O Cristianismo como “Cultura”: O drible da religião no Estado laico
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- Cultura Contemporânea vs. Fé CristãLei 14.969 de 2024 e música gospel · Drible semântico e Constituição · Proibição de financiamento de cultos · Acesso a recursos públicos via Lei Rouanet
- Ateísmo e SecularismoReligiões monoteístas como base do patriarcado · Autonomia feminina e direitos reprodutivos · Ateísmo como urgência de saúde pública · Glória, ativista de Brasília
- Papel da oposição na democraciaProteção da pluralidade · Risco de tirania da maioria · Defesa do direito de não acreditar
- Direito internacional e RealpolitikFascistização e fundamentalismo religioso · Crítica à militância de sofá · Caso E-Cidadania e STF · Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI)
- Contextos Históricos e EspirituaisAnalogia com escravidão e patriarcado · Dívida artificial e imposição de visão de mundo · Diversidade brasileira vs. estética europeia
- Nivelar o jogo intelectualCrítica à hipocrisia social · Rebaixamento epistemológico · Comparação entre rezar e ler tarot · Estátua da Iara vs. igreja católica
Meu prado é um coração desperto E os paraísos todos desfeitos Pois velhos mitos foram vendidos Tão barato que eu nem acredito Eu nem acredito
E aquele garoto que ia salvar o mundo, Salvar o mundo, Rezava olhando pro fundo do escuro. Meus santos caíram do pedestal, Meus deuses viraram pó.
Normalmente, quando a gente pensa em patrimônio histórico ou em cultura nacional mesmo, a imagem que vem na cabeça é algo super tangível, né? Sim, uma comida típica, uma dança. Exato, uma casa colonial de janela azul ou uma festa popular na rua. É algo visível, algo que a gente consegue categorizar fácil e colocar num museu, se quiser.
É confortável pensar desse jeito, porque os limites são muito claros, sabe? O ser humano gosta muito de coisas que ele pode só apontar o dedo e dizer olha isso aqui é um fato histórico, isso aqui é puramente cultural. Pois é. Mas a nossa provocação de hoje começa exatamente quando essa linha, bum, desaparece. E quando a gente entra no mundo da burocracia, tipo das leis aprovadas no Congresso e até das crenças mais íntimas das pessoas. É aí que o bicho pega. Sim.
De repente, aquela fronteira nítida que separava um fato histórico de um dogma religioso simplesmente evapora. E a gente passa a olhar para um cenário que, para ser muito honesto, parece incrivelmente engenhoso e, ao mesmo tempo, meio assustador.
Nossa, é a definição absoluta de águas turvas e institucionais. E navegar por essas águas, especialmente quando envolve o orçamento do Estado, dinheiro público mesmo, exige um rigor técnico gigantesco. Com certeza. E é exatamente esse o nosso ponto de partida. Então, boas-vindas a quem está nos acompanhando em mais esse Mergulho Profundo.
Olá, pessoal! A nossa missão hoje é desempacotar uma intersecção que é fascinante, mas super complexa no Brasil contemporâneo. É o ponto exato de colisão entre religião, política, cultura e ceticismo. E tem muita coisa para falar sobre isso. Tem.
A gente vai investigar como dogmas milenares estão sendo meio que empacotados como leis agora, na atualidade. E como um movimento bem estruturado de céticos está tentando garantir que a razão, a laicidade, não desapareçam do nosso espaço público.
E toda a base dessa nossa conversa de hoje vem de uma curadoria muito rigorosa feita pelo Jorge Guerra Pires, PhD. Ele é um pesquisador independente, escritor, com uma trajetora longa em lugares como USP e Fiocruz. E o material central que ele traz para a gente hoje é a edição de maio de 2026 da Revista Ateísta.
É publicada pela Associação Ateísta do Planalto Central. E antes da gente mergulhar de cabeça nisso, eu acho fundamental estabelecer uma regra de ouro para a nossa conversa de hoje. Manda ver. Esse material lida com temas políticos e religiosos extremamente sensíveis, sabe?
Os textos trazem críticas frontais, muito duras mesmo, ao fundamentalismo religioso, à atuação de bancadas conservadoras no Congresso e até, tipo, a certos comportamentos da esquerda política. Sim, atira para todo lado. Exato. Então, para quem está ouvindo a gente agora, é vital deixar cristalino que a nossa análise não toma partidos. Eu não estou aqui, nem você, para concordar ou discordar das visões políticas ou teológicas deles.
Perfeitamente. O nosso papel é puramente investigativo, né? A gente quer mapear como os autores estruturam esses argumentos, entender a mecânica por trás desse movimento, apenas relatar. Legal. Regras do jogo na mesa. E antes de entrar no tema principal, o Jorge deixa umas dicas práticas super legais para a nossa audiência consumir o conteúdo dele, que acho que vale a pena passar.
Ah, sim, de utilidade pública. Total. Para quem está ouvindo, uma dica é configurar o Spotify para baixar os episódios automaticamente ou favoritar o canal. Assim, o Spotify toca tudo em sequência na sua timeline. E ele tem mais de 10 canais diferentes. Então, dá para montar uma playlist enorme.
Isso salva muito tempo. Eu sou fã da versão em audiolivro também. Verdade. Ele tem os audiolivros no Google Play e no Google Books. E, assim, uma coisa que eu achei fantástica que ele mesmo fala é a revolução de ouvir enquanto faz tarefas em casa. Lava louça, caminhar...
Nossa, muda a vida. Você consome livros que não teria tempo de ler sentada. Exato. E por falar em livros, os trabalhos dele que embasam muito disso estão lá na Amazon. A série Estudos Bíblicos para Ateus, com livros como Gibíblia, A Fábrica de Absurdos e também Seria a Bíblia um Livro Científico? E tem o lançamento fresquinho.
O paradoxo de Einstein. Esse mesmo, o paradoxo de Einstein, ciência, ética e o Deus cósmico. Que, aliás, não é só sobre física, tá? Ele levanta uma pergunta que tem tudo a ver com o nosso papo de hoje. Tipo, por que figuras públicas brasileiras têm tanto pavor de rejeitar o rótulo de religioso?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Né? Por que no Brasil o ateísmo ainda é visto como algo tão tóxico? Gente famosa nunca sai do armário como ateu e quando sai, tipo um Leandro Karnal ou Drauz Varela, eles pisam em ovos. Nunca cruzam certas linhas.
Fica aquele tabu invisível. Fica. E é louco pensar nisso enquanto um pastor abusivo na TV pede avião para os fiéis de boa. Mas a gente vai chegar nisso. Quem quiser conferir, entrega a Prime na Amazon para os livros físicos, reembolso sem burocracia ou pelo Kindle que cai na hora. E tem o canal no YouTube também, o Jorge Guerra Pires, PHD.
Vale muito a pena conferir o material direto da fonte. Bom, então vamos desempacotar isso. O grande foco da revista, especialmente no ensaio O Cristianismo como Cultura, é um conceito que num primeiro momento parece super inofensivo. Parece até bonito, né? É. A ideia do cristianismo como cultura.
O material detalha de forma minuciosa como o nosso Congresso sancionou há pouco tempo a Lei 14.969 de 2024. E se você somar isso a uma lei de 2012 sobre música gospel, a gente tem na prática o Estado transformando o cristianismo em manifestação cultural nacional. E os autores usam um termo bem forte para descrever isso.
Estelionato cultural. É pesado. É um termo pesado, sem dúvida. Mas a revista usa isso para descrever o que seria um verdadeiro drible semântico. A genialidade e o perigo dessa manobra legislativa está justamente em como ela contorna as regras do próprio Estado.
Deixa eu ver se eu consigo acompanhar a lógica pragmática disso. A nossa Constituição, lá no artigo 19, proíbe o Estado de financiar ou estabelecer cultos, certo? O Brasil é um Estado laico.
No papel, pelo menos. É, no papel. Mas aí, e me corrija se eu estiver errado. Se um político vai lá, pega a etiqueta que diz religião e cola por cima uma etiqueta que diz cultura nacional, ele desarma essa proibição? É isso?
Exatamente isso. É um passe de mágica burocrático, assim, brilhante do ponto de vista estratégico. Porque se uma atividade é estritamente religiosa, você repassar dinheiro público configura o proselitismo financiado pelo Estado.
inconstitucional. Mas no segundo que a lei carimba isso como cultura e patrimônio histórico, as portas dos cofres abrem. Do nada. É totalmente legal acessar a lei Rouanet, disputar edital municipal de cultura, financiar show gospel grandioso, fazer exposição de santo. Caramba! Com temática abertamente confessional, mas com selo de cultura.
Então, no fim das contas, não é um debate filosófico sobre o que é arte. É uma estratégia pura e simples de acesso a recurso público. Mas deixa eu fazer o advogado do diabo aqui rapidinho. Claro, manda. A justificativa dos relatores no Senado para aprovar isso foi que o cristianismo efetivamente moldou a nossa história. O que é um fato, né? A arquitetura colonial, as festas padroeiras, o nosso calendário. Essa herança histórica não justifica o título de cultura?
Olha, o texto do ensaio não nega que haja essa herança histórica. Isso é inegável. Mas eles levantam um contraponto lógico que é bem difícil de ignorar. O argumento é que o mero fato de algo ter existido na história e moldado a sociedade não é critério suficiente para o Estado bater o martelo e dizer que isso é cultura nacional a ser celebrada e financiada. E a analogia que eles usam na revista me deixou meio, sei lá, desconfortável. Do patriarcado?
É, da escravidão e do patriarcado. O texto diz que o Brasil foi, inegavelmente, fundado na escravidão. Isso moldou a nossa arquitetura social. Mas a provocação deles é tipo... A gente deveria colocar um tronco de escravos no meio de uma praça pública e declarar que açoitar pessoas é manifestação cultural só porque foi histórico? Chocante, né? Muito. Por que que santificar o domínio de uma época, o machismo, a colonização, merece lei de proteção, enquanto outras coisas não? Dá um choque de realidade sobre o que a gente escolhe santificar.
E o desconforto dessa analogia é totalmente intencional. Ela serve para ilustrar um conceito que o ensaio chama de dívida artificial. Dívida artificial? Como se a gente devesse algo para alguém sem ter pedido emprestado? Precisamente. O Brasil de hoje tem uma população incrivelmente diversa, né? Você tem raízes indígenas, africanas, imigrantes de tudo que é canto.
Quando o Estado, através de uma lei, impõe uma estética europeia específica, tipo aqueles santos de rosto fino e traço europeu, e oficializa conceitos que são puramente teológicos, como o pecado original, a culpa cristã, ele está empurrando uma visão de mundo muito restrita. É uma dívida espiritual que só faz sentido se você acredita naquele dogma. Entendi.
Mas com essas leis, essa dívida é empurrada a goela abaixo como se fosse a identidade da alma brasileira, sabe? O Estado perde a impessoalidade dele e apaga a diversidade para manter um privilégio que é só histórico. O que puxa para um desdobramento que é inevitável. Porque se uma religião exige ser tratada como cultura pelo Estado para pegar verba e privilégio, como que o resto da sociedade deve tratar essa religião do ponto de vista intelectual?
Exato, porque assim, não dá para ter o melhor dos dois mundos, né? Se é cultura popular, eu posso criticar, eu posso estudar como estudo folclore. É aqui que a discussão do ensaio fica realmente fascinante. Eles propõem uma coisa chamada nivelar o jogo.
É a cobrança do pedágio intelectual, basicamente. O Ricardo Oliveira propõe isso na revista. A tese é muito clara. Se o cristianismo quer descer para a arena pública com o status de cultura material, beleza. Mas ele perde imediatamente o escudo de dogma intocável. Perde a blindagem. Isso passa a ser analisado de forma fria, como uma construção humana, que foi herdada lá do Império Romano e da Idade Média.
Quando a gente nivela esse jogo, as incoerências da nossa cultura gritam, não gritam. O ensaio faz umas comparações que expõem muito a nossa hipocrisia. Por exemplo, por que a sociedade trata o ato de rezar como algo profundo, sagrado, que você não pode nem questionar, mas trata ler carta de tarot como crendice barata?
Superstição pura, né? É. Se você analisar friamente as duas coisas, ambas são tentativas de intervir no futuro usando magia. Nenhuma tem base científica, mas só uma delas tem o peso de si, como eles chamam, folclore romano institucionalizado.
Esse termo folclore romano é muito bom. É a chave para entender a simetria da coisa toda. As fontes usam um conceito chamado rebaixamento epistemológico. Palavra chique para dizer que diminuem a crença do outro. Exatamente. Serve para explicar como a cultura dominante lida com crenças que não são as dela. E tem uma analogia visual no material que eu achei fantástica, que é a estátua da Iara. Aquela da Praia da Bica.
Isso, lá no Rio. Tem uma estátua da Yara, que é do folclore indígena, colocada, ironicamente, bem de frente para uma igreja católica super imponente. E aí a Yara vira um enfeite paisagístico, né? Uma coisa para tirar foto. Enquanto a igreja do outro lado da rua é tratada como, sei lá, portadora da verdade absoluta do universo.
Perfeito! O mecanismo de rebaixamento epistemológico é exatamente isso. Ele pega os mitos dos povos originários, ou as raízes africanas, e transforma tudo em conto inofensivo, em lenda do folclore do Monteiro Lobato.
Para neutralizar. Para neutralizar. Fazendo isso, o grupo que domina garante que essas histórias nunca vão competir de igual para igual com a religião deles e, ao mesmo tempo, eles blindam o próprio mito, a virgem que dá a luz, a pomba divina, a ressurreição, com a autoridade de uma instituição gigantesca. Nivelar o jogo seria colocar, sei lá, o mito indígena da mandioca, que nasce de uma virgem.
E o mito cristão do Espírito Santo na mesma balança acadêmica. Sem privilégios. Submeter os dois ao mesmo crivo histórico. Cara, mas tratar esses dogmas com essa frieza de historiador não acaba afastando as pessoas? Numa sociedade como a nossa, que foi ensinada desde o berço a reverenciar esses símbolos, isso não soa agressivo demais?
Pode soar. E muito. Mas a provocação dos autores é questionar se essa nossa diplomacia excessiva não é só outro nome para submissão, sabe? Para eles, a honestidade intelectual é o único caminho. Porque quando a sociedade aceita essa hierarquia, onde a crença do vizinho é folclore e a minha é sagrada e intocável, você está pavimentando a estrada para abusos reais.
que faz uma ponte perfeita por lado prático da coisa. Porque essa blindagem não fica só no livro de teologia ou num edital do Ministério da Cultura. Ela afeta corpos reais. Ela dita a regra no dia a dia. E o ensaio da revista entra muito forte na questão do ateísmo e do feminismo.
É, o texto da Glória bate pesado nisso. Bate muito. A tese dela é que as religiões monoteístas são a base ideológica do patriarcado. São os textos sagrados que são usados para justificar desigualdade, para controlar o corpo da mulher, direito reprodutivo, divórcio...
E é uma estrutura de culpa que recai sempre sobre a mulher. A visão apresentada ali é que não existe libertação feminina real, completa, sem desconstruir o autoritarismo da religião. Porque se o Estado baseia a lei dele em texto antigo, ele está legitimando a submissão com uma desculpa divina que não se pode questionar.
E ela não ficou só na teoria, né? O texto conta que a Glória, ativista lá de Brasília, conseguiu incluir o termo ateísmo nas cartilhas de atendimento de delegacias no Distrito Federal para combater o preconceito de forma institucional. Uma ação super prática. E isso me fez pensar naquele estereótipo do ateu chato, aquele cara que estraga o clima da ceia de Natal.
Para não ser o chato, a sociedade exige que o cético simplesmente feche os olhos para o machismo que está ali, escrito naqueles dogmas fundamentais. E a resposta do movimento ateísta para isso é um não gigante. O ativismo, nessa perspectiva que o material traz, não está aí para ser simpático. Está aí para ser o guardião dos fatos. Sabe, eles citam autoras da filosofia como a Christine Overall para explicar que a laicidade é uma urgência de saúde e de segurança pública.
Não dá para a política pública ser refém de interpretação milenar que exige que a mulher seja dócil, né? Exato. Tem que ser baseada em evidência e direito humano. Ponto. O que me leva para a parte tática do negócio. E aqui entra um editorial do Matheus Furtado que eu achei genial. Porque a gente entende a teoria, o estelionato cultural, o rebaixamento dos mitos. Mas, na prática, como é que esse movimento planeja lutar contra uma máquina de influência que tem orçamento infinito e domina a TV aberta?
É Davi contra Golias Total e as fontes respondem com um chamado muito claro para o realismo político. O diagnóstico deles é assustador, na verdade. Eles falam em uma fascistização em curso no Brasil. Nossa termo forte! Apoiada por um fundamentalismo que lucra e muito com a fé, a teologia da prosperidade virou um produto absurdamente rentável e um projeto de poder político que nem se esconde mais.
E contra um projeto de poder desse tamanho, fazer textão revoltado no Twitter é igual enxugar gelo. Eles criticam muito a tal da militância de sofá, né? Bastante. Aquela coisa de dar like, ficar indignado no Instagram e achar que mudou alguma coisa, enquanto os caras estão aprovando lei às três da manhã no Congresso. Exatamente. Ativismo de internet raramente muda a Constituição. E aí a revista traz um estudo de caso muito revelador. Lembra do E-Cidadania, do Senado?
Lembro do caso do Daniel Sotomayor. Isso. Fizeram uma mobilização enorme para remover crucifixo de repartição pública e começar a cobrar imposto de grandes templos. E eles conseguiram mais de 20 mil apoios formais. 20 mil CPFs. Não era conta falsa. Gente de verdade exigindo ação. E o que aconteceu? Bateram de cara num paredão de concreto. STF e Senado não moveram uma palha. O negócio simplesmente empacou.
Mas assim, a gente tem que ser pragmático também. O nosso Senado é o reflexo de um Brasil onde, se não me engano, uns 86% se dizem cristãos. É por aí. Pensa bem, um senador votar para tirar a isenção de igreja é suicídio eleitoral.
ele nunca, jamais vai fazer isso sorrindo. Então tentar ir pela via diplomática não é meio que uma ilusão. A gente não está jogando um jogo com regras escritas pelo dono do cassino. É exatamente por concluir isso que o movimento deu essa virada de chave, sabe? Esse é o realismo político da coisa. Eles entenderam que tentar ganhar concurso de popularidade no Congresso não funciona. A estratégia agora é o ativismo jurídico. Ou seja, parar de pedir por favor. Exato.
O objetivo não é mudar a opinião do político, mas provar tecnicamente, na justiça, que a lei que ele aprovou é inconstitucional. Jogar a batalha técnica. Mas como se materializa isso? Através de uma coisa chamada ADI, Ação Direta de Inconstitucionalidade.
O plano que o editorial detalha é profissionalizar a luta, usar advogados bons, juristas de peso, pegar o capital desses 20 mil apoios e jogar o debate direto no colo do Supremo Tribunal Federal.
Ah, entendi. Em vez de debater se a religião é certa ou errada, o debate passa a ser puramente técnico. Olha, isso fere o artigo 19, ponto. É isso. É um choque de realidade para o ativilismo moderno. Mostra que precisa se estruturar de verdade, usar centralismo tático, sair do protesto na internet e ir para os tribunais.
É, a verdade crua não pede desculpas, né? Eles até usam citações maravilhosas do Rick Gervais, do Bertrand Russell, para lembrar que numa sociedade livre, ninguém tem o direito inalienável de passar a vida inteira sem nunca ser ofendido.
Aquela frase clássica do Ricky Gervais, né? Só porque você está ofendido não quer dizer que você tem razão. Perfeito. Especialmente se a ofensa for só alguém apontando um fato lógico ou pedindo que a lei valha para todo mundo igual. É o preço que a gente paga por um pensamento crítico maduro numa democracia.
Com certeza. Bom, vamos dar uma recapitulada nesse nosso mergulho longo. A gente começou dissecando a engenharia do estelionato cultural, essa manobra de carimbar dogma religioso com selo de cultura para pegar dinheiro público. Depois vimos a importância de nivelar os mitos, né? Tirar o privilégio do folclore romano em relação aos nossos próprios mitos locais. Exato.
Vimos como essa visão tem um impacto prático enorme nos direitos civis, batendo de frente com a autonomia feminina contra o patriarcado religioso. E, por fim, entendemos essa mudança de tática, da indignação inútil na internet para o ativismo jurídico estruturado, jogando a bola para o STF.
E por que tudo isso importa para quem está ouvindo a gente agora? Independentemente se você acredita em alguma coisa, em tudo ou em nada, a laicidade do Estado é vital para todo mundo. É o chão que a gente pisa. É, ela não serve para destruir religião nenhuma.
Pelo contrário, é a única garantia arquitetural de que a nossa democracia vai continuar protegendo a pluralidade. Porque se o Estado escolhe uma fé só e diz que essa é a cultura oficial do Brasil, a gente corre um risco enorme de cair numa tirania da maioria disfarçada de tradição. Entende? Defender a razão no espaço público é proteger o direito de todo mundo de escolher em que acreditar ou ter a paz de não acreditar em nada. Perfeito.
Para fechar, eu queria voltar para aquela imagem que eu falei bem no começo, dos museus e das coisas que a gente escolhe eternizar como sociedade. A herança. É.
A pergunta que não sai da minha cabeça depois de ler todas essas fontes do Jorge é se as leis que a gente está aprovando hoje servem para congelar e financiar uma única visão de mundo e cravar isso como a cultura oficial e definitiva do país, a gente precisa se perguntar quais inovações, quais descobertas científicas, até revoluções culturais das próximas gerações a gente já está sufocando.
apagando antes mesmo de nascer. Exatamente. Fica aí essa provocação espinhosa para a gente pensar. Eu agradeço demais a quem acompanhou esse nosso mergulho profundo nas linhas tortas que desenham as regras do nosso país. Um abraço e até a próxima exploração. Tchau, pessoal. Até mais.
Jorge Guerra Pires
Livros (O Paradoxo de Einstein, Estudos Bíblicos para Ateus)