Clayton Nascimento nunca sonhou sozinho
O ator Clayton Nascimento cresceu em uma família que lhe ensinou a sonhar sem medo. Filho de um encanador e de uma manicure, encontrou nos pais a coragem para seguir a carreira artística e construir o próprio caminho. Na conversa com Vera Iaconelli, fala sobre sucesso, luto, saúde mental, racismo, paternidade e as heranças que pretende passar adiante.
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- Genealogia e Historia FamiliarCrispim Dias · Maria do Carmo · Valor da educação e afeto · Comida brasileira · Sonhos e conquistas
- Aconselhamento psicológico e lutoPerda dos pais · Pandemia de COVID-19 · Psicanálise e psiquiatria · Ansiedade · Saúde mental em homens negros periféricos
- A Paternidade de São JoséDesejo de ser pai · Criar uma filha mulher preta · Segurança e acolhimento familiar · Educação e oportunidades · Legado dos pais
- Carreira artística de PedroEspetáculo Macacos · Racismo estrutural · Coragem e apoio familiar · Universidade de São Paulo (USP) · Prêmio Shell
Trovão Mídia. Oi, eu sou a Velha Connelly e isso não é uma sessão de Análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Em cada episódio, uma pessoa abre a intimidade para me contar histórias de família. Retratos únicos das próprias origens e tudo o que vem depois. Com essa escuta, a gente chega a aspectos reveladores desse tema que atravessa todos nós e tá longe de caber em modelos. Meu convidado de hoje é o ator Cleiton Nascimento, o filho de Crispim Dias e da Maria do Carmo, irmão da Cíntia e primo do Tuquinha.
Aqui no podcast a gente conversa muito sobre de onde vêm as pessoas, o que elas herdaram, o que rejeitaram, o que carregam sem perceber. O livro Corsária, de Marilene Felinto, me fez pensar muito sobre essas questões, mas de uma forma visceral. Corsária é um romance cheio de personalidade, escrito por uma autora que nunca teve muito interesse em suavizar o que pensa ou o que sente. Daquelas vozes raras que fazem a literatura parecer uma conversa íntima e, ao mesmo tempo, um confronto.
Se você está procurando uma leitura que te tire do automático, eu recomendo muito Corsária. Ele foi publicado pela editora Fósforo. O link para comprar está na descrição deste episódio. E usando o cupom você ganha um desconto especial. Boa leitura! Bem-vindo, Cleiton!
Obrigado, Vera, que prazer ter você aqui. Prazer é todo meu, tô feliz de estar aqui.
Eu também tô muito feliz de estar aqui com essa sua voz inacreditável de locutor. Eu vou começar já com a nossa pergunta. Qual que é a sua referência de família?
Minha referência de família é bastante brasileira, bastante popular. Eu sou filho do Crispim Dias, que é um homem do Piauí, veio para São Paulo na década de 80, naquele levantamento da cidade de São Paulo, shopping se levantando. Então ele veio ser encanador. Minha mãe, Maria do Carmo, uma manicure. Minha mãe também foi cobradora de de ônibus. E eu achava uma aventura ter sido filho de uma mãe que tinha sido cobradora, achava isso divertido.
E eu cresci rodeado de carinho, eu cresci rodeado de pais muito trabalhadores, mas que foram próximos, foram afetivos, foram bondosos. O que não quer dizer que não tenham sido fortes no caráter de educar um alguém, não tem a ver com isso. Que me ensinaram muito o valor da educação, o valor do afeto e o valor da comida brasileira. Brasileira, que a gente sempre comeu bem, sempre comeu muito. Todo final de semana em casa era um evento que minha mãe ia fazer, uma comida muito bacana.
E não à toa, exatamente este ano eu comecei a pensar sobre começar a me preparar para ser pai. Eu tive pais excelentes e eu sinto que eu posso passar isso para frente.
Me conta como é que é se orgulhar desses pais. Numa sociedade na qual a questão da pobreza, né, tá sempre marcada. Orgulhada Mãe, eu achei uma fofura absoluta, né? Essa mãe que é cobradora de ônibus, né? Me conta, como é que você— porque além de te tratarem desse jeito, que você tem cara de criança bem cuidada, você tem esse brilho que os meninos muitas vezes têm quando são muito queridos, né? Digo os meninos porque as meninas logo descobrem que isso não funciona fora de casa, mas os meninos têm, né?
Você tem esse brilho assim. Como é que eles viviam essa experiência? Periférica, ou enfim, né?
Viviam com muita organicidade. Meu pai veio do sertão, então quando a gente chega, quando eles chegam, a gente, eu já tava ali nele, em São Paulo, e eles se levantam no Jabaquara, tudo é uma vitória, tudo é, tudo é, tudo gera conquista, tudo era valor de conquista. A gente conseguia a nossa casinha na Charles Darwin 19, lá na periferia do Jabaquara, na Divinéia, Zona Sul de São Paulo, São Paulo. Depois a minha mãe conseguir ser manicure no salão de cabeleireiro em Moema, a gente ficou muito feliz por isso.
Porque eles me ensinavam que o que a gente alcança é um valor de vitória, é bom que nos aconteceu porque já conseguimos dar um passo para frente.
Tudo era conquista, absolutamente tudo.
Nem tanto que meu pai— eu lembro uma vez que aos 9 anos meu pai tava andando com a gente na Marginal voltando da casa de algum parente e ele viu a porta da USP aberta e a gente tinha um golzinho branco. Aí ele falou: eu entrar na USP. Hoje é domingo, o público pode entrar, a universidade é pública. E eu apenas ouvi, eu tinha 9 anos, algo do tipo. Aí ele foi comigo na avenida principal da USP ali, que tem um grande, uma grande escultura ali no final, ao lado da, da, da FEA, se eu não me engano, na reta final ali.
E aí eu vi aquela escultura, coisa, eu nem entendi onde eu tava, mas eu vi aquela escultura e eu falei, que coisa linda, que lugar bonito, eu gostaria dessa escultura. E aí meu pai, ele me disse assim, Você pode ver essa escultura sempre. Aqui é uma universidade pública. Isso aqui te pertence, se você quiser. Então eu cresci sabendo que se a gente sonhasse, se dedicasse e tivesse um foco, as coisas seriam possíveis. Eu, filho do pedreiro, filho da manicure, da cobradora de ônibus, me tornaria aluno da Universidade de São Paulo 20 anos depois. Então eles me ensinaram muito o valor da conquista.
Pais que não se identificaram com um certo lugar de subalternidade, liberdade, né, que podiam sonhar. Isso é um diferencial gigantesco, né, de poder sonhar, se achar no direito, né. Porque a gente tem falado da questão da ultrapassagem, como às vezes para uma geração é difícil ultrapassar a outra por culpa, por vergonha. Mas se aquilo tá colocado na geração anterior como um valor, como uma permissão e como um desejo, né, te catapulta, né.
É, e eu acredito que a materialização disso na minha vida é quando eu monto o espetáculo Macacos. Hoje em dia, esse faz 10 anos que ele existe, que eu sentei lá no Crusp e escrevi as primeiras palavrinhas. Aí vira cena curta. Depois, na pandemia, eu percebo que eu me igualo aos grandes grupos da cidade, que ninguém tava ganhando edital, ninguém tava em cartaz. Eu falei, agora é a hora de escrever essa peça, de eu interpretar. E eu fiz esse monólogo.
Agora eu olho para trás e eu penso assim, se você me falasse, Cleiton, por que que você não senta e escreve um monólogo falando sobre a estruturação do xingamento macaco na sociedade e investigando a história do Brasil? Hoje, aos 37 anos, eu te diria, Vera, você me desculpa, eu não vou fazer isso. Porque é uma pesquisa extensa, são assuntos espinhosos. O Brasil já passou por muitas marcas ao longo desses últimos anos. Eu não vou embarcar nisso.
Aí eu olho pra trás e falo, por que você embarcou? Porque eu tive coragem. Porque eu fui... Me colocaram adubo. Porque me deram as mãos. Quando um jovem diz em casa, eu quero ser artista. Um dos primeiros momentos da família é dizer, não. Busca outra coisa. Será que vai dar certo? Será que não vai ser tão difícil pra você? Meus pais sempre foram o oposto. Vai, seja o melhor artista que você puder ser, seja competente, seja sério.
O que você escolher fazer, você vai ter que fazer bem, meu filho, minha mãe dizia. E assim, 20 anos depois, entro na USP e logo dou origem a um trabalho que materializa o trabalho dos meus pais e muda a minha vida no caráter econômico. Acho importante falar isso como artista preto. No caráter econômico, no caráter afetivo, no caráter dos sonhos. Eu posso sonhar, que eu tenho livros que eu queria muito ter, eu tô podendo ter esse livro, isso me dá uma alegria.
E eu acredito que isso é coragem, meu coração se sente forte. E eu acho que é porque eu tive pais que acolheram as minhas fragilidades, aos meus sonhos e as minhas potencialidades, sabe?
Estão vivos seus pais?
Se foram.
Eles se foram.
Meu pai se foi em 2012, no primeiro ano que eu entrei na USP. E eu acredito que existe uma grande conversa com os cosmos e com o tempo, né? Que meu pai sempre dizia, não, eu tentei muito, Eu não vou passar na USP, porque eu venho de escola pública. Então você vê umas perguntas ali do vestibular, você fala: eu não sei do que ele tá falando, eu não sei que assunto é esse. Eu fui atrás pra poder descobrir que assuntos eram aqueles.
Então isso me fez tentar 6, 7 vestibulares. Entrei. No ano que eu entrei, festa na família, nosso filho conquistou a USP, meu Deus, meu Deus, vamos chamar todos os tios, vamos fazer um churrasco, vou fazer uma comidona. Minha mãe, né, maravilhosa. Eu entrei, eu entreguei a passagem da Universidade de São Paulo pro meu pai, Meu pai faleceu pouquíssimos meses depois. Existem combinados, existem combinados com o tempo que eu não os domino.
E minha mãezinha se foi no ano 1 da pandemia. Jovens, jovens. Misteriosamente, os dois faleceram com 64 anos, o mesmo número, jovens. E imagina só, uma pandemia, você não consegue enterrar a sua mãe, que é alguém tão importante para você, é tudo muito dolorido. Então acredito que ali eu fiz Uma travessia muito forte do menino amado, do menino cuidado, para aquele que precisaria se tornar o homem e entender a sua caminhada na vida.
Não à toa, é no ano seguinte da pandemia que Macacos estreia. Então... Ah, são crescimentos, a gente se forma, né. As coisas são tristes, mas também nem tudo é dor. Dá pra ver beleza no nosso crescimento, na nossa formação.
Mas você faz uma associação bonita, né. O Freud vai escrever O Interpretação dos Sonhos, que é a obra-prima dele, né. Trazendo o luto do pai. E ele vai dizer na introdução que a perda de um pai é um dos maiores marcos na vida de um homem, né? Mas não precisa ser um marco, obviamente não deveria ser um marco que te enterra junto, ao contrário, né? Seria algo que poderia fazer, o que que você faz com isso? E você vai contando dois lutos importantes, mas nos quais você já tá tão fornido, tão cheio dessa comida dessa mãe toda, que você tem como sair andando, né? Fazer alguma coisa linda com essa dor. Que lindo isso!
É que são as ferramentas também, né? Eu comecei a fazer teatro desde os 8 anos e eu notava que tinha uma mulher que entrava e saía sempre da sala e nunca falava nada. E aí eu comecei a crescer, criança, comecei a perguntar quem era aquela mulher, porque eu tinha 8, 9, 10, 11, 12, aquela mulher tava ali, eu não sei se eu podia falar com ela, ela entrava e saía. Anos mais tarde eu descobri que ela era Odete e que o papel dela era ser a psicóloga.
Daquelas turmas que estavam se formando enquanto criança. E então ela ia realmente observar. E aí eu começo a perceber o valor da observação. Que curioso, aquilo é profissão? Ela entra, observa e vai embora? E aí eu começo a perguntar como é que funciona essa profissão. Psicologia é o primeiro curso que eu presto. Fui aprovado. Não me sentia muito bem naquela universidade, naquele ano. Entendi que eu realmente deveria escolher as artes.
E aí, mais pra frente, ficando adolescente, fazendo teatro, eu falei, eu queria ter acesso ao conhecimento dela. O que que eu faço? Aí diziam, ué, faça psicanálise, é importante pra um ator, pra um alguém. E eu não era economicamente munido pra eu poder ir atrás de psicanalistas. Então eu descubro programas de psicanálise que são de graça, ou que é do posto, ou que eu consigo porque eu era um jovem estudante, algo do tipo. E começo a fazer psicanálise aos 16.
Eu tô com 37. Então existe uma certa caminhada que eu fico muito feliz de te ouvir, que percebe a ferramenta pra eu sair andando. Porque esse é o trabalho, né? A gente E amadurecendo e aprendendo com o que a vida nos traz.
Como é que é a sua relação com a sua irmã, Cíntia? E você fez questão de falar do Tuquinha.
É... Eu e a minha irmã, Cíntia, a gente sempre foi muito próximos na infância.
De idade, como é que é?
Eu tenho 37, ela tem 40. É perto. A gente sempre se identificou muito. História natural de família, às vezes tem os atritos no meio do caminho e a gente se separa. Quando eu me coloco como ator, eu sou um ator. Logo a gente perde os pais, gera-se uma grande preocupação na minha irmã, como aí esse irmão ator, meu Deus, para onde vamos? Logo minha irmã vira mãe, e aí eu me torno tio, e a gente já foi mais próximo, a gente já foi mais próximo.
Eu acho importante também trazer isso, que tá tudo bem, é o caráter familiar, já tem vez que a gente tá mais pertinho, tem vez que a gente tá mais longe. Nesse momento a gente tá um Mas longe, mas sempre com valor e com amor enorme, com desejo de que a vida sempre dê certo e que a gente continue caminhando, né? Quando Macacos estreia, eu precisei durante um tempo poder mostrar pra família que valia a pena ser ator no Brasil. E aí Macacos estreia, começa aquele burburinho, uma peça, uma peça, e vai vir a matéria de jornal.
E aí Macacos consegue um feito lindíssimo na justiça brasileira, que é a reabertura de um caso. E aí, minha família começa a perceber: Calma, é o nosso sobrinho que tá fazendo essa peça. É o nosso primo, é o nosso irmão, é o nosso... E aí, a família começa a assistir em peso ao espetáculo. E isso me acolhe tanto o espírito e o coração que eu senti que eu fiz a volta daquele menino que começou a fazer teatro aos 8 anos, que tava entregando pra sociedade e pra minha família um material de qualidade de pesquisa.
E é quando o Tuquinha, meu primo, volta perto de mim. O Tuquinha, ele tem uns 5 anos a mais, é meu primo da, da, da, da, da, da CUPC, Avenida CUPC, Diadema. Primão da rua, primão do skate, primão dos caras. E ele parecia um pouco distante de mim pelo eu dele, eu pelo meu eu, tá tudo certo. E agora que eu tô mais velho, Tuquinha vai ao teatro, a gente se aproxima mais. Passei o Natal com ele, foi uma delícia. Eu vejo como, na verdade, mais próximo a gente tá, que a gente começa a conversar muito assunto de saúde mental para famílias pretas periféricas não é um assunto muito trazido.
E muitas vezes na periferia tem aquele pensamento do: ah, terapia? Não, eu não sou louco. Já parte daí, então já parte de uma barreira. E eu e o Tuquinha, a gente foi atrás sem saber desse conhecimento, dessa ferramenta pra gente. E quando ele falou pra mim, eu falei pra ele, eu disse: caramba, Que importante a gente se ter agora aqui nessa vida adulta, homens feitos, para a gente falar sobre nossa saúde de homens negros periféricos.
Então hoje eu faço questão de falar do Tukinha, ele é um signo muito importante para mim de família, de afeto e de amor.
E de homens falarem, né? Homens falarem sobre coisas íntimas, pessoais, que são, isso é o maior tabu hoje. Os homens não fazem, as mulheres falam, os homens não falam. Você consegue falar das tuas coisas?
Eu acho que é por isso que eu Eu tô com o Tuquinha tão presente em mim. Ele é um homem hétero, casado, tá se organizando pra ser pai. E ele não tem pudor de ser um homem doce. Ele não tem pudor de ser um homem educado. Ele não tem o pudor de falar sobre as fraquezas dele. A gente acabou de sair do espetáculo Macacos, esse último final de semana. Eu convidei ele pra jantar. Ele e a companheira, Luana, a gente foi. Assim que a gente entrou no lugar...
E eu me identifico com ele. Ele falou, tá muito cheio, primo. Eu acho que vai começar a me— eu já entendi tudo. Ele tava começando a sentir internamente mal de estar num lugar fechado, muito cheio. E eu às vezes eu sinto essa sensação também, só que ali eu me peguei mais fortinho. Então eu dei na mão, dei a mão pro meu primo, e ele é mais velho do que eu, e falei, vamos lá, vamos jantar, Tuca, isso vai ser gostoso, vai ser legal.
E foi incrível. Eu acho que isso me aproxima dele, uma vez que eu sou o primão artista.
Qual o problema do lugar tá cheio? Não entendi.
É, às vezes lugar Eu achei, a mim, vou falar de mim, eu não sei muito bem sobre o que tu quer sentir. Lugar muito cheio, às vezes fechado, eu tenho uma vontade de sair um pouco dali, de encontrar um lugar aberto, de respirar, de sentir o vento.
Mas o que que é? Lugar cheio de gente branca? Não, não, porque assim, os dois têm a mesma coisa assim de pessoal, é uma coisa íntima e pessoal. Ah, tá bom, entendi.
Não, mas olha que legal, agora você me trouxe uma coisa pra pensar, porque de fato eram dois homens negros, né?
É porque me ocorreu isso assim. Eu fiquei, essa intimidade podia ser uma coisa absolutamente particular entre vocês, nenhum dos dois gosta de muita muvuca, tem gente que ama, né, o Paulo Garchei e eu vou, mas vocês se olharam e eu fiquei já pensando que talvez tivesse alguma questão de...
Maravilhoso, porque de fato a gente tava num restaurantão, eu e o Tuquinha ali, então de repente possa ter sido, mas em relação a mim, porque eu sou muito baixinho, então lugares cheios eu já logo quero ir embora, porque não consigo. Não, fui eu que racializei.
Desviei o assunto, mas é porque eu fiquei pensando, puxa, quando você alcança certos lugares, né, a depender do gênero, da raça, você pode entrar aqui, pode entrar ali ou não. E você é uma pessoa que justamente, né, conta essa história de filho de cobradora com encanador e estando num lugar de destaque, né, em qualquer cidade do Brasil, né.
É, isso acontece e é muito curioso porque quando a gente fez a primeira turnê internacional de Macacos, eu procurei artistas negros que tivessem viajado o Brasil e o mundo com seu monólogo para eles me aconselharem. Eu nunca tinha saído do Brasil e eu falo inglês, espanhol pelos cursos do bairro. Meu pai sempre falou, meu filho, você vai estudar, porque o conhecimento não importa de qual gaveta ele saia, você vai ter, vai obtê-lo.
E aí eu fui atrás dos cursos que davam. Quando eu vou para turnê internacional, começa a procurar artistas para falar como foi a sua turnê. E para minha grande surpresa, eu não encontrei nenhum mais velho que a mim, negro, que tivesse vivido uma turnê mundial com o seu monólogo. Eu não encontrei esse artista. Então... E eu fui atrás de nomes que eu confio muito. Antônio Pitanga, Zezé Motta, Zezé Barbosa. Eles me contaram histórias maravilhosas deles.
Quando eles viajaram com o Hair, na estreia dos anos 70. Neuza Borges. Quando o Antônio Pitanga gravou na Bahia, jovenzinho, me levou pra conhecer os cenários. Eles me formaram. Só que tinha uma coisa que eu não consegui obter informação, que era a minha saída do Brasil, o idioma, a política mundial. E a minha obra, Macacos, eu sem camisa, bermudinha, pés descalços, contando situações do meu povo. E isso me leva a um enorme estado de tensão, de tensão emocional, de tensão artística.
Imagina só, eu fiz Rússia, eu fiz Estados Unidos, eu fiz Holanda, a gente tá negociando Singapura, dali a pouco a gente fez Chile, México. São sociedades diferentes, com questões diferentes, das quais Eu me coloquei o desafio de aproximar sempre a peça daquele público e do idioma deles. Então eu saía da Rússia tendo feito intercâmbio imenso de russo, duas semanas à frente tava nos Estados Unidos gastando meu inglês e mudando parte da peça.
Dali a um mês eu já tava no México refazendo a dramaturgia da peça, porque agora teria espanhol. Aquilo me levou a uma exaustão no final do ano, uma enorme exaustão, a ponto de eu precisar parar e pensar por que que eu tava me colocando a um trabalho tão árduo. E Macacos é uma peça física, tão árduo a ponto da minha psique, do meu corpo fundir. E é aí a hora que eu encontro a psiquiatria, eu encontro a psicanálise, já fazia, né?
Mas aí eu dou um caminho, dou um rumo para aquela demanda daquele momento. E neste hoje, neste agora, eu sou um homem super cuidadoso com a minha saúde mental. Mental, super cuidadoso. Se a gente não conseguir realizar algo, tudo bem, a gente não vai se levar até o limite. Dessa vez a gente não conseguiu. Se alguma coisa que eu esperava muito não tenha dado certo, o mundo não acabou, você continua viva e jovem, vamos para frente. Um grande abraço, a sertralina.
Mas eu acho que tem uma coisa, não só os homens não se tratam, como eles também não diagnosticam, não identificam, não reconhecem, né? A gente tem, por exemplo, um acontecimento muito curioso. A gente fala as depressões dos homens que se tornam pais. A gente vai entrar nesse assunto do pai daqui a pouco. As mulheres deprimem quando têm seus filhos, muito frequentemente acontece, mas os homens também. Só que a depressão da mulher é assim, ela fica chorosa dentro de casa, não quer ver ninguém, pode ter ideação suicida, enfim.
O homem, ele começa a beber, arranja uma amante, larga a mulher, bate o carro. Então assim, a incapacidade de entrar em contato com o sofrimento e nomear esse sofrimento, procurar ajuda, é gigantesca, né? Ele sai fazendo, fazendo, fazendo até queimar.
Você sabe que eu descobri na psiquiatria que é comum pessoas que tenham sido de origem pobre e que trabalha, e a partir de si mesmo, os self-made, né, vão se levantando socialmente. A minha psiquiatra falou que essas pessoas têm um perfil de começarem a adoecer de tanto trabalhar, porque não inconscientemente estão falando que se recusam voltar para aquele lugar que já conhece. E aí quando ela me diz isso, eu preciso começar a me mapear, porque eu tô falando sobre— minha peça fala justamente sobre isso, a importância de uma vida negra viva.
E aí agora eu tenho que encontrar então vírgula e saudável. E a partir disso ela me ajuda a encontrar traços que já me diziam que de repente talvez eu não estivesse bem. Então eu me dei conta de que eu tava aeroporto de dormitório há pelo menos um ano e meio. Então havia um ninho do qual eu merecia estar e era do meu direito, que eu já não frequentava mais. Isso afeta a gente. Uma outra coisa também que eu me dei conta conversando com ela era— eu lembro até hoje, tenho falado muito sobre esse dia.
Uma vez na Rússia, Macacos estrear. A Rússia foi o país que mais comprou Macacos e a gente foi quando a Rússia estava em guerra, que ela continua. Então o clima muito estranho, uma sociedade não entendendo quem eu era, que obra era aquela, por que eu fui parar ali. E a meia hora da peça, uma produtora que já não trabalho mais com se aproximou de mim e disse assim: as legendas estão trocadas, as legendas, a gente tá com as legendas do México, a gente não tem as russas.
Aquilo me deu uma altíssima carga de tensão que eu comecei a suar muito. E eu falava: calma, mas eu não consigo me resolver no russo, e o que que eu posso fazer? E aí eu começo a me deitar, eu deito no chão, olho para cima, começa a respirar muito, a respirar profundamente, eu começo a suar bastante pensando numa possibilidade, mas pensa muita coisa, plateia já tá ali, eu tô ouvindo barulho de pessoas, o teatro já tá fechando a cortina, eu preciso sair para coxia, mas eu tô estreando na Rússia, eu tô muito longe de cá.
Que que eu me dei conta um tempão depois? Que eu tava tendo uma crise de ansiedade.
Sim, sim, todos os sintomas.
E eu não sabia mapear isso. Então quando eu consegui mapear, dar nome e saber entender os sintomas e como evitar os sintomas, olha, Vera, eu alcancei um estado de saúde profundo.
Que não foi a primeira vez que tenha sido um marco?
Não, para mim a situação do meia hora antes da cena na Rússia foi um marco para mim.
Você conseguiu se apresentar depois?
Consegui me apresentar depois.
Sobrou adrenalina?
Você gostou? Quando você conhecer a peça Macacos, Vera, você vai ver que adrenalina vai pular da cadeira.
Sobrou, porque tem uma descarga de adrenalina absurda, né? Nossa, numa situação de estresse desse, né, de uma crise de ansiedade dessa.
E aí eu começo a ter suporte mesmo, acompanhamento, para eu descobrir como ser mais saudável. Porque veja, de repente eu tava no Crusp, de repente eu escrevi uma coisa, de repente estreou, de repente fui indicado a um Prêmio Shell, de repente eu ganho o Prêmio Shell, me torno o ator brasileiro mais jovem a ter esse prêmio nas mãos, que é super respeitoso. Dali a pouco uma novela, e dali a pouco o mundo. E no meio disso eu perdi os pais.
É um um tsunami de emoção que acontece, que às vezes talvez eu não sabia se eu tinha psique trabalhada para tudo isso. E quando eu identifico, o que eu tenho que fazer é ir atrás dessas ferramentas.
Então, mas o sintoma ele tá aí para isso mesmo, né? Para ele falar: pera, calma, vamos, isso aqui não tá dando certo deste jeito. E você traz um tema muito importante, que essa pessoa que se fez sempre correndo de algo, né? Que é tentar fazer como seus pais, né? Saíram do Piauí e venceram e venceram e vamos seguindo. Mas não consegue em algum momento parar para usufruir, né? Porque tem que estar sempre oprimido pela lógica do risco, do risco, do risco.
Quando é que você pode começar a trabalhar simplesmente porque, bom, você tem que manter tua vida, porque você, e não porque você tem que correr de um risco, de uma miséria, de um, né? São lógicas muito próprias de uma certa população, que é a maior parte da população brasileira, simplesmente a maior parte da população brasileira.
Mas você sabe, Vera, que eu tô sentindo, eu sei sentir e sei falar sobre isso há pelo menos anos, 3 meses, é muito novo para mim. É 10 anos depois de peça, eu consegui entender isso agora. Eu ainda agradeço porque eu tô tendo a chance de acessar esse conteúdo. É como a gente dizia, quantos homens vão viver uma vida cheio de sintomas sem conseguir mapear?
Mas vai até o final, vai até o final da vida, 70, 80 anos. Se você não tem nada aí que o tempo dá, é uma coisa que você tem que conquistar, né? Uma coisa que você parou e falou, não, eu vou olhar para isso porque eu quero Ter uma vida, porque tem essas marcas, né, da infância. Os pais trabalham demais, mas no fim de semana tem que poder usufruir, né, viver. Não é uma— tem vida junto com o trabalho, né? Não é só trabalhar, né? Então acho que tem um jogo aí de marcas de estar no mundo vivendo, né?
Não só o que a gente vive, uma lógica absurda de o cara que diz que trabalha 70 horas semanais. Não, amigo, isso não existe. Isso é delírio meritocrático neoliberal, né? Não tem nada a ver, a gente tem que ter uma vida, não?
Isso. E eu tenho pensado muito assim nessas duas últimas semanas, eu realmente tô pensando em ser pai, eu tô com 37.
Então vamos lá, você falou da sua referência de família, tem essa irmã mais velha, né, que de repente dá uma de irmã quando sua mãe morre, né. Tem esses pais que deixam marcas fundantes impressionantes, né, que fazem você ser uma pessoa que brilha. Eu acho que os pais são capazes de passar isso para frente. Você tem esse primo que você resgata com a tua arte também, interessante pensar como tua arte, o que que ela produziu nessa família, né? O efeito disso. Bom, essa é a tua referência de família.
É.
E aí, o que que você pensa hoje para você, para frente, como referência de família?
Eu penso que algumas coisinhas eu quero seguir. Eu quero muito me casar com alguém, encontrar um ótimo parceiro. Na verdade, eu tenho um ótimo parceiro.
Você conseguiu ter um parceiro nessa rotina? Então, beijos da Rosélia.
A gente pode conversar. Aliás, um enorme fã seu. Quando eu falei pro Maicon Isidoro, meu amorzão, que eu estaria aqui, ele não acreditou, ele te ama!
Ele consegue acompanhar você como? Me conta isso.
Então, a gente inventou uma metodologia pra ele conseguir. Porque o primeiro ano de turnê foi uma loucura, Vera. Ao invés de eu pegar aquele ano e ficar na Europa, eu inventei de ir pra Rússia de 10 a 12 e voltar pro Brasil 13 a 15. 16 a 17, Itália. Volta pro Brasil 18, 19. 2021, Espanha. Por que que eu não fiquei?
Você já sabe por quê?
Agora ainda não sei. Você sabe por quê?
Mas às vezes a gente precisa dessa referência, né, de ir e voltar.
Enfim, olha que interessante. Peguei, peguei, peguei. E a gente começou a inventar uma metodologia para isso. Logo depois eu vou fazer novela, isso me tira totalmente de São Paulo, preciso ficar um ano pelo menos no Rio. Então eu começo a organizar as passagens família, Ou seja, pra onde eu viajar, eu tenho uma passagem família. Se você der essa passagem pro talento, eu transfiro a minha pra família. Então eu chego, eu tenho que trabalhar.
Logo depois, minha família chega junto. Por exemplo, esse ano a gente vai embarcar numa nova turnê internacional. Estamos entendendo que não é mais hora de ficar indo e vindo. Vamos, e vamos ficar lá de 3 a 5 a 6 meses, cumprindo agenda europeia. Todos os festivais que me querem, eu transfiro todas pro meu amor. Porque aí ele vai lá se encontrar comigo naquele país. São estratégias. E imagine só, o cara que saiu lá do CRUSP para de repente viajar o mundo, você me pergunta: você tem estratégia?
Absolutamente nenhuma. Eu apenas entrava no avião, dormia e ia. Mas agora a vida me pede uma estratégia. Eu tô no momento muito de querer fazer família. Virou o ano e eu tô com isso no meu coração assim. Eu tenho 37, até os 40 eu quero ter a minha Laquanda.
O que virou o ano? O que você acha que deu essa... Já vinha e você parou pra poder pensar?
Já vinha, mas aconteceu alguma coisa na virada do ano que eu me sinto um homem mais velho. Eu não sei explicar, eu me sinto. Eu sinto que eu preciso fazer novas escolhas. Que o menino de 10 anos que tinha muitos sonhos e realizou muitos deles, agora quando sonha, vá logo fazer. Eu não tenho mais 10 anos de pesquisa e deixar um projeto se realizar. Tô começando a pensar, peraí, eu tô com... Esse ano eu faço 38, eu bato 40. Num piscar, eu já vou estar com 50. Se eu tiver uma filha agora, com 50 eu vou ter 12. calma.
Filha, filha, filha.
É filha. Eu quero ter muitos filhos, mas eu quero muito ser pai de uma garota. Pra poder amá-la muito e contar que a sociedade é dura, porém há sempre de ter amor e mãos abertas, entregues dentro de casa. No caráter de acolhimento e de carinho. Quero poder transmitir segurança pra uma mulher no mundo. E se der tudo certo, eu quero trabalhar muito para minha filha ser uma mulher preta e ter a chance de só estudar. Eu quero que a minha filha só estude.
Eu quero que ela se preocupe sim de: ah, esqueci de comprar uma camiseta na loja, amanhã eu preciso ir lá. Isso, minha filha se preocupa com isso, porque os nossos anos, muitos ancestrais da família, era a gente correndo para conseguir ter o básico.
Você teve isso?
Você teve uma infância preocupada Eu tive uma infância que não foi com nada sobrando, porém evidentemente nada faltando. Então tudo que a gente quisesse de repente ter seria possível, mas pra isso a gente precisaria caminhar, se mexer.
Mas você conseguia se preocupar só com os estudos ou você ficava dividido?
Ah não, eu ficava dividido. Eu passei muitos, muitos anos da vida como uma criança sozinho em casa pela necessidade do trabalho, pelo turno de estudo da minha irmã. De repente ela pegava de manhã e eu à tarde, sei lá. Então eu fiquei muito tempo sozinho em casa. E na infância, meu pai teve uma doença nos rins. E isso o levou internado dos meus 0 aos 5 anos. E nesse meio tempo, minha mãe trabalhava como manicure. E não tinha muito com quem deixar a criança.
Então a vizinha meio que cuidava, eu ficava na casa dos vizinhos. Quando eu já fiquei mais molecote, minha mãe já me deixava, encarava me deixar um turno sozinho em casa. Molecote, tô dizendo 8, 9 anos, muito molecão. Então eu acho que meu modus operandi já era assim: vamos se mexendo para conseguir se estabelecer, ficar em pé competentemente. Eu nunca consegui só desfrutar. Quando eu fiz 16 anos, começou o ensino médio, e eu falei para o meu pai: pai, eu tô na escola pública, foi a vida inteira de escola pública, mas eu sonho com a universidade pública.
Me leva para uma escola particular, eu tento bolsa. Vamos. Meu pai me levou, tentei bolsa, conseguimos 80%, fui a minha aula. Aí quando eu cheguei nessa escola, eu percebi que era um ensino bom e que meu pai tava pagando por essa escola. Então devia fazer alguma coisa. Então o que que eu fazia? Eu tinha aula de inglês, aprendia bem, e depois vendia essa aula que eu tinha aprendido. E assim eu fui fazendo. Então já comecei a trabalhar desde os 14 anos.
Eu não tive muito a chance de só desfrutar e estudar não. Mas nada disso que eu tô te dizendo quer dizer que eu ser feliz. Nada disso quer dizer.
Sim, mas isso moldou uma certa preocupação, uma certa prontidão, uma certa competência, moldou um jeito de ser, né? A gente não tem como escapar de um certo jeito de ser. E você tá dizendo que você gostaria de oferecer sua filha algo mais, a ela algo mais, né? Que é uma infância despreocupada.
Isso, ela poder brincar, ela poder desfrutar. Algumas pessoas negras demoram muitos anos para se descobrir de repente bonita, de repente interessante, de repente inteligente, de repente agradável, sei lá. Então se eu puder deixar minha filha saber desde os 2, 3 anos que ela é linda, maravilhosa, que a roupa de chita que os pretos usam fica muito bonito na nossa pele, que ela de amarelo vai ser maravilhosa e o que ela pensa sobre as coisas não é menos inteligente.
Eu, eu tenho isso no meu coração assim, eu tenho esse desejo de ser pai. Eu vi meu pai ser muito amoroso, especialmente com a minha irmã. Então é muito modelo de homem, de pai.
Fala então, fala desse homem, desse homem pai, porque a gente tá numa carência gigantesca de homens pais dignos do papel. É impressionante a quantidade de pessoas que vem aqui contar que não tiveram pai, ou que o cara foi embora, ou que ele tava lá tipo um móvel da sala que não fazia a menor diferença, ou que ele estava em casa sendo violento, né? E o que aparece são as mães gigantescas o tempo todo, muitas mães, né? Então Então, mesmo que seja um homem mais às antigas, rústico, simples, eu tô falando de dignidade, né? Tô falando de ética, tô falando— fala desse pai.
Olha, eu vou te falar uma coisa, eu tive muita sorte, eu tenho sorte de ter sido filho do meu pai. No enterro dele, eu achei a coisa mais bonita do mundo, apareciam tias minhas do sertão com aqueles lenços pretos, com chapéu, né? Vindo com chapéu e aqueles lenços de luto, que é como elas vivem o luto lá no sertão, todas unidas vindo até São Paulo lá do sertão do Piauí para enterrar Crispim. É o nosso irmão do amor. E aí eu comecei a descobrir quão amado ele era.
Muitos— meu pai tinha um comerciozinho na reta final da vida de materiais para construção na M. Boimirim, Zona Sul de São Paulo extrema, é uma região um pouco mais carente, sobre as violências urbanas, a educação. Meu pai escolheu ali Foi ele que deu, na verdade, né? E eu comecei a ver muitos meninos com a minha idade chegando para enterrar meu pai. Aqui, claro que aquilo me deu uma pergunta: quem são eles? E eram muitos meninos naquele ano da minha idade chorando, dizendo: é o Seu Zé.
Apelido dele é Seu Zé, nome dele era Crispim. Seu Zé, o Seu Zé faleceu! Meu Deus do céu, não acredito! Quem são vocês? Pô, eu era um moleque lá da quebrada, Eu tava no tráfico, eu não tinha trabalho, eu só enchi o saco da minha mãe. E seu pai me deu os meus primeiros empregos. E aí eu consegui fazer família. E aí agora eu sou pai, eu preciso vir aqui agradecer o seu Zé. Eu vi quantos jovens meu pai ajudou e como ele foi amado.
Meu pai foi maravilhoso. Só que é isso, eu tenho pra mim a sensação de que a gente conhece os nossos pais na versão mais cansadinha, bichinhos. É verdade. Trabalham muito. E aí você conhece ele só de sábado e domingo, você pega o resto da energia dele naquela janta. Que material, gente, imagina trabalhando na obra, sendo manicure, o corpinho tava cansado, bichinhos, ou a vista cansada ali da obra, do provedor, né? O que sobra.
Então, infelizmente, eu tenho para mim, e essa é uma experiência só minha, infelizmente eu tenho para mim, ou felizmente, não sei, Que existe uma frutiferação... Nossa, que estranho. Eu não sei por que eu tô pensando isso, mas tô pensando. Existe uma frutiferação na morte. A pessoa parte, mas ela deixa fruto, sim. Eu descobri que meu pai é maravilhoso. Eu descobri que meu pai ajudou muito moleque, gente. Isso tem muito a ver com a minha conexão de artista, de educador.
Eu descobri que meu pai era um contador de história de mão cheia. Já sabia, eu era filho dele. Mas eu não sabia que a família inteira sabia disso. Eu descobri que meu pai cantou a infância inteira. Ele nunca saiu dessa frase. Meu pai era essa frase: o ouro afunda no mar, no mar. Pronto, ele só falava isso. Eu cresci ouvindo que o ouro afundava no mar. E quando ele se foi, eu pensei: que ouro era aquele que meu pai cantou durante 17, 18, 19 anos da minha vida?
Vou pesquisar que ouro é esse que afunda no mar. Demônios da Garoa. Meu pai tava me cantando isso desde a molecada. Então eu descobri o quê? Que meu pai era profundamente popular, tinha estudado até a 4ª série. Mas que isso não se conecta com o fato dele não ter cultura. Era culto, era demais! Ele que me falou sobre Mazzaroppi. Meu pai que me falou sobre Gonzagão. Meu pai que me falou sobre Cordel. Meu pai que me falava, filho, pra contar uma boa história, fica em pé, hein. Fica em pé e se mexe. Vai que dá bom.
Ele falava isso.
Então... Meu pai me ensinou sobre o amor, sobre a possibilidade de homens chorarem e estar tudo bem. Eu não tenho vergonha alguma de chorar. Eu sou, na verdade, sou um grande chorão. Eu sou um chorão, só faço marra aqui. E eu acho que ter amor de pai— eu lembro que quando eu fui pro exército, eu me preocupei muito, eu não queria passar. Eu tava realmente descobrindo muito a arte dramática. E aí que eu tava com vergonha, eu mesmo com autovergonha, de dizer para o meu pai que eu não queria passar para o exército, que eu queria conseguir ser ator.
E quando eu falei isso para ele, ele disse, meu filho, eu também te prefiro no teatro do que no exército. Eu morro de orgulho de você ter a coragem de subir na arca com seus amigos e contar histórias. Isso me dá uma força profunda. Felizmente eu tive uma presença masculina forte dentro de casa.
E eu acho tão importante quando a gente resgata homens que não são homens letrados e, né, e com aquela cultura formal, com aquela cultura assim, mas não com aquele conhecimento formal, porque mostra que o que tá em jogo aqui é a ética e dignidade, né? E não porque a gente vai ter essa ideia de que então a pessoa agiu assim porque não teve estudo. Gente, não é só isso, né? Tem a transmissão de muita, de muita, de muitos valores que são feitos fora sair dessa lógica, né, do estudo formal. Então o sujeito escolhe, também faz escolhas na sua experiência, né?
Com certeza. Eu conheço muita gente profundamente letrada e mal educada.
Assim, então a gente tá no noticiário só todo dia, muitas pessoas que mandam na gente, inclusive. Querido, então essa filha, como é que vai ser essa vida com essa filha? O que que você pensou esse teu, para quando é que é isso?
Em até 3 anos, eu quero chegar aos 40 pai. E aí certamente eu quero adotar, quero que seja uma mulher que pire no cabelo dela, que seja só o que ela tenha de ser, não seja podada por uma sociedade que elimina muito o brilho da mulher, que impede muito uma mulher de ser poderosa. Eu vejo isso acontecer. Eu faço cinema e sou muito dirigido por mulheres, e logo depois eu saio do set das mulheres e de repente cato um outro com homem.
Eu percebo a diferença do respeito da equipe inteira ao ouvi-las. Eu percebo a desconfiança. Tem certeza? Claro que ela tem certeza, gente, ela dirige. Ou e se a gente fizesse de outro modo? E diz a mesma coisa que ela disse, gente. Sim, é bom e velho né? Eu quero poder criar uma mulher que infelizmente saiba que isso existe no mundo, mas que ela tenha ferramentas dentro de casa. Uma criança que consiga fazer psicanálise desde sempre, é para poder não ter vergonha dos próprios afetos.
Esses dias aconteceu uma coisa comigo, até eu e meu companheiro, que eu olhei para ele e falei: nossa, tô com vergonha. Admitir que está com vergonha, eu tô ficando vermelha agora falando com você, é algo difícil mas que é humano, é humano. E eu tô trabalhando para eu ser essa pessoa e para que eu tenha filhos que olhem para os próprios sentimentos, não tenham vergonha do que sentem.
Ai, que trabalho bom que te espera! Difícil, mas às melhores das intenções, assim, com as melhores das razões para ter um filho, né? Você viu essa diferença entre vocês da sua irmã nesse lugar.
Sim, sim, do mercado de trabalho, de quem eu tô chegando aos 40 ao lado dela, de como eu encaro o mundo ao lado dela, de como ela me encara enquanto artista, de como eu a encaro como engenheira. Sim, eu noto sim. Uma vez que eu saiba disso, uma vez que eu sei disso, o meu papel é fazer o mínimo que eu que eu posso fazer. É o mínimo que eu posso fazer, é o mínimo, mas é o mínimo, sem pegar o lugar de ninguém. Mas a gente pode ser sujeitos aliados, a gente pode ser sujeito aliado.
E eu encontrei muita gente maravilhosa aliada no caminho. Macacos é uma peça que evidentemente fala sobre racialidades. Isso não quer dizer que eu não tenho grandes amigos brancos, como também não quer dizer que eu tenha enormes amigos negros, como também não quer dizer que eu não confio no conhecimento do professor branco, que tá óbvio que eu também confio no do negro. Existem todos os tipos de pessoas, todos os lugares. É preciso tomar cuidado para a gente mesmo não gerar oposição ao outro, né?
Obrigada, Cleiton. Maravilhoso te ouvir, muito bom, muita energia, muita alegria, muita— uma versão muito linda da história de um homem, versão importante importante para os homens escutarem, e homens com a tua origem também, né, que viveram experiências diferentes. E um beijo para o seu pai, para sua mãe, onde eles estiverem. Um beijo, pai, um beijo, mãe, para transmitir uma coisa dessa contra todas as, né, situações possíveis de penúria, de dificuldade histórica.
Obrigada, Vera. Posso fazer duas perguntas?
Ah, então agora a gente vai trocar o microfone você vai fazer uma pergunta, porque eu já te perguntei tudo isso. Você pode fazer uma pergunta, uma, duas, quando você quiser.
A primeira é um pedido: você mandaria um beijo para o meu amorzão Michael Barbosa, seu fã de carteirinhasíssima?
Michael Barbosa, Michael, você ganhou um presentão. Espero que você esteja à altura deste homem maravilhoso. Um beijo e parabéns, viu? Parabéns por esse companheiro que você arranjou aí para o teu Obrigado, espero te conhecer um dia.
Velho, eu tenho uma pergunta para fazer. Alguma vez na vida você estudando, é inegável que o país sabe sobre o seu conhecimento, né? Você é uma mulher admirável no nosso país. Alguma vez no caminho você já errou e já se arrependeu? Se sim, como você lidou com isso? Como você se acolheu?
A minha resposta para essa pergunta e mais outras duas que o Cleiton me fez, você ouve no episódio bônus do podcast, o Pergunta à Vera. Sai na quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Até! Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão.
A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decoet.
Fósforo Editora
Livro Corsária de Marilene Felinto