Episódios de Trilhas da História

Ep#30 - "Pentecostalismo na Esfera Pública: Do Refúgio à Dominação?"🎙️

07 de maio de 20261h20min
0:00 / 1:20:18

Episódio#30 - Podcast "Trilhas da História"

Quinta - 07/05/2026

Convidado: Prof. Dr. Marcos Oliveira de Queiroz (UESB)

Ep#30 - "Pentecostalismo na Esfera Pública: Do Refúgio à Dominação?"🎙️

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Participantes neste episódio3
D

Daniel Lima

HostProfessor
L

Luciano Teles

Participante
M

Marcos Oliveira de Queiroz

ConvidadoProfessor Doutor em História
Assuntos5
  • Evangélicos e PolíticaHistórico de afastamento da Assembleia de Deus da política institucional · Relações iniciais da Assembleia de Deus com o poder político local · A virada de chave na participação política da Assembleia de Deus · O papel da Assembleia Nacional Constituinte de 1986 · O contexto global do fim da Guerra Fria e o comunismo no Brasil · A influência da Igreja Universal do Reino de Deus na forma de fazer política da Assembleia de Deus · O projeto de poder político institucionalizado da Assembleia de Deus · A Assembleia de Deus e a 'pentecostalização' do Brasil
  • Trajetória de Marcos Oliveira de QueirozCriação e contexto familiar · Formação acadêmica em História · Pesquisa sobre evangélicos e política · Defesa de tese de doutorado · Relação com a fé e o estudo da religião
  • Alinhamento ideológico da Assembleia de DeusPosicionamento conservador e reacionário · Pautas morais: aborto, casamento gay, legalização de drogas · Crítica ao 'kit gay' e sua menção no Mensageiro da Paz · Contradições entre discurso e prática em relação à família e trabalho · Crítica à falta de debate sobre pautas cruciais para a sociedade · Apropriação de pautas e instrumentalização política · Diferença entre o evangelho de Jesus e o 'evangelho gourmet'
  • Religião e Fé no BrasilReligião como elemento indissociável da história do Brasil · A necessidade de compreender as articulações políticas dos grupos religiosos · A força e visibilidade midiática dos evangélicos na esfera pública · Superação de preconceitos e resistências acadêmicas sobre o estudo de grupos religiosos · A religião como fator de transformação social e cultural
  • Deleite em DeusAnálise da relação entre Assembleia de Deus e política partidária · Fonte primária: Jornal Mensageiro da Paz · Análise de lições bíblicas e periódicos esparsos · Recorte temporal: 1986 a 2014 · Candidaturas de Marina Silva e Pastor Everaldo em 2014
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Olá, ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Trilhas da História, um podcast do projeto de extensão do curso de História da OEA em Tefé, no estado do Amazonas. Acesse os episódios do Trilhas nas plataformas em geral. Você já sabe, é só digitar ali, ó, Trilhas da História e seguir o nosso podcast.

Eu sou o professor Daniel Lima, do Departamento de História, do Colegiado de História, aqui no Centro de Estudos Superiores da OEA, em Tefé. E tocamos esse projeto eu, meu colega, professor Luciano Teles e uma equipe primorosa que tem dado todo o apoio a esse lindo projeto. Hoje nós temos um tema absolutamente inédito em nosso podcast.

No episódio de hoje do Trilhas, o nosso debate vai entrar em um dos territórios mais complexos, atuais e fascinantes do Brasil contemporâneo. Nós vamos discutir religião, poder e espaço público.

Nosso tema de hoje é Pintencostalismo na esfera pública, do refúgio à dominação. Para mergulhar nessa temática, tenho a honra de receber o professor doutor Marcos Oliveira de Queiroz. O professor Marcos é doutor em História pela Unesp e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

É um pesquisador dedicado a compreender as engrenagens dessa relação tão sensível entre a fé e as urnas. Nesse episódio, vamos olhar especificamente para a trajetória da Assembleia de Deus, a maior denominação pentecostal do país.

Vamos entender como essa igreja saiu de uma postura histórica de distanciamento do mundo, o chamado refúgio, para se tornar uma força motriz na política partidária, que é o que nós chamamos de projeto de dominação ou intenção disso. Existe um projeto de poder institucionalizado? Qual é a verdadeira tendência ideológica desse distinto grupo evangélico brasileiro?

É o que vamos descobrir agora. Gente, o episódio de hoje transcende fronteiras. Tenho a honra de falar com o professor Marcos diretamente de Vitória da Conquista na Bahia. Professor Marcos, seja muito bem-vindo ao podcast Trilhas da História. Olá, Daniel, meu querido. Já posso chamar de amigo. Primeiramente, eu quero dizer que é uma honra estar aqui.

nesse podcast do Trilhas da História, que é um podcast que eu já sigo desde que ele iniciou, eu vi lá quando você compartilhou nas suas redes sociais, no Instagram, e eu já comecei a seguir. Olá, ouvintes desse podcast, olá a todos que estão aí na... que estão da Universidade Estadual do Amazonas, na cidade de Tefé, enfim.

Estou muito feliz e grato pelo convite de estar aqui, honrado por esse momento de diálogo. Eu sei que vai ser um momento de troca aqui com o nosso querido Daniel, que também é um pesquisador da temática do pentecostalismo.

que inclusive, vale dizer logo de antemão, é uma referência para mim e para tantos pesquisadores que estão aí nessa peleja, nas pesquisas sobre o campo religioso brasileiro, com especial ênfase ao pentecostalismo. Então, me sinto muito honrado de passar esse tempo aqui de diálogo com você e com os nossos ouvintes, é claro.

Mas, gente, quanta generosidade de sua parte. Para nós é um prazer te receber aqui. Olha, mas hoje o foco é o Marcos, viu? Eu sou aqui o entrevistador. Vou tentar me controlar, confesso. Eu falava para o Marcos em off. A temática inaugura uma série de outros episódios que virão que tem a religião como objeto. Mais especificamente, gente, é importante dizer isso.

do ponto de vista da história. O Marcos é historiador. Não estou chamando aqui um teólogo ou um cientista da religião, embora esses olhares sejam tão importantes quanto. Mas o podcast da história é um projeto vinculado ao curso de história da UEA Interfé e que tem a honra de receber um pesquisador.

que acaba de defender uma tese de doutorado riquíssima, nós vamos falar daqui a pouquinho, e que vai também partilhar com a gente as suas impressões, as suas pesquisas, aquilo que efetivamente você, cidadão comum, também precisa saber. Nós queremos que esse episódio seja compartilhado com todos os seus grupos, suas redes sociais, seus histórios. Olha...

Vamos fazer esse episódio correr porque ele vai dar o que falar para o bem da informação, da pesquisa, daquilo que a gente quanto cidadão precisa estar atento ao que está acontecendo no Brasil contemporâneo. Interaja conosco aí, encaminhe a sua pergunta, o seu comentário. O professor Marcos certamente estará à disposição para responder, para dar um feedback ali nas plataformas desse episódio. Então vamos começar o nosso primeiro bloco de perguntas.

Para a gente começar e te conhecer um pouco mais, professor Marcos, fale um pouco sobre sua trajetória de vida. Quem é o Marcos Oliveira de Queiroz e a relação dele com a área de história? Então, eu sou o Marcos Oliveira de Queiroz, sou um homem...

negro, de cor parda, eu fui criado pelos meus avós paternos. São detalhes que eu gosto muito de falar, sabe? Que eu gosto muito de enfatizar. Porque são características que definem a minha história. Então meus pais se separaram...

Eu tinha entre 4 e 5 anos de idade. E aí, com essa separação dos meus pais, eu fui morar com os meus avós paternos. Realidade que não destoa de muitas famílias brasileiras, a gente sabe, né? E...

Então a partir desse momento que eu fui morar com os meus avós paternos, eu cresci no contexto religioso, evangélico, mais precisamente da Assembleia de Deus. Meus avós paternos já eram convertidos há muitos anos, e obviamente a partir do momento que eu passo a morar com eles...

Eu também, junto com eles, passo a frequentar a Assembleia de Deus. Então eu brinco assim quando eu conto que eu só nasci no hospital, mas cresci dentro de uma igreja. Cresci dentro da Assembleia de Deus. E dali é que eu vou desenvolver na prática, na experiência, aquilo que o Karl Marx fala sobre a religião, do papel ambíguo da religião. Que a religião, ao mesmo tempo que ela é...

que ela pode ser um instrumento para a libertação, para a emancipação dos sujeitos, ela também pode ser um canal de opressão. E assim, eu me identificava muito, como me identifico até hoje com aquele espaço, os louvores, as músicas, até mesmo algumas pregações e tal.

E enfim, eu cresci nesse contexto, eu venho da cidade de Eunápolis, eu sou natural de Eunápolis. Eunápolis é uma cidade do extremo sul da Bahia, que fica a 64 quilômetros de Porto Seguro.

E aí, o que acontece? Criado pelos meus avós, vale dizer, analfabetos. Meu avô era semi-analfabeto. O que significa isso? Tinha uma leitura muito rasa, muito superficial. A leitura do meu avô era basicamente para ler a Bíblia. E meu avô, de fato, lia a Bíblia religiosamente todos os dias. Então, nesse aspecto, meu avô já era um exemplo de leitura, de leitor, nesse sentido. E minha avó não lia absolutamente nada. Nem lia, nem escrevia.

Mas meus avós, apesar dessa baixa escolaridade, ou não escolaridade no caso da minha avó,

eles me incentivaram muito aos estudos, a estudar, né? Então eles não permitiram jamais que eu deixasse de estudar ou abandonasse os estudos, pegavam no meu pé. Eu até falo assim para os meus alunos, eu acredito que é exatamente pela falta que eles valorizavam aquilo que eles não tinham, né? Que era o acesso à educação formal, né?

E aí, o que acontece? Sempre estudei em escola pública, fiz meu ensino fundamental, ensino médio, e aí chega naquela fase lá da juventude, né, adolescência pra juventude, do nível superior. Em Eunápolis, como eu falei, que é uma cidade pequena, a Universidade Pública tinha um campus da UNEP, que é a Universidade do Estado da Bahia. Eu me identificava, particularmente, com a área de letras, né, porque eu sempre gostava, assim, desenvolvi um hábito...

relativo, razoável com a leitura, e eu me dava bem na área de língua portuguesa, no ensino fundamental e no ensino médio. Porém, o que acontece? Eu, por ser uma criança afeminada, hoje eu sou um homem gay, faltou eu dizer isso lá no início,

E casado, enfim. E o que acontece? Também sofri abusos sexuais na infância, mas isso talvez seja uma pauta para outro podcast, não é a nossa pauta do momento. Mas por que eu estou dizendo isso? Por conta do estigma, por conta do meu jeito, como falam, do trejeito e tal, já existiu, não sei se aí, no Norte.

a esse preconceito, né, ou esse estigma com relação às pessoas que optam pela área de linguagens. Então, parece assim que quem escolhia a língua portuguesa era, por ser um curso majoritariamente de mulheres, né, um curso majoritariamente feminino, então meio que rolava um certo, uma certa desconfiança dos homens que escolhiam licenciatura em língua portuguesa, em letras, né. E aí, por esse motivo, na hora da escolha do curso, eu escolhi o curso de História.

Uma primeira frase que eu ouvi de um dos colegas do curso, veteranos do curso, é sabendo da minha filiação religiosa, que eu era da Assembleia de Deus, ele disse eu quero ver se você vai terminar esse curso ainda crente. E aquilo veio como uma provocação, obviamente, né?

E óbvio, ele como estava vários semestres à minha frente, sabia do teor crítico do curso de história, e que isso poderia abalar minha fé, mas eu digo para você e para os nossos ouvintes, não abalou minha fé. Eu entrei crente no curso de história, e saí mais crente ainda do curso de história.

E aí, o que acontece? Quando chegou lá naquela etapa do sexto semestre, projeto de pesquisa, eu não sei se foi o Divino Espírito Santo, porque na época eu estava em todo fervor na igreja, eu cantava, eu dirigia culto, eu era líder de jovens, toda aquela coisa que você pensar na Assembleia de Deus, eu já fiz tudo, de recepção a dirigir culto e a pregação.

E aí, o que acontece? Numa tarde, naquele processo de elaborar um projeto de pesquisa, eu pensei em pesquisar sobre evangélicos e política. Foi um insight que me veio. Não tinha nenhuma leitura, absolutamente nenhuma leitura naquele momento. Conversei com a professora do campus e ela achou o tema fantástico.

E aí eu comecei as minhas leituras, comecei a ler o Paul Fredst, comecei a ler o Gideon de Alencar, e buscar o Joanil do Buriti, e outras leituras que eu fui correndo atrás. Pra resumir, terminei a minha graduação em 2016, mas olha a minha ousadia. Eu acredito que eu tava muito crente nesse período. Eu ousei da minha fé. Usei e abusei da minha fé.

Porque antes de defender meu TCC, abri uma seleção para o mestrado em História na UFES, Universidade Estadual de Feira de Santana, que fica a uma hora e meia de Salvador, mais ou menos, da capital, aqui na Bahia.

E aí eu fui, né, eu fui tentar esse processo seletivo. Resultado, Daniel, pra resumir aqui, passei. E eu nem tinha terminado meu TCC. E eu falei, e agora, Célia, que era a minha orientadora no período? E ela corre, porque você não vai perder essa vaga. Então eu escrevi o restante, né, que faltava ali do meu TCC em tempo recorde, pra não perder essa vaga lá, porque eu tinha que fazer a matrícula, né?

e fui para o mestrado em História em Feira de Santana. Aconteceu uma coisa muito fantástica. Uma das autoras que era a minha grande referência, e que é uma grande referência nos estudos do protestantismo na Bahia e no Brasil, que se chama Elisete da Silva, que é professora da Universidade Estadual de Feira de Santana, que foi um dos primeiros textos que eu li, que é o Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira. Daniel, para minha surpresa...

por coincidência do destino, não sei como explicar, ela me escolheu como orientando. E aí, para resumir, eu fui orientando da professora Elisete da Silva, que é uma grande referência, que eu falo com muito orgulho, com a boca cheia, porque ela, inclusive, alargou muito o campo nas pesquisas, na nossa área de história, com relação à questão dos protestantes, ela, com a sua orientadora Marli Geralda,

Não posso me esquecer. Rubem Alves, né? O nosso glorioso Rubem Alves. Então, assim, foram desbravadores nas pesquisas sobre o protestantismo. E aí fui orientando da professora Elisete uma coisa que não foi muito positiva, que eu fiquei um tempo sem bolsa, mas... A males que vem para bem.

E eu, por ter ficado sem bolsa um tempo, o que aconteceu? A professora Elisete da Silva, gentilmente, generosamente, me convidou para morar com ela. Você acredita nisso? Gente, foi a melhor experiência da minha vida. Era engraçado que quando eu chegava na universidade, todo mundo me perguntava assim, Marcos, me conta o que a professora Elisete faz no domingo, no feriado. Eu falava, gente, ela lê.

Porque, assim, ela é uma grande intelectual, assim, e assim... Ela é gente, né? Ela é gente, né? Ela é de verdade. Ela é de verdade. E aí, com aquela biblioteca da casa dela imensa, Daniel, assim, eu me debrucei, sabe? E, assim, era história no café, era história no almoço, era café na janta, com vinho e toda aquela coisa, todo aquele aprendizado, sabe? Foi uma experiência, sim, riquíssima. E é isso. Terminando o mestrado lá em 2019... ...19...

tentei o doutorado na Unesp de Assis, muito longe, passei nessa pós-graduação, doutorado na Unesp de Assis, que é o mesmo campus da professora Tânia Regina de Luca, eu cito o nome dela porque ela é muito conhecida na história da imprensa, né? E aí, o que que acontece? Só que veio a pandemia em 2020 e eu fiz praticamente esse doutorado de maneira remota, né? Peguei todas as disciplinas que eu podia, eu fui esperto.

Defendi a minha tese Não tem nem... Quer dizer, acabou de fazer um mês Então assim, tá fresquinha Como a gente brinca aqui na Bahia Eu sou o doutor mais fresco do pedaço Porque foi muito recente que eu defendi a minha tese É isso Impressionante, gente A jornada de vida Fascinante a tua história, Marcos E bom conhecê-lo

E assim, são vários pontos que eu poderia ainda fazer um comentário, mas me lembro aqui um pouco, lá do início da sua trajetória, Marx chegou a dizer, uma célebre frase dele, a crítica da religião é, portanto, o princípio de toda crítica. Eu acho que quando ela efetivamente não está em fins de libertar...

e de resistir, ela vai estar em condição de opressão e de alienação. Acho que esse caminho é muito similar ao meu. Então eu me identifiquei com esse trecho da tua história. E no outro trecho que você refere-se àquela pessoa que vem bater no ombro, né? Duvido você permanecer...

Crente, vamos colocar assim, que ainda acredita, guarda a fé em Deus ou em Jesus, etc. É impressionante. Eu lembrei de uma fala de um professor nosso no doutorado, vou citar até o nome dele, professor...

Rudolf von Sinner, agora está na PUC Paraná, mas esteve durante muitos anos lá na Este, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, foi meu professor nas disciplinas de doutorado, e esse episódio é marcante para a vida de todo mundo. Quando alguém responde, tua fé mudou? Depois mudou.

mudou para melhor que a gente fala de mudar no sentido pejorativo né já tá armado na cabeça da pessoa pessoa vai estudar vai perder a fé a fé é ressignificada eu acho que isso é importante existe historiadores que possuem fé gente agora o modo como essa fé se aplica a concretude a imanência é necessário a gente traduzir naquilo que a gente pensa efetivamente como fé encarnada como o bem comum né eu até

Tem uma frase que eu gosto muito, que diz que Deus só aceita amor no próximo. É uma frase fascinante do Caio Fábio, né? E nós vamos avançar, tá? Marcos, entrando no nosso tema, historicamente, qual foi a relação que a Assembleia de Deus estabeleceu com a política institucional no Brasil? Como se deu esse salto, que a gente chama no tema do nosso episódio, refúgio para uma atuação mais direta?

Então, Daniel, historicamente, a relação da Assembleia de Deus com a política institucional foi uma relação de afastamento, foi uma relação de resistência, foi uma relação, eu poderia ir mais além, foi uma relação de demonização. A relação que a Assembleia de Deus, tradicional historicamente, aqui no Brasil, desenvolveu com a política institucional, então,

Foi uma relação de demonização dessa esfera. Porque acreditava-se que esse seria um espaço de corrupção da fé.

de alteração do comportamento desse fiel. Então, a Assembleia de Deus, a partir das suas mensagens, das suas pregações, a partir dos seus periódicos, inclusive oficiais, como o Jornal Mensageiro da Paz, como as lições bíblicas, que normalmente é muito conhecida pelas pessoas que conhecem essas fontes, são as principais fontes da Assembleia de Deus.

porque é ali que está contido a diretriz oficial da instituição. Então ela recomendava, ela orientava, para não dizer, determinava contra a participação política dos fiéis.

Dos obreiros, então, muito maior. Inclusive, na minha pesquisa, aparece isso não só lá nos primórdios, mas em um tempo muito mais recente ao nosso, muito mais próximo ao nosso. Que se o obreiro se envolvesse, ele decidisse, por entender que ele tinha uma vocação,

se envolver na política partidária e institucional, ele deveria deixar o cargo eclesiástico que ele possuía. Ou seja, na mentalidade do que eu chamo de cúpula assembleiana, ou dessa hierarquia assembleiana, desses detentores do poder, que é quem dá a diretriz para a denominação.

Era completamente incompatível esses dois campos, né? O que o Bourdieu chama de campo, né? Esse campo político e o campo religioso. Eram campos para esses pastores, né? Presidentes que não comungavam, que não se relacionavam. Mas aqui, Daniel, e os nossos ouvintes, vale um adendo.

Esse, no meu ponto de vista, era um discurso que muitas vezes era meramente retórico, embora havia uma exigência, porém a gente precisa diferenciar uma coisa. O que é fazer política de maneira institucional, de maneira efetiva, e o que é se relacionar politicamente? O que é que eu posso dizer?

tradicionalmente, muito embora a Assembleia de Deus mantinha esse discurso demonizante da política, que a política não é coisa de Deus, que a política não é coisa para crente, que o crente não deveria cuidar das coisas terrenas, mas das coisas celestiais, né? Então, esse era o discurso. Porém, Daniel, desde os primórdios da Assembleia de Deus, e isso a gente pode encontrar...

Nos diários dos pioneiros, Gunnar Winger e Daniel Berg, isso vai estar lá. Esses pastores, esses líderes, eles tinham íntimas relações com o poder político local.

Então é uma coisa que a gente precisa diferenciar. Uma coisa de se lançar a uma determinada candidatura, a um cargo eletivo, a um cargo político, e outra coisa é não desenvolver nenhum tipo de relação com essas esferas. Ora, é praticamente impossível.

para um indivíduo ou para uma organização, uma instituição, ela não estabelecer algum tipo de contato, algum tipo de relação com o poder político. Porque política, num entendimento macro, né?

se relaciona a tudo, a toda a nossa vida, desde a forma que a gente acorda, até o nosso tipo de alimentação, o transporte que a gente pega, enfim, até a construção de um templo, já que a gente está falando aqui de religião, de pentecostalismo, tudo isso perpassa pela esfera do político. Então, havia uma contradição em termos quanto a...

ao discurso que dizia para não se envolver politicamente, mas, na prática, ali no dia a dia, esses líderes mantinham relações com o poder político local. Ora, porque também havia um interesse, não era à toa.

Porque a Assembleia de Deus, eu sei que isso aconteceu não só aqui na Bahia, mas certamente no Norte, principalmente no Norte, porque foi onde a Assembleia de Deus começou, né? Através dos missionários Daniel Berg e Gunnar Wingre, lá em Belém do Pará, enfim, aí no Norte, né? Onde vocês, majoritariamente nossos ouvintes estão.

Então, ela desenvolveu uma relação com esse poder político local, Daniel, de maneira que eles recorriam a políticos, por exemplo, para conseguir concessão de terrenos, para conseguir benesses, como, por exemplo, isso depois da década de 50, mais ou menos, para cá.

A construção de orfanatos, a construção de centro de recuperação. Então tudo isso, gente, perpassa por uma relação com o poder político. Entende? Muito embora até a década de 1980 havia... É...

candidatos da Assembleia de Deus em alguns estados, mas eram candidaturas muito independentes, muito tímidas. Não havia propriamente uma oficialização da Assembleia de Deus quanto a essa participação. Muito pelo contrário. A Assembleia de Deus nos seus periódicos, principalmente a partir do Mensageiro da Paz, ela...

se posicionava totalmente contra, completamente aversa ao envolvimento mais direto no sentido de candidatar-se a algum cargo eletivo. Entende? A virada de chave começa a acontecer, principalmente ali a partir das pesquisas do Paul Freixo, a gente tem isso muito evidente, o Paul Freixo elucida isso muito bem na sua tese, que foi publicada em 93.

que a eleição, a convocação para as eleições da Assembleia Nacional Constituinte

ali de 86, né, e a constituinte que ocorreu entre 1987 e 1988, que foi o boom, que foi a virada de chave. Desde a fundação da Assembleia de Deus até as eleições, nós tínhamos dois candidatos eleitos. Com as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, nós saltamos para 13. Então, assim, é um número significativo. Então, aí é a virada de chave.

É importante explicar sobre essa mudança de chave, você que nos ouve, que o Brasil, então, está debaixo daquele contexto, num contexto mais global de fins de Guerra Fria, existe ali todo um esfacelamento dessa política internacional de tensão mundial, inclusive.

do capitalismo e socialismo representados pelos Estados Unidos e União Soviética. E o brasileiro comum e pobre, ele estava debaixo desse tipo de interpretação do qual o comunismo poderia chegar no Brasil. Isso é desde a década de 60, desde o golpe militar de 64.

É um velho fantasma, efetivamente, de uma população que não se instrui e que não é instruída. Existe quem efetivamente não quer essa instrução. E o que o Marcos está falando é de uma população que é majoritariamente pobre...

os pentecostais, como Gideon fala, o preto, pobre, periférico e pentecostal, o PPPP, é que está debaixo desse poder religioso, como o Marcos bem classificou, uma vez que as lideranças se articulam para aquilo que elas querem politicamente, elas vão fazer, mas ensinar e dar educação de base para a população pobre, isso não conta, porque não faz parte do jogo.

do sistema religioso educar essa população. Isso é uma marca, predominantemente, porque é curioso que o pentecostalismo detém em suas fileiras a grande maioria dos trabalhadores pobres do país e que efetivamente não tem organização política, não consegue se expressar politicamente, se ver politicamente. Isso que o Marcos explicou é bem contraditório, mas é isso que aconteceu mesmo.

Eu lembrei, Marco, lá num texto que eu publiquei agora recentemente sobre o bolsonarismo religioso, eu pego uma fala curiosa de um presidente da convenção da Assembleia de Deus no Amazonas,

o José de Menezes, e ele publicou, foi um texto, ele era muito respeitado, chegou a ter um cargo de muita influência na Assembleia de Deus no Brasil, e presidiu a Assembleia de Deus nos anos 60, início dos anos 70, aqui no Amazonas. E ele publicou um texto sobre...

O título é Cuidado com a Política no Ministério. Eu vou ler aqui só para respaldar o que você falou. Ele diz assim, a política começou a sua obra deletéria, bloqueando a fé com armas sutis da sociedade mundana. Se há mal que cômoda ou astuciosamente ronda e prejudica o pregador do evangelho e ameaça o tirá-lo de fora das suas santas atividades espirituais, a política é esse mal.

esse câncer roedor que infiltra-se no coração até comer todas as energias espirituais do homem, reduzindo a uma simples ossada. E coloca lá Ezequiel 37. Enquanto você falava, eu busquei essa citação do texto. Depois eu posso até compartilhar com você o artigo. Porque esse é o caráter, né?

Década de 60, publicado no Mensageiro da Paz, que é um jornal que você pesquisou, a gente vai já falar sobre isso, para mostrar essa transição. Então quando chega os anos 70, início dos anos 80, que a redemocratização vai acontecendo, aí nessa hora muda, as pupilas dos olhos desse pessoal começam a entender que eles precisam participar mais diretamente da política institucional. Muito bem explicado. Só um adendo, vale reiterar...

E isso aí acredito que você pode falar com muito mais propriedade do que eu, porque você pesquisou a gênese do pentecostalismo no Brasil.

Mas vale reiterar que o pentecostalismo é esse movimento que prezava pelo ascetismo. O que é esse ascetismo? Essa palavra que é muito mais usual na academia. Enfim, na verdade se refere a uma doutrina filosófica e religiosa que defende a renúncia voluntária aos prazeres físicos, aos confortos materiais, aos desejos mundanos, e aí entra a política.

Porque a política é essa esfera do poder terreno. Então tudo aquilo que tem ligação com o mundo, não deve, o cristão, o crente, não deve se envolver.

é a chamada negação do mundo, que o Richard Nibus chama lá do seu tipo, Cristo contra a cultura, é de que tudo que faz parte do mundo e efetivamente uma explicação, eu não vou me envolver com isso porque afinal de contas essa terra vai pegar fogo, Jesus vai voltar, e isso acaba atrofiando esse cidadão que não se envolve com o seu tempo, com a sua existência.

Bem definido. Olha, gente, nós estamos na parte do refúgio. Nós estamos explicando aqui como se deu esse refúgio, as bases teológicas, inclusive. Acho que o Marcos acaba de fazer isso muito bem, lembrando do ascetismo. E agora, Marcos, nós vamos observar o cenário atual, meu amigo.

e a forte presença nas chamadas bancadas evangélicas no país, que não é só lá em Brasília não, é municípios, é Estado, são assembleias legislativas que se fazem representar. Enfim, hoje nós podemos afirmar, Marcos, que há algum projeto de poder político da Assembleia de Deus devidamente institucionalizado? É contigo essa.

Olha, eu amei essa pergunta, porque ela dialoga exatamente com a minha tese. Deixa eu fazer logo a propaganda aqui da minha tese, que logo, logo vai estar no portal da Unesp Campos de Assis. Uma das minhas ênfases da tese, ou dos principais argumentos da minha tese, é sobre a existência, sim, de um projeto de poder.

político, especialmente a partir da década de 80 pra cá de fato, as igrejas e aqui eu não vou falar só da Assembleia de Deus, mas as igrejas evangélicas principalmente as maiores denominações como por exemplo a Igreja Batista, como por exemplo a própria Assembleia de Deus que é a denominação em questão, como a Igreja Universal do Reino de Deus Oxíticos

Que foram igrejas e denominações que foram delineando um projeto, sim, de poder, um projeto sistemático. Uma sistematização, né? E o que é que eu estou chamando de sistematização? Algo que de fato foi escrito. Algo que de fato foi desenhado, consolidado, sistematizado. Então...

Apesar dessa virada, como nós já falamos aqui, acontecer a partir da década de 80, deixa eu dizer para vocês, tem uma virada a partir da década de 1990 e principalmente no início dos anos 2000, que é a constituição de uma comissão ligada a CGADB, né?

Essa comissão, esse órgão, ele é criado no ano de 2001, né? E em 2003, ele se consolida como conselho político da CGADB. Significa dizer que é um órgão permanente.

Esse conselho que é criado por pastores da Assembleia de Deus e por parlamentares que já atuavam no campo legislativo, de compor esse órgão, de compor esse grupo, para orientar os parlamentares políticos, esses políticos representantes da Assembleia de Deus. Isto é, Daniel, para que essas...

essa administração desses sujeitos não ficassem soltas, não ficassem aleatórias, mas que de fato haveria, a partir da criação desse órgão, um acompanhamento. Então esse órgão é criado em 99 e ele vai se consolidar entre 2001 e 2003. Em 2003 ele passa...

A ser um órgão permanente, ou seja, é um órgão que independente de quem estiver na liderança, eu acredito que vocês já entenderam isso muito bem, independente de ser José Wellington ou qualquer um outro que estiver à frente da presidência da CGADB, que é a Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil, o principal e maior órgão da Assembleia de Deus, né? Um, dois, porque a Assembleia de Deus, ela não é uma só.

Como diz o Maxwell Fajardo, né? A Assembleia de Deus, ela cresceu enquanto se ramificou, enquanto se fragmentou, né?

Então, é o que ele chama de esgarçamento institucional. Então, isso, inclusive, eu acho interessante na tese do Maxwell, que fala assim, isso não enfraqueceu a Assembleia de Deus, esse esgarçamento, muito antes, pelo contrário, foi um dos elementos que fortaleceu, fazendo com que a Assembleia de Deus se espraiasse de uma maneira muito mais rápida. Então, hoje nós temos as convenções tradicionais que a gente já conhece, a Assembleia de Deus ligada a CGA-DB, mas... Os ministérios, né?

Isso. Mas também tem a Conamad, que é a Assembleia de Deus ligada ao Ministério de Madureira. E também, que é um ministério independente, que é o de Silas Malafaia, que é o mais midiático. E que, obviamente, a gente falando dessa personalidade, de Silas Malafaia, todo mundo conhece. Que é a Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Então...

a gente pode sim, para resumir aqui a resposta à sua pergunta, a gente pode sim falar de um projeto institucional. E eu vou te dizer, a Assembleia de Deus sofre uma influência muito grande da Igreja Universal do Reino de Deus.

da sua forma de fazer política. Porque, vamos lembrar, que a Igreja Universal do Reino de Deus, ela se funda no Brasil, lá no final da década de 70. Mas, isso, ou seja, muito recente em relação à Assembleia de Deus, que começou em 1911. Então, a Assembleia de Deus era muito mais longínqua, tinha uma tradição muito maior do que a Igreja Universal do Reino de Deus. Só que, quando há o...

IURD, como a gente chama, né, a sigla da Igreja Universal do Reino de Deus, quando ela começa a fazer política, Daniel, ela já começa de uma maneira muito mais acirrada e agressiva do que a Assembleia de Deus, que já era uma denominação tradicional, que tinha um público, uma densidade eleitoral muito maior, mas a IURD já começa com um número significativo de parlamentares. Entende? E aí o que acontece? É o que o...

O pesquisador Ari Pedro Ouro, ele chama de verticalização, né? Então, a IURD, ela tem um modus operandi de fazer política muito mais verticalizada, ou seja, é aquilo que o bispo Edimacedo determina, pronto, acabou. Não tem disputa, não tem concorrência, entende? Então, eles fazem um levantamento, então...

como você falou, não só para as eleições presidenciais ou dos estados, mas nas eleições municipais, nas igrejas locais, vê se, ou faz-se um levantamento da densidade eleitoral entre os seus fiéis, entre os fiéis da IURD, e vê se eles têm condição de eleger um candidato.

E é aquele candidato determinado, tanto é que várias pesquisas já apontam sobre isso, que a IURJ consegue eleger candidatos até então completamente desconhecidos pela membresia. Porque eles seguem exatamente, vou colocar aqui nesses termos, a cartilha dessa hierarquia, dessa cúpula eclesiástica, entende? Então, a partir daí, a Assembleia de Deus também começa.

a ter influência, a receber essa influência, ela começa a pensar, não, nós não podemos apenas abraçar as candidaturas, né, pessoas que querem se candidatar e a gente apoiar. A gente não pode apenas apoiar, a gente precisa lançar. Porque, Marcos, qual a diferença? Quando você lança, quando você projeta, você tem de alguma maneira, vou falar aqui na linguagem popular,

Você tem de alguma maneira esse candidato nas suas mãos. Com muitas aspas, tá gente? Isso aqui é só pra vocês entenderem o que eu tô querendo dizer. O que eu quero dizer? A cúpula tem um maior controle quando ela projeta um nome que até então era anônimo. Era completamente anônimo. Então ela consegue exercer um controle e uma influência muito maior sobre cada passo político que esse parlamentar vai dar no Congresso Nacional ou nas câmaras legislativas nos municípios.

Entende? Então é mais ou menos, é mais ou menos por aí, e sim, de fato, podemos falar de um projeto político da Assembleia de Deus. E eu vou refazer uma pergunta pra mim mesmo, e qual seria esse projeto?

esse projeto, Daniel, é de pentecostalização. Eu não vou colocar de conversão, porque a conversão pode ser para qualquer outra denominação. Mas há um projeto de pentecostalização. Por que eu estou chamando de pentecostalização? Porque é a Assembleia de Deus que quer estar no controle. Ela não quer apenas um Brasil convertido.

ao evangelho. Ela quer um Brasil convertido à doutrina pentecostal. Ela quer dar o tom. Ela quer dar a tônica. Ela quer dar o acorde pra essa música. Sabe? O acorde principal quer que seja da cúpula da Assembleia de Deus. Ela quer orquestrar essa conversão da nação brasileira. Isso a gente pode ver a partir do Jornal Mensageiro da Paz.

É, olha só que tese, hein, gente? Olha só, você está ouvindo coisas, tem que digerir, vai tomando aí. O Lutero chegava a dizer naquela época, né? É vinho forte demais para os fracos. A gente precisa assimilar, digerir e analisar, porque o Marcos está fazendo...

diferenciações importantes, inclusive para quem acha que o campo evangélico é homogêneo, está aí, ele é bem heterogêneo, ele é diverso, ele é plural, como o Brasil é, e a gente precisa, como historiador, lançar a mão desses conceitos para compreender, sabe Marcos? Mas você me fez rememorar a leitura de um livro que eu até tive contato com a autora na época, Andréa Dippe, acho que você deve ter lido, não sei, em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder, é verde. Maravilhoso.

É mais uma recomendação para que a gente possa estar antenado a essa percepção que não envolve só historiadores, mas profissionais de diversas áreas, ela é jornalista. Bem, gente, acho que terminamos bem esse primeiro bloco de perguntas. Você já deve estar ouvindo aí a musiquinha subindo como sempre. Olha só, o que na verdade somos da banda Fruto Sagrado? Respire, aprecie um pouco essa canção e a gente já está de volta.

Não há mais segredos pra esconder, porque complica a verdade. Que adianta apontar o caminho e seguir outra direção.

Me desenxergar Será que ver O que realmente somos Pra falar do amor Tenho que aprender A repartir o pão Chorar com os que choram Me alegrar com os que cantam

Se a verdade é tão simples, onde erramos? Ou o que deixamos de fazer? Se não há mais segredos, por que complicamos? Poucos entendem a verdade pra fazer diferente.

não basta ser diferente de que modo eu mudo história olha só em que música bem na direção daquilo que nós estamos falando aqui inclusive como historiadores que não negam a fé

mas que articulam a sua leitura de mundo com as devidas críticas necessárias às questões que são muito mais humanas do que transcendentes. O que na verdade somos? Você acabou de ouvir aí a banda Fruto Sagrado. A gente mais uma vez aqui quer relembrar, você que está...

Talvez aí chegando agora ou não prestou atenção no início, nosso episódio de hoje que tem por tema Pentencostalismo na esfera pública do refúgio à dominação. Nós estamos recebendo aqui a ilustre presença do professor doutor Marcos Queiroz.

que fala diretamente de vitória da conquista na Bahia, acabou de defender sua tese, a gente vai já falar novamente sobre isso, mas olha, manda seu comentário, sua pergunta, alguma coisa que te tocou aí no início, que te chamou a atenção, te incomodou, manda aí, comenta aí nos comentários do Spotify, YouTube e outras plataformas, o professor Marcos poderá com certeza dar um retorno.

Bem, gente, nós vamos agora ao nosso segundo bloco de perguntas.

Marcos, alinhamento ideológico. Dentro dessa engrenagem política e partidária que você até bem esboçou agora, explicando, diferenciando, qual tem sido tradicionalmente o alinhamento e a tendência ideológica da Assembleia de Deus no campo da política institucional? Explica isso para os nossos ouvintes. Como eles se posicionam no espectro político?

Olha, Daniel, e todos os nossos ouvintes, essa é uma questão bastante interessante e eu confesso que complexa para responder também. Porque como a gente já falou aqui, assim como a denominação não é homogênea, os posicionamentos político-ideológicos também não são. Entende? Entende? Então, mas como nós somos historiadores e a gente...

procura fazer uma análise, uma observação das mudanças e permanências dos sujeitos, das instituições ao longo do tempo, nós podemos responder essa questão dizendo que a Assembleia de Deus, né?

tradicionalmente, ela manteve e ainda mantém, talvez hoje até um pouco mais forte ou mais evidente esse posicionamento, um posicionamento ideológico muito, o que poderíamos dizer, conservador, para não dizer reacionário.

Então, o que acontece? A partir de toda essa perspectiva teológica que nós já apontamos aqui, do aceitismo, de uma perspectiva que não deveria se envolver com as coisas terrenas, porque o reino, assim como Jesus falou, o meu reino não é deste mundo, a da igreja também não, então a igreja deveria se ocupar com as coisas do céu.

Então ela mantém esse afastamento, mas quando ela decide se envolver politicamente, posicionar-se politicamente, lançando candidatos nesse campo político institucional,

Ela vai fazer uma escolha muito mais conservadora e, eu diria, também reacionária, do que progressista. E aí vale um adendo. Como nós falamos, a Assembleia de Deus é plural, assim como seus membros o são.

Daniel, eu fico com muito receio de algumas falas, que às vezes, pelo senso comum, de maneira informal, a gente pode até falar em espaços informais. Por exemplo, dizer que os evangélicos elegeram Bolsonaro. A gente pode até dizer isso. Mas, cientificamente, quais são as pesquisas que...

De fato, há pesquisas que apontam que há sim uma adesão entre os evangélicos, majoritariamente, sobre Bolsonaro. Por exemplo, na candidatura de Bolsonaro em 2018. Porém, nós podemos afirmar, infelizmente, que sim, desde o golpe de Dilma Rousseff, a gente pode...

fazer uma fala a partir disso, tomando como base pesquisas, por exemplo, que analisaram os discursos de parlamentares na ocasião do impeachment de Dilma Rousseff. E, majoritariamente, os evangélicos, a grande parte, a grande maioria, é claro que houve as suas exceções, que votaram contra Dilma Rousseff. Só que, na verdade, é...

A partir desse evento do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a coisa ficou mais evidente porque a mídia lançou luz, né? Assim, mais luz sobre esse grupo, sobre os evangélicos. Mas, na verdade, esse posicionamento conservador.

do reacionário dos evangélicos, da Assembleia de Deus, não é de agora, não é de 2016 pra cá, não é a partir da candidatura de Jair Messias Bolsonaro pra cá, não é de 2018. Na verdade, inclusive, eu encontrei isso, Daniel, nas pesquisas do Mensageiro da Paz, a primeira menção do kit gay, por exemplo, se você ouvinte não sabia disso, você vai aprender e saber a partir de agora, né?

que a primeira menção ao kit gay não foi de Jair Messias Bolsonaro. A primeira menção ao kit gay apareceu no jornal Mensageiro da Paz.

Muito antes de Jair Messias Bolsonaro ser uma figura midiática. Muito antes da população brasileira, majoritariamente, conhecer quem era Jair Messias Bolsonaro. A expressão kit gay eu já encontrei lá no Mensageiro da Paz. Se eu não estou enganado, porque são muitas datas na cabeça, se eu não estou enganado, Daniel, em 2011.

2011, ou seja, antes do impeachment, antes da candidatura de Messias Bolsonaro. Então, o que acontece? Bolsonaro encontrou, na verdade, uma brecha, uma pauta que havia e que há ainda hoje bastante ressonância entre os evangélicos. Porque os evangélicos, tradicionalmente, sempre se posicionaram contra pautas que a gente fala, pautas e agendas morais, voltadas ao campo da moral.

Que pautas são essas? Pauta relacionada ao aborto, pauta relacionada ao casamento gay, pauta relacionada, como por exemplo, já aparecendo no Mensageiro da Paz, contra a legalização da profissão das idosas profissionais do sexo, em outros termos, da prostituição, contra a legalização...

das drogas. Então, os evangélicos, eles têm esse posicionamento conservador, principalmente voltado a essas agendas. E aí, no meu ponto de vista, a gente, inclusive, precisa fazer essa crítica. Gente, eu estou falando como pesquisador, e eu vou dizer pra vocês que estão nos ouvindo. Eu respeito muito esta denominação, da qual eu fiz parte 27 anos da minha vida. Hoje eu não me encontro mais filiado a nenhuma denominação religiosa, a nenhuma religião, na verdade.

Porém, como o Daniel até falou aqui de espiritualidade, a gente mantém a nossa espiritualidade, a gente mantém a nossa fé, a nossa crença, enfim. Porém, eu não tenho mais ligação institucional com nenhuma denominação. Mas eu estou falando aqui com muito zelo, com muito cuidado e com muito respeito a essa instituição. Porque a gente sabe também da contribuição social que as igrejas evangélicas, elas proporcionam à sociedade brasileira.

A gente, como pesquisador acadêmico, a gente não está fazendo pesquisa para tirar pedras. É importante que se diga isso. A gente faz pesquisa, obviamente, como pesquisa científica, ela precisa ter um caráter crítico. Então, fazendo uma avaliação crítica...

De fato, esses parlamentares evangélicos, ou mais explicitamente assembleianos, eles têm um comportamento de não comprometimento e responsabilidade com questões que de fato são cruciais para a sociedade brasileira.

Como, por exemplo, a questão da escala 6x1, né? O projeto que está tramitando no Congresso Nacional. A maioria dos evangélicos se posicionam contra, né? Então, assim, como o Daniel já falou, qual é o público da Assembleia de Deus? Um público majoritariamente feminino, de mulheres, da população periférica e negra.

Então é uma população que mal tem tempo de respirar, mal tem tempo para a família, mal tem tempo para cuidar dos filhos, como eles tanto prezam. E aí o que acontece? É tão interessante que trabalha seis dias na semana e o domingo é o dia do Senhor. Domingo o fiel tem que estar na escola dominical, de tarde evangelismo e à noite culto. Essa pessoa vai viver quando?

Aí, essa mesma política desenfreada desse comportamento e desse ativismo do fiel, é o mesmo pastor que às vezes fala que o indivíduo tem que priorizar a família. Como ele vai priorizar a família?

Então percebe que os discursos no Congresso Nacional, defendido por esses parlamentares evangélicos, eles são contraditórios? Porque quer prezar a família, porque a família está se perdendo, porque o indivíduo passa muito tempo no trabalho, não tem tempo para a família. E quando deveria ter? Que seria o domingo, né? Não, o domingo é o dia do Senhor.

Então, são contradições entre o discurso e a prática que a gente percebe quando a gente vai analisar de pé. Os evangélicos, especificamente os assembleianos, eles não fazem, Daniel, no Congresso Nacional, um debate sério, um debate aprofundado e sistemático das pautas. Quer dizer...

Se posicionam contra o casamento homoafetivo porque a Bíblia proíbe. Se posicionam contra o aborto porque desde o ventre já foi concebido pelo Senhor, enfim, e que só Deus tem o poder de dar e tirar a vida. Mas não...

Pensam políticas desse indivíduo, porque parece que a pessoa, né, podemos colocar assim, só importa enquanto é um feto na barriga da mulher, na barriga da mãe. Porque depois que esse sujeito nasce, que vai pra sociedade, que tá vivendo uma vida insalubre, na periferia, que se envolve no crime, essas mesmas vidas, Daniel, não importam.

Né? Essas mesmas vidas não importam. Gente, pra fechar minha fala, eu vou dizer a seguinte coisa. Qual foi a manifestação política que nós assistimos no Brasil, né? Que nós presenciamos, feita, encabeçada pelos assembleianos contra feminicídio, contra...

os jovens negros mortos pelo tráfico, mortos pela polícia, por esse genocídio operado e orquestrado pelo Estado. Então parece, Daniel, me parece uma grande hipocrisia, porque parece que essas vidas não importam. Então é uma grande hipocrisia, ao meu ver, e a gente precisa fazer essa crítica.

Não é porque você, ouvinte evangélico, é assembleiano, que você vai fechar os olhos para essas contradições. Não pode. Não pode. Nós não vivemos mais no período medieval em que a gente só nos restava a condição de dizer amém. Enfim, então a gente não está mais nesses tempos. A gente está no tempo da ciência que não menospreza a religião, mas que lança um olhar crítico sobre a religião.

Pronto, amém Eu encerro por aqui que eu falo demais Uau, realmente são questões bem provocadoras Você que nos ouve precisa assimilar o que está sendo questionado E curiosamente hoje de manhã eu estava terminando um livro Do Dietrich Bonhoeff sobre a vida e a obra dele E eu tive curiosidade, sabe, assim De fazer uma pergunta parecida com essa que o Marcos fez Porque foi uma pergunta tanto que retórica Mas que ele também responde

porque as pautas, né, Marcos, são meio que instrumentalizadas, elas possuem uma ordem moral, eu costumo dizer no texto que eu vou te enviar para a gente compartilhar ideias, eu falo que se os pentecostais demoraram muito para se envolver com política, quando passaram a se envolver, se envolveram da pior forma possível.

instrumentalizadas por gente que realmente não quer dar educação de base, não quer efetivamente ensinar como funciona o mundo, como que as estruturas estão estabelecidas. E elas são, é dizer, eu vou votar. Elas votam, meu amigo. Elas votam.

É efetivamente isso que importa. Não é defender a família que precisa ter um dia a mais para que o pai de família sente, para olhar no rosto da sua criança, para ver ela correndo na grama, ou brincando com algum esporte com ela. Mas é aquela família que vai defender estar no único dia de folga, praticamente em alguns casos, né Marcos? Dia, manhã, tarde e noite dentro de um templo religioso.

E há uma doença, eu já lembrei agora de uma outra pesquisa que fala sobre o adoecimento mental que existe por meio dessa instrumentalização, né? Quer dizer, a pessoa, o que deve ser a pessoa passar anos e anos e anos?

só com esse hábito, as faculdades dela vão ser afetadas, mentais, etc. Apocalipse nos Trópicos, da Petra Costa. Acho que é importante a gente indicar também esse tipo de conteúdo para que você perceba, compreenda bem como as coisas estão no Brasil. É um episódio que efetivamente trabalha a história social das religiões. Um tempo atrás a gente teve aqui a presença do professor Welton lá.

do Alagoas, também fazendo algo parecido. E esse podcast está dedicando atenção a um tema tão importante para o cidadão brasileiro no tempo presente. Marcos, poxa amigo, está muito bom, efetivamente. Mas a gente já está chegando no final. Vamos fechar o nosso bate-papo a partir de agora, com uma reflexão voltada. É o que a gente já está fazendo, mas você vai poder ter mais uma oportunidade de comentar.

Por que é tão urgente e importante estudarmos e compreendermos a relação dos evangélicos com a política partidária atualmente? Especialmente na atuação deles na esfera pública. Olha, eu sou suspeito, você também é suspeito, sobre a resposta a essa pergunta, porque nós somos pesquisadores, né? E... E aí

Já está claro para nós que pesquisamos este campo, que ele é um campo e uma temática completamente necessária. Mas para além de nós, enquanto pesquisadores, nós entendemos que na condição de cidadãos, nós precisamos entender sobre as articulações políticas.

dos grupos religiosos, e aqui eu não vou falar só dos evangélicos, dos grupos religiosos, espíritas, candomblesistas, umbandistas, a nossa pauta aqui, a nossa ênfase está sobre os evangélicos, porque...

Os evangélicos estão na cena pública com muita força e com muita visibilidade midiática. Nosso foco está sobre a Assembleia de Deus, por exemplo, que é a denominação que nós temos mais afinidade porque a pesquisamos, mas isso não quer dizer que outros grupos também não são necessários para estudarmos e compreendermos, inclusive, a sociedade brasileira. Obrigado.

Eu vou ratificar uma frase da orientadora, da minha orientadora de mestrado, que eu já até citei aqui, Elisete da Silva. Ela sempre diz o seguinte, é impossível, é impossível compreender a sociedade brasileira na sua totalidade, olha o conceito marxista, de totalidade, excluindo a questão religiosa. Daniel já apontou aqui, né?

como as religiões, durante muito tempo na academia, ela sofreu muita resistência. Então parecia que pesquisar grupos religiosos, especificamente protestantes na academia, parece que era um acerto de contas de indivíduos que, frustrados com as suas denominações,

resolviam pesquisar esse grupo religioso na universidade para acertar as contas, tal como Rubem Alves e outros. Mas a gente vê que não é. Eles trouxeram contribuições interessantíssimas, relevantes para entender a sociedade brasileira. Deixa eu fazer uma pergunta para vocês. Eu gosto muito de trabalhar com perguntas.

A gente consegue compreender a sociedade colonial, por exemplo, sem o exercício do catolicismo? A gente consegue estudar Brasil colonial excluindo o elemento religioso, especificamente do catolicismo? A gente consegue? Não consegue. A gente consegue entender o período que na história nós recortamos e identificamos como Brasil Império?

sem entender as relações, e aqui não só do catolicismo, mas precisamente do catolicismo por conta do padroado Regio, enfim, e tal. Mas também dos protestantes, porque desde a abertura dos portos, as nações amigas, leia-se, Inglaterra, que havia ali a... E aí

As políticas, os acordos políticos entre protestantes. Vamos lembrar da Inglaterra protestante. Então, gente, por que eu estou fazendo essa rememoração? Nós historiadores, como diz o Peter Burke, a gente insiste em lembrar a sociedade o que ela também insiste em esquecer. Então a gente está aqui trazendo sempre elementos do passado para dizer o seguinte, sem religião a gente não compreende a história do Brasil. Gente, república!

Nova República, esse contexto mais recente, pós-ditadura militar, não tem como compreender a sociedade brasileira na contemporaneidade, agora eu posso dizer mais especificamente, sem os evangélicos. Sem os evangélicos, porque os evangélicos estão atuando na mídia, os evangélicos estão determinando a cultura. Não é à toa que, por exemplo, aqui na Bahia, que tem...

uma iguaria, que é o acarajé, que todos vocês já devem conhecer, se não conhecem de comer, conhecem de nome, que é um patrimônio imaterial da Bahia, e a gente sabe que é uma iguaria que está muito relacionada às religiões de matriz africana, mas que há, por exemplo, acarajé de Jesus. Então há apropriações dos evangélicos em diversas esferas, não só na política, mas na cultura.

Então, não tem como. Vamos deixar o nosso preconceito de lado, a nossa resistência de lado e entender mais esse grupo. Gente, pra gente criticar, a gente precisa conhecer. Também pra gente quebrar resistências, preconceitos, a gente precisa conhecer.

Então, a gente sabe que por conta do posicionamento ideológico dos evangélicos, muitas pessoas não querem nem saber, resistem. Falou de evangélicos, já pensam, ah, conservadores, reacionários, bolsonaristas, colocam os evangélicos tudo no mesmo balaio, né, como se fosse todo mundo bolsonarista, e a gente sabe que não é, né? Então, vale dizer que o seguinte, pra encerrar minha fala, eu vou ajudar.

É possível fazer parte de qualquer espectro político. Ser de direita, ser de centro, ser de esquerda. A gente não pode ser radical dizendo, ah, só pode, como inclusive muitos fundamentalistas fazem, que não dá, que é incompatível ser de esquerda e ser evangélico. Ora, no meu ponto de vista...

A ideologia dos grupos, dos partidos de esquerda, está muito mais alinhada ao evangelho de Jesus do que esse evangelho propagado e defendido pela extrema direita. E aqui, para fechar minha fala, Daniel, e os nossos ouvintes, eu vou lembrar da música que eu sugeri. A música do fruto sagrado, quando ele diz Por que complicar a verdade?

Que adianta, olha que frase, gente, nessa música. Que frase que aponta para o que eu falei antes de hipocrisia. Que adianta apontar o caminho e seguir outra direção. Gente, isso aqui é fenomenal. Porque é isso que muitos líderes religiosos têm feito.

Eles apontam o caminho dizendo ser o caminho verdadeiro, eles apontam o caminho dizendo ser o caminho da verdade, o caminho da luz, o caminho da honestidade, mas eles mesmos, muitos deles, claro, não vou dizer que são todos, mas muitos deles não estão praticando. Eu falo, gente, não há um problema em ser de direita. Agora, pra mim, particularmente, botar muitas aspas aqui ou parênteses que sou eu, é o alinhamento...

ao que nós chamamos desse fenômeno que surgiu desde 2018, bolsonarismo, já é para mim uma contradição em termos, tendo em vista tudo o que o Jair Messias Bolsonaro defendia e defende até hoje, desde que se lançou como candidato à presidência da República. Então eu sempre digo, Daniel, a população brasileira não votou enganada.

Jair Messias Bolsonaro sempre mostrou o que ele era e o que ele defendia. Não à toa que o discurso dele contra Dilma Rousseff, lá na ocasião do impeachment, foi celebrando o Carlos Albestro Brilhante Ustra. Quer dizer, um cara que foi um torturador.

Então, assim, gente, essa é uma ideologia incompatível a um evangelho que eu aprendi na Assembleia de Deus. Inclusive dentro da Assembleia de Deus. Que é o evangelho de dar outra face, que é o evangelho de andar uma segunda milha.

duas milhas mais, se for preciso, pelo próximo, como o Daniel citou aqui, eu até anotei, Deus só recebe amor no próximo. Lindo, maravilhoso isso. Então, assim, pra mim, não é problemático você ser de direita, ser de centro, ser de esquerda. Agora,

se alinhar a um candidato que ele jorra para a sociedade tudo aquilo de mais perverso, de ruim, aí, meu irmão, você precisa, não estou dizendo que é por minha causa, você poderia, com você mesmo, refletir, inclusive pedir discernimento a Deus, sobre se esse posicionamento é o melhor.

Porque eu falo assim, agenda sobre aborto, sobre união homoafetiva, sobre drogas, Daniel, isso não enche barriga. Eu sei que isso são pautas fundamentais para os evangélicos. Mas os evangélicos, como a gente falou, é uma população, os pentecostais, em sua maioria, pobre, gente. É uma população periférica, que precisa de trabalho, de trabalho digno, que precisa de saúde pública, de educação pública.

Então como é que você vota, ou você escolhe, você opta por um candidato que é completamente contra todas essas bases, todas essas instituições? Cara, tudo que é público, o Jair Messias Bolsonaro se posicionava contra. Por ele, a solução era privatizar completamente tudo no país. Privatizar a saúde...

Privatizar a educação, porque o modelo ideal, a utopia, como diz Rubem Alves, do Brasil, dos protestantes brasileiros, sempre foram os Estados Unidos, né? Mas, quantos de nós conhecemos a realidade dos Estados Unidos? Porque os Estados Unidos parece o novo Jardim do Éden.

O Jardim do Éder da Contemporaneidade. Lá não há racismo, lá não há pobreza, lá não há miséria, lá não há mendigos nas ruas. Entende? Então, gente, a gente precisa repensar nossas práticas, repensar nossos comportamentos, nossas ideologias e caminhar em direção à verdade que eu acredito que uma verdade possível.

Pode ser, sim, Jesus Cristo de Nazaré, mas não esse Jesus apropriado por essa extrema direita, mas um Jesus que é amor, um Jesus que se preocupa com a vida, um Jesus que se preocupa com o órfão, com a viúva e com os menos favorecidos. O evangelho de Jesus não é um evangelho do poder.

O evangelho de Jesus foi um evangelho para os menos favorecidos, para os marginalizados. Só que o evangelho da atualidade, o evangelho gourmet, é um evangelho que está só nas altas esferas do poder. Entende? Então a gente precisa repensar isso. Falei demais. Obrigado, Daniel.

Poxa, gente, olha, realmente talvez um episódio ou uma temática como essa, Marcos, realmente requer uma série, né? A gente precisa pensar, acho que o teu episódio está trazendo despertamentos acerca disso, né? Ideias florescendo aqui na minha cabeça da importância. Porque isso que ele está falando, gente, você que nos ouve, é tão somente por falta de educação que a população...

evangélica não recebe instrução. Um episódio como esse te instrui.

Leva você a pensar, leva você a consultar o que ele está falando, investigar. E isso você cresce enquanto cidadão. Você não cresce como um cidadão de esquerda ou de direita. Você cresce como um cidadão que vai poder agir livremente sem esses esquemas fechados que o Marcos de Bena definiu. Marcos, eu queria fazer duas falas bem breves. Uma academia e uma igreja.

Porque essa segunda parte aqui da sua fala no segundo bloco, lembra, incomoda os nossos pares, quando eu falo nossos pares são colegas muitas vezes que estão tendo esse tipo de comportamento de ignorar, ou de trabalhar a dimensão religiosa como uma dimensão inferior secundária à questão socioeconômica, enfim, à interpretação.

da transformação da sociedade, não passando pela interpretação da religião, como você didaticamente muito bem elaborou. Quer dizer, é possível estudar a colonização sem estudar a Igreja Católica, mas parece que eu ousaria dizer, com devido respeito, que o mesmo fundamentalismo do qual nós identificamos...

presente no objeto de estudo da religião, isto é, dos fundamentalismos religiosos pentecostais, evangélicos, pode incorrer na academia. Quando existe um grupo de pessoas que vivem anos e anos e anos.

ignorando, não abrindo mão das suas pré-suposições fechadas, especialmente em relação a teses que já foram ultrapassadas, em relação à transformação do mundo, sem abdicar de alguns conceitos estruturais, ortodoxos. Eles acabam se comportando, é claro que em menor medida, a comparação não é devida, mas em menor medida é uma espécie de fundamentalismo científico.

historiográfico que não serve. E aqui o nosso episódio levanta essa bola, porque ele fala o que ninguém fala. A gente está conversando aqui. E a crítica à igreja é que você definiu muito bem, meu caro, é que talvez não seja mais o evangelho.

olha só, já estou indo para a dimensão teológica, seja um outro evangelho, que o texto bíblico sagrado até diz que quem estiver efetivamente fazendo isso deve ser amaldiçoado, aí alguém pode ficar, mas que pesquisador é esse que ficou falando alto aí, falando mal, o Marcos não está falando mal de pessoas, está amaldiçoando comportamentos que devem ser rejeitados por todos nós, e aí

E efetivamente se houver algum fundamento bíblico para isso é este. É um outro evangelho. Só pode ser um outro evangelho. Porque o evangelho de Jesus é esse que você bem definiu. É aquele que é profundamente encarnado. Com as dores desse mundo, com as dores das pessoas.

E a gente quer ver que as pessoas dentro das igrejas estabeleçam uma saúde para a sua espiritualidade, também engajadas com as transformações. Não ser tão polarizada a coisa. Existem muitas mulheres conservadoras que poderão muito bem militar por salários iguais das mulheres, militar contra o feminicídio. Por que não?

Por que isso precisa ser pauta de militância e de polarização à esquerda? Então, acho que essa palavra também é uma palavra de conciliação. A nossa sociedade está um pouco adoecida por essas polarizações, por essas divisões.

que emburrecem. O nosso podcast, o nosso tema de hoje, foi para educar. Eu acho que é abrindo, né? Você está abrindo uma cortina, amigo. O que vem aí, vamos ver. Marcos, para a gente ir encerrando, meu amigo, eu queria te dar um espaço para você, brevemente, falar sobre a tua tese. A tese do Marcos, gente, que ele acabou de defender, ele falou que tem um mês que ele defendeu. Chama-se Feliz a nação cujo Deus é o Senhor? É uma pergunta.

Assembleia de Deus e a política partidária segundo o jornal Mensageiro da Paz 1986 a 2014. Então, de fato eu vou ser breve. O que acontece? Essa tese, gente, ela propõe...

a discussão em torno de muita coisa que a gente já falou aqui, de entender essa relação da Assembleia de Deus com o contexto político. Eu tomo como base, fonte, que nós historiadores chamamos de fonte.

de análise, o jornal Mensageiro da Paz, foi nele que eu centrei, principal, as minhas análises, e usei alguns periódicos esparsos, né, algumas lições esparsas, das revistas que são utilizadas na Escola Dominical, que são as lições bíblicas, né, que, no meu ponto de vista, ela, inclusive, acessa ainda mais o Fiel do que o Mensageiro da Paz.

Inclusive, eu chamo a atenção disso na tese, que as lições bíblicas, independente do fiel comprar ou não a lição, ele vai ter acesso. Vai ter acesso onde? Na escola dominical, onde vai ter um professor ensinando exatamente o conteúdo da lição. Então, direta ou indiretamente, o fiel vai ter contato com as lições bíblicas.

Então, só fazendo uma propaganda, porque foram anos, foram cinco anos e meio, produzindo essa tese, a gente tem que, obviamente, fazer a propaganda mesmo. E é isso. Eu até, de antemão, já agradeço o espaço aqui no Trilhas da História para poder estar divulgando o meu trabalho, porque é isso, Daniel. É essa história pública que nós precisamos construir e disputar. Nossas produções não são apenas para ficarem nas prateleiras das universidades.

adquirindo poeira, né? E sendo lido apenas pela banca, né? Não, é muito trabalho pra ficar restrito à banca que avaliou, né? Então, esse canal aqui, né? Através dessa plataforma do podcast aqui do Spotify, outra plataforma, enfim...

É uma oportunidade de divulgação científica. E que eu agradeço muito, né? Porque foi uma tese que eu acabei de defender. Tá fresquinha. É um debate completamente atual. E por muito tempo vai ser. Os evangélicos... Se eu posso fazer algum prognóstico aqui, eu já posso dizer isso. Os evangélicos, durante muito tempo... Sabe aquilo que a gente falou um pouco atrás? Da resistência que havia na academia sobre pesquisas com relação aos protestantes? Hoje...

já se reconhece a necessidade dessas pesquisas. E eu vou mais além. Durante muito tempo, os evangélicos não deixarão de ser uma pauta, né, importante e necessária de ser investigada na academia. Então, gente, só pra dizer o seguinte.

Nós, historiadores, trabalhamos com recorte temporal. O tempo para nós, historiadores, é muito importante. Então, por isso que o meu recorte temporal, eu até recuei um pouco, foi de 1985 a 2014. Eu pego ali, daquele contexto das eleições da Assembleia Nacional Constituinte...

86, 87, até 88 com a Constituição, e veio até 2014. Marques, por que 2014? Ora, tudo tem uma explicação. Então, se eu recortei esse período cronológico, tem uma explicação. Por quê? 2014, nós tivemos duas candidaturas de assembleianos. A Marina Silva, oriunda da Assembleia de Deus, ligada à CGADB, e o... Ah...

Pastor Everaldo ligado à Conamade, que é a Assembleia de Deus de Madureira. Então eu quis encerrar aí em 2014, justamente para entender as expectativas que foram alimentadas pela Assembleia de Deus de ter um candidato, um presidente da Assembleia de Deus.

Ora, sempre foi um sonho das igrejas evangélicas ter um presidente evangélico, né? Poderia falar muito sobre a relação da Assembleia de Deus com Marina, que foi uma relação ambígua, mas nós não temos mais tempo pra isso. Quem quiser saber como foi essa relação ambígua, vai ter que ler. Eu convido a ler a minha tese.

é uma leitura tranquila, que até no trem, no barco, atravessando o rio aí no Amazonas, vocês vão poder compreender, tá bom? Então é isso, gente, muito obrigado, agradeço muito a Daniel, que eu já conhecia de pesquisa a parte da tese dele, e que carinhosamente, gentilmente, me convidou para esse podcast, me dando esse espaço para falar um pouquinho, e assim, foi até bom você falar assim, quem é esse cara que fala alto? Deixa eu só justificar para finalizar minha fala.

Eu justifico o falar alto por duas coisas. Primeiro, acho que já tá quase que auto-explicado pelo fato de que... Ele é assembleiano! Eu saí da Assembleia de Deus, mas a Assembleia de Deus não saiu de mim. Então eu cresci nesse contexto em que as pessoas de fato falam muito alto. Para além disso, gente, tem uma questão também da minha família, toda a minha família fala alto. Pensa aquele almoço de domingo que junta todo mundo, que parece que tá brigando, mas não tá. Tá todo mundo conversando.

E tem uma outra questão, Daniel. A minha experiência na educação básica é... em escolas públicas. Assumir turma de sexto ano, meu irmão, uma turma de 35, 40 alunos, ou você cria o hábito de falar alto pra ser ouvido, ou eles vão te engolir. Eu conheço, eu já tive essa experiência.

Pois é, então eu acho que eu desenvolvi inclusive eu moro num prédio aqui eu falo que quando eu estou aqui remoto participando de algo remoto em casa eu acredito que eu falo pra todo mundo ouvir então é bom que eles vão aprender um pouco de história é bom que eles aprendem um pouco de história aprendem um pouquinho sobre os pentecostais sobre política, enfim então no mais é só agradecer por esse espaço que eu adorei essa experiência

Gente, foi um prazer te receber aqui. A gente te agradece, realmente. Foi, olha, um episódio formidável, incrível. Espero que você aproveite bastante. Compartilhe esse episódio. Nós chegamos ao final. Segue o nosso Instagram. É isso que você viu aqui. O objetivo é esse. Compartilha esse programa. Compartilha esse episódio. Olha, e o que ficou bem legal mesmo aqui, diga-se de passagem, gosto de falar sempre.

o sotaque gostoso esse baiano, hein, gente? Que maravilha a gente ouvir alguém aí, norte e nordeste aqui, ó. Hein, Marcos? A gente fica muito feliz em ter te recebido aqui. Foi realmente uma honra, meu amigo, falarmos desse assunto tão especial.

Espalhe esse episódio por toda a Bahia e todo mundo possa acessar, conhecer o podcast Trino da História. Fique atento, você que nos ouve aos próximos episódios. Estamos ainda na terceira temporada e fica com Deus. E até a próxima. Valeu, obrigado Marcos. Tchau, tchau. Obrigado, querido.

Ep#30 - "Pentecostalismo na Esfera Pública: Do Refúgio à Dominação?"🎙️ | Castnews Index — Castnews Index