Episódios de Negócios Sustentáveis EXAME

Floresta de pé e dinheiro na mesa: a equação que Marina Silva tentou resolver no governo

28 de abril de 202639min
0:00 / 39:23
Neste episódio de Negócios Sustentáveis, Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, conta sobre o balanço da sua gestão. Desde que assumiu, Silva enfrentou a reconstrução de um ministério desmontado, reduziu o desmatamento na Amazônia em 50% e mobilizou cerca de R$ 350 bilhões para a transformação ecológica do país. A ministra fala também sobre o que ficou incompleto — e por quê algumas missões levam mais de um mandato.
Participantes neste episódio1
M

Marina Silva

ConvidadoEx-ministra do Meio Ambiente
Assuntos4
  • Gestão de Marina SilvaDesmatamento na Amazônia · Transformação ecológica · Instrumentos econômicos
  • Desafios enfrentados na gestãoLegado incompleto · Continuidade de políticas
  • Violência contra a mulherMisoginia · Direitos das mulheres
  • Desafios PolíticosCandidatura ao Senado · Alianças políticas
Transcrição90 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Bom, ministra, vou começar então ainda chamando de ministra, nossa eterna ministra. Obrigada. É um trabalho de fato exemplar, não estou dizendo isso só porque estou em público, estaremos, né? Mas enfim, porque a gente acompanhou as muitas dificuldades.

E nós acompanhamos aqui também, eu especificamente, a passagem de bastão para o Capobianco, né? E ali, como é que você falou para a gente que ia ser uma fala ativa, né? Porque tinha um monte de coisa acontecendo naquele dia. Mas enfim, e na sua fala, você falou muito de legado, de sensação de missão cumprida.

A gente sabe que existia um desafio muito grande de recomeçar algumas coisas, reconstruir algumas coisas, mas assim, teve algo, alguma missão que pareceu incompleta, mesmo tendo sido uma passagem aí pela pasta bastante agitada, né? Não só com as nossas questões domésticas, mas a gente recebeu uma cópia durante o seu ministério, enfim. Alguma coisa ficou que você gostaria ainda de ter...

conseguido avançar um pouco mais? Bem, na verdade, como você falou, tivemos grandes desafios, o desafio da reconstrução e a reconstrução em várias frentes, né, vai desde as estruturas que existiam, que foram desidratadas ou mesmo descriadas, as novas estruturas que nós criamos, a restauração do Ministério no aspecto orçamentário,

um aumento de orçamento de 120%, todo o esforço de fortalecimento do sistema nacional de meio ambiente, restabelecendo as relações com estados e municípios, trabalhando para que o Brasil voltasse a ter respeito, credibilidade e protagonismo internacional, acho que conseguimos isso.

Muito bem, não foi apenas uma COP, foram duas COPs, nós fizemos a COP30 em Belém e a COP15 no Mato Grosso do Sul das espécies migratórias com total sucesso. E também a agenda de inovação, porque se nas duas gestões anteriores...

que eu passei com a minha equipe nos governos do presidente Lula, todo o plano de combate ao desmatamento, que é essa tecnologia que funciona de forma tão potente até hoje, que faz com que a gente possa vislumbrar desmatamento zero em 2030, nessa gestão, além de reconstrução, foi termos criado instrumentos econômicos muito potentes para a agenda de transformação ecológica na frente.

de agricultura sustentável, infraestrutura sustentável, transição energética, manejo florestal sustentável, bioeconomia, economia circular, toda a agenda em relação a resíduos sólidos, inclusive aprovamos a lei Rouanet dos resíduos sólidos, que já mobilizou milhões e milhões de reais.

Nos instrumentos econômicos, nós saímos do fundo clima de algo em torno de 400 milhões para 170 bilhões de reais, para investimentos em sustentabilidade, na plataforma país mais de 27 bilhões, no ECO investe mais de 50 bilhões, ao todo quando a gente soma.

O TFFF, esses que 50 bilhões de reais com instrumentos econômicos já em operação para a agenda da transição ecológica. Ah, você me perguntou o que faltou, né? Eu acho que nós temos grandes eixos estratégicos e não tem nem como se completar em um mandato. Se você pensar que nós vamos implementar o plano de transformação ecológica, isso não é um governo. Precisa ter continuidade.

para fazermos essa transição. O próprio mapa do caminho para o fim da dependência de combustíveis fósseis, nós temos as diretrizes que já estão prontas para que sejam apreciadas para o presidente Lula, essas diretrizes vão orientar a feitura do mapa do caminho após serem encaminhadas ao CNPE. Eu diria que isso é...

um desafio, mas isso não se concretiza em apenas mandato, é um processo. Da mesma forma, nós temos questões como alcançar o desmatamento zero, que vai até 2030, mas nós temos o coeficiente que nos assegura que se continuarmos nesse círculo virtuoso,

nós chegaremos em 2030 com desmatamento zero, até porque eu estou deixando o Ministério com os seis primeiros meses de medição do desmatamento para 2026, já com os dados do DT apontando que poderemos ter esse ano a menor taxa de desmatamento de toda a história da medição do desmatamento.

que foi um grande legado em muitos sentidos, né? Os números estão aí para mostrar. Mas pegando o gancho do mapa dos combustíveis fósseis, né? Ontem nós completamos dois meses além do prazo estabelecido inicialmente para que fossem apresentadas as diretrizes, né? E ali tinha uma questão que demandaria um esforço interministerial, né? Entre quatro pastas, num modelo que me parece que funcionou muito bem com o TFFF, né? E aí

Por que que nessa questão dos combustíveis fósseis a gente teve esse atraso, ainda não conseguimos ter essas diretrizes apresentadas? Você atribui uma questão de ser algo mais complexo por conta dos muitos interesses dos demais ministérios, sobretudo Minas e Energia, ou é uma questão de oportunidade também, que a gente está competindo com outras agendas muito urgentes, contexto geopolítico, enfim.

Olha, o trabalho que o presidente nos pediu na ordem de serviço que ele deu para nós, meio ambiente, fazenda e em casa civil, o Ministério de Minas e Energia, ele está praticamente concluído em termos de diretrizes. O mapa do caminho aí é um esforço enorme que terá que ser feito envolvendo vários ministérios, diferentes setores de governo, relação com agências internacionais.

de energia tem uma complexidade. Mas você pegou o ponto, nós entramos numa rota bastante complexa, que vai desde o tarifácio, em que o presidente teve que se dedicar muito a essa agenda, algumas viagens internacionais que ele teve que fazer, que são importantes e estratégicas para o país, a própria tarefa de fechar o acordo com o Mercosul.

E toda a agenda política, porque afinal de contas ela também precisa ser manejada e apenas uma pessoa. Essas diretrizes estão já na Casa Civil para serem apresentadas para o presidente, após isso elas serão encaminhadas para o CNPE que fará uma resolução, aprovando essas diretrizes para que a partir daí se inicie um processo.

de feitura desse mapa do caminho. Hoje nós já temos 85 países que estão perfilados com a ideia de que temos que ter sim mapas do caminho para sair da dependência de combustível fóssil. Nós já temos três países que estão no processo de feitura dos seus mapas do caminho, o Brasil com as diretrizes, a França e a Noruega.

e 24 países que estão buscando meios de como eles começam essa abordagem, além de que temos a tarefa de a liderança brasileira da COP30, até a COP31, apresentar a sua proposta de mapa do caminho, diretrizes para o mapa do caminho global, tanto do desmatamento quanto para a saída da dependência de combustível fóssil. Então, no caso nosso do Brasil, o que eu estava dizendo é que o presidente Lula challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge challenge

teve uma visão mais do que política, mais do que estratégica, foi quase que profética, porque essa guerra está mostrando a importância de termos os mapas do caminho, entendendo o mapa do caminho para sair da dependência de combustível fóssil, não como restrição econômica, mas como abertura de novas possibilidades para que a gente não coloque todos os ovos na mesma cesta.

A guerra agora com o Irã mostra que se nós não tivéssemos o PROALCO há 50 anos, nós estaríamos numa situação bem mais comprometedora. Países ricos têm maior facilidade de seguir novas trajetórias diante de crises e já não é fácil. Agora imagina países em desenvolvimento, mesmo países de renda média alta, como é o caso do Brasil.

É muito difícil se a gente não se preparar, porque o mapa do caminho, ele vai pensar quais são as novas trajetórias tecnológicas, quais são os processos de diversificação econômica, que tipo de investimento a gente precisa fazer em diferentes direções, que fluxos de capital precisam ser redirecionados para a gente poder sair dessa dependência. E isso tem a ver...

com um processo complexo que países como o Brasil, como o Suriname, a Guiana Francesa, a Colômbia, Venezuela agora infelizmente teve essa intervenção, mas inclusive países como a Nigéria, que estão explorando petróleo agora. Imagina se a gente tem uma saída tecnológica muito rápida para a questão de energia, e você sabe que essa corrida está posta a todo vapor.

a gente pode simplesmente ficar sem nenhum tipo de alternativa. Então, é fundamental ter um mapa do caminho.

da colaboração interministerial, nós acostumamos a ver isso mais em algumas outras esferas, mas de novo acho que foi talvez o primeiro governo em que a gente viu uma colaboração muito forte e muito efetiva como a da sua pasta com o Ministério da Fazenda e também com a Casa Civil.

E isso mostra que há uma sensibilização maior sobre as questões de impacto ambiental e que a política também chegou num lugar mais pragmático, por assim dizer. A senhora acha que isso pode se reverberar em outros governos? Porque, claro, depende também bastante de quem está no comando das pastas.

mas, assim, foi algo que a gente viu principalmente na questão de meio ambiente, que talvez até tenha aproximado mais as empresas dos aspectos que nós precisamos, como você falou, que estão dados, como a necessidade da transição energética, enfim. Porque, por outro lado, a gente teve um descolamento...

Eu chamo de descolamento de realidade, até porque estou sentada numa cadeira de ESG, mas uma maior dificuldade do Congresso de compreender o que a gente precisava fazer sobre aspectos ambientais, com esse resultado bastante delicado que a gente tem da questão do licenciamento ambiental. De fato, nós tivemos, nesse governo do presidente Lula,

uma ação integrada do governo. Aquela diretriz de que a política ambiental não deveria ser uma política setorial, deveria ser uma política transversal, isso foi uma realidade no governo, mesmo em pastas que historicamente sempre tem algum tipo de divergência ou de tensionamento. O plano safra, nós remodelamos o plano safra a quatro mãos, Ministério do Meio Ambiente, Agricultura, MDA e Fazenda ali.

com o olhar político da Casa Civil. A questão do plano clima, nós fizemos envolvendo 25 ministérios com um processo que a coordenação executiva era minha, e a coordenação política da Casa Civil. A questão do plano de prevenção e controle do desmatamento, esse é o concorre em termos de transversalidade. Mas o próprio PPA 2024-2027, que foi liderado pela ministra Simone Tebit,

A gente fez ali no PPA algo inédito, dos 80 programas, 58 têm ação de sustentabilidade. E quando a gente vê os instrumentos econômicos voltados para o plano de transformação ecológica, o ministro da indústria e comércio, que é o nosso vice-presidente, toda a política de bioeconomia, já com recursos volumosos sendo investidos nessa agenda, foram feitos também em conjunto. Eu brincava, né?

O Ministério do Meio Ambiente, de fato, não é o ministério só de proibir o que não pode, mas de ajudar a viabilizar o como pode, não só com regras e normas, mas principalmente com recursos. Nós mobilizamos cerca de 350 bilhões para a implementação do plano de transformação ecológica. Quando eu pego o TFFF, que é o Fundo Global para a Proteção de Floresta, agora...

com 6 bilhões, mas vamos chegar, se Deus quiser, a 25 bilhões de dólares, o Eco Invest com algo em torno de 125 bilhões de reais, também o Fundo Clima com 52 bilhões de reais, o Fundo Amazônia com 4 bilhões, com recursos que nós captamos graças à queda do desmatamento e a plataforma País com 25 bilhões. O Ministério do Meio Ambiente marcou, como eu disse, a primeira...

fase da nossa ação com o plano de combate ao desmatamento, mas hoje a gente marca com instrumentos econômicos chegando na ponta, inclusive nos municípios, como é o caso dos 81 municípios que mais desmatavam, que com essas ações de desenvolvimento econômico, regularização fundiária, regularização ambiental, enquanto o desmatamento na Amazônia cai.

50% nesses municípios que eram os que mais desmatavam, caem 62%.

E ainda assim, nosso Congresso tem uma dificuldade de compreender a importância. Eu confesso para a senhora que a gente compreende que precisa haver ajustes. A gente tem aí um arcabouço de licenciamento ambiental mais antigo, como todas as legislações, ele precisa ser revisado, sim. Mas, de novo, houve muita dificuldade e talvez ainda tenhamos. É possível que até o fim do mandato do presidente Lula... É...

seja retomada essa discussão do licenciamento ambiental no Congresso? É, bem, numa democracia, os poderes têm autonomia. O governo federal fez de tudo para que a gente tenha um licenciamento ambiental, uma lei geral do licenciamento, que seja capaz de produzir mais agilidade sem perda de qualidade. O que o Congresso fez, no meu entendimento,

foi diminuir arrasadoramente a qualidade do licenciamento e criando um problema grave de judicialização que vai fazer com que as coisas fiquem paradas. No caso do licenciamento, o Ibama deu mais de mil licenças. Quando você soma o conjunto das licenças todas ao longo da sua vida, isso é muito grande.

São bilhões e bilhões de reais que são licenciados, tanto na área de petróleo e gás, quanto nas agendas do PAC, tanto o PAC Grenage, PAC Encosta, PAC de construção de rodovias, enfim, um conjunto de obras muito robustas. O licenciamento ganhou força, nós fizemos concurso, botamos 1.509 servidores por concurso.

junto com a ministra Esther, e desses 1.500, cerca de 800 foram alocados para o Ibama, a maioria foram para o setor de licenciamento. Não é por acaso que o licenciamento ganhou uma agilidade enorme nesse terceiro mandato do presidente Lula.

Então só precisa ser melhor percebido, talvez, né? Com certeza. A senhora colocou o nome à disposição, mas ainda não se declarou candidata. Quando é que a gente vai saber, teremos Marina candidata ao Senado? Ontem você deu uma entrevista, hoje é dia 9 de abril, para quem estiver nos assistindo, porque esse programa vai ao ar um pouco para frente.

mas ainda existe muita dúvida sobre se a chapa será com Marcio França, enfim. Você pode falar conosco sobre isso? Então, em São Paulo nós estamos num processo de construção, da minha parte, muito tranquila, mas já avançamos muito porque temos o nosso candidato a governador.

que é o ex-ministro Fernando Haddad, um candidato que já performa com mais de 40%, e isso é totalmente animador, o processo que nós estamos vivendo de construção em São Paulo. Já temos a ministra Simone Tevich como candidata a uma das vagas ao Senado, e estamos fazendo uma discussão para quem vai ser o vice do ministro Fernando Haddad, que é ele que vai fazer essa escolha, ele está correto.

em querer encontrar um nome que possa ampliar ainda mais o alcance das propostas que eu acho que são as melhores para o Estado de São Paulo, porque coloca em São Paulo no lugar que ele precisa e deve estar, que é de liderar um novo ciclo de prosperidade para o Brasil, e vai escolher um vice que ele acha que é o melhor repórter, obviamente, que nos ouvindo, conversando.

Conosco, eu por exemplo, vi com muita simpatia o nome da Tereza Vendramin. Eu sei que ela é uma mulher que faz o debate muito mais em termos das contribuições para o agromoderno, que assegura uma agenda de produção, mas com qualidade ambiental. Vi com muita simpatia o nome dela sendo colocado, mas obviamente que essa é uma decisão do ministro Fernando Haddad e da própria Tereza.

Vejo também que no caso da discussão entre eu e o Márcio, tem que ser uma discussão tranquila. Já temos o vice-presidente pelo PSB, já temos a Simone Tevitt pelo PSB. É legítimo que a Federação Rede PSOL se coloque no debate. O PSOL tem dito que a minha candidatura é a candidatura que eles gostariam de ver nesse...

nessa contribuição na chapa majoritária, mas o Masfrance é uma pessoa relevante, estratégica, que haveremos de, com sabedoria e despreendimento, encontrar o melhor caminho.

Neste caso, além de ser uma boa opção técnica, a senhora considera que talvez ele tenha mais força eleitoral em São Paulo pelo cenário que a gente tem hoje, ou acha que não vai passar exatamente por esse lugar essa decisão? Você está falando em relação ao Márcio França, desculpe. Eu não entendi a questão de boa opção técnica.

A gente sabe as particularidades, tanto de formação, de trajetória política de cada um de vocês, pensando que o Márcio França seja um padre ser considerado num olhar, vamos dizer assim, numa comparação técnica entre um e outro, mas a questão de força com o eleitorado de São Paulo. É que geralmente as mulheres, mesmo quando elas têm um desempenho fora da curva,

Porque reestruturar o ministério desmontado, reduzir desmatamento em 50% na Amazônia, em 80% no Pantanal, em 35% no Cerrado, reduzir incêndios em 75% na Amazônia, 98% no Pantanal, as pessoas não enxergam como sendo técnico. Isso é técnico. Agora, quando são os homens, aí é diferente.

Não, eu acho que somos dois adros técnicos que tem que ser comparado de forma de igual para igual. Obviamente que cada um com a sua trajetória, mas não que um seja mais técnico do que o outro, porque todos fomos testados, eu acredito, com muito respeito e credibilidade pela sociedade brasileira, pelas entregas que fizemos. E aí ele tem grandes entregas, mas eu considero que tanto eu quanto a Simone Tebbit também temos.

Com certeza. Era mais a respeito mesmo da questão de como o eleitor ver, quem teria um apelo maior com o eleitor. E com a questão do cenário da rede, a senhora declarou que alguns diretórios que foram legitimamente eleitos foram dissolvidos. A senhora deve buscar um caminho judicial para resolver o embrólio que se apresenta? O que a gente pode esperar?

É que a judicialização já está posta, agora é aguardar a justiça, numa república democrática, todos têm o direito, a ampla defesa, e o que eu quero, o que eu já disse, já está consignado, eu trato divergências de forma bastante natural, mas obviamente que não se pode, em hipótese alguma, camuflar as divergências.

Eu tomei a decisão de permanecer na rede, acho que isso é bom para o ecossistema político brasileiro, que o PSB seja fortalecido, que o PCdoB, que o PT, mas também a federação liderada pelo PSOL, que tem a participação da rede em São Paulo e que eu me sinto muito feliz de ser candidata a deputada federal e ter sido vitoriosa.

em São Paulo. Então, para mim, isso é tranquilo. Eu não acho que as divergências são o fim do mundo. A rede tem o seu estatuto, tem o seu programa, as assinaturas para a criação da rede foi em cima do manifesto programa, que é o que eu venho defendendo, que, aliás, é um manifesto programa que, pelo lado dos que advogam a sua permanência, conseguiu...

bons resultados, quadros como por exemplo Ricardo Galvão, Marina Elô, Marina Braganti, Ana Paula, pessoas que conseguiram ter um destaque político em cima desses princípios e valores. E também por ser um ecossistema plural, onde teve desde o início, durante muito tempo, espaço para todos nós, espaço para mim, para a senadora Heloísa Helena.

para outros companheiros. É isso que se quer restaurar. Eu sempre brinco, nessa discussão, eu nem quero me colocar no lugar de oposição por oposição e nem de ser uma pessoa que é resistente por ser resistente. Eu me coloco muito mais no lugar de remanescente. Toda a floresta nativa, quando ela sofre algum tipo de mudança muito dramática,

ela precisa de remanescentes para que a gente possa ressemear. É nessa situação de remanescente que eu me coloco, porque foi para isso que nós nos mobilizamos, para ser um partido de novo tempo, um partido plural, com compromissos sérios em defesa da sustentabilidade, do combate à desigualdade, da democracia, radicalizar na democracia, tanto no país quanto na democracia interna, e ter o respeito pela trajetória daqueles que, junto comigo,

ajudaram a criar a rede. Eu nunca imaginei que em algum momento fosse questionado de que eu também pudesse fazer parte da rede. Eu faço parte, já foi como um partido que estava ali todo mundo unido, que era muito bom, que eu gostaria muito de que isso tivesse permanecido. Agora eu me coloco na situação de remanescente.

E a senhora pensa em algum cenário em deixar a rede a depender do que aconteça no fim desse processo, dessa judicialização que já está posta? Olha, eu vou responder agora, como eu respondia quando fui candidata a presidente, e as pessoas me perguntavam, mas e no segundo turno, como é que a senhora vai votar? Já me tirando do segundo turno. Aí eu dizia, bem, o segundo turno a gente discute no segundo turno.

A gente está num processo, tem questões que estão judicializadas, a justiça vai responder, já deu preliminarmente alguns ganhos de causa, há o direito legítimo de recorrer, da gente debater de forma respeitosa e adequada essas diferenças, mas sem nenhum tipo de obstrução aos canais democráticos de autocorreção para aqueles grupos que foram colocados.

Em situação de minorias.

Ministra, saindo um pouco até do que a gente costuma conversar, a senhora viveu alguns episódios de violência no passado, recente, e claramente, inclusive, uma violência que é mais exacerbada, porque é uma violência de gênero, a gente não vê homens passando por situações no Congresso como a que a senhora passou. Bom, eu queria saber como é que foi voltar...

para o Congresso, e também queria que a senhora falasse um pouco do papel que todas nós não acham de maneira alguma que isso é uma responsabilidade das mulheres, né, mas a gente acaba se sensibilizando mais, né, na questão da lei da misoginia também. Bem, infelizmente vivemos uma situação terrível no nosso país em que a misoginia é...

algo que precisa ser combatido em todos os níveis, porque não se trata de destruição, de assassinatos, de eliminação da existência das mulheres por qualquer coisa que elas tenham feito, é pelo ódio às mulheres. O problema está naquele que tem ódio pelas mulheres, que não as aceita.

como seres autônomos em relação a seus desejos e suas vontades. São mudanças que são estruturais do ponto de vista de marcos reculatórios, e tivemos muitos avanços das estruturas do poder público em todas as esferas de poder para proteger, acolher e cuidar dos direitos e das vidas dessas mulheres, mas também de mudanças de padrão cultural civilizatório.

Porque se nós não mudarmos os ideais identificatórios que dão aos homens essa ideia de que eles têm algum tipo de governança sobre os nossos desejos, as nossas vontades, os nossos corpos, isso é algo que fica muito difícil de ser mudado. Hoje, o que está acontecendo é que as mulheres ontologicamente mudaram, elas são sujeitos de direitos.

E isso é um processo irreversível, a menos que essa violência seja de tamanha forma que você tenha que recalcar aquilo que você é. Nós somos seres livres e isso vai desde a mulher lá na periferia até a mulher de classes sociais com alto poder econômico. Nós estamos nos sentindo ontologicamente livres, mas existe uma parte que ontologicamente continua achando...

que eles têm domínio sobre os nossos corpos, nossos desejos, as nossas vontades. São mudanças estruturais, legais e mudanças de cunho cultural. É preciso criar novas bases para um novo laço social. Aquele laço social do crime passional, do crime em defesa da honra, esse não existe mais, ele foi banido do nosso vocabulário.

Que bom, ministra. Uma última pergunta. Tempos atrás, quando ainda o Chile não tinha feito aquele plebiscito da Constituição com paridade de gêneros, que infelizmente não teve o resultado que nós gostaríamos, esperávamos, eu conversei com uma parlamentar da época, acho que o nome dela era Pamela Figueroa, e uma das coisas que ela trouxe é que para essa discussão avançar...

As mulheres tiveram, claro, um papel de novo determinante, embora a responsabilidade não devesse ser só delas, né, porque paridade e os benefícios da paridade vem para uma sociedade toda, não para nós mulheres, né, não é uma competição entre homens e mulheres. Mas, enfim, o que ela ponderou na época...

foi que para isso avançar, foi preciso uma união no país entre mulheres de todos os vieses. Então, mulheres mais à direita, mulheres mais conservadoras, mulheres mais à esquerda, essas mulheres todas se uniram, foram às ruas e se organizaram.

para demandar a paridade da Constituição. Ali a gente tinha um mundo menos polarizado, já existia polarização, porque foi logo antes da pandemia, se eu não me engano, eu lembro que eu entrevistei essa parlamentar chilena na pandemia. Hoje acho que a gente tem um cenário mais polarizado, mas me parece que essa também seria uma necessidade aqui no Brasil. A senhora acha possível que a gente consiga essa compreensão e sensibilização?

das mulheres num lugar maior, além do que se defende politicamente? Porque essa nem é uma pauta ideológica, né? É uma pauta de segurança, de evolução como sociedade, de manutenção dos direitos femininos, né? Como um todo, que vale para todas. Ou deveriam valer? É, de fato, se não tivermos uma ampliação para além dos recortes ideológicos,

fica mais difícil, bem mais difícil. No passado, ali com as pioneiras, nós as pioneiras, Marta Assuprici, eu, Benedita da Silva, Jandira Fregali e outras mulheres, a gente conseguiu em muitos momentos para algo que hoje a gente já está até ampliando esse debate, que é a lei das cotas.

Nós conseguimos porque fomos capazes de nos unir em torno dessa bandeira. Hoje é preciso que a gente vá além, inclusive, da nossa união como apenas as mulheres. É preciso que os homens também, independente de ideologia, entrem nessa luta para que a gente...

possa colocar esse debate não como coisa de direita e esquerda, mas isso é coisa de seres humanos, coisa de pessoas civilizadas, coisa de quem sabe que não existe um cidadão de primeira classe e um cidadão de segunda classe, um gênero que, por ser...

o que é já está excluído a priori das melhores possibilidades de desenvolver as suas capacidades. Quando a gente olha a representação nos espaços de poder e tomada de decisão, isso fica muito claro. Então, é preciso que haja uma união para combater a misoginia, combater o feminicídio, todas as formas de preconceito e discriminação contra as mulheres. E aí eu acho que você pegou um ponto fundamental.

Quando a gente resolve o problema para as mulheres, nós estamos resolvendo para todo mundo. Quando a gente resolve o problema para os indígenas, nós estamos resolvendo para todo mundo. Para as pessoas pretas, estamos resolvendo para todo mundo. Porque é um mundo em que mulheres, pessoas pretas, pessoas indígenas, pessoas LGBT, quem é a mais, tem acesso aos meios para poder desenvolver suas capacidades e ter igualdade de oportunidade, isso é bom para todo mundo.

Não consigo imaginar uma cultura, uma visão de mundo que ache que o mundo só é bom se for bom para ele, em prejuízo da dignidade humana de outros seres humanos, em prejuízo da sua liberdade, em prejuízo do seu direito e da sua vontade. Nós somos sujeitos de direito, portadores de desejos e queremos ser respeitadas, tratadas e reconhecidas.

com igualdade de direito, ainda que sejamos diferentes. Nós somos diferentes, mas a beleza do direito é poder tratar os diferentes como diferentes, mas mantendo iguais direitos para que cada um possa viver suas singularidades. Para finalizarmos, se não tivermos Marina candidata ao Senado, o que podemos esperar?

Olha, esse debate está muito cedo. Como eu disse, segundo turno, a gente discute no segundo turno. O ministro Fernando Tavardi está liderando essa discussão entre nós. Eu e o Márcio França, a gente sempre tem uma relação de respeito. Colegas de governo do presidente Lula, ele fez um trabalho excelente como ministro da pequena indústria ali, com um segmento que, enfim, é fundamental receber esse apoio.

E agora a gente só tem que ver como é que a gente equilibra esse processo. O PSB tem uma pessoa incrível como vice-presidente, eu acho que não dá nem para adiar, o presidente Alckmin é uma instituição, ele estivesse no PSB, no PDT, ele é uma instituição e fez muito bem o presidente Lula quando o chamou para ser seu vice-presidente e agora quando o reconvidou para continuar a jornada.

E acho que o PSB fez um movimento muito bom para a nossa frente em São Paulo e para a campanha do presidente Lula, trazendo um quadro como a ministra Simone Tebbit para se filiar ao partido, para ser candidata ao Senado. E a Federação Rede Pessoal, legitimamente, está colocando também o meu nome. E eu estou à disposição para esse debate, mas reconhecendo a liderança, a importância histórica.

do Mais França em São Paulo, como vice-governador, como ministro, enfim, tudo que ele já contribuiu. O que eu quero é que a gente encontre uma forma justa e balanceada de que tenhamos também a representação de um campo político que foi para o segundo turno duas vezes para a Prefeitura de São Paulo, que tem uma forte relação com diferentes setores da sociedade do Estado de São Paulo. Então...

tenho certeza que haveremos de achar um bom caminho e uma boa maneira de caminhar. Ministra, muito obrigada pelo seu tempo, pelos esclarecimentos, por nos responder todas as perguntas que a gente colocou aqui, até aquelas que não são super confortáveis, mas que a gente precisa fazer. E seguimos acompanhando a senhora, agradecendo por todo o trabalho, não só tchau.

quem senta na cadeira ESG, mas de novo, quem quer um mundo melhor, quem tem filhos, quem tem sobrinhos, né? A gente tem muito a agradecer. Sabemos que não foi fácil, sabemos pela sua posição, por ser uma mulher, por toda a sua história. Então, muito obrigada por persistir e ficamos atentos e seguimos com o espaço aberto sempre que também a senhora quiser conversar conosco. Muito obrigada. Eu é que agradeço, um prazer falar com você.

Acho que é muito bom que a gente possa ter mesmo as perguntas que precisam ser esclarecidas para a sociedade, porque a gente faz, às vezes, a compreensão dos temas é quando eles são abordados de todos os ângulos. Nossa função como pessoas que estão no espaço da política é para lidar também.

com o contraditório. Eu agradeço a você, para mim foi uma oportunidade incrível. Muito obrigada.

Floresta de pé e dinheiro na mesa: a equação que Marina Silva tentou resolver no governo | Castnews Index — Castnews Index