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Como o inferno cristão molda nossa justiça

10 de maio de 202633min
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Participantes neste episódio1
J

Jorge Guerra Pires

ConvidadoPesquisador independente
Assuntos6
  • Estado LaicoOrigem e evolução da ideia de inferno · Doutrina da majestade ofendida · Influência do inferno na justiça moderna · Críticas à punição infinita
  • Nicolas Ferreira e Benedita da SilvaAtaques a ministros do STF · Debate sobre porte de drogas · Narcopentecostalismo
  • Determinismo BiológicoCrítica ao livre arbítrio teológico · Determinismo biológico de Robert Sapolsky · Privilégio de classe e biologia
  • Os Nove Círculos do InfernoBudismo e o conceito de Naraka · Justiça restaurativa · Inferno como estado mental
  • Dosimetria da maldadePedagogia do terror · Policiamento de identidade religiosa · Comparação com Tropa de Elite · Nação secular vs. religiosa
  • O Paradoxo de EinsteinCiência, ética e o Deus cósmico
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Meu prado é um coração desperto E os paraísos todos desfeitos Pois velhos mitos foram vendidos Tão barato que eu nem acredito Eu nem acredito

E aquele garoto que ia salvar o mundo, Salvar o mundo, Rezava olhando pro fundo do escuro. Meus santos caíram do pedestal, Meus deuses viraram pó.

Bom, antes da gente pular de cabeça no nosso mergulho profundo de hoje, eu queria dar um recado bem rápido para o pessoal que acompanha a gente. Opa, manda bala.

É que, tipo, os textos incríveis e a curadoria genial que guiam a nossa análise hoje são do Jorge Guerra Pires, PHD. Ele tem um material muito, muito provocativo. Com certeza. Ele tem uma série de livros explorando ciência, religião, política e o mais recente, o Paradoxo de Einstein, já está disponível. Isso.

Tem na Amazon tanto impresso, com entrega Prime, quanto no Kindle, que chega na hora. E também tem o formato audiolivro no Google Play e Google Books. E audiolivro é uma mão na roda. Dá para baixar no celular e ir escutando durante uma caminhada, lavando a louça. É super produtivo. Nossa, salvou a minha vida antes da inteligência artificial. Eu passei a devorar livros. Ah, e uma dica rápida para quem escuta a nossa análise pelo Spotify. Qual é a dica?

configura o app para baixar automático ou coloca o nosso programa nos favoritos. Assim, toda vez que sai um mergulho novo, ele já cai direto na timeline e toca na sequência. Perfeito. E quem prefere o YouTube, é só procurar o canal do Jorge Guerra Pires lá, que o conteúdo também vai automático. Exatamente.

Ok, vamos desenfacotar isso. A gente escuta o tempo todo as pessoas falando que a nossa justiça secular, o nosso código penal moderno, tudo isso é puramente baseado na razão. É o que tentam vender para a gente. Pois é.

Mas se alguém disser que o nosso sistema de justiça roda só na base da ciência e de leis puramente laicas, essa pessoa está contando só metade da história. E olha, dependendo de quem falar, está mentindo mesmo. Sim, a nossa expectativa quando a gente olha para um tribunal é ver uma balança equilibrada. A pena tem que ser exatamente proporcional ao dano que foi causado.

Essa teoria, mas a investigação dos arquivos de hoje aponta para uma realidade bem mais sombria, sabe? Sim, eu fiquei chocada. A nossa justiça roda secretamente num tipo sistema operacional de tortura medieval que a maioria de nós nem percebe que está lá. A ideia do inferno cristão.

E é uma constatação que muda completamente a forma como a gente vê as notícias, a polícia e os tribunais. Com certeza. Quando ouvimos aquela famosa frase de que a civilização ocidental e a nossa justiça derivam do cristianismo, a tendência é a gente concordar balançando a cabeça.

Porque, de certa forma, deriva mesmo, né? Deriva. O problema, e o que vamos destrinchar hoje, é que nós derivamos exatamente a pior parte dessa herança teológica. Nós não pegamos a compaixão. A gente pegou a punição infinita. Exato. E enquanto a gente não entender como isso funciona nas sombras, a nossa justiça vai continuar sendo brutalmente ineficiente.

Então a nossa missão hoje é investigar como uma ideia super antiquada, baseada num crime contra uma entidade infinita, foi traduzida linha por linha para o nosso Código Penal. E para a cultura das ruas também, que é onde a coisa fica feia.

Sim, nós vamos passar pela história, cruzar isso com a neurociência do Robert Sapolsky, olhar para as alternativas do budismo e entender por que a gente precisa extirpar a influência cristã da nossa justiça. É o único caminho para que ela realmente funcione, na verdade.

Mas olha, me tira uma dúvida logo de cara. A ideia de inferno, de uma punição eterna, nem sempre existiu, certo? Não, de forma alguma. É fundamental entender essa cronologia para não acharmos que o inferno é uma regra universal da natureza humana. Como era antes, então?

Se você olhar para a Grécia Antiga, por exemplo, nos textos de Homero, o submundo Hades era apenas um lugar sombrio e entediante. Para onde todo mundo ia. Exatamente. Iam todos os mortos. Não importava se a pessoa era o maior dos heróis ou o pior dos criminosos na Terra. Ah, então o destino era o mesmo para todo mundo. Não tinha tortura? Nenhuma. Não havia essa ideia de retribuição.

A semente do julgamento moral pós-morte começou a aparecer um pouco depois, com filósofos como Platão. Certo. Mas foi a teologia cristã que pegou essa ideia filosófica e a transformou num sistema institucionalizado, de pavor perpétuo e inflexível. Mas por que perpétuo? Tipo, se eu roubo uma maçã, é um crime pequeno. Se eu cometo um assassinato, é um crime enorme. A punição não deveria ter um fim proporcional? Teoricamente, sim.

De onde eles tiraram essa matemática de que qualquer erro pode render um castigo que nunca jamais acaba? Aqui a gente entra no cerne do problema, que foi moldado ali pelo século IV e sistematizado por figuras como Santo Agostinho.

Ah, o famoso Santo Agostinho. Ele mesmo. Eles precisavam justificar teologicamente essa punição infinita. E para isso, usaram a doutrina da majestade ofendida. Majestade ofendida? Como isso funcionava na prática? Pensem como funcionava a lei na Idade Média. A gravidade de um crime não era medida pelo estrago real que a pessoa causava, mas sim pelo status da vítima que foi ofendida.

Hum, então importava mais quem apanhou do que o soco em si. Perfeito. Se um camponês desse um soco num outro camponês, era uma ofensa menor. Uma briga de bar qualquer. Isso. Mas se esse mesmo camponês desse um soco no rei, ele seria esquartejado em praça pública. A ofensa era multiplicada pela importância da vítima.

Ah, entendi. Então a teologia pegou essa lei feudal e, tipo, aplicou a Deus? Precisamente. A lógica deles é, Deus é um ser de magnitude infinita. Logo, qualquer pecado contra ele, por menor que seja, é multiplicado pela infinitude de Deus. Daí nasce a justificativa legal, digamos assim, para o inferno eterno. O que é fascinante aqui é que esse burato jurídico ainda respinga hoje.

Mas espera aí, deixa eu tentar processar isso com uma analogia, porque na boa essa lógica não faz o menor sentido. Fica à vontade. Vamos pensar. Se Deus é verdadeiramente infinito, onipotente e totalmente invulnerável, como é que um ser humano minúsculo, vivendo algumas décadas num grão de poeira cósmico, consegue ofendê-lo de verdade? É uma ótima pergunta.

Tipo, se eu sou uma gota de água e o oceano é infinito, eu não consigo machucar o oceano. Punir eternamente alguém que não tem sequer a capacidade de te causar um arranhão não soa como justiça. Soa como o quê? Soa como uma mera reafirmação de poder absoluto, um narcisismo gigantesco de uma instituição que quer manter o controle. É uma percepção cirúrgica da sua parte. A punição nesse modelo perde completamente qualquer caráter pedagógico ou de correção.

Vira puramente sobre vingança e demonstração de dominância, né? Sim. O problema é que isso não ficou preso lá no século IV. Os documentos mostram debates jurídicos onde essa exata argumentação ainda é usada hoje para justificar por que o sistema precisa ser tão duro. Sério? Como assim? Há defensores que comparam um atentado contra um cidadão comum e um atentado contra um juiz supremo para validar essa majestade ofendida nos dias de hoje.

Mas isso não tem um furo jurídico enorme. Quer dizer, um juiz moderno recebe uma proteção extra, penas maiores contra quem o ataca, porque ele é a encarnação de um contrato social, certo? Sim. Essa é a base do direito secular. Ele representa as regras que nós, como sociedade, concordamos em seguir para não nos matarmos. E um juiz continua sendo um humano de carne e urso, que pode ser ferido ou morto. A religião não tem esse contrato social assinado por todos.

Perfeito. O argumento religioso falha miseravelmente no mundo contemporâneo porque ele impõe, na força bruta, que o Deus cristão tem jurisdição sobre todas as pessoas. Mesmo sobre aquelas que nasceram em outras culturas. Ou que simplesmente não reconhecem essa autoridade. Ele atropela o contrato social e diz, as minhas regras se aplicam a você, pelo medo, quer você acredite ou não. É quase uma máfia cósmica.

É uma transposição da teologia punitiva para a política humana. E essa é a raiz de muitas crises institucionais que vivemos hoje. E já que a gente tocou em política humana, aqui é que a coisa fica realmente interessante. Precisamos falar sobre como isso se manifesta na nossa corte mais alta.

O STF. Isso. E vale lembrar aqui, para quem está nos ouvindo, que nós não estamos tomando partido político ok. Nem de direita, nem de esquerda. O nosso papel aqui é puramente analisar os argumentos trazidos pelas fontes sociológicas. E os dados são bem claros sobre isso.

Pois é, o material aponta que essa onda recente de hostilidades e ataques de alas fundamentalistas contra ministros do STF é assustadoramente familiar com tudo que acabamos de discutir. Sem dúvida. O fenômeno que os textos relatam é que, na visão desses grupos mais radicais, quando o juiz toma uma decisão técnica baseada na Constituição,

Mas que contraria a ideologia moral ou religiosa do grupo? Exato. Quando isso acontece, esse juiz deixa de ser visto como um funcionário público. Ele passa a ser rotulado literalmente como um demônio a ser combatido. Nossa, a discordância jurídica não é vista como um erro técnico, né? Ela é sentida como um ataque direto à divindade daquele grupo. É a doutrina da majestade ofendida operando a todo vapor em pleno século XXI.

E isso acaba justificando na mente deles agressões, ameaças de morte, violência física. Eles se veem como anjos vingadores protegendo o sagrado. Eles não estão atacando o Estado na cabeça deles, estão defendendo Deus. Isso gera uma inversão de valores colossal no sistema de justiça.

E o exemplo da discussão sobre o porte de drogas que tem nos textos ilustra isso de forma brilhante. Aquele debate sobre a necessidade de ter critérios objetivos para separar o que é usuário e o que é traficante de maconha. Onde o ministro Alexandre de Moraes apresentou dados mostrando o óbvio, né? Sim, que sem uma regra clara de quantidade, o racismo estrutural da polícia opera livremente.

O jovem negro e pobre da favela, com pouca quantidade, é jogado no inferno do sistema prisional como traficante. Enquanto o jovem branco e rico dos bairros nobres, com a mesma quantidade, volta para casa como usuário. Era uma medida puramente técnica para evitar a destruição de vidas. E como a sociedade religiosa reage a isso? Reage com um moralismo punitivo.

Em vez de apoiar uma medida que reduz o sofrimento humano palpável, a reação é desejar a condenação do tribunal. A justiça teológica não avalia a redução de danos na Terra. Ela avalia a submissão ao seu próprio código de pureza, não é? Exatamente. E a hipocrisia é gigantesca. Essa mesma mentalidade canoniza a figura simplesmente por questões de marketing. Como assim?

A gente vê casos mencionados nas fontes, como o do Carlo Acutes, beatificado por criar um site catalogando milagres. Ou reverencia figuras como São Luís, que foi santificado mesmo liderando matanças nas cruzadas.

Ou seja, se você é fiel à marca da igreja, você é premiada. Mas se um juiz tenta criar uma regra secular para parar de jogar milhares de jovens negros num moedor de carne, ele é demonizado. É revoltante. A justiça moralista premia a lealdade cega à instituição e pune quem tenta melhorar a vida humana fora do dogma.

E a pergunta que naturalmente surge disso é como uma sociedade inteira aceita prender e punir populações vulneráveis de forma tão desigual e ainda conseguir dormir com a consciência tranquila. Boa pergunta. Qual é a resposta da sociologia para isso? A resposta está na ferramenta mais eficiente de transferência de culpa já inventada pela teologia, o livre-arbítrio absoluto.

Ah, a famosa desculpa de que eles estão na cadeia porque escolheram o caminho do crime ou foram para o inferno porque escolheram pecar. Exatamente. A teologia bate incansavelmente nessa tecla de que o destino final é sempre fruto de uma escolha pura e sem amarras. Só que isso joga para debaixo do tapete todo o contexto histórico e social, né?

Ignora completamente. Nós tivemos séculos de privilégios onde o catolicismo era a religião oficial do Estado, garantindo o monopólio da riqueza para o Melite. Enquanto as pessoas negras escravizadas e suas crenças de matriz africana eram brutalmente criminalizadas. Isso. E é aqui que os conceitos do neurocientista Robert Sapolsky explodem essa ideia de livre-arbítrio no meio.

Cara, essa parte do material é fascinante. Como é que a biologia entra nessa história toda? O Sapolsky traz uma visão de determinismo biológico, embasada em décadas de pesquisa.

Ele argumenta que nós somos, em essência, máquinas biológicas. Certo. Cada decisão que tomamos é o resultado final de uma equação que começou muito antes daquele momento. Tipo o quê? Depende do nível de glicose no seu sangue naquela manhã, da genética que você herdou, do seu ambiente na infância e até da nutrição intrauterina.

Uau! Então o estresse da mãe afeta o bebê de forma definitiva? Sim. Mulheres que sofrem alto estresse devido ao racismo estrutural ou à pobreza extrema liberam hormônios como os glicocorticoidos. O cortisol e essas coisas. Isso. E eles afetam diretamente o desenvolvimento do córtex pré-frontal do feto, que é a exata área do cérebro responsável pelo controle de impulsos e planejamento a longo prazo.

Nossa, eu tô chocada. Portanto, o livre-arbítrio não é uma dádiva mágica igual pra todos. Ele é, na prática, um privilégio de classe. É duro admitir, mas a biologia aponta pra isso. Eu amo a analogia do carro desgovernado que o Sapolsky usa. É perfeita pra explicar isso. Sim, ela ilustra bem a nossa hipocrisia.

Vamos imaginar, pessoal, se um carro perde os freios no meio de uma ladeira e atropela alguém. Qual é a reação da sociedade? Ninguém acha que o carro é moralmente mal. Ninguém diz que o carro tem uma alma corrompida. Exato. Ninguém manda ele para um inferno de carros em chamas para sofrer pela eternidade. A nossa reação imediata é tirar o veículo de circulação, descobrir o que quebrou e consertar os freios. A gente lida com a mecânica do problema.

Então, a grande provocação é por que nós tratamos o ser humano pior do que tratamos uma máquina. É uma provocação dolorosa. Por que o fundamentalismo insiste em afirmar que um jovem da periferia que teve o seu sistema nervoso bombardeado por estresse, fome e violência desde o útero fez uma escolha livre nas exatas mesmas condições que o filho de um banqueiro que cresceu blindado por todas as redes de segurança possíveis? Sabe por quê?

É porque, do ponto de vista do controle social, abraçar essa verdade biológica seria muito custoso para a elite. Ah, porque aí eles teriam que admitir o próprio privilégio. Se aceitarmos que a sorte biológica e social dita grande parte do nosso destino, os poderosos teriam que admitir que o seu sucesso não é apenas fruto do próprio mérito e esforço.

E pior, teriam que assumir a responsabilidade por consertar a base da pirâmide. O livre-arbítrio teológico é a desculpa perfeita para eles não sentirem culpa. Pense num Estado ou num Deus teológico como dono de um labirinto. Ok, estou visualizando.

Ele coloca o indivíduo num corredor estreito, cercado de arame farpado, onde a única saída visível aponta para um abismo. Quando a pessoa inevitavelmente cai, o sistema lava as mãos e diz Opa, eu te dei o livre-arbítrio. A culpa é sua por ter andado para frente.

Cara, isso é muito perverso. E quando essa justiça que só olha para o rótulo do indivíduo e ignora completamente o dano real ou a biologia dele, vai para as ruas, o que a gente vê uma verdadeira pedagogia do terror. Sim, o medo vira a única ferramenta de gestão. E o autor usa exemplos excelentes da cultura pop para nos mostrar como essa teoria é aplicada na prática pelas forças policiais.

Vamos falar sobre aquele episódio da série americana SWAT que está nos textos? Esse episódio da sexta temporada é uma aula sobre como a religião serve como um escudo. O que acontece nele, para quem não assistiu? Temos um policial branco, conservador e cristão investigando um suspeito de um grande esquema de lavagem de dinheiro.

O policial é implacável, indo com tudo para cima do cara. Certo. Mas tudo muda numa fração de segundo quando ele revista o carro do suspeito e encontra uma bíblia no porta-luvas. O olhar do policial muda instantaneamente. Ele imediatamente humaniza o suspeito. Só por causa da bíblia. Só por causa da bíblia. A tensão cai, ele devolve o livro com respeito e acaba agindo com enorme leniência em relação ao crime que estava investigando.

Ou seja, a Bíblia ali não é um livro de reflexão, é um código de barras, é um salvo conduto moral. Uma carteirinha do clube. O dano financeiro que o cara causou para a sociedade simplesmente desaparece porque ele provou que pertence à mesma tribo teológica do policial. É a impunidade justificada pela fé.

Exato. Mas quando a gente traz isso para a realidade do Brasil, essa dinâmica deixa de ser apenas sobre leniência com crimes de colarinho branco e vira uma questão de letalidade. É aí que o texto entra naquele conceito pesadíssimo do narcopentecostalismo, né? Sim.

Olá, esse podcast chamado de Radar Teu, ele tem como foco fazer críticas, com foco mais em notícias, no que está acontecendo, mas também com foco também em críticas.

e nós vamos fazer uma pequena pausa porque eu gostaria de falar um pouco dos meus livros, né? Eu gostaria de falar um pouco, eu tenho vários livros publicados e eu gostaria de sugerir para vocês, acho que é bastante alinhado com esse podcast, o meu livro...

sobre a Revolução Ateísta. A Revolução Ateísta é um livro que fala bastante também dessa questão dos desafios do ateísmo. Enquanto que esse podcast, o nome do livro é A Revolução Ateísta, a última melhoria silenciada. Ele está disponível na Amazon, em formato impresso, audiolivro, que está no Google Books, em Google Play.

e tanto Kindle também, se vocês quiserem, e tem também bastante coisa no YouTube. O segundo livro, que eu acho que também seria bastante alinhado com esse podcast, é meu livro sobre bolsonarismo.

Bolsonaroismo é o maior exemplo na minha visão da influência cristã no espaço público e dos perigos e quando essa influência não tem uma espécie de uma espécie de controle e felizmente nós não temos esse controle no Brasil, então o livro se chama Ciência para o Não Cientista como ser mais racional e cada vez mais irracional, volume 1 Bolsonaroismo, tem o volume 2 também que é sobre religião

Então, basicamente são essas sugestões que eu queria fazer por hoje. Então, espero que vocês estejam curtindo o episódio e bom aprendizado. É uma análise das dinâmicas no Rio de Janeiro e em outras regiões, onde a polícia frequentemente fechava os olhos para traficantes que adotavam uma estética fundamentalista. Aqueles traficantes que pintam passagens bíblicas nos muros da favela. Isso, e usam um jargão evangélico o tempo todo. Então, vamos lá.

A Bíblia vira um escudo territorial. E em contraste absurdo, as forças de segurança muitas vezes focavam sua agressividade em invadir e destruir terreiros de matriz africana.

Terreiros que não ofereciam perigo algum à segurança pública. Nenhum. Mas eles ofendiam a moralidade daquela teologia dominante. Então, a polícia não atua para combater o crime. Atua para policiar a identidade religiosa. O que nos leva à metáfora perfeita do filme Tropa de Elite, que é muito visceral.

Quando o Bob sobe o morro, seja porque um policial deles morreu ou porque o Paba decidiu que quer dormir numa região próxima, como o Estado reage? Fazem uma investigação minuciosa, com peritos coletando digitais para achar o culpado exato. Eles sobem promovendo uma verdadeira carnificina. Vemos aquelas cenas angustiantes de tortura, de saco plástico na cabeça de moradores que não têm nada a ver com o crime.

O foco não é a justiça técnica de punir o culpado. É fazer a geografia inteira sentir o terror. E o BOP nessa analogia atua como o quê? O BOP atua exatamente como o que os textos chamam de cão de guarda do inferno. A majestade foi ofendida, seja a corporação militar ou o representante supremo da igreja, no caso o Papa.

E para restaurar essa aura de autoridade inquestionável, a polícia aplica um castigo coletivo e totalmente desproporcional. Se conectarmos isso com o quadro geral da história da humanidade, a gente percebe um padrão de falha catastrófica. Qual padrão? A invenção do inferno nunca impediu o ser humano de cometer atrocidades. As duas guerras mundiais, por exemplo, aconteceram sob a sombra de nações que eram profundamente cristãs.

A humanidade criou infernos reais e palpáveis na Terra. Então a ideia do inferno não serve para dar segurança para as pessoas. De jeito nenhum. Esse medo da danação eterna nunca foi pensado para proteger você do seu vizinho que quer te roubão. Foi pensado para manter você submisso à autoridade, calado e pagando seus tributos.

E a nossa segurança pública militarizada hoje é o espelho exato dessa lógica de controlar o território através do pânico absoluto, não da justiça. Perfeito. Agora, diante de um quadro tão quebrado, onde a punição infinita falha miseravelmente em trazer paz, a gente precisa se perguntar, existe alguma alternativa? O nosso sistema legal não pode ser só isso.

As fontes sugerem que sim, mas para isso precisamos olhar para fora do nosso umbigo ocidental, para as filosofias orientais, tipo o budismo. Mas peraí, deixa eu fazer o papel de advogada do diabo aqui rapidinho. Se o budismo não tem um Deus sentado no trono distribuindo perdão imediato para quem reza, isso não torna o sistema deles mais frio ou cruel para quem comete um erro? Na verdade é exatamente o oposto, torna o sistema profundamente ético e responsável pelos próprios atos. Então, vamos lá.

O inferno no budismo, conhecido como Naraka, difere do inferno cristão em dois pontos essenciais que mudam tudo. Quais são? Primeiro, ele não é eterno. Segundo, ele não é um tribunal presidido por um Deus furioso querendo vingar o próprio ego ferido. O Naraka é fruto da lei de causa e efeito, o karma.

É tipo a física. Toda ação tem uma reação. Exatamente. Uma pessoa pode sofrer muito tempo lá. Pode ir dependendo da carga que ela criou. Mas tem uma função utilitária. Serve para esgotar a energia negativa da ação que ela causou ao mundo. Ah, então assim que a dívida de sofrimento que você impôs aos outros foi equilibrada, você sai de lá. Isso. É um sistema puramente corretivo de aprendizado. Não um projeto de extermínio moral eterno.

E a linha Zen do budismo leva isso ainda mais longe, né? Eles dizem que o inferno nem sequer é um lugar geográfico no além, para onde você vai depois de morrer. O inferno é um estado mental criado aqui e agora. Tem aquela história clássica, muito mencionada nos textos de filosofia, sobre o samurai e o monge. Ah, essa história é incrível. Conta para o pessoal.

Um samurai muito impaciente e cheio de raiva vai até o monge e exige que ele explique o que é o paraíso e o inferno. O monge ofende o samurai de propósito. O samurai saca a espada para cortar a cabeça do monge ali mesmo. E o monge nem pisca. O monge com toda a calma do mundo olha para ele e diz, é exatamente aqui que se abrem as portas do inferno.

Nossa. Ou seja, o inferno nasce no exato milissegundo em que a sua intenção é causar dano e espalhar o ódio, no tempo presente. Essa perspectiva é genial porque ela tira a responsabilidade das mãos de uma entidade cósmica invisível e coloca diretamente no seu colo, no agora.

E isso me lembra muito daquela analogia maravilhosa da monja Cohen sobre o copo quebrado que as fontes citam no material. É a melhor forma de visualizar o problema do perdão cristão. Exato. Vamos pensar no modelo do fundamentalismo religioso. Uma pessoa pode passar 70 anos da vida dela roubando, enganando, explorando e até matando. Se no último minuto de vida ela se ajoelhar e pedir perdão genuíno a Deus, ela vai para o paraíso, certo?

Para o teólogo cristão, sim. Problema resolvido. A alma está salva. Mas está errado na prática. A vítima que perdeu um filho continua sem o filho. A pessoa que foi roubada continua pobre. O copo foi quebrado. Essa é a grande falha moral do perdão vertical. Exatamente. O chamado perdão vertical, que é a relação privada entre você e a divindade, resolve o seu problema emocional com o além, mas não cola os cacos de vidro que você espalhou aqui na Terra.

E o budismo, por sua vez, obriga o indivíduo a lidar com a realidade do copo quebrado. Ele foca na justiça restaurativa. O importante é o dano horizontal entre humanos. Você tem que consertar o que quebrou na vida real das pessoas. Isso levanta uma questão importante, se você contrastar isso com a lógica teológica moderna. Vemos o tamanho do absurdo que normalizamos. Como assim?

O cristianismo inventou a ideia da dor excruciante sem fim para crimes que são finitos. E pior, muitas vezes aplica essa dor para coisas que nem são crimes e que não têm vítimas reais. Como orientação sexual, por exemplo. Ou simplesmente o ato de questionar o dogma. A desproporcionalidade atinge um nível tão grotesco que os documentos da nossa curadoria trazem um exemplo terrível que a gente presenciou bem recentemente, durante a pandemia de Covid-19.

Ah, o caso envolvendo os indígenas isolados? Sim. Lembra dos missionários que insistiram em invadir as terras de tribos sem nenhum contato prévio com a civilização, com o pretexto de elevar a palavra de Deus? Lembro. Foi um absurdo diplomático e sanitário.

Mas como a própria lógica da teologia opera aí, é um desastre duplo, né? Exato. Pense nas próprias regras dessa religião. Um indígena isolado estaria salvo pela ignorância. Ele não conhece Jesus, logo, um Deus justo não poderia condená-lo ao inferno por não seguir regras que ele nunca ouviu falar.

Faz sentido dentro da lógica deles. Mas, ao forçar a pregação, o missionário introduz a regra. Agora, se o indígena ouvir e rejeitar a mensagem, ele está oficialmente condenado ao inferno espiritual eterno pela teologia. Meu Deus, o missionário cria o risco do inferno onde ele não existia.

E, no mundo físico real, ao fazer esse contato durante uma pandemia global, o missionário levou um vírus respiratório para imunidades virgens, expondo todos eles à morte física por asfixia. É literalmente a loucura de levar uma cura espiritual imaginária e causar uma doença física letal. O missionário tira a proteção teológica e a proteção biológica da tribo no mesmíssimo dia.

Tudo em nome de bater uma meta de expansão territorial para o seu Deus, o proselitismo acima da vida. Isso mostra perfeitamente que quando o sistema é focado apenas em agradar uma autoridade invisível e superior, o bem-estar e a vida humana aqui no presente se tornam completamente descartáveis. A moralidade vira fumaça.

E é essa a grande revelação de juntarmos todas essas pontas na nossa análise de hoje. A ideia do inferno cristão não é só uma alegoria inofensiva que as pessoas acreditam na igreja, ou um mito antigo.

É o sistema antiético que continua a corromper a nossa justiça secular por dentro, como um vírus. É um modelo desenhado inteiramente para punir a desobediência a um soberano todo-poderoso e blindar as instituições de qualquer crítica. E ele moldou a mente dos nossos juízes e policiais.

Enquanto fizermos isso, continuaremos ignorando a realidade da neurociência humana e da biologia. Fecharemos os olhos para a brutal desigualdade social que empurra as pessoas para o crime. E o pior, nunca focaremos na reparação real do dano para as vítimas. O copo vai continuar quebrado. Então, o que isso tudo significa no final das contas? Nós pegamos a pior parte da religião, essa vingança infinita, e vestimos com uma toga de juiz. E chamamos de civilização.

Pois é. Enquanto a nossa segurança pública, os nossos tribunais e o nosso senso de mérito social continuarem operando nessa lógica doentia da majestade ofendida e na pedagogia do medo, não teremos justiça verdadeira. Apenas administraremos um matadouro social com o carimbo oficial do Estado.

Exato. A gente precisa de uma transição urgente para uma ética puramente secular, baseada na redução do sofrimento e na reparação de danos reais, não na vingança. É o único jeito de evoluirmos como sociedade.

E para quem está nos escutando, acompanhando a gente até agora, eu deixo uma última reflexão para vocês levarem para o dia de hoje. Os dados históricos e sociológicos são inegáveis. As nações mais seculares do mundo, onde as pessoas vivem as suas vidas sem o pavor constante de um inferno no além, são exatamente os lugares que possuem os menores índices de criminalidade e violência do planeta.

Em contraste total, os países mais fundamentalistas e intensamente religiosos lutam diariamente contra o derramamento de sangue. O medo do inferno claramente não cria civilidade. Ele cria histeria. Os dados não mentem.

Então, imaginem se acordássemos amanhã em uma sociedade que substituísse completamente a obsessão doente pelo pecado contra o divino, pela responsabilidade irrestrita do dano contra o próximo. Pensem em quantas portas de prisões seriam abertas para restauração em vez da tortura. E quantos falsos santos perderiam a sua blindagem?

Exato. E se fizermos isso, aquele martelo de tortura medieval que guia secretamente as nossas leis, finalmente seria enviado para onde ele realmente pertence, o museu. Pensem nisso.

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