Helena Rizzo saiu de casa aos 17. Mas nunca saiu da família
A chef de cozinha Helena Rizzo deixou Porto Alegre para construir a própria vida. Mas nunca deixou para trás as histórias, os cheiros, os rituais e os afetos da família que a formou. Na conversa com Vera Iaconelli, ela fala sobre os avós que marcaram sua infância, a decisão de ir embora de casa, a maternidade, o perfeccionismo e a tentativa de oferecer à filha uma infância tão rica em encontros quanto a que viveu.
Leia “Os Imortais”, de Paulliny Tort, publicado pela Fósforo!
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- Conciliação carreira e maternidadeGravidez inesperada com Bruno · Primeiros meses com Manu · Conciliação trabalho-família · Desafios da maternidade
- Saída de casa e independênciaMudança para São Paulo aos 17 anos · Carreira de modelo · Decisão pessoal e apoio familiar · Faculdade de arquitetura
- Relação com a filha ManuelaDinâmicas familiares atuais · Educação e valores · Convivência e rotina · Manuela pré-adolescente
- Infância e padrões familiaresFamília Rizzo (italiana) · Família paterna (antiguidades, natureza) · Avós maternos · Avós paternos · Casa na beira do rio (Rincão)
- Co-responsabilidade nas relaçõesApoio na paternidade · Divisão de tarefas · Comunicação no relacionamento
- Morte e luto parentalMorte do avô paterno (acidente de carro) · Morte de Ayrton Senna · Impacto familiar
- O papel das mães e avósObra literária de Antônia Roma · Estilo místico e exuberante · Memórias e ficção
Trovão Mídia.
Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de Análise, um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. Toda semana uma pessoa me conta a história da família dela. A gente fala das raízes, mas também de tudo que cresceu a partir daí. Porque família é movimento, nunca é uma coisa só, nem se encaixa nas expectativas. E é essa pluralidade que faz a gente se interessar e se reconhecer. Minha convidada de hoje é a chefe Helena Riso, filha do Roberto e da Ivone, irmã do Cristiano e da Gabriela, casada com o Bruno, e mãe da Manuela.
Antes da gente começar essa conversa, eu quero te recomendar um livro que foi um dos mais marcantes para mim nos últimos tempos. Eu tô falando de Os Imortais, de Pauline Torchy, publicado pela Editora Fósforo. É um romance pré-histórico que conta a história de um clã de neandertais, isso mesmo que você ouviu, que encontra um pequeno grupo de homo sapiens e tenta sobreviver no cenário hostil daquela época. É diferente de tudo que eu já li.
Se você tá, assim como todos nós, com dificuldade de sentar e ler um livro até o fim, Vai lá ler Os Imortais. É daqueles que continua conversando com a gente mesmo depois da última página, prometo. Eu gostei tanto que resolvi fazer uma coisa, eu convidei a autora, Pauline Torte, aqui pro Isso Não É Uma Sessão de Análise. Então fica esse pequeno spoiler: ela vem aí. O livro Os Imortais está em todas as livrarias. O link pra comprar direto na Editora Fósforo está na descrição desse episódio. Boa leitura. Helena, que prazer ter você aqui.
Ai, o prazer é todo meu. Te acompanho muito, colunas, podcasts, livros, e enfim, tô muito feliz de estar aqui.
Obrigada por ter aceitado o convite. E eu já vou começar então, começando, qual é a tua referência de família? Qual que é a tua história de família?
Bem, pensei muito esses dias, né? Fiz uma transgressão assim, puxando memórias e tals. E eu acho que tem assim, tem a história que eu vivi, né, com a minha família, que eu vivo com a minha família. E tem muito também assim das memórias que foram contadas, das histórias que foram contadas da família, né? Que a gente acaba criando outras memórias a partir disso. Mas enfim, eu sou filha do Roberto e da Ivone, né? Sou a irmã mais velha, filha mais velha, né, de 3 irmãos.
Nasci em 78 em Porto Alegre e sou, enfim, tenho um apego muito grande assim com essa família, com esse núcleo pequeno de pai e mãe, né? Eles são, mesmo eu tendo saído cedo de casa, eles são muito presentes na minha vida. A gente fala sempre, amigos assim mesmo.
São vivos todos? São vivos.
Meu pai, minha mãe são casados até hoje, ano que vem fazem 50 anos de casados. Acho muito fofo os dois assim, né, juntos assim, são muito companheiros, muito parceiros, enfim. E hoje eu tenho uma relação muito boa com eles, né, eu acho que tem toda essa vivência assim de— ai, são tantas coisas, por onde que a gente começa?
Já conversamos, você vai por onde você quiser, vai caminhando aí.
Bem, eu acho assim, eu tenho uma memória assim da minha infância muito boa, muito maravilhosa assim em Porto Alegre. E essas duas famílias, né, a família do meu pai e a família da minha mãe. Do lado da mãe, assim, uma família italiana, né, colonos italianos assim. Então uma família grande, os Rizzo, e uma convivência assim muito grande com primos, irmãos, né. Assim, a gente passava férias na praia em Torres 2 meses direto. E primeiro a gente tinha, ficava na casa dos avós, depois cada um tinha seu apartamento lá.
Então assim, muitas memórias maravilhosas assim, como família junta que se encontrava, muito, muito unida assim. E meu vô era o grande agregador assim dessa família, o Ivo, que é pai da sua mãe, que é pai da minha mãe. E esse vô assim, ele, a minha avó assim, a minha avó, a minha avó é viva ainda, meu vô faleceu, né? A minha avó é a única dos meus avós, é a única pessoa viva.
Tá com quantos anos agora?
Tá com 93, é uma figura, ela é maravilhosa, minha avó. Assim, ela é muito— eu tive com ela recentemente até, e daí fiquei. Ela sempre me conta muitas histórias assim de família. E aí ela tava contando, né, de enfim, quando ela, como ela conheceu meu avô. Ela tinha 14, meu avô tinha 18, eles casaram com 18. E a nona, que era a mãe, a avó da minha mãe, mãe do meu avô, ela era uma cozinheira, uma pessoa que gostava muito, cozinhava muito bem.
Ela não era italiana, parece que ela era de ascendência austríaca. Mas ela sim, então toda essa cozinha da nona que eu não experimentei quando era criança, ela sempre existe no meu imaginário, assim, das coisas que ela preparava. Não, mas o nhoque da nona...
Que a sua mãe lembra.
Que a minha mãe lembra e os irmãos, os meus tios também, né. Mas enfim, daí a minha avó tava contando que quando ela começou a namorar com o meu vô e quando eles estavam prestes a casar, que ela foi muito assim, ela sentia que a nona e as pessoas da família queriam ensinar ela a cozinhar. E que quando meu vô pediu ela em casamento, que ela falou assim, olha, a gente vai casar, eu quero casar contigo, mas eu não cozinho, eu não vou cozinhar, eu não sei cozinhar.
Que ótimo! Então, e ela é muito, ela é uma figura assim, a minha avó, ela é super vaidosa. Ela tá sempre assim impecável, super centrada assim, ela tem uma disciplina assim de viver. Então ela faz o Pilates dela, faz as caminhadas, tem a hora da carta, tem a hora do uísque.
Uma vida ativa com 93 anos.
Uma vida ativa, dirige tudo, só viajar que ela não viaja mais. A última viagem deu, enfim, deu um perrengue, ela passou mal, aí ela achou que incomodou as pessoas que estavam junto. Então viajar ela não viaja. Mas ela é demais, assim, é uma, enfim, é um super exemplo que eu tenho assim de força assim e de uma pessoa assim positiva assim, sabe? Muito super.
E uma longevidade de vida, né? Porque as pessoas às vezes têm muita longevidade, mas não têm qualidade de vida, não estão vivas, né? Estão só habitando um corpo, mas não tem essa... É tão legal ver isso nessa rotina dela, é uma rotina cheia de acontecimentos, né? Ela tem o Pilates, ela tem o jogo, ela tem, né? Sim, ela tem.
Ela é super, e ela é bem assim, ela é disciplinada assim, né? E aí ela tem a hora dos exercícios dela, que ela mexe o pescoço assim, ela faz, ela é toda regatinha.
É um cuidadinho, é um cuidado que ela tem regular, né, consigo mesmo.
Mas a história da minha avó, enfim, só que meu avô na família, quando a gente era criança, ele era esse grande agregador da família, né? Então pra ele era muito importante, uma família super católica, meu avô ia todo dia à missa.
Todo dia?
Religiosamente.
Sim, família tem método, né?
E enfim, pra ele esses encontros de família assim não era só a nossa família, o nosso núcleo, né? Eram tipo os irmãos dele com os filhos, com os nossos primos segundos, amigos assim. Então eram sempre esses encontros de final de semana.
Deixa eu te perguntar o que me ocorreu agora. Esses encontros, eles giravam em torno... Porque às vezes os encontros giram em torno da cozinha, às vezes giram em torno da conversa, às vezes giram em torno da música. O que rolava nesses encontros?
Pra mim, a comida foi muito marcante.
Ah, era?
Natal, porque tinha assim, era esse monte de gente, cada um levava uma coisa, um prato. Então eu ficava enlouquecida assim com aquela mesa de Natal e de experimentar as coisas. Os galetos no final de semana na praia, que ele tinha um amigo que cozinhava, que fazia o galeto, tempero do galeto, que era o tio Ari, que faleceu com ele, porque meu vô aí ele teve uma aí Uma outra, meu vô, ele teve uma morte súbita num acidente de carro.
Quando ele tinha, eu acho que uns 60 e poucos anos assim, será? Bem, não lembro. Eu tinha 15.
Sim.
E eu lembro que pra mim assim foi uma coisa muito, muito forte assim. Eu fiquei uma semana chorando sem parar assim. E eu acho, e eu lembro muito assim, eu lembro que eu voltei da escola, a gente foi pra casa e eu vi a minha mãe assim tipo Estrassalhada assim, chorando muito. Eu falava, o que que aconteceu, mãe? E foi um acidente de carro. Meu vô, ele viajava muito de carro, ele gostava de correr na estrada. E aí eles se bateram numa árvore, era a única árvore que tinha assim, sei eu, quantos, tantos quilômetros.
E ele morreu na hora. Esse amigo era um caminhonetão assim, eram 3 casais. E a minha avó se machucou muito. E eu lembro de ver minha vó também assim no... E depois, eu acho que alguns meses depois teve, foi a morte do Senna. Que eu lembro da gente estar todo mundo em casa, na casa da minha vó assim. Ela quebrou várias coisas assim, mas ela ficou toda enfaixada aqui um tempão assim.
Com aquele colar, né?
Aquele colar, é. E lembro que teve essa morte do Senna, assim, a minha família, meu pai era muito ligado em carro, em corrida de carro, essas coisas. E eu lembro desse, desse momento.
Elas se juntam, né? Esses lutos se juntam, ficam marcados, né? Algumas cenas assim paralelas, elas juntam, né?
Ficam muito. Mas eu acho que depois da morte do meu vô, assim, a gente tentou continuar essa coisa de se encontrar assim, mas se perdeu alguma coisa.
Tem umas figuras na família que são figuras-chave, né? São verdadeiras dobradiças. Né? Elas juntam aquela pessoa com aquela personalidade, com aquele senso gregário assim, junta. E quando ela desaparece, se juntar significa também lembrar da ausência dela, né? Fica às vezes doloroso esse encontro, né? Fica menos—
como é que foi para vocês? A gente manteve, né? Eu achei assim, eu fiquei surpresa assim com a minha— eu acho que foi a primeira pessoa da família assim que eu perdi, né, talvez. Mas o meu vô, ele era um cara assim, ele não era super afetuoso, assim. Até minha mãe falava assim, né? Não era... Mas ele tinha uma coisa assim de comunidade, assim, sabe?
De... Que é um jeito de transmitir o afeto, né?
É, de reunir mesmo as pessoas. Eu lembro que com meus primos, assim, no Natal, ele fazia a gente pegar todos os brinquedos que a gente não usava mais. Ele botava a gente numa caçamba de uma caminhonete. E a gente ia em alguma escola, em alguma vila, dar esses presentes. Enfim, ele era um cara que ele tava sempre assim movimentando muito, né? E aí foi um baque assim, eu lembro que...
Mas vocês mantiveram seus encontros?
A gente manteve, manteve, mas eu depois com 17 anos eu saí de casa, né? Vim morar em São Paulo, né? Então assim também eu tipo, depois eu ia um Natal, outro eu não ia, assim não ficou mais aquela coisa assim, né?
E você junta isso de algum jeito, esses dois acontecimentos? Eles afetam, um afeta o outro? Tua saída, todo mundo saía nessa época com a tua idade, nessa família, o que que Como é que foi essa saída?
Não, eu acho que tem várias coisas, né, Vera? Porque isso tem a história dessa família da minha mãe, né? Dessa coisa muito alegre, italiana, barulhenta. E eu tenho depois essa família do meu pai, que eu acho que uma família mais excêntrica assim.
O que nem sempre é ruim, mas pode dar trabalho.
Com mais camadas, que assim, que eu convivia mais com eles. Eu fui a primeira neta deles também. E eles iam pra Torres também, então a gente Passava, né, tava, se juntavam as famílias. Eu fiquei durante muitos anos, a gente ficava na casa deles lá em Torres. Meu avô me acordava de madrugada pra ir na missa com ele.
Uau! Também o teu avô paterno também era da missa?
Meu outro avô paterno. Não eram tanto assim, mas ele, aí é uma longa história, né, tem muita história. Senta que lá vem história.
Porque era uma coisa o quê?
Meus avós, eles tiveram meu pai e meu tio. Eles moravam numa casa lá em Porto Alegre que a gente chamava de Rincão. Que era uma casa na beira do rio. Era um terreno enorme onde moravam meus avós, minha bisavó e o irmão do meu vô também. E a gente passava, eu passei muito da minha infância nessa casa, assim. Final de semana, a gente ia pra lá. E pra mim, assim, era um lugar muito mágico, misterioso também. Meus avós, eles tinham loja de antiguidades.
Então era uma casa assim que tinha muita coisa antiga, assim, muitas coisas de arte, caixinhas, objetos, um monte de cachorro, um monte de bicho, um monte de árvores, de frutíferas. Então assim, foi, eu acho que toda essa construção assim dessa coisa mais de sentir assim, de cheiros, de coisa da comida, até vem muito desse lugar, né?
Também da parte do pai?
Também da parte do meu pai. E a gente ia pra lá finais de semana, tudo. E era assim, era um portão assim, a gente entrava assim. Eu lembro que eu ficava com medo porque eles tinham 5 Dobermans. E a gente abria aquele portão assim pra entrar, ia caminhando, porque a gente morava na Zona Sul também. E vinha aquele monte de cachorro assim latindo assim. Eu lembro que eu entrava assim pé por pé assim, tentava: calma, gente. E a minha avó e o meu vô, ele era— quando eu conheci, quando eu conheci meu vô, o meu vô ele já tinha tido um derrame, né?
Então eu sei muito assim, eu tenho muito essa convivência com eles assim, e muitas histórias que contavam dessa família também. E o meu vô ele era isso, ele era um cara muito assim apaixonado pela natureza, por plantas. Eu lembro que ele tinha uma coleção de cactos assim gigante que eu adorava investigar assim quando eu era criança. Eu sentava na poltrona assim do ladinho dele, ele tinha um livro que era o livro dos dos bichos assim.
Daí ele contava a história dos animais, me contava a história do okapi, que era um animal, um bicho, não conheço, é um bicho que tá em extinção, não sei nem se existe mais, da África, mas que é um parente meio da girafa assim, que ele tem o corpo marrom, as patas são de zebra e uma cara meio alongada assim. E meu vô, ele bebia bebia assim, era sempre uisquinho ali, era uísque, cigarro e sorvete de flocos, a combinação dele. E a minha avó era escritora, e a minha avó, antes de ter meu pai, ela engravidou de uma menina e ela perdeu essa menina.
Então ela sempre me falou para mim que eu era neta meio filha dela assim, né? E eu era muito próxima. E a minha avó, ela era uma pessoa assim muito exuberante, muito mística, mágica também. Ela vestia, ela mandava fazer uns vestidões para ela assim coloridos, tava sempre de chapéu com os óculos assim desse tamanho assim, o chapéu combinando com o vestido. Lia minha mão quando eu era criança, eu chegava.
Como é que seu avô escutou essa história de ser meio filha? Porque você tá contando uma coisa que tem toda uma mágica, né, mesmo como você diz, né, tem todo um, mas também tem todo um outro lado de adoecimento, entra na casa, tem os cachorros, aí tem, né, o seu avô já tinha sofrido um derrame, né? Como é que, como criança, eu tô imaginando tua cabeça assim fazendo engrenagens.
Então eu acho que eu absorvi muito assim dessa família.
Te assustava?
Um pouco assim, me assustava e me encantava, né? Eu fico até assim hoje, assim, eu fico tentando buscar essa avó, buscar o rosto dela assim, né? Assim, o que que é, onde que a gente se conectava, né? Só que ela contava muitas histórias, contava muitas histórias da família dela, algumas eu acho que um pouco inventadas, meio big fish assim, Tim Burton.
Esse livro, você trouxe um livro dela?
Esse livro dela, minha avó, ela era romancista, né? Ela tem 12 livros publicados. Eu até outro dia eu tava vendo porque eu queria ter todos dela assim, eu tenho alguns que acabou.
Esse é um livro premiado? Esse é um livro premiado, é Pele Nua no Espelho, 1990, da Academia Brasileira de Letras. Pele Nua no Espelho. Mas você me falou que você queria ler uma coisa aqui, ou não?
Não, eu tenho um lugar assim, como é que eu vou te dizer assim, que eu acho que eu me identifico em alguns lugares que eu tento fugir dessa identificação. Você quer ler? Eu posso ler aqui, eu achei bonito porque eu acho que fala isso aqui, esse começo fala um pouco assim dessa casa, né? Então é assim, ela começa assim: Para sempre, para nunca, para sempre, sempre, sempre, sempre, sempre. Foi assim que escrevi a frase final do livro que não terminei.
Juro, no entanto, que agora será a memória, a desmemória do amor, de um amor para nunca, para sempre. A memória não tem fim, por isso nada acaba, mesmo que se morra. Fica nos escaninhos dos átomos, das moléculas, e de vez em quando surge e paira, nua, exposta, embora difícil de cativar. Este, Emily, parece pensamento raso, mas foi o que me ocorreu hoje, dia 22, talvez pela manhã, ao retornar da caixa dos Correios no portão de casa, longe, aliás, como sabes, da morada em si.
Preciso percorrer o bosque, os túneis verdes, a lameda de plátanos, os maricás selvagens, os pés de jambo vindos do norte, os hibiscos encostados ao muro de ambos os lados, a ilha de palmeiras e coqueiros, vegetação tropical e subtropical que ainda me faz sentir resquícios de vida, embora desolada ante tantos envelopes endereçados Senhora Antônia Roma, convites a maioria para vernissagens e pilhas de cartões de boas festas. Em julho, por quê tua carta continua ausente?
Ai, que lindo isso!
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Gostei muito disso. Que legal você poder resgatar essa obra dela.
Ela tem, ela escreveu 3 triologias. A última que ela escreveu é inacabada, ela escreveu só 2 livros, daí ela faleceu. Esse aqui eu acho que é da última até, ou da segunda.
Você via ela escrevendo? Era uma coisa que você presenciava?
Ela, ela, eu chegava lá e ela escrevia à mão, né? Ela escrevia sempre à mão, escrevia às vezes em português, às vezes em inglês, porque a minha bisavó é inglesa, né, veio para o Brasil depois. Aí é outra história que ela me contava também.
Você tem uma ascendência inglesa do lado do seu pai?
Em parte, em parte. A mãe da minha avó, né, a mãe da minha avó era inglesa e o meu bisavô era húngaro.
Enfim, mas o que que a gente tá falando mesmo dessa desse cenário que você conta, que ela fabulava e contava as histórias?
Você cria uma semana que eu tenho deles assim, eu entro, era uma casa escura, era uma casa que tinha muito cheiro de coisas antigas assim, né, de estanho, de cachorro também, porque os cachorros eles conviviam com eles assim, aqueles cachorros enormes naqueles sofás, naquela cama, e a minha avó sempre na poltrona escrevendo ou lendo, e o meu vô com os livros dele também ali pesquisando, com copinho de uísque, cigarro, que ele acendia um no outro assim, e sorvete flocos.
Gente, isso aí dá um conto maravilhoso. Mas tem uma coisa muito bonita que você disse, que é quando a gente lembra, né, a gente não lembra só do que a gente viveu, a gente principalmente lembra do que se contou daquilo que a gente viveu e do que foi vivido antes da gente. Então por isso que é sem fim a recuperação de uma memória, porque ela sempre pode ser editada e editada infinitamente. Mas eu acredito muito mais no uísque com um sorvete de flocos do que no que foi contado, porque é uma marca que você traz, que de repente você pode, o teu irmão fala, imagina, não era de flocos, era de canela, sei lá.
Mas aquilo para você, né, tem uma marca que é tão verdadeira quanto o que tava lá de fato eventualmente, né. Então é bonito que você constrói um verdadeiro cenário mágico, como você mesmo falou, desse lado da família. O outro lado da família é um outro lado cheio de afeto, mas mais conhecido, né.
Sim, sim, sim.
Esse outro deve— como é que afetou a sua cabeça, né?
Assim, como criança, o meu avô, ele era arquiteto e ele era professor de história da arte na URGS. E a minha avó também era artista plástica, assim. Então eu acho que assim, eu tive essa infância muito assim rodeada disso, assim, deles, assim, desse conteúdo, dessas vivências, né? Assim, a gente tava sempre— eu lembro que eu tava sempre em autógrafo de livro quando era criança, em exposições.
E como conviviam essas duas famílias? São duas famílias bem diferentes.
Então, convivia a minha avó, ela sempre era diferentona, sempre ficava meio no canto dela, né? Assim, achava, gostava assim, mas ela era uma pessoa estranha, ela era diferentona. O meu vô, ele era muito, ele tinha um humor sarcástico assim, que foi ficando um pouco, um pouco grave assim conforme ele foi envelhecendo mais. Ele foi Tipo, era um pouco inconveniente assim até, né? Ele era muito, meu avô era muito amigo do Lutzenberg.
Ele foi ministro do meio ambiente no governo Collor, depois ele pediu demissão, mas que era um cara de ecologia. Daí eu lembro que ele contava pra gente que ele foi na casa do Lutzenberg, Lutzenberg ele ficava pelado em casa, e ele sentou no sofá de mola e prendeu as bolas no sofá. Então era esse tipo de coisa que ele fazia com todo mundo. Maravilhoso. Ele era muito, muito muito bom assim, muito, sabe, tinha um, enfim. E mas conviviam bem assim, né, porque eles tinham respeito por essas diferenças.
Sim, tinha, tinha. E tinha os natais, por exemplo, eram na casa dos avós, dos avós maternos, e eles, eles iam também. Sempre tinha missa, né, assim, sempre tinha essa coisa do catolicismo assim muito presente. Eu fiz primeira comunhão com a minha tia-avó, O curso.
Sim, mas a religião entrava de uma forma opressora? Porque geralmente quando a gente pensa em religião tem muitas normas, muita regra. Eu acho que não, eu não, assim, os meus avós, que era feito da religião.
É, então a gente, eu lembro que a gente pequenininho, meu avô, a gente ia às vezes final de semana, ele levava os netos na missa. Eu lembro que era os netos tudo sentadinho, ajoelhado naquele momento que não podia falar, não podia rir, um começava, né? Né, então tinha essa... E pra mim, assim, eu acho que quando eu fiz, eu era bem religiosa, assim. Eu tinha uma coisa, assim, da fé, que depois, assim, se dissipou em várias outras coisas, em misturas de outras experiências, né, outras...
Enfim. Mas eu acho que ficou essa coisa da espiritualidade, assim, ficou muito presente, assim, na minha vida, assim. Tinha essa coisa, assim... A minha avó, né, eu acho que depois do acidente, depois da minha avó perder um filho também, Então eu vejo que ela tem, eu acho que a religião assim ali, ela assim ajudou. E o meu avô e a minha avó, eles eram do cursilho da igreja, né? Então tinha toda essa coisa, esses trabalhos também que eles faziam comunitários, né?
Mas os meus avós paternos, eles não eram muito da religião. Mas esse meu avô, depois que ele teve esse derrame aos 40 anos, ele continuou tendo outros derrames e AVCs porque ele não se cuidava, ele continuou bebendo, continuou fumando. E eu lembro que ele me acordava tipo às 6 da manhã quando a gente ficava na casa deles em Torres para ir na igreja com ele. Era uma capelinha assim no Morro do Farol em Torres e a gente ia assim, não era um lugarzinho assim.
E daí ele ficava assim, ficava, nem ficava na missa assim, mas fazia a oração dele, parará. E depois ele me levava no bazar praiano para me dar um presente.
E aí você sai aos 17, como é que foi essa passagem? Você perde esse avô aos 15.
Então Aí tem uma coisa que essa família do meu pai, eu peguei uma fase deles ainda boa, uma fase que eles, né, eles moravam nessa casa, nesse terreno. E meu vô, ele foi ficando mais doente. E foi uma família que eu vi assim, foi uma decadência assim, sabe? Uma decadência de tudo. Eles foram torrando tudo que eles tinham, eles venderam esse terreno, fizeram um condomínio, derrubaram todas as árvores. Eu não consigo nem chegar perto lá assim, que me dá um E foi entrando num lugar de muita decadência, e isso pesava muito assim para os meus pais também, né?
Eu lembro assim, para o meu pai. Então acho que foi uma série de coisas assim, né, que eu também tinha vontade de, enfim, de ver o mundo, ir para vida. Eu tinha entrado, eu tinha entrado para arquitetura, para faculdade, mas eu não me conectei assim, senti, porque, né, tinha da família essa coisa, né? Meu, a parte da família da minha mãe era da construção civil e meu avô era arquiteto. Arquiteto, e meu pai também é engenheiro, né?
Então eu entrei meio que aquela coisa, ah, tem que escolher fazer alguma coisa. Mas foi numa época também que a gente financeiramente, assim, eu lembro que a gente não tava muito bem. Então as coisas, eu não passei na federal, passei na particular, e tinha um peso também de eu tá fazendo essa faculdade, tá gastando uma grana, e ser uma coisa que eu não tava, não tava muito aí. E eu acho que eu quis assim, que precisava sair assim. Eu acho que isso, toda essa história, essa coisa pesou para mim assim.
Eu tenho muita curiosidade, na verdade particular, pessoal, porque assim, então, mas era uma coisa que se fazia muito? Pessoal de Porto ia para outros lugares? Era uma, quando chegava numa certa idade, teus primos foram, teus? Não, não era uma coisa mais tua mesmo?
Não, foi uma coisa minha e meus irmãos também. Porque hoje debandou cedo também.
Tudo bem, há um tempo atrás nem tanto, né? Mas hoje uma pessoa de 17 anos A gente fala, um jovem, 17 anos, fala, agora não vou mais morar aqui. E uma família tão gregária, tão concêntrica, né? Então como foi chegar para os seus pais e falar, então deixa eu contar uma coisa?
Então tinha uma coisa, a gente também assim, a gente morava num apartamento, eu lembro assim, um apartamento gostoso e tal. E daí meu pai ele resolveu que, e a gente ficou afim também, que ele ia construir uma casa para gente, que ele queria morar numa casa arquiteto, aquela coisa das casas dos sonhos. E daí ele, a gente vendeu esse apartamento e ele ia construir a casa com o dinheiro desse apartamento. Enquanto construía a casa, a gente ficou morando em cima do escritório dele.
E eu lembro que aquilo assim, para mim assim, foi meio difícil assim, né? Assim, eu achei, enfim, eu não tava me encaixando mais, eu acho.
É uma idade de pouco encaixe, né?
Eu com a minha mãe na adolescência também. A minha mãe, ela é muito, a gente é muito amiga, a gente tem muita troca assim, mas adolescência ali foi difícil. Né, eu tinha uma— a minha mãe teve uma educação muito rígida assim, né, assim desse lado italiano assim do meu vô. E ela é, minha mãe ela é muito organizada, muito correta assim. E eu era, eu dava, dava do contra um pouco assim, como é de se esperar na adolescência, né.
Aí você sai, como é que é essa saída?
E aí eu vim para São Paulo, eu trabalhava como modelo nessa época, né, lá em Porto Alegre assim. Tinha começado a fazer alguns trabalhos e eu lembro dessa fase da adolescência assim de gostar muito de moda também e de ter essa possibilidade, né, de ir para São Paulo. E a coisa da cozinha também já tinha, já tinha uma coisa da cozinha junto com isso, porque eu era muito fã da Neca, Nena Barreto, e ela tava aqui e alguns, né, alguns outros chefes assim.
Eu cozinhava já assim desde cedo assim, eu gostava muito de E aí eu vim para cá, mas com essa coisa assim de viver, assim, né, de ter minha independência, ter meu lugar.
Alguma coisa, porque você disse que essa mãe era mais rígida, você vira assim sem uma faculdade, sem uma, para os teus pais causou alguma coisa nessa relação?
Então eu perguntei para eles isso recentemente, falei, como é que vocês não ficavam preocupados comigo? Eles falaram, a gente fica.
Mas eles bancaram o teu desejo?
Não, eles bancaram. Meus pais, eles foram ótimos assim. Eu acho que eu tive, enfim, eu tive uma educação que para mim é muito um exemplo assim, né, como eles conduziram. Porque a minha mãe, ela tem essa coisa mais rígida da família, mas a minha mãe é artista plástica também, né, e foi professora de artes também. Então eu acho que sempre teve uma abertura, né, nunca teve uma imposição assim de que você tem que seguir uma carreira e ser bem-sucedido em— eu acho que sempre foi, eles deixaram esse o horizonte muito.
E teus irmãos, o que que acharam de você vir?
Meu irmão, ele usara o Poseidon também. Meu irmão, ele é— a gente tem pouquíssima diferença assim, não tem 2 anos de diferença. Meu irmão, ele gosta de surf e ele foi, perseguiu isso na vida dele, trabalhou com várias coisas, não só surfando, né? Então ele já teve loja de surf, ele faz vídeos de surf, ele mora em Nazaré hoje, mas meu irmão já morou na Austrália, morou nos Estados Unidos, tipo, foi foi para o mundo assim também, mais que eu até.
E a minha irmã é temporona assim, ela nasceu quando eu tinha, eu tinha 9, de 8 para 9. A gente tem quase 9 anos de diferença. E a minha irmã tem uma coisa, eu era assim, eu fiquei muito feliz quando minha mãe engravidou dela. E para mim era assim, era minha bonequinha assim, eu fazia, né, era tudo. Só que na minha adolescência eu tipo não queria saber. E ela até recentemente ela me falou assim, ai, mana, sabe que eu tratei na terapia quando saiu de casa, eu falei, será que ela saiu porque ela não gostava mais de mim?
Como se a gente fosse o centro da vida do irmão, né? Mas tudo bem. Mas é bonitinho, né? Porque realmente para ela tá vivendo outra coisa, né? Devia te idolatrar, né?
E os 3 filhos não moram lá, né? Assim, a minha irmã depois foi para o Rio, depois foi para Nova York, depois foi para Londres, e agora ela tá morando em Portugal também.
Como é que é? A gente vai para a segunda pergunta então. Como é que é essa referência de família hoje? Qual a tua referência de família hoje? O que que você fez com essa história?
Ai, Vera, assim, eu acho que eu tenho esse apego assim, né, dessa— eu tenho boas vivências de família assim, né, muito. Então acho que eu tenho esse apego assim de— eu gosto de brincar de casinha, né? Mas eu tô assim, eu tô no meu segundo casamento, né? Eu fui casada, tive um casamento de 10 anos, né, anterior ao de agora. Mas assim, eu também assim não acho que esse seja o único modelo possível, né, o único jeito. Eu acho que é difícil a gente ser—
Mas você não teve sua filha nesse primeiro casamento?
Não.
E aí então vocês ficaram 10 anos, vocês não pensaram em filhos até então, ou vocês pensaram?
Não, eu pensei, eu queria ter, eu queria ser mãe assim.
Você já queria ser mãe, era uma coisa?
É, eu não pensava, eu achava uma coisa muito distante, mas quando eu cheguei lá nos 34, 35, eu comecei a pensar sobre isso e era uma coisa que eu queria, né? Eu tava muito metida na cozinha assim nesse período, assim muito imersa, tava com um relacionamento com o Dani, né, que trabalhava junto comigo. E eu queria ter filhos, mas ao mesmo tempo o nosso casamento não tava segurando, não tava bom, tinham várias coisinhas ali e tals.
E aí a gente acabou separando e eu não tive filho com ele, né? E aí a gente começou a separar em 2013. Eu lembro que no começo de 2013 eu saí de casa 3 meses, aí depois eu voltei, a gente uma reconciliação, mas aí depois, começo de 2014, a gente separou. E no final de 2014 eu conheci o Bruno e foi muito legal porque foi muito assim, a gente se apaixonou, né, se encontrou, se apaixonou, não teve nenhum jogo assim, né, foi uma entrega dos dois assim, eu acho, total.
Eu lembro que eu mandava mensagem, ele respondia na hora, não teve aquela situação, aquele E aí a gente foi morar junto, ele veio morar aqui comigo, né? Eu já tava com a minha vida bem estabilizada assim profissionalmente, e a Manu nasceu assim, tipo, sei eu, 2 meses depois que a gente tava junto. Eu comecei a sentir uns enjoos.
Engraçado como é assim, bancar o desejo ou não de ter filhos num casal pode ser um divisor de águas total, né? Porque a hora que você bota relação à prova, né? Pode ser tanto, aí vamos morar em outro lugar, vamos morar junto, vamos ter um filho, vamos, né, comprar uma bicicleta. Mas tem algo que o casal de repente tem que fazer juntos e um compromisso maior, né? E aquilo revela um pouco o que se sustenta ou não. As pessoas podem se amar muito, mas não se amar o suficiente, ou não se amar de uma forma que um projeto dessa magnitude se sustente, né?
Umas coisas que põe à prova mesmo a relação. E a outra relação imediatamente já vem esse filho, né? Como se— é curioso isso, nesse timing, 10 anos juntos sem filho, 2 meses juntos com filho. O desejo, ele é magnífico, né? Ele não corresponde a nada que tá no by the book, né? A coisa vai. Não, que interessante.
Foi assim, é, e não foi fácil, né? Assim, foi um susto, mas eu queria, e também a gente sabia o que a gente tava fazendo, né? E foi isso, foi maravilhoso e assustador e várias coisas, né?
Você tava com quantos anos?
Eu tava com 36, 36 anos. Eu e o Bruno, a gente tinha se conhecido há pouco, ou seja, a gente não se conhecia direito. Tinha uma coisa, eu acho assim, do feeling de estar junto, né, de gostar de estar junto. Mas assim, a gente não se conhecia.
E a gente já se conhecer diante, né, já na crise, né, de acontecimento dessa magnitude.
Então foi, para mim foi, enfim, eu tive uma gravidez assim bem zoada assim, porque eu fiquei muito enjoada. Aí eu lembro que quando a Manu nasceu, eu fiquei, saí do hospital assim apavorada assim. Né, com aquela criaturinha assim tão pequenininha assim, aquela responsabilidade. E uma coisa que vem, eu acho assim, um pouco da família também, da minha mãe assim, de ter sido uma mãe muito presente assim, muito infalível assim, né, nessa coisa da educação assim.
Então para mim veio assim essa responsa assim, né, e já cai a ficha, né, assim. Tipo, mudou.
E você com uma carreira bombando nessa época, assim, com trabalho bombando, bombando.
Eu tava assim no momento que eu tava muito trabalhando muito. Em 2014 eu ganhei o prêmio, né, de Best Female Chef do restaurante. Então eu tinha muito convite assim para viajar, para Austrália, para ir para o Japão, fazer muitas coisas assim. E eu tava também num momento assim também que eu tava explorando outras coisas. Eu comecei a pintar e tava lendo um monte, e música, sabe? Eu tava num momento meio multi assim.
Você já tinha essa coisa com a pintura?
Eu tinha muito através da minha família, assim, da minha mãe, né? Eu gostava de desenhar, eu sempre fui muito rabisqueira assim. Então eu sempre gostei de escrever e de rabiscar muito também, assim, desenhos, né? Então, só que daí eu fui nessa, eu comecei a explorar o grafite assim nessa época, assim, o spray e pintar parede. E dei uma também porque foi muito difícil a separação assim, eu ainda processo, eu acho assim, esse, né?
Foi muito rápido tudo. E eu lembro que eu tava, quando eu conheci o Bruno, eu tava num momento também assim assim, também questionando muito meu lifestyle assim de vida na cozinha, né? Eu lembro que eu fazia terapia na época, minha terapeuta falava do ninho de andorinha, né, que era essa coisa de andorinha constrói, constrói, constrói, constrói o ninho, depois ela morre quando o ninho tá pronto.
De tanto, não sabia disso.
Então tinha uma coisa assim meio, enfim, um hiperfoco assim na cozinha, sabe, na coisa que eu comecei a me questionar também nessa época. Um pouco assim, começou a me dar uma vontade de explorar outros universos e tals. E aí veio a gravidez, e com a gravidez veio, justo, eu acho que pra gente, né, pra processar tudo isso, veio essa, esse desinteresse de repente assim por tudo assim, né, um vazio, uma coisa assim tipo, tchau, quieta aí, fica calma.
É porque é uma retirada da libido de todos os outros investimentos, né, para um objeto novo que a gente chama uma, poderia não, poderia não ser, na gravidez não te, não tem esse poder, mas ela te fez, né? Você aproveitou essa coisa, essa gravidade, né, da gravidez, puxou para dentro.
Eu lembro que eu botava na cozinha uma cadeirinha assim, ficava sentada assim, daí vinha aquele cheiro de alho da cozinha lá de cima frito assim, me dava um enjoo, cheiro de detergente assim. Mas daí a Manuzita nasceu e eu peguei isso assim, né? Eu troquei o foco assim, né? E eu acho que eu peguei muito para mim assim, né? Eu acho que se eu fosse ter filho hoje assim, eu não vou ter, mas se eu tivesse, eu acho que eu teria feito diferente assim, porque tipo o quê?
O que que você acha?
Eu acho que eu abracei muito assim, eu acho que eu isolei um pouco o Bruno de certa forma, a minha mãe muito também assim. Assim, veio, ficou um mês aqui, né? Eu tinha babá porque tive 4 meses de licença. Depois eu voltei a trabalhar, não no ritmo que eu tava acostumada, mas fui retomando assim, né? Então eu tinha essa coisa assim, esse— eu lembro que eu fiquei muito com a Manu assim, eu chegava a falar baixinho assim, era como se ela ainda, o corpo tivesse meio junto ainda assim, sabe?
Era uma coisa de funcionamento uterino, né? O bebê já nasceu, mas é como se você tivesse que estar numa experiência uterina ainda, né? De fornecer os alimentos, o ambiente de um útero, né? Perfeito, filtrado, o som filtrado, né? Como se não tivesse nascido completamente. Você acha que foi a gravidez ou você entra nas coisas de um jeito meio total assim?
Eu acho que eu tenho um pouco disso.
Porque com a cozinha também você conta que você foi até, né?
Eu tenho um pouco dessa coisa assim de de repente totalmente muito foco numa coisa, que nem para o nosso podcast. Comecei a falar também nessa história dos avós, comecei a me lembrar assim. Eu tenho uma coisa de dar uns mergulhos assim, é o teu jeitinho.
Então não sei se você faria diferente agora. Talvez se você fizesse diferente, tivesse mergulhado em outra coisa, não, não, você talvez não mergulhasse de novo na gravidez, mas em outra coisa, né? Porque tem uma intensidade né? Tem. Você vai contando as coisas e você vai contando de uma criança esponjona que absorvendo cheiros, texturas, cores, vozes, ambientes, né? Atentíssima a todos os sentidos, né? A impressão que dá é que você absorve mesmo tudo. Que coisa!
Eu tenho essa coisa assim e eu acho que assim na maternidade também assim, né? Eu abracei assim e eu lembro assim, eu acho que não foi depressão, que eu tive assim, mas tinha uma, tinha uma emoção assim de olhar para Manu e chorar, e de estar muito emocionada assim com aquilo, e ao mesmo tempo uma melancolia assim, é o lugar mesmo, né, que não é depressão, é um cimesmamento, né, um retorno para cima. Mas uma coisa, acho que assim, tipo, mudou, né, daqui, pum, né, assim meio um luto também, né, da vida que a gente deixa para trás coisas assim. E hoje tá maravilhoso.
Mas ela vai crescendo e vai dizendo menos, mamãe, menos. Como é que foi essa passagem?
É, eu acho que eu fiquei muito em cima assim, né? E daí eu acho que entra assim muito o Bruno, porque a gente teve educações, criações diferentes, né? A gente sempre falou muito sobre isso assim. Eu tinha muito essa coisa dessa avó e desse vô, né, tá única nessa atenção assim da mãe. O Bruno, ele cresceu mais solto assim, né? Era mais comunidade assim, né? E eu acho que no começo assim eu fui me dando conta assim, né, da Manu tá, sei eu, tá no chão com brinquedinho, e aí ela quer pegar o brinquedinho, eu pegar e alcançar o brinquedinho para ela.
Então isso eu comecei a me dar conta assim de que enfim não precisava, né? Eu acho que a gente tem que, aonde a gente tá ausente, é Eles entram com a parte insuficientemente boa, que significa que tem uma parte que é insuficiente, né?
Não é tudo, né? Não é, não dá conta de tudo, né? É só o suficiente, né? Tem uma parte que fica faltando, necessária, que é onde a criança entra com o dela, né? Onde ela cria alguma coisa. Que legal! Conta então, aí você teve, aí a Manu foi vendo você na cozinha e foi vendo essa família diferente. Diferente, uma família que tá fora do teu estado de origem, uma família menor.
Eu gosto, eu adoro o nosso formato standard assim, eu gosto.
Mas ela tem convívio com outras pessoas da parte do pai? Não, porque é uma mudança brusca que parece que você escolheu com bastante tranquilidade.
É, aqui em São Paulo é muito nós, né? A gente não tem muito essa rede de apoio. A minha mãe e a minha sogra vieram muito para cá. A família do Bruno também, os pais dele são casados até hoje, são do Mato Grosso, de Cuiabá. Eles têm também uma vida muito legal assim, muito simples, mas muito— pai dele gosta de pescar. Então a gente vai para lá e vai fazer uns programas assim de cachoeira, de beira de rio. E tem os primos, os primos irmãos dela, né?
Mas assim, mais de férias, né?
Não é que nem de férias, não é que nem experiência que você teve, não é que nem eu tive. Isso uma coisa que também assim dá uma angústia assim, né? Porque assim, não sei, mas essa infância assim eu tenho um pouco, porque é muito nós três. Sim, a gente viaja final de semana, vai para o sítio, para Piracaia, é nós três. Às vezes eu chamo, eu sinto essa, eu tô sempre querendo colocar criança junto para brincar, porque eu tive isso e eu acho que foi muito rico, né, essa coisa.
Mas é interessante, você teve isso, mas você saiu disso. Isso, porque isso também é rico, mas é só um lado da conversa, né? Também pode ser muito pesado, né? Também esse convívio pode ser muito difícil você fazer o que você quer numa família tão amarrada, né? Tão próxima, né? Então, o que às vezes a gente precisa sair mesmo, né? Mas a gente se queixa, mas tem um lado bom de poder voltar quando quer, né?
Ah não, com certeza, né? Mas aí que eu falo assim da primeira infância mesmo, né, Vera? Porque a gente tinha assim, a gente morava morava em Porto Alegre no mesmo prédio, a minha mãe e os irmãos. O meu vô deu um apartamento para cada filho quando casou, então a gente morava, os primos pequenos todos, no mesmo prédio. Era uma farra, era um na casa do outro.
Essa farra para os adultos também, os tios, os irmãos, os cunhados morando no mesmo prédio, vocês também era farra? Acho que sim, porque a versão das crianças é tão mais, né? Eu fiquei imaginando os cunhados tudo junto, fofocando.
Olha só, eu tinha esse ideal de família perfeita que ele foi sendo assim, tipo, não é bem assim ao longo, sabe, do tempo assim, né. Eu lembro, por exemplo, quando eu era criança eu tinha pânico de pensar que meus pais se separassem assim, né, porque tinha amigas que tinha pais separados. Então para mim, e assim, meus pais eles não brigavam, bravos na nossa frente assim. Meu pai era muito tranquilo, não tinha essa coisa assim, mas eu tinha um medo.
Eu lembro que a minha tia separou e aquilo já foi uma quebra assim, já deu um, né?
Aí numa família católica também, né? Abalou essa separação da tia a você?
Não abalou, mas eu lembro que eu comecei a enxergar assim, eu fui me dando conta assim de de algumas coisas, algumas dinâmicas, porque eu acho que tinha assim essa infância muito feliz de convivência, de família, de comida. Eu acho que aos poucos ela foi meio que, né, teve esse lado dos meus avós que foi, teve essa coisa, essa decadência assim, essa coisa que foi entrando num lugar muito escuro assim, deprimente assim às vezes.
E a família também, depois meu tio Morroi. Depois meu tio morreu num acidente. Enfim, né, como é?
Acho que é porque é difícil a gente separar o que é da ordem da infância, do olhar de uma criança para as coisas, né? A vida é bela, né? E o que que é da ordem daquela infância assim específica, né? Porque qual a versão da Manuela para essa experiência? Porque você tá comparando com uma experiência sua única, impossível de ser reproduzida, com a da Manuela, que, bom, tá lá com o pai, com a mãe. Ai, que bom que de vez em quando visita os avós não sei aonde, volta, mas tem um monte de amiga, enfim, amigo na escola, porque as crianças também têm expectativas diferentes, né?
É que ela adora estar com eles, ela é fuzarqueira, ela gosta de, tipo, ela gosta de, eu vejo que ela gosta de estar com gente. Afinal de semana passado a gente foi pegar ela na escola, a gente a gente ia ir para o sítio na sexta-feira, eu peguei ela e falei assim, ai, mamãe, hoje não é um dia legal. Eu falei, por quê? Não quero ir para Piracay, eu acho muito chato. Ela quer feda. Eu cheguei, mas a gente vai encontrar com os amigos lá, tu vai encontrar com as tuas amiguinhas lá.
Então assim, ela gosta, porque não é que vocês estão indo para o meio do lugar, vocês vão Não precisa ser família, é isso que eu quero dizer. A experiência dela com outro não precisa ser de priminhos, irmãozinhos e tios, né? A gente pode fornecer isso para eles.
Não, eu falo, mas eu nem falo disso, nem falo da família, mas eu falo desse convívio, desse calor humano de gente assim, sabe? De turma, né? Que eu acho que eu tive muito assim, que eu vejo que ela quer e que a gente acaba por ter famílias lá e aqui família ali. Às vezes amigos assim tem, né? A gente durante muitos anos a gente alugou casa na praia com amigos, com filho pequeno. Então, mas eu tô sempre querendo proporcionar isso assim porque eu acho saudável assim, né?
Porque a gente tá num momento assim de muita valorização dos amigos. Eu vejo as pessoas justamente porque não tem como manter essas famílias, não só porque não moram no mesmo lugar, às vezes porque não se suportam, às vezes porque tem histórias muito tristes, às vezes porque enfim, né, pessoas morrem, acontecem coisas, e amigos poderem ser valorizados também nesse lugar, né? A minha filha mais nova falava isso, a mais velha ia com os amigos e a gente achava, agora a gente vai te mimar.
Ela falou, não quero, quero uma criança. Tipo, vocês são chatos, não quero estar com vocês. E a gente achava que a gente ia compensar um pouco, né, dela ficar.
Mas é outra coisa, né?
Quero meus amigos. Até hoje, assim, os amigos são tudo, né, para elas. Isso é muito legal.
E hoje também essa coisa da convivência, porque tem essa questão de tela também, né? Da gente tentar colocar o máximo possível de tempo no analógico, na brincadeira, né, na troca real.
E como é que administra essa filha, que hoje tem 10, né, na virada aí da pré-adolescência, com o trabalho hoje? Como é que você retomou tuas questões com o trabalho? Como é que essa família entra, o equilíbrio dessa família com o trabalho para você?
Ai, Vera, eu quando eu tive a Manu, eu já tava, o restaurante já tinha o que eu quase 10 anos, né, de existência. Então assim, já tava mais estruturado. Eu tive que— eu era muito centralizadora assim na cozinha, muito de achar, né. Eu lembro que eu ficava até o final, mergulhada, último prato que eu achava que no final todo mundo relaxava. Eu tenho que ficar até o final para ver. E aí tipo na marra, né, eu tive que aprender a enfim, a delegar mesmo, né? Doeu criar uma liderança? Dói ainda, dói ainda.
Ai, gente, eu adoro delegar.
Não, não dói, mas eu sinto esse lugar assim, né? Eu me sinto às vezes, porque enfim, a cozinha eu acho que é essa coisa de tu tá ali, né? Tu ensina com exemplo também, né? Tem uma coisa, um trabalho duro. Então às vezes A gente cair num lugar meio da impostora que não tá tanto mais. Eu tenho esses mix feelings assim ainda, sabe? Acho que já avançamos bastante, mas ainda tem um lugarzinho assim que eu falo, ai, será que um dia eu vou...
Mas você acha que esse perfeccionismo não é dos cozinheiros também, dos grandes chefes? Não tem um traço até pra chegar onde você chegou assim?
Eu acho que é um lado meio obsessivo assim, né? Que a gente tem.
Bem colocado, né?
Muito por quê, mas é um prazer de fazer as coisas bem feitas, de fazer as coisas, né, assim, fazer direito. Assim, eu sou, eu quando eu cozinho, mesmo em casa, assim, eu gosto assim de arrumar o meu mise en place, sabe, de ter tudo limpo em volta. Para, tem um pouco isso assim, né. Mas voltando como eu me organizei, eu comecei, eu trabalhei menos, né, comecei a trabalhar menos eu ia, tipo, eu trabalhava, fazia todos os serviços.
Eu passei a trabalhar inicialmente, quando ela era pequenininha, só duas noites por semana. Daí depois, final de semana, domingo eu parei de trabalhar. Aí sábado eu ia só almoço. E o Bruno, ele trabalha muito de casa, né? Assim, ele tem estúdio em casa. Lógico que eu tenho também apoio de babá assim, mas ele tá presente em casa assim, né? Hoje a gente cada vez mais conseguindo dividir.
É porque nesse começo você disse que você ficou muito corujona e não deixou ele chegar perto. Você até acha que poderia ter chegado, né? Poderia não existe, né? Quer dizer, poderia, você fez o que podia, mas talvez hoje você repensasse, se fosse hoje, né?
É porque eu acho que às vezes a gente vai pegando muita coisa para gente, daí chega uma hora que tu te enxerga assim e estoura assim, né? Tipo, não deu assim, né?
Então eu acho que ele acusou bem a hora que ele percebeu que você falou deu? Ele reagiu bem? Como é que foi? Porque os homens estão nessa passagem, né?
Ele reclamava um pouco. Eu acho que para o Bruno foi também assim, né? Ele tinha— a gente tem 8 anos de diferença, né? Eu sou 8 anos mais velha que ele. O Bruno, ele é músico, produtor musical, compositor, e ele, a vida dele era tocar, né? Era tipo rodar o Brasil tocando. Viajando, fazendo show. Ele tinha o AP dele lá em Cuiabá, onde que, né, que eu fui para lá, a gente se conheceu tudo, mas ele ficava ali, girava, né. Então para ele foi um baque também, né, foi um baque assim no começo assim.
Ele não sabia muito, e eu acho que eu também, eu não facilitei essa abertura assim. Eu lembro que uma vez ele trocou a fralda da Manoela toda torta, já, já, perfeccionismo, digamos assim. Todinho direitinho, né? E aí eu acho que é um aprendizado assim, né? Foi um aprendizado nessa relação.
Mas essa coisa é muito importante assim, porque os homens, tudo bem, eles se amoitam, eles não sabem fazer, não treinaram, né? Eles não se responsabilizam. Acho que tem mil queixas em relação aos homens e são válidas mesmo. Às vezes as mulheres também não largam o osso, né? Tem, porque é um lugar de prestígio, é um lugar de controle, um lugar onde elas acho que só elas sabem fazer. E muitas mulheres não têm outra coisa que possam demonstrar que sabem fazer tão bem quanto cuidar de uma criança, né?
Porque tem todo o desprestígio da mulher no espaço público, né? No trabalho, enfim. Você ainda tinha uma carreira de muito reconhecimento, mas muitas mulheres só sentem prestigiadas mesmo no papel de mães. E às vezes não larga o osso, não deixa o cara entrar, né? Não deixa o cara.
Eu acho que eu fui muito assim tomada assim por essa maternidade, assim muito, né? Assim num lugar assim de de responsa mesmo, meu, né? Não pode acontecer nada com essa criança, né? Eu tenho que, eu tenho que me cuidar, eu tenho que cuidar dela, né? Tem que, tem que funcionar assim. O Bruno, ele tava, ele foi muito presente, ele tava muito do meu lado, mas eu acho assim, né, a gente conversa muito sobre isso.
Eu tava de sous-chefe, não tava de chefe, eu tava de sous-chefe. Mas aí eu tô te olhando, eu tô controlando.
E eu acho que ao longo dos anos a gente foi conversando e se ajustando, se acertando, né? Eu acho que eu fui soltando mais e ele foi pegando.
Minha pergunta é se ele foi pegando. Eu acho que tem uma geração de homens, inclusive você disse que ele é um pouco mais novo que você, que tá pegando, que entende que ali eles conseguem.
Eu acho que tem, eu acho que tem essa vontade, essa disposição de, né, a gente, o Bruno, ele adora para conversar assim. Ele é muito, ele não deixa passar nada assim.
Ai, que bárbaro!
Ele gosta de uma DR, então a gente, a gente conversa bastante assim, né? Teve um outro dia que eu tava meio assim irritada também, meio de TPM assim. Ele falou, poxa, tu podia ter dito só que era louça ali que eu tinha que ter lavado e não lavei, era só isso.
Bárbaro. E criar uma menina, Helena, você sendo mulher e tendo essa referência um pouco tradicional, né, da parte de, pelo menos do lado da sua mãe, né, um pouco mais rígida, das exigências de uma mãe, né, de uma mulher como mãe. Não digo de comportamento, de ser conservadora no sentido de valores, mas isso é um dos valores, né, que as mulheres preservaram muito. E agora você cria uma menina, como é que tá sendo para você, para vocês, né, para vocês dois?
Ah, é um, para mim é um aprendizado assim constante, né. Eu acho que assim, eu não, enfim, eu estranhei muito no começo, eu tinha muito desconforto em ser mãe, né. Às vezes eu não sabia, eu tava com um bebê, eu não sabia o que falar, se eu conversava, se eu ficava olhando, se eu Tem algumas coisas que eu e a Manu, a gente se aproxima mais, algumas situações, algumas eu sinto que às vezes é mais difícil, né? Então assim, nessa parte de, por exemplo, de arte, de pintura, a gente faz muito isso juntas.
E à noite, tipo, esse momento assim de dormir, de ir para caminha, é um momento que eu tenho com ela que a gente sempre se aprofunda um pouco mais assim nas conversas, né? Porque ela tá muito pré-adolescente assim agora também. Ai, mamãe, não sei. Como foi a aula? Foi legal. Ontem ela ganhou, a professora, o Bruno foi pegar ela, disse que é porque ela ganhou, tirou primeiro lugar no concurso de poesia, de rima. Aí eu falei, ai, que legal, filha! Nossa, parabéns, que orgulho, que bacana! Me tudo aqui? Ah, não lembro.
Segura o seu entusiasmo, mamãe.
E o Bruno, eu acho que ele tem uma naturalidade de ser pai, assim, em um lugar talvez de ter menos cobrança com ele, assim, que eu gosto. Então os dois, eles são muito, são muito juntos assim e são muito parecidos, eu acho também, assim, nos humores, assim, né? O Bruno, ele tem uma coisa do humor assim, de rir, às vezes achar uma coisa muito engraçada. E ela também é uma ela acha uma cena, um rosto, uma expressão muito engraçada e ela começa a rir muito.
E a gente hoje, eu assim almoço lá em casa, né, funciona. Eu raramente almoço em casa, né, quando eu tô trabalhando no restaurante. Eu trabalho no turno mais do almoço, não vou tanto à noite, né, vou quando precisa assim. Mas e aí o Bruno faz almoço, não todos os dias, né, mas assim ele que coordena um pouco o que que vai almoçar, que que vão fazer, isso. Ali. Aí depois de tarde ele vai para o estúdio, e à noite é o horário que ele, para ele é melhor trabalhar porque não tem o barulho.
E aí eu de dia eu faço meus corres, minhas coisas, e daí à tarde, esse finalzinho de tarde e noite, eu fico mais próxima da Manu assim, né, que é um horário um pouco às vezes difícil assim também, eu acho, porque eu tô cansada, ela também voltou da escola. Aí tem uma agitação, às vezes uma euforia assim, que, né, que a gente tenta aproximar, ficar junto. Mas às vezes eu vejo assim, às vezes, Manu, ai, para de me chamar, mamãe! Ela tá assim.
Sim, sim, acho que inclusive que é uma época de começar a ter um espaço dela só, né?
Mas é um horário que eu gosto assim de botar uma mesa para a gente sentar juntas, jantar, conversar. Filme eu tento ver assim, mas Às vezes ela não quer, mas eu gosto de botar um filme, ela vê por tabela um pouquinho assim, porque isso eu lembro muito da minha infância. Minha mãe via muito filme assim, e eu gosto muito assim de ver filmes também. Eu lembro que eu assistia assim, eu tava ligadinha no que tava acontecendo ali.
Eu acho que essa é uma idade justamente de descobrindo como se aproximar sem queimar etapas, e também porque senão eles desaparecem, eles não querem ficar perto de você, né?
Assim, se tu fica muito em cima, é horrível, horrível.
Uma das minhas filhas, como eu tenho duas, não preciso dizer qual foi, né? Mas ela tinha uma coisa comigo que eu chamava, chamava, ela não vinha. E aí quando eu tava fazendo uma coisa que eu realmente não podia dar atenção, ela queria colo. E você não fica comigo. Era um super jogo de tango, né? Um passo pra lá, um passo pra cá. E como a gente precisa ir cuidando com, né? Eu acho que hoje a gente já sabe.
Não pesar, né?
Tem estudos que mostram que fazer as refeições com as crianças faz diferença mesmo. Porque é uma hora que tem um certo ritual, que tem um olhar olho no olho, que tem. E muitas famílias queimam isso e a criança vai ver um filme enquanto poderia estar comendo com você. Então, e realmente essa, esse convívio, né, ele cria a possibilidade de em algum momento a criança falar alguma coisa, você reparar alguma coisa nela, reparar alguma coisa em você.
Mas essa perseguição que eu vejo que os pais tentam fazer, conta como é que foi, chato, né? Eles já queimam na hora, fala assim, meu, não, né, não é nos meus termos. Chega uma idade que nos meus termos, né?
É que tem uma coisa, eu acho, da gente também assim, né, de estar o dia fora e de tu também querer, né, querer dar atenção, compensar por culpa, né, um pouco de remorso.
Agora eu vou ser aquela mãe que eu não fui durante 20 horas. Ah, Helena, maravilhoso te ouvir, que delícia, muito bom, muito bom, adorei também. Adorei a tua família, essas histórias de família, achei tão bonitas, né? Tem muita, compõe tanta coisa do que você é hoje, tão perceptível isso, né? Como você fez esse mosaico disso tudo.
Muito. Eu carrego assim, eu carrego muito assim essa, meus avós assim, eu sinto que eles não estão aqui, mas eles são muito presentes assim.
E tem uma doçura, tem uma doçura no olhar e uma intensidade ao mesmo tempo. Mesmo tempo, né? Você é intensa e ao mesmo tempo é doce, né? É uma coisa muito linda, muito linda.
Ai, muito bom, Vera, adorei também.
E agora você pode me fazer uma pergunta também, o que você quiser me perguntar.
Eu vou fazer uma pergunta de quem, enfim, leiga em psicanálise, mas que eu sou muito curiosa assim. Eu vi recentemente aquele filme Se Eu Tivesse pernas, eu te chutaria, você viu? Enfim, que eu fiquei bem impressionada com o filme. E ela é psicóloga, né, no filme ela faz um atendimento ali. E eu queria saber como é que funciona essa coisa assim de quem faz análise, né, de não misturar a sua vida pessoal, as suas coisas, numa devolutiva, ou se se dá uma, como é que como é que é feito esse trabalho assim?
Existe esse distanciamento, essa imparcialidade, ou tu colocar também das tuas vivências faz parte da análise em si, né?
A resposta para essa pergunta interessante da Helena eu dou no próximo episódio, no bônus Pergunta a Vera. Ele é publicado na quinta-feira aqui no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise. Até! Esse foi o podcast Isso Não É Uma Sessão de Análise, um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Moalem. E a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decloé.
Fósforo Editora
Livro Os Imortais