Café com Pimenta #32 - Júlia Lemmertz
Neste episódio do Café com Pimenta, Márcia Pinho recebe a atriz Júlia Lemmertz para uma conversa que vai muito além da trajetória artística. Entre lembranças da infância em uma família profundamente ligada ao teatro, a construção da carreira e momentos delicados da vida pessoal, Júlia compartilha reflexões sinceras sobre escolhas, perdas e recomeços.
Ao longo do episódio, ela revela bastidores da televisão, do cinema e do teatro, fala sobre o desafio de construir uma identidade própria mesmo vindo de uma linhagem artística forte e revisita momentos decisivos que moldaram sua caminhada. A conversa também abre espaço para temas mais amplos, como o envelhecimento, o valor do presente e o propósito na vida, trazendo uma visão sensível e madura sobre o tempo e as transformações que ele impõe.
Com leveza, profundidade e autenticidade, Júlia conduz um relato que mistura emoção, aprendizado e inspiração, mostrando que a trajetória de um artista é feita tanto de palco quanto de vida real. Um episódio para ouvir com atenção e refletir junto.
Dá o play, acompanhe o Café com Pimenta e siga o podcast para não perder os próximos episódios. 🎧
Coelho
Márcia Pinho
Júlia Lemmertz
- Natureza humana e vontade de servirA importância da vocação em qualquer profissão · Acreditar na humanidade e na reconstrução · A Terra como uma nave e a responsabilidade coletiva · A força da poesia e da literatura
- Carreira de LorenightInício no teatro e na televisão · Novelas marcantes e personagens icônicos · Experiências no cinema brasileiro · Trabalhos em minisséries e séries · A peça 'Os Mambembes' e o teatro de rua
- Envelhecimento e LongevidadeAceitação do envelhecimento e do tempo · Valorização do momento presente · Inspiração em figuras como Fernanda Montenegro
- TeatroPais atores e a influência artística · Avós e a infância com a avó · Formação artística e escolhas de carreira
- Genealogia e Historia FamiliarA exumação e cremação dos pais · Plantar os pais como árvores no sítio · A metáfora da semente e do renascimento
- Vida pessoal e maternidadeFilha Luísa e a terceira geração de atrizes · Separações e a criação dos filhos · Independência feminina e resiliência
Transcrição e Legendas Pedro Negri
Começando mais um café com pimenta, lembrando que estamos em todas as plataformas. Spotify, YouTube, Apple Podcasts, Amazon Music. O Bruno tá ali doido pra chamar minha atenção. Mas não adianta, Bruno, não. Eu já gravei, tá? Eu quase errei, quase esqueci, mas lembrei.
Gente, hoje eu tô com uma entrevistada, eu tô nervosa, tô até soando frio, ó. Porque a minha entrevistada, eu sou muito fã dela. Admiro demais o trabalho dela. Se encontrei pra todo mundo na rádio hoje. Hoje eu vou entrevistar a Julia Lemertz, que está aqui. Foi eu. Ai, que delícia. Muito obrigada por ter vindo. Muito feliz de ter você aqui. Uma honra pra mim. Prazer. De verdade.
a gente já vai começar um bate-papo inclusive ela trouxe uma caneca você possa mostrar a licença olha que linda é raro inclusive julia hoje vem bem tupi né que ela tá de vermelho é até a caneca vermelho ó lá dentro tem o campo do colorado é o seu time né gaúcha
E isso aqui é antes da reforma, né? Porque ele, quer dizer, não dá pra ver direito o que é, mas eu comprei essa caneca porque foi antes da reforma, quando era o Ubera Rio antigo, entendeu?
E eu achei muito lindo. Meu filho é colorado também. Aí a gente racha. Divide a caneca. Lá em casa também é assim. De vez em quando a minha. Eu sempre mostro aqui. A minha tem a famosa minha fuça. Mas eu fico danada. Porque de vez em quando eu procuro. Minha caneca está suja dentro da pia. Usaram minha caneca. Sua caneca.
com seu nome, com seu rosto. Não é? Filhos, né? Filhos, filhos. Mas eu costumo ter canecas assim, eu tenho muitas canecas. É. E todo espetáculo que eu faço, a gente faz uma canequinha. Aí eu fiquei pensando, eu falei, ah, será que eu levo dos Mambembes? Ou será que eu levo do Deus da Canificina? Será que eu levo? Aí eu fiquei, não, vou levar.
Ô, Júlia, a gente tá falando da caneca, você é do café? Sou do café. É, gosta? Gosto muito do café. E tô ficando, assim, com o tempo, né, mais velha, começando a apreciar o café, sabe? Ah, o bom café. Porque é um bom café. Eu tenho um sítio e eu tenho uns pezinhos de café, eu planto café. Júlia? Não tenho uma grande produção, mas eu tenho uns pezinhos que...
que dá um cafezinho para a família então já já então eu vou olho aí depois eu seco ele torro e menina uma função vou te contar da trabalho viu e será isso é tomar café até com o margiano eu sabia da reverência porque puxa um café é se plantou que você colher bom a gente não tem o café do seu sítio aqui mas já é só maravilhoso só vão voltar
cafézinho só já o que é bom sem sol pra quem tem um café do city que ela corre não é eu vou te dizer que esse café do city até fica bom porque ele café tem isso né a gente tem que a torre certa e às vezes assim já queimei café já tive um momento você sabe que eu tenho eu tenho três irmãos e eu tenho um irmão brigada sozinha que é eu falo que ele é doido meio como eu
Ele é médico, também coronel dos bombeiros enquanto médico, resolveu fazer jornalismo e agora ele é barista. Tá vendo? É mole, vamos fazer um tchim-tchim. Como é o nome do seu irmão? É Carlos. Ó o Carlos. Ó o Carlos, doutor Carlos Pinho. Doutor Carlos.
Júlia, quentinho, né? O café é aconchegante, né? Ele abraça a gente, né? Ele aquece o coração da gente.
E dá uma acelerada também, né? E agora eu queria te perguntar uma coisa. Por que café com pimenta? Então, porque... A pimenta é o papo? É, a pimenta é o que às vezes a gente tira no papo. Será que com o Julia Lemert vou ter alguma pimenta? Ah, pimenta é assim que tem, né? Pimenta é o tempero. É isso. Da vida assim com sal, né? É isso. Ô, Julia, não tem como começar esse papo com você sem...
Falar da sua origem, né? Que são seus pais, né? Sim. Pai, mãe, atores. Seu pai um pesquisador do teatro, né? E ator também. Também. E diretor. Ele era... Eu digo que meu pai era um homem de teatro, assim. Porque ele tinha várias vertentes. Ele se formou advogado, porque na época os... Olha aí, papi. O meu avô...
Papi Mami, né? É, meu avô lá da fronteira do Rio Grande do Sul, né? Ali, Alegrete. E um filho, ator, imagina. Nenhum filho, advogado. Então ele foi lá, fez... Direito. Direito, entregou o diploma do pai. Fez direito e depois fez torto, né? E depois foi fazer teatro. E aí se formou em E.A. Ou foi diretor, foi ator. Foi um cara incrível, assim. Ele é muito responsável, assim, pela minha formação também, assim. E aí
e o meu olhar crítico, assim, meu pai, porque minha mãe morreu muito, eu era jovem, ela morreu muito jovem, né? Ela ia fazer 49, eu tinha 23 anos, ela tinha 48.
Quando ela faleceu. E o meu pai já faleceu mais... ele já tinha 74, assim, 75. Ele faleceu cedo também, mas de um tumor no cérebro. Mas ele foi doença, né? É, ele foi doença. A mãe foi de repente, assim, ela teve... Mas foi coração. Foi coração, foi coração.
Me parece que foi um período difícil para ela. Era um período que ela estava mais frágil. Mas a gente nunca vai saber exatamente o que foi. Porque eu, na época, foi tão de repente, foi um susto, imagina, que eu fiquei um pouco...
E o diagnóstico foi parada cardíaca, ok, parada cardíaca, mas eu sinto que era um momento que ela não estava na plenitude de alegria dela. Mas ela estava fazendo uma peça, não estava na época? Ela estava ensaiando uma peça na época com o Paulo Betti, que era o diretor, e André Beltrão, Antônio Grassi.
Era um elenco ótimo, era uma peça do Márcio de Souza, que era meio meu tio, que o Márcio foi casado com a irmã do meu pai, um autor amazonense. E aí ela no meio dos ensaios, eu ia fazer uma peça, eu estava fazendo uma peça no Shopping da Gávea, que chamava O Que o Mordomo Viu.
E ela ensaiava outro espetáculo também no Shopping da Gávea, só que na Inid Sour, na época, tinha um lugar de ensaio, de dança e tal, e eles ensaiavam lá. Então eu pegava ela em casa, levava para o ensaio e eu ia fazer minha peça. E aí, nesse caminho, eu encontrei ela morta. Caramba! E vocês chegaram a contracenar juntas ou não? Cara, a gente fez um filme...
Eu já atriz, adulta, com a Tizuka Yamazaki, chamava Pátria Minha, que era com Valmor Chagas. E eu fiz uma participação, ela fazia, era o Valmor, minha mãe, eram os meus pais.
E eu era filha, era uma família, mas a gente tinha pouca cena juntos. Mas a gente nunca contracenou, infelizmente. Eu acho que eu ia começar esse lugar de parceria, contracenar, fazer filme, fazer novela, ou eventualmente teatro, que ela gostava muito.
nesse período que ela morreu assim eu acho que dali pra frente seria um entendeu eu já que eu comecei minha carreira com 19 20 anos da 123 então tá começando a trilhar o meu caminho ainda tinha
muito arroz com feijão para comer. Imagina, mas tem uma história de uma cena, meio que uma dublagem que você fez dela, você bem pequena, não foi? Não, foi assim, ela fez muitos filmes em São Paulo com Walter Hugo Cury, que era um grande cineasta paulista, e ela fez...
alguns, uns 4, 5 filmes com Cury e eu na época era criança e aí aquela coisa faltou uma criança pra fazer a cena tal e eu tava ali dando sopa no set porque eu tava com ela ela chama a Júlia, ela tinha que comer um macarrão era uma bobagem, era um filme chamado As Amorosas por isso que às vezes botam na minha biografia que eu comecei aos 4 anos de idade isso não é verdade eu não sabia nem o que eu tava fazendo ali pra mim, era uma brincadeira eu não
Depois eu comi o macarrão e depois eu tive que dublar a cena, porque antigamente os filmes eram mais dublados do que o som direto não era tão bom. Então muita coisa era dublada. Então eu tive que dublar falando, mamãe, quero mais macarrão. Qualquer coisa.
Júlia, você começou, você está falando dessa idade que foi o momento de passagem da sua mãe, com 20 e poucos anos. Com 23, é. Mas você não determinou, mesmo com a mãe e o pai, atores, enfim, você não determinou, ah, você é atriz? Não. Você inclusive... Muito pelo contrário.
Você queria fazer outra coisa. Eu queria fazer qualquer coisa que não fosse... Porque assim, eu acho que isso acontece com qualquer família que os pais, sei lá, médicos. Os dois são médicos. Aí o filho tem meio que uma obrigação de ser médico também. Às vezes ele até embarca nisso e vai de boa.
Mas às vezes ele quer tentar outras coisas. E foi o meu caso, eu quis tentar outras coisas. Eu falei, o que me interessa? Eu tinha muitos interesses. Eu me interessei por fonoaudiologia, me interessei por veterinária, me interessei por oceanografia, ou seja, qualquer coisa. Tudo estava junto ali. Um leque de opções. Mas eu fui na veterinária mais fortemente porque eu gostava muito de cavalo.
e eu achava que eu tinha que voltar para o Rio Grande do Sul. Eu sempre tive paixão pelo Sul, pelas minhas origens, das quais eu nunca... Assim, eu nasci em Porto Alegre, mas eu nunca vivi em Porto Alegre. Eu vim para São Paulo com meu pai e com minha mãe, inicialmente para São Paulo, que foi...
eles os dois gaúchos foram para são paulo fazer teatro com cassilda becker vamos achar e eu tinha seis meses de idade vim junto então a minha primeira infância adolescência início de juventude foi são paulo só vim para o rio com 21 anos trabalhar já com uma atriz então na verdade eu fiquei um pouco assim
Achei que eu tinha que voltar para o Rio Grande do Sul. Eu falei, eu vou fazer veterinária, vou para a URGS e vou cuidar de cavalo numa fazenda. Olha, gente, quando eu penso nisso, eu acho até romântico, eu acho até simpático. Mas foi a primeira chance que eu tive. Alguém me chamou para fazer um teste, eu fui, passei. E aí, tanto que minha mãe e meu pai ficaram muito surpresas. Eles falaram, mas como assim, você não ia...
Fazer veterinária? Quando eu vejo que você está fazendo uma novela na bandeirante. Isso que eu ia te perguntar. Esse primeiro teste foi adolescentes? Os adolescentes. Os adolescentes. Na bandeirante. Na bandeirante, que estava no início de teledramaturgia. Depois vieram os imigrantes. E várias coisas aconteceram. Éramos seis. Eles fizeram...
Eu não sei se era Moisés ou era Bandeirantes. Foi SBT ou SBT. Eu não sei, agora estou na dúvida. Também fiquei com a dúvida. Mas enfim, era uma época... SBT, né? SBT. E foi uma época linda da Bandeirantes, porque... Outro dia eu fui gravar um programa de rádio lá, eu estava divulgando uma peça lá em São Paulo, e eu fui na Bandeirantes. E aí quando eu me vejo entrando na Bandeirantes, me deu até um arrepio, assim. Porque foi o primeiro lugar que eu trabalhei, assim. O estúdio era lá.
A gente, na verdade, os adolescentes não era inicialmente uma novela, ia ser uma minissérie. Quem ia dirigir era um diretor de cinema, que era o Roberto Palmares, que era um cara incrível e tal. Teve um mês de workshop, era uma coisa elaboradíssima e de repente a bandeira sacou que aquilo ali ia ficar muito caro como minissérie, porque a gente gravou um capítulo em um mês.
E aí tiraram o Roberto Palmar e botaram o diretor de televisão e a gente fez uma novela. Quando eu vi, eu estava fazendo uma novela.
Você tem aqui na sua lista, que é gigante, quantas novelas você fez? Ah, não pergunte isso para mim, porque eu não sei. Não, não sabe? Eu nunca faço essa conta. Mas está aqui, olha, eu listei algumas. Vocês fizeram essa conta? Não, não, não fiz, mas listei algumas, né? Cananga do Japão, Zaza, O Beijo do Vampiro. O Beijo do Vampiro foi com Neila Torraca.
Foi com o Ney. O Ney era amicíssimo da minha mãe. Ela era novela? Não, eu tô confundindo com a novela da bolha, que o Ney ficava na bolha, não. Ah, então, mas antes do Beijo do Vampiro... O Beijo do Vampiro não é a continuidade, mas é a partir de Vamp. Vamp. Vamp eu era guria, assim. O Beijo do Vampiro foi uma depois. E o Beijo do Vampiro foi incrível, porque eu comecei o Beijo do Vampiro como uma vilã.
cega, ela era toda, tinha uma cegueira, sei lá, meio psicológica, era uma coisa assim, ela volta a enxergar no meio da novela, e eu me lembro que quem era vampiro na novela, tinha lá a turma dos vampiros, Cláudia Raia, o Tarsizão, todo, tinha os vampiros. O Ney era vampiro também, o Ney acho que entrou depois até.
E o maquiador falava pra mim assim, eu falava, será que eu não vou virar vampira no meio da novela? E o maquiador falava, você tem lente? Tem dente? Então não vai virar vampira. Porque todo mundo que era vampira tinha dente, rostiço, e tinha lente de contato, uma lente que modificava o olho, ficava branco. E aí eu ficava muito chateada, eu falava, ai não vou. Aí o que aconteceu? A Cláudia Raia ficou grávida.
E aí, Cláudia ia ter que sair da novela, porque ela, enfim, não dava pra ficar a novela inteira. E aí, a vampirona dos vampiros ia embora. E resolveram me tornar vampira. Mesmo sem dente e sem lente. Mas aí eu ganhei lente e dente e o Tarcísio mordeu meu pescoço, virei vampira. Ela viu? E aí, minha vida mudou, porque eu me diverti bárbaramente. Era muito gostoso de assistir também.
Eu amei. Mas eu fiz outra. Eu fiz muita coisa. Não, tem várias aqui. Filho Estampa, Celebridade. Norto dos Milagres era uma que eu adorei fazer, que era do Agnaldo Silva. Que era muito legal que eu fazia uma beata. Você fez Helenas. Fiz uma Helena. Não fez? Fiz a última, né? Minha mãe fez a primeira.
Ah, quem fez a primeira foi sua mãe, é verdade. E eu fiz a última. Eu fiz a última Helena do Manuel Carlos, que foi em 2013. Mas você já tinha se dado conta disso? Que ela fez a primeira Helena e você a última? Não, não, isso tudo foi de caso pensado. Do Manuel Carlos, né? Que a mãe fez a primeira por causa daquela Helena. Outras Helenas vieram. Antes, no início, não tinha essa história. Era só um personagem que chamava Helena.
Mas foi tão legal essa personagem, foi tão... Marcante, né? É emblemática, assim, uma mulher... Quer dizer, não a mesma personagem em todas as novelas, mas o mesmo nome, com mulheres diferentes. Maite fez, Cristiane Tornoni fez, Regina Duarte fez várias.
A Bruna, minha filha, fofinha, tão querida. Ela fez Minha Filha e me fez mais nova na novela. Ela fez a Helena jovem, bem jovenzinha. E a Bruna foi o primeiro trabalho dela emancipada.
Sem mãe e pai no backstage ali com a gente. E ela sozinha, já independente. Foi muito linda. Ela devia ter uns 18, 19 anos. Bem jovenzinha. E aí você não tem só novelas, óbvio. Eu comecei junto no teatro. Minha estreia...
Na verdade, foi Os Adolescentes junto com uma peça de teatro. Junto, me chamaram para fazer uma substituição numa peça de jovens que era muito famosa na época, que chamava Lição de Arotomia. Era uma peça argentina, que são jovens descobrindo tudo. A vida, a sexualidade, drogas, relações e tal.
E aí eu entrei nessa peça. Eu até botei uma foto dela, que eu tô com uma sainha branca. A gente tem essa foto? Eu... Tô eu e acho que o Roberto Castelli. Aqui, ó. Foi minha estreia em São Paulo. No teatro? No teatro, é.
Essa peça era maravilhosa. Que ano era isso, Jair? 81. Essa peça era assim, a gente conversava de pé. Tá, imagina. Eu estreiei no TBC, que é um teatro muito famoso em São Paulo.
Aqui tem o TBCzão, que era o teatro do... Enfim, todos os grandes atores trabalhavam ali, Cacilda Becker e tal, não sei o que. Na minha época, já Cacilda não existia, mas ainda era. E o TBCzinho era embaixo. Era tipo um teatro menorzinho, numa sala no subsolo.
que era meio que um corredor, assim, de cadeiras e um palquinho ali na frente. Eu estrei nesse TBCzinho, minha mãe na plateia. E a peça era assim, começava, a gente entrava de calçadinhos, camisetas, não sei o quê.
Com um saquinho no bolso. E a gente subia no palco. Uma meia luz, assim. Tirava esse saco do bolso. Tirava toda a roupa. Ficava no empelo. Ah, nesse que você ficou nua. No empelo, assim. Era uma coisa que... Eu não sei de onde é que eu tirei tanta cara de pau. Coragem. Porque quando...
Porque era sua estreia. É. Quando perguntam assim, né? Quando é que você se sentiu atriz realmente? Cara, eu já fui jogada nisso, assim. Eu não tive dúvida. Assim, é engraçado, né? Eu queria tanto fazer outras coisas antes, mas do momento que eu comecei a trabalhar como atriz...
Eu não pensei assim, ah, será que eu vou? No momento que eu comecei a trabalhar, eu falei, não, isso aqui é meu, isso aqui é pra mim. Eu vou fazer isso aqui. Você topou fazer tudo. Eu posso não ser uma atriz pronta e preparada, mas eu entuo, eu sei do que se trata.
E acho que sei do que se trata, porque eu vivia naquela família altamente artística e eu via... E tua mãe na plateia sabia que você ia tirar roupa? Eu não sei se eu contei pra ela na época, eu só sei que no meio da peça eu vi ela chorando, emocionadíssima, assim, cena. E eu não sabia, eu fiquei preocupada até, eu falei, será que ela tá chorando porque é ruim? Tá triste, cara.
Mas era de emoção mesmo. Ah, porque o primeiro trabalho da filha, tão jovem. Porque eu fico imaginando você se despir na frente de todo mundo. Era um espanto. Eu imagino. Eu chorava com a minha filha em apresentação de balé. Ela se apresentando no...
na aulinha de balé no fim de ano, eu chorava culpiosamente. A gente está falando de, você falou agora da sua filha. E da filha atriz também, né? Pois é, da sua filha, do balé, do choro. Me remeteu também, em uma das entrevistas que eu vi a sua, é...
Falando da sua avó, né? Sua avó era bailarina. Não, a avó... A avó não, a minha avó não, mas a minha avó guardava todas as coisas da minha avó. Mas ela não tinha coisas de balé? A minha avó tinha as coisas de balé da minha mãe, porque minha mãe dançou.
ela fez escola de balé e ela guardava todos aqueles vestidos de tchutchu, aqueles colans, aquelas coisas e eu ia pra casa da minha avó e fiquei muito, minha infância toda foi muito com a minha avó porque minha mãe viajava, com meu pai fazer teatro e não sei o que
E eu ficava com a minha avó em Porto Alegre. E aí eu tirava dos guardados dela lá os vestidos da minha avó e ia para o jardim da casa dela e fingia que eu era uma princesa, uma bailarina, com aquelas coisas grandes em mim, mas que eu achava tudo lindo. Já era ver a artística correndo ali, né? Pois é, pois é. A primeira coisa que eu fiz... Aí veio uma pulga. Eu estava na escola, no primário.
Eu acho que era primário e teve uma apresentação de fim de ano. Ou não, era uma peça de meio de período? Era o descobrimento do Brasil? Ou era independência? Ah, era uma peça que a gente ia fazer sobre independência. E eu sempre fui mais alta que os meus amigos. E aí me pegaram para fazer Dom Pedro. E eu amei.
fazer um homem, fazer Dom Pedro. Então eu tinha um chapéu que eu fiz em casa, de papelão, com papel higiênico picado em cima, para fazer aquele negocinho branco, e gritar independência ou morte. Claro que isso tudo é uma ficção, porque eventualmente nada disso aconteceu desse jeito, mas eu ali no teatrinho da escola, eu me realizava ali, eu achava muito bom. Você já dava sinais, né, Juvelina?
Eu dava sinais, mas eu sempre fui meio tímida, assim, nunca tive uma coisa. E sempre tem aquela pergunta fatídica, né? E aí, vai ser atriz com uma mamãe? Minha mãe é uma puta atriz, meu pai é um cara incrível, ator também e tal. Eu não queria assumir esses dois nomes, né? Eu queria assumir esse compromisso tão jovem, assim, e meio que trilhar um caminho, porque eu acho que cada caminho é um caminho.
Eu sou atriz, não por causa da minha mãe, por causa do meu, eu sou uma atriz diferente da atriz que minha mãe foi. Apesar da gente ter alguma similaridade ou algumas coisas que eu possa ter aprendido com ela ou me inspirado nela, a minha mãe começou como atriz, ela vinha de uma família, meus avós eram trabalhadores informais, eles...
Meu avô era meio caixeira viajante, não tinha uma profissão artística assim, entendeu? Ela veio de uma família de não artistas. Então ela trilhou o caminho dela. Eu sou a filha dela, a partir dela eu vim, já imantada. E manda tinha um passado artístico, né? Exatamente, já imantada.
De muita experiência. De ver filmes. De estar em set de filmagem. De estar em coxê de teatro. Então eu já vim com outro olhar. Então é muito injusta a comparação. Eu sempre acho a comparação muito chato.
Que é um pouco o que a sua filha também já viveu, porque aí já é uma terceira geração. Imagina, para ela então, é uma terceira geração. Luísa também começou igual, ela falou, não, eu vou fazer desenho industrial, porque ela desenhava muito bem e tal. E aí quando eu vi, ela falou, mãe, abri um curso de artes cênicas. Não quis ser veterinária? Não, não quis ser veterinária, só faltava, né? Então de desenho industrial foi para artes cênicas. Foi, foi para artes cênicas. Começou a chorar quando teve que fazer embalagem.
de produto na faculdade. Ela falou, eu não quero isso. Eu falei, olha, calma. Você está na universidade. Escolhe o que você quer estudar. Ah, eu vou para a filosofia. Eu falei, legal. Filosofia, não, mas eu sei que eu não vou trabalhar com isso. Eu falei, beleza. Aí logo depois ela começou a fazer artes cênicas. E teve um projeto que você... A gente fez uma peça juntas. A gente já fez cinema juntos. Não, mas ela... Não sei se ela...
Fez uma participação como doc do Cinema Brasileiro. Ah, do Revista do Cinema Brasileiro. Do Revista do Cinema Brasileiro. Esse programa eu apresentei durante 16 anos. Um programa que começou com a retomada do cinema brasileiro na década de 90. Quando veio o Quatrilho.
Menino Maluquinho, Carlota Joaquina, que foi a época que a gente saiu daquela depressão pós-color, venda de Embrafilme, não sei o quê. O cinema deu uma respirada. Aí eu tinha um amigo, tem um amigo, grande amigo cineasta também, o Marco Altberg, que falou, a gente quer fazer um programa falando sobre essa retomada do cinema brasileiro. Quer apresentar? Eu falei, eu não sou apresentador, mas...
vamos lá fazer esse movimento agora. Não era atriz, mas começou tirando a roupa. Exatamente. E aí, quando eu vi, eu apresentei por 16 anos esse programa, que foi maravilhoso, porque me fez...
mergulhar nas entranhas do cinema em todas as instâncias, assim, tecnicamente, com todos os diretores, com todos os técnicos, atores, curta-metragistas, eu conheci tanta coisa com esse programa, então teve um momento que o Marco fez uma brincadeira, assim, tipo, alguém me entrevistando, e botou a Luísa para me entrevistar. Isso.
E foi lindo, assim. E tem um pouco do jornalismo nisso, né? Nesse projeto. Porque vocês eram uma... Pelo menos no início me parecia uma equipe pequena. Muito pequena. A gente gravava no estúdio, no início não tinha estúdio. No início era tudo externo. E eu tinha que decorar uns textos.
gigantes e com nomes de diretores, nome de filme, diretor, data. Porque é diferente, né, Júlia? Porque não tinha texto de teatro, de cinema, de novela. São informações, entendeu? É como a gente, se eu estivesse apresentando um jornal aqui, não tivesse um teleprompter, né? Exatamente, não tinha teleprompter. Eu fiz uns dois anos de programa sem teleprompter. Aí chegou uma hora que eu falei, olha, eu só continuo se tiver um teleprompter.
Porque não dá para eu fazer novela, teatro e decorar um programa. Eu não consigo. Eu passava, eu me lembrei de noite, antes de dormir, na cama, com uma lauda enorme, várias laudas, assim. Nome tal, nome tal, data tal. Eu falei, gente, isso não é vida, eu não vou fazer isso.
Aí me deram o teleprompter. Aí depois do teleprompter veio um estúdio. Foi um estúdio pequenininho. Depois a gente gravou na TV Brasil. E aí depois a gente ficou independente, porque passava tudo no Canal Brasil, né? No final das contas. Ô, Júlia, é tanta coisa pra te perguntar. Deu de quantos programas a gente vai fazer. A gente falando da Luísa, a Luísa foi filha... Foi do meu primeiro...
relação que foi o Álvaro Osório. Ah, tá. Mas foi um casamento. Chegou a ser um casamento? É, foi um namoro, né? Foi um namoro. A gente ficou uns três, quatro anos juntos, assim. E foi o tempo da Luísa. A gente viajou, a Luísa nasceu. Quando ela tinha uns dois anos, a gente se parou. Eu pergunto isso, não por nada. Casamento, casamento mesmo, foi o que eu tive com o Alexandre. O Alexandre, bom. Que aí eu me casei também, no papel.
Eu pergunto do pai da Luísa, porque eu tenho um pouco de sensação quando eu vejo a sua história, e até me identifico um pouco, porque eu tenho três filhos, casamentos diferentes também, e é uma coisa meio da... a gente vai indo meio que na sobrevivência, e eu acho que a Luísa foi um pouco... não foi um casamento, né? Foi dentro da sua trajetória, um namoro... Foi muito assim, minha mãe morreu.
Eu tinha 23. Conheci o Álvaro logo em seguida, fazendo um trabalho na TV. Ele estava indo viajar para fazer um curso fora. Eu queria sair fora, porque eu queria dar um tempo de tudo. De tudo.
E estudar também. E fui com ele. Então a gente ficou um ano fora. A gente passou por vários lugares, assim, Nova York. Eu fiz curso lá, ele fez curso também. Los Angeles, Europa, etc. Quando acabou o dinheiro, que a gente falou, bom, agora a gente tem que voltar para trabalhar. Muito jovem, né? Ele mais velho que eu. Ele tem 10 anos mais que eu. Mas mesmo assim, quando a gente voltou, que eu comecei a trabalhar de novo, eu engravidei da Luísa.
Assim, no primeiro mês, e foi incrível, porque eu estava voltando para o Brasil, não tinha voltado ainda, o Wilker, na época, era diretor-geral artístico da Manchete. E aí ele me chamou para fazer a primeira novela da Glória Pérez, que seria ela escrevendo sozinha, e do Luiz Fernando Carvalho, que era Carmen.
E aí eu aceitei, achei o máximo, falei, ah, que bom, vou voltar ao Brasil com trabalho, né? Aí cheguei aqui, preparação, não sei o que, primeiro mês, grávida, eu falei, meu Deus. Aí liguei pra Glória, foi a primeira pessoa que eu liguei, falei Glória.
Você me desculpa, eu vou entender se você não quiser, mas eu preciso te contar. Eu estou grávida, descobri agora, primeiro mês, ainda dá tempo da gente voltar atrás. E ela falou, não, imagina, o personagem fica grávida também. E eu fiz a novela toda grávida, pari na novela e três, dois meses depois pari a Luísa.
Então, assim, a Luísa nasceu nesse meio de... Entre morte da minha mãe, retomada de carreira, e eu morando com o Álvaro na casa da minha sogra, a gente não tinha casa direito. A gente fala quando a gente...
Enfim, vê, idolatra e acompanha os artistas. Parece que tudo é lindo, né? Que a vida é maravilhosa, é plena. Mas não é isso, né? É uma batalha. Eu vejo, assim, eu tenho uma leitura desse teu decorrer. Quando você diz assim, ah, eu aceitava tudo no início, né? No início eu aceitava tudo. Porque era trabalho, era sobrevivência também, não era, Juívia? Totalmente. E eu, quando me vi com a Luísa, separada com a Luísa com dois anos,
E eu... é isso, gerindo a minha carreira e criando uma filha. Foi bem... foi bem... E eu estava vindo outro dia, eu vi um documentário genial que tem na Globoplay que chama...
O Caçador de Marajás. Eu recomendo muito ver, porque é uma história recente do Brasil, que fala da época do Collor, do governo do Collor, e do Collor em si. Que é muito interessante. Dos Marajás e dele, que era o Caçador de Marajás. Mas nessa época, isso tudo para dizer que nessa época, que eu me separei e estava...
trabalhando e vivendo e pagando conta e tudo com Luísa, foi a época que veio o Plano Collor, que foi aquela loucura daquele...
daquela resgate de poupança, não sei o que, e eu estava comprando meu apartamento, e eu não tinha um tostão na poupança. Tudo que eu ganhava, eu vivia e pagava a prestação do meu apartamento. Então, eu me lembro que para mim foi muito marcante, assim, eu falei, meu Deus, que loucura, eu sou atriz, com uma criança de dois anos, pagando um apartamento com esse Brasil. Vão confiscar tudo meu. E é, olha, é uma aventura, viver realmente é uma aventura.
Mas você tem essa visão, assim, não sei, sua? Porque olhando o papel feminino na sua família, né? Sua mãe também se separou jovem. Você teve uma criança jovem.
Se separou também e foi atropelando e vivendo. Mas eu sempre fui criada, eu acho que não tinha essa fala assim, mas eu fui criada para ser independente. Tanto que assim, minha mãe veio fazer o Baila Comigo aqui no Rio, eu tinha 16 anos.
E ela ficou morando no Rio de Janeiro, eu fiquei sozinha em casa. Assim, com 15, 16 anos, eu já era meio emancipada, assim, entendeu? Eu fazia minha comida, eu cuidava das minhas coisas, eu não tinha muito... Já tinha uma independência. Tinha, eu comecei a trabalhar, minha primeira carteira assinada foi com 15 anos, numa escola.
em São Paulo, chamava Escola Morumbi, era um amigo da minha mãe, Zé Carlos Andrade, que era ator e dava aula de teatro nessa escola. Ele falou, ó, tá precisando de uma assistente de professora lá na escola, você não quer se candidatar porque você estuda de manhã, de tarde, você não tá fazendo nada, de repente é uma forma de você ganhar um dinheirinho e tá ali.
trabalhando, né? E eu achei aquilo ótimo. Fui, fiquei um ano. E foi por isso que eu quis fazer fonoaudiologia. Porque eu trabalhava com crianças muito pequenas que tinham problema de fala, eventualmente. E eu falava, olha que legal trabalhar com criança. Eu tinha o maior jeito com criança.
Aquele período, pra mim, foi um período que me abriu um espaço na cabeça. Você já fez alguma coisa infantil? De teatro? Alguma coisa assim? Não, acho que a coisa mais infantil que eu fiz foi o Lua de Cristal. Foi Xuxa. É verdade. A gente até esquece. E tem muitos fãs.
Tem fãs, tem fãs, tem fãs e até hoje vem tirar foto comigo por causa do Lu de Cristal. Olha aí, eu pensei com ela. É, eu com ela. Era um amor. E na época a Luísa tinha dois anos. Nossa, devia ter ficado enlouquecida vendo tudo isso. Ou não entendia.
Ela não via a Xuxa, porque ela não via televisão na época. Mas a Xuxa era louca por criança, como sempre foi. E adotou a Luísa no set. Quando eu vi, a Luísa sumia. Cadê a Luísa? Estava no camarim com a Xuxa. E ela sumia, as duas tiravam o sapato, brincavam. A Xuxa era uma fofa, assim. Até hoje eu encontro a Xuxa e ela me pergunta e a Luísa? E a Luísa? Aquela pequenininha que hoje é uma atriz, um mulherão, né? Uma mulherão.
Tizuka, é. Na época eu tinha acabado de fazer com a Tizuka o Cananga do Japão. Ah, Cananga do Japão. Cananga do Japão foi manchete? Manchete. Manchete. Manchete eu fiz duas, eu fiz três novelas. Cananga do Japão. Com a Glória Piz. Não, fiz mais. Fiz a...
Glória Pérez. Glória Pérez, o Carmen. Aí depois eu saí da manchete. Aí fiquei um tempo criando Luísa, amamentando, não sei o quê. Aí depois voltei com Cananga. Depois de Cananga fiz Amazônia. E depois a última que eu fiz foi Guerra Sem Fim, que foi com Alexandre. Você circulou bem, orbitou bastante, porque você começou na bandeira antes. Naquela época a gente nem chamava de band, né? Não sou de ninguém, sou de todo mundo. Bandeira antes, manchete, pra depois TV Globo.
Não, eu fui Bandeirantes, Globo. Ah, Globo e depois Manchete? Eu vim pra Globo, a Bandeirantes me liberou pra vir pra Globo pra fazer a última novela da Janete Clare, que era Eu Prometo. Ah, é verdade. Que foi a primeira novela que eu fiz aqui na Globo, lá na Globo. Eu até botei aqui no meu script. Eu Prometo, que era Coco, a Dina Esfate, e era Malu, foi a primeira novela da Malu Mader, da Nanda Torres. Dina Esfate, que atriz, né? Dina era minha mãe, gente, uma coisa, era uma coisa.
Foi uma beleza. Eu acho que na teatro, no teatro, como um todo, a gente tem grandes nomes, né? Porque agora eu falei da Dines Fati, a gente fala é tanto nome de peso que agora falando nela, eu já nem lembrava mais. E todas as atrizes, assim, do teatro, do cinema, a televisão no Brasil, ela sempre foi fomentada.
por um elenco de pessoas que eram artistas, mais do que atores, porque a Globo, ela botou um carimbo nas pessoas, né? Esse ator da Globo, mas não é que ator da Globo, é porque a gente começou a falar com muita gente, com milhões de pessoas, mas na verdade são atores formados pelo teatro, pelo cinema, tanto a Dina, o Paulo José.
O próprio Coco era um ator de teatro, Dona Fernanda, Neila Torraca, Fomor Chagas, Tarcísio Meira, Glória, todos vieram de um lugar muito fértil. Eu nunca deixei de fazer teatro, mesmo fazendo muita televisão. Acho que talvez hoje eu não faria televisão com teatro, até porque a televisão não anda liberando muito para fazer teatro.
Eu sempre fiz os dois juntos e sempre foi uma loucura a minha vida. Porque imagina você fazer peça de quinta a domingo e fazer uma novela de segunda a sábados. A novela demanda muito, né? Mas a novela é mais comercial para o ator. Não, eu acho que a novela demanda num outro lugar. Ela é mais...
Eu falo pelo ritmo das gravações. Você usa uma memória recente também. Tudo que você decora, você joga fora. Porque você falou, você não tem que repetir aquilo todo dia. No teatro. Então, você decorou, você vai num ritmo ágil, frenético. É diferente.
Mas é muito gostoso. Eu nunca consegui responder essa pergunta. O que você prefere mais? Eu sempre me enrolo. São lugares diferentes, né? São lugares muito diferentes. É que nem você dizer qual filho você gosta mais. Você nunca vai dizer, ah, eu prefiro o filho do meio.
ou prefiro mais não. Agora, Júlia, a gente falou de novela, de teatro, ainda tem as minisséries, né? Que você... Minisséries, Casa Especial, Quarta Nova. No cinema, ainda falando de cinema, meu nome não é Johnny, que também te trouxe um prêmio importante. O Johnny foi muito lindo esse filme. Eu gostei muito de fazer. Cinema... Eu comecei a fazer cinema e eu gostei muito de fazer.
numa época que o cinema estava meio em baixa, que foi a década de 80. O meu primeiro filme foi A Cor do Seu Destino, que é um filme que eu recebi prêmio também no Festival de Brasília e tal, que foi um filme que eu fiz...
Minha mãe era viva. Esse que você recebeu como coadjuvante? Foi. Foi. Que era um filme que era o Guilherme Fontes, que era o protagonista, e que era o meu primo. Eu fazia uma prima chilena. Imagina, o primeiro filme que eu fiz, eu fazia uma chilena. Não falava uma palavra de espanhol. Fui aprender a falar espanhol para fazer o filme. Tive dois meses de imersão no espanhol com um chileno.
E o filme era dirigido por um chileno, o Jorge Duran. E o filme é um filme lindo, assim. Um filme que foi feito, a época, minha mãe era viva ainda. Imagina, ela morreu em 86, eu fiz esse filme em 84. Mas ele foi só ser lançado depois que minha mãe morreu. Minha mãe não viu o filme, assim. Foi uma pena, assim, porque era um filme muito maneiro. E...
E aí, depois desse filme, deu uma parada o cinema, assim, assim, eu comecei, e era tudo assim, você fazia filme um pouco de graça, assim, não tinha uma indústria de cinema.
E aí, quando o cinema voltou, eu estava pegada na televisão. E o cinema, você tem que ter uma disponibilidade de tempo, entendeu? Ou é teatro, ou é televisão, o cinema te pede um espaço, né? Você tem que poder se dedicar àquilo, sair dois meses da sua vida e fazer cinema. É mais uma imersão. É, então eu fiz filmes, assim, dos quais eu adoro, assim...
Eu fiz um filme lindo com o Guilherme de Almeida Prado que chama A Hora Mágica, fiz o Copo de Cólera também, que foi um filme lindo do Aloysio Abranches, e fiz o Meu Nome Noide Johnny, fiz alguns filmes.
bacanas, assim. Eu tenho que ficar puxando memória, assim. E minisséries a gente tem Elas por Elas, Quanto Mais Vida, Melhor. Tem tudo novo de novo. Tudo novo de novo. É recente, né? Elas por Elas, eu não sei qual é essa.
que é ser elas por elas é uma novela que eu faço uma é posso ter misturado é não de minissérie eu fiz jk que eu fazia mãe do jk dona júlia e fiz amazônia que foi na globo amazônia da globo que era de galvez a tinham nome uns
Galvez e Chico Mendes. De Galvez e Chico Mendes. Eu fiz a segunda fase da série. Fiz Tudo Novo de Novo, que foi uma série linda, que se encerrou em si, mas era muito legal. Fiz... Ai, meu Deus. Fiz Justiça 2, que foi a última coisa que eu fiz na Globo. Acho que foi Justiça 2.
A minissérie, a novela. E fiz duas no Canal Brasil, que foi Chuva Negra e No Ano Que Vem, que é uma série muito legal, que é muito para mulheres, uma mulher que se descobre, uma médica que se descobre com câncer no seio, ela vai fazer essa cirurgia e ela...
resolve viver o que ela não viveu na vida. Não é que ela descobre, mas ela se dá conta de que a vida passou e ela deixou de fazer muita coisa que ela queria, que ela está num casamento que está acomodado e ela resolve romper com tudo e mudar tudo. É muito maluca a série, bem bonita.
Na comparação de cinema, minissérie, novela, é muito diferente a minissérie? A minissérie é um pouco... Por ela ser menor, menos capítulos e tudo, ela tem um tratamento mais parecido com o cinema, assim, num certo sentido.
uma equipe menor, você grava menos tempo, você tem um começo, meio e fim, você sabe o que, porque a novela é um produto aberto, né? Você começa e não sabe o que vai acontecer, mesmo que você tenha uma curva do personagem, de repente, no meio da novela...
Você vira vampiro. Ele pode morrer, pode sair da novela. Você pode morrer. Então é uma obra aberta, a gente fala. E a série geralmente é uma obra fechadinha, mais concisa. Júlia, no teatro você também dividiu muitos trabalhos com o par. E o seu parceiro, Alexandre Borges.
Então, no teatro a gente dividiu... Hamlet, vocês fizeram juntos. E eu sei que vou te amar. A gente só fez duas peças juntos. Parece que a gente fez mais coisas, mas a gente só fez duas. Foram quantos anos de casamento? 22.
É um casal que a gente não imaginava que iria separar. Que iria separar. Mas eu acho que a gente tem que ver pelo lado do... Foram 22 anos muito bacanas, assim, entendeu? Então foi um casamento que deu certo. Foram 22 anos. Esse é o Miguel. O Miguel nasceu quando a gente já estava há 7 anos. Quantos anos estão essas crianças? Miguel está com 26 e Luísa está com 38.
Vai fazer 39? Jesus, acho que vai fazer... Ela vai fazer 39 ou 38? Agora não sei. Ela é de 88. Vai fazer 30 e... Me pede para fazer conta, não. Vamos, de universitário. 86 morreu sua mãe. Vou 40. É, 38. É isso.
Ela me mata se eu mudar a idade dela. Mas foi... não, foi... tá tudo certo. A vida tem os seus caminhos, nada é pra sempre. Nem a gente é pra sempre, né? A vida, ela não tem uma... é movimento. A gente tá sempre em movimento. Se o movimento é junto, é junto. Mas se o movimento vai pra outros lados, é pra outros lados que vai. Eu vou querer falar de vida com você, porque eu acho que você tem um...
pensamento de... Cadê a moça do café? Ah, cadê a Sol? Você tem um movimento de vida que eu admiro muito, mas quero falar de Mambembe também, né? Mambembe. Ainda tem cartaz. Ou não mais? Agora a gente parou em São Paulo. Tá. E agora a gente... Agora, assim, ontem a gente recebeu a notícia de que a gente vai fazer Mambembe, eu amo essa peça, a gente vai fazer...
Belém do Pará. A gente vai pro Teatro da Paz fazer três espetáculos. Mas é uma loucura. Então, explica pra quem não conhece o projeto. Porque é na rua. É tipo como se fosse um circo, né? O começo do projeto foi esse. A Débora e a Cacau. É tão lindo. Minhas irmãs, cara. Assim, eu entrei nesse projeto...
Antes de qualquer coisa, porque eu amo todas as pessoas que fazem essa. São meus amigos da vida, são pessoas com quem eu trabalhei várias vezes. São os meus amigos e irmãos, minha família escolhida na arte. Então, eu não podia deixar de fazer os mambetes. Vamos falar desse elenco? É Débora Evelyn, Cláudio Abreu, que você chama de Cacau, né? Paulo Bete, né?
E que é interessante porque a gente começou o nosso papo aqui falando de uma peça da sua mãe, que já tinha Paulo Betis. Exatamente. O Paulo eu conheço há muito tempo. A gente fez uma outra peça juntos, eu, Débora e Paulo. E Oran Figueiredo, que faz parte dos Mambês. Tem Leandro Santana. Leandro Santana foi o único que eu não tinha trabalhado ainda, mas que eu conheço o Leandro já há muito tempo.
E a gente fez Deus da Canificina, que foi uma peça que a gente ficou anos em cartaz também, que foi incrível. Mas Os Mambembes é um projeto da Cacau, da Cláudia Abreu e do Emílio de Mello, que também é ator e diretor do espetáculo. E que eles tinham esse projeto de fazer Os Mambembes.
Mambembe, ou seja, na rua, na praça, de graça para as pessoas. Então eles fizeram um projetão. E esse projeto... Foram dez cidades, quatro estados, né? Quatro estados. A gente foi para o Maranhão, Pará, Espírito Santo e Minas Gerais. Esse foi o início. Depois Rio e São Paulo, a gente foi... Obrigado, meu amor. O café estava muito bom, então eu quero mais um pouquinho. Eu até vou repetir também.
Tá ótimo, obrigada. É bom conversar e tomar café, né? É, é o primeiro bis da Sol. É, é o primeiro bis da Sol, viu? Esse espetáculo também tem bis. Querida. Não precisa, tá ótimo.
E aí, esse primeiro momento foram essas 10 cidades. E foi uma aventura. Eu vou te contar, eu nunca fiz e acho que nunca farei nada parecido, porque é realmente extraordinário o que a gente fez. A gente ensaiou o espetáculo aqui.
Depois a gente teve uma última leva de ensaios no sambódromo. Ah, é? Porque a gente tinha que montar o palco, né? A gente tinha que ter o ônibus, o palco e ter o barulho da cidade, uma coisa pra gente se situar, né? Porque é completamente diferente você fazer teatro no teatro, numa sala de teatro e na rua.
Na rua é tipo loucura total. Eu me lembro que a imagem que eu fazia era de você... Porque todos os lugares que a gente foi eram muito quentes. A gente foi para o Pará, para o Maranhão. A gente só pegou verão... Acho que o Espírito Santo é até suave, né? O Espírito Santo até que foi suave. O único lugar que choveu um dia...
Em Minas também começou a ficar mais fresquinho. E a gente tinha aquela maquiagem branca, aquela coisa meio comédia de l'art. Era uma loucura. E aí é como cavalgar um dragão em chamas. Você tenta controlar o bicho ali, mas é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas é um público.
adorável, atento, vibrante, apaixonado, que fala, grita, aplaude, canta, e tem o bêbado, tem o cachorro, tem as crianças, tem o cara que vende não sei o que, e as pessoas, está tudo misturado ali. Todo mundo quer participar junto com vocês. E foi assim. E a gente foi para lugares que tinha gente que nunca tinha ido ao teatro.
mesmo. Imagina, e ver os atores, né? E ver aqueles atores, eles quase não acreditavam. Teve gente que falou, não, eu vim pra ver se eram vocês mesmos. Se vocês de verdade. Se estavam ali de verdade. Coisa linda, né? Então, assim, e a mensagem, o texto é do Arthur Azevedo, que escreveu esse texto lá 200 anos atrás, entendeu? 200 não vai, 100 anos atrás. Ele é de 19...
25, 24. Não olha pra mim. É, por aí. 100 anos atrás. Então, assim... Essas contas a gente não consegue fechar. É a história de uma trupe de teatro que viaja pelo Brasil...
mas que percalços acontecem. E são, recebem calote, não conseguem pagar as contas, então vão fazer um espetáculo, aí o cara que vai pagar não paga, aí o ator cômico quer ser dramático e quer um outro lugar na companhia, aí tem qual é a estrela da companhia e quem é a... Sabe, são pequenas...
historinhas do teatro tão saborosas e tão... Que falam tanto... Que falam da nossa profissão pra gente, pra quem faz teatro e pra quem não faz. Entender um pouco que essa profissão, ela não é sobre fazer sucesso. Ela é sobre vocação. É sobre o que que você... Se você não conseguir viver sem fazer aquilo.
Mesmo com todo perrengue, mesmo com toda dificuldade, mesmo não dando certo, mesmo não ganhando o suficiente para pagar as contas eventualmente, mas ainda assim você precisa fazer aquilo, isso é vocação. E isso serve para qualquer profissão.
Isso não é só pro teatro, isso é sobre paixão, isso é sobre propósito na vida, isso é sobre o que te constitui como ser humano, assim, né? E o que é muito difícil hoje em dia, porque hoje em dia ninguém quer ter o processo das coisas, todo mundo quer o imediato, o sucesso imediato, o resultado imediato, a coisa rápida, ninguém tem paciência pra ver um vídeo com mais de
três, dois minutos, ninguém tem... Então, isso tudo faz a vida ficar muito maluca. Então, se você ver um espetáculo como esse, você fala, não, peraí, deixa eu reavaliar a vida. Porque é simples.
Quando você não sabe o que fazer, volta para o básico. Volta para o chá de camomila antes de dormir. Volta para o livro, ler um livro. Volta para conversar com um amigo olhando no olho. Procure os seus amigos. Para de ficar stalkeando as pessoas. Porque é isso. A gente está...
Internet e aplicativos e afins, maravilha, maravilhoso. Mas a gente tem que ter uma surfada no real. E o teatro é o aqui e agora. Não existe nada mais aqui e agora do que uma peça de teatro. Porque você é obrigado a ficar sentado ou de pé, ou seja, lá na rua, onde você estiver, ouvindo uma história.
Aqui e agora. Entendeu? Você pode até filmar o que você está... Porque as pessoas agora filmam as coisas. Você vai num show, está todo mundo curtindo aquele show, mas você vê milhares de celulares filmando. Uma coisa que você... Era para estar só sentindo. Era para estar curtindo, entendeu? E é muito louco isso. Então, eu quis fazer essa peça com intuito também.
de voltar para o básico. Eu acho que a gente fez os mambembes para refazer os nossos votos com o que a gente escolheu de profissão. Tanto eu, quanto o Cacau, quanto o Débora, quanto o Oran, quanto o Paulo, quanto o Leandro, quanto o Emílio, a gente quis lembrar, relembrar por que a gente faz isso. Por que a gente faz isso? Não é para ser famoso, não é para...
ganhar uma grana que a gente nunca vai ganhar, não é por nada além disso, assim, de estar exercitando a sua vocação, e errando, acertando, e tentando de novo as coisas, e sendo amigo, ajudando o outro, sendo parceiro do outro.
E o bonito desse espetáculo também é que ninguém tem um personagem fixo. A gente roda os personagens. Então tem o diretor da companhia, começa o Paulo fazendo. Depois o Leandro faz. Depois eu faço. Depois a Cacau faz.
Começa diretor e termina... É, você vai rodando. O que determina o personagem é a cor da roupa. Então a gente tem um figurino muito colorido. Então se você está de amarelo, você é o Frazão. Se você está de rosa, você é a Laudelina, que é a estrela da companhia. Se você está de vermelho, você é a Margarida. Hoje você é a Margarida. Hoje eu sou a Margarida. E interessante que Mambembe é um nome...
Que hoje a gente... É um nome... Mambambi virou... Depreciativo, né? Virou depreciativo, tipo uma coisa meio mal feita, meio feita nas coxas. Ah, isso aqui tá mambambi, né? Isso aqui é mambambi. Na verdade, mambambi não é isso, né? Mambambi é ter pouco e com pouco e... Fazer muito, né? Fazendo muito e viajando.
O Mambembe, ele viaja, ele vai de um lugar para o outro, de uma praça para outra, de um teatro para o outro. O teatro Mambembe é um teatro que se resolve na criatividade, entendeu? Que é um pouco da coisa circense, né? Exatamente. Muito, muito. Um espetáculo circense. De trupe, né? Entra num ônibus e a gente fez exatamente isso. A gente pegou um avião, foi até São Luís do Maranhão, chegou no Maranhão, a gente um nosso ônibus.
Com a nossa cara no ônibus, a gente estreou numa praça em São Luís. Eu fico imaginando esse ônibus chegando numa região... Não, e de lá a gente foi pra Santo Inês, a Sailândia, para Opebas, Marabá, e a gente foi de ônibus. A gente só voltou de Marabá pro Rio.
porque aí era outro ônibus que ia fazer Espírito Santo e Minas. Então a gente voltou para o Rio, desfez a mala, ficou uma semana em casa, foi para o Espírito Santo, para Vitória, e de Vitória a gente saiu. Vitória, Vila Velha, aí fomos em Patinga, Itabira, acabamos em Belo Horizonte.
O ônibus quebrou. Aconteceu de tudo. A gente passou muito perrengue. Tem circense, né? E a gente só faria isso com essa trupe. Com amigos que não vão reclamar no perrengue. Que vão achar um jeito de dar risada. São mochileiros do teatro. Mochileiros do teatro. A gente sabia que podia encontrar qualquer coisa. E a gente foi pronto para qualquer coisa.
E pronto pra se apoiar nesse lugar de qualquer coisa, entendeu? E junto com isso, a Cacau, que é muito danada, fez um documentário sobre essa nossa viagem. Que vai ser lançada em algum momento, que foi lindo, assim. Ela filmou todo o nosso trajeto e fez entrevistas com a gente. Foi muito bonito. Que máximo. Júlia...
A gente está falando dessa riqueza gigante e, ao mesmo tempo, você é uma mulher muito leve, muito simples, me parece, pelo menos. É isso, você...
Leva essa trajetória da sua vida de uma maneira muito tranquila? Porque você parece que também não tem uma... Lida bem com a coisa do envelhecimento, do passar do tempo. Como é que é isso? Olha, assim, eu... Eu sou um pouco... Eu sou muito... Como é que eu vou dizer? Transparente, assim. Eu não tenho uma persona... Eu sou um pouco...
Eu não sou duas pessoas. Você não fica performando. Eu não sou uma atriz que faço um... É normal isso. Às vezes até por defesa, por timidez. Você se comporta no trabalho e você tem a sua vida pessoal preservada. Eu tento preservar a minha vida pessoal porque é pessoal. E na medida do possível a gente tenta preservar os filhos, netos e tal.
Mas eu sou muito transparente nesse sentido, porque antes de ser atriz, eu sou uma pessoa, eu sou uma cidadã que paga os meus impostos e eu me sinto no direito também de reclamar das coisas, de me posicionar sobre coisas que... E isso tem um peso por você ser um artista conhecido e que as pessoas...
E, eventualmente, posso decepcionar alguma pessoa, porque as pessoas esperam de mim uma coisa e, às vezes, você não pode responder às expectativas de todo mundo. Mas isso, para além disso, eu acho que, assim, a gente tem só isso aqui. Isso aqui que a gente está vivendo aqui hoje, esse encontro, nós duas, é o que a gente tem, né? Eu sou muito do momento presente das coisas. Eu tento me lembrar...
me relembrar de viver o presente, de viver as coisas que estão se apresentando no momento, porque isso não vai se repetir. O que vai vir no futuro e o que já veio, já a gente falou um monte de coisa de passado, são coisas lindas, aconteceram, foram maravilhosas, ok, mas já passou, são a minha história.
São a minha história, mas eu não vou poder voltar para elas e fazer de novo, ou refazer coisas que eu achei que podiam ficar melhor, não vou, né? Só daqui para frente interessa, só que o daqui para frente não existe também. A gente não sabe se vai ter... Então, é um pouco isso, assim, esse lugar real para mim interessa. Posto isso, a gente...
Vivo, a gente vai viver, vai envelhecer e vai morrer. E é o que temos. Se tem outra vida, se tem, a gente não sabe.
Então, eu, você, você, você, a criancinha que está ali, a menina mais linda da escola, todas as pessoas maravilhosas, todos vão envelhecer em algum momento. Ou morrer, né? Se não envelhecer, não é morrer. Se você morrer antes de envelhecer, sinto muito, não deu ruim para você. Mas o ideal é que você viva, envelheça e morra.
Então, não tem como fugir. Eu posso esticar, eu posso fazer estimulação, eu posso fazer plástico, posso fazer o que for, mas eu vou envelhecer. E aí eu fico pensando, não seria legal saber como é esse processo, já que é único?
E eu não vou ter, eu não vou me lembrar, porque talvez eu já tenha passado vários, mas eu não me lembro. Então eu só tenho esse. Com que cara eu vou ter? Quando eu for uma senhorinha de 90 anos, se eu der sorte de viver até lá, como a dona Fernanda. Com 96 anos. Plena, né? Plena, mas assim, com a consciência de... Com o envelhecimento, né? É, com a consciência de que é isso. Ela fala, ela fala, minha filha, acordei hoje, estou viva.
Vou fazer teatro. Enquanto tiver alguém querendo me ouvir, eu vou ler as minhas coisas. E eu estou aqui, entendeu? Porque a vida tem isso, ela tem propósito. Mas isso é uma dádiva, né? Porque nem todo idoso, toda pessoa nessa idade tem essa vitalidade, essa emoção. Mas eu acredito que isso é uma construção. Também acho. Eu acho que a gente constrói isso lá de trás.
Não é à toa que a Fernanda está assim aos 95. Ela construiu cada pedra desse caminho. Com certeza. Entendeu? E não é, tipo, ginástica e não sei o quê. Ela foi uma mulher que exerceu a vocação dela plenamente, 100%. Ela diz, eu sou a melhor versão de mim mesma, assim. Porque eu fui fundo naquilo que eu me propus a fazer.
Claro que a gente, cada um tem os... Ela é uma inspiração, ela não é um parâmetro. É isso. Entendeu? Ela é uma inspiração. Ela é um lugar que você olha e você fala, ai, isso é possível, olha que bonito, eu me inspiro. Mas a minha história vai ser diferente da dela, como a sua, como a dele, como a de todos nós. Então, claro, quando você vai para um HD...
uma novela, um filme, uma coisa que tem uma câmera super, não sei o quê, você me olha aqui e fala, ai, Júlia, você está ótima. Você vai me olhar ali e vai falar, nossa, ela está com 250 anos, mas eu vou fazer o quê? É isso, essas câmeras incríveis, elas são boas para crianças, para bichos e plantas e jovens. Mas é isso, eu quero poder fazer uma senhora. Eu quero ter esse lugar, mas eu tenho um ânimo, tenho um ânimo...
que me acompanha de curiosidade, e isso tem a ver com a juventude, não, isso tem a ver com o meu tempo. Eu sou ágil, disponível, forte e tal, porque eu construí isso até aqui, mas eu não quero parecer algo que eu não sou.
Eu quero parecer exatamente o que eu sou. E o que eu sou é isso. Tenho rugas, tenho... A pálpebra está caindo. Às vezes acordo de manhã e falo, Caraca, está doendo tudo. Mas eu vou me alongando, vou me esticando, vou meio tal. Daqui a pouco, uma hora depois, eu já estou me sentindo bem de novo. E é isso, assim. Eu acho bom. Eu tenho esperança.
Em que as coisas melhorem, que o mundo... Eu sou uma pessoa positiva, assim, na vida. Apesar de achar que o mundo está uma loucura. Confuso, né? Confuso, violento e distópico e tal.
Eu acredito... Outro dia eu fui fazer um negócio tão bonito em Fortaleza, eu fui ler uns textos da Cora Coralina. Um projeto que era uma coisa para acontecer lá, naquele lugar, num teatro lindo em Fortaleza, no Teatro São Luís, que é um cinema também. E foi um projeto pequeno, assim, e que resultou muito lindo.
E o texto, imagina, Cora Coralina, uma senhora que viveu no século retrasado, que nasceu no final de 1800, início de 1900, que teve o primeiro livro publicado aos 70 anos.
que foi uma mulher que teve uma vida duríssima, mas que a poesia e a literatura sempre andaram junto com ela. Ela nunca desistiu do que ela achava que era a vocação dela. Ela criou filho, ela plantou horta, ela fez doce para pagar a conta, ela fez o diabo, mas ela sempre escreveu.
E o que ela escreveu ao longo da vida dela, hoje ainda ressoa para as pessoas aqui em 2025. E ela fala uma coisa linda, que ela fala, eu acredito.
nas pessoas. Eu acredito na humanidade, eu acredito que a gente pode se ajudar e ser melhor uns para os outros. Eu acredito que dias melhores virão, eu acredito que a gente vai achar um antídoto para as coisas ruins, que a gente mesmo criou, mas eu acredito que a gente pode...
melhorar como ser humano. E eu acredito que se a gente chegou até aqui, nesse mundo difícil que a gente construiu, porque se a gente está do jeito que a gente está, é uma construção nossa, somos todos responsáveis por isso, dessa mesma forma a gente pode ser responsável por desfazer isso. Pela reconstrução. Pela reconstrução disso, porque existe algo dentro de cada um de nós.
que faz com que a gente se apaixone por uma pessoa, que faz com que a gente tenha carinho pelos nossos filhos, que faz com que a gente tenha amor pelos nossos amigos, que é o amor.
Entendeu? E que a gente pode reconstruir isso com o diferente. A gente pode ainda assim amar o nosso próximo que pensa diferente da gente. E que tudo bem pensar diferente. Mas que a gente está aqui nesse planeta, teve agora o pessoal que foi para a Lua, os astronautas. E teve uma astronauta que falou uma coisa só para encerrar isso, que eu achei perfeito. Que ela falou, eu ainda estou processando tudo que eu vivi.
E vi indo pra Lua e circundando a Lua e vendo tal. Mas uma coisa que mais me impressionou foi ver a Terra boiando no universo como se fosse um barco, um navio, uma nave, assim, coisa ali no universo. Pequenininho, né? A gente, a Terra, nós. Pequenininhos ali no universo gigante. Galáxias e coisas acontecendo em volta. E ela olhou e falou...
A tripulação dessa nave somos nós. Então, posto isso, o que a gente faz aqui, você, eu, qualquer um de nós, a gente é responsável por essa nave. A gente é responsável por isso aqui.
Tudo que a gente fala, tudo que a gente faz, tudo que a gente coloca de energia nas coisas, o bom dia que você dá no elevador quando você entra, o sorriso que você dá para alguém que olha para você, qualquer coisa, qualquer momento, são trocas pequenas que você faz de carinho, de afeto, é isso que vai salvar o mundo.
E é a oportunidade da gente estar nessa nave também, né? Exatamente. Porque um dos astronautas até falou isso, né? Olha lá a Terra, olha a oportunidade que a gente tem de existir naquele planeta, porque tantos outros não têm vida, né? Exatamente, e a gente não sabe se tiver vidas em outro, por que a gente vai procurar vidas em outro se a gente tem esse?
Por que a gente não pode viver bem nesse? Por que a gente tem que destruir esse para procurar a vida em outro? Isso não faz o menor sentido. Destruir um planeta perfeito como esse não faz sentido. Mas é isso. Ainda assim existem guerras. Ainda existem pessoas que acham que você veste vermelho e está errado. Súlia, a gente está num papo maravilhoso. Queria ter mais um monte de podcasts. Mas para a gente encerrar uma...
uma... Desculpa, eu falo muito também, né? Imagina, você falou da Fernanda, você é uma inspiração pra gente. E eu achei muito incrível que eu via até no seu Instagram, e vi recortes de outras entrevistas, você pontou seu pai e sua mãe no sítio. Foi. Foi. Eu plantei eles, porque eles... Meu pai e minha mãe são do sul, né? De Porto Alegre. E os dois...
Moraram em São Paulo e morreram no Rio de Janeiro. E foram enterrados aqui no Rio de Janeiro. Porque na época eu não sabia o que fazer. Foi isso. Foi enterrou e não cremei, porque na época da minha mãe nem tinha essa coisa de cremar, não era uma prática. E aí um dia eu recebo uma conta, daquela coisa anual, né, de manutenção do jazigo que você paga. Eu olhei aquilo e falei, por que eu estou pagando isso? Eu não vou naquele jazigo.
Vou pagar essa manutenção. Estão os dois lá naquele lugar. E eu tinha acabado de comprar essa terra. Aí eu falei... Essa terra que você diz o seu sítio. Eu falei, eu posso... Desculpa perguntar. É no sul? Não, é que é fronteira Rio-São Paulo-Mucânia. Eu falei, eu posso desenterrar, exumar, cremar, pegar cinzas? Pode.
Falei, legal. Aí fiz isso, o que foi extraordinário, porque é uma cena fazer isso. Mas foi incrível. Nunca presenciei, mas imagino que é. E aí levei as cinzas para o sítio, juntei meus filhos, meu neto, na época tinha um ano e meio, o Martim. E plantei, escolhi uma árvore para o meu pai, uma para a minha mãe. A gente fez uma cerimônia entre nós.
e plantamos com terra, misturamos cinzas e tal, então lá. Hoje meu pai é uma árvore linda, chama Sol da Bolívia, e minha mãe é uma magnólia. Uma magnólia. Linda também. Meu pai dá uma flor vermelha enorme, minha mãe dá uma flor amarela. Olha que linda, que forma linda de ver a morte, né? É, eu espero virar uma árvore lá também. E é uma morte, mas tem um renascimento. Não, e eu estava vendo minha mãe, agora eu estive no sítio esses dias.
E a magnólia está enorme, ela cresceu muito. Já plantei e já tem uns, sei lá, quase 10 anos. Mas ela dá, além das flores, ela dá sementes. Um cacho de sementes. E ele, num primeiro momento, ele é um cacho de bolinhas grandes, parece um cacho de uva, só que durinho. E aí, quando fica maduro...
Essas bolinhas abrem e dentro dessas bolinhas tem várias sementinhas vermelhas presas por um fiozinho branco que fica parecendo um chocalhinho. É um negócio de uma engenharia que os passarinhos vão lá.
e bico e espalho e falou mãe se virou semente olha só que lindo que ela é semente em nós né eu sou semente dela é os filhos meu neto semente e ela semente né virou semente na vida se acha bonito
isso. Julia Lehmertz, nossa, que prazer, eu como fã, porque eu sou muito fã, sou mais fã ainda agora, se conhecendo pessoalmente, conhecendo a sua história, um pouquinho da sua história, porque olha, eu estudei, pesquisei muita coisa e assim, tem que ter muito podcast pra falar de tudo, né? É, a gente tem que ser mais objetiva. Não, mas foi maravilhoso, quero te agradecer demais a sua participação.
Muito, muito mesmo. Foi um prazer. Você é uma inspiração, viu? De verdade. Obrigada, tá? Muito bom ter papo. Nossa, muito bom. Café com pimenta recebendo... A pimenta eu não sei se veio muito, né? Ah, mas eu acho que teve tanta pimenta nesse contexto, né? Teve muitos temperos. E encerramos com magnólia e... E sol da Bolívia. Sol da Bolívia. Coisa mais linda.
pesquisem, é uma árvore muito linda café com pimenta terminando com mais uma entrevista maravilhosa e eu espero vocês no próximo episódio tchau, tchau