[BÔNUS] Ana Flavia Cavalcanti pergunta à Vera: é possível curar a criança que fomos?
Ana Flavia Cavalcanti cresceu assumindo responsabilidades muito cedo. No episódio bônus desta semana, ela pergunta a Vera se é possível curar ou ao menos acolher a criança que fomos um dia. Na resposta, Vera fala sobre as marcas da infância, o desejo de reparar o passado e os limites da ideia de cura.
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- Transformação Pessoal e Cura InteriorMarcas da infância · Reparação do passado · Limites da ideia de cura · Freud · Infantil perene · Desamparo estrutural · Repetição de cenas traumáticas · Transformação de marcas traumáticas
Vera Iaconelli:Oi, eu sou a Velha Conelly e esse é o Pergunta Vera, um episódio bônus do Isso Não É Uma Sessão de Análise, podcast que criei com a Trovão Mídia. Aqui eu respondo a uma pergunta qualquer feita pelo convidado da semana. No último episódio, conversei com a atriz Ana Flávia Cavalcanti. Na última terça saiu o nosso papo completo aqui no feed do podcast. Não deixe de ouvir. Agora vamos à pergunta da Ana.
Ana Flavia Cavalcanti:Queria muito te ouvir refletir, né, porque você faz isso tão bem, sobre como a gente pode curar ou cuidar ou acolher a nossa criança.
Vera Iaconelli:É interessante você perguntar isso porque assim, pro Freud a gente nunca— a gente envelhece, mas o infantil é perene, né? A criança ela é Ela tá sempre lá, né? E ela marca o fato de que a gente é desamparado, né? Mas a gente é desamparado de duas formas. A gente é desamparado quando a gente é criança porque a gente depende dos outros pra cuidar de nós. E aí quando eu penso que você começou a se cuidar com 6 anos, eu acho surreal porque com 6 anos você não sabia botar água no copo, né? Tem uma precocidade aí, né? Mas também a gente é desamparado porque mesmo adulto a gente é desamparado. Não tem muito jeito, né? A gente vai morrer, a gente sabe que vai morrer, a vida tá aí, tudo pode acontecer, né? Então tem um desamparo que é estrutural. Mas eu acho que você tá perguntando um pouco como é que a gente a gente cuida da criança que a gente foi, talvez, né? Como é que a gente cuida dessas marcas, né? Tem marcas que a gente nunca supera totalmente. Elas vão sempre causar em nós um efeito e a questão é o que a gente pode produzir a partir delas, né? Quando você conta da peça de teatro e tudo que virá depois daí, das escritas, dos textos, dos testes que você fez em cima dessa criança, né? Você conta de um tratamento que você tá dando dela também. A criança só fica maltratada quando a gente fica repetindo a cena, né? Então você precisa fazer de novo, sei lá, encontrar amores que te exploram ou que te, entendeu? Que assim, o que seria uma cena equivalente àquela que você viveu, que foi traumática, né? Você vê que você repete, repete, repete porque você não elabora, né? Então a marca traumática ela nos aparece, mas ela pode produzir pura repetição Então aquela mulher que apanhava na infância e apanha do marido e depois muda de marido e apanha de novo, aquela cena que se repete, né? Ou pode virar outra coisa, pode virar uma tese, pode virar uma peça, pode virar uma advogada que defende mulheres, pode virar outra coisa. Então a marca não desaparece, né? Mas ela produz coisas diferentes, né? Você é um exemplo disso. Não quer dizer que não sinta, né? Não chore, não sofra, mas puxa.
Ana Flavia Cavalcanti:Ai, que bonito, Vera, que bom te ouvir.
Vera Iaconelli:Ai, obrigada.
Ana Flavia Cavalcanti:Nossa, mesmo.
Vera Iaconelli:Obrigada.
Ana Flavia Cavalcanti:Você brotou, sabe?
Vera Iaconelli:Bonito é te ouvir, pelo amor de Deus, foi muito lindo.
Ana Flavia Cavalcanti:Eu adorei, amei.
Vera Iaconelli:Obrigada.
Ana Flavia Cavalcanti:Parabéns pelo seu trabalho, viu?
Vera Iaconelli:Parabéns pelo seu trabalho. Obrigada.
Ana Flavia Cavalcanti:Mesmo.