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Revista Ateísta (APCE): Ateísmo vira ferramenta de disputa política

11 de maio de 202626min
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Participantes neste episódio4
D

Daniel Sotomaior

ConvidadoAtivista ateu
G

Glória

ConvidadoAtivista
J

Jorge Guerra Pires

ConvidadoPesquisador independente
M

Matheus Furtado

ConvidadoEditor
Assuntos6
  • Ateísmo e SecularismoTransição do ateísmo filosófico para ativismo político · Ateísmo como ferramenta de disputa política · Ativismo secular e estigmatização midiática
  • Rebaixamento Epistemológico e CulturaDiferença entre folclore e dogma religioso · Privilégio jurídico do cristianismo · Estátua da deusa Yara · Mito indígena da mandioca
  • A Revolução AteístaAnálise do ensaio 'O Despertar do Realismo Político' · Associação Ateísta do Planalto Central (APCE) · Primeira edição da Revista Ateísta
  • Influência digital vs ministério tradicionalIlusão de participação na internet · Medo de retaliação e ação de base · Matheus Furtado
  • Independência Política e InstitucionalObrigatoriedade do ativismo jurídico e trabalho de base · Financiamento de advogados e ocupação de conselhos · Fim da ingenuidade política
  • Grandes Mentes do AteísmoAteu diplomático vs. honestidade intelectual · O caso Daniel Sotomaior · Crítica à isenção fiscal de igrejas
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Meu prado é um coração desperto E os paraísos todos desfeitos Pois velhos mitos foram vendidos Tão barato que eu nem acredito Eu nem acredito

E aquele garoto que ia salvar o mundo, Salvar o mundo, Rezava olhando pro fundo do escuro. Meus santos caíram do pedestal, Meus deuses viraram pó.

Sabe, geralmente, quando a sociedade discute crenças pessoais ou visões de mundo de forma geral, existe uma expectativa meio silenciosa de recolhimento, né? Uhum, total. Tem essa ideia muito enraizada de que a identidade secular ou até a total ausência de crença é algo estritamente íntimo. É tipo algo para ser guardado às sete chaves, sabe? Sim, é quase como um diagnóstico médico de décadas atrás, né?

Exatamente, onde a pessoa e o especialista ficam ali só sussurrando no consultório com as portas fechadas e a vida pública, bom, a vida pública segue intocada. Pois é, e historicamente esse distanciamento da religião sempre foi tratado assim, como uma reflexão solitária.

Um exercício puramente privado, sabe? Mais filosófico. Uma postura contemplativa que não deveria, sob nenhuma hipótese, incomodar a ordem social que já está ali estabelecida. Mas aí a gente entra no cenário do ativismo contemporâneo. E, de repente, essa porta do consultório é simplesmente arrancada das dobradiças. Nossa, sim. É uma ruptura enorme.

A gente passa a observar um momento histórico onde a ausência de crença deixa de ser só uma ponderação existencial, sabe? E se transforma numa ferramenta de disputa política real. É o fim absoluto do sussurro e tipo o começo da era do megafone institucional.

É, eu diria que é a definição exata de uma transição de paradigma. A gente está testemunhando um momento em que a filosofia desce daquela torre de marfim, abandona os debates puramente acadêmicos e decide de fato pisar no barro da política institucional.

Com certeza. E é exatamente essa virada de chave fascinante que a gente vai explorar no nosso mergulho profundo de hoje. Então sejam todos muito bem-vindos. É muito bom estar aqui de novo para mais essa análise. A nossa missão central hoje, para quem nos acompanha, é analisar essa transição do ateísmo puramente filosófico para o ativismo político prático e organizado aqui no Brasil.

E a nossa fonte para isso é excelente, né? Sim. O fio condutor da nossa análise hoje é um ensaio O Despertar do Realismo Político. Ele é de autoria do PHD Jorge Guerra Pires. Esse material faz uma dissecação muito minuciosa da primeira edição da revista Ateísta, que foi lançada agora, em maio de 2026, pela APCE.

Ah, a Associação Ateísta do Planalto Central. Isso, a APC. E um detalhe fundamental para quem está ouvindo a gente, essa revista está disponível para leitura totalmente gratuita nos canais da APC. Os links estão todos na descrição do nosso material. É um registro documental indispensável, sabe? A revista e esse ensaio capturam perfeitamente o espírito do tempo.

É o retrato de um grupo demográfico que simplesmente cansou de pedir desculpas por existir, né? E agora busca ocupar espaço no debate público formal. Exato. E, bom, quem tem o costume de consumir conteúdos mais densos sabe a importância de otimizar o tempo, né? Para conseguir absorver toda essa informação.

Ah, sem dúvida. O volume de informação é gigante. Então, antes da gente mergulhar de cabeça nos detalhes, eu quero só repassar umas dicas muito valiosas de curadoria e consumo de materiais, que vem do próprio autor do ensaio, o Jorge Guerra Pires. Acho ótimo. É super necessário. Para dar um contexto, o Jorge é um pesquisador independente, PhD em bioinformática, com uma trajetória acadêmica, sim, de muito peso.

Sim, ele tem passagens pela Universidade de Láquela, a Universidade Técnica de Gdansk, a UFOP, a USP, o FEBA, a Fiocruz, é um currículo e tanto. Muito forte. E a primeira dica de ouro dele para lidar com esse volume todo de conhecimento é a automação. Ele sugere configurar o Spotify para baixar automaticamente os programas.

Uhum. Ou o macaco como favorito, né? Isso. Porque isso garante que os episódios toquem em sequência na timeline de quem escuta. Assim, nada passa batido.

Nossa, num ecossistema digital onde a atenção é a moeda mais cara, sistematizar o aprendizado desse jeito é quase uma questão de sobrevivência intelectual. Total. E para a galera do audiovisual, que prefere YouTube, todo esse acervo vai automaticamente para o canal dele, que é o Jorge Guerra Pires, PHD. Fica tudo organizadinho lá. Fica.

E falando em aprofundamento, a bibliografia do autor traz umas ferramentas essenciais para essa nossa discussão. Ele tem obras como Seria a Bíblia um Livro Científico, que é o volume 2 de Estudos Bíblicos para Ateus. E o de Bíblia a Fábrica de Absurdos, que é o livro 1. Os dois estão disponíveis na Amazon. Tem aquela entrega Prime gratuita para a versão impressa e no Kindle a liberação é imediata.

E a Amazon tem aquela política de reembolso sem burocracia, né? O que dá uma baita segurança na hora de testar a leitura. Exatamente. Inclusive, esse Seria a Bíblia um Livro Científico tem um audiolivro de mais de 10 horas e é gravado com três vozes diferentes para melhorar a experiência. Está lá no Google Play e no Google Books. É uma super produção.

É sim. Mas o grande destaque que a gente tem que mencionar com muito entusiasmo é o lançamento novo dele. Chama O Paradoxo de Einstein. Ciência, Ética e o Deus Cósmico. É o segundo livro da série Mente Ateísta. E a versão em audiolivro já está no Google Play, né? Já está. Dá para baixar e ouvir offline. Gente, é uma revolução na produtividade literária. Dá para absorver um debate super complexo enquanto se caminha, faz uma comida, lava a louça.

E sabe o que é o ponto crucial sobre o paradoxo de Einstein? O quê? É que a obra, sim, transcende a mera biografia do físico. O cerne desse livro responde a uma angústia cultural muito palpável hoje no Brasil. A questão dos rótulos, né? Isso. A pergunta central é por que figuras públicas renomadas recusam de forma tão terminante o rótulo de ateu? É muito louco pensar nisso.

Sim, porque intelectuais e comunicadores com uma projeção gigantesca, tipo o Leandro Karnal ou até o Drauzio Sarella, preferem navegar por eufemismos. Eles nunca cruzam a linha de assumir uma descrença explícita. Pois é, fica sempre naquela zona cinzenta. E o livro faz um contraste muito brutal sobre isso, usando o ativista Daniel Sotomaior como exemplo.

Exato. O Sotomaior acabou enfrentando um ostracismo midiático bem violento. E do outro lado do espectro, a gente tem figuras como o pastor Silas Malafaia. Que só lembrando o pessoal, chegou a debater ao vivo com o Sotomaior na televisão, né? Sim, na Globo. E olha a diferença de tratamento. O Malafaia pode pedir doações milionárias, sabe? Ele pede aviões para os fiéis em rede nacional. E isso sem sofrer danos irreparáveis à influência dele.

E o ativista secular? O ativista ateu é tratado como um material radioativo pela mídia. Ok, vamos desempacotar isso. Porque essa discrepância de tratamento que você mencionou, ela nos leva direto para o primeiro grande dilema que o ensaio levanta. Que é a questão da comunicação. Isso.

Esse abismo enorme entre o Sotomaior e o Malafaia, ele escancara aquela encruzilhada típica. A escolha entre ser um ateu diplomático, que fica buscando aceitação social a todo custo, e a manutenção da honestidade intelectual absoluta.

É o embete clássico na estratégia de comunicação de minorias estigmatizadas. A pergunta é até que ponto a tentativa de, sabe, suavizar o discurso para se tornar palatável acaba esvaziando completamente a mensagem central que precisa ser dita. A tese que o ensaio defende é claríssima sobre isso.

A diplomacia, nesse contexto específico, ela frequentemente não resolve nada, não gera mudança estrutural. Certo. O argumento central do texto é que não existe uma obrigação de evitar ofensas. Mas existe sim, e de forma muito pesada, a obrigação moral de não desinformar o público.

E o texto usa de novo o histórico do Sotomaior para provar isso, não é? Exatamente. Porque o Sotomaior atingiu marcos que pareciam impensáveis. Tipo conquistar 20 mil apoios no portal e cidadania do Senado. E para propostas polêmicas, né?

Muito polêmicas, coisas como a remoção de símbolos religiosos de repartições públicas e, o principal, a extinção das isenções fiscais para as igrejas. E a análise do ensaio mostra que esse engajamento enorme não foi alcançado pedindo desculpas ou com palavras amenas. Foi com uma franqueza técnica muito afiada.

Nossa, e essa franqueza técnica atua como um verdadeiro catalisador. Como assim? É que, ao abandonar aquele tom de desculpa, o ativismo simplesmente retira a carga emocional que a religião impõe ao debate e passa a focar estritamente no mecanismo constitucional. Ah, faz sentido.

Isso obriga o sistema a debater a isenção fiscal, não como um direito divino inquestionável, mas como política econômica mesmo. Entendi. Fazendo um paralelo aqui para ilustrar a mecânica dessa postura, não é bem aquela velha metáfora do médico dando um diagnóstico duro, sabe? Certo. É mais parecido com a dinâmica de um tribunal. Imagina um advogado que tem a prova em vídeo de um crime. Ele não vai pedir desculpas ao júri antes de exibir as imagens, né? Obviamente não, ele só apresenta os fatos.

Isso, ele só apresenta os fatos. O ativismo puramente diplomático, na visão da fonte, ele age como um advogado com tanto medo de ofender as sensibilidades do júri que ele hesita em mostrar a prova. Nossa, perfeita analogia. A verdade factual não é uma agressão gratuita, né? Exato, ela é a fundação da realidade. E o material cita pensadores que batem exatamente nessa tecla. O prêmio Nobel de José Saramago, por exemplo. Ah, que dizia que Deus era o maior problema dele, né?

Isso, e não só ele. O texto cita a Bertrand Russell, Rick Gervais, o Philip Pullman, todos na mesma linha filosófica de que, numa democracia, não existe o direito de não se ofender. Tem a menção à ativista americana Madeleine O'Hare, também, não tem? Que foi comentada pelo Matt de LaRange.

Olá, esse podcast chamado de Radar Teu, ele tem como foco fazer críticas, com foco mais em notícias, no que está acontecendo, mas também com foco também em críticas. Nós vamos fazer uma pequena pausa, porque eu gostaria de falar um pouco dos meus livros, eu gostaria de falar um pouco, eu tenho vários livros publicados.

E eu gosto de sugerir para vocês, acho que é bastante alinhado com esse podcast, meu livro sobre a Revolução Ateísta. A Revolução Ateísta é um livro que fala bastante também dessa questão dos desafios do ateísmo.

Enquanto que esse podcast, o nome do livro é A Revolução Até Isso, A Última Minoria Silenciada. Ele está disponível na Amazon, em formato impresso, audiolivro, que está no Google Books, no Google Play, e tanto Kindle também, se vocês quiserem. E tem também bastante coisa no YouTube. O segundo livro, que eu acho que também seria bastante alinhado com esse podcast, é meu livro sobre bolsonarismo.

O posicionarismo é o maior exemplo na minha visão da influência cristã no espaço público e dos perigos, e quando essa influência não tem uma espécie de controle, né, e felizmente nós não temos esse controle no Brasil.

Então, o livro se chama Ciência e Planoscientista, Como Ser Mais Racional e Cada Vez Mais Irracional, volume 1, Bolsonaro. Tem o volume 2 também, que é sobre religião. Então, basicamente são essas as sugestões que eu queria fazer por hoje. Então, espero que vocês estejam curtindo o episódio e bom aprendizado.

Tem sim. O argumento é que ela pode até ter dado um olho roxo no movimento pela combatividade dela, sabe? Mas sem essa quebra inicial de decoro, o movimento ateísta não teria saído da estaca zero lá. E o que é fascinante aqui é tentar compreender a raiz dessa ofensa. Por que a mera apresentação de uma lógica secular, sabe, soa como um ataque intolerável? Pois é, porque incomoda tanto.

Do ponto de vista sociológico, o ensaio argumenta que as religiões hegemônicas só sobreviveram milênios porque instalaram, digamos, travas de segurança.

psicológicas nas bases de fiéis. Travas de segurança. Sim. Sim. O mecanismo funciona fundindo a ideia teológica com a identidade pessoal do indivíduo. Ah, entendi. Fica tudo a mesma coisa. Exato. Então, quando a validade lógica de um dogma é questionada, a trava de segurança dispara. O cérebro processa o argumento não como um debate de ideias, mas como uma ameaça à própria existência da pessoa.

Nossa, é muito profundo isso. E o chamado ateísmo direto, ele quebra esse tabu. Ele simplesmente se recusa a validar essa trava de segurança e trata o conceito teológico com o mesmo rigor que trataria qualquer ideologia política.

Mas peraí, sendo advogado do diabo aqui, e me perdoe o trocadilho... Fica à vontade. Se a gente aplicar esse ateísmo direto e, digamos, retirar um crucifixo centenário da parede de um tribunal lá em Minas Gerais... Que foi algo que o Sotomaior tentou fazer no Supremo Tribunal Federal, o STF. Sim, foi um caso famoso. A gente não corre um risco real de apagar a herança arquitetônica e cultural do país...

onde exatamente o ensaio traça a linha entre o que é cultura genuína e o que é dogma protegido por lei. Olha, esse é um ponto crucial. Aqui é que a coisa fica realmente interessante, como você gosta de dizer. Opa! Adoro essa parte. O centro da análise é desmascarar o fato de que o Estado usa a palavra cultura como uma, sabe, fronteira de conveniência política. E isso nos leva a um dos conceitos mais poderosos da revista ateísta. Qual seria?

O conceito de rebaixamento epistemológico. Essa expressão é fantástica. Rebaixamento epistemológico. Como o texto aplica isso na prática?

O ensaio traz uma comparação visual jurídica que é muito difícil de rebater. Eles usam o exemplo da estátua da deusa Yara. Certo. Lá na praia da Bica, que é posicionada estrategicamente logo em frente a uma igreja católica. Ou também citam o mito indígena da mandioca. O Estado brasileiro obviamente não nega que esses mitos de matriz indígena ou africana existam na sociedade.

mas eles os rebaixam ativamente do ponto de vista do conhecimento. De que forma? As validades desses mitos são categorizadas juridicamente apenas como folcore, lendas, sabe, ou crendices. E o cristianismo não entra nessa caixa.

De jeito nenhum. E é aí que está a simetria. O mito cristão possui a mesmíssima estrutura narrativa sobrenatural e impossível de ser falseada, certo? Sim. Mas ele recebe um tratamento jurídico diametralmente oposto pelos ministros do STF. Ele é blindado e elevado à categoria de patrimônio cultural histórico inquestionável. É o escudo da tradição.

E essa dualidade cria um abismo jurídico absurdo, né? Absurdo. Porque a provocação do ensaio de tratar o cristianismo estritamente como a folclore do Império Romano vai muito além da retórica.

Exato. O material equipara, em termos de método científico, a validade lógica de uma oração à leitura de cartas de tarot. Mas não é para ser uma mera provocação vazia, né? A questão é expor o privilégio.

Se a gente conectar isso ao quadro geral da análise deles, fica bem claro que não é provocação pela provocação. É honestidade intelectual estrita. É simplesmente aplicar à narrativa da pomba do Espírito Santo o mesmíssimo ceticismo pacífico que já se aplica à lenda da deusa Yara. O objetivo é desativar o escudo do sagrado.

E vale ressaltar para quem nos ouve, deixando bem claro aqui, que o ensaio não está julgando o valor espiritual que cada pessoa tira das suas crenças privadas. Nós estamos apenas relatando a análise jurídica que o texto faz. Perfeito. O foco deles é o mecanismo legal. Quando a sociedade rotula algo de folclore, essa narrativa perde acesso aos cofres públicos. E quando rotula de sagrado, vira imunidade.

Exato. Cria-se um escudo que converte um símbolo puramente metafísico em privilégios tangíveis, garantindo isenções fiscais bilionárias. Agora, se o Estado possui esse poder assustador de blindar ideias abstratas com força de lei...

Essa blindagem não afeta só impostos ou decoração de praça pública. Longe disso. Eventualmente, essa força desce do campo abstrato e impacta diretamente os corpos das pessoas. E aqui o ensaio faz uma transição brilhante, que eu achei fantástica, para a intersecção entre o ateísmo e o feminismo.

Ah, sem dúvida. É nessa fronteira que o debate deixa de ser teórico e se torna uma questão literal de direitos reprodutivos e sobrevivência física. O material disseca um artigo escrito pela ativista Glória chamado Ateísmo e Feminismo, que está lá na revista. Um texto riquíssimo, aliás. Muito.

O texto não se limita a dizer, sabe aquele clichê de ah, religião é ruim para as mulheres. Ele mapeia mesmo a mecânica de como as religiões monoteístas fundamentam toda a estrutura do patriarcado. A lógica monoteísta baseada numa figura divina masculina e patriarcal não é só espiritual, né? Não, ela opera como um manual de controle. Ela usa dogmas de pureza para ditar leis sobre a autonomia do corpo feminino, criminaliza escolhas.

E a resposta que a Glória propõe a esse maquinário de controle é a urgência da saída do armário teísta. Como assim, na prática? Ela argumenta que as mulheres ateias precisam assumir o protagonismo público, sabe? Para quebrar de vez aquela caricatura do ateu chato.

Ah, aquele estereótipo do cara isolado num fórum de internet. Exatamente. A proposta bela é estruturar um feminismo racionalista, muito focado no método científico e numa laicidade absoluta do Estado. E o mais impactante dessa sessão é a prova de que essa abordagem prática funciona. O ensaio celebra uma vitória estratégica muito real da própria Glorinha, atuando lá pela APC. Essa vitória foi um marco.

Sim, ela conseguiu a inclusão formal do ateísmo nas cartilhas de atendimento das delegacias de Brasília, especificamente na DECRIN, que é a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação. E o texto defende que essa integração devia servir de modelo para o Brasil inteiro, né? Como um escudo real contra a violência religiosa.

Isso. Mas me surge uma dúvida. Se a gente considerar o tamanho da máquina do Estado, por que uma vitória localizada numa delegacia regional é tratada como um marco tão maior do que vencer um grande debate teórico na internet? Que pautas abstratas, sabe, como conceito de Estado laico puro, são muito frias. Ficar debatendo epistemologia raramente atrai ou mobiliza as massas que estão lidando com problemas reais.

Entendi. Falta conexão com o dia a dia. Isso. Mas quando o ativismo conecta a falta de laicidade à violência doméstica ou a criação de um protocolo objetivo de polícia que protege vítimas de líderes religiosos abusivos, a urgência muda. O jogo muda. Faz todo sentido.

A cartilha dá para os policiais uma lente secular para lidar com a denúncia, retirando a culpa teológica da vítima. Isso é o que a revista chama de ativismo propositivo. Que é sair das tretas de internet e ir resolver problemas da comunidade. Exatamente. É usar a teoria para proteger corpos no mundo real. Mas olha só.

Se a gente tem comprovações de vitórias reais como essas da Decrim, se a lógica racionalista funciona e a demanda por um Estado laico existe, porque é tão absurdamente difícil fazer essa lógica escalar no Brasil? Porque a gente não consegue aprovar mudanças nas leis lá no Senado com essa mesma eficácia?

Essa pergunta toca na maior dor de crescimento da era digital que o ensaio relata. E a resposta passa pelo abismo colossal entre o engajamento virtual e a ação institucional. Nossa, o texto fala muito sobre isso através do editorial do Matheus Furtado, né? Sim, o Furtado faz uma radiografia esmagadora dessa diferença entre dar um like e ter eficácia política. É, ele descreve como as propostas lá no portal e-cidadania geram uma euforia imensa na bolha da internet.

Batem as assinaturas rapidinho, né? Em dias. Mas aí, quando chegam nas comissões do Senado, morrem silenciosamente nas gavetas. E ele argumenta que a internet construiu uma ilusão de participação. Porque o like é cômodo, é passivo, é anônimo. Exato. Compartilhar um meme criticando isenção de igreja não traz risco nenhum.

Mas exigir que a pessoa vá num portal do governo, coloque o CPF lá e assine uma petição contra hegemonia religiosa, isso intimida muita gente. O medo de retaliação é muito real, principalmente em cidades menores ou no ambiente de trabalho. E os senadores sabem disso perfeitamente. O sistema ignora tendências de internet porque sabe que um like anônimo não se traduz em poder de voto organizado.

Então, o que tudo isso significa para o movimento? Qual é a solução que a ápice e o autor do ensaio propõem para essa paralisia? A solução é dura, mas necessária. O realismo político e a institucionalização. O famoso trabalho de base. Exatamente. O realismo político é aceitar que o conservadorismo e a bancada evangélica nunca vão ser vencidos apenas pela lógica pura, por mais irrefutável que ela seja.

Não adianta só ter razão. Não adianta. O sistema só cede com ativismo jurídico constante, financiamento de advogados e a ocupação sistemática de conselhos e tribunais. O Estado ignora indivíduos indignados. Mas ele é forçado a negociar com o CNPJ organizado.

É a constatação brutal de que figuras heróicas individuais não bastam mais. A verdade factual precisa de advogados e de uma estrutura formal para se tornar lei no país. Precisamente. É o fim da ingenuidade política. Bom, a gente destrinchou muita coisa profunda hoje. Foi intenso.

Para amarrar isso tudo de forma clara para quem nos escuta, qual seria o grande recado do ensaio? O recado é que essa discussão vai muitíssimo além da crença pessoal ou se Deus existe ou não. O que está em jogo aqui é como essas narrativas culturais decidirem o que é folclore, o que é sagrado, ditam quem paga imposto nesse país. Ditam o que é ensinado como fato nas escolas e determinam, no fim das contas, quem tem autonomia sobre o próprio corpo dentro de uma democracia.

Excelente síntese. É realmente sobre o poder operando por trás da cortina da tradição. Com certeza. E para encerrar, pessoal, eu quero deixar uma semente para a reflexão de vocês, baseada em tudo que a gente debateu hoje. Adoro essas provocações finais.

Se o nosso Estado, que tem o dever constitucional de ser totalmente laico, depende de forma tão sistemática de usar o rótulo de tradição cultural só para manter símbolos de uma única religião nos espaços de poder, a que ponto a palavra cultura deixou de representar a nossa diversidade e se tornou apenas um disfarce jurídico aceitável para encobrir uma inconstitucionalidade flagrante? Fica aí o questionamento.

Fica essa provocação para vocês digerirem depois que a gente se despedir. Continuem questionando a estrutura das narrativas que moldam a nossa sociedade e até o nosso próximo Mergulho Profundo.

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