Episódios de Isso não é uma sessão de análise, com Vera Iaconelli

[BÔNUS] Helena Rizzo pergunta à Vera: a vida do analista interfere na análise?

02 de julho de 20267min
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A chef de cozinha Helena Rizzo pergunta a Vera como um psicanalista consegue escutar o outro sem misturar as próprias experiências, opiniões e emoções. Existe um distanciamento? A vida pessoal do analista entra na análise? Na resposta, Vera fala sobre neutralidade, transferência, implicação e o lugar da própria análise na formação de um psicanalista. Ouça também a íntegra da conversa entre Helena e Vera no episódio anterior a este.

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Participantes neste episódio2
V

Vera Iaconelli

HostPsicanalista
H

Helena Rizzo

ConvidadoChef de cozinha
Assuntos2
  • Responsabilidade e ética na profissão de assessorNeutralidade na análise · Transferência · Implicação do analista · Análise pessoal do psicanalista · Abstinência do analista · Freud
  • Crítica CinematográficaRepresentação de psicólogos no cinema · Transferência negativa
Transcrição19 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
VIVera Iaconelli

Oi, eu sou a Velha Conelly e esse é o Pergunta Vera. Um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana. Dessa vez eu conversei com a queridíssima chefe Helena Riso. A minha conversa inteira com ela foi ao ar na terça. Vale a pena ouvir se ainda não tiver feito isso. Agora vamos para a pergunta da Helena.

HRHelena Rizzo

Vou fazer uma pergunta de quem, enfim, leiga em psicanálise, mas que eu sou muito curiosa, assim. Eu vi recentemente aquele filme "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria", você viu?

VIVera Iaconelli

Vi.

HRHelena Rizzo

Enfim, que eu fiquei bem impressionada com o filme. E ela é psicóloga, né, no filme. Ela faz um atendimento ali. E eu queria saber como é que funciona essa coisa assim de quem faz análise, né, de não misturar a sua vida pessoal, as suas coisas numa devolutiva, ou se se dá uma— como é que é feito esse trabalho assim? Existe esse distanciamento, essa imparcialidade, ou Tu colocar também das tuas vivências faz parte da análise em si, né?

VIVera Iaconelli

Olha, eu acho que devo ser uma das únicas pessoas em volta de mim que odiou esse filme. Todo mundo adorou esse filme, né?

HRHelena Rizzo

Odiou?

VIVera Iaconelli

Odiei o filme e fez muito sucesso e muita gente comenta justamente porque os exemplos de psicólogos ali são tão pavorosos, tão tudo errado, quase uma cartilha, dá vontade de pedir para os alunos assistirem tudo o que você não pode fazer sob nenhuma circunstância. É um desserviço mesmo, tanto a mistura, eles são meio sócios e ao mesmo tempo a relação paciente. E ela fica com raiva dele, que ok que a gente chama de transferência negativa, mas ele toma para si.

Essa é a grande questão, né? Quer dizer, claro que o paciente chega lá e fala assim: "Ah, você atrasou, você não gosta mais de mim, você é uma péssima analista, papapá." E eu tô ali não pra falar: "Oh, ele está me ofendendo, me xingando, ah, ele não gosta de mim." Não é esse meu papel. Meu papel é entender de onde ele tá falando isso, né? E aliás, será que eu atrasei porque eu não gosto dele mesmo? E aí cabe a mim fazer um exame de consciência e a minha supervisão.

Ou será que, puxa, eu atrasei porque eu tava, sei lá, resolvendo um piti que deu aqui, que ele não tem como saber porque ele não viu? E de onde que tá vindo então essa sensação de rejeição, essa raiva, né? E eu tô junto ali ouvindo, escuto: "Mas você ficou com muita raiva, o que que aconteceu?" Aí você, puxa, me lembra um pouco "Mas você tem que esperar, né?" E aí eu não tomo pra mim. E no filme o que me incomoda muito é que eles tomam tudo no imaginário, como a gente chama assim, tipo, papum, você tá falando com o fulano e o fulano tá te respondendo nesse lugar.

A pessoa paga pra que eu crie uma situação artificial na qual eu escuto o que ela diz, tento filtrar isso para que isso não entre como uma coisa dirigida diretamente a mim, ou seja, porque existe uma coisa que chama transferência, por isso eu tento me expor o mínimo possível pra que ele possa transferir transferir, projetar em mim as coisas dele, para que eu possa, a partir do que ele me contou, devolver o que ele me contou para ele.

HRHelena Rizzo

Sem misturar com a tua vivência, com a tua experiência.

VIVera Iaconelli

Exatamente. É claro que eu posso ficar ofendida com um comentário, mas tem uma divisão mesmo, na qual eu penso: "Poxa, eu tô ofendida, pessoa física, mas eu tô aqui num outro lugar também, que é de um semblante de analista, que é para ele poder..." Porque cada paciente vai trazer uma coisa que é dele, né? Então, se ele ficou com raiva, se ele ficou imediatamente apaixonado, entendeu? Eu tinha um paciente que falava assim: "Você com essas botas de cano alto, sabe?" Eu falava: "Escuta, eu uso botas de cano alto, só que aquele paciente encanou com as minhas botas de cano alto." Então, tinha alguma coisa ali dele, né?

E o que eu tento é separar o que ele me afeta do que ele tá projetando em mim. E pra isso eu tenho supervisão, pra isso eu tenho estudo, pra isso eu tenho trabalho, mas é uma relação artificial.

HRHelena Rizzo

Se eu tomar ela como uma relação comum, porque que a pessoa paga para ter uma relação? É difícil isso ou não?

VIVera Iaconelli

É difícil, por isso que custa caro, por isso que a gente trabalha tanto, por isso que a gente estuda tanto, por isso que a gente faz tanta análise, né? Quer dizer, por isso que eu faço tanta análise, fiz tanta análise, que é para separar o que que é meu, pensar: puxa, mas eu tô com ódio desse paciente ou não? Eu posso, eu posso reconhecer em mim se eu tô, né? Não preciso fingir para mim que não. Ah, eu sou uma boa pessoa, porque eu já fiz análise suficiente para não fazer mais a carinha de boa pessoa e poder saber: puxa, dá real para mim, né?

Será que eu atrasei? Será que Atrasei de fato porque eu não gosto de atender esse paciente? Não, puxa, não tenho nenhum problema com esse paciente. Eu realmente atrasei porque me telefonaram dizendo que tava pegando fogo na minha casa, entendeu? Sei lá. Mas me cabe dizer pra ele: "Oh, não, eu gosto de você, eu atrasei porque pegou fogo..." Não, não me cabe. Me cabe falar: "O que que acontece quando atrasa que você fica nesse estado tão desorganizado?" E num tom que seja realmente de acolhimento.

E aí você chega num lugar com a pessoa, que é o que interessa. Não interessa se ficou fendidinho, nada disso interessa. Interessa é chegar no lugar com aquela pessoa. Então esse é todo o trabalho, entendeu?

HRHelena Rizzo

Sim, é toda uma preparação, né? Porque, enfim...

VIVera Iaconelli

Mas quando você pergunta se não mistura, mistura, mas todo o trabalho é desmisturar.

HRHelena Rizzo

Entendi.

VIVera Iaconelli

Você entendeu? Não é que é fácil, mas é todo o trabalho é falar: o que eu estou fazendo aqui? Qual que é meu papel? O que ele está projetando em mim? Eu já ouvi um monte de coisa desse paciente antes dessa cena. E todas essas coisas já me juntaram peças para entender como ele se sente frágil, como ele se sente inseguro, como ele se sente, que raiva de quem que ele tem, entendeu? E aí, tá apaixonado por quem? O Freud logo percebeu que aquele bando de mulheres de 17, 18 anos lindas, né, de vienenses maravilhosas, de famílias ricas e apaixonadas por ele, logo ele percebeu que não era com ele o negócio.

Embora ele fosse um homem atlético bonitão no começo da carreira, ele desconfiou que essa paixão era uma coisa que não era com ele, entendeu? E ele teve essa ética de não corresponder. Então, desde lá, abstinência tá colocada para nós como analistas. Então, este é o trabalho, e dá trabalho, né? Não tá resolvido, é a cada vez, né? Eu tive um analista que eu acho um analista sensacional, e até falo dele no meu livro. E ele, quando eu me divorciei, eu tava arrasada, né?

E aí ele, eu falava assim, nossa, não sei como é que eu vou conseguir atender, porque ficou a cara de choro tão inchada que os pacientes vão ver, né? Ele falou uma coisa na época, alguma coisa assim, você, ah, mas é A tristeza é um dos melhores humores para atender, a gente fica super sensível. E eu lembro de ter pensado: "Puxa, que interessante, até isso a gente consegue usar como ferramenta na clínica." Não para ficar chorando no colo do paciente, porque ele não tem nada a ver com a minha vida, eu tenho meu analista para chorar, meus amigos e tudo mais, mas para estar sensível, né?

Então a gente usa isso no trabalho, né? A gente não despeja no paciente, só isso.

HRHelena Rizzo

Muito bom!

VIVera Iaconelli

Obrigada pela sua pergunta, muito legal sua pergunta, obrigada! Muito bom te ouvir, viu?

HRHelena Rizzo

Também, adorei!

VIVera Iaconelli

Muito bom!

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