeito do meu ponto. O Rivaldo começa o livro dizendo não é nada. E, ironicamente, passa as próximas 600 páginas angustiadas tentando provar que aquilo é, na verdade, tudo. A psicologia do trauma opera exatamente nessa negação inicial.

?Voz A

Você acha que ele tá só se esquivando.

?Voz B

Totalmente. A pessoa senta na cadeira e diz, ah, não foi nada demais. Mas foi a coisa que destruiu a vida dela. A quebra intencional das regras gramaticais Serve fundamentalmente pra espelhar a desorientação do próprio Riobaldo. Observe o fluxo da memória dele. Ele vai e volta, repensa, desvia do foco.

?Voz A

Mas e a riqueza do vocabulário novo?

?Voz B

Os neologismos absurdos acontecem com mais frequência justamente quando ele tá se aproximando de um fato vergonhoso. As palavras se contorcem porque ele tá tentando dobrar a própria culpa e transformar massacres em lições morais do universo.

?Voz A

Pera aí. Deixa eu ver se consigo seguir o seu raciocínio até o fim. Você tá me sugerindo que todo esse léxico transcendental do Rosa, essa poesia que a crítica universitária discute há décadas, é essencialmente uma camuflagem psicológica do personagem? Uma espécie de fuga?

?Voz B

Não é que o Rosa escreveu isso como um truque barato, sabe? Mas a genialidade dele foi dar ao personagem essa capacidade de intelectualizar o próprio desespero como forma de fuga, sim. A mente humana não conjuga sujeito e predicado com perfeição quando revive o cheiro de sangue. Ela engasga.

?Voz A

É uma leitura contundente, admito. Eu entendo como a oralidade sustenta a ilusão de um homem no divã, mas eu vejo um problema grave nela. Reduzir a obra a um grande laudo psiquiátrico esvazia muito do que o livro claramente tenciona ser filosoficamente. O texto grita abstração, Onde você vê essa abstração esvaziada pela psicologia? No macro do livro. Pensa no próprio sertão, o espaço físico. Na sua visão, esse espaço é só um gatilho de horrores por Rivaldo, mas ele constrói o cenário fornecendo chaves puramente ontológicas.

A conclusão mais famosa da obra não é sobre a dureza do solo. É: sertão é dentro da gente. Isso atua como alegoria.

?Voz B

Uma alegoria? Você realmente acha que assecas e tiroteios são só alegoria?

?Voz A

Pense naquele momento longo e reflexivo em que ele para diante de uma cachoeira. Ele não avalia a cachoeira taticamente como um jagunço que quer fugir. Ele começa a se perguntar: se você retira o barranco, a cachoeira ainda existe? Ou se você retira a água, o que ela vira?

?Voz B

É um desvio da mente dele.

?Voz A

É investigação sobre a essência do ser. É filosofia clássica injetada na veia de um homem rude. Quando ele lança o célebre bordão viver é muito perigoso, ele não tá avisando que o bando inimigo pode estar atrás do arbusto. Ele tá fazendo uma constatação metafísica sobre o livre-arbítrio.

?Voz B

Ah, eu confesso que acho fascinante a elegância com que você defende isso, mas eu não consigo aceitar de jeito nenhum a ideia de que a materialidade, a terra e o sangue sejam apenas um pretexto abstrato. O enredo depende estritamente dessa geografia violenta que ele descreve com realismo assustador.

?Voz A

Mas as constatações morais dele transcendem a terra.

?Voz B

Não transcendem, elas nascem dela. Quando ele balbucia que viver é muito perigoso, não é porque ele leu Platão e tá pensando na essência da vida. É porque a ameaça de tomar um tiro de chumbo é real e tangível. Pensa no Rio Urucuia, na travessia impossível do deserto do Liso do Sussuarão. A brutalidade do ambiente dita a humanidade deles.

?Voz A

Mas como é que o Riobaldo sobrevive mentalmente a essa brutalidade toda?

?Voz B

Esse é exatamente o ponto. Ele sobrevive mentalmente precisando criar esses pensamentos que você chama de ontológicos. A identidade desse homem tá fundida na terra rachada. Jagunço é o sertão. Se ele para e filosofa sobre cachoeiras, é porque o terror ao redor exige um refúgio mental.

?Voz A

Então a metafísica é só um escudo.

?Voz B

Exato, ela funciona como um subproduto psicológico da necessidade de justificar porque ele degolou um rival. O sol ardente, a fome e as doenças vêm primeiro. A reflexão teológica é o curativo que ele aplica em cima das feridas pra não perder a sanidade.

?Voz A

Eu compreendo o peso da sobrevivência aí. Mas observe a forma peculiar como ele processa as tragédias cruas. Lembra do episódio do menino Valtei, o filho do Pedro Pindô? Uma criança miúda, mas que já demonstra um prazer sádico na crueldade. Ele gosta de ferir animais.

?Voz B

Lembro, é uma passagem bem sombria.

?Voz A

Se a sobrevivência e a violência fossem a única lente, o Riobaldo concluiria que o meio fez a criança assim. É a leitura determinista básica. Mas ele recusa isso. Ele busca o guia espiritual dele, o compadre Kelemen, e entra numa espiral sobre reencarnação imaginando que certas almas já nascem do breu.

?Voz B

É, mas ele faz isso para tentar dar um contorno lógico àquilo que ele não consegue entender de forma racional. A maldade inerente apavora ele.

?Voz A

Mas a busca dele é pelo maquinário divino. O mesmo acontece com o fazendeiro Aleixo. O homem comete um assassinato. Dias depois, misteriosamente, todos os filhos pequenos dele ficam cegos. Rivaldo não aceita que seja uma epidemia comum de tracoma. Ele se debate contra a justiça de Deus.

?Voz B

Ele entra num pânico moral.

?Voz A

Sim, ele questiona se, sendo castigo, que culpa os menininhos tinham. A indignação dele não é geográfica, é teológica. Ele quer entender a balança entre Deus e o diabo. E acho que isso nos lança na questão central das personagens: o místico que diga o diabo e, claro, O Diadorim.

?Voz B

Exatamente. Se a gente quer falar de mecânica narrativa, Diadorim e o que diga formam a espinha dorsal de tudo. E aqui, no coração do romance, que a perspectiva psicológica não apenas ganha força, ela se torna inquestionável para mim. Toda essa obsessão cósmica com o diabo é uma construção psicológica para evadir da responsabilidade, para evadir da responsabilidade e dos seus desejos mais íntimos. Pensa no ambiente: o Riobaldo é um guerreiro num bando letal, hipermasculinizado, onde a fraqueza é punida com a morte.

E no meio disso, ele percebe que os olhos verdes do seu amigo, o jagunço de Adorim, são a coisa que ele mais ama no mundo.

?Voz A

E você acha que o pânico do pacto vem daí?

?Voz B

Totalmente! O pânico não vem de enxofre ou chifres, vem da repressão visceral desse desejo homossexual e da covardia em assumir os próprios sentimentos. Ele constrói a figura do diabo para externalizar a confusão. Veja a cena das Veredas Mortas, onde ele supostamente faz o pacto mefistofélico.

?Voz A

A famosa noite de ventania à meia-noite.

?Voz B

Isso. E o que acontece concretamente ali? Ele chama e nada aparece. Mas a partir desse momento, ele adota a premissa de ter vendido a alma para se dar a permissão de ser violento e afastar a ternura proibida que sentia pelo Deadorim. É a desculpa definitiva de quem culpa os demônios pelo que fez com o próprio livre-arbítrio.

?Voz A

Olha, eu confesso que a imagem de um Riobaldo forjando o mito demoníaco a partir do desespero íntimo é extremamente sedutora. Ela explica muito do desvio da sintaxe. Porém, eu acho que essa leitura possui uma falha crítica, desculpa. Quando você reduz a relação entre eles a um conflito de repressão psicológica, sexual, você arranca a tensão transcendente do texto.

?Voz B

Mas a tensão tá lá, só que focada na psique humana, não nas nuvens.

?Voz A

Mas a hesitação da linguagem quando Deadorim se aproxima não se dá apenas pelo pavor social do jagunço. É porque aquele sentimento desafia violentamente a cosmologia moral inteira do Riobaldo. O amor deles é o verdadeiro campo de batalha literário entre a pureza e a corrupção do mundo material.

?Voz B

Uma idealização para não tocar na realidade.

?Voz A

E a revelação final corrobora a tese metafísica de modo impressionante. Depois daquela batalha final terrível contra o Hermógenes, onde Diadorim morre lutando, que o Baldo ordena que lavem o corpo. Então a cena revela que sobre a roupa manchada de sangue havia o corpo de uma mulher, moça perfeita. O maior trauma final dele, se a obra fosse Falando só sobre trauma psicológico, essa descoberta seria quase um truque de novela pra fechar o livro com choque.

Mas nas mãos do Rosa, é a resolução completa da corda bamba metafísica. O assombro do Rivaldo é perceber que ele passou a vida achando que o amor dele é uma anomalia pecaminosa forjada pelo demônio.

?Voz B

Quando na verdade era socialmente aceitável, biologicamente falando.

?Voz A

Exato, segundo as próprias leis divinas que ele acreditava. Aquele amor era a coisa mais legítima do universo. Quando ele grita que a dor não pode mais do que a surpresa, é a surpresa absurda diante do cosmos. O destino esfregou na cara dele que a racionalidade humana é míope e que a providência divina opera por rotas sinuosas.

?Voz B

Mas espera, olha pra dor real ali nessa cena. A descoberta do sexo biológico feminino não traz nenhuma paz metafísica ou iluminação divina ao Riobaldo. Pelo contrário, ela agrava e paralisa o estado psicológico dele pro resto dos dias. Ele tem uma crise, ele exclama, me doendo: Ah, meu amor!

?Voz A

Mas isso não diminui a força do amor, apenas intensifica a perda, né?

?Voz B

Intensifica a tragédia humana que ele não soube administrar. A grande facada no coração do romance é que o impedimento real do amor nunca existiu. Não tinha diabo bloqueando a felicidade. O bloqueio tava duro e absoluto na própria cabeça dele, calcado na covardia e nas amarras da masculinidade tóxica que ele escolheu obedecer.

?Voz A

É uma forma bem trágica de ver a hesitação dele.

?Voz B

Mas é a verdade daquele momento. O Riobaldo idoso perdeu a chance da felicidade porque fugiu das próprias incertezas íntimas. Ele prefere arquitetar longas teses com os padres, discutindo sobre a alma, a ter que lidar com a dor crua de um luto que ele mesmo ajudou a selar por inércia. A linguagem esquiva dele nasce dessa incapacidade de aceitação.

?Voz A

É bom delinear a dor dessa forma, deixa absolutamente evidente porque tantos universitários e críticos devoram essas páginas há décadas. A habilidade fenomenal do Guimarães Rosa reside justamente em fazer o texto suportar a dessas duas estruturas: a da travessia filosófica e a do desmoronamento psicológico da mente.

?Voz B

Sim, o texto aguenta o peso das duas interpretações sem se romper.

?Voz A

Exato. Encaminhando a nossa discussão para nossa linha final, eu reafirmo a minha visão de que a intenção estilística do autor é uma força voltada para uma esfera maior, as quebras da norma padrão e essa fala falhada são fundamentalmente ferramentas líricas e ontológicas para nomear o inefável.

?Voz B

A sua visão do palco universal.

?Voz A

Isso, o sertão tortuoso é o palco onde o homem põe a alma na balança e debate o bem e o mal. A verdadeira travessia nunca foi apenas cruzar vales e chapadões de Minas Gerais, mas o esforço descomunal de vagar pelo mistério moral da existência.

?Voz B

E, da minha perspectiva, eu encerro nossa análise defendendo que a riqueza monumental dessa obra-prima não precisa de respostas divinas ou absolutos míticos. A glória do estilo do Rosa tá na precisão assombrosa com que ele fabrica a ilusão de uma consciência febril. A sintaxe de hesitações emula o esforço tortuoso de um homem buscando racionalizar a violência desenfreada.

?Voz A

E a castração de um amor.

?Voz B

Exatamente. Ele tenta enxergar fantasmas divinos para não assumir a dor concreta que criou com as próprias mãos. A linguagem falha do narrador espelha a angústia psíquica à qual ele sobrevive unicamente pelo ato de narrar o próprio trauma para o forasteiro.

?Voz A

E para você, universitário ou leitor fascinado, que tá provavelmente tentando organizar a cabeça com tudo isso, a grandeza irrefutável do romance é manter viva a faísca das múltiplas abordagens. A riqueza, seja lá por onde você decida traçar o seu roteiro de análise da literatura brasileira, tá justamente no desconforto produtivo. A obra foi feita para o incômodo.

?Voz B

Exato. Se num primeiro contato as páginas do livro parecem ríspidas e difíceis, como a própria vegetação retorcida do Cerrado, é porque o Rosa entrega, junto com as palavras, todo o peso do emaranhado visceral da nossa própria condição. A ausência de respostas fáceis é a força gravitacional desse romance.

?Voz A

Por isso, nosso convite fundamental aqui é que você não fique apenas no discurso secundário sobre a obra. Vá ao texto, faça de fato a sua própria travessia imersiva pelas páginas de Grande Sertão: Veredas. Esbarre propositalmente nos neologismos. Se tentarmos fixar coordenadas exatas da alma humana, É como traçar linhas em águas turbulentas. Não há mapa definitivo, há apenas a jornada incerta por essas rotas escuras. Agradecemos muito por compartilharem dessa exploração literária conosco hoje e até o nosso próximo encontro.

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas | Castnews Index — Castnews Index