Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

Depois de cuidar de todo mundo, Juliette agora pode brincar de casinha

15 de julho de 202649min
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Juliette cresceu ocupando desde cedo o lugar de quem cuidava, protegia e colocava ordem na família. Ao longo da vida, ajudou os irmãos, acompanhou a educação dos sobrinhos e tentou reparar as faltas que carregava desde a infância. Na conversa com Vera Iaconelli, ela fala sobre esse papel, sobre a força que encontrou na educação e sobre o momento que vive hoje: começar a encerrar esse ciclo para construir a própria família.

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
J

Juliette

ConvidadoCantora e apresentadora
Assuntos5
  • O papel da educação na vida de JulietteValorização do estudo na família · Referência em professores · Desejo de dignidade e ascensão social · Estudo como forma de reparação
  • O Fim de Ciclos e o ComeTransição para a autonomia dos sobrinhos · Valorização da autonomia e potência dos familiares · Abertura para novas fases da vida · Aprender a 'brincar' e ter leveza
  • Construção de novas famíliasDesejo de ter filhos e adotar · Casamento e nova dinâmica familiar · Quebra de ciclos familiares · Equilíbrio e aprendizado com o parceiro
  • Infância e padrões familiaresHistória dos pais de Juliette · Cuidado com os irmãos mais velhos · Sentimento de culpa e reparação · Privilégio social e cor da pele
  • Impacto familiar e traumaMorte da irmã Juliene · AVC da mãe e recuperação · Amadurecimento precoce de Juliette
Transcrição139 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
VIVera Iaconelli

Trovão Mídia. Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. A cada semana uma pessoa abre um pouco da intimidade dela comigo a partir de histórias de família. A gente fala das origens e das mudanças nesse referencial ao longo da vida. Já foram dezenas de conversas por aqui que mostram como não existe um modelo familiar único. E é essa pluralidade que faz a gente se interessar e se identificar também.

Minha convidada de hoje é a cantora e apresentadora Juliette, a filha da Maria de Fátima e do Lorival, irmã de Juliene e dos irmãos chamados carinhosamente de Júnior, Naninha Nino e Preto. Oi pessoal, antes de começar o episódio eu queria contar para vocês que os meus parceiros aqui da Trovão Mídia lançaram hoje um podcast que tá incrível. Chama O Berro do Boi. É mais uma parceria deles com a Revista Piauí, assim como foi no podcast Alexandre.

A Consuelo Diegues, repórter da Piauí, é quem narra O Berro do Boi, que vocês vão ver não deixa de ser uma bela história de família. Eu convidei ela aqui para contar rapidinho qual que é o babado. Oi, Vero, obrigada pelo espaço. A gente lançou hoje o podcast O Berro do Boi, que conta a história dos irmãos Wesley e Joesley Batista. Não sei se todo mundo lembra deles. O Joesley foi o personagem central naquele escândalo do tem que manter isso aí, viu?

Então, depois de quase derrubarem o presidente da República, confessarem inúmeros atos corruptos, terem sido presos, xingados na rua, Wesley e Joesley estão de volta. E eles estão mais ricos e poderosos do que nunca. Eu conto os bastidores de como isso aconteceu no Berro do Boi. Fica o meu convite para você ouvir na sua plataforma preferida de podcasts. Tem o link na descrição. Bem-vinda, Juliette! Obrigada, é um prazer enorme ter você aqui.

JJuliette

Igual, Juliette.

VIVera Iaconelli

A gente começa com uma pergunta que é Qual é a tua referência de família na tua história, assim? Conta um pouquinho dessa família.

JJuliette

Nossa, a minha família, ela é tão única assim, e ela é formada por um pai e uma mãe. Eu não sei assim, sabe, se não planejaram muito, se eles foram fazendo o que podia com o que tinha, mas uma sensação de que tudo foi muito no improviso. Eu fui confirmando essa história e quando a minha mãe me conta como minha família stricto sensu, né, pai, mãe, irmãos, é formada, faz todo sentido depois. Minha mãe vinha de uma história muito sofrida, já tinha tido um primeiro casamento e perdido um filho, e ela queria muito ser mãe.

E aí ela conheceu o meu pai assim num momento aleatório, pedindo uma carona para ir para um lugar. E paqueraram. E aí ele falou, eu tenho 4 filhos. E aí minha mãe falou, eu sou louca pra ter filhos. Ele fez, vai lá na minha casa. Ok, paqueraram e tal, começaram a ficar. Depois a minha mãe foi de surpresa na casa que ele morava, que era uma oficina mecânica, e estavam os 4 filhos numa situação muito precária, dormindo num papelão, com xixi, com feridas, numa situação muito difícil.

E ela contou isso e ela falou, eu vou morar com você, a partir de hoje eu vou cuidar dos seus filhos.

VIVera Iaconelli

E assim nasceu a minha família.

JJuliette

E eu hoje entendo que muitas coisas são reflexos dessa forma que foi organizada. Então eu já venho num lugar de ter uma família, tenho pai e uma mãe, e meus irmãos vêm de um primeiro casamento do meu pai que não deu certo e que tinha muitos conflitos. A mãe dos meus irmãos meio que não tinha condição de criá-los e disse, ó, pode ficar com os meninos, eu não tenho como, os 4, eu não tenho como criar sozinha. Enfim, muitos conflitos.

Quando eu venho para essa família, pelo que eu me entendo, eu já cheguei num ambiente de culpa. Eu sinto que eu devia algo aos meus irmãos, eu sinto que eu precisava reparar as faltas deles, e me coloco no lugar de eu nunca posso fazer eles se sentirem mal, eu tenho que igualar tudo, eu quero que eles se sintam iguais, estavam, etc. E aí, óbvio que tem as outras histórias dos meus avós, da minha avó, que é uma figura muito potente e forte, que definiu a dinâmica da família, família inteira até hoje.

Enfim, ela faleceu, mas a família segue muito estrutura construída por ela, de mulheres muito fortes, muito firmes, mas também muito machista e patriarcal. É conflituoso, mas é o meu modelo.

VIVera Iaconelli

Então, ah, mas eu fiquei curiosa. Pera aí, deixa eu ver. Não, é muito legal, porque assim, então esse homem que teve um casamento que não foi legal, ele assume os filhos, diferentemente do que acontece geralmente, que não, não, na verdade ele a mãe não conseguia dar conta dos filhos com o dinheiro que ele não dava.

JJuliette

Então ela falou, eu não tenho como, então você vai ter que cuidar, já que você tem como. E aí ela deu para ele, né, deu não, porque é pai, ele assumiu, é porque não dava pensão e ela não tinha como. Mas foi nesse lugar de necessidade, não de opção.

VIVera Iaconelli

Então, mas aí então o seu pai e sua mãe se conhece, ficam juntos, e aí você nasce na sequência, 2 anos depois.

JJuliette

A minha diferença para o meu irmão mais novo são 2 anos. Então o meu irmão mais novo chegou a mamar na minha mãe com 2 aninhos, 2, 3 aninhos. Então com 2 anos eu nasço.

VIVera Iaconelli

Nasce mais alguém depois?

JJuliette

Minha irmã Juliene, que é a mais nova, né, que faleceu.

VIVera Iaconelli

Então esses 4 são Júnior, Ananinha, Nino e Preto.

JJuliette

São 4 homens, são 4 homens. E aí depois eu e minha irmã Juliene, que faleceu com 17 anos. E aí nessa dinâmica, minha mãe, ela era como se fosse uma irmã Sabe? Então assim, não tinha muita disciplina, não tem hierarquia, não tinha rotina, era uma coisa muito cada um por si, vamos lá, e igual plantar batata e vamos embora. E meu pai trabalhava muito também, era uma dinâmica muito cada um por si e tal. Eu entendi muito cedo que alguém precisava tomar a posição da líder, mas muito cedo, muito, muito cedo, de amamentar minha irmã mais nova de madrugada.

Assim, eu tinha mais 2 anos de diferença da minha irmã, eu acordava acordava, colocava o leite na mamadeira dela e na minha e dormia ninando ela, bebê, 4 anos de idade assim. Então, e a dinâmica, apesar dos meus irmãos ser todos mais velhos, eles sempre me viam na figura de mãe protetora.

VIVera Iaconelli

Muito interessante. Como é que, o que que você acha que rolou? Porque você era a quinta filha.

JJuliette

É, eu não sei. Eu acho que na ausência dessa figura eu entendi que alguém precisava ocupar. Eu sentia muita carência nos meus irmãos. Eles precisavam de alguém para defendê-los, para apoiá-los, para protegê-los, e não tinha Então quando eles iam fazer alguma coisa errada que ia apanhar, eu ia para frente, eu não deixava. E quando eles faziam alguma coisa errada, eu que protegia, eu que meio que eu tomei esse papel. Ninguém me falou, eu entendi que precisava.

Eu hoje vejo assim, por muito tempo eu não tinha consciência, na verdade eu vim ter essa consciência já mais adulta assim. Eu lembro assim que eu, minha mãe ia colocar refrigerante no copo para gente, que era uma coisa que era luxo na época para gente, era. E eu fazia questão de medir todos os refrigerantes antes, para não ter um centímetro a mais. Então era muito louco. E foi assim a minha vida inteira, até hoje.

VIVera Iaconelli

É muito interessante como seria raro, talvez quase impossível imaginar uma mulher com 4 filhos nessa condição que um homem dissesse, amanhã eu vou vir aqui cuidar de todo mundo e fazer. Isso é uma coisa muito que as mulheres assumem rapidamente, os homens não. O que que você achava que você devia para eles? O que você achava que você teve a mais do que eles?

JJuliette

Várias coisas. Eu acho que eles eram muito carentes de afeto e de atenção e ser prioridade. Eles não eram. Eu entendia que eles sentiam essa diferenciação, sabe? Eu sentia que eu tinha um privilégio. Primeiro, por ser filha de pai e mãe e ter esse afeto, ter esse acolhimento e ser mais nova. Eu entendia isso. Segundo, porque O meu irmão mais novo é um homem preto. Eu também via a diferença social nessa dinâmica. E aí eu queria protegê-lo disso, porque eu sentia isso.

Tipo, eu ia pra uma festa infantil: Ah, seu irmão não pode vir, não pode entrar. Ele ficava no portão. Seu irmão é mal educado. Mas não era isso. Às vezes era aparência, às vezes era roupa.

VIVera Iaconelli

Você sacou logo o que tinha.

JJuliette

É, e eu não. E eu era uma menina branca. Então eu entendia que tinha uma diferenciação, mas eu não sabia o que era. E eu entendia que eu devia algo pra eles. Eu sempre sentia que eu devia algo pra eles. E eu queria reparar. Então quando minha mãe dizia: vai, vou comprar um brinquedo para vocês. Eu não, não, não, não, eu tinha, eu não, mãe, compra não, compra para todo mundo tal e não sei o quê. Eu não queria vê-los sendo diferenciados.

Então eu acho que foi esse o sentimento que me guiou mais a protegê-los. E aí eu estudei muito porque eles não estudavam, eles trabalhavam na oficina. E aí eu disse, não, eu vou ter que estudar para cuidar deles porque eles não vão estudar, eu vou ter que estudar. E assim fiz. E essa dinâmica deles entenderem que eu era a figura materna até hoje, assim, sempre foi mesmo, assim. Eu que ia buscar nos lugares, tava dando trabalho, eu que ia buscar.

Fugiu de casa, eu que ia buscar. E tem cenas muito fortes na minha cabeça, assim, eu protegendo eles na hora de apanhar, eu não deixava, eu entrava na frente, assim. E eu era muito pequena e eles eram muito maiores. Tem uma cena que meu irmão, ele dava muito trabalho, meu irmão mais novo, ele teve problema com álcool e com droga. E ele fugia, e às vezes ele tava com má companhia. Eu pequena, eu ia lá, chegava lá, olha a estratégia que eu tinha.

Eu dizia, eu quero que meu irmão vá pra casa. E aí os cara dizia, não, não tenho nada a ver, manda ele pra casa. Eu dizia, se você não mandar ele pra casa, eu vou ali na delegacia e mando o delegado vir aqui. E aí eles mandavam, vai embora, não quero problema. E meu irmão ia pra casa comigo. Então eu criava estratégias assim pra protegê-los, e assim foi.

VIVera Iaconelli

Você sentia que a sua mãe fazia uma diferença? Você se sentia mais mimada, mais protegida, mais cuidada? Desses outros filhos que não eram filhos biológicos dela, que já estavam lá. E você sentia que seu pai também fazia essa diferença?

JJuliette

Sim, eu sentia isso. No caso da minha mãe, uma falta de consciência e cuidado mesmo. Ela não— eu acho que ela não tinha consciência de como educar aquelas crianças. Então era muito na intuição. E o meu pai era falta de tempo, ele não me dava também. Ele não me dava também, ele só trabalhava. Então não tinha, não era que ele me dava, não tinha. E eu entendia que os meus irmãos precisavam. Então acho que sim, eu me sentia privilegiada e eu não— e eu queria reparar isso.

VIVera Iaconelli

Isso.

JJuliette

Então eu ficava culpada.

VIVera Iaconelli

A mãe das crianças, desses irmãos mais velhos, ela comparecia de algum jeito? Ela aparecia?

JJuliette

Eles passavam finais de semana, ficava lá e cá, visitava. Mas assim, uma mulher muito sofrida que entendia aquela dinâmica. Assim, assim, no lugar de eu queria poder fazer mais, ela não tinha como mesmo. Ela tinha, não tinha como, era difícil mesmo na época.

VIVera Iaconelli

É, porque a maternidade no Brasil, ela acaba sendo um privilégio, né? Que depende de você ter até posses pra manter seus filhos. Às vezes você tem que abrir mão dos filhos pelo bem deles, né? Aquela mãe salomônica, né? Prefiro ele inteiro do que cortado na metade, eu vou abrir mão dele pra ele poder sobreviver.

JJuliette

Foi exatamente isso.

VIVera Iaconelli

É de uma crueldade, né?

JJuliette

Sim.

VIVera Iaconelli

E aí você tá lá com essa família e você disse que você entendeu que você precisava estudar. E como é que era a questão do estudo nessa família?

JJuliette

Minha mãe era analfabeta, né, semianalfabeta. Ela não sabia ler e escrever. O meu pai tinha ensino básico, não tinha ensino superior, mas trabalhava muito. Então não ensinava tarefa, não tinha uma dinâmica de valorização da educação. Pelo contrário, era trabalho, trabalho, trabalho. Estudar é coisa de preguiçoso.

VIVera Iaconelli

Ah, boa, boa!

JJuliette

Na minha casa, estudar era coisa de preguiça.

VIVera Iaconelli

Importante falar isso, Juliette, porque se a sociedade estudar, que menina vagabunda!

JJuliette

Era isso, vai trabalhar, menina! Isso aqui não Era isso, sempre foi. Mas eu entendo também as limitações deles, eles não tinham referenciais e nem provas que aquilo funcionava, eles nem viam isso, não tinha. Então era trabalho, a gente trabalhava desde 8 anos, todo mundo trabalhava na oficina ou no salão de beleza desde cedo, acordava todo mundo junto, ia trabalhar metade para oficina, metade para o salão, que por várias vezes era no mesmo lugar, só mudava o cômodo.

E aí a gente ia trabalhando e tal, mas a educação eu ia, aprendia o que eu tenho que aprender e tentava ensiná-las. Eu ensinava minha irmã, ensinava minha mãe. Eu e minha irmã ensinamos minha mãe a escrever. Ela fazia, mas assim, não era legal. A gente ensinava a tarefa em casa para ela. Ela foi aprendendo a ler e escrever. Depois ela escreveu a Bíblia quase inteira, fazia cópia, que ela falava cópia. E os meus irmãos também, só que os meus irmãos trabalhavam muito.

Eu fazia as duas coisas, né? Talvez também no lugar de mulher eu ficava no salão, mas eu ficava no salão estudando. Então esperava o cliente estudando, eu tinha mais possibilidades, né?

VIVera Iaconelli

Onde você acha que você tirou isso? Que que tem alguma coisa que você falou, putz, ali o estudo, porque não era uma referência da família?

JJuliette

Pelo contrário, eu me sentia desprivilegiada socialmente. Eu comparava o que eu via, por exemplo, professores, famílias de professores, a minha. Eu entendia que minha família não era bem tratada. Minha mãe, por exemplo, ela tinha vergonha que não sabia ler e escrever quando ia na escola. Ela não ia às vezes por isso. Eu ficava triste com isso, assim. Era uma— eu tinha uma sede de dignidade, sabe? Assim, de tipo, ó, isso não é justo.

Por que a gente não tem acesso a essas coisas? Por que a gente não é bem tratado? E aí eu vi nos professores, eu achava que a vida deles era um exemplo perfeito de ser bem-sucedido. Porque eu via aquelas pessoas intelectualmente muito admiráveis e eles tinham Sei lá, não sei, nem era dinheiro, mas pra mim era. Sei lá, eu acho que a vida deles era perfeita. E eu lembro que eu pedia a uma professora que tinha uma casa que era no caminho da escola pra eu ajudá-la no final de semana na casa, porque eu queria ver como era a dinâmica da casa dela, como era, ela tratava os filhos, como era a educação, etc.

E aí eu ia ajudar ela com a feira, ia pra feira com ela, lavava louça, ficava com ela. Você ia lá espionar?

VIVera Iaconelli

Era, pra entender.

JJuliette

E eu disse, aquilo é uma família muito organizada. Ela ensina tarefa, ela ajuda os filhos, ela manda dar banho, ela tem horário de comida, tem horário de tudo.

VIVera Iaconelli

Eu fui entendendo que isso faltava na sua casa.

JJuliette

Nunca teve, faltava total. Nunca teve horário de comida, tampouco o que é que ia comer. Cada um tinha as refeições, mas era livre e limitado também, assim, não era tipo— a minha família foi a um supermercado, eu já era adolescente. Antes era feira livre apenas, não tinha como ir a um supermercado, não dava o dinheiro. Supermercado era já lá não tinha acesso mesmo, era feira livre. Então, no professor eu vi que eu queria ser igual intelectualmente, porque eu achava o máximo na oratória e na educação e nas roupas, em tudo. Eu queria ser um professor.

VIVera Iaconelli

Então, eu acho tão significativo, né, como a escola pode ser. Às vezes a gente fala assim, ah, mas essa família não participa muito do dia a dia da escola. Escola pode ser um lugar totalmente constrangedor, lugar de vergonha, de se sentir de fora, que esses pais, esses são os pais que mais precisam ser tratados de um jeito diferenciado. E às vezes a própria escola rejeita. Ah, pai, mãe mal vestido, não sabe nem falar, não comparece.

Esse é o pai que mais precisa trazer para ele conseguir sustentar. Às vezes não seja, né, uma formação de adultos, mas para que os filhos também continuem, né? Porque eles não desistam, porque os pais percebem. Mas a escola precisa poder receber esses pais, né? De algum jeito você sacou que tinha alguma coisa errada ali, porque a tua mãe se identificou com esse lugar. Escola não é para mim, a escola me rejeita, eu rejeito a escola, né?

Você falou não, tem alguma coisa errada. E os professores servindo de farol para você. Porque eu insisti nessa pergunta, Juliette, porque tem que ter algum farolzinho, alguma coisinha, uma luzinha para se girar, só virar para aquele lugar. Porque se você não tiver nenhuma referência, você não tem como se pegar. E você falou, bom, na escola tem alguma coisa legal.

JJuliette

É, eu sempre imitava professores muito e eles me premiavam. Então, pela primeira vez, eu me sentia também vista e valorizada, importante. Eu comecei a ter privilégios na escola, de tipo ganhar livros, as professores pedirem para responder, eu fui ficando tipo, uau, eu sou importante com isso, isso vai me levar a algum lugar. Eu imitava os professores. Então eu acho que as minhas referências foram os professores bem no início assim.

VIVera Iaconelli

E você foi seguindo por aí. E aí quando você voltava para casa com essas referências, contraste. Sim.

JJuliette

Aí eu falava, tá tudo fora de ordem. E aí eu criei uma, eu preciso colocar ordem. E aí os meus irmãos brincavam que eu era delegada, juíza. Ah, tá bom, tudo essa menina quer organizar e tudo, eu queria organizar tudo e não podia fazer isso. Isso era errado, era imoral. Não tinha muito filtro assim. Se o menino quisesse colocar o dedo na tomada, minha mãe dizia: vá, bote. Pronto, levava um choque, aprendia. E eu: não, não pode.

Eu era o limite. Então eu vi esse contraste e eu dizia: tem alguma coisa aqui desajustada. Ao mesmo tempo, eles me faziam fortalecer muitas crenças de autonomia, sabe? Assim, eu acho que também me fortaleceu nesse lugar de desbravadora, de autonomia, de iniciativa, de assertividade. Não tinha diferenciação na minha casa de homens e mulheres, de pode, não pode. Não tinha na minha casa. Da minha avó já tinha, o meu pai tentava, mas a minha mãe sempre foi muito— andava de moto, ela tinha alguns códigos, ela fazia coisas que diziam que mulher podia fazer igual homem, sabe?

Então acho que isso ia fortalecendo minha força. Não tinha educação formal, mas tinha as crenças muito fortes. Assim, eu ando de moto desde criança, igual meus irmãos. Eles caíam, eu caía. E eu tentava trocar um pneu, eu tentava tudo, eu desbravava igual. Isso fortaleceu muito a minha autoestima, eu tenho certeza assim, sabe? Nesses lugares de crenças.

VIVera Iaconelli

Conta dessa avó. Essa avó, mãe da sua mãe, do seu pai?

JJuliette

Mãe da minha mãe. A mãe do meu pai morreu, era pequena. O meu avô, né, pai do meu pai, pai era meu pai igual, mecânico, borracheiro, muito simples, muito humilde, muito trabalhador, mas de poucas palavras e muito sensível. Meu pai já não é muito sensível, é meio brutão assim, sim, não, zero contato de toque, mas não deixava faltar nada, aquele pai tradicional. E a minha avó da minha mãe era uma mulher muito sofrida, ela passou fome, miséria, tinha 9 filhos, criou sozinha, foi abandonada pelo marido.

Então ela, ela era muito carrancuda, muito, sabe assim, corajosa, muito forte, muito trabalhadora. Ela se impunha para tudo assim, sabe, desbravadora, nariz em pé, isso, altivez, medo de nada e de ninguém, nunca se sentia inferior a ninguém, por mais que tivesse adversidades, ela sempre era nariz, sabe? Então ela passava isso para a gente, de saber nosso lugar, nem menor. Talvez eu tenha sentido essa ânsia de dignidade porque ela era assim, eu queria me sentir assim.

VIVera Iaconelli

Olha, outra referência importante aí, né?

JJuliette

Ela era muito assim.

VIVera Iaconelli

O que sobreviveu cuidando de 9 filhos sozinha, abandonado pelo pai das crianças, já provou tudo né, pode gerir um país. Então tá devendo o quê pra quem, né?

JJuliette

É muito, muito forte assim. Então ela era âncora mesmo assim da família, e eu acho que ela deu isso pra minha mãe nessa, e minha mãe pra mim, de muita coragem assim, de ser desbravadora.

VIVera Iaconelli

Ela aprovou o casamento deles, essa união que começa já com 4 filhos? Como é que ela via esses netos?

JJuliette

Então quando eu falo que também tem uma educação muito machista, até pela época também, né? Ela aprovou, porque assim, minha mãe teve o primeiro casamento, tinha isso de casar virgem com o primeiro marido e tal, tal, tal. E aí o marido da minha mãe faleceu, depois ela arrumou um segundo parceiro, teve um bebê e o bebê faleceu. E aí quando ela começou a namorar com meu pai, ela já tinha, era um terceiro relacionamento, né, no caso.

Minha avó já não ligava muito mais não, então ela já tava assim, é, minha filha, tá bom, você que sabe, você que sabe. Só que minha mãe era, trabalhava fora, minha mãe era mais desbravadora, minha mãe nunca foi dona de casa. Em casa, nunca. Ela sempre trabalhava fora, ela sempre desenrolava as coisas fora. Era mototáxi, já foi servente de pedreiro, já foi faxineira, copeira, tudo.

VIVera Iaconelli

Ela é viva, sua mãe?

JJuliette

Cabeleireira, tudo. É minha mãe, mora comigo, tem 64 anos. Então assim, aí minha avó meio que dizia, essa menina é um macho. Com a minha mãe jogar futebol, minha avó dizia, essa Dida é um macho.

VIVera Iaconelli

Elas elogiaram a crítica, era tipo assim desbravadora, ela faz tudo.

JJuliette

Ela sabe se cuidar. Mas quando minha mãe tentou separar uma vez, minha avó não aceitou. Volte pro seu marido, sabe? Minha avó meio que era assim nesses lugares. Volte, resolva. Saiu de casa, não volto mais não. Meio que tinha essas coisas assim.

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VIVera Iaconelli

E depois você segue com essa família, e aí você vai estudando. O que que acontece?

JJuliette

E aí eu fui estudando. Primeiro eu fiz letras na Universidade Federal, mas eu tinha uma ânsia de justiça muito grande. Todo mundo falava que eu tinha muitas características. Aí eu falei: tá bom, vou fazer direito.

VIVera Iaconelli

Direito.

JJuliette

Não fiquei feliz no curso de letras, e aí fiz direito na Universidade Federal da Paraíba também, sempre trabalhando em salão. Trabalhava para me sustentar e estudava para sonhar. Eu sonhei, era o meu hobby, era estudar, e a maquiagem era o meu trabalho, era o que me mantinha. E aí depois advoguei, estagiei em vários órgãos públicos, né, Defensoria Pública, Ministério Público, porque eu sempre amei essa advocacia pública, direitos sociais e questões humanitários, enfim.

E os meus irmãos trabalhando sempre em oficina, casaram, só um que não casou, que mora comigo. Mas ele sempre me admirando muito, no lugar de, meu Deus, olha o que ela conseguiu fazer, sabe? E na educação dos filhos, olha, você tem que ser igual sua tia, não é igual seu pai, é igual sua tia. Ela escolheu a educação. A educação dos filhos antes do Big Brother já era responsabilidade minha. A escola que ia estudar era eu que determinava, mesmo pública.

VIVera Iaconelli

Você tinha essa ascendência sobre seus irmãos mais velhos?

JJuliette

Sempre tive. Tudo eles ligavam: o que é que você acha se eu disser bota de castigo? Ó, era assim: a criança tá rebelde, vou ligar para sua tia. Aí ligava: fala aqui com Gabriel, Gabriel tá fazendo birra. Gabriel: tá bom, tia, tá bom, tia. Isso dá trabalho sempre assim. Nunca me desobedeceram, nunca, os meus sobrinhos, né? E os meus irmãos me deram essa autoridade, entenderam que ela sabe o que é melhor. Ela nos ajudou e ela sabe o que é melhor para vocês.

Me deram essa autoridade, todo mundo sempre respeitou muito. Muito. E aí fui ajudando eles e tal, até que eu entrei no Big Brother. E aí foi essa loucura na minha vida. Continuei sendo a líder da minha família. E aí tentei até hoje organizar a educação dos meus sobrinhos. Hoje 3 moram comigo. Eu tenho 7 sobrinhos, 4 irmãos e 7 sobrinhos. Banco a educação deles. Mas principalmente acredito muito no poder do fortalecimento das crenças, porque não adianta você ter a melhor educação do mundo se você não tem um ambiente favorável e que tá reforçando valores e e prioridades e etc., né, assim, potências.

Então eles vêm morar comigo quando ficam maiorzinho assim, para eu tentar participar mais e dar o máximo. E meus irmãos estão lá na oficina, mas hoje com outras consciências, com outra consciência assim. É bem legal.

VIVera Iaconelli

Mas você, para estudar, você tem que sair da tua cidade de origem. E como é que essa passagem?

JJuliette

O meu primeiro curso eu fiz na cidade de origem, é de Campina Grande, é uma cidade que é um polo universitário, tem muitas boas faculdades. Então eu fiz o primeiro curso lá, não concluí, fui para capital, João Pessoa, fazer direito e fico lá. Mas fico, é uma hora de distância.

VIVera Iaconelli

É, ficou, não foi exatamente uma emancipação.

JJuliette

Foi, eu fui morar só, né, 2 anos depois que a minha irmã morreu. Teve a minha irmã Juliane que faleceu de um AVC hemorrágico com 17 anos. Depois de 2 anos, porque eu precisava ajudar minha mãe a se recuperar e tal, aí eu vou para João Pessoa e começo a morar sozinha. Comecei a namorar com um namorado um tempo, depois sozinha, e pronto. E assim foi até o Big Brother, mas sempre com essa ligação de qualquer coisa ligar, de qualquer coisa resolver, sempre.

VIVera Iaconelli

Porque você gozava, dentro dessa história familiar, você gozava de bastante liberdade. Quer dizer, então você fala, vou viver com namorado, e tudo bem, não tem aquela coisa, ó, né, tem que casar, xis, assim.

JJuliette

Um comentário ou outro, mas assim, isso não é certo, você não é casada. Tinha essas crenças assim, mas eu nunca dei importância a isso. Então tipo, é ok, é isso aí.

VIVera Iaconelli

Que tem uma liberdade nessa independência, até num certo abandono ali da infância, acabou te uma liberdade, uma independência, né?

JJuliette

Minha vó dizia assim, você sabe, né, que mulher que dorme com homem sem casar é rapariga. Aí eu, prazer, rapariga. E aí todo mundo, eu brincava com isso, ela ficava chateada, mas eu não levava. Eu, tá bom, vai, eu sou vovó, eu sou, você chamava de velha? Tá bom, velha, eu sou rapariga, tá tudo certo, eu sou rapariga estudada, inteligente, bonita, bem-sucedida.

VIVera Iaconelli

Ela sabia que você Ela era uma menina que, né, tinha milhões de qualidades e nada parecido com uma pessoa que não tá vendo.

JJuliette

Ela não tem nem vergonha na cara, não me respeita, tá dizendo que é rapariga.

VIVera Iaconelli

Você quer contar um pouquinho da perda da sua irmã? Como é que teve o impacto disso nessa família?

JJuliette

Sim, a minha irmã era como se fosse a minha filha mais nova, porque vim nascer diferente dos meus irmãos, né? A minha irmã eu vim nascer. E também nessa sensação de que eu precisava materná-la, mesmo não sendo minha mãe. Então eu alimentava, eu cuidava, eu educava, eu punia. Minha mãe era o lazer, eu era a ordem. Do tipo, não deixar ela fazer as coisas com medo de machucar minha mãe, ia lá e deixava ela fazer. Ou quando adolescente, dizia: não vai para festa.

Minha mãe dizia: vai. Eu dizia: não vai. Ela não ia. Ou então fingia que tava em casa, montava os travesseiros na cama junto com sozinha e dizia que tava em casa. E eu ia olhar, ela tinha com minha mãe mentido para mim, ia para festa.

VIVera Iaconelli

Aí você fala que essa mãe parecia uma irmã, né?

JJuliette

Minha mãe, ela tem alma de criança e jeito de criança. Se você conhecer, você vai entender o que eu tô falando. Então sempre foi uma criação assim, uma criança criando outras, era isso assim, outras palavras. Mas com muito afeto, muito amor e muita coragem. Mas sim, pedagogicamente sim, uma criança cuidando de outra.

VIVera Iaconelli

Que figura que você foi, né? Porque imagina a tua mãe fazendo conchavo com a filha mais nova para filha mais velha que a mais nova não ficar brava. E às vezes você ficava brava e eu era chata.

JJuliette

Então não, eu tentava desesperadamente, mas eu era muito pequena, não tinha muito, era uma tentativa desesperada de colocar ordem. Funcionava nem sempre, 10% funcionava, mas a tentativa era constante. E aí a minha fama era de chata, delegada, juíza que queria mandar em tudo, tal, tal, tal. Mas no fim eles entendiam que eu tava certa.

VIVera Iaconelli

Mas você fez uma escolha profissional que podia muito bem caminhar para delegada, juíza, né?

JJuliette

Sim. E aí a minha irmã era super saudável, todo mundo trabalhava, etc. E assim, de repente ela teve esse AVC hemorrágico. Eu fiquei com ela no hospital 20 dias. Tanto é que quando foi operar, o médico não perguntou ao meu pai, a minha mãe perguntou: posso operar sua irmã? Para mim, eu tinha 19 anos, eu sim, tal, e fiquei lá. Para mim foi como uma filha mesmo assim. Eu que eduquei, eu que eu criei, e também perdi uma filha. Então foi, foi bem difícil, me transformou em inúmeros lugares.

Eu acho que eu dei um— eu já era uma pessoa madura, mas eu dei um salto de maturidade ainda maior depois desses episódios. E eu passei a cuidar da minha mãe também como uma filha, porque ela também teve um AVC logo em seguida e ficou sequelada durante 2 anos e teve que voltar a andar. E eu que fiquei com ela dela. Eu trancava a faculdade para cuidar dos meus irmãos ou da minha mãe às vezes, enfim. Mas minha irmã era uma outra filha assim, super livre, super aberta para o mundo. Eu que botava os limites e ela era a liberta assim, sabe?

VIVera Iaconelli

A gente passa agora para a segunda pergunta, né? O que que você fez com essa referência de família? O que que é uma referência de família para família para você hoje? Porque você virou mãe de todo mundo muito cedo, né? E agora, o que que é família para você hoje?

JJuliette

Eu acho que eu carrego algumas cicatrizes de ter ocupado esse lugar, mas também muitas virtudes. Eu sou grata. Foi o que a minha família conseguiu ser com o que tinha. E que bom que eu tive essa consciência em poder ajudá-los de alguma forma. Hoje eu entendo a importância de uma dinâmica E o quanto isso reflete na formação de um ser. Eu não tinha muito essa consciência. Hoje, me entendendo psicologicamente, entendendo minhas ações, meus medos ou meus vícios, eu entendo que tudo está 100% ligado à dinâmica familiar, à ancestralidade, e sou muito consciente disso. Quero construir uma família o mais equilibrado que eu puder.

VIVera Iaconelli

Você quer ter uma família? Você quer ter filhos? Você pensou?

JJuliette

Ainda tô adiando. Eu tenho 36, mas eu queria mais uns 5 aninhos ainda assim para dar um—

VIVera Iaconelli

bom, com adoção você pode ter muitos anos pela frente.

JJuliette

Eu quero gerar, mas também quero adotar. Eu já sou de certa forma mãe, né, já tenho a minha família, mas também quero a minha família com meu parceiro, né. Vou casar esse final do ano, então você vai casar agora? Quero formar essa família e quero trazer uma dinâmica equilibrada sabe? Assim, aprendi muita coisa nesse meu modelo familiar, coisas para fazer e coisas para não repetir. Honrar, mas não repetir, digamos assim.

VIVera Iaconelli

Interessante isso, né? Quer dizer, poder assim reconhecer que o que foi feito é o possível, é digno, mas não é a tua escolha para você fazer novamente.

JJuliette

Exatamente. Pedir a bênção para eles, né? Perdoá-los e me perdoar e fazer uma dinâmica nova que eu acredito que possa ser melhor assim para os meus filhos, para os que vierem depois assim. Então acho que isso.

VIVera Iaconelli

Mas quando você pensa em casar agora, né, você tá noiva, vai casar, e ao mesmo tempo você já vive com uma parte da tua família anterior, sobrinhos e mãe.

JJuliette

Vai parar isso quando eles forem para faculdade, aí eu vou fechar um ciclo, porque eles estão indo vestibular agora, né?

VIVera Iaconelli

Então eles estão como você para poder fazer vestibular.

JJuliette

Os mais velhos eu trouxe para perto, os mais novos que conseguiram ter uma educação melhor melhor mais cedo, né? Por exemplo, tinha sobrinho com 5 anos que já foi para escola particular ou já teve apoio psicopedagógico. Eu tenho também sobrinho autista, etc., reforço, apoio psicológico e psicopedagogo. Esses não vieram morar comigo porque eu entendo que eles têm uma estrutura um pouco melhorada. Os mais velhos que estudaram escola pública, que já estavam 8º, 7º ano, Eles entrando na faculdade, eu fecho esse ciclo.

Eu vou continuar ajudando os mais novos e a minha família, mas acho que aí a missão é deles. Cada um de uma família vai ajudar os outros, e eu acho que assim eu consigo quebrar o ciclo. Quebrando esse ciclo, dando esse apoio assim 100% como eu dou hoje, esse ano que vem eles vão morar com os pais de novo ou vão para as faculdades que escolherem. E aí fica eu, minha mãe e meu ao vivo. Meu irmão também vai, todo mundo que mora comigo vai tomar seu rumo. Eu vou começar a brincar de casinha agora.

VIVera Iaconelli

É uma passagem muito importante. Como é que tá sendo para você, como você disse, quebrar um ciclo de 36 anos de ser mãe no lugar de filha?

JJuliette

Dá não oportunidade de ter educação e equilíbrio. Acho que meus irmãos, eu e até os meus sobrinhos, a gente acaba sendo muito atingido pelos reflexos da não educação legal, da não estrutura, da não dinâmica dos medos, da privação, da falta, sabe? Então agora eu acho que quebrando esse ciclo e eles estando bem preparados, eu meio que cumpro uma missão de reparar algo que eu acho que lá no início faltou. É uma reparação, eu acredito.

E depois que eles entrarem na faculdade, eu acho que as coisas vão começar a fluir melhor. Pelo menos acesso à educação eles vão ter, dignidade. Eles vão ter para correr atrás do que eles quiserem. Aí eu acho que eu posso brincar, que até agora eu não brincar. Acho que aí eu posso ter mais leveza de olhar para outros lugares assim.

VIVera Iaconelli

É brincar, porque se uma criança se arvora no lugar de mãe tão cedo, ela não tem muito tempo para brincar, né?

JJuliette

É.

VIVera Iaconelli

Você tem brincado pouco? Pouco.

JJuliette

Acho que deveria mais. Eu acabo dando prioridade as coisas mais urgentes, as responsabilidades. Me trabalho muito pra isso, assim. Eu acho que é uma das coisas que eu mais me esforço pra olhar. É pra ser mais leve, aproveitar mais e tal. Mas confesso que eu acho que eu viciei um pouco nessa dinâmica. Eu não aprendi a ceder de outras formas. Tô tentando, porque eu sei que isso pode me fazer bem. Mas eu acho que eu viciei também.

VIVera Iaconelli

É porque a tua identidade ainda tá muito colada nessa menina séria que vai botar ordem no mundo e fazer— e cuidar de todo mundo. De mãe do mundo.

JJuliette

E é, acho também.

VIVera Iaconelli

Teu noivo gosta de brincar, de conhecer teu lado? Ele solta? Você arranjou um cara que também tem que ser pai do mundo?

JJuliette

Não, não, ele é bem responsável, mas é uma história totalmente diferente da minha. Tão louco isso, sabia? Conhecer um mundo tão diferente. Ele tem uma família tão equilibrada assim em papéis, né? O pai e a mãe são super presentes, dedicados, e ele fala, as irmãs, eles têm uma dinâmica, é curioso. Maravilhoso ver. E ao mesmo tempo é como se tivesse outra lente para o mundo, para a vida.

VIVera Iaconelli

Isso te ajuda a pensar na tua história? Te causa exaspero? Te deixa confusa? Que efeito que tem?

JJuliette

Confuso. Eu admiro muito, acho que é um privilégio. Eu faço ele ter consciência desse privilégio. Falo: tu tem noção que isso não é normal? Tem noção que o que você tem é Isso é raro, ninguém tem um pai e mamãe que se preocupa assim. Eu fico falando para ele, isso não existe na maioria dos lares, infelizmente é isso. E ele fica, eu dou esse choque nele. Ao mesmo tempo, às vezes ele não compreende algumas coisas e me agradece quando compreende com outro olhar e fala, meu Deus, eu não olhava por esse lado. Aí eu falo, é, mas agora Ele é agora, faz todo sentido.

VIVera Iaconelli

Você já pensou que você tá caminhando, sonhando, montou todo, todo aparato para fazer uma família assim também como a dele?

JJuliette

É, sim.

VIVera Iaconelli

E que isso vai ser também um privilégio para os seus filhos?

JJuliette

Sim, sim.

VIVera Iaconelli

E que, bom, vocês merecem isso daí, né?

JJuliette

Claro, muito. Tenho total consciência disso e trabalho para isso. Assim. Mas também sou muito grata pelo que me formou assim, eu acho. E digo mais, eu acho que eu só sou essa potência que eu sou pela minha história mesmo, sabia? Então talvez se eu tivesse tudo tão equilibradinho, eu não teria desenvolvido vários outros lugares da minha vida.

VIVera Iaconelli

Eu acho isso tão importante porque na verdade você teve essa oferta toda, quase um buffet assim com todos os pratos ali, e você fez escolhas. Sim, outros irmãos fizeram outra escolha. Então tem algo da oferta dessa conjugação interessantíssima, né, de mulheres independentes ao mesmo tempo que têm vergonha da escola. E o que você fez com isso é muito singular, muito próprio seu. Então vamos dizer que daquela oferta você foi tirando o que podia te fortalecer mesmo, aquilo que você achava que era para você. Você fez uma escolha ali?

JJuliette

Sim, mas sim, mas eu também acho que eu consegui fazer essa fiz escolha. Em alguns lugares os meus irmãos não conseguiram, não acho que foi escolha, acho que foi necessidade muitas vezes. Então é diferente a época que se nasceu, o ambiente em que se nasceu, a estrutura social, a cor da pele, o gênero também, positivamente ou negativamente, né, atuando. Então fiz escolha, sim, mas pude fazê-las. Os meus irmãos nem sempre puderam, tenho muita consciência disso, assim, talvez eu por ser um pouco mais nova, enfim, mas fiz.

VIVera Iaconelli

E eles refizeram as escolhas deles quando eles viram que você podia, eles também podiam.

JJuliette

É, só que a gente vive num recorte de tempo que também influencia, tem coisas que não são mais possíveis, perdidas. É, e por exemplo, o acesso à educação, ele vai ficando cada vez mais difícil. A educação, né, o letramento, não é impossível, tá? Aí, para provar os égios que você falou, né? Enfim, mas vai tendo um grau de dificuldade maior.

VIVera Iaconelli

É fazer o luto disso, é uma condição também para poder ficar com alguma coisa, né? Porque também se ficar aí, porque se eu tivesse, se não tivesse tido alimentação X, a escola, escuta, tá, não teve. Então hoje que aí você consegue olhar para frente, né?

JJuliette

Sim, mas vai ficando muito mais difícil. Eu tenho total consciência disso. Então os meus irmãos, depois que passaram um tempo assim, eles nem acreditavam mais, sabe? Eu tenho um sobrinho mais velho que eu tentei de tudo que você imaginar. Ele ficou 3 anos tentando pela educação, estudando psicólogos, pedagogo, professor de reforços, melhores tudo ele tentou, mas tinha uma coisa que eu não conseguia mais mudar: as crenças dele.

Ele não acreditava naquilo. E depois de muita luta, ele falou: eu não acredito na educação. E aí eu falei: eu não tenho como ajudar você. E ele escolheu, ele não escolheu a educação, ele escolheu outros caminhos. Eu fiquei muito triste, mas eu entendo também que existe um recorte de tempo. Existe também as crenças. Cada pessoa constrói as suas certezas e mudam, só elas conseguem mudar as suas certezas.

VIVera Iaconelli

A gente até tenta ajudar, mas nem sempre tem algo que é do sujeito mesmo, né?

JJuliette

Então, enfim, tem recorte de tempo que vai dificultando também, circunstâncias sociais, etc. Às vezes se torna praticamente impossível fazer escolhas, tem que resistir muito para fazer para tentar.

VIVera Iaconelli

Dilete, eu tô muito impressionada com a tua trajetória, eu tô impressionada como uma pessoa pode fazer. E eu tenho escutado aqui mulheres que vêm de outras classes sociais, de outras experiências, inclusive mulheres negras, né, com essas histórias de mulheres abandonadas com filhos, e como às vezes uma posição do sujeito ali, né, uma marca da singularidade, um desejo em inquebrantável, né? Faz aquela pessoa sair e levar um monte de gente com ela, né?

Quer dizer, e ao mesmo tempo o reconhecimento de que, puxa, tem algumas coisas que deveriam estar para todos, né? Educação para todos, né? Condições para todas as mulheres que são mães solos, abandonadas pelos maridos. Quer dizer, onde que tá o Estado para oferecer algum tipo de alento, né? Para que elas não fiquem na miséria absoluta, né? Então essa combinação, né, ela é tão potente. Você é tão jovem, também, né?

JJuliette

Sim, muito. E o quanto isso, uma vontade muito grande, pode mudar a história de uma família inteira, né? Assim, por isso é tão importante as crenças. Eu bato muito nisso. Eu acreditei tanto que isso ia mudar a vida da minha família. Isso era a minha única opção, eu não tinha segunda. Por isso ela deu certo, porque não existia outra. A educação, né, ia mudar a vida da minha família. As pessoas brincam que, ah, não foi o Big Brother?

Sim, financeiramente talvez, mas estruturalmente foi a educação, foram as crenças, né, foi tudo isso.

VIVera Iaconelli

Bom, mas também sem educação talvez você nunca tivesse nem chegado, nem feito as escolhas que fez, né, a capacidade de gerenciar tudo.

JJuliette

Mas é muito legal, eu tenho, eu tenho muita consciência disso, eu tenho muito orgulho do que, do que eu consegui fazer e da família que eu tenho também. Também, porque eles são tão nobres de alma assim, sabe, de coração, de honestidade. É bonito de ver. Se você conhecer minha mãe, você não acredita, né? Ela é inocente assim, é bonito de ver.

VIVera Iaconelli

E agora tem essa outra passagem, que é uma passagem também que se chama de fim de ciclo, porque essa espécie de arrimo de família, não só financeiro, mas moral, né, que você representa também tem uma hora que você tem que deixar ir, né? Tem que assumir que, bom, agora a vida deles, e você segue a tua vida, mesmo que você continue apoiando financeiramente. Tem algo de poder construir a tua família, né? De ter os seus filhinhos privilegiados por terem papai e mamãe lá, e uma certa ordem, né?

E que talvez traga você também um certo espelhamento de ver, bom, as crianças privilegiadas que têm uma família em ordem e presente, né, com sustento, enfim, elas têm pouca consciência de uma experiência sem privilégio, né? Ela já vem achando que aquilo é direito delas e é normal. E é bom que seja assim, porque é muito duro imaginar que pode existir uma outra experiência tão sofrida, né? Então, o fim desse ciclo também mostra que, bom, você não pode— você até pode, mas talvez não seja bom para você ficar capturada neste seu lugar, né?

Poder seguir é poder dizer: eles também conseguem se virar sozinhos, também são potentes, não são coitadinhos, né?

JJuliette

Claro. E eu já faço isso desde sempre. Quando eu falo, passa essa sensação que eu faço tudo e que eu tô carregando tudo, mas eu faço isso, esse afastamento e essa valorização da autonomia deles, impulsionar e tal. Eu faço isso desde sempre. Quando eu vou para faculdade, eu, é proposital, eu passei no vestibular da minha cidade também e eu escolhi sair de perto deles para ver vê-los sozinhos assim, e isso acontecendo. Hoje também acontece isso, mas hoje eu tô com uma sensação de segurança e de conforto, porque antes eu tinha muito medo de tragédias, de acontecer algo e eu não ser capaz de ajudá-los, principalmente saúde e segurança.

Então hoje eu tenho o privilégio de me afastar e tá tranquila, porque eu sei que eles estão seguros, que eles agora têm acesso à educação, a dignidade mesmo assim. Antes não tinha, então Eu fui fazendo isso de pouquinho em pouquinho. Se você visse a forma que os meus sobrinhos retratam tudo isso que aconteceu, é de se emocionar. Minhas amigas que vão lá falam, Juliette, que coisa linda, eles pequenos. Eu olho, eles valorizam essa dinâmica, eles entendem a dinâmica do quanto foi difícil, que agora eles têm que evoluir.

E não no lugar financeiro, mas no lugar de abrir horizontes, ampliar possibilidades. Insiders, potências mesmo assim. Então assim, eu tô tranquila, eu tô feliz porque tá tudo bem, eles estão, já pode casar, é, já posso casar, já pode casar. Mas é muito legal de ver eles desabrochando e tomando consciência, é quase mágica, sabe, quando eles vêm com a consciência de tudo isso assim. E os meus irmãos também evoluindo no trabalho, de uma oficina, você vê a oficina que o meu irmão tinha, era uma Assim, enfim, tem imagens nas redes sociais.

Hoje em dia ele tira o registro da marca, ele faz parceria com seguros, tudo, ele manda áudios dos clientes satisfeitos, eles fazem cursos, é muito legal.

VIVera Iaconelli

Sim, porque a questão não é eles foram para o trabalho X, é como você pode estar lá de um jeito que você tem orgulho do que você faz, né? Quer dizer, até seu sobrinho que não quis estudar, ele pode ter um trabalho super bacana sem passar pelo estudo, mas Sim, né? Mas com outro lugar, né, social, né, de orgulho, dignidade.

JJuliette

Mas é bonito de ver a dignidade dar um brilho, né?

VIVera Iaconelli

Às vezes ficam—

JJuliette

é muito bonito assim. E aí você pode olhar para outros lugares, porque quando falta o básico você não olha para outros lugares, você tá ali sempre preocupado com básico, com urgente, que foi assim a vida inteira. Agora minha família pode olhar para outros lugares, então eu tô feliz assim.

VIVera Iaconelli

Maravilhoso, maravilhoso, muito, muito lindo te ouvir. Muito, muito obrigada.

JJuliette

Eu que agradeço. Obrigada.

VIVera Iaconelli

E agora eu queria te pedir para você, se você tiver uma pergunta que você gostaria de fazer, porque a gente sempre dá essa virada no microfone no final.

JJuliette

São tantas, né? A gente poderia fazer várias sessões de terapia. Eu sempre, meus assessores profissionais de imprensa falam: Juliette, entrevista não é terapia, para. Mas aqui eu achei que fosse. De todas essas coisas que a gente falou aqui, educação, estrutura, crenças, e com a sua experiência de tudo, né, de vida e intelectual, qual é a maior força, o que mais influencia na dinâmica de uma família saudável, não perfeita, saudável. O que é que tem mais força e impacto?

VIVera Iaconelli

A resposta para essa pergunta esperta da Juliette eu dou no próximo episódio, no bônus Pergunta Vera, que é publicado na quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de análise.

JJuliette

Até lá!

VIVera Iaconelli

Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem e a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.

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