Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

[BÔNUS] Clayton Nascimento pergunta à Vera: você já errou como psicanalista?

09 de julho de 20268min
0:00 / 8:40

No episódio bônus desta semana, Clayton Nascimento pergunta à Vera Iaconelli se ela já errou como psicanalista. Na resposta, Vera revisita um episódio da própria trajetória para refletir sobre preconceitos, amadurecimento e a importância de reconhecer os próprios erros sem perder a capacidade de seguir em frente.

Ouça também a íntegra da conversa entre Clayton e Vera no episódio anterior a este.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
C

Clayton Nascimento

ConvidadoAtor
Assuntos3
  • Equiparação de Misoginia a RacismoExperiências homossexuais e classificação · Letramento sobre a questão LGBTQIA+ · Homofobia internalizada · Dores sociais de pessoas pretas · Racismo estrutural na sociedade
  • Psicanálise e ReconhecimentoReconhecimento de erros · Amadurecimento pessoal e profissional · Autoimagem e sofrimento
  • O Papel do Médico na SociedadeAnalista como sujeito humano no mundo · Estruturas sociais (misógina, racista, etc.) · Letramento contínuo do analista · Racialidade e a escuta psicanalítica
Transcrição13 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
VIVera Iaconelli

Oi, eu sou a Vera Iaconelli e esse é o Pergunta à Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu conversei com o ator Cleiton Nascimento. Se você ainda não ouviu a conversa inteira com ele, te convido a voltar no episódio que saiu na terça pra ouvir. Tá imperdível! Agora vamos às perguntas do Cleiton.

CNClayton Nascimento

Alguma vez na vida você estudando— é inegável o que o país sabe sobre o seu conhecimento, né? Você é uma mulher admirável no nosso país. Alguma vez no caminho você já errou e já se arrependeu? Se sim, como você lidou com isso? Como você se acolheu?

VIVera Iaconelli

Alguma vez eu errei como analista, né?

CNClayton Nascimento

É, ou como gente também.

VIVera Iaconelli

Como gente não preciso nem responder, já tá colocado. Apesar que gente e psicanalista são a mesma pessoa, mas assim, na minha função, ah, eu erro direto, né, Cleiton? A questão é, eu acho que o que a psicanálise me ajudou foi a reconhecer os erros sem sofrer tanto com a minha autoimagem, porque a gente, tudo que arranha a nossa autoimagem, se a gente se fia demais nela, a gente sofre de um jeito insuportável porque acha que vai destruir tudo, não vai ficar nada.

Mas se você não se fia muito, você pode rir de si mesmo, você pode perceber que tem uma persona que é um pouco, não é fiável mesmo, que ela não é, que a gente é mais metamorfose ambulante do que estátua, né? Você consegue fazer com que a ressaca moral do teu erro não te destrua e você até consegue tentar ver o que você faz com isso e melhorar. Então isso ao longo dos anos me ajudou muito. Mas como analista, eu lembro que há uns 20 anos atrás eu atendi um rapaz que começou a ter experiências homossexuais.

Ele tinha uma namorada e começou a ter experiências homossexuais. E eu lembro que eu fiquei muito querendo classificá-lo assim e denunciar para ele mesmo que ele era gay. Eu lembro que foi um erro crasso meu, assim, menos do que eu fiz, mas mais do que eu pensei sobre ele. Menos da minha ação, porque como analista a gente se abstém bastante, até por isso mesmo, né? Mas depois, passados alguns anos, passados mais de 20 anos, eu olho pra trás e penso, nossa, como eu não entendia nada, como não tinha nenhum letramento sobre a questão LGBTQIA+, como eu era homofóbica, né?

Quer dizer, não que eu tenha deixado totalmente de ser, porque a gente tá sempre se revendo, revendo, revendo. Mas é uma coisa que eu sempre lembro, sempre. Não chegou a ser danoso pra ele, mas foi uma ressaca moral para mim, no sentido de eu perceber como a gente pensava diferente a clínica, como a psicanálise também era muito mais preconceituosa. Mas eu olho esse erro como uma parte do meu processo de amadurecimento como pessoa e como analista, que nunca estão separados, né?

Mas eu tô sempre dando de cara. É que às vezes tem alguns erros que quando você olha eles te causam muito sofrimento, né? E tem outros que são mais palatáveis. Eu vou agora com 61, eu penso, bom, eu tô pensando o que que eu posso fazer para frente, porque o problema não é o erro só que você fez para trás, é como você vai repetindo ele, né? A pessoa fala, eu tô casada há 30 anos com um homem que é terrível, tá? Mas você tá 30 anos todo dia, né?

Quer dizer, então você tá repetindo, repetindo, repetindo, né? Então eu vou pensando o que que eu posso, a partir do momento que eu reconheço o erro, depois do chicotinho, também se não tiver um pouco, se não tiver um chicotão, mas um chicotinho, porque também senão a gente vira meio psicopata que acha que nunca tá errado, né? Mas o que que eu posso fazer para sair desse lugar, né? Isso me alivia muito, a sensação de que dá para reparar, dá para se responsabilizar, dá para assumir, dá para bancar.

Porque se a gente se martiriza demais, a gente fica mais preocupado com a gente do que com a vítima do nosso erro, com o resultado. Você fica ali só gozando no lugar de: ah, eu fiz, eu fiz, tá bom, segue, você fez, e agora, né? Não é sobre você, sobre quem você prejudicou, sobre o que você causou, né? Então é isso que eu tenho tentado fazer. Mas errar, com certeza, conte com isso.

CNClayton Nascimento

Uma última, prometo.

VIVera Iaconelli

Promete, mas vai.

CNClayton Nascimento

Assim, ó, eu faço psicanálise há muitos anos, tem muitos amigos que fazem também, eu converso muito sobre psicanálise. E aí uma coisa que eu ouço muito dos meus colegas negros é assim: poxa, sabia que uma vez eu tava na sessão e aí eu falei, sei lá, vou dar um exemplo qualquer, eu entrei numa loja e eu percebi que todo mundo segurou a bolsa. E aí eu falo: ah, tá, sei. Mas quando eu levei pra sessão, a psicanalista disse que isso era paranoia minha, era.

E às vezes eu sinto que dores sociais, talvez de pessoas pretas, não sejam acessadas sem que virem um diagnóstico dentro do consultório. Aí Eu converso comigo mesmo sobre isso há anos, que é: será que o encontro da psicanálise com a sociedade, um alguém, se conecta, o elo dele com o seu psicanalista se conecta também por racialidades?

VIVera Iaconelli

Ó, esse assunto é super interessante. A gente teve um episódio com a Ezequiel Dinha Batista, que é uma psicanalista negra maravilhosa, e ela trouxe bastante essa questão, porque ela sofreu exatamente essa ideia de que então ela era paranoica porque todo mundo tratava ela de um jeito diferente dos demais, né? E sim, o analista ele é um sujeito humano no mundo, dentro de uma sociedade com estrutura misógina, patriarcal, racista, classista, enfim.

Então ele não tá totalmente isento disso, mesmo que ele seja negro, seja mulher, quer dizer, porque justamente a gente absorve essa forma de ver o mundo. Então o que que nos cabe? Nos cabe um permanente letramento. A gente tem que estudar essas questões sociológicas, antropológicas, históricas, para estar atento e tem que se trabalhar em análise. Agora, Por exemplo, se eu for trabalhar, atender uma pessoa alcoolista, eu vou ter que ser alcoólatra para atendê-la?

É, perfeito. Eu vou ter que ser, então só as mulheres podem atender as mulheres e os homens não? O que que tá em jogo aí? Porque nessa diferença pode surgir até uma escuta até mais ingênua, né? Ou não. Então não tem o analista garantidor de que, então, ah, então eu sou um homem negro, vou atender um homem negro, mas isso vai resolver todas as questões desse homem negro? Ou o homem negro nunca vai chegar no consultório? Vai chegar.

O Cleiton vai chegar, né? Não tem o genérico, cada sujeito fez algo. Porque aí entra uma questão: você sabendo que estão oprimidos nós todos por essas lógicas de violência, o que a psicanálise quer saber? Então você tem que mapear bem, saber o que que tá acontecendo no mundo. Não dá para dizer que vivemos uma sociedade de democracia racial, né? Mas sabendo do letramento, eu quero saber o que que você unicamente fez com isso. Então, tá, é verdade, se um homem negro entrar numa loja, quanto mais alto o nível da loja, mais vão correr atrás dele nos corredores.

Isso é um fato. O que que essa pessoa faz? Ela dá a mão para outra e fala: vamos entrar. Ela fala: aqui eu não posso pisar, a USP não é para mim. Ou ele fala: não, você pode sonhar. O que que você faz e por que que você faz? O que que te autorizou E o que que te desautoriza? Então eu quero entender diante de uma coisa que eu não vou dizer que não é sua, assim, que eu não vou dizer que é sua e não é sua, né? Quer dizer, que eu não vou dizer que é, ai não, tá na tua cabeça, porque é real, mas também eu tenho que dizer, bom, o que que é seu nessa cena a partir de como você reage a isso, entendeu?

Então é um jogo muito sutil que é o jogo da psicanálise e que é importante a gente conhecer para formar analistas melhores, formar analistas negros, formar analistas periféricos, eles trazerem pra gente também a experiência deles e a gente crescer como psicanalistas, né?

CNClayton Nascimento

Maravilhosa! A última pergunta: quer ser minha amiga?

VIVera Iaconelli

Ah, eu achei que a gente já teve um date de amigos aqui.

CNClayton Nascimento

Então fechou.

VIVera Iaconelli

Ai, obrigada, Cleiton, foi bárbaro, obrigadíssima.

[BÔNUS] Clayton Nascimento pergunta à Vera: você já errou como psicanalista? | Castnews Index — Castnews Index