Estudos Medievais 56 - Neomedievalismo
No quinquagésimo sexto episódio do Estudos Medievais, recebemos Maria Cristina Pereira, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo, para falar sobre o Neomedievalismo. A professora nos explica em que consiste esse fenômeno e como ele se desenvolveu na academia, inclusive no Brasil, além de como a percepção sobre a Idade Média se transforma ao longo dos séculos após esse período. A professora nos fala, ainda, sobre a relevante influência do neomedievalismo na arquitetura; nas produções cinematográficas; na arte; nos videogames; entre outros meios, nos alertando, enfim, sobre os riscos dessas representações.
Participantes
Maria Cristina Pereira
Emília França
Membros da equipe
Diego Pereira (roteiro)
Emília França (roteiro)
Eric Cyon (edição)
Gabriel Cordeiro (roteiro)
Isabela Silva (roteiro)
José Fonseca (roteiro)
Marina Sanchez (roteiro)
Rafael Bosch (roteiro)
Sara Oderdenge (roteiro)
Tamires Porfiro (edição e ilustração)
Sugestões bibliográficas
ECO, Umberto. Dez Modos de Sonhar a Idade Média. In: Sobre o Espelho e Outros Ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
MACEDO, José Rivair; MONGELLI, Lênia Márcia (Orgs.). A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.
ALTSCHUL, Nadia R.; BERTARELLI, Maria Eugênia; AMARAL, Clínio (org.). Neomedievalismo em países sem medievo: Idade Média na América. Signum, Londrina, v. 22, n. 1, 2021.
ALTSCHUL, Nadia R.; GRZYBOWSKI, Lukas Gabriel (org.). Medievalismo(s), neomedievalismo e recepção da Idade Média em períodos pós-medievais. Antíteses, Londrina, v. 13, n. 26, 2020.
Emília França
Maria Cristina Pereira
- NeomedievalismoDiferença entre medievalismo e neomedievalismo · Influência na arquitetura · Representações na produção audiovisual · Riscos de representações acríticas · Perspectivas decoloniais no Brasil
Olá, sejam bem-vindos ao podcast Estudos Medievais, uma produção do Laboratório de Estudos Medievais vinculada ao projeto temático Uma História Conectada da Idade Média. Eu sou a Emília França, pesquisadora do núcleo USP do Leme, e no episódio de hoje discutiremos o neomedievalismo, que se faz tão presente na atualidade, seja em filmes, séries, jogos, músicas e até na arquitetura, evocando e reinventando a ideia que nós temos do medieval.
Para discutirmos o tema, eu tenho o prazer de receber a professora doutora Maria Cristina Pereira, do Departamento de História da Universidade de São Paulo.
Os seus principais interesses de pesquisa são História Medieval, História da Arte e Relações de Gênero, História das Imagens e História da Arte Sacra. Ela é coordenadora do Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais, o LATIM, e também integra o projeto temático com a História Conectada da Idade Média. Se você já é um ouvinte do nosso podcast, pode reconhecer a professora de outros dois episódios que ela já gravou conosco, o episódio sobre gênero nas imagens medievais e o episódio sobre as etimologias de Isidoro de Sevilha.
Professora, muito obrigada por aceitar o nosso convite. É um prazer recebê-la aqui mais uma vez. Bom dia, Emília. Eu queria agradecer de novo pelo convite. É um prazer estar aqui com vocês mais uma vez, conversando. Queria também parabenizar vocês por essa iniciativa que é tão importante para a nossa área, para a difusão de conhecimento.
E nesse formato de podcast, que a gente pode dizer que é um dos resquícios positivos da pandemia, uma das sobrevivências da pandemia, como diria o Avi Vargo. Enfim, eu falei de sobrevivências um pouco... Isso tem tudo a ver com o tema desse episódio, o neomedievalismo.
Poderia chamar um pouco dessas sobrevivências inventadas em maior ou menor grau da Idade Média, essas retomadas da Idade Média nas mais diferentes formas, como você mencionou.
Perfeito, professora. Então, para começar, eu queria justamente que você explicasse para os nossos ouvintes o que significa neomedievalismo. Então, o que exatamente é esse fenômeno e qual é a diferença entre medieval, medievalismo e neomedievalismo?
Bom, você já começa colocando quase que o dedo na ferida, digamos assim, nessa questão que é muito debatida, que é a própria nomenclatura desse campo de estudos. Neomedievalismo, medievalismo, revivalismo, ou seja, como chamar, como designar. Essa é uma questão conceitual fundamental e que envolve uma dimensão cultural, política e linguística também.
Então, se a gente for fazer um brevíssimo apanhado histórico dessa discussão, desses três termos, o mais antigo é o revivalismo, o revival em inglês, que se popularizou no século XIX e que tem relações com o romantismo, com essa nostalgia do passado, que não é somente medieval, mas também da antiguidade clássica do Antigo Egito, etc.
Mas, enfim, o que nos interessa aqui é o revivalismo medieval, que coexistiu e que alimentou, numa relação de mão dupla, esse crescente interesse pela Idade Média, principalmente a partir do século XIX, e, particularmente, a arquitetura, as ornamentações dessa arquitetura, escultura, pintura, enfim.
E é interessante que esse revivalismo no XIX medieval vai ser sobretudo do gótico, estilo que inicialmente era identificado a toda a Idade Média e que é só no século XIX que começa a tomar esse contorno que ainda hoje a gente pensa e que a gente usa, de pensar o gótico, a arte gótica, a arquitetura gótica, basicamente a partir do século XIII.
E daí, então, a gente vai ter o que a gente chama de neogótico, digamos, essa retomada, essa reinvenção, digamos, do gótico a partir de 19. E esse neogótico vai ter um grande sucesso. A gente vai encontrar inúmeras igrejas, catedrais neogóticas sendo construídas em muitos lugares, na Europa.
nos Estados Unidos, no Brasil, e no Brasil a gente tem um exemplo muito pertinho de nós, que é a Sé, no centro. Enfim, claro, além do neogótico, a gente tem menor grau o neoromânico, o neobizantino, enfim. E é interessante lembrar, eu falei agora há pouco dessa ornamentação, porque para além da arquitetura, o revivalismo medieval, ele vai ser importante também na pintura, no design.
E na pintura a gente tem um grupo muito conhecido, os chamados pré-rafaelitas, pré-rafaelitas antes de Rafael, do pintor Rafael, com o William Morris, o Dante Rossetti, o Edward Byrne Jones, a Julia Cameron. Enfim, mas eu sei que estou fugindo talvez um pouquinho da questão, a gente pode voltar a isso daqui a pouco, mas é só para dizer que existe essa primeira retomada em grande escala da Idade Média, que...
fez muito sucesso, que é o revivalismo, e que faz parte de outros revivalismos. Um pouco mais adiante, ao longo do século XX, chegando ao século XXI, esse conjunto de retomadas, de apropriações da Idade Média, passou a ser conhecido, principalmente entre nós, nós e o Brasil, como neomedievalismo. Muito por influência do Humberto Eco,
desde os anos 70, 80, e que é interessante porque ele guarda o prefixo neo, de neo-gótico, de neo-românico. Mas no mundo anglófono as coisas foram um pouco diferentes, um tanto diferentes. Na esteira do chamado, a gente pode chamar assim de pai fundador desse campo, desse anglófono, o Leslie Workman,
nos anos 70, eles preferiam usar apenas medievalismo, sem esse prefixo neo. Então, o sufixo ismo já indicaria para eles a diferença para o termo medieval, mostrando então que se tratava de uma derivação de medieval.
pois alguns autores fizeram uma precisão maior, criando outras categorias. Então, o medievalismo, para alguns autores, seria uma retomada, entre aspas, séria, com mais fidedignidade da Idade Média, enquanto o neomedievalismo seria uma releitura dessa releitura, digamos assim, com mais liberdade, com menor fidedignidade.
É claro que eu estou aqui simplificando, falando das definições mais comuns, se a gente pegar outros autores, se a gente aprofundar essa reflexão, a gente vai encontrar outras nuances, outras precisões, mais diferenças. Eu lembro, por exemplo, que aqui no Brasil, um artigo para um dossiê que eles fizeram para a revista Signum, a Nádia Autchu,
professor de Glasgow, Clínio Amaral, da Rural do Rio, Mariogine Bertarelli, eles defendem o uso do termo neomedievalismo como uma espécie de resistência explícita a um colonialismo que esse termo medievalismo evoca. Além de, para eles, funcionar para deixar mais clara – Música – Música
a diferença entre medievalismo, que seria o estudo de temas medievais, e o neomedievalismo, o estudo de temas neomedievais, dessas retomadas da Idade Média. E essa separação não fica muito clara no uso anglófono do termo medievalismo. Então, é interessante que a gente pode ver que, além dessa dimensão política, de posição política, há também...
essa preocupação com uma especificidade linguística. Talvez vocês tenham reparado que eu usei muito o substantivo, substantivos. Neomedievalismo, Revivalismo, Medievalismo. Mas o que acontece quando a gente pensa em adjetivos associados a esses termos? Então, neomedievalismo, adjetivo neomedieval. Então...
A gente consegue falar bem uma obra neomedieval, uma igreja neogótica, por exemplo. Também consegue usar o adjetivo fácil, para revivalismo, revivalismo. Uma obra revivalista. Mas o que acontece com o terceiro termo, medievalismo? Como é que a gente vai achar um adjetivo?
Se a gente corta e fala em medieval, uma obra medieval é uma obra da Idade Média, uma obra do período. Se a gente falar em medievalista, uma obra medievalista...
vai ser uma complicação, porque uma obra medievalista seria obra de um medievalista, porque o termo medievalista também é um substantivo, de certa maneira, um historiador medievalista. O medievalista somos nós, especialistas, estudiosos da Idade Média.
Então, se a gente for pensar em termos de adjetivo, é um problema. Se a gente fosse assumir essa ideia de medievalismo no lugar de neomedievalismo. Ou seja, por uma questão até de coerência linguística, de simetria linguística, eu acho mais interessante falar em neomedievalismo, neomedieval, aqui...
medievalismo. De todo modo, é sempre importante, quando a gente está trabalhando, escrevendo, pesquisando, enfim, precisar os termos que a gente está utilizando, por que correntes, por que caminhos a gente está passando, e deixar claro que se conhece, que se sabe que há um debate, a gente está lidando com construções teóricas.
E assim, por exemplo, na disciplina da graduação, na disciplina optativa que eu criei há alguns anos, no curso de história, eu quis, por exemplo, ser o mais aberto, o mais inclusivo possível, e eu chamei essa disciplina de medievalismos, no plural, justamente para indicar essa pluralidade de visões. Então, achei que seria mais interessante pensar assim, medievalismos.
Então, acho que a gente pode começar a entrar na discussão por esse caminho. Perfeito, professora. Muito obrigada. Eu queria agora expandir um pouco mais no que a gente já estava tratando nessa última pergunta. Eu acho que um bom ponto de partida para isso é uma frase que foi escrita pelo Brian Stock em um artigo de 1974.
em que ele diz o seguinte, o Renascimento inventou a Idade Média para se definir, o Iluminismo a perpetuou para poder se admirar, e os Românticos a reviveram para escapar a si próprios. Bom, essa frase tem um tom um tanto irônico, mas ela é interessante para a gente pensar como a ideia sobre o medieval mudou ao longo dos séculos após a Idade Média. Um dos aspectos mais prolíficos desse debate, como você mesmo já mencionou,
é a análise das tendências arquitetônicas, que vão mudando muito. Em especial porque o neogótico ainda é uma referência muito comum para a gente nos dias atuais. Então você pode nos falar mais sobre o que explica esse revivalismo e como é que ocorre esse processo. Bom, é um livro também bem interessante, porque de fato a arquitetura tem um papel...
central nessa, vamos chamar assim, localização espacial imaginária da Idade Média, nesse cenário que se imagina para a Idade Média, principalmente o par castelo-catedral. Então, no caso da Europa, França, Inglaterra, entre outros, o revivalismo medieval na arquitetura
tinha uma relação importante com essa retomada das raízes dessas nações, raízes cristãs. Eu gosto muito de uma frase do Violele Duc, aquele famoso arquiteto e restaurador de Notre-Dame, em Paris, quando ele diz o seguinte, as pessoas sempre se sentirão mais bem batizadas e mais bem casadas numa igreja gótica.
Ele, aliás, é uma pessoa muito interessante porque ele nem usava o termo neogótico. Claro, ele nem falaria em neomedieval. Ele dizia que ele construía igrejas medievais do século XIII. Ponto. Não só restaurava, ele construía. Enfim, no caso do Brasil, essas raízes, claro, são tomadas de empréstimo. Um passado europeu que é tomado emprestado.
e que, de certa forma, serviria para pagar a lembrança da colônia. Em muitas cidades brasileiras, aqui mesmo São Paulo, Santos, Vitória, várias outras, aconteceu um processo físico mesmo, de substituição de igrejas coloniais por igrejas neogóticas, demolir e construir no mesmo lugar, ou do lado.
como se com isso se apagasse esse passado colonial, esse passado de colônia, por uma identificação com a metrópole. E aí, claro, a gente obviamente pensa que isso é um outro tipo de colonização, mas enfim, isso é uma análise nossa atual, e não daquelas elites laicas e eclesiásticas da época.
questão da relação com Roma, com Papado, enfim. E, é claro, isso não é uma novidade, tem trabalho sobre isso, né? Por exemplo, um ex-aluno meu, o Pedro Ramos, ele acabou de defender agora no final do ano uma dissertação de mestrado sobre a ornamentação da Sé, aqui de São Paulo, discutindo, como não é simplesmente uma questão de...
cópia de um modismo europeu, mas uma reinterpretação dessa tendência, ou seja, se produziu um, até certo ponto, um neogótico próprio, que tinha lugar até para elementos da flora e da fauna locais. E esse, eu acho que é um dos, talvez um dos traços mais interessantes do neomedievalismo.
que é essa plasticidade, essa capacidade de se manipular, de adaptar quase que ao infinito esses elementos medievais. De tal de contas, os agentes desse medievalismo, os olhares sobre a Idade Média, são outros, estão em constante transformação, em constante mudança.
E aquela citação que você traz do Brian Stock, ela é muito interessante nesse sentido, porque justamente ele está falando um pouco dessa dinâmica, dessa constante mutação das visões e das interpretações sobre a Idade Média, tudo aquilo que está fazendo sentido e que está sendo construído em termos de sentido, posteriormente, enfim, e até hoje.
continua sendo. Muito obrigada, professora. Bom, partindo para agora um outro aspecto desse debate, atualmente a gente vê que a produção audiovisual, cinematográfica, constitui uma das formas mais relevantes de representar aquilo que se entende pelo medieval.
Então, filmes e séries de muito sucesso se utilizam muito da Idade Média como um cenário, seja isso de maneira explícita ou não, podendo inclusive contar com elementos fantasiosos, exemplo dos famosos dragões que a gente vê por aí. Então, qual é o papel dessa linguagem cinematográfica na sua visão na fabricação dessa noção do público a respeito do que foi a Idade Média e quais são também as problemáticas que podem surgir a partir dessa representação?
É, os dragões, enfim, né? É interessante porque, como eu estava falando, se no final do 19, iniciozinho do 20, a Idade Média estava na moda pela arquitetura, pelas artes plásticas, no final do 20, no início do século 21, a Idade Média está na moda pelas novas mídias. Você falou do cinema, que é extremamente importante.
E eu acrescentaria também séries de televisão, videogames também. Então, aquilo que eu estava falando dessas visões que se multiplicam sobre a Idade Média, ainda são mais... se multiplicam ainda mais, né? Explodem, se desdobram em várias outras. Então, isso é bem interessante. E falando em filmes, por exemplo, produção audiovisual,
você tem uma variedade também muito grande numa mesma época, né? Porque eu estou falando dessas mudanças, essas mudanças, elas não são só em relação ao tempo, né? Mas elas convivem, você tem diferentes versões e tendências numa mesma época, dependendo de grupos, de lugares, enfim. Então, quando a gente pensa em filmes, a gente tem filmes e séries, a gente tem desde aqueles mais...
preocupados com uma reconstituição histórica que busca uma maior fidedignidade, ainda que sejam ficções. E aqui eu penso no exemplo que é o mais paradigmático de todos, talvez, que é o nome da Rosa. Interessante porque, já no livro, Humberto Eco toma uma série de cuidados.
Então, por exemplo, aqueles trechos em latim, que funcionam como pastiche da Idade Média, lembro, eu acho que foi no pós-escrito ao nome da Rosa, se não me engano, que ele diz que ele fez uma espécie de maquete, ou de reconstituição do mosteiro, do mosteiro do filme.
e que ele sabe exatamente o tamanho, então quantos passos haveria de um lugar a outro, quantas falas caberiam no deslocamento do personagem de um ponto a outro. Então esse grau de cuidado com detalhes, com essa fidedignidade do passado, mas também o próprio lugar, o próprio cenário. E quando o filme foi feito, o Jean-Jacques Anot...
o diretor teve o cuidado de buscar esses efeitos, vamos chamar assim, essa ilusão de realismo. Por exemplo, ele chamou Jacques Legoff como consultor histórico, por exemplo. Então, esse seria um ponto. E a gente tem, no outro extremo, aqueles filmes, aquelas séries de mais pura fantasia, como os dragões, enfim.
coisas do tipo Game of Thrones, né? E entre esses dois extremos, né? Na verdade, filmes com essa preocupação mais fidedigna, ainda mais extremo do que esse, a gente poderia falar nos documentários, que seria o ponto mais próximo da dimensão fidedigna, até esse outro, da mais extrema fantasia, de uma idade média do futuro, né? Daí eu estou pensando...
em ficção científica, em Star Wars, os cavaleiros, os Jedi, o sabre de laser, etc. E há, entre esses dois pontos, há elementos intermediários. Enfim, é muito interessante pensar nessa variação de interpretações sobre a Idade Média, como muitas vezes há essa liberdade de tomar elementos soltos, de recombinar.
E com muita frequência sem nenhum compromisso com a fidedignidade. Mas o que é interessante é que há uma exigência de reconhecimento. Ou seja, os clichês, as ideias, as mais falsas sobre a Idade Média, precisam ser reconhecidas e precisam ser perpetuadas para que esse tipo de mídia funcione. Então, por exemplo, é preciso que se represente...
uma Idade Média com vikings, e que esses vikings tenham o elmo com chifre. Ainda que a gente saiba que isso é uma invenção. Mas não dá para pensar nesse elmo sem o chifre, por exemplo. E o que é interessante, a meu ver, é que a gente não precisa eliminar essa ausência de precisão histórica, de fidedignidade, para se divertir. Ou seja, a gente não precisa exigir uma irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã irmã
Isso, né? Nem todo mundo tem que ser historiador. E também, até porque é possível se divertir com clichês, sabendo que é clichês. E aí, eu estou pensando aqui num público mais conhecedor. Por exemplo, citando um exemplo bem, digamos, banal, né?
Muitas festas de confraternização de final de ano do meu laboratório aconteceram num restaurante medieval, com todos os clichês possíveis de barco viking, etc. E sempre era uma diversão muito grande, com essa espécie de, vamos chamar assim, humor de segundo grau. Enfim, eu acho que mesmo essa ideia, essa idade média fantasiosa, bem livre,
uma imaginação completamente solta, ela também tem seu lugar, ela também tem seu interesse, nem que seja para fisgar o público. Eu lembro que o historiador francês, o Michel Pastorot, ele cita uma pesquisa dos anos 80, que foi feita, se não me engano, pela revista Medieval, com medievalistas perguntando ou...
que os havia levado aos estudos medievais. E boa parte deles respondeu que eram obras de literatura neomedieval, como o Ivan Oé. Hoje a gente atualizaria isso. Hoje seria talvez um game, uma série, um filme. Mas acho que é um pouco por aí.
Perfeito, professora. Muito obrigada. E aproveitando que você mencionou agora há pouco o Humberto Eco, que é um nome super importante dessa área, um texto clássico dele sobre o tópico do episódio de hoje é o 10 Modos de Sonhar à Idade Média. E ao final do texto ele diz o seguinte Sonhem com a Idade Média, mas perguntem-se sempre qual e por quê.
Então, professora, na sua visão, por qual motivo essa advertência do Humberto Eco é necessária? Quais são os riscos de um revivalismo acrítico do período medieval? E como é que isso se relaciona com a nossa atualidade? É, também uma questão importante. A gente estava falando agora de uma Idade Média até certo ponto lúdica do cinema de fantasia, mas...
como você lembrou bem com essa citação do Eco, que entre os usos da Idade Média há espaço para muita coisa, inclusive política, mobilização política dessa retomada, dessas representações da Idade Média. Falei rapidamente disso, quando eu falei do neogótico, dessas elites paulistanas do início do século XX, o projeto da Sé, mas nas últimas décadas, isso tem...
Isso tem ganhado um contorno mais explícito, mais problemático, vamos chamar assim, dizer o mínimo. E que, claro, não é novidade, mas a gente lembra, por exemplo, a propaganda nazista mostrando Hitler com uma armadura de cavaleiro medieval. Enfim, não é novo, mas ultimamente isso tem aparecido muito, principalmente em mãos.
da extrema-direita, que, em particular, se alimenta e alimenta essa ideia de uma idade médica, uma idade média branca, masculina, principalmente cristã, violenta, guerreira. Então, a gente encontra com frequência em manifestações da extrema-direita no Brasil, nos Estados Unidos, em vazão do Capitólio.
estandartes, símbolos que remetem a isso, principalmente a ideia de cruzada mais forte. No Brasil a gente tem, por exemplo, o caso dos arautos do Evangelho, com aquela roupa que evoca cruzados com a bota, a sede deles, caieiras que têm estilo neogótico.
Pegar, por exemplo, o caso da Joana d'Arc, que é muito paradigmática, ela que foi englobada pela extrema-direita francesa, pelo Ficou Nacional, do Le Pen, e ela que antes havia sido um símbolo feminista. E, ao mesmo tempo, é interessante porque a gente vê, muitas vezes, setores da esquerda e, ao mesmo tempo, é muito grande.
corroborando essa apropriação da Idade Média pela extrema-direita quando se associa o adjetivo medieval a atraso, a ideia de trevas. Então, de certa maneira, entregando essa Idade Média para o extrema-direita. E essas duas representações são muito simplistas, são muito errôneas ao serem tomadas com verdade.
sobre a Idade Média. A Idade Média não era só, unicamente violenta. Havia violência, obviamente, como há violência hoje. Havia ignorância, óbvio, como também hoje há ignorância. Também havia sabedoria, etc. Então, o importante é não tomar essa visão de uma Idade Média
essa visão particular de uma Idade Média branca, masculina, guerreira, como fonte de autoridade, legitimidade e como verdade única. Acho que é importante sempre insistir em uma visão mais plural da Idade Média. Nem todas as guerras eram massacres, nem todos os cavaleiros eram homens, havia diferentes povos, culturas, religiões convivendo.
Então, acho que daí vem essa importância de evitar, isso que você falou, desse revivalismo acrítico. Acho que isso é extremamente importante. Muito obrigada, professora. Bom, agora há pouco você falava da importância disso no Brasil atualmente, e eu acho que esse é um bom ponto de partida para a gente discutir um pouco.
a posição em que a produção acadêmica brasileira também se encontra, né, em relação a esse tópico. Porque os estudos brasileiros, ao contrário dos europeus, não estão partindo de um passado medieval com o qual nós mesmos nos identificamos, né. Como você mesmo mencionou nesse episódio, é um passado que a gente toma por empréstimo, né.
Então, alguns autores falam sobre o potencial de propostas, inclusive, decoloniais, com abordagens perspectivistas, que tenham experiências e referências brasileiras como ponto de partida. Então, o que você pode nos dizer sobre essa particularidade das pesquisas em territórios pós-coloniais como o Brasil? É uma questão interessante, importante. Eu acho que...
De certo modo, a maior potência dos estudos brasileiros sobre o neomedievalismo, por um lado, ela é a mesma em relação aos estudos medievais, que é essa posição fora do centro, vamos chamar assim, que permite outras perspectivas, que é menos engessada. Eu lembro, por exemplo, já há alguns anos, os colóquios que a Helena Manhânia...
organizou, chamados Le Moyenage Vidaier, na Idade Média Vista, de outro lugar, de Alhures, mas ao mesmo tempo também tem essa ideia interessante, que é pensar como estudar como as ideias medievais se entrelaçaram, se entrelaçam com a cultura brasileira.
em diferentes momentos, em diferentes situações. Daí eu acho que é também uma outra perspectiva que não é mais simplesmente...
essa de estudiosos que estão fora do centro, porque o centro pode ser aqui também, estudar esses neomedievalismos, digamos assim, no Brasil. Pensar, por exemplo, a relação do Cordel com temáticas medievais e a constituição de uma tradição de uma cultura popular neomedieval. Pensar o neogótico com...
com abacaxi na séria, não sei se tem abacaxi, mas enfim, tem uma furtão bem nacional lá, agora esqueci, Pedro Ramos, que me desculpe. Enfim, é pensar no pastiche das novelas da Globo, que se passam na Idade Média. Daí eu acho que justamente a riqueza das mesclas, da mestiçagem da sociedade brasileira, ela pode...
enfim, levar a pensar, pensar bem, a pensar e perceber essa complexidade, essa diversidade das sociedades medievais. Enfim, eu acho também que uma outra dimensão importante, claro, vale para o Brasil aqui, mas também vale para outros lugares, mas não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só não só
esse potencial didático da Idade Média também, da formação desses pesquisadores, enfim, muitos alunos, alunos estudantes da universidade, mas também não só, alunos do ensino básico, têm um primeiro contato com a Idade Média, que é por meio dessas obras neomedievais, que a gente falava agora, filmes, séries, jogos.
E é importante conseguir falar essa língua, trabalhar a partir daí, capturar esse imaginário. Mas enfim, falando um pouco de novo desse cenário historiográfico no Brasil, eu também me permito falar de novo de uma experiência minha, mas não só minha.
e ao mesmo tempo fazer uma espécie de propaganda barra spoiler. E quando eu ministrei aquela disciplina medievalismos, essa que eu falei agora, em 2024, alguns dos trabalhos que foram apresentados pelos alunos da disciplina foram selecionados para um livro que eu estou editando junto com os monitores da disciplina.
que vai sair pela nossa coleção, a coleção do latim, que é a coleção Novos Olhares, vai ser em e-book pela Fifeleche. E é interessante que a escolha dos objetos de estudo, essas escolhas foram deles, e a gente percebe a diversidade de interesses deles.
que vão desde desenhos da Disney até vídeos X, vídeos para público adulto, de videogames até cétulas de dinheiro. Então, esse campo de estudos do medievalismo na cultura visual é muito rico. E esse é um nicho, um caminho que a gente está trilhando e que eu acho que é importante.
e que nós, os jovens pesquisadores brasileiros, temos muito a fazer, contribuir, construir. De novo, há uma enorme vantagem em relação a esses estudos, estudos sobre o neomedievalismo, em relação aos estudos medievais, que é o acesso mais fácil a fontes. A gente tem poucos, pouquíssimos manuscritos medievais no Brasil.
Eu participo de outro projeto com um colega da UBS, o Igor Teixeira. A gente está mapeando um pouco, mas de qualquer maneira são muito poucos. A gente depende de digitalizações de bibliotecas na Europa, nos Estados Unidos. Enquanto que as fontes para os estudos neomedievais, a gente tem uma infinidade, né? O alcance das nossas mãos, o alcance dos olhos. Acho que isso...
é um terreno muito fértil para trabalhar e para pensar. Eu acho que é importante, claro, não só os objetos, mas as reflexões sobre esses objetos, reflexões teóricas, como eu falei agora há pouco do clínico, e por aí vai. Então, acho que essa perspectiva...
Todas as perspectivas que a gente está trazendo são muito enriquecedoras para esse campo.
Nós chegamos agora ao momento final do nosso episódio, em que costumamos pedir que a pessoa convidada faça recomendações aos nossos ouvintes, seja de artigos, de livros ou de qualquer outro tipo de conteúdo que possa ser interessante a respeito do tema do episódio. Então, professora, você pode compartilhar conosco quais são as suas recomendações para os nossos ouvintes? Claro. Bom, eu falei algumas recomendações aqui de filmes, né? Por, enfim, o nome da Rosa recomendo sempre.
todo mundo veja, é uma infinidade de exemplos, mas eu queria focar principalmente na produção bibliográfica, né, e pensando sobretudo naquilo que foi traduzido para o português, o que foi produzido em português. Claro, como eu falei, tem muita coisa em francês e inglês, mas pensando num público brasileiro, né, então a gente tem...
Eu diria que o ponto de partida é aquele texto do Humberto Eco que você citou, 10 modos de sonhar a idade média, que foi publicado sobre os espelhos e outros ensaios. Mas eu penso muito na produção nossa, local. Então, os dois dossiês recentes que foram publicados na revista Signo, aquele que eu citei, que foi organizado pelo...
pelo Clínio, pela Nádia e pela Maria Eugênia. Tem também um dossiê na antíteses organizado também, pela Nádia, o Chu e pelo Lucas Gribowski. A Nádia tem um papel muito importante nessa dinamização do campo dos estudos neomedievais, recentemente no Brasil. E esses dois dossiês, eles trazem, além das apresentações que são muito importantes, até para situar...
teoricamente, metodologicamente o campo, mas eles trazem também artigos de vários colegas que estão trabalhando com o tema. Esses colegas, não necessariamente todos escreveram esses dossiês, mas eu posso citar, por exemplo, o Renan Birro, a Carol Gual, o Paulo Duarte, a Daniela Galindo, o Gabriel Castanho, enfim.
Claro, vou deixar a gente de lado, até porque a memória não é das melhores. Mas é muito interessante perceber como há um interesse grande de historiadores medievalistas sobre o neomedievalismo no Brasil. Então isso também, retomando um pouco aquela sua pergunta, é interessante que no Brasil isso é muito, muito frequente, que historiadores medievalistas se interessem também por essas retomadas.
da Idade Média, pensando como parte da reflexão sobre o próprio campo. Considerando tudo aquilo que a gente falou, que é um campo, de certa maneira, que é um campo da alteridade. Enfim, há sempre uma... Sempre não, mas há muitas vezes uma reflexão dos medievalistas sobre a sua área que...
envolve também a reflexão sobre os usos que foram feitos e que se fazem nessa Idade Média. Mas enfim, eu lembro também de uma obra um pouco anterior, de 2009 talvez, uma compilação da Lênia Márcia Mongelli e do José Rivair Macedo sobre a Idade Média no cinema. Talvez um bom uso.
uma das primeiras iniciativas nesse terreno dos estudos neomedievais tenha sido via cinema. Eu lembro também os estudos do PEM, Programa de Estudos Medievais da UFRJ, que tem uma longa tradição desse trabalho sobre o cinema, filmes com temáticas medievais, exploração didática disso, etc. Eles têm um trabalho muito grande, podem olhar.
tem uma compilação mais recente de uma jovem historiadora da Lorena Vargas. Enfim, uma coisa que é interessante, quando a gente olha esse panorama bibliográfico sobre os estudos da Medivaz, é que a maioria dos trabalhos são capítulos de livros, são artigos em periódicos, quando há livros, em geral são compilações.
Enfim, isso mostra, talvez, duas coisas. Por um lado, o terreno está em construção, está sendo feito, e, ao mesmo tempo, aquilo que eu estava dizendo de muitos medievalistas que estão se interessando por isso também, mas que muitas vezes não são a pesquisa principal. Por exemplo, no meu caso, eu tenho alguns artigos.
sobre a Julia Cameron, sobre aproximações entre o Pichon e letras iniciais de manuscritos medievais. Enfim, também é bem significativo dessa tendência que eu estou falando. Agora, a gente começa a encontrar tese e dissertações. Uma das primeiras.
pensando especificamente sobre o neogótico, foi a tese da professora Cristina Meneghella, da Unicamp, sobre o neogótico na Inglaterra, uma tese de 2000. Há outras teses em história da arte, em história da arquitetura, principalmente, na FAO. Citei já a dissertação do Pedro Ramos. Tem uma outra aluna minha, a Júlia Piovesan, que está fazendo a tese sobre...
a Catedral Neogótica de Puritiba. Então, isso mostra esse campo em ação. E a gente ainda encontra muitos trabalhos pensando em representações que lidam principalmente com formatos, ou seja, com literatura, com usos políticos da Idade Média.
Na história, a gente ainda tem menos trabalhos que lidem com essas representações da Idade Média em forma visual, com a cultura visual. E eu acho que aí também é um caminho muito interessante. Pensando aqui em cultura visual da maneira mais ampla possível, desde o cinema, mas também pensando nas artes plásticas. Enfim, eu lembro que...
Quando eu dei aquela disciplina, a gente teve aulas sobre várias mídias, vários exemplos. E um momento eu trouxe um clipe da Valesca Popozuda. E foi um... Assim, foi... Eles não acreditaram, né? De escutarem aquela música e verem o clipe em pleno departamento de história. Então, eu acho que...
Enfim, é muito interessante, porque a gente tem um espaço para pensar e para discutir que foge dos padrões e que é muito instigante nesse sentido também. A gente vai encontrar os nossos objetos nos lugares mais insólitos possíveis. Isso é muito bom, de novo, isso é muito instigante.
Muito obrigada, professora. Bom, eu convido a nossa audiência a visitar os outros dois episódios que já foram gravados com a professora Maria Cristina sobre gênero nas imagens medievais e o episódio sobre as etimologias de Isidoro de Sevilha. Mais uma vez, muito obrigada, professora, pela solicitude em nos falar um pouco mais sobre o tema escolhido para o episódio de hoje e por ter aceitado o nosso convite para voltar a participar do podcast. Foi um prazer tê-la conosco mais uma vez.
E eu que agradeço de novo, é um enorme prazer estar aqui conversando com vocês. Agradeço muito essa oportunidade, essa possibilidade que vocês trazem para a gente, para falar sobre nossos trabalhos, sobre nossas pesquisas. Isso é extremamente interessante e muito gratificante. Obrigada. Bom, então nós terminamos por aqui. Até a próxima.