[BÔNUS] Juliette pergunta à Vera: o que faz uma família ser saudável?
No episódio bônus desta semana, Vera Iaconelli responde a pergunta de Juliette sobre os vínculos familiares e reflete sobre o desafio de escutar o outro sem tentar moldá-lo à própria maneira de ver o mundo. Ouça também a íntegra da conversa entre Juliette e Vera no episódio anterior a este.
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- Empatia e abraço vs. condenaçãoColocar-se no lugar do outro · Respeito às diferenças · Sustentar o ruído · Heterogeneidade
- Crescimento Pessoal Através da AdversidadeFilhos como ferida narcísica · Aceitação das falhas · Estranhamento produtivo
Oi, eu sou a Vera Iaconelli e esse é o Pergunta à Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu conversei com a cantora e apresentadora Juliette. E vale lembrar que a conversa completa com a Juliette saiu na terça-feira. Se não ouviu ainda, volta lá. Bom, vamos para a pergunta dela.
De todas essas coisas que a gente falou aqui, educação, estrutura, crenças, e com a sua experiência de tudo, né, de vida e intelectual, qual é a maior força O que mais influencia na dinâmica de uma família saudável? Não perfeita, saudável. O que é que tem mais força e impacto?
Não sei se eu saberia responder isso de um jeito assim definitivo, porque justamente a gente trabalha sempre com uma combinatória de variáveis, né? A gente quer a bala de prata e não tem, né? O que tem é essa combinatória, né? Mas o que eu vejo que funciona mais nas famílias, e famílias de A a Z, famílias pobres, ricas, negras, brancas, em situações terríveis, situações tranquilas, né? É o quanto as pessoas conseguem se escutar.
E se escutar não é, agora senta que agora você vai ouvir, eu vou falar. É se escutar mesmo de uma forma que você reflita sobre o que o outro tá te dizendo no teu travesseiro, sabe? Tipo assim, peraí, eu não tenho nada pra te responder agora, eu preciso de um tempo E realmente pensar naquilo num lugar que a gente tenha coragem de se ver, porque escutar é se ver, né? Quer dizer, quando você escuta o outro, ele tá te falando alguma coisa que é importante pra ele, significa que você vai ter que ver se você aguenta escutar aquilo, o que aquilo diz de você.
Se você tem um filho que fala, ó, você tá sendo muito violento. Imagina, eu não sou violento, eu tô no lugar de pai. Pensa que talvez tenha alguma coisa de verdade nessa fala, né? Mas é duro, porque a gente não quer ficar com a imagem arranhada, né? Então, eu vejo que as famílias e as relações, né, que mais funcionam são aquelas nas quais o sujeito aguenta escutar o outro, se reavaliar e retornar com alguma coisa honesta. E aí pode ser analfabeto, ele pode ser pobre, rico, é uma questão narcísica mesmo da gente aguentar ver a nossa autoimagem arranhada, né.
Eu lembro que a minha filha dizia que eu era muito dura, eu falava, imagina! E aí Tinha que ouvir, entendeu? Falar, putz, será que eu sou dura? Será que eu não sou? Será que eu não preciso ser dura? Mas eu venho de uma família muito mais dura, mas isso aí... E aí você começa a se rever. E eu acho que filho, filho é uma ferida narcísica atrás da outra. Ou seja, o filho é uma coisa que tá sempre te retornando com uma imagem de você que você não tá preparada pra ver, né?
Com as tuas falhas, com os teus limites. Eles são muito o dedo na ferida. E isso é legal e é sofrido ao mesmo tempo. Porque você só quer que eles te achem lindo e maravilhoso, você não quer que ele te ache cheio de defeitos que nós temos mesmo, né? E quanto mais você suporta isso sem revidar, sem ficar surdo e também sem aceitar de pronto, podendo refletir, eu acho que mais chance da relação crescer, né? Então não é um ambiente totalmente harmônico uma família que dá certo, é um ambiente onde a falta de harmonia pode ser sustentada.
Com honestidade, com dignidade, como você diz, né? Então, eu não sei se eu consigo responder assim, porque não é muito simples, mas... Não, sim.
O que você fala tem muito sentido, porque eu tive uma grande lição na minha vida. Porque essa resposta assim que você fala de ouvir pode ser tipo se colocar no lugar do outro, ter empatia, né? Se colocar no lugar do outro e entender por que ele acha isso.
Tipo o seu sobrinho que falou, eu não vou estudar.
É. Então, várias... Eu acho que eu diria empatia. Se colocar no lugar do outro, nas circunstâncias do outro, com as... Tudo do outro. Pra entender, né? Se enxergar e enxergar o outro. E eu jurava que com isso eu tava arrasando. Ai, meu Deus, eu sei me colocar no lugar do outro. Porque venho de uma família totalmente diferente um do outro. Um irmão é de um jeito, o outro é do outro. E eu sempre amei muito e quis me colocar no lugar de cada um.
A minha mãe, Ave Maria, dou minha vida por ela, faço de tudo. Vejo meu pai e tal, todo mundo. E eu sempre me coloquei no lugar do outro e errei muito nisso. Porque quando eu me coloquei no lugar do outro, eu exigi do outro coisas que eu exijo de mim.
Sim.
Sabe? Tipo, eu fiz uma confusão por muitas vezes de se colocar no lugar do outro, mas também me colocar ali.
Sim, sim.
E errei muito assim, até entender que A gente tem que respeitar o outro exatamente no diferente, né? E entender o outro, nem sempre é se colocar ali.
Sim, sim.
É entendê-lo.
É suportar e aguentar esse ruído, né? Da pessoa falar uma coisa que pra você é totalmente estranha, você, que você justamente não entende, mas que você suporta, você sustenta, né? Eu concordo. O Lacan é um psicanalista importante que vai dizer: para de entender o paciente. Quando você tá entendendo, você tá dizendo: ai, a gente é comparsa, eu faço igualzinho você. Alguém disse, perdeu o namorado? Eu também perdi o namorado, a gente tá junto, amigo.
Não, é tipo assim, o outro ele é heterogêneo, ele é outra versão e você tem que sustentar que ele tem essa versão. Então você tem um sobrinho que não quer estudar, que para você é como assim, entendeu? Escuta, mas é isso, eu escuto o que que é o desejo do outro, ele é diferente do meu, eu nunca ficaria no lugar dele, fugi do lugar dele o quanto pude, mas eu sustento que aquele é um desejo legítimo e que fere o meu narcisismo, porque imagina, todo mundo tem que estudar, esse é meu mantra.
Mas é isso, né? Então, uma família, você pode ter um filho que não quer estudar, você pode ter um filho que, enfim, você quer muito que seus filhos tenham filhos, eles não vão ter filhos, e você quer muito que os teus filhos, enfim, as pessoas projetam coisas nos filhos e nos maridos, enfim, e eles são o que são. E aí você escolhe também, né, o que você quer fazer com isso.
Aí a gente fala assim, mas você vai sofrer. Eu lembro que eu falei isso, mas você vai sofrer. E aí ele respondeu, Deixa eu sofrer. Tipo, você vai sofrer, eu tô querendo proteger. Deixa eu sofrer, eu quero. Tá bom, é doloroso, né? Imagina pai e mãe, meu Deus.
Então é isso, você fala do que que— mas é tão enriquecedor, pessoalmente, eu que eu gosto dessa aventura, né, de me rever, rever, rever. Doloridíssima, mas gosto, né? Esporte radical. Os filhos estão sempre te obrigando a a se rever e vê-los, ver quem eles são, que não são você, né? Então, pra quem gosta disso, uma família tem grandes chances de funcionar, porque não é um pacote fechado onde tudo dá certo, é um pacote aberto onde as pessoas têm que se rever.
Isso pode ser doloroso, mas é muito enriquecedor. Então, acho que é encrenca pura, das boas.
Você acaba se vendo em outros lugares também, olhando por outros lugares, é expansão, né? De certa forma, você vai olhar, ah, é, existe esse outro pensamento, essa outra visão, que louco, né?
É um estranhamento, você falou a palavra estranhamento, e é um estranhamento produtivo assim, que te obriga a se rever, a se estranhar também. Obrigada, muito obrigada, inclusive pela sua pergunta, muito bacana.
Eu que agradeço, obrigada, passaria horas e horas, eu adoro.
Obrigadíssima.