Marcelo D2 aprendeu em família que esporro também é amor. E que festa é coisa séria
O cantor e compositor Marcelo D2 cresceu em uma família marcada por amor, violência, música e festa. Filho de uma mãe que precisou interromper ciclos de agressão e neto de uma mulher arrancada de sua terra para trabalhar como doméstica, carrega histórias duras, mas também a memória de uma casa que lutava pelo direito de celebrar. Na conversa com Vera Iaconelli, o músico fala sobre a morte da mãe, a responsabilidade de se tornar o mais velho da família, a criação dos cinco filhos e as mulheres que transformaram sua maneira de estar no mundo.
Ouça “Como ser mãe?” na Audible, nova audiossérie de Vera Iaconelli, com roteiro de Andrea Del Fuego e direção e produção da Trovão Mídia: https://www.audible.com.br/pd/Como-ser-mae-Audiolivro/B0GZ133PLQ
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Trovão Mídia. Oi, eu sou a Véria Conelli e isso não é uma sessão de análise. Um podcast criado por mim e pela Trovão Mídia. A cada episódio, uma pessoa me conta sobre a família dela. A gente olha pra onde tudo começou e fala do que se reestruturou e se reinventou com o tempo. Porque família nunca é uma coisa só, não cabe no modelo. E é nessas múltiplas possibilidades que a gente se identifica e pensa a nossa própria ideia de família.
Hoje eu converso com o rapper, cantor e compositor Marcelo D2, filho do Dark e da Paulette, irmão da Carla. Marido da Luísa, pai do Stefan, o Saim, da Lourdes, do Luca, da Maria Joana e da Maria Isabel, avô da Giovanna e do Kauk. O episódio de hoje tem o apoio da Audible, o maior serviço de audiolivro pódios e audioséries do mundo, da Amazon. A minha conversa com Marcelo D2 toca num tema que aparece sempre por aqui: a tentativa de muitos homens de fazer diferente da geração dos próprios pais.
Isso me fez lembrar de O Pai Tá Onde?, audiosérie original da Audible apresentada pelo Gregório Duvivier, que inclusive já passou aqui pelo podcast. Em O Pai Tá Onde?, o Gregório fala de uma forma linda sobre paternidade, A ausência, presença e os modelos de masculinidade que vão passando de geração em geração. Você pode escutar esse e outros conteúdos na Audible, o maior serviço de audiolivros e audioséries do mundo, da Amazon.
Dá pra testar gratuitamente por 30 dias ou por 3 meses se você for membro da Amazon Prime. O link está aqui na descrição do episódio. E pra encerrar, fica uma recomendação: ouça Como Ser Mãe, audiosérie original da Audible que eu apresento. Marcelo, bem-vindo.
Obrigado pelo convite. Mó galera, né? Essa galera aqui é muita gente, né, cara?
Vamos começar pela nossa pergunta clássica, que é qual a sua referência de família, pensando um pouco na história de onde você vem. Conta dessa família.
Acho que se eu fechar o olho é um quintal cheio. Eu sou do subúrbio do Rio, né, cara? Família da Zona Norte. Uma família bem pobre assim, mas que por parte de mãe e por parte de pai tinha uma certa intelectualidade suburbana ali. Meu avô era farmacêutico na época, que farmacêutico era o médico do bairro assim. Então tinha uma coisa ali. Então tinha meu pai, tinha uma condição um pouquinho melhor. Então a gente viveu nesses altos e baixos assim.
Acho que é normal de grana. Mas o que eu mais lembro mesmo é de quintal cheio. Meu pai era meio contra música gravada. Até um certo ponto a gente não tinha som em casa, então era música tocada, batucada na mesa, batucada no quintal, juntava todo mundo. Eu lembro muito da cumplicidade que meus pais tinham, sabe? Que eu achava o máximo assim, sabe? Meu pai cantava umas músicas, minha mãe respondia. Tinha essa alegria meio normal.
Mal assim, que depois eu fui crescendo, vi que tinha um outro lado também, né? Mas quando eu penso em família, eu penso nesse lugar cheio de alegria, cheio de gente feliz assim. A minha família, apesar de toda a dureza de tudo, era uma família bem feliz assim, festejava bastante, tinha, era meio que lutava pelo direito de festejar, sabe? Tinha essa coisa. Meu pai era um boêmio, e aí tinha muito álcool também, né? Então era uma coisa bem, eu tenho uma irmã, né, a Carla, 6 anos mais velho.
Então até a Carla nascer, eu me lembro do que eu me lembro, lembro muito de estar na noite com meus pais, sabe? Dormindo aquelas duas cadeirinhas de frente assim no boteco, deitado ali, acordando e toma uma sopinha e volta dormir. Boteco com música ao vivo, com música ao vivo, muito ali na Mangueira, no Buraco Quente. Meus pais eram mangueirenses, iam muito para lá, muito por ali. A gente viveu ali naquela área ali, né, Tijuca.
A gente não necessariamente especificamente na Tijuca, mas era Andaraí, Vila Isabel, aquela área ali era nossa área assim. E tinha uma, sei lá, tinha uma alegria de viver. Minha mãe, ela tinha essa coisa, ela falava que deixa para dormir quando morrer. Minha mãe tinha essa urgência de vida assim. Então tudo lá em casa era muito: "Vamos embora, vamos lá!" E para praia era um acontecimento, tudo Sabe, todo dia acordava era um grande acontecimento aquele dia, assim.
Eu lembro disso até eles se separarem, depois virou meio uma coisa um pouco mais nebulosa.
Quantos anos você tinha?
Eu tinha 12 anos quando meus pais se separaram. E aí eu comecei a fazer muita merda. Aí eu dei muito trabalho pros meus pais.
Mas você junta isso com a separação?
Hoje em dia eu acho que sim, na época eu não entendia, né? Mas eu acho que sim, cara. Comecei a fazer merda, a usar droga com 12, 13 anos. Andar armado, sabe? Minha mãe segurou a bronca. Ela viu meus amigos morrendo assim, e aí ela falou: "Cara, tu não vai mais morar comigo." Eu carreguei essa rejeição, achando que era uma rejeição, por anos assim. Depois eu percebi que na verdade ela salvou minha vida, sabe? Porque tava todo mundo morrendo onde eu morava.
Essa coisa, meu pai sair de casa, eu me senti muito homenzinho da casa assim. "Deixa comigo." Minha mãe tá maluca, minha mãe saía muito cedo pra trabalhar. Minha mãe saía às 6 da manhã, deixava eu com 12, 13 anos cuidando de uma criança de 6, 7. Era uma loucura, cara. Prendia o cabelo da minha irmã assim, ela ia com rabo de cavalo assim, com o olho todo puxado pra trás de tanto. A professora falava: "Meu Deus do céu, deixa soltar, ela vai ficar com dor de cabeça." Minha mãe deixava comida pronta, eu esquentava, eu tinha muitas obrigações assim quando meu pai saiu de casa assim.
E aí eu acho que isso me deu uma certa Amadureci muito cedo, assim, não tive muita adolescência não, mas esse, voltando lá pra família, esse lado da família, cara, eu percebi muito depois, assim, depois de velho, principalmente depois que fui pai, né? Comecei a olhar assim, falar: "Ah, é assim que se faz uma família, com alegria." Acho que é isso que a gente carrega, né, cara? Meio no inconsciente, assim, eu busquei, pô, tenho 5 filhos, sabe?
Eu acho que eu busquei todo momento ter uma família que eu projetei lá, sabe? Que é esse lugar que eu falei da felicidade, do alegria de viver. Eu acho que eu tenho isso agora.
Então, mas tem uma coisa que acontece muito, né, nas periferias do Brasil, que esse, a criança que cuida da outra criança, e que também dá esse tilt na cabeça, né, porque se você tinha responsabilidade de adulto, então você tem que ter os direitos de um adulto, né, e fazer cagada de adulto, né. Então é uma coisa que complica a cabeça, né.
É, mas ao mesmo tempo isso deu uma cumplicidade, eu e minha irmã, danada, sabe. A gente é muito parceiro. Cuidava bem? Era um pouquinho maldoso porque era irmão mais velho.
"Zé Mingau, deixa um pouquinhozinho pra ela, botar mais pra mim." Ela já te perdoou?
Não, ela é muito minha fã assim, minha irmã tem uma admiração, eu acho que essa cumplicidade, sabe, a gente tem, a gente tem um lugar que é só nosso, eu e ela assim, a gente carrega até hoje. Minha mãe morreu há 4 anos atrás, eu voltei assim pra morar ali perto do Catete, tô morando no Flamengo, eu fui morar ali porque era a área onde a gente, depois que meu pai, a gente é da Zona Norte, né, meu pai foi pro Catete, eu fui morar com ele, depois minha mãe veio, ainda voltou conhecendo um pouquinho assim.
Então ele virou na Saara e minha irmã tá ali, meu filho mais velho tá ali. Aí depois que minha mãe morreu, a Luiza sabiamente falou: cara, acho que a gente podia mudar para lá, para perto, ver mais eles, ficar mais perto, pegar na escola neta, viver uma vida ali mais próxima. Isso deu uma, deu uma acendida de novo. A minha família tem mudado muito, né? Porque depois que meu pai morreu em 98, mas depois que minha mãe morreu, deu uma reviravolta assim, sabe?
Quando eu tava do lado do caixão da minha mãe, eu olhei assim, cara, Tinha essa galera toda que são os meus filhos, meus netos, os filhos da minha irmã, sabe? Minha mãe tem poucos irmãos ainda vivos.
Você ficou a pessoa mais velha?
Eu fiquei a pessoa mais velha da família.
Foi isso que você viu em volta do caixão?
Foi isso que eu vi. Meu tio tinha sido, eu chamei minha irmã, aí ela colou do meu lado assim, eu falei: olha só, cara, olha isso, que a mamãe deixou isso aí pra gente, cara. A gente vai ter que tomar o juízo, sabe? O tal do juízo que ela falou a vida toda. Acho que tá na hora agora da gente tomar esse juízo e cuidar dessa galera, assim. Deu uma mudança de chave completa assim. Virou a minha casa, virou a casa do mais velho, sabe? Natal, almoço de domingo.
E como é que foi assumir isso? Porque não é tão fácil essa passagem, mas quando é interessante, né? Porque as famílias brasileiras são muito chefiadas por mulheres, mesmo quando o homem tá lá. De algum jeito tem um esteio que a mulher representa, né? E você assume esse lugar muito...
Eu acho, cara, que assim, se você tá atento, assim, minha família ela cuida muito antes desse verbo cuidar, sabe? Eu tive muito amor em casa, apesar de contar um pouco da história da família da minha mãe.
Era essa ideia mesmo.
A minha avó, ela é de Sergipe, de um vilarejo indígena assim, bem com 12 irmãos. Uma família do Rio de Janeiro, essas famílias de bem assim, do bem, classe média, foi lá e pegou ela com a promessa de que ela ia pro Rio de Janeiro estudar.
Bem aspas, né?
Ela virou empregada doméstica, estudava à noite e pagava a moradia dela com trabalho.
Isso quando eles deixam estudar, né?
Exatamente. E aí, não sei se ela estudou mesmo, mas o que eu percebi, eu fiz um trabalho, um disco E fui pesquisar isso tudo. Chegou um momento que eu falei: "Cara, melhor não mexer mais não, já tá bom. O que eu sei tá bom, não quero nem saber mais." Mas isso ela tinha 12 para 13 anos. E 4 anos depois, quando ela tinha 16, ela conheceu meu avô, que é um cara 12, 15 anos mais velho que ela, chamava Gentil. Isso é a parte da minha mãe, né?
E ela foi raptada pela segunda vez, saiu dessa casa, foi morar com ele, assim. E pelo que eu Sei das histórias, foi muito pesado assim, sabe? Tiveram 5 filhos, ele era muito violento, batia na família inteira, na mãe, nos filhos, e bebia muito, tal. Tanto que morreu num acidente de carro bêbado assim. E aí, cara, depois que tu vai ficando mais velho— eu tô falando isso por causa da chavinha lá. Depois você vai ficando mais velho, você vai percebendo o que que você tá carregando, sabe?
Eu apanhei pra cacete quando eu era criança. Muito, muito. Minha mãe me batia de tirar sangue, assim. E eu conversei isso com ela depois de velho, assim. Ela chorava: "Ai, filho, desculpa, não sei o quê." E ela foi contando essas histórias e aí, sabe, você vai amadurecendo e você vai falando: "Puta, eu sei porque ela me batia." Da onde eles vieram. Sim, sim. E aí, na verdade, isso aí mudou uma chave grande assim pra mim, sabe?
Pra nossa família. Porque minha irmã ainda bateu bastante nos filhos, assim. Mas mudou uma chave, assim, a gente percebeu: "Cara, a gente tem que quebrar esse..." Esse ciclo aí, essa violência transgeracional, né?
Foi sendo herdada, né?
Pra mim, assim, minhas conversas com a minha mãe eram bem duras assim, porque eu não aliviei pra ela também não, sabe? Eu falava: "Ah, cara, tu me batia pra caramba, tá ligado? Pô, mas tu dava muito trabalho." Ela falava: "Porra, mas também, cara, precisava bater a minha cabeça na parede?" Esse tipo de coisa, né, cara? Mas era uma conversa saudável assim, foi bem saudável pra gente. E vindo desse lugar, cara, assim, eu acho que meus pais fizeram o melhor que eles podiam assim, sabe?
Amor, afeto, carinho. Eu acho que maioria das vezes a gente entende que a gente é mau filho, que a gente precisa estar mais atento que os pais falam, porque os pais falam 30 vezes.
E você acha que a gente é pouco surdo, né?
Você fala: porque nunca ninguém falou isso. Eu falei 30 vezes você desse daí, você caiu, tá ligado? Eu tô te avisando. E é assim na vida toda, né, cara?
E você conta uma coisa uma coisa tão legal, Marcelo, que é assim: a gente sempre fala dessas heranças de violência que passam de uma geração para outra, como elas são duras, e às vezes a pessoa tem que ir embora da casa, não dá para ficar. E às vezes o mais saudável é ir embora mesmo, que, né?
Porque a gente saía da casa da minha mãe, que minha mãe casou de novo, e a violência tava ficando braba. Eu já tava um homenzinho, então eu tava querendo, já tava confrontando o marido dela, o meu padrasto, a ponto de quase sair na mão, sabe? E aí ela falou que é uma repetição, né, que vai se repetindo.
Mas ao mesmo tempo não era uma família isenta de amor, né, de amor e de possibilidade de conversar, de diálogo, né, que é o que você—
eu acho que tem um caos aí que as pessoas não sabem muito bem o que faz, tá ligado? É muito difícil ser pai, né, cara? Pai e mãe, né? É muito difícil, talvez seja a coisa mais difícil do mundo. E eu acho que por isso que tem que ter uma colaboração entre todos, sabe?
É porque ali no enterro da sua mãe você chamou a galera para participar, você chama tua irmã e fala: meu, a gente vai fazer isso aqui juntos.
É assim, minha Como minha mãe era muito alegre, a gente decidiu botar uma música. A gente botou um George Ben alto pra cacete, virou uma festa o enterro, assim. E lógico, tinha momentos de muito choro e tal. E esse olhar, essa coisa, eu acho que assim, quando você— essa chave não— pô, eu tô com 58, sabe? Então mudou, demorou muito pra eu assumir esse lugar, assim. Eu virar um cara, sabe? Ainda, olha como é que eu tô vestido, sabe? Ainda não tenho meus 58.
Eu me recuso a envelhecer.
Vai virar um velhinho chato, sabe? Mas fui pai e quando minha mãe saiu, acho que naturalmente, voltando lá na pergunta lá atrás, acho que naturalmente essa chave virou, sabe? Falei: "Cara, a responsabilidade agora é tua e da tua irmã." E é uma coisa muito legal assim, o que eu percebi na hora que minha irmã começou a chorar e falar: "Cara, é que minha mãe fez um belo trabalho e deixou uma galera maneira pra caramba com a gente, sabe?" Essa coisa que eu contei da minha avó, que ela foi praticamente escrava, escravizada, né, cara?
E depois superviolentada e tal. Acho que, sabe, minha mãe era super rebelde, foi Miss Bangu, escondida do meu avô. Meu avô bateu nela porque ela saiu no jornal de maiô. Filha minha não sai de jornal de maiô, essas coisas, né, cara? Então, acho que, sabe, teve um passo à frente ali que trouxe a gente.
Relação, sim.
Que trouxe a gente até aqui, sabe? Com muito esforço. Deve ter sido muito difícil pra ela. Jovem, ela tinha 30 e poucos anos quando eles se separaram, ela jovem, ter que organizar aquela coisa toda sem grana, com essa família super desestruturada, sabe? Eu tenho uma coisa que é muito pesado pra mim, quando meu avô morreu, eu tinha 8, 7 pra 8, assim.
Que foi um acidente de carro.
Foi um acidente de carro. E eu lembro, avô de mãe, né? Eu lembro que minha mãe sentou num banquinho, a minha mãe fazia tudo, mas além de tudo ela ainda era manicure, Tinha aquele banquinho assim que sentava no chão assim, né? Eu lembro que ela sentou naquele banquinho e chorando pra caramba. E eu me senti super culpado porque eu gostei que meu avô morreu, sabe? Falei: "Pô, vai acabar um pouquinho essa violência toda." Eu vi meu avô querer bater na minha mãe, casada com meu pai.
Meu pai tipo: "Não, cara, você tá maluco? Não vai fazer isso, não." Então isso foi meio, pra mim foi bem aquela violência acabada.
Você acha que ela não sentiu alívio também?
Não sei, ah, não deve ter sentido.
É que esse choro não vem sem alívio às vezes, né?
É, eu acho que ela pode ter sentido alívio, mas eu lembro que ela, depois ela virou uma pessoa, minha mãe era aquele tipo de, não podia ver uma porta de igreja aberta que ela entrava, então ela foi macumbeira, espírita, e ela no final da vida ela era espírita, e eu lembro que ela resolveu muito isso com o pai dela, falava muito sobre isso, ela falou: Ah, cara, a espiritualidade está me dando essa conexão com ele e tal. E sei lá, eu acho que ela carregou isso, esse choro, eu acho que vem tudo aí, né, cara? É, porque a falta de compreensão, de conexão dos dois.
É mais fácil fazer o luto de uma pessoa que você tem menos ambivalência, né? Que você consegue, bom, ficar com as coisas boas e não com um mix de ódio e amor, né? Eu lembro que quando eu estudei isso no Freud, que essa ambivalência atrapalha o luto, eu falava assim: nossa, agora caiu uma ficha aqui na minha cabeça! Porque a gente percebe, né, os lutos mais difíceis São aqueles que carregam um peso a mais, né? Da tua mãe você guardou uma coisa mais leve, né?
Porque a gente foi se resolvendo, deu tempo de resolver, deu tempo de resolver. A gente foi conversando muito, ela virou uma vovozinha muito legal, cuidou muito da minha irmã e dos filhos da minha irmã, sabe? Era muito aquele núcleo ali. Eu tinha uma independência assim, muita ajuda, muito Então ela mudou essa chave assim na nossa família. Isso foi muito importante, sabe, para gente.
Teve oportunidade na mesma encarnação, né, de se tornar essa pessoa melhor mesmo, sair daquele lugar lá da violência, né. Muito lindo isso.
Essas mulheres, cara, na minha família, elas são muito, sei lá, elas são muito resilientes, sabe. Elas não se renderam fácil a toda essa violência que foi essa coisa machista super porque sempre muito, as famílias são muito tradicionais quando convém aos homens, né, aquele sistema ali, né, cara. Elas foram muito importantes assim para ensinar para todos nós assim esse lugar assim, cara. Esse ano, Natal lá em casa, a gente sentou, eu contei essa história da minha avó para os meus filhos, porque eu achei que tava muito oba-oba, sabe?
Agora falei, cara, rapaziada, vocês têm que saber de onde que a gente vem, tá ligado? Acho que vocês esqueceram disso. Senta aqui todo mundo que eu vou contar uma história para vocês. E falei para eles, ó, sua avó, bisavó de vocês, a minha avó era isso, isso, isso. Minha filha chama Lourdes por causa dela, né? A Lourdes, minha filha, começa a chorar. Ai, minha avó, por isso que eu tenho esse nome, tal. Acho que todo mundo sabia, mas foi meio— meus filhos têm muitos privilégios, mas eu não acho isso ruim.
Pelo contrário, acho legal eles terem esse privilégio de estudar em boa escola, de poder viajar. Mas eu quero que eles saibam desses privilégios deles, sabe, que não foi dado. Foi com muito suor de muita gente que sofreu, que batalhou, e que, sabe, pra gente estar aqui agora falando sobre isso, fazendo show, um estádio, eles viajando pra Europa ou pra lá, sei lá, pra Austrália, essas coisas.
Você acha que talvez, bom, tem esse pai que separa e meio que fica um pouco distante também, né? Não é só porque o pai pode separar e tá junto ali, mas esse pai se afastou um pouco no divórcio?
Meu pai era, ele era um pouco distante já, casado.
Porque às vezes o moleque ele vai fazendo cagada na adolescência para chamar um pouco o pai, né, para ver se no fim você foi morar com ele, né.
Ele, acho que talvez seja aí aonde eu não consegui desamarrar esse nó do caminho que se repete e tal. Tem uma coisa meio assim de ser pai, né, cara, porque essa coisa para mim é muito difícil assim. Eu sou um cara muito egoísta, então ser pai e deixar tudo para lá para cuidar dos meus filhos é muito difícil para mim, sabe. Eu quero ter minha vida, tem carreira, quero fazer minhas coisas, sabe? Eu brinco com meus filhos assim: se precisar, eu tô aqui, mas não precisa não, não precisa não, que eu tenho minhas paradas aqui para fazer, sabe?
Então, para mim, isso é um peso assim, essa coisa de tentar ser mais presente que meu pai foi, mas também não perder minha individualidade, sabe? Eu entendo bem ele, eu tenho muitas questões assim. Eu jogava bola bem, meu pai não ia ver eu jogar bola, achava isso um absurdo, sabe? Falava: pô, meu pai nunca vai me joga bola e tal. E você fica puto com isso, carrega isso, a raiva, né? Uma raiva que eu acho que eu nunca fui desse.
Mas não ia te ver por quê?
Não sei, ele tinha outras coisas para fazer, sabe?
Porque você tem uma carreira que demanda, não é uma carreira comum, né? Quer dizer, um farmacêutico ele começa, né? Ele abre o serviço.
Não, meu pai era chefe do departamento pessoal, meu avô era farmacêutico.
Não, então, mas assim, você é músico, seu pai trabalhava numa empresa, por exemplo, né? É, e aí, o que que acontecia?
Ah, não sei, cara, eu já pensei nisso, mas ficou enigmático para você. Não, acho que ele tinha coisas que ele queria fazer mais importante do que ficar ali, sabe? Talvez desse muito trabalho para ele, era muito, eu dava muito trabalho, talvez eu desse muito trabalho, muitas questões, sabe? Filhos são, tem muitas questões. Então, não, acho que tudo bem ele ter feito isso assim agora. Pra mim foi difícil quando eu era mais novo, mas agora com 58, sabe, talvez eu esteja pondo na minha conta pra me dar um alívio também na minha culpa, sabe, pra falar: "Tava tudo bem se eu não tivesse todo dia lá quando meu filho jogar bola." Porque eu entendo que, cara, eu tenho total consciência que meus pais fizeram o melhor que podiam, assim, sabe, na hora que eles podiam eles estavam.
Eu imagino que deve ter sido muito difícil pra eles, sabe, meu pai era um boêmio, minha mãe sai desse lugar, então ela queria uma estabilidade na vida, meu pai perdia emprego, aí voltava a trabalhar, e a gente morava na favela, favela, a gente saía da favela e morava no asfalto. Aí morava na casa da tia, da irmã, dividindo apartamento, aí ia para não sei aonde. Isso devia deixar ela maluca. E ele tava tudo de boa, para ele era ótimo.
Eu morei, quando morei com meu pai, a casa que a gente tinha, no kitnet, na Rua do Catete, que não tinha chave na porta, entrava quem quisesse. Os amigos entravam, saía, a gente não tava lá. Entrava, chegava em casa, tinha alguém lá sentado no sofá. E isso deixava, esse era um caos que se fazia em casa assim. E minha mãe, ele era um cara que não gostava de falar não, sabe? Fala assim, vamos não sei onde, vamos "Não, faz isso, faz." Mas assim, eu tenho consciência de que eles fizeram o melhor, sabe?
Não tenho mais essa de cobrar, falar "Ah, isso me..." Talvez quando eu fui adolescente ali, quando eu era adolescente, isso causou um pouco, né? Eu fui um adolescente muito raivoso, cara. Pode ter sido isso, sabe? Eu era muito raivoso, brigava pra caramba na rua, virei punk, né? Essas coisas pra, sabe, pra botar a raiva pra fora, assim. Tinha um amigo meu que quando eu comecei a cantar, ele falou assim: que era tudo punk, rap, naquela coisa foda-se a polícia, governo, sistema e tal.
Ele falava pra mim: "Eu ainda vou ouvir você cantar sobre amor." Eu falei: "Nunca, nunca." Sei lá, 15 anos depois, tava eu lá cantando samba. This episode is brought to you by Google Chrome. You think you know a browser, but Gemini in Chrome, that's new. It can help you with practically anything on the web, like restoring a vintage motorcycle from a 50-page restoration blog, or finally break down that long article you've had open for weeks.
Gemini in Chrome is here for it. Ready to make anything online make sense? There's no place like Chrome. Check responses, set up required compatibility, and availability varies. 18+. Mas cara, eu acho que eu não carrego mais essa culpa assim, sabe, de falar. Eu acho que é o que é, entendeu? É o que é, cara. Se a gente ficar terceirizando isso, sabe? Eu tenho um papo com meus filhos muito sobre isso, porque assim, eu tenho filho de 34, 35, 2001, 35, 2000, para não errar a idade, vou falar os anos, 2002, 2004 e 2000, 2002, 2004 e 2021.
Tem filha de 4 anos e filho de 35. Então tem, e a gente fala muito sobre isso assim, sabe, quando tem essa cobrança. Ah, mas você, isso, eu falei, cara, eu tô fazendo o meu melhor, tá ligado. Esse é o pai que eu posso ser aí, sabe. Não vai dar para tu arrumar outro porque não é assim, não dá para trocar. Eu tô aqui, eu tive minhas falhas assim nesse caminho, nessa caminhada aí como pai. Acertei, sabe, chamei a responsa de volta com a Lourdes mesmo.
Foi uma, que era uma relação difícil com a mãe, isso respingou nela, sabe, nos afastou por muitos anos. Hoje é minha melhor amiga assim, sabe, minha filha parceiraça. Tamo lá juntos, e me ajudou muito essa minha relação com a Lourdes, sabe, a entender isso, porque foi conturbada. E depois eu consegui acertar, a gente foi fazer terapia junto, ela gritou, eu falei, tá, mas agora eu tô aqui, cara, sabe, e tá tudo certo, mas eu 'Fala aqui, não existiu.' Vocês fizeram terapia de família, vocês dois juntos? Nós dois juntos, poucas sessões assim.
Às vezes umas intervenções já, né, dão uma, faz a coisa andar, né?
Deu um empurrãozinho, a gente, eu entendi o que ela queria.
Foi ela que pediu?
Cara, não lembro, eu sei que a gente tava, eu e a mãe dela, a gente tinha um problema muito sério, e a gente entrou numa briga pela guarda dela, e a gente acabou entrando em acordo que ela ia viver com a avó, mãe da mãe, e elas foram morar em Búzios. Aí nos afastou muito. Aí quando ela fez 13, 14 anos, ela começou a dar problema lá. Ela falou: pai, quero morar contigo. Tá bom, vem morar comigo. Aí bicho pegou, né, cara, que aí vem aquela coisa adolescente cheia de questões.
Que interessante, né, porque você foi morar com seu pai, você dava problema.
Eu briguei com ela, botei ela para fora de casa, igual minha mãe fez comigo. Não, cara, não vai dar não, vai morar com a tua avó. Aí ela: não, não Foi um— são ciclos, né?
E aí vocês fizeram terapia quando? Tem a ver com esse momento que vocês fizeram?
Com esse momento, quando ele foi morar comigo, a gente tava tipo se pegando, sabe? E eu viajando para caramba, ela morando com a madrasta, sabe, que já tinha dois filhos, tava um caos a casa assim.
A gente falou, cara, e a madrasta não é mãe, e os filhos eram seus?
Os filhos meus com a madrasta dela. E aí, cara, a gente foi fazer terapia. Ela talvez seja a que mais me exigiu como pai, assim, sabe? Até hoje. "Pai, eu quero que você faça isso." "Pai, o que que eu..." Sabe? Que as meninas são mais assim, as duas. Elas me botam mais contra a parede.
Elas falam mais?
Falam mais. Contam tudo, cara. Quer dizer, não deve contar tudo, mas contam bastante. Tem uma coisa na nossa família que a gente fala muito sobre as nossas experiências. Sim, todas, sabe? Minha filha vem falar, primeira vez que transou, e eu: "Nossa, tá, como é que foi? Foi bem? Tudo certo? Ele foi gentil? Tudo bem? Usou camisinha? Ok." Era só isso que eu precisava saber. A gente tem uma relação de muito— todo mundo se cuida muito ali, sabe?
É uma— eu sei que talvez eles achem que eu pudesse fazer mais, eu tenho certeza disso, como achavam que meus pais podiam fazer mais, sabe? Mas, cara, Tem um lugar que não dá, sabe? Assim, aquela coisa, se precisar eu tô aqui, mas não precisa não, cara, você resolve aí também, sabe?
Você se resolveu muito de pequeno, com 12 anos você já tava cuidando da de 6, né? É, a gente fica achando que eles também podem, né?
Eles podem, sim, eles podem, sabe? Eles podem. Assim, é legal contar com os pais, mas, cara, tem uma coisa que eu falo assim, ó, 20 e poucos anos, tá na hora de sair de casa, que não é 12, 20 e pouco, né?
Não é 12, né?
Outra fase, né? Outro momento. Exatamente. Basicamente, ah, cara, eu tenho 5. Então a Luiza fala: quando cobra a cabeça, descobre o pé, sabe? Tem sempre alguém com problema, terminou com namorado, o outro tá não sei quem, tá saindo demais, o outro aí daqui a pouco saiu demais, aí não sai mais, terminou com a namorada, não sai mais, fica em casa para caramba. Tudo é um exagero, é uma questão que a gente enquanto filho a gente não sabe que os pais passam, né? Filho é muito ingrato, né, cara?
Sim.
Eu falo isso enquanto filho, não enquanto pai, tá? Meus filhos. Filho é muito ingrato, né, cara? A gente não sabe o quanto que aquela coisa...
A gente idealiza os pais, né? E quer que eles mantenham esse papel. E aí eles vão caindo e mostrando que não são aquilo.
E você vai ficando, puta, né?
Ficando muito traído, né? Você não era o super-homem? Você não era o maravilhoso? Agora é só uma pessoinha aqui em casa?
Agora você não foi me ver jogar futebol? É, mas é isso, eles vão ter que aprender isso também, né? Eu acho que eu aprendi.
Como é que foi essa passagem? Então você fica com a sua mãe, quando é que você tem esse filho? Você teve esse filho, você tinha uns 20 e poucos anos?
22, 23 para 24.
Como é que foi essa passagem de uma família para outra?
Cara, assim, até eu fazer o punchline, até eu virar cantor, eu me sentia meio apagado no mundo, assim, parecia que as pessoas não estavam nem aí o que eu tava fazendo. Porque, sabe, minha mãe sai para trabalhar 6 horas da manhã, eu matava a aula, fazia o que eu queria, sabe. E ninguém tava muito aí, ninguém, sabe. De vez em quando me chamavam, falava: pô, merda que tá fazendo? Só para dar expurra, aquela coisa. E ninguém me acompanhava muito assim.
Então eu fui morar com meu pai, meu pai trabalhava, tinha vida, um boêmio, né, tinha vida noturna dele e tal. Muitos amigos, festas e mais boteco assim. Era botequeiro, meu pai é botequeiro. Uma vez perguntaram para ele qual é a posição preferida dele, ele falou que era essa daqui, ó, com cotovelo no balcão. Eu lembro disso, meu pai é um cara desse tipo de frase. E aí, sei lá, eu fiquei— quando eu saí do quartel, eu namorava uma menina.
Quando eu fui para o quartel, fiz merda para caramba no quartel, fiquei 8 meses preso. Preso porque fui pego fumando maconha com fuzil e tal. E aí fiquei preso, toda hora preso. Namorada não aguentou, foi embora. E aí quando eu saí do quartel, tava meio ali perdidaço, perdidaço, não sabia o que fazia da vida. Fui para Brasília andar de skate. Eu queria ser skatista profissional, mas não tinha talento e nem disposição para treinar, treinar, treinar.
E aí encontrei, conheci a mãe do Stefan quando eu tinha 19, ela tinha 16. A gente começou a namorar, eu fui lá falar para mãe dela que a gente ia morar junto. A mãe dela falou: você tá maluco? Ela tem 16 anos. Eu falei: não, pode deixar, eu vou cuidar dela. E a gente foi morar junto assim, eu e ela. E meu pai me deu uma ajuda dentro do possível assim, sabe, que não tinha uma grana. A gente morava no kitnet, eu morava eu e ele.
E aí trouxe ela, botei ela dentro de casa, e aí ele saiu, né? Ele falou: não, eu vou sair, vou deixar tudo aí para você, vou montar outro apartamento para mim, tu fica aí, mas resolve esse problema aí. A gente não teve filho com 19, então demorou 4 a 5 anos para ter um filho. E aí quando o filho nasceu, caiu aquela ficha: caraca, fodeu, não vou ser skatista. Conheci o Skank, que foi um amor assim na minha vida, tá ligado, que era um encontro assim na rua por conta de camisa de banda Ele virou meu melhor amigo de uma hora para outra assim.
Fizemos o Planet Ramp, eu separei e aí começou uma coisa, sabe, de essa coisa meio rockstar, você começa a ficar famoso, começa a namorar todo mundo. E aí, cara, eu fui casado, né? Eu tive a Lourdes com a Manu, depois eu fui casado 18 anos, que é o Luca e a Jojo, né, Maria Joana. Sei lá, acho que dentro dessa família eu tentei arrumar essa família sempre, sabe? Sempre eu quis ser o rockstar, eu quis aproveitar esse lado loucão da vida e tal, mas eu queria ter uma família, sabe?
E essa foi uma tentativa sempre de ter uma casa, um lar, um... Isso pra mim foi... Não foi construído assim, sabe? Eu casei com a Luiza agora, Agora, há 7 anos atrás, e eu resolvi pedir a mão dela para os pais, falar: quer saber, eu vou percorrer esse caminho tradicional que eu nunca fiz, vou tentar fazer a coisa certa para ver se essa coisa é certa realmente. E aí a gente tem uma família agora, cara, sensacional. Assim, a Luiza é uma baita de uma parceira, sabe?
Esse momento que o mundo tá vivendo é super importante, assim. Ela é 20 anos mais nova do que eu, então assim Eu tenho ela e duas filhas feministas assim que super me botaram no caminho assim, sabe? Pai, não dá para falar isso, cara.
Te apertaram? Te apertam?
Me apertam, me apertam. Às vezes eu falo umas besteiras, fala.
Elas estão com essas que estão, que te falam isso? Quantos anos elas têm?
2000, 2004, 22. Ela vai fazer 22 esse ano e a Lourdes tem 25, já fez agora. Elas são, cara, são barata, é um barato, é um barato aprender com elas também, sabe? Olhar o mundinho assim pelo olho deles assim. Delas, de todos eles, né, cara. É muito legal ter filho adulto assim nessa fase de descoberta, porque para mim foi muito difícil essa época. E quando eles começam a entrar, dar esse tilt, sabe, cara, que eu vou fazer na minha vida, que que eu, sabe, tá todo mundo nesse, como é que é quando eles entram nessa fase?
Ah, porque todos eles meio que orbitaram dentro desse lugar que eu escolhi assim da arte, sabe. O mais velho, ter uma carreira, sair, né, ter uma carreira legal, sabe, de milhões de seguidores e lançar disco. Me chamou para ajudar ele a terminar o disco agora. A Lourdes, ela é uma multiartista que não sabe muito bem o que quer fazer, ela vai fazendo tudo, eu acho ótimo. Ela é DJ, ela é pintora, acho que ela quer pintar, mas tá tocando, tá.
O Luca é DJ, Eu entrei, a Jojo tá fazendo faculdade de cinema na PUC, então tá todo mundo meio ali em volta assim, sabe? Acho que eles nem perceberam isso, mas eles meio que seguiram, sabe, como se eu fosse um dentista e tá todo mundo fazendo o doutor da gente.
Cada um na sua especialidade, mas todo mundo ali. Foi o que é isso pra você?
Ah, cara, é mó barato porque assim, eu acho que eu me tornei o Marcelo D2, eu não sou mais Marcelo Peixoto, sabe? Eu construí esse Marcelo que tá aqui, eu construí essa coisa, então pra mim isso Eu amo arte, minha casa ela respira arte, a gente tem um cantinho do saber onde tem livros e discos e sabe, do conhecimento, nossa sala do conhecimento, tem obra de arte pra tudo quanto é lado, eu viajo, eu vim aqui pra São Paulo pra ir num show amanhã, sabe, eu viajo pra ver show, então eles estarem nesse universo pra mim de uma certa maneira me conecta com eles, né, cara, sabe, a gente troca, grupo de família é Todo mundo: "Olha esse filme, vocês viram esse filme?" "Ah, pô, essa exposição que tá rolando." "Ah, não sei o que lá." Então tem uma conexão ali muito legal, sabe?
Todo mundo, cada um fala. Sai um disco de rap, as meninas falam: "Pai, Estef, vocês que são os rappers da família aí, ó." "Ouve isso aí, ó. Vocês ouviram?" e tal. Tem essa comunicação que faz uma ligação ali no núcleo familiar que é bem legal, assim. E é um lugar super legal, né, cara, de arte. Tem um intelecto assim que é interessante, sabe? Às vezes dá um pouco de trabalho, né, cara, porque fica todo mundo muito contestador, todo mundo começa aquela coisa, essa geração de vocês, todo mundo quer fazer revolução na mão do Elon Musk, que merda é essa?
E eles começam, você tá velho, mas tem esse embate de gerações assim que eu acho ótimo. Eu boto uma pilha, eu sou bem provocador assim também, então eu jogo, boto lenha na fogueira, jogo gasolina, deixa todo mundo.
Você conseguiu conciliar as mães dos seus filhos, você consegue, conseguiu, cara?
Assim, é difícil assim, porque quando você vive com tanta intensidade, quando, como eu vivo, sabe, depois separa, aquela intensidade vai embora, né, cara? Então parece que assim, eu falo super bem com todas elas, tal, a gente, principalmente agora sobre os filhos, né, cara?
Mas você tem essa comunicação com elas?
Tem essa comunicação assim, a A mãe de Stefan casou com meu melhor amigo. Quando eu separei dela, fui morar com esse cara, e ela por ir lá deixar o Stefan comigo, tá, não sei o que lá, acabaram eles. Tá casada até hoje com ele, foi um baita de um padrasto pro meu filho. Isso foi muito bom porque era meu melhor amigo. Falava: quando ele tava dando problema, teu filho tá aqui, ó. Nosso filho, quando ele tava ganhando medalha, nosso filho.
Brincadeira, ele foi um Eu acho ótimo assim, sabe, o Stefan no Dia dos Pais ele fala: "Eu tenho dois pais." A mãe da Lourdes, a gente teve muito problema, mas dentro do possível a gente se dá super bem hoje, sabe, assim, com uma certa distância saudável assim. A mãe do Luca e da Jojo foram 18 anos juntos, então a separação foi um pouco difícil, né, cara. Então a gente tem 7 anos, já tem bastante tempo, mas ao mesmo tempo Então a gente fala, sabe, essa semana nosso filho tocou de DJ, eu recebi o vídeo, mandei o vídeo pra ela, pô, olha aqui nosso filho e tal.
Eu tenho essa ligação saudável, né, cara? Porque assim, a gente tentou, eu e a Camila principalmente, a gente tentou não respingar muito a nossa separação nos filhos, mas sempre respinga assim, né, cara? Não tem jeito, eles entendem muito bem. A Luz sofreu um pouco mais da minha relação com a mãe dela porque foi bem conturbada mesmo. Foi uma briga danada assim, a ponto de ir pra justiça, né, por causa da guarda e tal. Então ela sofreu um pouco mais.
A minha relação com a Sônia foi muito boa assim, sempre. Como eu casei com ela, tinha 16 anos, então parece que a gente é meio que irmãos mais velhos assim, tem uma coisa ali de muitos anos, né, cara, muitos anos de filho com 34, sabe, já passamos por tudo nessa vida aí.
Entre eles, como é que funciona? Porque 34 para 4 é bastante.
Assim, o Stefan, como ele repetiu, né, ele casou muito cedo, ele é casado, ele tá com a mesma menina há 20 anos, desde os 14. Ele conheceu na escola, eles namoram desde então, casaram e tem uma filha, a Gigi, que é um barato. Ele tem um núcleo dele, né, ele, a mulher e a filha. Então ele é um pouco mais afastado, essa distância dos outros 3, que os outros 3, ele é 91, os outros são 2000, 2002, 2004. Esses três, eles estão mais próximos ali.
Eles têm uma admiração muito grande pelo irmão mais velho, sabe? Pô, nosso irmão é foda, tal.
Que tá em outra fase completamente.
Que tá em outra fase, mas eu sempre falava pra eles assim, sempre que tinha problema, falava: tá maluco, cara, vocês são filha do Marcelo D2 e irmã do Saim, qualquer parada chama a gente. Então ele tem esse lugar, ele é quase como se fosse uma dupla comigo. Ele tá mais próximo de mim do que dos irmãos, sabe? Ali, eu acho. Mas então ele tem essa coisa dos irmãos. A gente veio fazer uma campanha do Dia dos Pais ano passado, todo mundo aqui em São Paulo.
E foi um barato assim que a gente jantou e tal. E eles, eles estavam conversando sobre, eu fiquei sabendo depois, né, sobre essa coisa dos pais, das mães, eles falando sobre as mães. Eles têm uma relação bem legal assim. E a Bebel, 4 anos, os outros 3 ali no meio são bem próximos, né, são jovens adultos, são jovens adultos, estão todos meio próximos ali, sabe. Juntos, um vai tocar, o outro vai ver, brigam, né, brigam um pouco até.
E a Bebel, né, cara, que aí é uma— a Luz tem um filho, né, o Kalki, que é um barato também, menino super doce assim, que tá crescendo junto com a Bebel, né. Ela chama ele de sobrinho. Cadê meu sobrinho? Ela tem 4, ele tem 5. Cadê meu sobrinho? Aí ela apresenta pra todo mundo: esse aqui é meu sobrinho, o Kalki. E ela é um cara, ela foi uma bênção assim nessa família. Ela tem uma coisa muito difícil de decifrar ainda assim para mim, que ela, ela, a Luísa tava grávida quando minha mãe morreu.
A última pessoa que minha mãe falou foi com a Luísa, aniversário da Luísa, ela ligou para dar os parabéns e ela teve o ataque cardíaco assim na hora ali com a Luísa no telefone, foi Tipo, Luiza, tua mãe tá passando mal. Aí começa aquela correria tal. E ela, então tem uma passagem ali, sacou? As imagens estão assim bem. E aí chega a Bebel, que é muito parecida com a minha mãe. Ela não anda, ela quica. A Bebel, ela quica. Ela só, a gente mora no apartamento grande, ela anda de bicicleta para lá e para cá.
Ela não, se você fala assim, vai ali, vou ali beber uma água, ela não sai andando, ela sai quicando. Não brinca sentada. É super esperta assim, né, cara. Então ela tem esse, ah, é xodozinho, né, mais novinha assim. Ela tem os irmãos, sabe, os irmãos são, ela fala que são os irmãos dela, são adultos, né. Então ela fala na escola, você aí, Bebel, você tem irmão? Tem irmãos adultos.
Ela fala irmãos adultos?
O Luca, o Luca, meu filho, tem 1,80m e tal. Então ele é, ele é o gigante para ela, sabe. É alguma coisa no alto, fala, vou chamar Acho que ele alcança. Tem essa coisa, as irmãs, sabe? As irmãs, a gente tava na Bahia, final de ano agora, aí as duas irmãs, vamos sair da praia, as duas mais velhas, vamos tomar banho junto. Aí a Bebel na hora, eu quero ir também. Aí ela foi, eu fiquei só ouvindo, vamos ouvir Beyoncé. Aí ela, é exatamente isso que eu quero, que eu queria ouvir.
Aí as irmãs falando, Bebel, a gente vai te ensinar a ser uma feminista. Aí a gente só ouvindo. E aí o bebê: "Ó, como é que foi o banho com as irmãs?" Ela: "Peito pra todo quanto é lado." Que fofa! Ela é muito fofa, ela é muito fofa.
Como é que você tá administrando agora na tua quinta paternidade, vamos dizer assim, uma criança de 4, a tua carreira e esse tempo entre o que você quer fazer?
É muito louco ser pai com 23, muito diferente de ser pai com 50 e pouco, né? É completamente diferente, sabe? Eu era um malucão de 23 anos, agora sou maluco de 58, mas tô mais calmo, né, cara? Eu e a Luísa, o que eu aprendi assim é que esse núcleo tinha que mudar. Então eu e a Luísa, a gente resolveu que a gente ia levar a Bebel com a gente, porque a Luísa trabalha comigo, a gente faz muita coisa junto. Então a gente falou, a gente não vai deixar ela para trás, ninguém vai ficar para trás, vamos embora todo mundo.
Hoje a gente vê sem ela, a gente tá falando, pô, a gente tá deixando ela para trás. Olha, cara, ela tem alma, tá ligado? E isso mudou assim, sabe? É diferente. Todos eles foram muito diferentes assim, tirando o Luca e a Jojo, que eram da mesma mãe, os outros são mais diferentes. Então foi tudo muito diferente, momentos diferentes na vida.
Mas a tua disponibilidade, você acha que mudou para estar junto, para carregar?
É, cara, eu acho que assim, eu acho que talvez as mães não concordem com isso, mas eu acho que eu tava presente ali, sabe, do jeito que eu podia, assim. Às vezes você tá em casa, não tá presente, sabe? Porque essa coisa do artista, cara, eu não tenho um horário de trabalho, sabe? Eu trabalho 24 horas por dia, o tempo todo, toda hora. E às vezes eu tô, aí eu falo: pai, pai, pai, pai, presta atenção aqui. Aí eu olho para ela, falei Então aí ela vai e fala, ela me chama atenção assim que eu tô lá no mundo da lua olhando para o teto, sei lá, compondo uma música.
Você fala que você começou com a Luísa, você começou a trazer a Bebel, vocês vão juntos, ninguém vai ficar para trás. Você acha que mudou alguma coisa então?
Acho que mudou mais, é, talvez como é para Bebel sim, mas eu acho que mudou mais eu e ela, sabe, eu e a Luísa, de não tá ninguém sobrecarregado ficando em casa, sabe.
Entendi.
Tá todo mundo fazendo show, tá todo mundo curtindo, tá todo mundo trabalhando, tá todo mundo, sabe, a gente tem nossas diferenças, mas a família tá junto lá. Acho que talvez seja isso que eu tenho aprendido nesses 30 anos de carreira, sabe, que a estrada é muito solitária, cara, e sabe, aí vai ficando cada um para um lado, o tempo vai passando, e sabe, você vai fazendo amigos na estrada, a banda vira uma outra família, sabe.
É, acho que as pessoas que não passam por um tipo de carreira como essa não tem ideia, né, do que que é.
Eu me acho um privilegiado assim, porque dentro desse universo da música, acho, sei lá, deve ser um 0,0001 consegue, sabe, sobreviver e viver bem. E eu tô há 30 anos, era 30 anos, sabe, lançando disco, fazendo barulho, sabe, o sucesso que eu quis assim, não sucesso que esperavam de mim. Eu acho que eu fiz o sucesso que eu sabe? Eu tive uma banda super contestadora, polêmica, segundo a visão dos mais conservadores, mas sabe, eu fiz o que eu queria, sabe, enquanto artista.
Então sou muito privilegiado dentro desse lugar. Eu acho que eu fiz boas escolhas nesse caminho aí profissional. E aí eu acho que sobrou um pouquinho para, sabe, para minhas relações pessoais assim. Isso bagunçou as relações assim, né, cara? Então, sei lá, quando eu e Luiza a gente se encontrou e a gente falou: "Ah, a gente não quer namorar nunca mais, nunca mais eu vou casar." Um ano depois a gente tava casado.
Falei a mesma coisa pro meu marido, 23 anos atrás. Tamo casado até hoje.
A gente, nosso primeiro encontro foi assim: "Não, ela tinha terminado, eu tava terminando." Então era essa coisa meio, os dois saindo de uma relação falando: "Nunca mais, nunca mais eu vou me relacionar." "Ah, não, não sei o quê lá." Depois a gente tava casado, morando junto. Mas esse, sei lá, eu acho que a gente, a Luiza por ser muito jovem, sabe, é outra geração. Luiza era fã do Planet Ramp, sabe? É 20 anos mais nova, então ela tem um outro olhar assim, sabe?
Ela não aceita ficar em casa, sabe? Isso, sabe? Isso ela, não, não, tá maluco. Tudo bem, a gente vai ter uma filha, então fica você aí que eu vou trabalhar. Falei: "Tá, então acho que é melhor a gente todo mundo ir trabalhar junto, traz a criança, vambora e leva a babá." A gente fez uma turnê na Europa, 20 e poucos dias, 16 países e pra lá e pra cá. Bebel falando: "Ah, mas eu gostei tanto da Paris, eu queria ficar na Paris." A gente ficou 24 horas na Paris dela.
Ela: "Paris, eu quero ficar na Paris." Foi, encontrou amigos, sabe, amigos que têm filhos, moram na Europa. E show de noite numa cidade, no dia seguinte, sei lá, 12 horas depois, a gente tá brincando com ela no parquinho em Amsterdã.
E então tem uma escolha também nessa carreira, é um trabalho, né, cara.
Assim, viver bem dá um trabalho danado, sabe. Tem uma opção de coisa que aconteceram, eu acho que com a idade essa chave mudou. Ele falou, cara, eu sei como o que é que faz para viver bem, é só fazer, tá ligado? Então vou fazer isso, vou trabalhar para isso. A gente trabalha todo dia assim. Eu e a Luiza, a gente tem uma parceria muito forte assim, muito, muito. Tive poucas vezes isso na minha vida assim com pessoas, né?
Você acha que a tua carreira afetou os outros casamentos teus nesse sentido?
De certeza, não só casamento, minha paternidade, casamento, meu psicológico, tudo, sabe?
E agora está no momento de conciliação.
As pessoas não têm noção, mas é meio louco, cara, se você sai um lugar que você é apagado, para um ano, 3, 4 meses depois, tá todo mundo querendo saber, perguntando sobre tudo, sabe?
Não pode sair na rua sem levar uma foto na cara.
De repente todas as meninas querem te dar, sabe?
Tem uns episódios que você nunca teve acesso.
MC fala uma coisa muito legal, que ele fala que você sai de sub-humano para super-humano.
Humano. Você sai de um lugar que são duas distorções, né?
São duas distorções, exatamente. Uma balança que joga para um lado e outra pesa para o outro. E sei lá, eu aproveitei essa vida de rockstar aí, foi divertida. E mas eu, como é essa, acho que o trabalho ele foi meu parceiro assim, sabe? Sabe, quando depois de tantas loucuras assim, quando eu encontrei a música, falei, puta, isso daqui isso aqui vai ser maneiro, isso aqui vai ser legal. E ser ouvido é meio juvenil isso, mas a intenção de mudar o mundo é muito legal, sabe?
Isso eu não quero perder nunca, sabe? Quero que isso— e aí com isso eu tentei ser relevante em todas as minhas obras, sabe? Falar, tem que ter alguma coisa para falar. 2014, 2013, quando eu lancei um disco chamado Nada Pode Me Parar, eu resolvi parar, não fazer mais música. Demorei 5 anos para de novo, que eu tava meio de saco cheio. Eu falei: eu acho que eu não tenho mais nada para falar. Até realmente ter e falar: tá, agora eu vou fazer um disco novo.
Mas manter uma carreira viva assim, ativa e relevante, sabe? Porque, sei lá, a pior coisa era virar um cover de mim mesmo, sabe? Então eu quero sempre me renovar, quero sempre fazer coisa nova, quero sempre buscar coisas novas. E eu acho que isso afetou para bom e para ruim, tá ligado, minha vida toda.
Isso você tem que, você tem que se renovar na vida, né? Assim, não é na carreira, não é na música, né? Quer dizer, você se reinventou para caramba, né?
Como homem, não? Acho que dentro desse lugar que a gente tá falando de família, a gente tem que ter muito consciência do nosso eu também, sabe? Porque não ser exageradamente só eu e não ver o filho jogar bola, mas também, sabe, deixar de fazer suas coisas para ver o filho jogar bola, sabe? Acho que tem esse balanço aí, é que assim, cara, e o filho vai ter que aprender a lidar também quando o pai não tiver lá, sabe? Falar: pô, papai não deu para ir, cara, te amo, mas sei lá, vou fazer outra coisa aqui, sabe?
Que é da minha vida também. Eu acho que a gente, eu acho que rola um pouco de um super cuidado, um super nessa geração agora, sabe? Desse super: ah, meu filho não pode isso, meu filho não pode aquilo. Tudo bem, acho que não precisa bater, sabe?
Mas também, sabe, é muito interessante, Marcelo, porque você fala também de você chegar onde você tá, a tua fala é muito ponderada, mas da onde você veio, né? Porque você vem de uma cena de violência doméstica que era de entrar com o conselho tutelar e falar: esse moleque não vai morar mais aqui, né? Mas aquela coisa, o Estado ia falar: a senhora perdeu o poder familiar porque Mas tem batidas que não dá, né?
E aí então, mas esse lugar violento, velho, ele não era só da minha família, sabe? Era o lugar inteiro, inteiro. Tem uma facada aqui na perna que eu tomei quando eu tinha 9 anos, sabe? Uma briga com outros moleques da rua. Então esse lugar era violento inteiro assim, ainda é. As periferias são muito violentas.
Então, mas vamos fazer uma separação que eu acho que é importante assim. A gente tem uma violência de Estado que deixa a periferia totalmente desassistida e as pessoas tendo que se virar meio sobreviver. Mas as violências domésticas também acontecem em qualquer nível social, porque não fica parecendo que então ali tinha essa violência. Tem uma violência transgeracional que começa lá com a sua avó, com o trabalho análogo à escravidão, casamentos, né, que é praticamente um rapto, estupro.
Então você tem essa questão do alcoolismo. Então às vezes essas coisas se juntam, né? A periferia tem dentro das famílias uma violência que reproduz a violência externa. As outras famílias também tem sem violências, né? Que não é porque tem bens que não vai estar garantido de não ter violência.
Mas tem uma coisa muito interessante nesses lugares que é essa comunidade, é meio chata essa coisa, mas da tribo que cuida.
Sim.
Porque eu era muito assistido pelos meus vizinhos, sabe?
Paradoxo, né? Ao mesmo tempo tem essa coisa fraterna.
Eu tinha 12 anos, né? E ficava com a criança de 6, a vizinha do lado ela olhava a gente, sabe?
Isso é maravilhoso.
'Olha, dá uma olhada aí de vez em quando, tal.' Que é um grupo de mulheres, né, Marcelo? São sempre mulheres, muitas mulheres.
Uma rede de mulheres nesses lugares.
Eu acabei de fazer uma série que chama Manual Prático do Novo Samba Tradicional.
Manual Prático do Novo Samba Tradicional.
É, porque eu entrei nessa vibe do novo samba tradicional, tal, e eu resolvi lançar 4 volumes desse manual, e ele tem, são 4 mulheres, Pauleri, Paulette, tia Darcy, Luísa e Carla. Paulette, minha mãe, minha tia Darcy, minha tia, né, irmã do meu pai, que era mais nova assim, era tia legal, sabe. A Luísa, minha companheira, e a Carla, minha irmã. Essas mulheres foram muito, muito importantes assim nesse lugar. E para mim falar para família, mostrar para família, ó, olha essa rapaziada aqui, elas é que seguram essa bronca toda, sabe.
Elas foram Muito interessante olhar nesse, nesse, eu aprendo muito com, de novo, com a Luiza e com as meninas, sabe? Olhar para esse lugar e falar, caraca, essa mulher ela tá carregando tijolo nas costas, legal, trabalhando 3 vezes mais.
Eu falei aquele negócio do fim do abandono do Estado, enfim, mas é para não estigmatizar essas famílias periféricas, né? Que tem uma violência de Estado ali e que muitas vezes reproduz dentro das famílias. Famílias. Quer dizer que toda família ali não tem uma estrutura, que é o que você fala exatamente, né? Essas famílias, essas mulheres fazem redes, elas conseguem se organizar, elas não abandonam seus filhos, elas estão onipresentes. Então é uma situação paradoxal, né?
São assim, na maioria são mães, a não ser quando tem droga, álcool principalmente, né, envolvido. A maioria são mães muito presentes, né, cara? Eu já senti muita coisa sobre a minha família, mas abandono não foi, não Foi um caso assim, porque principalmente pelos esporros, sabe? Todo mundo me dá muito esporro, cara.
Que é uma fama de presença interessante, de investimento, né? Tavam lá com você.
A Luísa fala uma coisa muito interessante, cara. Ela fala assim: a gente tem que reconhecer como as pessoas amam. Umas amam falando eu te amo, outras amam pegando um copo de água para você, sabe? Então você tem que reconhecer esses sinais. E para mim foi muito interessante olhar isso e falar: a minha família basicamente amava tava dando expor, sabe? Falando: olha ela aqui, não pode fazer isso, tá maluco, não sei o que lá.
Que é o tipo de transmissão do afeto nessa família, junto com o samba, com vamos acordar, vamos para praia, junto com essa, tinha uma coisa, com esse erotismo, com essa alegria.
A gente se engana muito quando a gente acha que o carnaval, samba, festa é um ópio, sabe? Porque eu acho que essa festa Acho que as famílias, incluindo a minha, não fazem festa porque a vida é boa, muito pelo contrário. Fazem festa porque a vida é dura, então é uma luta pelo direito de ser feliz, sabe? Então eu via muito isso assim, eu tenho muita lembrança de ver show do George Ben, do James Brown, quando meu pai tinha um blackzão gigante, eu lembro de ver essas coisas com eles, eu lembro de ser um, assim, depois Mas eu sempre fui um menino muito curioso, então pra mim esses pequenos detalhes assim, sabe, essas coisas mais normais da vida assim, sabe, o tio que jogava bola bem, o outro que fazia isso aqui, o outro lá, essas coisas sempre me chamaram muita atenção, esses detalhes assim, eu trago muito comigo esses pequenos momentos que eu tive com meus pais, sabe.
Pra mim isso foi muito importante assim, sabe, principalmente nas festas, sabe, que era muito legal assim. Gente para caramba, agregados. Minha família sempre teve muito agregado.
É lindo você falar do direito de ser feliz, de comemorar, de celebrar, de curtir, né? Porque ele se torna um privilégio, né?
E assim, a gente, essas coisas de trabalhar 6 por 1, trabalhar que nem um maluco, e sabe, eu acho que o brasileiro de uma certa maneira, e da onde eu venho, do subúrbio do Rio de Janeiro, tem essa tradição de, cara, a gente tem que ser feliz, a gente tem que fazer a nossa festa. Tem essa automedicação, né, que é o chupinho depois do trabalho, aquela coisa que às vezes vira um problema, mas acho que na sua grande maioria tem essa luta assim para sobreviver são, né, sem enlouquecer.
E nessa casa que tem o cantinho do conhecimento, que tem as obras de arte, também tem essa folia aí com as crianças? As crianças? Como é que é?
Cara, a gente é uma família de festeiros na casa. Eu não sou mais de festa, tá ligado? Eu saio, eu escolho bem os shows que eu quero ir, não tenho mais 20 anos para acordar meio-dia. Eu tô velho, sabe? Acordo 6 horas da manhã, durmo pouco, acordo 6 horas, fico batendo cabeça o dia inteiro no sofá, assim, no carro, em qualquer lugar. Querendo dormir um pouquinho, mas a gente gosta, né, cara? A gente gosta muito de compartilhar música, sabe?
De compartilhar filme. A gente gosta muito de se reunir para ouvir um disco novo. A gente gosta muito de ver um filme juntos. Pipoquinha lá em casa é todo dia. Todo dia tem pipoca para a gente ver uma coisa. A gente tem nossos rituais que, com essa mudança de família assim, então se renovando assim, sabe? Meus filhos estão ficando adultos, eu tô ficando vovô, né, cara? Então a gente tá meio que se recolocando ali, sabe? Esse ano o Natal em casa foi maravilhoso assim, porque não foi assim, minha mãe morreu e tudo mudou, sabe?
As coisas estão mudando, não foi uma chave virada assim de uma hora para outra assim. Elas estão, a gente tá, todo mundo tá se ajeitando aí vivendo naquele lugar. Meus filhos e meus sobrinhos sentem muita falta da vó, sabe? Nosso grupo de família chama Pedacinhos de Paulette, porque quando meu sobrinho falou que ele tava sentindo muita falta, aí mais velho foi lá, né? Eu fui lá e falei: cara, a gente todo mundo carrega um pouco dela aqui, nós somos pedacinho.
Minha irmã na hora, tipo, pedacinho de Paulette, trocou o nome do grupo. A gente tá se readequando assim, enquanto família ainda. Esse ano a Luísa teve uma sacada genial assim, que comida sempre foi uma coisa muito importante na nossa família, assim. Minha mãe cozinhava bem, é uma coisa que a gente sente falta. E aí a Luísa falou, cara, a gente podia fazer uma rabada no Natal. E aí foi uma festa, sabe? Rabada da Paulette, da vovó Paulette, tudo, sabe?
Foi um momento bem especial assim, todo mundo em volta da rabada, aquela fila de gente se empurrando. Rabada para servir assim.
Gente, eu amo rabada. Não sei por que povo come tão pouco rabada aqui em São Paulo.
Eu gosto bastante, cara. E assim, eu acho que tá, a gente tá aprendendo de novo assim. Foi um grande baque assim, a morte da minha mãe, para família toda assim.
Ela tava com quantos anos?
Ela ia 70 e pouco, ela fazia 80, 9, não era tão, né?
Ela passou mal, né?
Ela passou mal e morreu, cara, de uma hora para outra. Ela teve um lúpus por muitos anos assim, que cuidou com CBD e melhorou assim a condição dela. Mas assim, foi de uma hora para outra assim, e foi assustador assim para todo mundo. Eu e minha irmã, a gente falou: sim, agora ficou na nossa conta, o que que a gente faz, cara? Finge que a gente sabe o que a gente faz.
Faz cara de— e é interessante como a família Ela vai de fato se reorganizando, né? Como demora para refazer, né? Para pegar os pedacinhos. Isso é família, né? É isso.
O tempo todo, um envelhecendo, o outro morrendo, o outro nascendo.
E aí esse retorno para o Catete, não é isso?
É, esse retorno para ali foi bem significativo assim para mim, cara. Foi até para mim, meu trabalho também, sabe? Viver uma vida de bairro. Eu tava morando no Leblon, não sei o que eu tava fazendo lá, mas fui morar vamos morar lá, né? Deve ter sido aquele sonho de pobre, vamos morar no Leblon. Puta, que merda morar no Leblon, vamos voltar pro Catete. Na verdade teve um porquê ali, que meus filhos moravam na Gávea e eu queria estar no caminho deles pra praia, que eles tão indo muito pra praia.
E eu falei, vou alugar um apartamento aqui pra eles passarem aqui, pra ter uma base aqui. E deu certo, deu super certo. Essa volta pra ali foi muito legal porque a Luísa também cresceu ali em Laranjeiras. Então a gente tem o Largo do Machado, aquela esfirra do Largo do Machado, sabe essas coisas tradicionais? A gente cresceu. Esses dias a gente saiu da esfirra e a Luiza tava contando: 'Ah, eu vim aqui com meu pai para Bebel.' E aí, pô, isso, a Bebel, nossa filha, tem o nome da mãe da Luiza, Maria Isabel.
Essa família, cara, é muito legal assim ter esse momento mais velho. Por isso que eu resolvi vir aqui, sabe? Eu tava negando tudo que tava me chamando. Primeiro que a Luiza é muito tua fã, ela falou: 'Cara, você tem que ir lá bater vai ter um papo com ela que vai ser demais. E foi uma sessão falar da minha família, que acho que a gente descobre muito quando a gente fala, né, cara. Então eu tô nesse momento mesmo, sabe, foi o momento certo para vir aqui falar sobre isso, porque a gente tem aprendido muito assim.
Eu espero que meus filhos ouçam isso também, eles aprendam um pouco. Eu ouvi o episódio que você fez com o Gregório, achei muito lindo aquela coisa do diário que os pais deixaram para ele Eu vou deixar esse podcast aqui para ele. Não vai ter diário não, rapaziada, vai ter podcast.
Marcelo, que prazer te ouvir. Que doçura, que intensidade. Tem uma, essa coisa do amor, da violência, da música é uma coisa tão importante para a gente pensar como sobrevivem, como se reinventam as famílias, né, em situações às vezes tão adversas, né. Só votam prós.
Acho que tem uma coisa muito clara assim para mim, cara, nesse tempo todo, que foi: a gente sabe muito bem o que tem que fazer, a gente sabe o que que é bom e o que que é ruim, sabe? É só trabalhar e fazer assim, porque se todo mundo tiver com disposição, sabe, vamos lá, vamos fazer. E eu acho que isso vale não só para família, vale isso, vale para o meu trabalho. Acabei de terminar uma banda de 30 anos, a gente olhou Olha pro outro e fala assim: mano, a gente mandou muito bem, 30 anos, fizemos uma bandaça, um trabalho legal. Acho que do the right thing.
Eu acho que na tua proposta de melhorar o mundo, a gente pode melhorar o nosso mundinho também, né? Esse mundo em volta da gente, talvez.
Eu fui envelhecendo, eu fui percebendo isso, que na verdade é de dentro para fora, realmente, sabe? Melhorar a gente, melhorar quem tá em volta da gente. A gente melhorar o bairro, melhorou a cidade, melhorou o mundo. Esse impacto é importante, assim, é aquela coisa. Por isso que voltar para ali foi importante, assim, sabe? Falar oi com todo mundo na rua. Todo mundo conhece meu filho. Meu filho nasceu ali. Cara, é tua neta?
Claro, tem história, né?
Muito legal vir aqui. Obrigado pelo convite, Marcelo.
Obrigadíssimo. E agora eu te convido a me perguntar alguma Qualquer coisa, seja o que Deus quiser.
Eu acho que eu tenho umas 25 perguntas para te fazer, tá? Você tem quantas filhas? Posso ser algumas? Não pode, né? Mas manda aí, ó. Você tem quantas filhas?
Eu tenho duas jovens mulheres, uma de 28 e outra de 26, e são do mesmo núcleo assim, do mesmo pai, do mesmo pai. Agora elas têm um padrasto que é meu atual marido, e eu tenho uma enteada também com dois netos.
Vou fazer uma pergunta um pouco difícil, tá? Não sei se você faria alguma coisa diferente que você fez enquanto mãe.
Eu respondo essa pergunta querida do Marcelo D2 no bônus Pergunta Vera, que sai toda quinta-feira no feed do Isso Não É Uma Sessão de Análise.
Até lá!
Esse foi o podcast "Isso não é uma sessão de análise", um original da Trovão Mídia. Na semana que vem a gente faz mais uma visita às várias casas que compõem uma família. A direção e a produção executiva desse podcast são da Trovão. A produção, roteiro e montagem de som são da Laila Mohali e a trilha sonora original foi criada pelo Arthur Decouet.
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